sexta-feira, 27 de março de 2026
O mito de estragar o jogo
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
A crença na camisa 10
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| Foto: Fluminense |
Nos dias atuais em que gols de falta e dribles rareiam é preciso que o torcedor encontre algo em que se amparar. De misérias já chegam essas a que o mundo nos condena para além - ou aquém - das cifras que guardamos nos bolsos ou nos cofres. Não dá pra residir nesse deserto sem crer que ainda há escondido em algum lugar um oásis para matar essa nossa sede de grande lances sobre os gramados, muitos deles já deixando transparecer aquela morbidez que costuma rondar as samambaias de plástico nos consultórios. Nesse reino do futebol desde sempre tão fértil para superstições, parece estar pra nascer mandiga capaz de fazer ressuscitar o encanto que um dia cercou o jogo.
A penitência é tamanha que começo a desconfiar que tudo não passa de ilusão. Que teimamos em alimentar essa esperança só porque o tempo foi editando tudo, livrando do desaparecimento fragmentos que mereciam perdurar. O gol iluminado de Falcão certa tarde no Beira-Rio, os dribles de Garrincha, os lances singulares encenados por Pelé, Zico cobrando uma falta com impiedosa precisão. Peço desculpas aos que, mais vividos do que eu, tenham sido testemunhas oculares de que esse futebol dos sonhos um dia foi possível, que existiu. A esses peço que sejam indulgentes. Talvez isso aqui não passe de lamento de um desiludido.
Pensando bem, é possível que tudo isso seja fruto do tempo que me foi dado viver. Nem aquele em que o futebol se revelava fascinante, nem esse outro de agora no qual a beleza nele não passa de um vestígio. Insisto nessa versão porque não consigo ignorar que o presente muitas vezes se revela mais pesado do que o passado, de quem ousamos guardar só aquilo que nos interessa. E mais pesado também do que o futuro que, sabemos, moldamos a nosso bel prazer, por mais que as evidências sugiram de modo gritante que não tardará o momento em que passaremos a não ter mais direito a um.
Mas quero crer que nada estará totalmente perdido se continuarmos a ter um camisa dez por perto. A gente acredita em cada coisa. É fato, no entanto, que a essa altura do campeonato já não parece justo depositar sobre as costas deles este fardo. No fundo, preciso confessar: o que vai aqui é uma reverência a eles. Que se não irão nos salvar da pasmaceira, poderão nos deixar com a sensação de que nem tudo está perdido, que ainda há uma trincheira com uns pouco gatos pingados tentando debelar abstrato inimigo. Elegi o tema levado pela leitura de uma matéria que apontava quais eram os camisas dez nos quais deveríamos ficar de olho nesta temporada.
Paulo Henrique Ganso estava lá. Acaba de completar 300 jogos pelo Fluminense. O mais clássico dos que temos à disposição. É por causa de caras com a visão de jogo dele que sigo acreditando que se um camisa dez não seria exatamente a salvação poderia funcionar, no mínimo, como um agradável paliativo. Menphis também estava listado. Mas dele me recuso a falar. Nunca tive a ilusão de ser perfeito, ainda que tenha sido acusado por vezes de tentar. Sou do tipo que não engole alguém vestir a camisa dez por contrato. Em outros eu acho que é muita areia pro caminhãozinho. Caso de Gustavo Scarpa, do Atlético Mineiro. E isso nada tem a ver com considerá-lo um mau jogador. É refinado até, mas a dez pra mim exige mais do que refinamento.
Não sei é um jeito de se portar. De conseguir tratar o jogo de maneira muito original. Como um chef que ao fazer um prato trivial o faz notadamente melhor do que todo mundo. Se encaixa no modelo pra mim mais o futebol de Everton Ribeiro do que o do Scarpa. Refinamento que não consigo enxergar em Luciano, do São Paulo, que talvez tenha alcançado a honra pelo conjunto da obra e pela insistência em se irmanar com a torcida tricolor do que propriamente pelo futebol. No meu entendimento nasceu para ser um nove, ainda que falso, se é que me faço entender. Enfim, atualmente só uma coisa além de um camisa dez de fina estirpe me faz crer que o futebol possa ter salvação, os canhotos. Mas dessa crença falamos outra hora.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
Era uma vez o Paulistão
O tema não é novo. Há tempos os torneios estaduais minguaram. E, por mais que possa parecer, a razão de sua teimosa sobrevivência não está na tradição, está nas cifras que sustentam. O que vale, principalmente, para o Campeonato Paulista. De longe o mais abastado entre seus semelhantes. Talvez o tema se faça um tanto sem sentido para os mais novos, que já os conheceram despidos de trajes nobres. A coisa mudou tanto que chego a ter a impressão de que hoje em dia um título estadual
não teria apelo suficiente para livrar verdadeiramente um time grande da sensação de jejum e de toda cobrança que se dá na ausência de triunfos.
Foi-se o tempo em que um Estadual cumpria o papel que cumpriu a edição paulista de 1977 quando o Corinthians ao bater a Ponte Preta levou a fiel torcida até o céu que o jogo de bola sempre promete. Com direito a suspensão das aulas e outras tantas alterações no cotidiano só possíveis quando esse tipo de caneco era cultuado pra valer. Nem seria preciso recuar tanto no tempo para explicitar o que a história fez com eles. As duas finais entre Palmeiras e Corinthians no início dos anos noventa, lembro bem, ainda tinham aura nobre, provocavam uma mobilização considerável. Mas sou obrigado a reconhecer que àquela altura a rivalidade entre os dois, é bem possível, já cumpria sem que se percebesse o papel de turbinar importâncias.

Final 1995 - Foto: Ricardo Correa -Placar
E essa decadência, tão evidente, este ano ganhou outra dimensão. Não bastasse a diminuição das datas reservadas a eles, o ajuste do calendário que adiantou o início do Brasileirão o condenou de vez à sombra. Sou capaz de entender as razões. Não sou um lunático disposto a bradar contra os times mistos, os times poupados, os times de base no lugar do profissional. Nada disso. Apenas acho que isso tudo abriu um precedente e, amparados nele, muitos resolveram jogar contra os estaduais também. A CBF que, quando viu a bola pingando na área com a necessidade de mexer no calendário em ano de Copa, não pensou duas vezes para lhes tomar algumas datas, já que isso viria a servir por tabela para minar e mandar recado a quem tinha se revelado oposição.
Mas, na minha opinião, o golpe que parece ter levado os estaduais às cordas, em especial o outrora chamado Paulistão, é uma mescla que une a inoperância dos dirigentes ao comodismo dos treinadores. Ao menos é essa a impressão que tive ao acompanhar alguns jogos neste início de temporada. Pra mim é visível a falta de interesse de muitos times para jogar essas partidas. E aí é claro que falo de times que têm horizontes que vão além das fronteiras estaduais. Ainda que para alguns essa condição seja discutível. São muitos os momentos em que fica claro que a vitória deixou de ser prioridade. Se pensa nela até, mas sem estar disposto a correr riscos, a agredir o adversário.
E o resultado desse tipo de escolha sabemos todos é um jogo no estilo "tico-tico" no fubá que não tem tamanho. Entenderia totalmente o torcedor que se levantasse da arquibancada, dando às costas ao time, gritando que lhe avisassem quando estivessem a fim de jogar bola, pois aí quem sabe decidisse voltar. Como afirmei acima, entendo muitas questões, mas as propostas, as ideias de jogo que se apresentam, beiram a covardia. Num tempo em que os entendidos afirmam que a ciência nos deixa saber exatamente quantos minutos um atleta pode atuar, a ausência de intensidade não se justifica. Conclui-se que quem foi a campo estava apto ao embate. Ou, os elencos no início da temporada são mesmo um mar de atletas meia bomba. O Flamengo anda reforçando essa tese.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2025
O sucesso é ofensivo
O conceito de craque é algo que sempre vai dar o que falar. Mas muitos do que desfilam por aí com esse peso sobre os ombros o ganharam sem muito esforço, sem merecer mesmo. Foi-se o tempo em que se usava o termo com parcimônia e os laureados davam conta do recado. E quando ele se faz fácil o tempo tem tudo pra transformá-lo mais em castigo do que em benção. Craque é reconhecimento complicado de tratar e dar conta. Mas já que é pra falar de craques escalo aqui um de cujo talento não tenho a menor dúvida: Antônio Carlos Jobim. Homem que para além de maestro, viu antes de muitos o que o homem andava a fazer com o planeta e foi, talvez, um dos grandes interpretes desse nosso país ao mesmo tempo tão lindo e tão surreal.
Dizia Tom Jobim que sucesso no Brasil é ofensa pessoal. E aos que já não aguentam mais ouvir falar de Flamengo sugiro ir se acostumando porque a incompetência dos outros tem tudo para fazer o reinado do time da Gávea longevo. Mas aqui em terras paulistas é o Palmeiras que verdadeiramente corrobora a frase do maestro, com ajuda imensa do grande tempero do jogo que sempre foi o ato de secar. A lógica que alimenta tudo isso é muito óbvia. O que sobrou do trio de ferro pouco amedronta. E o Santos com a pobreza das últimas temporadas e esse misto de clube que ainda não virou SAF - mas já tem dono - pouco anda podendo fazer para ajudar a quebrar essa lógica.
E essa indigência, ou quase, dos grandes rivais só agiganta o sucesso do Palestra. Acho até provocador escrever isso aqui depois do Palmeiras ter sido vice duas vezes, coisa que muitos tentam usar para negar o sucesso do clube alviverde. Logo, quando Flamengo e Palmeiras se colocam frente a frente nos últimos tempos o que se vê por estas bandas é uma imensa torcida para que o triunfo acabe na cidade maravilhosa, o que significa também mandar o incômodo sucesso para bem longe daqui. Afinal, ter de lidar com ele é terrível. Então, é melhor que se dê longe. Essa realidade, essa constatação, talvez sirva também para aliviar um pouco a barra de Abel Ferreira. A quem não se pode negar o título de bem sucedido.
Mas nesse sentido a impressão que tenho é que o português com seu comportamento muitas vezes discutível, seus atos lamentáveis à beira dos gramados, dão certo ar abstrato a humildade que deixa exalar, e fazem do sucesso dele uma, como disse o maestro, ofensa das boas. Por essas e outras tenho claro para mim que Abel, definitivamente, tornou o Palmeiras um time mais antipático para seus oponentes. Só não sei decretar com precisão a dose que o comportamento dele e o sucesso têm nisso. Mas vou avisando aos incomodados que dificilmente a banda tocará de outro jeito na temporada vindoura.
Por falar nisso, vendo o ano que se vai em perspectiva sou levado a crer que devemos levantar aos mãos e agradecer a contribuição dada pelo Cruzeiro, pelo Mirassol, pelo Fluminense com a assinatura de Zubeldía, e mesmo pelo notável esforço feito por Fortaleza e Vitória na reta final do Brasileirão, pois sem isso tudo o principal torneio de futebol do nosso país teria sido infinitamente mais pobre. O que sob certa ótica mostra que é possível sim se fazer honrado mesmo sem direito a desfrutar do sucesso de modo absoluto.
Fazendo aqui uma reflexão sociológica arrisco dizer que com todas as armadilhas que o sucesso esconde o Flamengo tem lidado melhor com ele. Fruto, talvez, de ter optado por um elenco mais maduro. Sem contar que quase sempre foi visto como dono de uma excelência maior do que a de seu principal desafiante. A juventude pode, no entanto, dar ao Palmeiras um horizonte maior sem ter de fazer grandes mudanças no elenco. Mas é fato também, que dois anos sem um título de grande expressão colocaram o time e Abel na fronteira que separa o sucesso da desconfiança. E aí não há alternativa... só o sucesso em estado puro salva. O que certamente soara como ofensa, aos outros.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2025
Uma aposta quase inocente
Aposta já foi coisa inocente. Houve um tempo em que elas, mesmo podendo ter um viés pernicioso, emprestavam certa graça ao cotidiano. E não foi à toa que acabaram infestando o mundo do futebol. Pode-se apostar em tudo. Que vai, ou não vai, chover. Que você, num arroubo de valentia, vai pagar trinta flexões sob o olhar incrédulo de quem topou a parada. Mas o futebol com essa alma de jogo indomável sempre lhe foi terreno fértil. Nunca me esqueço que certa vez um editor de imagens, muito dado a esse tipo de desafio, fez questão de travar duelo com um outro editor, palmeirense, tendo em vista o derby que o final de semana lhes reservava.
Mas o que fez desse episódio algo inesquecível foi a trama que se deu tendo a contenda como ponto de partida. O corintiano era falastrão. Não costumava deixar passar batida a mínima gracinha sugerindo que o time dele não seria capaz de lhe ofertar uma vitória em campo e, por tabela, nas apostas, nas quais nunca pensou duas vezes pra aceitar. Ocorre que certa vez o desafiante, não contente em tirar dele umas cervejas, propôs que o perdedor teria de vestir a camisa do rival. Como o desafiado não era de fugir da raia, deram-se as mãos e esperaram com ansiedade o desenlace que o deus do futebol ia perpetrar.
O que se deu foi que o corintiano perdeu. E encarecidamente pediu que o pagamento da aposta fosse feito de forma reservada. Ocorre que todo mundo queria, claro, saber como a coisa ia se dar. E o mais sacana deles fez questão de se esconder perto do lugar marcado e quando o homem vestiu a camisa do Palmeiras saltou na frente dele e fez o clique. Estava registrado para sempre aquele gesto que não durou mais do que uns poucos segundos. Foi colocar e tirar a camisa. Mas o registro ficou durante anos pregado no quadro de fotografias do departamento. O mais legal dessa história é ter visto que na foto o perdedor tinha no rosto um sorriso bonachão, de quem levou a brincadeira na esportiva, como diziam antigamente.
E olha que o homem é dono de um vozeirão desses que por si só impõe e respeito. E nunca foi um cara de modos suaves, apesar do imenso coração. Essa lembrança me veio depois de eu ter ficado sabendo que o STF decidiu que cartão forçado - a pedido de apostador - não é manipular resultado. E isso quase me fundiu a cuca. Primeiro porque dá uma ideia de como aposta virou coisa séria. Em segundo porque sou capaz de entender que apurar se um cartão foi, ou não foi forçado, é tão difícil quanto decretar que esse ou aquele boleiro deu "migué". E quantos por aí mesmo sem prova viraram sinônimo disso.
Agora, quem é que pode afirmar que um cartão forçado, feito a pedidos, não manipulou resultado se as casas de apostas topam remunerar quem acerta quantas vezes eles serão vistos em uma partida? Digo a vocês que sou capaz de entender que a sentença queira estabelecer que manipular resultado venha a ser alterar diretamente um placar. Mas discordo. E não me peçam para chegar a alguma conclusão que isso aqui é só um artigo e não um tribunal. De minha parte estou convencido de que isso não vai ficar assim. E digo a razão. Pode-se até dizer que não houve manipulação do resultado, mas manipulação houve, nem que tenha sido a da realidade que cercava o jogo. E vos digo mais. O futebol pode até deixar uma questão dessas barato, mas as casas de apostas, duvido. É grana que está em jogo. Quer apostar?
quinta-feira, 13 de novembro de 2025
Era uma vez o futebol arte
Tenho dito não é de hoje que as transmissões têm feito pouco caso da beleza. Um pecado capital. Deveriam por natureza jogar a favor dela. Mas os tempos mudam. Nem lembro a última vez que ouvi alguém falar do futebol como uma arte. O que em outros tempos se não abundava era notadamente menos raro. São muitos os fatores que levaram à essa mudança de olhar. Mas ouso dizer que a obsessão atual pela arbitragem é um dos principais e se iniciou antes da implementação do árbitro de vídeo, mas foi levada às últimas consequências depois que isso se deu. Um dia, quero crer, evoluiremos. E corremos o risco de olhar para trás e ver de maneira escancarada a sandice que alimentávamos.
Digo isso porque diante de toda a dúvida que já alimentei tentando chegar a alguma conclusão sobre um sem fim de lances que as transmissões trataram de averiguar, sou levado a crer que mais do que opinião temos um olhar que é só nosso. Os filósofos que me ajudem com essa teoria. Ou cada um enxerga de um jeito ou não passamos de um bando de teimosos. Hoje um ponta pé qualquer, um tapinha que jamais iria doer, são resgatados no segundo seguinte e passam a ser analisados com um fervor absurdo. Ao mesmo tempo, um lance de efeito, um lençol bem dado, um chapéu, uma caneta, não recebem o mesmo tratamento. Prova da nossa indigência ao tratar do jogo.
Pudera. É tanta coisa pra mostrar. A tela que precisa se acomodar pra exibir a publicidade. O treinador que dá chilique à beira do gramado. O lance de potencial polêmico. E aí quase não sobra espaço para o drible, para uma matada de bola dessas que sempre será sinônimo de excelência. Sei que pode soar de um romantismo exagerado, algo de que sou constantemente acusado por companheiros de ofício. Mas precisamos reeducar nosso olhar. Não só porque seria uma maneira de acalmar essa veia estufada pela discórdia, mas também uma espécie de resgate da face mais sedutora do jogo. Sobre o romantismo, digo a vocês que secretamente até me alegro porque a essa altura ele chega a ser uma forma de desobediência, de rebeldia.
Além do mais, só quem nunca se viu em comunhão com alguma minoria é que não sabe da nobreza que elas podem guardar. Até me espantei vendo um jogo do Atlético Mineiro dia desses, pois em dado momento um jogador do Galo deu um drible bonito no marcador e o lance foi mostrado umas três vezes. E merecia. Usando os dois pés, o atleticano puxou a bola de um pro outro e a colocou entre as pernas de quem tentava barrá-lo, para em seguida se desvencilhar dos puxões, das tentativas sempre desesperadas que esse tipo de lance provoca. Sim, porque nunca bastou dar o drible, ou o chapéu, sempre foi preciso no instante seguinte se salvar da apelação que certamente vem. Esses lances são um tipo de castigo que uma vez sofrido tem na falta sua última possibilidade de vingança.
Digo isso ciente de que para muitos a coisa sempre foi assim. Mas um romântico incorrigível como eu quer acreditar que houve um tempo em que ser driblado não era exatamente uma questão de vida ou morte. E grandioso mesmo era devolver na mesma moeda. Mas não tô aqui pra semear poesia nesse árido chão. Gostaria apenas que essa minha reflexão fosse vista como uma proposta pragmática, pois é disso que se trata, e não como um devaneio de alguém que não entende o que virou o futebol. Já que é disso que me acusam, ainda que veladamente, quando você dá a entender que ainda alimenta alguma esperança de que o futebol venha a ser algo mais plástico do que tem sido. Até porque se entregar sem reflexão a essa mania instituída de autopsiar lances de natureza polêmica me parece o avesso da arte do jogo.
quinta-feira, 30 de outubro de 2025
Personagens
Não sei se seus olhos já vieram desaguar aqui ou se, distraidamente, passaram pelo título. Se passaram, ele deve ter lhe semeado na cuca, como diziam os da minha geração, uma certa curiosidade. Diante de um título desse a gente quer saber logo de quem se trata. Pois bem. O primeiro personagem é Zinedine Zidane. Isso porque outro dia dei eu de cara com um título que me abduziu. Mas, devo confessar, menos pelo viés apelativo que tinha e mais pelo fato de há tempos não saber de nada a respeito de um jogador tão magnífico. A promessa que o tal título embutia era a de me esclarecer quais são os jogadores que ele mais admira na atualidade. E ser elogiado como boleiro pelo francês argelino deveria valer por um troféu. E se vocês andaram dando de cara com a mesma notícia que eu, fiquem tranquilos, vou fazer o favor de lhes matar essa curiosidade também. Mas já adianto que não tinha nenhum brasileiro na parada.
Eram dois portugueses e um espanhol. Vitinha e João Neves. E o garoto Lamine Yamal, de quem, aliás, já ouvi Roberto Rivellino tecer comentários para lá de empolgados também. Interessante que Zidane tenha citado apenas jovens, pois o mais velho do trio no caso é o primeiro, Vitinha, que tem vinte e cinco. Yamal tem dezoito. E João Neves está entre os dois nesse quesito. Poucos dos que vi jogar mostraram tamanha elegância como Zidane. Ou melhor, em matéria de elegância ninguém o superou até hoje. E aquele gol marcado por ele contra o Bayer Leverkusen na final da Champions de 2002, que ficou conhecido como o gol de uma perna só, habita meu imaginário de modo singular. E o nome que ganhou deve servir de aviso, porque como se costuma dizer ele daria baile em muitos por aí mesmo jogando com uma perna só.
Quando tenho arroubos, e flerto com o politicamente incorreto, afirmo que se trata de um jogador tão raro no futebol que mesmo quando optou por dar uma cabeçada no adversário o fez com estilo. Ao pensar que está afastado desde 2001 imagino que deva ter se cansado do mundo da bola, soa incongruente que isso tenha partido do futebol. Mas como Didier Deschamps já avisou que deixará o comando da Seleção Francesa depois da Copa, Zidane pinta na área como o mais cotado. Melhor para o futebol.
E por falar em quem sabe tratar a bola, quero colocar nesse hall aqui, Jorge Carrascal, do Flamengo. Que o jogo de ida com o Racing colocou em evidência. Num elenco como o do rubro-negro ser ou não ser titular será sempre uma questão, além de condição que pode mudar muito rapidamente. Mas que o colombiano anda numa frequência que dá gosto de ver isso anda. Tem mostrado um tino pro jogo vertical como poucos, e a força física que o jogo hoje exige de quem quer jogar em alto nivel. Emerge como outro desses jogadores com trajetória mais modesta do que o futebol deles sugere. Na carreira de pouco mais de uma década, entre o surgimento no Millionarios e a chegada no Flamengo, defendeu um time pequeno na Espanha, gastou dois anos na Ucrânia, antes de desaguar no River, para em seguida consumir outros três jogando na Rússia.
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| Pedro Souza/ Atlético MG |
E o meu outro personagem é o paraibano Givanildo Vieira de Souza, a quem o futebol emprestou pra sempre um ar de herói, ao batizá-lo como Hulk. E não é que depois de ter feito tudo o que andou fazendo com a camisa do Atlético Mineiro fez nascer manchetes avisando que ficou mais de ano sem marcar um gol de bola rolando no Brasileirão? Ainda que nesse período tenha feito uns de falta, outros de pênalti e até marcado gol olímpico. Sem contar que deixou bem claro, inclusive na noite da última terça, que segue sendo capaz de ajudar o time de outras maneiras e em outros torneios. A cobrança é mesmo brava, sempre. Mas não fosse o jejum de gols queria ver o Sampaoli, esse baixinho que faz questão de se dar cara de invocado, ter peito pra colocar o cara no banco. Encarar heróis desde sempre foi coisa que só se pode fazer tirando proveito de fragilidades. E que nunca nos falte bons personagens, porque bom futebol nos falta... e não é de hoje.
quinta-feira, 23 de outubro de 2025
A revolução do futebol brasileiro
Se alguma revolução houve no futebol brasileiro nos últimos tempos foi a que destituiu do panteão um grande número de treinadores que durante um bom tempo reinaram por aqui. Não cabe citar esse ou aquele, mas tenho certeza de que qualquer um que tenha acompanhado a novela que o jogo de bola sempre tece terá em mente bons exemplos para ilustrar esse raciocínio que proponho. Não dá pra negar o papel da crônica esportiva nisso. Em dado momento o atraso dos ditos professores era apontado dia após dia como a principal causa da modorra vista nos gramados. Seria leviano dizer que padecíamos apenas desse mal. Longe disso. Para além do que eram capazes àquela altura de construir taticamente havia em paralelo um sem fim de outras questões jogando contra. O retrato que ficou desse tempo é um ballet grotesco, com treinadores pulando de um clube para o outro, e muita retranca, que ao mesmo tempo tinha a intenção de proteger placares e empregos.
A lição que se pode tirar disso é que não era à toa que a crônica mirava os professores. O efeito colateral, num primeiro momento, foi abrir as portas para uma nova geração. Era por ela que se clamava. Novos nomes tiveram oportunidades. Viram cair sobre si a perigosa fórmula do sucesso rápido. Outros, que iam bem, acabaram vitimados por passos maiores do que as pernas. Mas foi um período abreviado porque não tardou e o futebol brasileiro passou a viver uma espécie de abertura, fazendo valer sua condição financeira sobre os outros países do continente. E aí a coisa não teve mais freio. Os primeiros estrangeiros já tinham chegado, pinçados um pouco por esse descontentamento nacional e um pouco também pelas conquistas modestas da nova geração que notadamente precisava de tempo para amadurecer. E foi graças a um sucesso imediato acompanhado de grandes conquistas que os treinadores estrangeiros, feita a revolução, começaram a reinar.
Os antigos poderão sempre dizer que não tiveram as mesmas armas, já que os que chegaram depois encontraram um futebol brasileiro em que as cifras cresciam com vigor, possibilitando uma melhora sensível na qualidade técnica dos elencos. Nada muito significativo. E como o futebol não está apartado do mundo, muito menos de suas mazelas, riqueza nele é coisa pra poucos também. Aliás, os dois são tão parecidos que o futebol anda cheio de nobres perdendo a distinção. E notem que os times mais endinheirado do país, Palmeiras e Flamengo, são comandados por dois treinadores que espelham muito bem essa pós-revolução. Abel Ferreira, tem quarenta e seis anos, e por mais que goste sempre de deixar nas entrelinhas, mas não só nelas, que já decifrou o futebol brasileiro, não deve fazer nem ideia do que aqui se passou antes que chegasse com sua caravela. E nem poderia, não tem culpa alguma. Vive a mais singular realidade já vivida por um treinador nestas terras, pois amparado por uma diretoria poderosa, num clube com finanças invejáveis, assim é visto pelo menos, e cercado por conquistas de respeito que desde sempre se fizeram o melhor dos escudos para exercer o ofício. Em outros tempos teria ar de eterno.
O outro personagem que ilustra esse momento é Filipe Luís. Mais jovem do que Abel, e que o destino - não sem merecimento -catapultou ao comando do Flamengo. Tem sido comum ouvir comentários prevendo que irá desenhar uma gloriosa carreira. Algo de que não há razão para duvidar, por sua formação. Difícil é discordar que antes dessa, vamos dizer, mudança de costumes, algum dirigente iria arriscar o pescoço entregando um time milionário nas mãos de um treinador de quarenta anos e não laureado. Não discordo do que dizem a respeito dele, mas muitas vezes, entre amigos, me sinto obrigado a ponderar que não deixa de ser um piloto com poucas horas de voo pilotando um boeing. E algumas páginas desenhadas pelo rubro-negro nesta temporada talvez possam ser explicadas por esse frescor. E é do jogo. Alvissareiro mesmo é notar que, seja como for, o futebol brasileiro em alguma coisa mudou.
quinta-feira, 16 de outubro de 2025
Os dribles que o futebol impõe
O futebol esbanja dribles. Nos impõe vários. Alguns muito impiedosos, porque insistentes. Falo do que sofremos toda vez que tentamos decifrá-lo. E não perdemos a mania. Essa constatação faz com que eu me sinta como um zagueiro desses estabanados que no afã de colocar um ponto final em uma investida adversária acaba sendo driblado duas vezes e, pra fechar, ainda erra o carrinho que tenta desferir já em notável desespero. Mas há dribles desse tipo que são suaves, como aquele que silenciosamente fustiga alguém que tenha decretado por aí que jogar em alto nível aos quarenta anos, nesse futebol supra físico que se desenhou, beira o impossível. Eis que olho pra TV e dou de cara com um jogo das Eliminatórias Europeias. De um lado a República Tcheca, do outro a Croácia. E lá está o quarentão Luka Modric, envergando a camisa dez com a elegância de sempre, sugerindo que é melhor a gente não tentar prever até onde se pode ir.
Quer mais um exemplo? Bom, outro veredito que já ouvi ser proferido por aí é aquele que decreta que essa inundação de estrangeiros vista no futebol brasileiro atualmente cobraria um preço terrível: o de limitar severamente as oportunidades dadas aos talentos das categorias de base. É conclusão difícil de refutar assim de primeira. Já andei assinando a tal. Mas um olhar atento às ultimas rodadas do Brasileirão inevitavelmente nos coloca uma pulga atrás da orelha. É só lembrar das alegrias que o garoto Gui Negão andou dando à torcida corintiana. E, em menor grau, o volante André, autor de um dos gols da vitória do timão sobre o Mirassol. Mas não pensem que é assim rasa a realidade que se contrapõe ao que pode parecer óbvio.
Lembremos do jogo maluco que fez o Vasco com o Vitória. Um quatro a três cheio de reviravoltas em que triunfou o time de São Januário graças a dois gols cheios de juventude. Um do camisa setenta e sete Rayan, de dezenove anos. E o outro, mais nobre ainda por ter sido o quarto do time da casa, o que garantiu de verdade os três pontos, marcado aos cinquenta e dois do segundo tempo por GB, de vinte anos. Mesmo nos poderosos Palmeiras e Flamengo que tanto gastaram para moldar seus elencos atuais a garotada dá as caras. Allan, no alviverde, que tem vinte e um anos, mas está no clube desde o sub-15. Wallace Yan, no Flamengo. Ainda que no segundo caso, do alto de seus vinte anos, o rubro-negro tenha acabado expulso no jogo contra o Bahia e forçado a torcida do Mengo a temer um tanto sua juventude. Ainda que os lances que redundaram na expulsão - e seu histórico em campo - sejam capazes de convencer qualquer um que se trata mais de uma deficiência comportamental do que técnica.
Há outros exemplos que poderiam ser pinçados, mas por falar no Flamengo não dá pra deixar passar, já que o assunto é esse, a oportunidade que teve Kauê Furquim. O garoto de apenas de dezesseis anos - que ao deixar o Corinthians e seguir para o time baiano meses atrás colocou os dois times em pé de guerra - foi colocado em campo por Rogério Ceni quando o jogo contra o rubro-negro estava perto do fim. Não é a toda hora que damos de cara com alguém dessa idade num jogo desse tamanho. Ainda mais quando a briga por um lugar ao sol no futebol brasileiro nunca pareceu tão acirrada. O próprio Ceni foi muito bem ao não esconder a realidade e dizer que se tivesse a disposição o argentino Sanabria, ou o ponta EricK Pulga, Furquim não teria saído do banco de reservas. Enfim, talvez essa nova realidade do futebol brasileiro não se faça adversária do sonho que desde sempre foi de tantos meninos. Tem sido bom ver o argentino palmeirense Flaco Lopez, ou o colombiano Kevin Serna, do Fluminense, jogando o fino. Mas nada como poder desfrutar desse tipo de talento que, além de tudo, se fez para nossa tristeza produto de exportação precoce. E que o futebol nos reserve outros dribles.
quinta-feira, 9 de outubro de 2025
Nada será como antes
O ano que vem promete sensações novas para quem gosta de futebol. Mas não se empolgue não. Tô falando da realidade distinta a que as mudanças orquestradas pela FIFA e pela CBF irão condenar os amantes do jogo de bola, e não prevendo triunfos. Muito menos do escrete nacional, como pode concluir dessa breve abertura um leitor mais empolgado. Vejam, depois de todas as alterações que serão feitas no calendário nacional na temporada vindoura, os torcedores que gostam de gastar os janeiros à beira-mar talvez precisem deixar as areias para ver que enredo terá o debute do time do coração no principal campeonato do país. Uma vez que isso passará a se dar antes mesmo do carnaval, e não mais quando as águas de março já tiverem fechado o verão, como andamos acostumados. Donde concluo que os cartolas andam ousados. Não deveriam encarar tão de peito aberto a concorrência, porque se pensarmos bem são poucos os times por aí com mais apelo do que uma boa praia. Vai saber. Não duvido que o sol brilhando e as areias escaldantes, que também tantas emoções provocam, venham a dar uma leve derretida na audiência das primeiras rodadas. E nem vou falar da petulância diretiva de marcar compromissos para essa época, quando estamos todos cansados de saber que neste rincão dos trópicos o ano só começa depois da folia de Momo.
Outro efeito das alterações poderá ser uma certa sensação de que as cervejas da quarta à noite já tiveram acompanhamento melhor, já que nos primeiros meses do ano que vem passarão a se destinar aos jogos dos torneios estaduais. Nunca foi má tática, e passará a ser mais indicada ainda, dar uma turbinada nos petiscos. Quem sabe jogando com uma linha de três atrás, ou ao lado, dos copos. E que fique registrado que sou e fui, desde sempre, totalmente contra o fim dos Estaduais. Os considero parte importante do patrimônio futebolístico que construímos e que deveria ao longo do tempo ter sido mais bem tratado. Tenho a essa altura sérias dúvidas se um tratamento digno será possível diante das míseras onze datas a que a nova ordem lhes condenou.
Mas quando falo em novas sensações falo também da Copa do Mundo, claro. Copa que parece ter transformado, Gianni Infantino, o presidente da FIFA, em amigo de infância de Donald Trump, que morro de curiosidade de saber se seria capaz de nos explicar a regra do impedimento. Será, sem dúvida, o momento mais singular da vida dos que há tempos se entregam a esse tipo de prazer, ou de paixão, como preferem os mais ardentes. A coisa dessa vez irá muito além de tentar adivinhar que papel a Seleção Brasileira interpretará. Esqueça tudo o que você já viu em matéria de mundiais. Serão três países. Infinitas quarenta e oito seleções. Sugerindo um nível técnico como realmente nunca se viu. Podem escrever o que estou dizendo: não demora e a Micronésia vai garantir um lugar na Copa. Não quero parecer aqui um descrente nos avanços. Só os ignorantes não aceitam a obviedade de que tudo está em constante transformação. Está aí o Santos que não me deixa mentir, o Santa Cruz.
E é sempre bom saber que pelo menos no que diz respeito à Copa do Mundo não estaremos solitários. Os italianos verão, talvez novamente de longe, que já não se faz mais Copa como antigamente. Os alemães, os argentinos. Só não arrisco dizer que até no Uzbequistão isso se dará já que os uzbeques serão debutantes nessa. Importa é não ser refratário ao novo. Sinto-me tão vanguardista escrevendo isso. Que venha a Copa do Brasil com final em jogo único, a Série D com sua quase centena de elegidos. Como chegaremos lá não sabemos. Agora como chegaremos na Copa o jogo de amanhã contra a Coréia do Sul pode nos dar mais algumas pistas. Mas temo certo desapontamento já que sob a batuta do prestigiado Ancelotti, e ainda que nada venha a ser como antes, pouca coisa mudou.
quinta-feira, 28 de agosto de 2025
Bons personagens
Pode-se falar o que quiser do futebol, menos que deixou de nos oferecer bons personagens. Ainda que se tenha a impressão de que vão rareando. E isso nada tem a ver com divisões. É possível encontrá-los por toda parte, eu aqui mesmo já citei alguns. Tenho certa predileção por isso. É receita certa pra revestir o jogo de certa humanidade. Juan Pablo Vojvoda, que acaba de desembarcar na Vila Belmiro, pode ser apontado como um deles. Chegou ao Brasil sem causar alarde e lembro bem que quando o trabalho dele no Fortaleza foi lhe dando notoriedade descobriram que entre um compromisso e outro tinha ido ver de perto uma pelada de society que rolava nos arredores. Não seria nada demais, se tão raro não fosse encontrar entre nós um técnico de time grande se ocupando do tempo dessa forma. Talvez existisse nisso uma investigação sociológica. Afinal, estava conhecendo um outro país. Ou talvez fosse simplesmente uma forma de matar o tempo já que andava apartado dos amigos, da família.
Fato é que para além dos hábitos que gosta de cultivar esse ex-zagueiro desafiou como poucos a maneira de se comportar que tem sido padrão no futebol brasileiro. Ao terminar a segunda temporada no Brasil com o trabalho à frente do Fortaleza reconhecido, virou alvo de grandes clubes. E ainda assim resistiu. Negou aventuras que poderiam ter se revelado lucrativas, como costumam ser as de muitos treinadores que mal se despedem de um clube e já assinam com outro, mesmo quando debaixo de fortes evidencias de que o convite tem um grande ar de roubada. E assim Vojvoda desenhou uma das mais longevas trajetórias de um treinador por estas bandas nos últimos anos. A recompensa talvez seja poder ter dito sim ao Santos e ser visto de forma mais respeitosa, como alguém realmente capaz de tirar o time do lugar incômodo em que se encontra. Uma respeitabilidade que nem Pedro Caixinha, nem Cleber Xavier estiveram perto de ter. A sedução pode ter se dado por toda a história que o clube construiu. E é bem provável que neste momento seja só o que o clube santista tem pra oferecer.
Tenho andado de olho também em Leonardo Jardim, que chegou ao Brasil com boa fama e que nos últimos tempos tem dado declarações que me chamaram a atenção. Uma delas a de que não pretende ficar muito tempo por aqui dadas algumas peculiaridades do nosso futebol como os grande deslocamentos. Coisa que Vojvoda também deve ter percebido, pois ao chegar aqui só tinha trabalhado em países de extensões geográficas mais modestas, no entanto, nunca citou tal questão, que é interessante. Em geral não temos muita noção de nossa dimensão continental.
Leonardo Jardim, também falou com certa elegância sobre uma das coisas que desabonam nossa arbitragem. A falta de critérios. Mas o disse com elegância. Afirmou ver muitos jogos do Brasileiro e notar que os mesmos árbitros em outros jogos, e diante de outros times, tomam decisões de maneira diferente. Realmente intrigante. E também sugeriu dias atrás - depois de não concordar com uma decisão do homem que apitava o jogo do time dele - que os técnicos deveriam ter direito ao desafio técnico, como se dá no vôlei, quando o treinador pede para que se consulte o vídeo quando tem dúvida a respeito de uma marcação. Fosse nosso VAR ágil... quem sabe. Mas, enfim, vejamos quanto há de durar a paciência de Leonardo Jardim e como se sairá Vojvoda.
sexta-feira, 25 de abril de 2025
O Santos atual
Analisar o momento do Santos FC provoca certa melancolia. Dirão os otimistas que ela era maior na temporada passada quando o time foi obrigado a disputar a segunda divisão. Não é um parecer sem sentido. Mas ao relembrar agora a história recente vivida pelo clube tenho a impressão de que a trajetória desenhada ali se deu mais ou menos dentro do esperado. O time alternou bons e maus momentos. Havia no ar não o medo de um novo rebaixamento, mas o temor de passar mais uma temporada alijado da elite. O fim, adornado por um acesso antecipado e pelo título, por certo, soou mais glamouroso do que o percurso.
Um triunfo que, para além de apaziguar o ânimo dos torcedores, foi extremamente salutar porque evitou uma debacle financeira ainda maior. A essa altura pouca gente deve lembrar que a volta à primeira divisão evitou que o Santos tivesse de devolver um adiantamento de sessenta e dois milhões de reais recebido por ter assinado um contrato de repasse de direitos de transmissão. Contrato que passaria a vigorar este ano e que irá até 2029. Também não me espanta que a visão geral se prenda a questões do presente. Mas, sou levado a crer que pode ser um engano pensar que tudo isso são águas passadas. A história é uma construção sem recessos. O Santos vive hoje a sequência de um período que é o menos glorioso de toda a sua existência.
A chegada de Neymar, grande ídolo que é, contribuiu imensamente para mascarar essa realidade, para mascarar os desafios dessa continuidade histórica. Voltar jamais será como ter estado sempre. E para além da contribuição o camisa dez possa a vir a dar em campo, e sobre a qual os últimos acontecimentos vão derramando certo pessimismo, há o fato de que nos últimos anos o futebol brasileiro viveu um avanço vertiginoso no que diz respeito a questões econômicas. Entre o Santos e a verdadeira elite do futebol nacional neste momento existe um abismo que jamais existiu. Não consigo enxergar de outro modo, será necessário muito trabalho para diminuí-lo. E reside aí uma outra questão.
Neymar e seu estafe, com seus parceiros endinheirados, desde sempre são vistos como capazes de salvar o Santos desse atraso. De fazer o clube dar um salto. Ocorre que o primeiro efeito colateral disso tudo tem sido, também desde o primeiro capítulo, ofuscar aqueles que foram eleitos para cuidar do clube. Uma equação pra lá de delicada, pois se há uma coisa que o atual presidente nunca fez questão de esconder foi a dificuldade que vinha tendo para lidar com a situação frágil em que encontrou o clube. E, diante de tudo isso, não é descabido olhar com certo ar de espanto para o elenco santista e sua mais de dezena de recém contratados.
A montagem do time se não torna claro tudo o que anda acontecendo com o clube, no mínimo, é um elo entre todos os pontos e provoca boas questões. Está a altura das finanças de um clube que nunca escondeu suas fragilidades financeiras? Foi montado pensando em dar amparo a Neymar? É fruto de transações que o clube sozinho não conseguiria ter feito? A complexidade dos dias que o Santos anda vivendo sugere a urgência de se descobrir se há mesmo entre todas as forças que agem sobre o clube neste momento um interesse comum. De outro modo, mesmo que se tire do chapéu um técnico ideal, será difícil voltar a ver o Santos brilhar em campo e ser dono do próprio nariz como ele foi um dia.
quinta-feira, 7 de novembro de 2024
Um treinador raro
O time do Botafogo vem jogando muito. E falar de jogadores como Luiz Henrique e Igor Jesus seria chover no molhado. Ainda que tenha a impressão de que soando tão maduros em campo a juventude dos dois passe despercebida. Os dois têm vinte três anos. São garotos. Júnior Santos, que está voltando, trem trinta. Mas eu gostaria de falar é sobre o treinador do time da estrela solitária. Sob a ótica do tempo e do futebol Artur Jorge desembarcou outro dia por aqui. Mais precisamente em abril. Houve um momento em que até andou falado, mas em linhas gerais não tem provocado grandes análises sobre sua figura. Não virou estrela. O que não é comum. Os técnicos, faz tempo, estão sempre em evidência. E isso se deve, na minha opinião a um comportamento moderado.
Acho louvável essa discrição. Pode ser, inclusive, o que explica parte do sucesso dele. Estar na liderança de um campeonato como o Brasileiro e na final da Libertadores é pra poucos e tão representativo que faz ter um quê de chover no molhado também a frase inicial dessa minha reflexão. Mas vou lhes dizer porque a mantive: porque estou convencido disso, mas não de que isso faça do Botafogo favorito a ficar com o mais desejado título do futebol do nosso continente. Vejo no Atlético Mineiro, como bem definiu um companheiro de profissão, um time cascudo. E essa é uma qualidade que não se deve desprezar em decisões do tipo que irão enfrentar.
Mas voltando a Artur Jorge, ele chegou aqui, como outro portugueses, sem que seu currículo ostentasse conquistas dessas que costumam render por muito tempo, mesmo que seu dono nunca volte a viver glórias parecidas. Artur foi um beque central desses que se ligam a um clube de maneira singular. Dá pra dizer que passou toda a carreira de jogador defendendo o Braga. E sempre me intrigou esse caminho desenhado pelos portugueses no futebol brasileiro nos últimos anos. Não consigo crer que não houve algo de supersticioso nas contratações que se seguiram à de Jorge Jesus e sua triunfante passagem pela terra onde cantam os sabiás. Cada vez mais cercados de prédios, infelizmente. Tanto é assim que, vira e mexe, alguém diz que Jesus irá voltar.
Pelo que lembro agora, Artur Jorge só pisou na bola quando depois de classificar o Botafogo para as semifinais da Libertadores ralhou com um repórter que havia questionado um de seus comandados sobre o fato de o time ter deixado escapar o título brasileiro na temporada passada. Foi tão mal que impediu o jogador de responder a questão. E se lembro o episódio é porque mesmo com toda a minha admiração pela figura e trabalho imaginava que as próximas semanas poderiam colocar a polidez de Artur Jorge à prova, não na Libertadores, que será decidida em jogo único e na qual um insucesso fará parte do jogo, mas no Brasileirão a história poderia ser outra. Um revés desses com viés surreal despertaria questionamentos indigestos. Que seriam injustos, mas também inevitáveis.
Agora, depois da derrocada do Palmeiras na arena corintiana e a vitória incontestável do Bota no clássico contra o Vasco tudo se abrandou demais. Ainda que o caminho lhe reserve um confronto com o Palmeiras seu principal perseguidor, quatro dias antes da decisão continental. De qualquer forma, o Botafogo pode se tornar um vencedor desses raro e Artur Jorge tem tudo pra fazer ele chegar lá com uma discrição também rara entre os treinadores. Não que o clube esteja sem alguém que semeie declarações contestáveis na crônica esportiva. O manda-chuva, John textor, tem se encarregado desse papel com afinco.
sexta-feira, 27 de setembro de 2024
Quando a grana vira ameaça
Semana passada encerrei minha "pensata" neste espaço dizendo que não faria juízo daqueles que acompanham futebol e torcem o nariz quando alguém coloca no meio da conversa sobre o jogo de bola questões que dão a impressão de que cairiam melhor no caderno de economia. Mas é fato que a grana que anda circulando por aqui de tão vultosa rende cada vez mais manchetes de ares contábeis. Não que a abordagem não se justifique, pelo contrário. Talvez fosse o caso, inclusive, de usar os atributos do jornalismo investigativo - tão em desuso por aqui - para elucidar de onde brotam exatamente tão abundantes cifras. Pra quem passou ao largo de todas as manchetes desse tipo trago alguns dados.
No início deste ano os vinte times da Série A, pela primeira vez desde a criação da janela de transferências em 2022, ultrapassaram a barreira do bilhão de reais gasto. Barreira que voltou a ser batida no início deste mês com o encerramento da segunda janela. Esses números parrudos, segundo relatório da FIFA, fizeram o Brasil figurar entre os dez países que mais gastaram no planeta. Não sei porque, mas resisto a dizer investiram. Espelhado nisso está um crescimento vertiginoso, mesmo se compararmos a primeira janela do ano passado com a deste, quando o salto foi de setecentos milhões para um bilhão e cem milhões. No caso da segunda, notem bem, o valor saltou de trezentos e vinte e nove milhões para um bilhão e vinte milhões. Num olhar distraído, tudo seria devidamente justificado pelos investimentos que vieram com as SAFs. Ainda que entre os quatro clubes que mais contribuíram para esta soma apenas dois estejam nessa condição. A saber, Botafogo, Cruzeiro, Flamengo e Palmeiras.
De onde veio boa parte da bufunfa, então, é questão que segue em aberto. Tenho palpites. Mas seria muito bom que a qualidade técnica crescesse na mesma proporção. Nosso futebol anda carente desse brilho. Já houve momento que tendo dado de cara com o triunfo de um time desses tidos como de menor expressão acabei secretamente enaltecendo a conquista também por ser um bom exemplo de que o dinheiro ainda não determinava tudo em matéria de futebol. E sou levado a crer que momentos assim virão a ser cada vez mais raros. Pode-se duvidar de muita coisa nesse mundo, há quem duvide inclusive de que a terra seja redonda, mas duvidar da soberania do dinheiro exige um outro desajuste.
Agora, o que me preocupa é esse risco insano ao qual esse disparate econômico expõe, em especial, os torcedores dos endinheirados. Mas não só a eles e sim todos os que gostam de falar de futebol, de tentar desvendá-lo. Não estando imunes nesse caso também os que fazem disso um ofício, os que desse modo ganham a vida. Porque diante desse abismo entre os clubes a beleza da vitória de um time rico poderá se ver reduzida a obrigação. E mesmo a vitória do pequeno, do modesto, ainda mais rara do que sempre foi correrá o risco de ser interpretada como incompetência de quem se fez favorito, menos pelo futebol que apresenta, e mais por aquilo que gastou, que representa. Sendo mais explícito, imagine ao que isso tudo nos deixou exposto. Algo como termos os argumentos no meio de um calorosa resenha friamente refutados porque, afinal de contas, seu time gastou uma fortuna e tinha a obrigação de vencer.
quinta-feira, 5 de setembro de 2024
Nada será como antes

Foto: Ricardo Duarte/Inter Divulgação
Há coisas que vão aos poucos transformando o futebol brasileiro e que na minha modesta opinião passam ao largo do debate esportivo. Uma delas é essa invasão de treinadores e mais ainda, pelo volume, a de jogadores estrangeiros. Não tenho dúvida de que isso irá mudar radicalmente a cara do futebol brasileiro. Vai nisso eu sei um traço de romantismo porque essa coisa do jeito de jogar remete a um tempo em que ninguém ousava contestar que tínhamos evidentemente um jeito só nosso de fazer a coisa. E sei que é preciso admitir que essa transformação já se dava bem antes dessa liberação no número de estrangeiros que podem ser utilizados por partida. Mas há uma distinção aí, uma ruptura muito visível que as mudanças recentes decretam.
Ao longo das últimas décadas essa mudança vinha se dando em outra instância, na maneira de pensar o jogo. Fomos aceitando teorias e as implementando a nosso modo, mas os executores ainda eram majoritariamente formados nos nossos campos. Importante destacar aqui que não estou dizendo que isso irá piorar o futebol brasileiro. Tudo nos leva a crer que muito pelo contrário. Mesmo porque as alterações permitem que nossos clubes tirem proveito, como nunca, da supremacia econômica de que desfrutam em nosso continente. A questão que me provoca é: no que resultará essa transformação? Passaremos a ter um futebol mais físico, mais no estilo argentino, já que boa parte dos que chegam vêm de lá? Não tenho respostas. Mas negar que isso tudo não terá efeitos colaterais é o que considero difícil de aceitar.
E sou levado a crer que o torcedor em geral nem tenha conseguido acompanhar o ritmo do que anda se passando e venha a ficar surpreso ao ler nestas linhas agora que neste momento os times brasileiros podem ter até nove estrangeiros por partida. Nove. Não se espante. Até dois mil e treze eram permitidos apenas três estrangeiros por partida. No ano seguinte, exatamente uma década atrás, passaram as ser cinco. Essa limitação vigorou até o ano passado quando os clubes da Série A aprovaram por unanimidade o aumento de cinco para sete estrangeiros relacionados por partida. Mas em março deste ano veio nova mudança e de sete passamos aos atuais nove estrangeiros permitidos. E novamente com o mudança aprovada por unanimidade.
Outro detalhe que considero pouco analisado é como as alterações no calendário da Conmebol acabaram por alterar substancialmente o modo como nossos principais clubes encaram o Brasileirão. Como todos sabem desde 2017 os torneios continentais foram esticados e passaram a tomar também o segundo semestre com suas finais sendo disputadas no final da temporada. O resultado disso foi que os altos prêmios e o apelo dos jogos eliminatórios criaram veladamente para o principal torneio do nosso país uma concorrência que ele não tinha. Não da forma que aí está ao menos. Por mais que antes dessas mudanças tenhamos visto campeões da Libertadores acusados de abrir mão do Brasileirão atualmente a história é outra. Naqueles tempos a escolha se resumia , em geral, ao campeão da América que passava logo a pensar em conquistar o mundo. Já nos dias de hoje, diante dos altos prêmios e do caminho mais curto pra alguns, passou a ser uma escolha de muitos. E que o torcedor aceita seduzido pela emoção dos jogos eliminatórios que sempre fizeram as Copas ter tanto apelo.
quinta-feira, 30 de maio de 2024
O futebol é indomável
Às vezes, enquanto o jogo se desenrola me pego tentando achar em campo as tais linhas. E lhes digo sem medo de errar que não são poucos os momentos em que elas desaparecem sem deixar o mínimo vestígio. Os jogadores vão se movendo de acordo com a realidade que se impõe e que pelo visto atropela qualquer ensaio. A ausência delas ali, ordenadas, indo e vindo, me fazem pensar na natureza indomável do futebol que vira e mexe desde os primeiros minutos dissolve esquemas que pareciam infalíveis. Por isso outro dia quando ouvi o técnico Rogério Ceni dizer depois de um jogo do Bahia que todas as ideias em campo eram dele, me pus a coçar a cabeça. Não estranhem. Sou dado desde que me conheço por gente a me entregar a questões que em outras cabeças jamais teriam lugar.
Talvez com tudo o que ele sabe - porque sabe do jogo bem mais do que eu - venha a me convencer de que isso é realmente possível. Acho difícil. E olha que costumo acreditar em cada coisa que nem te conto. Mas, carente de explicação, não vejo outra forma de interpretar o que foi dito que não seja como uma frase mal construída. Os mais impiedosos apontariam nela prepotência. Mas não vamos nos dar a futricas. E isso não tem nada a ver com o Bahia que anda dando gosto de ver e, enquanto o Brasileirão hiberna, dorme lá na vice-liderança com os mesmo treze pontos do líder Athlético Paranaense. Se me interessei pelo tema é porque acredito que em torno dele podem orbitar respostas para o que andamos vendo.
Não é de hoje que se acusa os treinadores de impor aos elencos um modo de jogar. O que nestes dias que correm não expõe Rogério Ceni porque o time dele está jogando bem, mas dá boas pistas de como ele espera que seus comandados se comportem. É tudo uma questão de retórica. Ceni fatalmente dirá que foi mal compreendido por mim, que acho que ter dito esquema, e não ideias, seria mais apropriado, mais crível. Na ocasião ele exaltava o meio-campista Cauly. Disse, inclusive, que tinha construído o sistema de jogo para o seu camisa 8. Mas eu já havia até esquecido dessa frase como um bom mote quando ouvi a coletiva do técnico Tite depois da vitória sobre o Amazonas pela Copa do Brasil. Jogo em que o rubro-negro mais uma vez esteve longe de brilhar. E aí o tema me voltou revigorado.
Foi interessante ouvir Tite, justamente dos técnicos mais cobrados por querer impor um esquema ao time, afirmar que não vai dizer pro Arrascaeta o que ele tem de fazer em campo. Que não vai dizer ao Pedro o que ele tem de fazer. E na sequência ainda complementar o raciocínio dizendo que um técnico só estabelece rotas. Talvez fosse algo nessa linha que Rogério Ceni naquele dia já distante queria ter dito. De qualquer modo, continuo achando que o futebol é dono de uma dinâmica que exige dose cavalar de decisões imediatas. Até por isso o improviso sempre lhe caiu muito bem. E considerarei exagerado e despropositado se dia desses um treinador vier dizer que todas as rotas em campo são estabelecidas por ele.
E vou além, estar ciente do quanto um treinador pode influir não só no jogo mas na atuação de um atleta pode ter sido a pedra de toque dos bem sucedidos. Vira e mexe ouço alguém elogiar Guardiola por ter achado o lugar exato onde fulano joga melhor. E isso é outra coisa. A grande graça do futebol, mesmo com todos os esquemas, todos os ensaios, todas as linhas, altas ou não, é que quando a bola rola a gente nem faz ideia do que vai ver se dar em campo. O futebol é indomável.
















