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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Era uma vez o Paulistão




O tema não é novo. Há tempos os torneios estaduais minguaram. E, por mais que possa parecer, a razão de sua teimosa sobrevivência não está na tradição, está nas cifras que sustentam. O que vale, principalmente, para o Campeonato Paulista. De longe o mais abastado entre seus semelhantes. Talvez o tema se faça um tanto sem sentido para os mais novos, que já os conheceram despidos de trajes nobres. A coisa mudou tanto que chego a ter a impressão de que hoje em dia um título estadual 

não teria apelo suficiente para livrar verdadeiramente um time grande da sensação de jejum e de toda cobrança que se dá na ausência de triunfos. 


Foi-se o tempo em que um Estadual cumpria o papel que cumpriu a edição paulista de 1977 quando o Corinthians ao bater a Ponte Preta levou a fiel torcida até o céu que o jogo de bola sempre promete. Com direito a suspensão das aulas e outras tantas alterações no cotidiano só possíveis quando esse tipo de caneco era cultuado pra valer. Nem seria preciso recuar tanto no tempo para explicitar o que a história fez com eles. As duas finais  entre Palmeiras e Corinthians no início dos anos noventa, lembro bem, ainda tinham aura nobre, provocavam uma mobilização considerável. Mas sou obrigado a reconhecer que àquela altura a rivalidade entre os dois, é bem possível, já cumpria sem que se percebesse o papel de turbinar importâncias. 


Final 1995 - Foto: Ricardo Correa -Placar



E essa decadência, tão evidente, este ano ganhou outra dimensão. Não bastasse a diminuição das datas reservadas a eles, o ajuste do calendário que adiantou o início do Brasileirão o condenou de vez à sombra. Sou capaz de entender as razões. Não sou um lunático disposto a bradar contra os times mistos, os times poupados, os times de base no lugar do profissional. Nada disso. Apenas acho que isso tudo abriu um precedente e, amparados nele, muitos resolveram jogar contra os estaduais também. A CBF que, quando viu a bola pingando na área com a necessidade de mexer no calendário em ano de Copa, não pensou duas vezes para lhes tomar algumas datas, já que isso viria a servir por tabela para minar e mandar recado a quem tinha se revelado oposição. 


Mas, na minha opinião, o golpe que parece ter levado os estaduais às cordas, em especial o outrora chamado Paulistão, é uma mescla que une a inoperância dos dirigentes ao comodismo dos treinadores. Ao menos é essa a impressão que tive ao acompanhar alguns jogos neste início de temporada. Pra mim é visível a falta de interesse de muitos times para jogar essas partidas. E aí é claro que falo de times que têm horizontes que vão além das fronteiras estaduais. Ainda que para alguns essa condição seja discutível. São muitos os momentos em que fica claro que ​a vitória deixou de ser prioridade. Se pensa nela até, mas sem estar disposto a correr riscos, a agredir o adversário. 


E o resultado desse tipo de escolha sabemos todos é um jogo no estilo "tico-tico" no fubá que não tem tamanho. Entenderia totalmente o torcedor que se levantasse da arquibancada, dando às costas ao time, gritando que lhe avisassem quando estivessem a fim de jogar bola, pois aí quem sabe decidisse voltar.  Como afirmei acima, entendo muitas questões, mas as propostas, as ideias de jogo que se apresentam, beiram a covardia. Num tempo em que os entendidos afirmam que a ciência nos deixa saber exatamente quantos minutos um atleta pode atuar, a ausência de intensidade não se justifica. Conclui-se que quem foi a campo estava apto ao embate. Ou, os elencos no início da temporada são mesmo um mar de atletas meia bomba. O Flamengo anda reforçando essa tese.  

quinta-feira, 27 de março de 2025

Dia de decisão



Esta noite, quando Corinthians e Palmeiras entrarem em campo para decidir o título paulista, o momento só não será maior porque a nossa realidade em dado momento amputou parte da magia do jogo ao decretar que ele tem de se dar com torcida única. Muito pode ser dito a respeito disso. Muito precisa ser feito. Já que por trás dessa questão há escondida uma derrota que é de todos nós. Pode-se até chegar à conclusão, em muitos momentos óbvia, de que o nosso nível de civilidade já não dá margem a revisões. Mas não se descobre isso sem tentar. E não tentar é cômodo. Mas é, ao mesmo tempo, um desrespeito com a história e a importância do futebol paulista e de todos os que estão nessa condição. 

A proibição em questão caminha para completar uma década. A decisão foi tomada numa segunda-feira, 04 de abril de 2016, motivada justamente por um clássico entre Corinthians e Palmeiras, disputado no Pacaembu, e marcado por vários confrontos antes e depois da bola rolar. Confrontos que se deram nas ruas e deixaram, entre outros saldos, uma vítima fatal.  Um dia depois dos acontecimentos, a pedido do Ministério Público, a Federação Paulista determinou que os jogos entre os chamados grandes times paulistas fossem realizados apenas com a torcida mandante presente nos estádios. A decisão foi anunciada pelo então promotor do Ministério Público, Paulo Castilho, e pelo Secretário de Segurança Pública na época, Alexandre de Moraes, que todos sabemos segue em cena encarando históricas divididas. 

Não quero justificar o que vai aqui com aquele argumento tão ouvido por aí de que há tempos os confrontos têm se dado longe dos estádios e não neles. O que quero é aproveitar a data e perguntar: será pra sempre? Estamos condenados a ver os clássicos paulistas até o fim dos tempos assim? Amputados? Seja como for, diante dessa realidade de alegrias repartidas o Palmeiras já teve direito ao seu quinhão. Saiu de campo derrotado pelo placar mínimo. E agora terá de encarar o grande rival sem poder pensar em empate, enredado por uma festa que promete ser grande e turbinada por uma vantagem trazida da casa adversária. Muito se fala na volta de Rodrigo Garro. Arrisco dizer que o Corinthians diante do quadro que se desenha seria capaz de competir mesmo se não pudesse contar com ele. Mas não dá pra não reconhecer o requinte que o argentino empresta ao jogo do Timão.  

Mas o corintiano deve mesmo é torcer para Menphis ter voltado inteiro e no embalo de ter marcado mais um gol pela seleção da Holanda. Gol que o deixou agora apenas três atrás do maior goleador que os laranjas já tiveram. Um tal de Van Persie que, eu digo, quem viu não esquece.  Já os palmeirenses são instados pelas manchetes a se empolgar com a volta do meio-campista Maurício. Diante disso, minha inocência manda escrever que há sempre um preço a se pagar pela ausência dos gramados. O que vale para Garro também. Quando se trata do jogo de bola lesões nunca são apenas dor e tratamentos. Por essas e outras, se tivesse que apostar em alguém no Palmeiras capaz de fazer a diferença no caldeirão alvinegro apostaria na juventude e, acima de tudo, no futebol assanhado do garoto Estevão. Dirão os pragmáticos que o título se faz mais indispensável para o Corinthians do que para o Palmeiras. Esse raciocínio pode fazer algum sentido, mas que quase se apaga diante de tamanha rivalidade. E mais, não dá pra dizer que o time de Abel Braga tem pouco a perder quando um triunfo corintiano colocará por terra a possibilidade de um tetra campeonato estadual que nem o Santos de Pelé alcançou.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Ensaio sobre a modernidade



A modernidade é um conceito fugidio. No imaginário das pessoas talvez nem não combine com o adjetivo que usei, que soa ultrapassado. E do jeito que tudo se atualiza nos dias de hoje tenho a impressão de que ela seja algo tão inalcançável quanto a verdade. Perdoe certo ar filosófico. Comprometo-me a dissolvê-lo ao longo das próximas linhas. Mas é por causa desse seu aspecto indomável que nunca me ocupei dela. O que não é o caso do futebol. O jogo e sua entourage vivem deixando claro que é preciso estar sempre em sintonia com as últimas tendências. Mesmo que notadamente alguns conceitos tenham beirado a obsolescência ao serem abraçados pelos que pensam e tratam do jogo. Às vezes, em certas partidas, por exemplo, tenho a impressão de estar vendo o futebol europeu... dos anos noventa! 

Mas esta semana tive a prova cabal de que estamos parados no tempo. Ainda que o tempo não passe de ilusão, possivelmente como a modernidade. E essa descoberta se revestiu de um sentido ainda maior por estarmos às voltas com essa debacle dos torneios estaduais. E olha que o Paulistão ainda têm um fôlego de dar inveja a muita gente. Em nome de preservar elencos para uma temporada que promete não ser páreo nem para o mais bem preparado dos craques os times vão cumprindo a tabela como podem. Escalando garotos, recorrendo a recém chegados emprestados na temporada que se foi. Tudo para tentar reservar aos seus principais protagonistas um número de partidas que a comissão técnica e a ciência sugiram menos danoso.  

A essa hora vocês já devem estar se perguntando: e a prova citada? 

Bem, meus amigos, estava eu dia desses arrumando meus livros em casa quando dei de cara com um exemplar que trazia uma centena de crônicas de João Saldanha. Um entre tantos valiosos títulos já lançados pela editora "Livros de Futebol". Eis que abro a obra numa página qualquer. Segundos depois estou totalmente envolto e seduzido pela visão singular de um dos personagens mais interessantes que o futebol brasileiro já teve. E adivinhem vocês sobre o que versava? Sobre o número excessivo de jogos a que vinham expondo nossos jogadores. Profundo conhecedor do tema e, pelo que pude sentir, sendo ponderado ao estabelecer o que seria aceitável, João Saldanha defendia um máximo de cinquenta e duas partidas por temporada. 

E pensar que nos dias atuais esse número já gira, em situações normais, praticamente cinquenta por cento acima disso. Mas o que me espantou pra valer foi ter visto a data do artigo. De quando acham que seria? Imaginem aí um ano qualquer. Chutem. Há quanto tempo acham que um tema urgente desses poderia ter se colocado tão fortemente a ponto de causar grande indignação? Mil novecentos e sessenta e um, caro leitor. Isso mesmo! Há quase seis décadas e meia - bem mais do que meio século - os entendidos bradam que é jogo demais. Enquanto isso os estaduais tão valorosos no passado vão nos dando a impressão de que são apenas um ensaio de futebol.   

quinta-feira, 28 de março de 2024

A nobreza de ser grande

Raul Baretta/ Santos FC


Não faz muito tempo no meio de uma conversa sobre futebol com um amigo ele me fez uma pergunta dessas para as quais qualquer resposta não soa definitiva. É como aquela outra, tão ouvida por aí, que nos exige dizer se técnico ganha ou não ganha jogo. A questão era: um time deixa de ser grande?  E eu me peguei imaginando a figura de um nobre que depois de umas tantas bolas fora acaba por ficar só com o título, com a comenda, quando tudo o que o cerca já não se renova com ar de realeza e ele passa a viver das lembranças de um passado que o tempo vai fazendo cada vez mais distante.  Dando aqui um drible na lógica, diria que um clube pode continuar respeitado pelo que já representou mas no presente se apequenar.  

Talvez um bom viés para analisar isso seria enxergá-los pelo faturamento. Afinal, nenhum nobre seria tido como nobre com seu poder de compra sendo dilapidado dia após dia. Entre os quatro ditos grandes clubes paulistas há notadamente um recorte. Neste momento de um lado estão Corinthians e Santos. Do outro, Palmeiras e São Paulo. O time santista , entre tantos desafios, tem vivido sérios dilemas que passam justamente por sua capacidade de faturar. Já teve boas provas de que ela melhoraria sensivelmente se ele abraçasse a ideia de ir jogar fora da Vila mais famosa do mundo. Mas tem arroubos que são herança dos tempos em que ninguém duvidava de sua grandeza e podia sonhar em ter tudo o que os rivais conseguiram. Ter uma Arena, por exemplo. 

Mas a realidade recente mostra que hoje em dia querer construí-la à beira-mar o confinaria a um reino que talvez não venha a propiciar faturamento aos menos parecido com o de seus concorrentes. Mais ambicioso e digno de sua própria história seria construí-la, então, onde reinam os outros, na capital. Já o Corinthians que, todos sabem bem, anda com as finanças arruinadas nos remete a algum nobre perdulário desses que se negam a admitir que a realidade mudou.  No mínimo, diria que nos dois casos eles se fizeram, ou têm se tornado, realmente menores do que foram um dia. Se ainda são grandes é uma questão de ponto de vista, de perspectiva. 

Neste cenário ninguém renovou mais sua condição de nobre do que o Palmeiras. Não bastassem os títulos, que soam como comendas, há ainda o faturamento em constante evolução. E aí é possível dizer o que for. Que com esse recurso todo o time teria que brilhar mais, que tem por isso a obrigação de sempre encarar o Flamengo de igual pra igual. A torcida do Palmeiras poucas vezes na história pôde estar tão satisfeita. E ai de quem ousar dizer que o time do velho Parque Antártica não segue sendo um grande. E ainda que falte ao São Paulo uma trajetória recente farta de grandes títulos ele é o único dos outros três rivais alviverdes que pode lhe fazer frente a essa altura. 

Não só porque andou papando um título aqui, quebrando um tabu acolá, mas porque tem colocado pra girar a engrenagem que pode verdadeiramente fazer um clube ganhar outra estatura: a de ter numerosa torcida. E a torcida do São Paulo, que anda lotando o Morumbi jogo após jogo, deveria causar inveja a todos os que venham a ser assombrados por esse dilema de ser ou já não ser grande. Até porque isso remete a outra dessas perguntas cujas respostas a elas nunca soam definitivas, que é: poderá existir algum dia time grande sem uma grande e presente torcida? Não por acaso quando o Santos joga na capital, com estádio lotado, dá a impressão de revelar outra estatura. 

quinta-feira, 9 de março de 2023

O Santos sob o olhar da história



Pode até ser que você não seja desses que andam cornetando o Campeonato Paulista. O que pensando bem é coisa que vejo mais ser encenada pela crônica do que pela torcida. Digam os descontentes o que quiser. Que o estadual acaba esvaziado. Que acaba complicando a preparação dos times para torneios mais importantes. Que sem ele o calendário deixaria de ser draconiano. De minha parte gostaria que fosse mais equilibrado. Ano após ano o que temos visto nada tem de novo. Das últimas dez edições sete delas tiveram na final os ditos grandes, incluído aí o Santos junto ao trio de ferro. Vez ou outra pinta um coadjuvante. Papel que tem pertencido ao São Bernardo nessa edição atual. 

Interessante notar que se analisarmos não só a última década, mas as duas décadas anteriores, seremos levados a crer que essas surpresas têm se tornado mais raras. Entre os anos de 2013 e 2022 foram três as oportunidades em que um time de menor porte figurou na final.  Ainda que só um deles, como na década anterior, tenha chegado ao título. E de maneira geral o time que cumpre esse papel de dar ao torneio um verniz de surpreendente quando rouba a cena acaba canibalizado. Tem os seus mais destacados nomes rapidamente cooptados. Afinal, quem irá resistir aos encantos de um Palmeiras ou de um Corinthians, que sempre embutem nesse seu cortejo a insinuação de que com eles o mundo do futebol definitivamente se abrirá pra esses que despontam. É o que vimos acontecer nos últimos dias com o jovem Crhystian Barletta de vinte e um anos, destaque do São Bernardo, que está na dele, tem de aproveitar o momento e voar. 

Esse recorte histórico também nos serve para analisar o papel do Santos. Nas últimas dez edições do Campeonato Paulista metade delas, cinco, foram decididas exclusivamente pelo trio de ferro. As últimas cinco, aliás. Quando o time da Vila Belmiro passa a fazer parte da análise o número salta para sete. Ou seja, na última década o Santos esteve em duas finais com os grandes. Em uma foi derrotado pelo Corinthians e na outra bateu o Palmeiras. Bons tempos. Também figurou em outras duas decisões. Em uma foi derrotado pelo Ituano e na outra venceu o Audax , que na época fez esse dito papel de sensação do campeonato. 

Pode parecer representativo, mas na década anterior o Peixe tinha estado em seis decisões e vencido cinco delas. E com louvor, porque ao vencer a edição de 2012 voltava  a ser tri estadual depois de 43 anos. A última vez que tinha alcançado tal feito tinha sido entre 1967 e 1969 época do Santos comandado por Pelé. E nem vamos falar da conquista da Libertadores porque o papo é só o Paulista. Este ano, depois de dois, o time da Vila Belmiro conseguiu chegar à fronteira da fase de grupos sem estar ameaçado pelo rebaixamento. Difícil negar que tenha avançado, portanto. E se a torcida não enxergava nisso um motivo de comemoração depois da melancólica atuação diante do Ituano na última rodada essa reação ficou mais do que compreensível. Os mais precisos dirão que o grande desafio santista é dar conta do Brasileiro que vem aí, tido como um dos mais cascudos dos últimos tempos. Muito pode ser dito a respeito, o que não dá é pra brigar com a história recente que impõe ao Santos retomar um lugar de honra que ele ano após ano tem visto lhe escapar.

quinta-feira, 31 de março de 2022

A tradição do Paulistão

                                                           Foto: Alex Silva/ lancepress

O Campeonato Paulista caminha para o final de mais uma edição. Imagino que deva  por isso ter ditado o tom de muitos na noite de ontem, seduzindo torcedores de várias camisas, não só palmeirenses e sãopaulinos.  Gente que desde sempre andou ligada no jogo de bola.  Não que o jogo de ida tenha sido uma maravilha . Mas levando em consideração que andamos neste momento desfrutando do que seria o filet-mignom do torneio, dá pra arriscar que o que se viu horas atrás no gramado do Morumbi esteve muito acima da média do que foi o torneio como um todo. Ou seja, nunca ficou tão claro que o mais antigo torneio de futebol do país precisa de cuidados. 

Renovo aqui a posição que sempre defendi que é  a de que os estaduais não devem ser extintos. É preciso neste caso, talvez, admitir que  falar de maneira tão abrangente pode não ser o ideal.  Uma vez que a realidade de cada um deles deve conter detalhes que o meu conhecimento não abarca. Difícil é discordar que o torneio Paulista é o que supostamente teria  - e tem - mais recursos para se justificar. Aceitar simplesmente o fim dele seria, a meu ver,  relevar a forma pouco nobre com que os cartolas o trataram ao longo dos tempos.  É preciso uma saída que honre a história , a tradição que os estaduais carregam. 

É evidente que tudo isso está intimamente ligado a outras questões do futebol nacional, como o tão falado calendário. E, especificamente no caso do Paulista, a maior prova de que ele é viável está no fato de que ao longo do tempo proporcionou faturamentos grandiosos.  O que acabou  sendo crucial para que sobrevivesse, desse jeito estranho, mas sobrevivesse.  De outro modo, nem a história, nem toda a tradição teriam lhe salvado. E nem vamos dizer do papel que sempre exerceu. A saber, o de ser o amparo de times menores. De ser  a razão pela qual muitos times distantes das capitais ainda sobrevivem. Ainda que pagando salários infinitamente distantes dos que costumam aparecer  nas manchetes.  

Quem viu os jogos da fase de grupos não há de ter esquecido a modorra de muitos deles. Mesmo os jogos  únicos que definiram os semifinalistas, com seus ares de tudo ou nada, não deram conta de representar com louvor o momento. Alguém talvez dirá que o tempo dos estaduais ficou pra trás. Que nunca mais veremos uma final de estadual ter o peso que teve  a lendária decisão de 1977.  Decisão que com todos os detalhes que a envolveram até pode ser considerada um ponto fora da curva.  Mas há um sem fim de outras decisões, que foram a seus modos gloriosas, para corroborar o que vai aqui escrito. 

Os embates entre  Palmeiras e Corinthians no início dos anos noventa.  A inusitada final caipira. A magia de uma Internacional de Limeira dirigida pelo Seo Macia, o Pepe. Fragmentos que juntos formam uma história linda. Preservar o Campeonato Paulista seria  preservar cada um desses momentos.  Que no domingo quando Palmeiras e São Paulo estiverem frente a frente de novo e encerrarem a edição mais atual de um campeonato que carrega 120 anos de história estejamos mais convencidos de que mais do que acabar com o Paulista é preciso reinventá-lo. E assim voltar a encontrar bons motivos para chamá-lo de Paulistão.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Era uma vez uma regra



No meio da reunião alguém pede  a palavra e sugere que a regra que limita a demissão de treinadores deve acabar.  Não que o tema tenha sido amplamente debatido, a sugestão muito menos vem seguida de um bom argumento. Foi amparada no fato de que desde que tinha sido instituída as demissões praticamente acabaram na elite do futebol brasileiro. A partir daquele momento foram elegantemente substituídas por acordos entre as partes. Algo que já tinha sido tema aqui neste espaço.  A decisão foi tomada no Conselho Técnico da CBF realizada no meio da semana passada.  E aceita por unanimidade. Durou, portanto, uma temporada. E desse modo cínico que pudemos acompanhar. 

O interessante nessa história toda foi notar que segundo o noticiado a sugestão foi dada pelo Presidente do Corinthians, Duílio Monteiro Alves. Isso horas antes do clássico contra o Santos.  Como se sabe  a partida terminou com vitória santista de virada.  E fez cair por terra um longo tabu. Há sete anos o time da Vila não sabia o que era vencer na casa corintiana. A derrota colocou um ponto final na passagem do técnico Sylvinho no comando do time corintiano. Ele foi demitido pouco depois do apito final.  Não vou aqui cometer a vilania de dizer que tudo foi premeditado.  Como pode ser ingênuo dizer que  se a regra tivesse sido mantida a história teria sido diferente.  

Alguém tem dúvida de que o Corinthians não teria a mesma cara de pau que teve o São Paulo ao demitir Hernan Crespo meses atrás e  anunciar que tudo se deu em comum acordo entre as partes?  

A história só seria outra se estivéssemos num país em que as regras não fossem dribladas.  A regra que caiu por terra, não sei se recordam, determinava que um clube só poderia demitir um treinador por temporada. No caso de uma segunda demissão o clube não poderia contratar um terceiro e teria de colocar no cargo alguém que tivesse no mínimo seis meses de clube. No papel, uma maravilha. Mesmo porque poderia abrir espaço para profissionais já íntimos do trabalho cotidiano dos clubes e que, por razões outras e não de capacidade profissional, acabam não tendo oportunidades.  No máximo tapam buracos  e veem cair sobre si o rótulo de interino.  E não duvido que muitos poderiam surpreender se encontrassem amparo pra isso. 

Vale notar ainda que a imprensa de modo geral dizia que a pressão sobre Sylvinho era muito mais externa do que interna. Matérias afirmavam a boa relação dele com os dirigentes e com o elenco.  A situação de Sylvinho nunca foi confortável. E esse nunca é que se deve questionar.  Se não é fácil prosperar quando toda vez que seu nome é anunciado no sistema de som do estádio o que se ouve é uma sonora vaia, muito mais difícil é encontrar por aí dirigentes com valentia suficiente para encarar esse tipo de coro.  Se o Corinthians está na Libertadores o crédito deve ser dado a Sylvinho também. 

Por essas e outras é que dá pra dizer que a vitória no clássico salvou a pele de Fábio Carille - mas não livrou o  time da Vila de seu momento preocupante como mostraram as partidas seguintes. A pressão é enorme, ainda mais agora que a mais abstrata das regras já criadas no futebol brasileiro está extinta.  Só é bom lembrar que se o Santos permanece na primeira divisão isso também é obra do seu treinador.  Tem feito um bom trabalho, mas  nada que o livre dessa realidade absurda a qual estão expostos os treinadores no Brasil.

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Entre a euforia e a realidade

 



Nas duas últimas semanas a crônica esportiva mostrou entusiasmo com o nosso futebol, o futebol brasileiro quero dizer. É de se entender. Apesar de a última decisão continental ter tido duas equipes brasileiras ninguém ousava dizer, e não se tinha essa pinta, de que estávamos assim tão à frente dos outros.  Além do mais, o embate final entre palmeirenses e santistas era apenas a terceira final brasileira em toda a história da Libertadores. Mas teria sido um presságio dessa temporada que viria? 

Bom, isso o tempo esclarecerá. 


E se duas semanas atrás, diziam, tinha ficado faltando uma vitória santista no meio de semana, na passada ela veio. Uma goleada de números respeitáveis sobre um adversário que bem antes de entrar em campo muita gente já dava como vencido. Realmente os brasileiros andaram sobrando. Mas no caso do Santos melhor seria tratar a recente vitória sobre o Boca com moderação e balizar a realidade pelo que o time viveu  até o jogo da salvação diante do São Bento. 


Sobre o futebol brasileiro acho que certa supremacia chega a beirar a obrigação. Mesmo querendo ( e torcendo) para que a grana não seja algo totalmente definitivo nesse mundo da bola. Se levarmos em conta o faturamento dos times sul-americanos no ano de 2019, já que o ano de 2020 foi tão atípico, veremos que entre os dez que mais faturaram todos são brasileiros. O único intruso nesse grupo é o Boca Juniors. E se ampliarmos esse universo para os quinze primeiros todos seguem sendo brasileiros . Aí, além do Boca, só o River Plate, também argentino, passa a figurar.  


Isso num recorte nobre. Pois quando se trata de times de outros países do continente, então, um verdadeiro abismo se revela. Interessante notar que nos números fornecidos pela consultoria Ernest & Young o Santos, apesar de pouca diferença, figura acima de times como o São Paulo e o Atlético Mineiro. Mas nesse mundo montanhas de dinheiro nunca foram suficientes e não temos notícia de um único clube relevante que não esteja seriamente endividado. Contraste total com a nababesca situação da CBF que, acabamos de ficar sabendo, fechou o ano passado ainda mais rica, com quase novecentos milhões de reais em caixa.


 Mas se flamenguistas e palmeirenses, muito além dos balancetes, têm motivos para o entusiasmo os santistas devem se conscientizar de que nos arredores da Vila a banda toca diferente.  E o peso disso fatalmente caíra sobre as costas de seu novo treinador.  É preciso se perguntar, antes de tudo, o que poderá Fernando Diniz realizar no cargo que acaba de ocupar? Depois de um final de Campeonato Paulista dos mais melancólicos de toda sua história qual o horizonte que o time da Vila vislumbra?  Aquele velho papo do raio que cai duas vezes no mesmo lugar mostrou uma outra face. A do raio  que nunca caiu mas que pode cair chamuscando tudo e todos pra valer.  


O Santos, é fato, vive o caldo, ou rescaldo, dos atropelos de suas últimas administrações. Tudo fiou muito claro quando de uma hora para deixou de contar com resultados animadores que, não é de hoje, nem os entendidos sabem bem explicar.  E há ainda um outro detalhe importante que o tempo se encarregará de revelar, se a opção por Diniz se deu por opção ou não. O que pode fazer muita diferença. Mais do que a mística, a história mostra que o Santos sempre esteve comprometido com um jeito de jogar muito próprio, ainda que por vezes ele tenha ficado fora do alcance. 


Tenho a nítida impressão de que a medida que fará do novo treinador alguém visto como bem sucedido é que moldará tudo. Talvez, algo que deverá transitar entre a aceitação da ausência de títulos e a exigência de um futebol capaz de fazer o torcedor se sentir satisfeito. Para ser mais direto, o desafio de Fernando Diniz é imenso. Só não é maior do que os daqueles que aceitaram cuidar do clube e levar essa história adiante.  

quinta-feira, 28 de março de 2019

A velha caixa de surpresas

A veia do futebol segue a jorrar surpresas. Ou não foi surpreendente o que se viu acontecer nessas quartas de final do Campeonato Paulista? Dirão alguns que os grandes mostraram sua força e nada de novo se esconde aí.  Pode até ser, mas ver o Red Bull fazer o que fez , em especial nos primeiros quinze minutos do jogo de ida diante do Santos, foi de intrigar. Um nível de desacerto e falta de concentração que não rimava com a campanha que o time construiu. Não tinha perdido para os grandes, tinha chegado ao ao mata-mata com um sequência de vitórias de se tirar o chapéu. 

Por outro lado, deve-se reconhecer que há também um jeito de não encarar o ocorrido como surpresa, afinal, o Santos - na média - tinha sido o que foi na hora decidir. A questão é: quem apostaria seu dinheiro depois de ter visto  a equipe da Vila comandada com pompa por Sampaoli  ser derrotada pelo Novorizontino e mais tarde ser goleada  pelo Botafogo? A esses digo que a surpresa está mais até no fato de o time santista ter jogado como quem não tinha desfalques consideráveis, isso depois do time misto ter naufragado em Ribeirão Preto. O zero a zero da volta pra mim só reforçou a impressão de que aquele desacerto do Red Bull na largada lhe tirou as asas. 

Do Palmeiras até me acanho um pouco de falar porque já ando cansado de dizer que faria muito bem a todos, ao futebol, ao patrocinador e ao clube que o time fosse , digamos, um pouco mais plástico. Terminado o jogo de ida me peguei pensando se o próprio Felipão olhando tudo da beira do campo secretamente não se sentia desapontado vendo o time apresentar em campo o que apresentou. E agora, depois de sacramentar a classificação com a goleada por cinco a zero, fico pensando se ele não deu uma dura no time dizendo que precisava colocar ao menos uma cereja no bolo. Fato é que do alto de uma campanha cem por na Libertadores, com vaga garantida na semifinal do Paulista a blindagem promete resistir a qualquer cornetada. 

Mas quem diria que seria a Ferroviária, dona da campanha de números mais acanhados entre os oito candidatos às vagas das semifinais, que iria dar a maior contribuição para esse ar surpreendente que teve o início das quartas de final?  Jogando de igual pra igual com o Corinthians, time que era só evolução, com a defesa encorpando e com Carille alcançando um aproveitamento do tipo que o fez se tornar um dos técnicos mais respeitados do país. O que por sua vez é surpreendente também.

 E, por último, como bem disse um são-paulino que acabou de passar por aqui, imbatível mesmo é o destino que praticamente forçou o tricolor a levar a campo um time diferente. E não é que deu certo?  E alguém aí vai dizer que ouvir aqui e acolá que o time do Morumbi tinha feito a melhor partida do ano diante do Ituano não é de causar surpresa? Enfim, digo a vocês que desde o início achei que ao menos um dos grandes iria ficar pelo caminho. Errei. Mas ter os quatro ditos grandes nas semifinais não deixa de ser uma surpresa, afinal, neste século é apenas a quinta vez que eles se encontram nessa condição.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Lucros e dividendos



Os ditos pequenos que garantiram um lugar nas quartas de final do Campeonato Paulista tiveram aproveitamento considerável. Vale lembrar que houve um momento, inclusive, que nenhum grupo tinha um grande na liderança.  Volto ao assunto pra reforçar a impressão de que se escondem nessa realidade não só questões técnicas e de preparação mas, principalmente, um certo doping emocional já que o torneio  faz muito mais sentido e é infinitamente mais vital para times como Ituano, Novorizontino, Red Bull e afins. 

A realidade esconde também certa soberba dos barões do futebol paulista uma vez que, exceção feita ao Palmeiras, o Estadual se apresenta pra eles como a mais real possibilidade de título ao longo de toda a temporada. E já aviso que dos incomodados pela crueldade da análise talvez só os corintianos tenham direito de considerá-la exagerada. Sobre os outros afirmo que se ocorrer o contrário o sucesso terá um quê de zebra. Acho ainda a contribuição dos pequenos muito mais à altura do que é oferecido pelo Campeonato Paulista. 

Digo isso amparado no nível de competitividade que mostram, consideravelmente melhor do que os dos times ditos menores dos outros estaduais. Para que tenham uma ideia o time que ganha menos por direitos de transmissão no Paulista fatura quase o mesmo de toda a premiação do Campeonato Pernambucano. E em matéria de grana quem mais se aproxima do Paulista é o Carioca, mesmo assim o valor total das cotas do Paulista é trinta e um milhões de reais maior. Não custa dizer também que os quatro grandes de São Paulo colocam no bolso dezessete milhões que, em caso de triunfo, viram vinte e dois.  

Dito de outra forma, significa que o quarteto abocanha pouco mais de sessenta por cento de toda a verba da TV. E tendo em vista o futebol apresentado pelos chamados pequenos sou levado a crer que se o dinheiro fosse dividido de forma mais igual iriam complicar as coisas de vez. Diante desses números aquela velha imagem de um futebol paulista decadente, com os times do interior flertando sempre com a falência, não parece fazer tanto sentido assim. Mas a economia do jogo de bola tem uma lógica toda própria.  Claro, seria muito bom que um dia fosse atrelada à nossa.  

Vejam, nos últimos quatro anos a pobreza extrema no nosso país cresceu trinta e três por cento.  No entanto, no mesmo período, pasmem, os clubes brasileiros dobraram a arrecadação com a venda de jogadores. Quase três mil transações geraram acordos de três bilhões e setecentos milhões de reais. Não, não estou louco.  Somente na temporada passada, ano em que  se registrou o maior movimento desse período, setecentos e noventa e dois jogadores profissionais deixaram o Brasil rumo ao exterior, o que significou um faturamento total de um bilhão e quatrocentos milhões. 

Não é de hoje que os números do futebol brasileiro trazem consigo um ar surreal. Mas o que deve espantar é que tenhamos diante dos olhos toda essa pobreza, não só entre as quatro linhas mas para muito além delas. Um descolamento perverso onde quem fatura pra valer são sempre os mesmos, enquanto quem verdadeiramente merece ser reconhecido são os que conseguem fazer alguma diferença recebendo migalhas. Pelo visto é só aí que o  futebol brasileiro se faz um retrato fiel da nossa realidade.