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quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Era uma vez o futebol arte



Tenho dito não é de hoje que as transmissões têm feito pouco caso da beleza. Um pecado capital. Deveriam por natureza jogar a favor dela. Mas os tempos mudam. Nem lembro a última vez que ouvi alguém falar do futebol como uma arte. O que em outros tempos se não abundava era notadamente menos raro. São muitos os fatores que levaram à essa mudança de olhar. Mas ouso dizer que a obsessão atual pela arbitragem é um dos principais e se iniciou antes da implementação do árbitro de vídeo, mas foi levada às últimas consequências depois que isso se deu. Um dia, quero crer, evoluiremos. E corremos o risco de olhar para trás e ver de maneira escancarada  a sandice que alimentávamos.

Digo isso porque diante de toda a dúvida que já alimentei tentando chegar a alguma conclusão sobre um sem fim de lances que as transmissões trataram de averiguar, sou levado a crer que mais do que opinião temos um olhar que é só nosso. Os filósofos que me ajudem com essa teoria. Ou cada um enxerga de um jeito ou não passamos de um bando de teimosos. Hoje um ponta pé qualquer, um tapinha que jamais iria doer, são resgatados no segundo seguinte e passam a ser analisados com um fervor absurdo. Ao mesmo tempo, um lance de efeito, um lençol bem dado, um chapéu, uma caneta, não recebem o mesmo tratamento. Prova da nossa indigência ao tratar do jogo. 


Pudera. É tanta coisa pra mostrar.  A tela que precisa se acomodar pra exibir a publicidade. O treinador que dá chilique à beira do gramado. O lance de potencial polêmico. E aí quase não sobra espaço para o drible, para uma matada de bola dessas que sempre será sinônimo de excelência. Sei que pode soar de um romantismo exagerado, algo de que sou constantemente acusado por companheiros de ofício. Mas precisamos reeducar nosso olhar. Não só porque seria uma maneira de acalmar essa veia estufada pela discórdia, mas também uma espécie de resgate da face mais sedutora do jogo. Sobre o romantismo, digo a vocês que secretamente até me alegro porque a essa altura ele chega a ser uma forma de desobediência, de rebeldia. 


Além do mais, só quem nunca se viu em comunhão com alguma minoria é que não sabe da nobreza que elas podem guardar. Até me espantei vendo um jogo do Atlético Mineiro dia desses, pois em dado momento um jogador do Galo deu um drible bonito no marcador e o lance foi mostrado umas três vezes. E merecia. Usando os dois pés, o atleticano puxou a bola de um pro outro e a colocou entre as pernas de quem tentava barrá-lo, para em seguida se desvencilhar dos puxões, das tentativas sempre desesperadas que esse tipo de lance provoca. Sim, porque nunca bastou dar o drible, ou o chapéu, sempre foi preciso no instante seguinte se salvar da apelação que certamente vem. Esses lances são um tipo de castigo que uma vez sofrido tem na falta sua última possibilidade de vingança. 


Digo isso ciente de que para muitos a coisa sempre foi assim. Mas um romântico incorrigível como eu  quer acreditar que houve um tempo em que ser driblado não era exatamente uma questão de vida ou morte. E grandioso mesmo era devolver na mesma moeda. Mas não tô aqui pra semear poesia nesse árido chão. Gostaria apenas que essa minha reflexão fosse vista como uma proposta pragmática, pois é disso que se trata, e não como um devaneio de alguém que não entende o que virou o futebol.  Já que é disso que me acusam, ainda que veladamente, quando você dá a entender que ainda alimenta alguma esperança de que o futebol venha a ser algo mais plástico do que tem sido. Até porque se entregar sem reflexão a essa mania instituída de autopsiar lances de natureza polêmica me parece o avesso da arte do jogo.  

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

Esporte e superação



Existe um ponto em que todos os esportes se encontram e não falo das vitórias, falo das histórias de superação. E nesse quesito o desporto paraolímpico se faz a expressão máxima. O esporte desde sempre emprestou algo de épico aos homens. Deu às suas histórias pessoais uma outra dimensão. No momento em que a Paraolimpíada chega e vamos deixando para trás mais uma edição dos jogos olímpicos isso parece ficar muito claro. Sem contar a virtude que uma Olímpiada sempre teve, em especial entre nós, que é a de nos fazer olhar com atenção para outras modalidades, quebrando brevemente o monopólio do futebol. Uma hegemonia que, não seria injusto dizer, talvez ajude a explicar o nosso desempenho que sempre soa muito aquém do tamanho que temos como nação. Paradigma que o desporto paraolímpico desafia, aliás. Mas quando digo ajudar a explicar não significa ser culpado, longe disso. 

Quem viu dias atrás a apresentação do atacante Talles Magno, recém contratado pelo Corinthians pôde ter uma ótima noção do papel social que o futebol exerce. É fato que provavelmente não em toda a sua plenitude. Magno não conseguiu segurar as lágrimas ao lembrar da infância sofrida. E enquanto elas lhe escorriam na face, recordou que ao chegar no Vasco da Gama, aos seis anos de idade, lá teve a oportunidade de estudar e, vejam vocês, de ter todas as refeições do dia. Poder comer de manhã, de tarde e de noite. Palavras que só tornam mais evidente a incapacidade, a ausência do nosso Estado. Não que histórias como as de Talles Magno, sejam novidade no que diz respeito ao amparo e ao desamparo. 

Mas acima de tudo me tocou ver que aquele choro - que ia se mostrando incontrolável - só foi contido quando a mãe dele - que acompanhava tudo de perto - subiu ao lugar em que Magno estava, lhe abraçou, e passou a lhe secar as lágrimas do rosto. A partir daí, bastou uma breve fração de tempo para que o atacante de vinte e dois conseguisse retomar a palavra e concluir o depoimento sobre a infância sofrida que precisou atravessar. Por isso tudo é tão sério que se cobre sempre as contrapartidas sociais dos clubes, que estão amparadas em leis. É por isso que precisamos, enquanto nação, de um Plano Nacional de Esporte. No vivido por Talles Magno ali no momento de ser apresentado eu vi, muito claro, esse ponto onde todos os esportes se encontram. 

Lembrei das palavras ditas dias antes pela ginasta Rebeca Andrade, que fez questão de lembrar que em dado momento estava disposta a desistir e que naquele momento ouviu a mãe lhe dizer que, tudo bem, ela poderia desistir mas não sem antes tentar de novo. E dessa superação nasceu a mulher que neste momento ocupa o mais nobre lugar do nosso panteão olímpico. E são tantas as histórias, são tantos os dramas a que as grandes conquistas vão dando luz que gostaria de crer que se trata do elemento que faz funcionar toda essa alquimia. Mas seria uma crença perigosa porque esconderia o inegável. Esconderia que dar educação, dar oportunidades, fazer com que o esporte seja realmente uma possibilidade na vida de uma criança, sempre foi a mais eficaz das receitas. Sem esquecer, claro, do papel da família, da mãe, tão evidente nessas duas histórias que usei para costurar estas linhas. No mais, o futebol está aí com todo o seu apelo, com a temporada se afunilando. Voltou a ser o dono da cena. Que bom que o temos, forte, reinando no continente. Que ele nos dê tudo o que pode, mas que a gente não esqueça que é preciso exigir sempre mais. 

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

O jogo político



Na maior parte do tempo procuro ser polido. Mesmo quando tomado de indignação. É uma fração dos meus princípios que nem sempre fazem sentido. Ou melhor, parecem fazer cada vez menos. Acompanhar nos últimos dias a fritura que desembocou na retirada  de Ana Moser do Ministério do Esporte foi de doer. Faz algumas décadas que ando perto demais do esporte para não ter convicção de que ele é muito mais do que esse circo do qual faço parte. O esporte é muito mais do que as cifras que fazem muitos dos nossos semelhantes se sentirem deuses ou acharem que podem tudo. O esporte é muito mais do que toda a vaidade que pode se esconder atrás de marcas e medalhas e minha vivência me sugere que Ana Moser sabe muito bem disso. O esporte é sinônimo de saúde, de educação, de inclusão. E se for para ir mais fundo diria que é um grande instrumento para que as pessoas se conheçam melhor. É difícil tendo vivido no meio desse universo imaginar figura mais legítima do que Ana Moser para extrair do esporte tudo o que ele pode dar. 

Ela, que lembro bem, mal tinha parado de jogar e  já tinha implantado bem no seio de uma das maiores comunidades de São Paulo um projeto esportivo de cunho social. Isso quando  projetos do tipo eram raros. Por isso não me espantei quando dias antes de passar a testemunhar toda essa fritura deixei escapar um sorriso sincero e de satisfação ao dar de cara com a notícia de que ela estava, junto com o SESI, inaugurando um grande plano envolvendo o futebol feminino. Plano que irá criar vários núcleos pelo país dando a oportunidade de que o esporte passe a fazer parte da vida de muitas crianças e adolescentes. E se sorri , e estou certo de que sorri, foi por trazer comigo a certeza de que é esse o caminho. 

Certeza que vi ainda mais robusta em mim quando há cerca de um mês, depois de me inscrever para nadar num espaço público de São Paulo, me deparei às sete horas da manhã com uma fila imensa. Uma fila de interessados em ocupar algumas poucas vagas que estavam sendo disponibilizadas no Centro Desportivo Baby Barioni. O nome é uma homenagem ao criador dos Jogos Abertos do Interior e pioneiro do basquete paulista. Um centro de muita tradição mas que esteve fechado desde 2014 e acabou entregue depois de quase uma década, em dezembro passado. Naquela manhã, naquela fila, me peguei dividido entre a tristeza e a alegria. O tratamento dispensado aos candidatos esteve longe de ser adequado, o que redundou em frustração para a maioria absoluta dos que resistiram por mais de duas horas. Muitos nem ficaram. Desistiram ao se deparar com o tamanho dela. E se digo que também experimentei alguma alegria foi por perceber de algum modo que o que era em mim teoria fazia sentido. Aquela pequena multidão disposta a nadar, a praticar exercícios. Gente de todas as idades. Uma situação que escancarou também a falta de espaços desse tipo. 

Fico imaginando o impacto que isso poderia ter nos índices que medem a saúde da população.  De minha parte gostaria de estar ali pela atmosfera do lugar, por sua história. Ao contrário de muitos poderia pagar uma academia. E o que vi ali sei que Ana Moser viu muito antes de mim. Uma pasta dessa importância feita moeda de troca. Não por acaso a cerimônia de posse do novo Ministro foi feita ontem a portas fechadas. E ninguém se envergonha. Ninguém se levanta. Os espertos de sempre se justificam dizendo sem corar que é do jogo. E a gente feito gado, nós, a nação, os filhos dela, que poderiam crescer mais saudáveis, mais educados, vão levando outra bola nas costas.   


Foto: Ricardo Stuckert

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

Sem esporte, sem futuro



Caminhamos para o desfecho da mais efervescente eleição presidencial dentre todas das quais trago lembranças. Tema sobre o qual muito foi e está sendo dito. Mas não sei se notaram o quanto o esporte passou ao largo de tudo isso. E se fiz uso do adjetivo efervescente foi por ter dificuldade para garimpar um outro que fosse mais apropriado. Dias atrás até cheguei a ver, solitária, perdida entre tantos portais de notícias, uma matéria que versava sobre o tema. Precisa e muito oportuna na abordagem, pois mostrava como o assunto era tratado em cada uma das campanhas presidenciais que, até aquele momento, estavam na disputa. Não digo que chegou a espantar o fato de que na metade delas o esporte nem figurava e que quando apareceu não deixou de ser com um viés um tanto surreal. 

Cheguei a ver proposta que defendia veementemente o esporte amador para no fim afirmar com todas as letras que a ideia era fazer do Brasil um potência olímpica. Como é preciso registrar que até promessa da aprovação de um tão indicado Plano Nacional de Esporte cheguei a ver por lá. E como gostaria de acreditar em promessas do tipo. Imagino que essa crença traria consigo uma serenidade que o mundo já não nos dá mais o direito de ter.  Não sou do tipo que duvida do paraíso, ainda que fugaz, a que têm direito os ludibriados. Uma coisa que me chamou a atenção foi o fato de as propostas que se dignaram a tratar do esporte tê-lo aproximado muito da educação. O que revela algum apuro no olhar sobre ele. Na minha opinião a única forma de pensar o esporte de modo sadio. 

Uma coisa é querer construir um país de laureados. Outra bem diferente é querer construir um país de cidadãos bem formados. Essa ausência talvez venha a ser só um efeito colateral do sumiço dado no Ministério do Esporte. Sabemos todos que pode ser mais cômodo e conveniente aceitar a realidade imposta do que querer mudá-la. No primeiro turno, entre um debate e outro, um dos candidatos disse que nunca soube de um país que verdadeiramente tenha avançado sem ter feito da educação uma prioridade. Não há como discordar. É um dizer lúcido. O que esconde de intenção é outra história. Acredito que o caminho seja bem esse, o da educação. Como já tive oportunidade de expressar neste espaço, nem acho crucial que voltemos a ter um Ministério para tratar do esporte. Não vejo incongruência em aproximá-lo da Educação, nem da Saúde. 

Mas estou convencido de que jamais poderemos dizer que tratamos a questão da maneira devida enquanto houver uma escola que não tenha uma quadra de esportes decente e os equipamentos necessários para que ela funcione adequadamente. E não pensem vocês que essa maneira de encarar o esporte não se reflete na nossa sociedade de outros modos. Quem faz o que eu faço sabe muito bem que o esporte esteve sempre muito longe de ser o assunto mais respeitado nas redações. Realidade que, ao contrário do que muitos pensam, não costuma mudar nem quando ele se revela responsável por fatia considerável do faturamento das empresas.  Por outro lado, o mais cruel é constatar que não há candidato, em tempo algum, que não tenha encarado o esporte - e  especialmente o futebol - como um facilitador, como um meio eficiente de conquistar votos.        

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Esporte e educação



Li certa vez não sei bem onde que a formação ideal para o homem seria a seguinte: aprender a ler e a interpretar, uma dose de música e uma de ginástica. Creio que a fórmula era atribuída a Platão. E se tomo a liberdade de escrever isso sem estar certo dos créditos é porque, seja como for, no final importa é o que essa fórmula pode encerrar.  Há, por vários motivos, uma distorção na maneira de encarar e tratar o esporte. Ele não é algo que se justifique por si mesmo. Na minha visão deveria ser visto, acima de tudo, como um pilar para a educação e a saúde. Basta  uma mínima pesquisa para se ter uma noção melhor do que a prática esportiva pode fazer em termos de comportamento, de convivência. Ou o que pode fazer por nossa saúde.  E nesse aspecto estamos a anos luz de ser um país que leva isso minimamente a sério. 

Não fosse assim os homens que cuidam do futuro da nação já teriam tratado de parir um Plano Nacional de Esporte. Algo que apesar dos infinitos esforços feitos por alguns de nossos esportistas mais engajados até hoje não virou realidade. Por outro lado, não nos faltam exemplos do que pode pode o futebol - carro-chefe do segmento - quando explorado. Os políticos que o digam. Desde sempre se agarraram a ele como parasitas. E , em especial, nos times de maior torcida abundam exemplos de cartolas que graças ao jogo de bola construíram pontes sólidas até as Assembleias ou o Congresso. Tendo para isso praticado uma espécie de vampirismo. 

Enquanto isso o novo currículo escolar estadual que vendo sendo adaptado para entrar em vigor, com a reforma deste ano, simplesmente tira dos alunos do segundo e do terceiro anos do ensino médio a disciplina de Educação Física. Não houvesse outros motivos bastaria pensar nos alertas da Organização Mundial de Saúde com relação a obesidade de jovens e crianças para concluir que é uma decisão nada humana. Dados colhidos pelo Ministério da Cidadania no ano passado apontam que quase metade das escolas da educação básica do país não têm nenhum espaço para os alunos praticarem esportes. 

Fui formado por escolas públicas. E nunca esqueci a cena que presenciei certa vez em uma das aulas de Educação Física.  Nossa missão era a de correr, bater as mãos numa espécie de cavalete e com certa ajuda dar uma cambalhota. Um dos alunos, afoito, correu e tentou o movimento sem auxílio. Acabou caindo de cabeça no chão. Na hora começou a ter espasmos. Se contorcia. Os olhos giravam. Estava sem conseguir respirar. Ia morrer ali na nossa frente. O professor rapidamente lhe tirou do chão. Enganchou os braços com o dele, e o puxou com as costas dos dois encostadas. Seguiu-se uma série de estalos grandes e pimba ! O Márcio, nunca esqueci o nome dele, se recobrou, meio sem saber o que tinha acontecido. 

Até hoje quando penso na cena não vejo outra forma de explicá-la sem creditar o final feliz ao preparo e à excelência da formação daquele professor de Educação Física, do qual conseguia também lembrar o nome até bem pouco tempo atrás. O que me faz pensar que nosso país andou para trás. Pode parecer menos importante até falar em educação física quando se está cercado por uma realidade que devolveu o Brasil ao mapa da fome das Nações Unidas. A única certeza que tenho é a de que se um dia o Brasil vier a ser um país notável não terá sido sem reconhecer o que a Educação Física pode fazer por nós, pelo homem, por um povo.  

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Entrevistas



Muito já se falou sobre as entrevistas do mundo do futebol. Recai sobre elas há tempos a fama de serem na maior parte das vezes um teste de paciência. Prova disso é que o velho clichê que diz que as perguntas são sempre as mesmas porque as respostas são sempre as mesmas se viu consagrado. Definição que no fundo esconde uma queda de braço entre quem pergunta e quem responde. O motivo é muito claro, ninguém quer pra si o ônus dessa coisa rasa e de má fama. Fato é que boas entrevistas são cada vez mais raras. Mas seja como for seguirão sendo fundamentais. E assim sendo é interessante notar como têm um lado pouco explorado. O do desconforto que são capazes de gerar.  De outro modo não teriam virado algo obrigatório nos grandes eventos. E se viraram não há de ter sido somente por que  celebridades depois de certo tempo e de alguns milhões de likes possam passar a lhe considerar algo  dispensável, um mero transtorno causado pela fama.  

Duas semanas atrás nem todo mundo falou do vivido pela tenista japonesa, número dois do mundo,  Naomi Osaka, que depois de vencer na abertura de Roland Garros, se negou a dar entrevista e, multada pelos organizadores, acabou abandonando o torneio. Não sem antes ter explicado que tal atitude se devia ao momento que estava passando e à ansiedade que saber que teria de conceder entrevistas lhe causava.  Na esteira dos acontecimentos ficamos sabendo que Naomi luta contra a depressão desde 2018.  



Outros dois fatos recentes acredito merecem citação quando se fala de entrevistas. O primeiro evidenciou a importância e o peso delas. Nossa seleção estava concentrada quando explodiu a notícia de que o Brasil iria sediar a Copa América. Em um primeiro momento, pasmem , os únicos que falaram sobre o assunto foram o presidente da República e o Ministro da Casa Civil. Nada de CBF, nem atletas. Quem cobria a seleção precisou esperar dias até que o protocolo das Eliminatórias fizesse da entrevista de Tite uma obrigação. Do tal manifesto que encerraria essa novela nem vou falar.  

A outra foi uma entrevista concedida pela surfista Maya Gabeira que tivesse sido dada no universo do futebol talvez tivesse tomado contornos bombásticos. Isso porque Maya, que anos atrás quase morreu ao surfar um onda gigante, afirmou que seu companheiro na aventura, o respeitado Carlos Burle, tinha cometido certos erros ao tentar resgatá-la. Sabe-se lá se para dar conta do que manda o bom jornalismo, ou se na tentativa de fazer a declaração render mais likes, não tardou e Burle estava sendo ouvido.  E aí mora o detalhe. 



Burle teve a grandeza de driblar o óbvio. Afirmou sem titubear que compreendia o que Maya tinha dito, que aquilo poderia ser uma forma dela lidar com o ocorrido. Que tinha consciência de que de lá pra cá alguns protocolos de segurança tinham mudado e que talvez hoje agisse diferente. Manteve a postura  serena até para rebater a declaração de Maya que sugeria que o acidente teria sido provocado por uma certa insistência de Burle para que ela encarasse a tal onda que quase lhe custou a vida. 

Seria salutar que as pessoas que estão constantemente envolvidas em entrevistas, seja para perguntar ou para responder, notassem essa possibilidade. Quando se trata de futebol, por exemplo, também é comum as pessoas dizerem que o futebol anda chato porque todo mundo é muito polido. Ninguém tira mais sarro, nem ousa provocar rivalidades, nem falar delas. Mas isso tudo é muito complicado. É preciso perceber o contexto. porque dependendo dele, o dito atualmente - e mais do que nunca - se torna uma afronta, um desrespeito, ou servirá apenas para alimentar manchetes capazes de gerar mais acessos no mundo digital.       


sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Absolvição e castigo



O que vai aqui não tem a alma de um artigo. De crônica, talvez. O assunto frequentou as páginas de jornais e de portais nos últimos vinte e poucos dias. Mas duvido que o povão, essa entidade abstrata muito citada no meu tempo de moleque para se defender um ponto de vista, teve algum interesse nele. E se teve deve ter sido mais por picuinha, para marcar posição, do que propriamente como reflexo de algo que  importava. Interessante notar que não se fala mais nesse tal povão. O tempo fez questão de dividi-lo. E é justamente essa divisão que fez o tema virar o que virou. Sem contar , é claro, o faro apuradíssimo do Superior Tribunal de Justiça Esportiva, para questões que o coloquem sob os holofotes. Sem elas desfruta de um ostracismo quase absoluto. 

O fato é a jogadora de voleibol, Carol Solberg, ter soltado um já famoso " Fora Bolsonaro" ao final de uma entrevista. A atleta tinha acabado de conquistar o terceiro lugar em uma das etapas do circuito brasileiro. O enredo a partir daí foi trivial. A fala se fazendo viral nas redes sociais, os defensores do presidente - sempre tão digitais - proferindo ameaças. E o STJD dias depois a denunciando em dois artigos.  O primeiro por deixar de cumprir ou dificultar o cumprimento do regulamento. E o segundo por assumir conduta contrária à disciplina e à ética desportiva não tipificada pelas demais regras do código. Notem a dificuldade para enquadrar a moça. Foi preciso buscar um artigo que  dissesse respeito e algo que não estava previsto. Minha primeira reação foi similar a que teve a campeã, Ana Mozer. Tudo isso por um fora Bolsonaro? Jura?, escreveu a jogadora de vôlei campeã mundial no twitter. A partir dali não tirei mais o assunto do horizonte. 

Mas a minha análise não estava sobre o ocorrido, estava na reação das pessoas e entidades que se pronunciaram a respeito dele. Desde a Confederação, cuja postura desde o início deixou transparecer outras preocupações, passando pela Comissão de Atletas de Praia, afirmando não ser favorável a nenhuma manifestação de cunho político em competições esportivas. Sem, talvez, notar o quanto uma posição dessa pode lhe impor limites. No Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil que se colocou à disposição para defender a atleta do que considerou uma violência. No julgamento sendo adiado em virtude do pedido da Associação Brasileira de Imprensa e do Movimento Nacional de Direitos Humanos terem pedido para tomar parte no processo, o que foi indeferido. 

E vi, com alegria, Radamés Lattari, CEO da Confederação dizer com todas as letras que não gostaria de ver Carol Solberg punida. E que nenhum dos cinco patrocinadores da Confederação tinham reclamado do ocorrido, inclusive o Banco do Brasil que, ao contrário do que foi dito, não patrocina a atleta. Um dos últimos lances teve o Ministério Público do Rio entrando em cena e pedindo à CBV e ao STJD explicações sobre a denuncia. Escrevi tudo isso antes de sair a sentença, que eu sabia teria muito de nós, do nosso momento. Não errei. Carol foi advertida, avisada que provocar uma nova situação semelhante a colocará na condição de reincidente com as implicações previstas. Nada de multa ou suspensão. Enfim, um lamentável e singular caso em que a absolvição foi ao mesmo tempo castigo.   

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Quem precisa de Olimpíada?



A intenção pode ter sido das melhores. O Barão de Coubertin pode merecer absolvição. Mas que os Jogos Olímpicos há tempos tomaram outro rumo não resta dúvida. Talvez para lhe resgatar o espírito, fosse necessário lhe dar um quê da várzea.  Um jeitão simplório que realmente nos convencesse de que se trata de algo feito para todos. Mas vimos de perto do que se trata. Os elefantes brancos andam por aí na outrora irresistível paisagem carioca. Sem falar no fato de que uma vez apagada a chama olímpica o COI lava as mãos. Uma postura coerente e cidadã seria se sentir de algum modo responsável quando o legado não vem ou quando as contas saem do controle. 


É claro que o tema me fisgou por conta do descontentamento que os japoneses vão fazendo questão de mostrar com relação aos Jogos de Tóquio, adiados para o ano que vem por conta da pandemia. E mais recentemente pelas declarações descabidas e insensíveis do vice do COI, John Coates, e depois da Ministra da Olimpíada de Tóquio, Seiko Hashimoto. O primeiro afirmou que a Olimpíada será realizada "com ou sem covid". E a ministra, que os Jogos serão realizados "a qualquer preço".  Aos poucos  vamos vendo que nem os japoneses, que reconhecemos entre outras virtudes pela honestidade e pelo pragmatismo, são capazes de não se macular por esse tipo de evento. Ou pelo que ele virou. 


Vejam, a previsão inicial de gastos era da ordem de seis bilhões de dólares, cerca de trinta e seis bilhões de reais. O adiamento trará novos gastos. Mas na última vez que se falou nisso por lá - pois não se fala sempre - foi em dezembro de 2018. E a conta já havia saltado para assustadores doze bilhões e seiscentos milhões de dólares, ou sessenta e cinco bilhões e meio de reais.  Semanas atrás a capital japonesa foi palco de um protesto. Inversamente proporcional a essa conta. Cerca de uma centena de pessoas se reuniram e pediram não só o cancelamento da edição marcada para Tóquio, mas também das próximas marcadas para as cidades de Paris e Los Angeles. Isso mesmo! Pediram o fim dos jogos, por considerá-los desnecessários aos cidadãos do mundo. 


Posso ter dúvidas sobre acabar com eles, mas não tenho nenhuma sobre a necessidade de se colocar de uma vez por todas um fim em gastos dessa dimensão. Confesso que no último ciclo olímpico quando cidades importantes desistiram da candidatura tive a impressão de que veríamos algum movimento nesse sentido.  Sensação que encontrava amparo também na realidade que estávamos vivendo ao ver a conta dos jogos do Rio e suas promessas não cumpridas pairando como fantasmas sobre nossas cabeças. Pensei que o mundo tivesse tido uma boa prova de que era preciso mudar. 


Mas a máquina olímpica é insaciável. Mesmo com todos os engasgos econômicos do planeta os nossos mais de quarenta bilhões de gastos com os jogos já foram ultrapassados com larga margem. Um recorde de cifras que enche os olhos de alguns mas que soa infinitamente descabido. Uma realidade que elucida o que virou o esporte. Uma realidade que desvirtua. Enquanto a beleza resiste. Ou alguém duvida que ver um dia um homem conseguir correr os cem metros abaixo de nove segundos e cinquenta centésimos deixará de ser raro e belo só porque o estádio que abriga a pista em que ele corria não foi reformado ou é velho?