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quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Um provocador barato



Entre tantas constatações a que o futebol nos tem levado aquela que diz que o jogo anda chato costuma soar insistente. Mas é interessante notar que quando alguém vem com essa muitas vezes não quer colocar no divã o jogo. Quase sempre o comentário diz respeito aos que o praticam. Há por trás de tal colocação a saudade de certos personagens que com seu jeitão acabavam por emprestar alguma graça ao futebol. Foi-se o tempo em que artilheiros usavam os microfones dos repórteres para fazer apostas antes de um clássico e tal.  Sou capaz até de afirmar que foi com essa tática que muito jogador meia boca ao longo da história se fez notar e garantiu um lugar de destaque nela sem que a habilidade com a bola lhe fosse realmente fina. 

Nesse universo tivemos um fora de série, Dadá Maravilha, cujo virtuosismo retórico dispensava coadjuvantes ou desafiados tamanha era a capacidade dele para se autodefinir e se promover que não tenho medo de lhe apontar como exemplo mor dessa arte. Tipos eram muitos. Mesmo Renato Portaluppi, hoje treinador do Grêmio, quando jogador integrou esse time. Mas com um discurso cuja receita não disfarçava uma dose alta de malandragem e vaidade. Esse vazio mostra bem a pobreza do futebol já que até de personagens falastrões andamos carentes. E se aqui faço uma ode aos que deram notória contribuição para tornar menos chato o jogo aproveito pra dizer que tiro o chapéu para os que foram capazes de colocar na fórmula os adversários a tornando mais humana. 

Deyverson, o Deyvinho, que hoje veste a camisa do Atlético e virou notícia na vitória do time mineiro sobre o Grêmio dias atrás há tempos tenta um lugar no panteão dos folclóricos. Perguntado sobre o fuzuê que encenou com os adversários se defendeu dizendo que era assumidamente um provocador e que não teria como mudar de estilo. Foi acusado de querer crescer pra cima de um jovem lateral que iniciava pela primeira vez uma partida como titular. E, se assim foi, o ato se vestiu mais da velha malandragem do quede estilo. É fato que não tivesse Deyvinho vira e mexe marcado gols importantes seu viés presepeiro já estaria escancarado. Mas Deyvinho não é exatamente o cara do sarro saudável, do tipo que chama para cena um adversário. 

Não custa lembrar que muitos dos desafios que jogadores de outros tempos encaravam tinham até uma pegada social pois a moeda cansou de ser doação de cestas básicas. Confesso que considero Deyvinho figura simpática mas a provocação dele redunda em desserviço para o futebol brasileiro onde encenações grotescas só engrossam a chatice do jogo.  Já entrou para a história o lance na final da Libertadores diante do Flamengo em que Deyverson se atira ao chão, simulando dores lancinantes, sem se dar conta de que o leve toque que tinha recebido nas costas havia sido dado pelo juiz da partida. Um caso explícito em que um gol importante acabou - sem que se notasse - lhe servindo de atenuante. De outra forma justificaria o veredicto de que tem mais vocação para a comédia do que para o futebol.  Além do mais, até hoje o único provocador verdadeiramente elogiável que conheci atendia pelo nome de Antônio Abujamra. Que aliás, me disse mais de uma vez que tinha jogado no Internacional e, creiam, mandado para reserva o lateral Oreco, por sua vez reserva de Nilton Santos na Copa de 58. Se liga, Deyvinho! 

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Retranqueiro: ser ou não ser?




Já tive a oportunidade de dizer aqui em outro momento que a retranca com o passar dos anos foi ganhando ares de maldita. Pode-se desfiar uma longa teoria a respeito. A minha tiro do modo como a tal foi sendo encarada ao longo dos anos. Ouso dizer que em outros tempos era vista como um dogma do futebol do qual não se ouvia falar mal.  Hoje em dia a coisa está longe de ser assim. Que o diga o laureado técnico Tite. A coisa tanto o cerca que dias atrás ele falou sobre o assunto. Na verdade rebateu com veemência que o queiram ver como retranqueiro. 

A coisa tem muitas nuances. Há retrancas que não anulam a vontade de gol de um time. Há outras que os reduzem a ela. Diante disso, talvez seja pertinente lembrar o que escreveu certa vez Fernando Pessoa. Afirmou o poeta que há arte até no fazer embrulhos. Não foi por acaso que o assunto veio à tona. O Flamengo de Tite nesta temporada anda fazendo gols em número considerável enquanto sua meta até a declaração citada tinha sofrido um único gol. Não me caem bem certos termos para definir a fixação de um time, ou de alguém, para com o setor defensivo. Chega a me dar arrepios ouvir alguém dizer que fulano fechou a casinha, ou que estacionou um ônibus na área pra evitar levar gols. Se não tens muita intimidade com o jogo não se espante. São coisas ouvidas quando não se tem dúvidas sobre ser ou não ser retranqueiro. 

Os argumentos de Tite para se descolar dessa condição foram fortes. Disse que carrega o estigma do gaúcho.  E isso por si só permitiria que desfiássemos outra longa teoria. Disse que saiu do Rio Grande do Sul fazendo três a zero no Grêmio de Ronaldinho. Disse que a história dele tem título com o Grêmio fazendo três a um no Corinthians entrando com bola e tudo no terceiro gol.  Lembrou ter sido campeão mundial de clubes diante do Chelsea criando oportunidades e - usando um termo muito boleiro - indo pra dentro. Embalado no assunto, recordou que pegou o Corinthians pra cair e que precisou ser competitivo com um time que tinha quatorze garotos. Que pegou o Palmeiras na mesma situação, ameaçado de rebaixamento e precisando de uma reformulação extraordinária. E que deu conta disso tudo. 

A mim não resta dúvida da sua capacidade profissional. Foi por mérito que ele agora tem nas mãos o melhor elenco do país. E quero crer que saberá tirar proveito disso. Estava coberto de razão quando disse que é preciso ter cuidado com os rótulos. Acho tudo muito pertinente. Mas devo dizer que quando falava do assunto com um amigo o senti um tanto impaciente. Não demorou muito e, enquanto eu ainda falava, ele me cortou bruscamente e disse: é eu sei, mas e as duas Copas que ele têm nas costas? Argumento afiadíssimo. E que me fez lembrar de Luigi Pirandello. O romancista italiano fez questão de alertar seus leitores , com veemência também, que a gente não é o que pensa que é, nós somos o que o mundo vê. 

O que, ao mesmo tempo, me deixou com a sensação de que este assunto é mesmo bom. Permitiu citar Pessoa e Pirandello num mesmo artigo! Que tabelinha essa! Tite não dirá jamais que a defesa é o cerne de sua estratégia. O que parece óbvio olhando a trajetória dele. Eu, de minha parte, vos digo que nada tenho contra a retranca. Por estilo, prefiro sempre a ofensividade. Só peço aos que decidiram a abraçar que a exerçam, mas com elegância, na medida do possível. Como, talvez, seja o caso de Tite.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

O Flamengo, o Peixe e a torcida




O coro xingando  Renato Gaúcho no Maracanã enquanto se desenhava a vitória do Athletico Paranaense que eliminou o Flamengo da Copa do Brasil foi das cenas mais impactantes dos últimos tempos. Sensação muito provavelmente realçada pela condição em que foi transmitida.  Com o áudio ambiente em destaque  e com a imagem do treinador e seu semblante pra lá de desconfortável em primeiro plano com a arquibancada que cantava o coro ao fundo.  Tudo sendo mostrado simultaneamente.  Arrisco dizer, inclusive, que pode ter sido esse, mais do que a derrota em si, o motivo dele ter entregado o cargo depois do jogo. O que não foi aceito pelos dirigentes. 

O que me faz pensar isso é que desde sempre existiu no trabalho do Renato Gaúcho essa mística com a torcida. Seus trabalhos sempre estiveram um tanto ancorados nessa relação desenhada desde os tempos de jogador.  Foi assim no Grêmio, é um pouco assim no Flamengo e também foi assim na época do Fluminense, ainda que com outra intensidade.  Mas naquele momento tudo isso pareceu ter caído por terra.  O calor da torcida tem um preço, que pode ser alto. Gabigol quis falar depois do jogo. O que não costuma ser normal.  Talvez tenha percebido que era preciso estabelecer um diálogo com a torcida naquele momento. Evitar que a ruptura fosse maior. O afastamento. 

Isso tudo pode apontar um caminho para o Santos nessa reta final de Brasileirão que se revela dos maiores desafios que o clube já viveu. Em poucas palavras: é preciso ter a torcida junto. Que uma vitória melhora qualquer relação todo mundo sabe. Duas, então, nem se fala. O jogo contra o Fluminense deixou isso muito claro. Depois do primeiro gol naquele duelo de tudo ou nada  deu-se uma verdadeira transformação. Claramente visível. No time e na arquibancada. Em uma situação dessas vale tudo. Um encontro com craques do passado, o capitão do BOPE, o sal grosso, a troca do executivo de futebol. 

Mas na minha modesta opinião cuidar da relação do time com a torcida  é crucial. Sabemos todos que a Vila faz tempo, desde antes da Pandemia,  já não fazia jus a velha alcunha de Alçapão.  Coisa que se resgatada seria uma vitamina danada. E olha que o time viveu bons momentos em sua história recente, ainda que improváveis como já dito aqui. Estou convencido que a essa altura nem se trata de uma questão numérica mas de animosidade. Que venham os verdadeiramente dispostos a colocar o time pra frente, a gritar mesmo quando no gramado a situação por ventura venha a se complicar.  

No final de semana a Vila será palco de mais um clássico, no qual o Peixe está longe de ser favorito.  O adversário será o Palmeiras que, criticado como poucos até semanas atrás, dá a impressão de que vive um embalo poderoso. O Grêmio que atravessa situação ainda pior que a do Santos e foi a última vítima do time palmeirense, depois de tudo o que viu acontecer em sua Arena, e ouvir o vice de futebol dizer que a torcida estará com o time até o fim, recebeu uma punição e jogará em casa com portões fechados e sem cota de ingressos quando for visitante. Mais acertado seria dizer que em momentos assim não poder contar com a torcida tem tudo para ser fatal. Os espertos aprendem com a lição dada aos outros. 

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Nem tudo está perdido

                                                                Foto: Cesar Greco

Aos saudosistas eu digo que há esperança. Nem tudo está perdido quando se trata de futebol. Vejam, a capacidade que o jogo sempre teve de nos surpreender, por exemplo. Quero crer que ela segue, se não intacta, viva.  As mudanças e a dinheirama podem a ter enfraquecido mas ela resiste. Impressão que se renovou na retumbante queda do Flamengo na Libertadores. Ainda que tratar um time com a tradição de um Racing como zebra possa ter em si algo de heresia. E pode parecer cruel dizer mas essa mesma virtude do jogo de bola esteve refletida na classificação do Santos diante da LDU. Talvez em menor grau, mas esteve. Normal que a essa altura muitos digam que  tinham apostado todas as fichas no time santista. Digo mais. Não é surpreendente ver o Santos envolvido na disputa por uma vaga na semifinal do torneio continental com o Grêmio e perceber que muita gente enxerga nesse duelo uma ausência de favorito? 

Outra coisa que a queda do Flamengo mostrou é o quanto essa coisa de mudar de time no meio da temporada pode fragilizar um treinador. Parece óbvio que parte da sedução exercida sobre Rogério Ceni, que o fez mudar de ares, estava além de toda a tradição do time carioca. Estava na possibilidade de conquistar títulos importantes em curtíssimo prazo.  O que podendo contar com um elenco de respeito como o do rubro-negro estava longe de soar descabido. Um preço que Abel Braga anda pagando também por ter aceitado voltar  ao Internacional. Embora, claro, a história dos dois seja infinitamente distinta. Rogério Ceni nesse caso tem muito mais a perder. 

E por falar em treinadores que chegam no meio do Campeonato a boa surprese é o português, Abel Ferreira.  Jovem, de  currículo modesto, mas que tem se mostrado apto a fazer do Palmeiras um time  capaz de jogar um futebol com o qual o torcedor sonhou durante muito tempo. O que na mão de muitos pareceu impossível.  Os que costumam frequentar este espaço já puderam notar minha simpatia pelo tipo de discurso que Abel tem apresentado, pela forma de explicar o que anda fazendo. Só o fato de ter aportado por aqui e demonstrado interesse profundo na história do clube que iria comandar, sem que isso soasse artificial mas sim fruto de alguma preparação, já seria o suficiente para distingui-lo do todo. 

Nós aqui, mesmo íntimos do futebol brasileiro,  poderíamos enxergar um Palmeiras que não fosse acadêmico. Um Palmeiras bem sucedido até como foram tantos, mas que nem por isso entraram para a história como uma academia. Vai saber. De repente, para alguém que tenha começado essa relação pelos livros é possível que lhe tenha soado inconcebível pensar num time que não tivesse um futebol vistoso como meta. Abel, que entrou no mira do clube alviverde por obra de analistas de desempenho, que testou para Covid e viu de longe o time dele patinar diante do Libertad na terça, dias atrás deu o que falar ao afirmar que não imaginava o menino Gabriel Véron vendido por uma soma de dinheiro menor do que a que foi dada a Neymar.  Exagero? Talvez. Quem sabe exatamente como se distribuem as cifras nesse mundo da bola? Algumas são óbvias, outras surpreendentes, como o jogo. Só não são inocentes, sou levado a crer. 

quinta-feira, 9 de abril de 2020

O que realmente importa



A frase é das mais lembradas, desgastada até, entre as tantas que o dramaturgo, Nelson Rodrigues, cunhou com imensa maestria. É, inclusive, das mais citadas  no meio esportivo. Falo daquela que decretou certa vez que o futebol é a coisa mais importante dentre as coisas desimportantes. E os que, se dizendo apaixonados pelo jogo de bola, ao longo do tempo se recusaram a admitir a precisão do pensamento nela contido a essa altura tiveram bons motivos para mudar de opinião. Compreendo, era realidade não imaginada  ficarmos todos de uma hora para outra sem um mísero jogo de bola sequer para nos distrair. Mais desafiador que isso para o nosso "modus vivendi" só mesmo a notícia de que a novela das nove, que um dia foi das oito, iria sair de cena. 

Pode parecer cruel de minha parte, dado meu ofício, mas digo que o que a realidade nos impõe neste momento é tratar o futebol exatamente desse modo, desimportante. Pois há um número enorme de coisas verdadeiramente importantes para se cuidar. E a pressão para que a bola volte a rolar não será pequena. Desde sempre os cartolas foram bons nisso, em colocar quem manda no bolso. Não são pequenos comerciantes, se é que me faço entender. E não só a pressão não será pequena como certamente os homens da bola neste exato momento estão tramando e se mexendo para contar com a ajuda do governo, colocando na mesa o velho argumento de precisar equilibrar suas contas desequilibradas por natureza. 

Vejam, se na Inglaterra o cultuado Liverpool - cujo valor de mercado em nossa surrada moeda beira os cinquenta bilhões de reais - andou de olho em recursos de um fundo que tem como finalidade proteger trabalhadores durante a pandemia, e disso só desistiu depois de perceber que a intenção tinha pegado muito mal, imaginem vocês o que não pode se dar por aqui. É bom ficar atento. Principalmente porque o esporte se faz neste momento, como sempre, um espelho fiel da sociedade, onde os abastados terão seus trunfos enquanto aos menos favorecidos restará gritar na esperança de que algo seja feito por eles. Se neste momento o futebol se apresenta como um necessitado pensemos no que não andam vivendo então outras modalidades e seus atletas. 

No mais, se me perguntarem do mar vos digo. Apreciei vê-lo mudar de humor com a beleza ímpar com que sempre o fez. A tragar as areias, a invadir os canais. Como gostei de ver saltar a veia poética de Nelson Rodrigues, o homem que certo dia disse que se negava a acreditar que um político, nem mesmo o mais doce deles, tivesse senso moral. Se estava certo ou não os dias estão aí para desafiá-los. Não que eu tivesse dúvida a respeito da poesia em Nelson. Alegro-me pela constatação, e só. Como escreveu , Nilo Oliveira, sabiamente citado outro dia pelo amigo Marcelo Montenegro," o poeta é o que acerta de raspão - e o tempo se encarrega de colocar o alvo no lugar exato  onde o poeta supostamente errou". Palavras que soam ainda mais perfeitas nessa hora em que precisamos discutir o futebol como a coisa mais importante... dentre as coisas desimportantes

* artigo escrito para o jornal "A Tribuna", de Santos/SP