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quinta-feira, 12 de junho de 2025

Dá um tempo?



Digo a vocês que vejo no tempo uma grande lente. Só ele nos aclara as coisas. Tô chegando filosófico, eu sei. Mas não tarda e a prosa vai desaguar em algo mais terreno. Insista na leitura e verá. É que o cotidiano quase sempre nos dá a impressão de não estarmos saindo do lugar. Mas sempre estamos. O aprendizado de um instrumento é das tarefas que, pra mim,  mais corroboram essa sensação. Você morde a língua aqui, estica o dedo pra fazer soar uma nota ali e quase se convence que não nasceu pra isso. Mas Insiste na coisa. Repete, repete, e um dia lá na frente percebe que evoluiu, que aprendeu algo, ainda que não tenha virado nenhum Stravinski.  

Vejam, acabamos de testemunhar o debute de Carlo Ancelotti no comando da Seleção. Que de cara o italiano conseguiu acabar com a modorra da Data FIFA é fato. Mas  não se trata de verdade absoluta. O próprio lugar que Ancelotti terá na história do nosso futebol só o tempo verdadeiramente revelará. O mesmo tempo que poderá nos mostrar que essa primeira impressão foi só um efeito colateral de algo tão novo, se as datas FIFA seguirão nos assombrando. Mesmo com Ancelotti na área entendo completamente aqueles que perderam a paciência com a Seleção. O que me faz pensar o quanto o escrete nacional terá de jogar para reconquistá-los. A lente do tempo irá nos mostrar. 

Mas resta nesta quinta um pouco do nosso cotidiano boleiro. Uma rodada do Brasileirão já sem os que têm compromisso marcado com o Mundial de clubes. No Castelão, o Fortaleza recebe O Santos. Jogo em que uma vitória, dependendo de outros resultados, poderá trazer com ela o simbolismo de sair da zona de rebaixamento. Digo simbolismo porque se trata de uma condição à qual o futebol dos dois dá um certo ar efêmero. Difícil acreditar neste momento que não seguirão às voltas com ela. Se a fase do time cearense é a pior da era Vojvoda, não pense o Santos que está muito longe disso. E que tenha humildade de reconhecer que o tempo fez o adversário de hoje atualmente mais bem sucedido do que ele. O que me faz  acreditar que a tal lente do tempo pode também diminuir um clube dito grande. 

E por falar em tempo, que chance terá na noite de hoje o Cruzeiro, no Barradão, diante do Vitória. O time celeste dirigido por Leonardo Jardim, que derrotou o Flamengo, que derrotou o Palmeiras, com um triunfo será catapultado à liderança do Brasileirão. Conquista muitas vezes passageira mas que o recesso imposto pelo Mundial de clubes fará durar sem ameaças por um mês.  O que não deixaria de soar como um prêmio por toda a graça que emprestou ao Brasileirão nas últimas semanas. E se o Cruzeiro chegar lá terá vencido também uma certa secação porque o Bragantino, dono da mesma pontuação, se vencer o jogo com o Bahia em casa e a raposa tropeçar na capital baiana é quem vai desfrutar dessa liderança temporalmente longa. 

No Morumbi, o São Paulo, recordista de empates no torneio e que vem de derrota, enfrenta o Vasco. Não bastasse a proximidade dos dois com a zona do descenso, um resultado adverso terá tanta contundência e longevidade quanto a liderança de que estávamos falando. Estranha alquimia essa em que um Mundial cravado no calendário ganha o poder de tornar um resultado um tanto mais eterno. No mesmo horário o Atlético Mineiro irá receber o Internacional. E a essa altura já estará quase desenhado o enredo da visita do Corinthians ao Grêmio. Corinthians pra quem neste momento o tempo parece ter escancarado todas as mazelas.    

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Qual é a desse Mundial?

Foto: Reprodução/FIFA


O momento me permite dizer que se você acha que já viu tudo em matéria de futebol está enganado. Vem aí o Mundial de Clubes da FIFA, que será disputado nos Estados Unidos a partir do próximo dia quinze. Dar de cara com uma competição recém criada não é exatamente novidade. Mas a envergadura do que está pra começar provoca reflexões. A primeira delas: como não estar alinhado com o calendário europeu nos cria uma espécie de realidade paralela. Enquanto os poderosos esquadrões europeus  deram conta de seus torneios, entre nós a recém-criada competição estancará tudo num momento em que os clubes começam verdadeiramente a se colocar na temporada. E não se trata de algo breve. O Mundial irá durar um mês. 

Para além da curiosidade inevitável de saber como é que os brasileiros convidados para a festa irão se sair no meio dos supostamente melhores times do planeta paira no ar também certa curiosidade sobre quais serão os efeitos colaterais que serão vistos quando eles voltarem para dar conta do que deixaram por terminar. E não só eles, mas os que aqui ficaram em compasso de espera. Claro que essa realidade nova impõe um desafio de planejamento, um desafio físico. Fico me perguntando se os brasileiros que lá estarão prepararam tudo para chegar no auge de suas capacidades, ou se apenas encaixaram o novo compromisso no meio de tudo acreditando que, seja qual for o tamanho da glória embutida nisso, é aqui que eles terão de seguir a vida depois. 

Tudo tão importante que a FIFA tratou, inclusive, de criar uma janela de transferência excepcional, aberta no último domingo e que permanecerá assim até a próxima terça. Iniciativa nova que é fez a entidade máxima do futebol  ter lidar ainda com aspectos do dito futebol moderno e proibir que clubes controlados pelos mesmos proprietários - ou empresas - viessem a se enfrentar. Era o caso de dois times mexicanos, o León e o Pachuca. O primeiro acabou excluído. E o segundo estará no Mundial. A vaga em aberto foi decidida no último sábado pelo Los Angeles, dos Estados Unidos, e o América, do México. Ficou com os americanos em grande estilo, graças a uma virada na prorrogação. E, detalhe, a vaga é do grupo em que está o Flamengo. 

Também tenho curiosidade pra saber o lugar que esse tal Mundial irá ocupar no imaginário dos brasileiros que gostam e acompanham futebol. Aos que por ventura venham a se apaixonar ou torcer o nariz pra ele aproveito pra lembrar que depois dessa edição o torneio passará a ser disputado a cada quatro anos. Como virtude,  tendo em vista a legitimidade daqueles que irão nos representar, o Mundial talvez possa nos oferecer uma oportunidade mais profunda de descobrir o que pode o futebol brasileiro em termos planetários, seu verdadeiro nível de competitividade, que vira e mexe até as nossas copas continentais fazem virar uma grande dúvida. 

De certo mesmo, por hora, só o sucesso comercial dessa empreitada que a FIFA se esmerou para colocar em curso. E sabe-se lá tendo de remover quantas montanhas de interesses. Uma revisão orçamentária feita no meio do mês passado apontou que o Mundial irá gerar uma receita de dois bilhões de dólares. Quantia considerável, se lembrarmos que no ciclo que separou as últimas duas Copas do Mundo o faturamento foi de aproximadamente sete bilhões e meio de dólares. Tanto poderia ser dito a respeito. Mas acho que a questão é: cifras à parte, o novo Mundial irá enriquecer o futebol mundial?