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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Era uma vez o Paulistão




O tema não é novo. Há tempos os torneios estaduais minguaram. E, por mais que possa parecer, a razão de sua teimosa sobrevivência não está na tradição, está nas cifras que sustentam. O que vale, principalmente, para o Campeonato Paulista. De longe o mais abastado entre seus semelhantes. Talvez o tema se faça um tanto sem sentido para os mais novos, que já os conheceram despidos de trajes nobres. A coisa mudou tanto que chego a ter a impressão de que hoje em dia um título estadual 

não teria apelo suficiente para livrar verdadeiramente um time grande da sensação de jejum e de toda cobrança que se dá na ausência de triunfos. 


Foi-se o tempo em que um Estadual cumpria o papel que cumpriu a edição paulista de 1977 quando o Corinthians ao bater a Ponte Preta levou a fiel torcida até o céu que o jogo de bola sempre promete. Com direito a suspensão das aulas e outras tantas alterações no cotidiano só possíveis quando esse tipo de caneco era cultuado pra valer. Nem seria preciso recuar tanto no tempo para explicitar o que a história fez com eles. As duas finais  entre Palmeiras e Corinthians no início dos anos noventa, lembro bem, ainda tinham aura nobre, provocavam uma mobilização considerável. Mas sou obrigado a reconhecer que àquela altura a rivalidade entre os dois, é bem possível, já cumpria sem que se percebesse o papel de turbinar importâncias. 


Final 1995 - Foto: Ricardo Correa -Placar



E essa decadência, tão evidente, este ano ganhou outra dimensão. Não bastasse a diminuição das datas reservadas a eles, o ajuste do calendário que adiantou o início do Brasileirão o condenou de vez à sombra. Sou capaz de entender as razões. Não sou um lunático disposto a bradar contra os times mistos, os times poupados, os times de base no lugar do profissional. Nada disso. Apenas acho que isso tudo abriu um precedente e, amparados nele, muitos resolveram jogar contra os estaduais também. A CBF que, quando viu a bola pingando na área com a necessidade de mexer no calendário em ano de Copa, não pensou duas vezes para lhes tomar algumas datas, já que isso viria a servir por tabela para minar e mandar recado a quem tinha se revelado oposição. 


Mas, na minha opinião, o golpe que parece ter levado os estaduais às cordas, em especial o outrora chamado Paulistão, é uma mescla que une a inoperância dos dirigentes ao comodismo dos treinadores. Ao menos é essa a impressão que tive ao acompanhar alguns jogos neste início de temporada. Pra mim é visível a falta de interesse de muitos times para jogar essas partidas. E aí é claro que falo de times que têm horizontes que vão além das fronteiras estaduais. Ainda que para alguns essa condição seja discutível. São muitos os momentos em que fica claro que ​a vitória deixou de ser prioridade. Se pensa nela até, mas sem estar disposto a correr riscos, a agredir o adversário. 


E o resultado desse tipo de escolha sabemos todos é um jogo no estilo "tico-tico" no fubá que não tem tamanho. Entenderia totalmente o torcedor que se levantasse da arquibancada, dando às costas ao time, gritando que lhe avisassem quando estivessem a fim de jogar bola, pois aí quem sabe decidisse voltar.  Como afirmei acima, entendo muitas questões, mas as propostas, as ideias de jogo que se apresentam, beiram a covardia. Num tempo em que os entendidos afirmam que a ciência nos deixa saber exatamente quantos minutos um atleta pode atuar, a ausência de intensidade não se justifica. Conclui-se que quem foi a campo estava apto ao embate. Ou, os elencos no início da temporada são mesmo um mar de atletas meia bomba. O Flamengo anda reforçando essa tese.  

quinta-feira, 27 de março de 2025

Dia de decisão



Esta noite, quando Corinthians e Palmeiras entrarem em campo para decidir o título paulista, o momento só não será maior porque a nossa realidade em dado momento amputou parte da magia do jogo ao decretar que ele tem de se dar com torcida única. Muito pode ser dito a respeito disso. Muito precisa ser feito. Já que por trás dessa questão há escondida uma derrota que é de todos nós. Pode-se até chegar à conclusão, em muitos momentos óbvia, de que o nosso nível de civilidade já não dá margem a revisões. Mas não se descobre isso sem tentar. E não tentar é cômodo. Mas é, ao mesmo tempo, um desrespeito com a história e a importância do futebol paulista e de todos os que estão nessa condição. 

A proibição em questão caminha para completar uma década. A decisão foi tomada numa segunda-feira, 04 de abril de 2016, motivada justamente por um clássico entre Corinthians e Palmeiras, disputado no Pacaembu, e marcado por vários confrontos antes e depois da bola rolar. Confrontos que se deram nas ruas e deixaram, entre outros saldos, uma vítima fatal.  Um dia depois dos acontecimentos, a pedido do Ministério Público, a Federação Paulista determinou que os jogos entre os chamados grandes times paulistas fossem realizados apenas com a torcida mandante presente nos estádios. A decisão foi anunciada pelo então promotor do Ministério Público, Paulo Castilho, e pelo Secretário de Segurança Pública na época, Alexandre de Moraes, que todos sabemos segue em cena encarando históricas divididas. 

Não quero justificar o que vai aqui com aquele argumento tão ouvido por aí de que há tempos os confrontos têm se dado longe dos estádios e não neles. O que quero é aproveitar a data e perguntar: será pra sempre? Estamos condenados a ver os clássicos paulistas até o fim dos tempos assim? Amputados? Seja como for, diante dessa realidade de alegrias repartidas o Palmeiras já teve direito ao seu quinhão. Saiu de campo derrotado pelo placar mínimo. E agora terá de encarar o grande rival sem poder pensar em empate, enredado por uma festa que promete ser grande e turbinada por uma vantagem trazida da casa adversária. Muito se fala na volta de Rodrigo Garro. Arrisco dizer que o Corinthians diante do quadro que se desenha seria capaz de competir mesmo se não pudesse contar com ele. Mas não dá pra não reconhecer o requinte que o argentino empresta ao jogo do Timão.  

Mas o corintiano deve mesmo é torcer para Menphis ter voltado inteiro e no embalo de ter marcado mais um gol pela seleção da Holanda. Gol que o deixou agora apenas três atrás do maior goleador que os laranjas já tiveram. Um tal de Van Persie que, eu digo, quem viu não esquece.  Já os palmeirenses são instados pelas manchetes a se empolgar com a volta do meio-campista Maurício. Diante disso, minha inocência manda escrever que há sempre um preço a se pagar pela ausência dos gramados. O que vale para Garro também. Quando se trata do jogo de bola lesões nunca são apenas dor e tratamentos. Por essas e outras, se tivesse que apostar em alguém no Palmeiras capaz de fazer a diferença no caldeirão alvinegro apostaria na juventude e, acima de tudo, no futebol assanhado do garoto Estevão. Dirão os pragmáticos que o título se faz mais indispensável para o Corinthians do que para o Palmeiras. Esse raciocínio pode fazer algum sentido, mas que quase se apaga diante de tamanha rivalidade. E mais, não dá pra dizer que o time de Abel Braga tem pouco a perder quando um triunfo corintiano colocará por terra a possibilidade de um tetra campeonato estadual que nem o Santos de Pelé alcançou.

quinta-feira, 6 de março de 2025

Eu quero ver gol



Mesmo correndo sério risco de ser tomado por um descontente incorrigível não resisti e vou dividir com vocês algumas reflexões sobre a proposta feita pelo ex-zagueiro do Barcelona, Gerard Piqué, dias atrás, propondo uma alteração não exatamente para acabar com os jogos sem gol mas para adequar as regras de modo a, digamos, condenar um jogo que termina sem bola na rede. À primeira vista pode soar extravagante mas, depois de ter pensado um tanto a respeito, estou convencido de que seria uma boa atitude em prol do futebol. Mirem-se no exemplo do refrão daquela música que muitos de vocês já podem ter cantado algumas vezes. Falo daquele que brada: eu quero ver gol/ eu quero ver gol/ não precisa ser de placa eu quero ver gol.  

Não é à toa. O gol condensa o que o futebol tem de melhor.  A ausência dele empobrece o jogo de bola. Sou capaz de entender quando dizem que há jogos que terminam com o placar em zero a zero e que são elogiáveis. Mas talvez o sejam por terem desenhado em campo insistentemente uma infinidade de lances daqueles nos quais, não havendo a influência de um acaso qualquer, teriam terminado com várias bolas no fundo da rede. A boa sugestão de Piqué prega que os empates sem gols passassem a não dar aos times ponto algum. Segundo ele, essa pequena mudança seria capaz de mudar radicalmente as partidas nas quais o placar não tivesse sido movimentado até a metade da etapa final. Nesse momento os jogos iriam se abrir, aposta Piqué. Não duvido. 

E fiquei a imaginar ainda que uma resolução desse tipo seria uma espécie de xeque-mate nas retrancas. Talvez as fizessem menos eficazes diante do ímpeto de quem não vê com bons olhos sair de campo sem ter conquistado ponto algum. Também não  deixo de considerar que a imensa valentia de certos treinadores tentasse em pouco tempo nos convencer de que em determinado momento não deixar o adversário pontuar seria algo pelo qual valeria lutar. Não custa lembrar que foram desejos parecidos que levaram os homens que cuidam do futebol a passar a premiar a vitória com três pontos e não dois como, agora podemos dizer, antigamente.  

O discurso à época era de que isso tiraria mais dos times. Mas temos visto muitos deles deixarem de fazer questão da vitória. E talvez não seja apenas o instinto de preservação dos nossos treinadores que esteja por trás dessa conduta. No mínimo, atendido o desejo do ex-zagueiro espanhol, não seria diante de qualquer empate que nossos comandantes poderiam dizer que conquistaram um suado pontinho. Pra isso teriam de orientar seus jogadores a tramar em campo um jeito de vazar a defesa adversária, nem que fosse uma mísera vez. 

Já ouço aqui o locutor afirmando com o entusiasmo de quem está convencido de que encontrou uma verdade: "senhoras e senhores, o que se vê é que o time roxo amarelo e marrom, depois de ter marcado o gol de empate, simplesmente abriu mão do ataque". Mas o que me encantou na sugestão é sua eficácia. Uma vez decretada não há drible possível. Não é como aquela história de fazer o goleiro repor a bola em seis segundos, coisa que nunca aconteceu. Só serviu para espelhar a nossa realidade cotidiana em que leis não costumam pegar. Não permitir que um jogo sem gols se traduza em algum ganho seria como aumentar a exigência do jogo por aquilo que lhe define, o gol. Esse detalhe, detalhe tão nobre.

quinta-feira, 28 de março de 2024

A nobreza de ser grande

Raul Baretta/ Santos FC


Não faz muito tempo no meio de uma conversa sobre futebol com um amigo ele me fez uma pergunta dessas para as quais qualquer resposta não soa definitiva. É como aquela outra, tão ouvida por aí, que nos exige dizer se técnico ganha ou não ganha jogo. A questão era: um time deixa de ser grande?  E eu me peguei imaginando a figura de um nobre que depois de umas tantas bolas fora acaba por ficar só com o título, com a comenda, quando tudo o que o cerca já não se renova com ar de realeza e ele passa a viver das lembranças de um passado que o tempo vai fazendo cada vez mais distante.  Dando aqui um drible na lógica, diria que um clube pode continuar respeitado pelo que já representou mas no presente se apequenar.  

Talvez um bom viés para analisar isso seria enxergá-los pelo faturamento. Afinal, nenhum nobre seria tido como nobre com seu poder de compra sendo dilapidado dia após dia. Entre os quatro ditos grandes clubes paulistas há notadamente um recorte. Neste momento de um lado estão Corinthians e Santos. Do outro, Palmeiras e São Paulo. O time santista , entre tantos desafios, tem vivido sérios dilemas que passam justamente por sua capacidade de faturar. Já teve boas provas de que ela melhoraria sensivelmente se ele abraçasse a ideia de ir jogar fora da Vila mais famosa do mundo. Mas tem arroubos que são herança dos tempos em que ninguém duvidava de sua grandeza e podia sonhar em ter tudo o que os rivais conseguiram. Ter uma Arena, por exemplo. 

Mas a realidade recente mostra que hoje em dia querer construí-la à beira-mar o confinaria a um reino que talvez não venha a propiciar faturamento aos menos parecido com o de seus concorrentes. Mais ambicioso e digno de sua própria história seria construí-la, então, onde reinam os outros, na capital. Já o Corinthians que, todos sabem bem, anda com as finanças arruinadas nos remete a algum nobre perdulário desses que se negam a admitir que a realidade mudou.  No mínimo, diria que nos dois casos eles se fizeram, ou têm se tornado, realmente menores do que foram um dia. Se ainda são grandes é uma questão de ponto de vista, de perspectiva. 

Neste cenário ninguém renovou mais sua condição de nobre do que o Palmeiras. Não bastassem os títulos, que soam como comendas, há ainda o faturamento em constante evolução. E aí é possível dizer o que for. Que com esse recurso todo o time teria que brilhar mais, que tem por isso a obrigação de sempre encarar o Flamengo de igual pra igual. A torcida do Palmeiras poucas vezes na história pôde estar tão satisfeita. E ai de quem ousar dizer que o time do velho Parque Antártica não segue sendo um grande. E ainda que falte ao São Paulo uma trajetória recente farta de grandes títulos ele é o único dos outros três rivais alviverdes que pode lhe fazer frente a essa altura. 

Não só porque andou papando um título aqui, quebrando um tabu acolá, mas porque tem colocado pra girar a engrenagem que pode verdadeiramente fazer um clube ganhar outra estatura: a de ter numerosa torcida. E a torcida do São Paulo, que anda lotando o Morumbi jogo após jogo, deveria causar inveja a todos os que venham a ser assombrados por esse dilema de ser ou já não ser grande. Até porque isso remete a outra dessas perguntas cujas respostas a elas nunca soam definitivas, que é: poderá existir algum dia time grande sem uma grande e presente torcida? Não por acaso quando o Santos joga na capital, com estádio lotado, dá a impressão de revelar outra estatura. 

quinta-feira, 31 de março de 2022

A tradição do Paulistão

                                                           Foto: Alex Silva/ lancepress

O Campeonato Paulista caminha para o final de mais uma edição. Imagino que deva  por isso ter ditado o tom de muitos na noite de ontem, seduzindo torcedores de várias camisas, não só palmeirenses e sãopaulinos.  Gente que desde sempre andou ligada no jogo de bola.  Não que o jogo de ida tenha sido uma maravilha . Mas levando em consideração que andamos neste momento desfrutando do que seria o filet-mignom do torneio, dá pra arriscar que o que se viu horas atrás no gramado do Morumbi esteve muito acima da média do que foi o torneio como um todo. Ou seja, nunca ficou tão claro que o mais antigo torneio de futebol do país precisa de cuidados. 

Renovo aqui a posição que sempre defendi que é  a de que os estaduais não devem ser extintos. É preciso neste caso, talvez, admitir que  falar de maneira tão abrangente pode não ser o ideal.  Uma vez que a realidade de cada um deles deve conter detalhes que o meu conhecimento não abarca. Difícil é discordar que o torneio Paulista é o que supostamente teria  - e tem - mais recursos para se justificar. Aceitar simplesmente o fim dele seria, a meu ver,  relevar a forma pouco nobre com que os cartolas o trataram ao longo dos tempos.  É preciso uma saída que honre a história , a tradição que os estaduais carregam. 

É evidente que tudo isso está intimamente ligado a outras questões do futebol nacional, como o tão falado calendário. E, especificamente no caso do Paulista, a maior prova de que ele é viável está no fato de que ao longo do tempo proporcionou faturamentos grandiosos.  O que acabou  sendo crucial para que sobrevivesse, desse jeito estranho, mas sobrevivesse.  De outro modo, nem a história, nem toda a tradição teriam lhe salvado. E nem vamos dizer do papel que sempre exerceu. A saber, o de ser o amparo de times menores. De ser  a razão pela qual muitos times distantes das capitais ainda sobrevivem. Ainda que pagando salários infinitamente distantes dos que costumam aparecer  nas manchetes.  

Quem viu os jogos da fase de grupos não há de ter esquecido a modorra de muitos deles. Mesmo os jogos  únicos que definiram os semifinalistas, com seus ares de tudo ou nada, não deram conta de representar com louvor o momento. Alguém talvez dirá que o tempo dos estaduais ficou pra trás. Que nunca mais veremos uma final de estadual ter o peso que teve  a lendária decisão de 1977.  Decisão que com todos os detalhes que a envolveram até pode ser considerada um ponto fora da curva.  Mas há um sem fim de outras decisões, que foram a seus modos gloriosas, para corroborar o que vai aqui escrito. 

Os embates entre  Palmeiras e Corinthians no início dos anos noventa.  A inusitada final caipira. A magia de uma Internacional de Limeira dirigida pelo Seo Macia, o Pepe. Fragmentos que juntos formam uma história linda. Preservar o Campeonato Paulista seria  preservar cada um desses momentos.  Que no domingo quando Palmeiras e São Paulo estiverem frente a frente de novo e encerrarem a edição mais atual de um campeonato que carrega 120 anos de história estejamos mais convencidos de que mais do que acabar com o Paulista é preciso reinventá-lo. E assim voltar a encontrar bons motivos para chamá-lo de Paulistão.