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quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O sucesso é ofensivo

O craque e o Rei


O conceito de craque é algo que sempre vai dar o que falar. Mas muitos do que desfilam por aí com esse peso sobre os ombros o ganharam sem muito esforço, sem merecer mesmo.  Foi-se o tempo em que se usava o termo com parcimônia e os laureados davam conta do recado. E quando ele se faz fácil o tempo tem tudo pra transformá-lo mais em castigo do que em benção. Craque é reconhecimento complicado de tratar e dar conta. Mas já que é pra falar de craques escalo aqui um de cujo talento não tenho a menor dúvida: Antônio Carlos Jobim. Homem que para além de maestro, viu antes de muitos o que o homem andava a fazer com o planeta e foi, talvez, um dos grandes interpretes desse nosso país ao mesmo tempo tão lindo e tão surreal. 

Dizia Tom Jobim que sucesso no Brasil é ofensa pessoal. E aos que já não aguentam mais ouvir falar de Flamengo sugiro ir se acostumando  porque a incompetência dos outros tem tudo para fazer o reinado do time da Gávea longevo. Mas aqui em terras paulistas é o Palmeiras que verdadeiramente corrobora a frase do maestro, com ajuda imensa do grande tempero do jogo que sempre foi o ato de secar. A lógica que alimenta tudo isso é muito óbvia. O que sobrou do trio de ferro pouco amedronta. E o Santos com a pobreza das últimas temporadas e esse misto de clube que ainda não virou SAF - mas já tem dono  - pouco anda podendo fazer para ajudar a quebrar essa lógica. 

E essa indigência, ou quase, dos grandes rivais só agiganta o sucesso do Palestra. Acho até provocador escrever isso aqui depois do Palmeiras ter sido vice duas vezes, coisa que muitos tentam usar para negar o sucesso do clube alviverde. Logo, quando Flamengo e Palmeiras se colocam frente a frente nos últimos tempos o que se vê por estas bandas é uma imensa torcida para que o triunfo acabe na cidade maravilhosa, o que significa também mandar o incômodo sucesso para bem longe daqui. Afinal, ter de lidar com ele é terrível.  Então, é melhor que se dê longe. Essa realidade, essa constatação, talvez sirva também  para aliviar um pouco a barra de Abel Ferreira. A quem não se pode negar o título de bem sucedido. 

Mas nesse sentido a impressão que tenho é que o português com seu comportamento muitas vezes discutível, seus atos lamentáveis à beira dos gramados, dão certo ar abstrato a humildade que deixa exalar, e fazem do sucesso dele uma, como disse o maestro, ofensa das boas. Por essas e outras tenho claro para mim que Abel, definitivamente, tornou o Palmeiras um time mais antipático para seus oponentes. Só não sei decretar com precisão a dose que o comportamento dele e o sucesso têm nisso. Mas vou avisando aos incomodados que dificilmente a banda tocará de outro jeito na temporada vindoura. 

Por falar nisso, vendo o ano que se vai em perspectiva sou levado a crer que devemos levantar aos mãos e agradecer a contribuição dada pelo Cruzeiro, pelo Mirassol, pelo Fluminense com a assinatura de Zubeldía, e mesmo pelo notável esforço feito por Fortaleza e Vitória na reta final do Brasileirão, pois sem isso tudo o principal torneio de futebol do nosso país teria sido infinitamente mais pobre. O que sob certa ótica mostra que é possível sim se fazer honrado mesmo sem direito a desfrutar do sucesso de modo absoluto. 

Fazendo aqui uma reflexão sociológica arrisco dizer que com todas as armadilhas que o sucesso esconde o Flamengo tem lidado melhor com ele. Fruto, talvez, de ter optado por um elenco mais maduro. Sem contar que quase sempre foi visto como dono de uma excelência maior do que a de seu principal desafiante.  A juventude pode, no entanto, dar ao Palmeiras um horizonte maior sem ter de fazer grandes mudanças no elenco.  Mas é fato também, que dois anos sem um título de grande expressão colocaram o time e Abel na fronteira que separa o sucesso da desconfiança. E aí não há alternativa... só o sucesso em estado puro salva. O que certamente soara como ofensa, aos outros.         

 

quinta-feira, 9 de maio de 2024

Nem tudo passa



Tenho nostalgia das minhas memórias inventadas. Fui desde sempre um apaixonado por história. E por incrível que pareça quanto mais velho fico mais acho que ela é mesmo uma ficção. Se o que fica são as versões, que seja. Mas gosto de desafia-las. E pensando nisso toda vez que estive trabalhando com pesquisas históricas tentei ser o mais fiel possível aos fatos. E o fiz como alguém que tem na mente a certeza de que tudo que estava ali poderia não passar de um drible, de uma versão que colou. No mínimo é preciso crer que por trás das versões que vingaram está alguma virtude, talvez a de se aproximar o máximo possível daquilo que costumamos chamar de verdade. Por isso quando outro dia o presidente do Flamengo afirmou com todas as letras que Zico vai passar minha espinha gelou. 

Entendo, lidar  com as complexidades de ter de administrar a volta de Gabigol decretada por um efeito suspensivo é dessas coisas que fazem qualquer zagueiro se enrolar com a bola. Mas Zico, o lendário camisa 10 da Gávea, foi  esperto e no conforto de quem sabe muito bem que há tempos foi acolhido pela história tirou onda e mandou pra rede. A rede digital, digo. Fez uma postagem em que as palavras pareciam sorrir com escárnio. Escreveu o senhor Artur Antunes Coimbra: eu ouvia, vai passar, vai passar, e acabei passando por todo mundo e fazendo mais um pro Fla. E aí eu lhes pergunto: esse Senhor Landim, jogou onde? Conheço, de a história guardar, um certo Sr Gradim, isso sim. Companheiro de Leônidas no Bonsucesso. Atacante que, aliás, teve curta passagem pelo Flamengo mas que fez dele o autor do primeiro gol do rubro-negro fora do Brasil. Foi num amistoso contra o Peñarol, no Estádio Centenário, em Montevidéu. 

Compreendo que dirigentes se sintam importantes. Não nego que sejam. Mas se um dia entrarem para a história terá sido por outra porta. Mas pra isso terão de ganhar a envergadura de um Vicente Matheus, de um Castor de Andrade ou de um Eurico Miranda, com tudo o que isso guarda de enaltecedor, ou não. Se o mandatário acredita mesmo que uma hora Zico vai passar sugiro a ele que espere sentado. E já que é íntimo das coisas que costumam se desenrolar longe dos olhos da torcida, envolvido em grandes decisões administrativas, não deverá se surpreender se num futuro nem tão distante, de repente, ao olhar pela janela ou ao pousar os olhos em uma notícia qualquer se der conta de que quem passou foi ele. 

E que Zico, o Galinho de Quintino, segue aí amparado por essa alquimia incontrolável que costuma derramar sobre os homens um quê de eternidade. Landim deve ter lá seus ídolos. Pode ter se arrependido da frase mal empregada. Impossível que não perceba que Reinaldo, aquele rebelde atleticano, não passou. Que Pelé mais do que todos, e que já não está entre nós, segue aí também. Jamais vai passar. E que mesmo o rubro-negro Zizinho, que eu citei aqui outro dia e que foi um antecessor do Rei, se olharmos bem pela lente da história não passou. Que Tostão, Rivellino e Gérson, entre tantos outros, não passaram. E jamais vão passar porque visto por esse prisma da história nem tudo passa. E, acima de tudo, será sempre de uma deselegância extrema sugerir que um dia passarão.   

 

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Ah, moleque!



Depois de ter visto as cenas lamentáveis na arquibancada do Maracanã na terça vou preferir falar do que pode dar vida ao jogo de bola. A molecada. O futebol nos homens é uma outra coisa. É profissão. É um tudo ou nada. É um balé de movimentos premeditados. Algo que raramente se satisfaz com o ato de se divertir. Isso explica muito da graça cativante que se descortina quando damos de cara com algum moleque desafiando tudo isso. Já vimos tantos. Não esquecemos nunca a precocidade daquele que se fez o Rei. E que continua, até hoje, sendo  o mais novo a entrar em campo pela Seleção e a marcar um gol vestindo a camisa dela.  Chego a pensar que um dos segredos de Pelé foi justamente o de conseguir preservar em si a capacidade de jogar futebol como quem brinca. Persistiu nele algo de moleque. Algo que, olhando bem, o maior de todos os camisas dez deixava transparecer no sorriso. Uma aura que se renova agora na figura de Endrick que acaba de debutar na Seleção. 

A jóia palmeirense recém envolvida em polpuda transação irá se juntar a outros meninos, alguns já nem tão meninos assim, que o mercado se encarregou de levar pra longe de nós. Será uma questão de tempo para que outros sigam pela mesma trilha drenando do nosso futebol essa força capaz de lhe dar outra vida.  Os homens de negócio do mundo da bola, preocupados que estão com as cifras, não os buscam exatamente pelo que jogam. Os buscam pelo que podem vir a render. E nesse sentido quanto mais cedo melhor. Não tardará e  jogadores como o santista Marcos Leonardo seguirão pelo mesmo caminho. E assim vamos ficando cada vez mais sem esse combustível essencial da juventude. Imaginem o nosso futebol se Vini Jr estivesse aqui... Vitor Roque...Rodrygo. Um fluxo que não só não nos deixa remoçar como nos envelhece. 



A última janela de transações internacionais reforçou esse viés. Um sem fim de jogadores já bem rodados têm desembarcado aqui. E ainda que ostentem trajetórias de se admirar - o que está muito longe de ser o caso da maioria - de uma forma ou de outra fazem nosso futebol perder o viço. Se trata de uma equação inevitável. Só mesmo a inocência dos jovens para driblar o ar sério e modorrento que tanto insiste em ser a cara do nosso futebol atual. Quero crer que muitos por aí, como eu, andam saudosos de um sentimento que se perdeu. Aquela ansiedade boa que se sentia quando um jogo ia começar e trazíamos conosco a certeza de que lá estaria alguém que poderia nos deslumbrar. Lembro de viver muito essa sensação nos tempos do Zico. Como era bom poder esperar isso do futebol. 

Mas hoje  alguém começa a nos dar esse prazer e o tal do mercado logo aparece na área com sua mão impiedosa levando o talento pra um lugar em que nossa conexão com ele já não pode ser tão íntima. Sem dizer que na maior parte das vezes quando se fala de um jovem talento se fala também do cuidado que é preciso ter com ele. Que tem de ser colocado pra jogar com cuidado, que não se pode queimar etapas. Mas, estranhamente, ao mesmo tempo eles já assinaram contratos para amarrá-los, já viram as empresas esportivas lhes seduzirem com seu mundo de sonhos e suas chuteiras exclusivas. Tem de colocar é a molecada pra jogar. Ainda mais quando a juventude chega pedindo passagem.             

quinta-feira, 3 de março de 2022

O futebol é guerra



A frase era ouvida aqui e ali toda vez que o jogo esquentava. Toda vez que revelava seu lado bélico. A metáfora conceitual, como vi definida certa vez num estudo e que dá título a estas linhas, pelo visto foi atingida em cheio e naufragou nas águas sujas deste tempo em que o ar do politicamente correto começou a fazer vítimas.  Atingidas sem poder se defender boa parte das vezes. Já que seus algozes não hesitam  em mirar o passado. No que está dito ou escrito não é de hoje.  Não que tenha algum apreço pela definição. Longe disso.  Aos poucos vão caindo nessa batalha também outros termos, como matador. Coisa tão frequente em outros tempos.  

Não sou um puritano mas sou capaz de ver com bons olhos que o futebol se dispa desse vocabulário, digamos, de referências discutíveis. Mas por mais que o mundo tenha mudado confesso ter certa dificuldade de imaginar que um dia um termo como artilheiro, por exemplo, venha a cair por terra. Segue aí mais vivo do que a tal metáfora conceitual, que parece não ter mais lugar no time. E mais vivo do que o hábito de chamar quem não deixa a bola ficar pingando na área de alguém que mata. Termo que se não tem os dias contados anda frequentando cada vez mais o banco de reservas. E nem vou falar dos boleiros com seus dedos em forma de arma. 

Noto agora ao invocar essas analogias que mesmo a maneira tão ancestral de se definir um chute potente nominando o tal de bomba já não se ouve mais. Mas triste de verdade  é constatar que  com toda essa preocupação , ou com esse modo up to date de tratar as coisas,  o mundo não melhorou. Segue sujo como o futebol. Rendido a interesses. Mesmo que custem vidas. Putin decidiu guerrear com a Ucrânia e, de repente, o futebol se viu atingido. Brasileiros levados ao país invadido por causa do bom e velho jogo de bola se uniram num hotel com filhos e esposas para pedir ajuda. Sem informações, sem saída. E foi impossível não ver naquilo e em tantas outras histórias que viriam a agonia o medo. 

Polônia, Suécia e República Tcheca envolvidas na fases finais das Eliminatórias Europeias  se apressaram em avisar que se recusavam a jogar na Rússia. Como não tardou e São Petersburgo se viu chamuscada em seu glamour ao  perder o direito de ser a sede da próxima decisão da Liga dos Campeões da Europa. Ah, a Europa. No fundo parece ser ela que o insano russo mira nessa jogada  horrorosa. Capaz de entristecer até o Rei do Futebol que de seu leito em um hospital fez questão de lamentar que o mundo se visse novamente envolvido num lance desses. O Rei que encantou o mundo depois de decantado o pós guerra. O rei que foi aos Estates quando a guerra tinha se feito fria. 

A Rússia palco da última Copa. A Rússia que pelas mãos de Putin, o homem dado a cenas de exibicionismo e força,  usou e abusou do esporte. Sediando também uma olímpiada de inverno que custou mais do que a Copa do Brasil e a Olimpíada do Rio juntas.  Jogos que fizeram o  ditador disfarçado de presidente figurar na capa da Revista americana New Yorker e na inglesa The Economist. Na primeira aparecia em uma ilustração não apenas como patinador artístico mas também como os cinco jurados da própria performance dele.  Dizer mais o quê? Enquanto não esqueço que alhures as bombas explodem sonho com um futebol que mostre com grandes  atitudes que não é guerra. 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Pelé, o inalcançável

                                                                Foto; Domicio Pinheiro

Não é de hoje que os números ganharam status de vedetes na cobertura esportiva dando ao futebol um certo gosto de tabuada. Longe de mim fazer pouco caso da matemática que, eu sei , está em tudo. Não nego aos números muitas virtudes. Muito menos escrevo para tentar tramar uma vingança barata já que a única vez que me vi reprovado na vida estudantil foi justamente em matemática. O acontecimento me causou um trauma imenso. Ser reprovado por um mísero 0,25 no tempo em que isso significava refazer todo o ano letivo, incluindo aí as matérias para as quais você por ventura tivesse se mostrado um aluno exemplar, foi um baque. Faço essa digressão toda pra dizer que anda cansando esse papo de que tem gente por aí superando Pelé. 


O Rei do futebol, meus amigos, é inalcançável. Os devotos da precisão poderão argumentar que não se trata disso, de superar. Que tudo se resume a uma constatação numérica. Mas se Messi e Cristiano Ronaldo, com suas marcas notáveis, estão longe de poder ocupar o papel que a história reservou ao mais notável camisa dez que o futebol já teve, onde está a honestidade em usar insistentemente o nome do Rei do Futebol para tentar dar uma ideia do que eles andam fazendo em campo? Por mais que andem, há tempos, fazendo coisas incríveis. Seria mais honesto comparar os números do português com os do argentino, ou vice-versa. São contemporâneos, vivem realidades parecidas. Não que tudo que essas contas provocam sejam de se desprezar. 


Mês passado quando Messi igualou a marca de Pelé em números de gols marcados por um mesmo time foi bonito ver a troca de mensagens entre os dois. Pelé dizendo que o admirava muito. O argentino respondendo que eram palavras que significavam muito vindas de alguém tão grande. Dias atrás foi a vez de Cristiano Ronaldo, que ao marcar dois gols na vitória da Juventus sobre a Udinese teria se transformado no jogador com maior números de gols em jogos oficiais da história. Nesse caso a grita foi maior, pois se a conta feita a favor de Messi deixou de somar quatrocentos e poucos gols marcados em amistosos e outras partidas feitas pelo Rei com a camisa do Santos, a feita a favor de Cristiano Ronaldo se recusava a somar alguns gols marcados por Pelé pela Seleção Paulista. Jogos notadamente oficiais também. 


Enfim, entre a história e a matemática fico com a história. Por mais que ela também comporte imprecisões. De toda forma fiquei com a impressão de ter visto um número maior de jornalistas tratando a questão com cuidado. Instintivamente, talvez, protegendo a obra monumental e a figura de Pelé. O tema me fez lembrar de outros dois personagens. Um, o piloto inglês, Lewis Hamilton, que flerta cada vez mais com a condição de melhor de todos os tempos, mas cujos recordes impressionantes mascaram um número crescente de Grandes Prêmios. E o outro, Maradona, que ao longo de toda carreira marcou apenas um gol no Brasil - e nem foi numa vitória, foi em um empate - mas que o caro leitor deve trazer na memória como um dos maiores adversários que a Seleção Brasileira já teve. Ah, os números. 

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Maradona, o exagerado




Vou dizer pra vocês porque gosto do Maradona. Gosto do Maradona pela exuberância passional. E nesse quesito ninguém chegou nem perto dele. Vejo em Diego um discurso, um jeito de ser, que sempre o fez do povo. E, por tabela, um grande signo do futebol. E nada me tira da cabeça que é por isso que os argentinos o amam tanto, lhe ergueram uma igreja até. Um modo de viver que pode não ser correto mas que é inquestionavelmente transparente. Diferente daquele discurso polemicamente estudado de certas figuras que conhecemos e que teimam em transformar a mais banal das declarações num jogo. Com Maradona nunca teve essa. 

Ele foi em campo o que tem sido fora dele, um exagerado. Um exagerado em tudo, até na barriga que anda cultivando para desconforto daqueles que ao dar de cara com ela em vídeos espalhados pelo whatsapp - ou algo que o valha - torcem o nariz achando que El Pibe é mesmo um esculachado. Coisa que ele é também. Como já escrevi em outro momento Pelé fez aqueles que o viram jogar se sentirem um tanto na condição de elegidos. Eu vi Pelé jogar virou uma espécie de mantra dos abençoados. Jamais cai e nem cairia na armadilha de comparar um ao outro. Mas se Pelé me escapou da memória, Maradona não.  Ainda hoje o  lembro em campo com assombro. E só os que partilharam desse testemunho ou têm rodagem suficiente para ter visto outros gigantes jogarem bola é que saberão exatamente do que se trata. 

Lembro não só o vigor físico, a velocidade, a coragem pra encarar zagueiros e defensores que, em geral, inevitavelmente sabiam que se jogassem limpo iriam ficar para trás. Maradona não estava nem aí. Partia para cima. Maradona fazia mais. Fazia a gente começar a curtir um jogo bem antes de a bola começar a rolar só por ter nos dado a certeza de que estaria lá. Dom Diego teve a capacidade dos nobres, a de permanecer até o último minuto em campo jogando como um moleque. O mais abusado dos moleques. Falando nisso. Acho que a imagem que melhor retrata esse argentino maluco é uma na qual ele, com cerca de uns doze anos talvez, está agachado e abraça com carinho um jogador do Corrientes , que era o time da pai dele. 

O homem está em prantos. Tem um colar justo pendurado no pescoço, está sujo de terra, tem as chuteiras gastas e as meias arriadas. Tinha acabado de perder a final do Torneio Evita para o Entre Ríos. O olhar do menino Diego ao lado dele é aflito, sugere que não há consolo naquele  tipo de abismo em que o futebol costuma jogar os homens. Mas o impressionante na cena é notar de alguma forma que aquele Maradona imberbe já sabia disso, já tinha entendido tudo. Sei que ele acaba de virar um sessentão, falaram bastante dele, ia chegando meio atrasado no lance. Mas eis que ele voltou a ser notícia, infelizmente por problemas de saúde. Está internado neste momento.  Mas a qualquer tempo esse argentino nos serve de prova de que nada apaga a fina arte de jogar bola, nem a ácida fórmula do politicamente correto.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

O Rei é nosso !


                                                             

Tomem ciência. Fosse o maior camisa dez de todos os tempos um italiano, um alemão, e era uma vez essa proximidade que de alguma forma nos deixa na condição de íntimos do Rei. Talvez a essa altura as pessoas já nem lembrem, até pela insanidade do ato, que certo dia um certo presidente santista decidiu mandar Pelé, que ocupava um cargo de diretoria, embora do Santos. Bastaram algumas horas e um mundo de jornalistas estava às portas da Vila Belmiro esperando a despedida, como se um adeus desse tipo fosse possível. Foram horas de espera até que um carro parou em uma das esquinas e dele desceu Pelé, com o sorriso de sempre no rosto como sendo o avesso do fato. Respeitosa, a pequena multidão de jornalistas foi se dirigindo a ele. Mas para a surpresa de todos uma repórter em disparada, esbaforida, quase arrastando o cinegrafista pelo cabo do microfone avançou em direção ao Rei e para lá de afoita perguntou:

_ Pelé, o que você tem a dizer?


No silêncio que se deu, o sorriso dele cresceu ainda mais, e com aquele tom de voz sereno e inconfundível disse:


_Agora? Nada!


Murcha e sem entender direito o que tinha vivido, a repórter se encolheu e voltou a sumir entre os profissionais e curiosos. Tinha sem querer atropelado o protocolo que quase todos ali conheciam bem. Passada a cena, sem microfones em punho, perguntamos ao Rei qual seria o itinerário dele. Pelé disse que subiria até sua sala e depois iria se despedir dos jogadores que treinavam no gramado e lá falaria com a imprensa. Resgato a história por achar que ela reflete de algum modo essa proximidade, esse privilégio de ao menos em algum momento da história estar perto de Pelé e que esta data a se comemorar me fez notar melhor. Como veladamente mostra o cerimonial que se cumpria, mesmo Pelé tendo sido sempre um homem despido de arroubos. Não tardou e Pelé estaria de volta à Vila, ao Santos, claro. E como era assim nunca esqueci também certa cena que vi registrada em noventa e quatro, na época da Copa dos Estados Unidos. Num evento com o Rei uma fila imensa - que transbordava a sala de um prédio luxuoso e descia pelas escadarias de alguns andares - colocando em linha convidados vips, celebridades, Chefes de Estado. Tudo muito diferente de certos dias em que Pelé aparecia em Urbano Caldeira e era cercado por alguns poucos repórteres que faziam a cobertura diária do clube. Escolhi essa receita pra homenagem porque falar do jogador é chover no molhado. E também pra driblar algo que já virou um chavão: colocar na balança o Rei e o Edson. Pois, de verdade, acho que não existe homem que exposto desse jeito aos olhos do mundo pareceria perfeito. Não que isso deva servir de perdão. E vamos em frente, Rei, que o tempo sempre foi dos nossos adversários mais duros.    





* Foto: Domício Pinheiro 

quinta-feira, 16 de abril de 2020

O Rei da Praia


Em pé: Zé Carlos, Ned, Pedrinho, ??, Jorge Amaral e Wilson
Agachados: Wilson, Germano, Nico, Zé Lua e Peirão
Fonte: giginarede.blogspot.com


A coisa se deu assim. Sempre me interessei pelo futebol de praia. Poderia encontrar na minha própria história explicação pra isso. Dias e tardes atrás de uma bola às margens do Atlântico. Tanto que na conversa que tivemos por telefone - tempos de pandemia - o homem disse também que guarda muito bem a lembrança de verões em que as peladas à beira mar pareciam não ter fim. O que teve fim foi o tempo em que o futebol de praia tinha glamour.  Em que os jornais da cidade se interessavam por ele e que, não raro, uma cena das rodadas disputadas nas tardes de sábado podiam ser vistas na primeira página convidando os interessados  a saber de outros detalhes, dos resultados. Essa foi a época dele.  

Mas o que despertou meu interesse por sua figura foi  o fato de várias vezes enquanto conversava sobre futebol de praia o nome dele sempre aparecer. Conversas cujos interlocutores nem se conheciam. Coincidências que foram me convencendo de que o homem tinha mesmo bola para, vira e mexe, ser chamado de o Pelé da Praia. Não foi difícil encontrá-lo. Luiz Francisco Peirão Rodrigues não tem ideia de quantos gols fez. Não importa. Jogava com a dez, claro. Rei é Rei. E, embora tenha vestido outras camisas, entrou para a história envergando a do Campos Melo. Time com o qual venceu o campeonato de 1973, já um tanto perto da fronteira que marcaria o final do que hoje pode ser visto como um apogeu. 

Uma época de ouro que foi da metade dos anos sessenta até a metade dos setenta. Sucesso facilmente  medido pela atração que exercia. Muitas partidas, mesmo disputadas na praia, tinham lotação esgotada. Era difícil encontrar um ponto sequer de onde desse pra ver o jogo. E se o auge do futebol de praia durou uma década o reinado de Peirão se ocupou de abrilhantar metade dela. E o fez sem ter noção do que representava, sem notar a fama. Só o tempo o deixou tomar ciência dela, ainda que os acontecimentos lhe dessem pistas. 

Lembrou que certa vez depois de uma partida disputada contra o Igaratá ali perto da Fonte Luminosa, no Bairro do Gonzaga, onde nasceu, foi abordado por um garoto que lhe pediu a camisa. Teve de dizer não. O o motivo era simples: só tinha aquela. O Rei da Praia usava a mesma camisa durante toda a temporada, quando não atravessa umas duas ou três com ela. Peço desculpas aos que são do métier por entrar em solo sagrado. Ao qual , se não for impedido, gostaria até de voltar semana que vem. Porque a virtude da história de Peirão, de sua fama, é provar que a beleza  sempre fica. Mesmo depois de o futebol ter virado outra coisa. 

* artigo escrito para o jornal " A Tribuna", de Santos/SP