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quinta-feira, 10 de abril de 2025

Viva o Seo Macia !



O futebol está em nós de um jeito muito singular. Não só com aqueles que nossos olhos puderam ver em campo mas também com aqueles que a história tratou de ungir com ares de eternos e que não ver em campo. Se a Copa de 1982, nos idos dos meus saudosos quinze anos,  me pegou em cheio com Zico, Sócrates e Falcão, à minha geração escaparam nomes como Pagão, Toninho Guerreiro, Jair Rosa Pinto, de quem nem por isso deixo de me sentir um tanto íntimo. A magia do jogo alimenta em nós a possibilidade de ultrapassar esse desvão histórico com devoção. E sigo acreditando que de alguma forma isso é possível, tanto são os craques de outras áreas que admiramos e trazemos pras nossas vidas. 

Quisera eu puder ter visto em campo um Zizinho, um Didi. Deus do céu, um Garrincha. Quem dera. E não tratem como heresia não ter citado até aqui o Rei Pelé que, dizia meu pai, vimos em campo. Mas que eu devo confessar, um tanto envergonhado, não ter conservado em mim a mínima lembrança. O que nesta hora faz com que eu me sinta como se a memória tivesse - diante de um estádio lotado - colocado a bola entre as minhas pernas. E nesse time cultuado, a que meu tempo não me deu direito, está também, em lugar de honra, o ponta-esquerda Pepe. Muito se fala sobre o seu chute potente com o qual ele foi deixando pelo caminho um sem fim de adversários, mas que eu , secretamente, aprendi a admirar por outras virtudes menos exaltadas, como a precisão, por exemplo. 

Nunca esqueci do slogan de uma antiga propaganda de pneus que dizia o seguinte: potência não é nada sem controle. E a primeira vez que ouvi aquilo lembrei imediatamente do Seo Macia porque no dia em que eu o conheci ele fez com o amigo que estava a meu lado uma brincadeira que sempre gostou de fazer e que consistia em jogar a bola repentinamente pro alto e dizer de antemão onde ela iria parar. Lembro bem. Naquele manhã de sol na Vila, disse que seria na linha de meio de campo e quando cheguei perto dela pude comprovar que a mesma não estava mais de dois dedos além do previsto. Impressionante. Mas se não sou do jogador testemunha, sou do homem. E com certos privilégios até, que me foram dados pela profissão e pelo destino. 

No primeiro caso, por ter desfrutado dos registros cuidadosos que ele tratou de fazer a respeito da própria história. E de poder, na condição de jornalista poder colhê-los. E no segundo, por ter vivido em São Vicente, e vê-lo muitas vezes por ali, com os amigos a falar de futebol. A revirar lembranças. E, vejam só, por ter formado num time de escritores ocasional que, podem acreditar, teve a honra de ter Seo Macia como treinador. O mesmo bondoso destino que, tabelando com a filha Gisa e outros amigos, me deu a oportunidade de escrever um prefácio para sua biografia publicada tempos atrás pela valente Realejo. 

E não bastassem todas as conquistas o ponta-esquerda a essa altura do jogo se apresenta com a alta patente dos que viveram muito e não se deslumbraram com a imensidão da própria obra. Que bom é saber que partir do próximo sábado, no Museu Pelé, estará a exposição Pepe - Futebol, vida e glórias. Aos amantes do futebol digo que se trata de oportunidade imperdível, em especial aos que, como eu, lamentam não tê-lo visto em campo, pois o homem segue aí cativante e admirável como nem todos os grandes campeões conseguem ser. Viva o Seo Macia!  

quinta-feira, 31 de março de 2022

A tradição do Paulistão

                                                           Foto: Alex Silva/ lancepress

O Campeonato Paulista caminha para o final de mais uma edição. Imagino que deva  por isso ter ditado o tom de muitos na noite de ontem, seduzindo torcedores de várias camisas, não só palmeirenses e sãopaulinos.  Gente que desde sempre andou ligada no jogo de bola.  Não que o jogo de ida tenha sido uma maravilha . Mas levando em consideração que andamos neste momento desfrutando do que seria o filet-mignom do torneio, dá pra arriscar que o que se viu horas atrás no gramado do Morumbi esteve muito acima da média do que foi o torneio como um todo. Ou seja, nunca ficou tão claro que o mais antigo torneio de futebol do país precisa de cuidados. 

Renovo aqui a posição que sempre defendi que é  a de que os estaduais não devem ser extintos. É preciso neste caso, talvez, admitir que  falar de maneira tão abrangente pode não ser o ideal.  Uma vez que a realidade de cada um deles deve conter detalhes que o meu conhecimento não abarca. Difícil é discordar que o torneio Paulista é o que supostamente teria  - e tem - mais recursos para se justificar. Aceitar simplesmente o fim dele seria, a meu ver,  relevar a forma pouco nobre com que os cartolas o trataram ao longo dos tempos.  É preciso uma saída que honre a história , a tradição que os estaduais carregam. 

É evidente que tudo isso está intimamente ligado a outras questões do futebol nacional, como o tão falado calendário. E, especificamente no caso do Paulista, a maior prova de que ele é viável está no fato de que ao longo do tempo proporcionou faturamentos grandiosos.  O que acabou  sendo crucial para que sobrevivesse, desse jeito estranho, mas sobrevivesse.  De outro modo, nem a história, nem toda a tradição teriam lhe salvado. E nem vamos dizer do papel que sempre exerceu. A saber, o de ser o amparo de times menores. De ser  a razão pela qual muitos times distantes das capitais ainda sobrevivem. Ainda que pagando salários infinitamente distantes dos que costumam aparecer  nas manchetes.  

Quem viu os jogos da fase de grupos não há de ter esquecido a modorra de muitos deles. Mesmo os jogos  únicos que definiram os semifinalistas, com seus ares de tudo ou nada, não deram conta de representar com louvor o momento. Alguém talvez dirá que o tempo dos estaduais ficou pra trás. Que nunca mais veremos uma final de estadual ter o peso que teve  a lendária decisão de 1977.  Decisão que com todos os detalhes que a envolveram até pode ser considerada um ponto fora da curva.  Mas há um sem fim de outras decisões, que foram a seus modos gloriosas, para corroborar o que vai aqui escrito. 

Os embates entre  Palmeiras e Corinthians no início dos anos noventa.  A inusitada final caipira. A magia de uma Internacional de Limeira dirigida pelo Seo Macia, o Pepe. Fragmentos que juntos formam uma história linda. Preservar o Campeonato Paulista seria  preservar cada um desses momentos.  Que no domingo quando Palmeiras e São Paulo estiverem frente a frente de novo e encerrarem a edição mais atual de um campeonato que carrega 120 anos de história estejamos mais convencidos de que mais do que acabar com o Paulista é preciso reinventá-lo. E assim voltar a encontrar bons motivos para chamá-lo de Paulistão.