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quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Longe do jet set



Duvido que com o apelo plástico atual, com seu deserto de dribles, chapéus e gols de falta o futebol conseguisse conquistar em nossa cultura o lugar nobre que foi seu um dia. E nem vou levar em conta o processo que elegeu aptos a frequentar estádios aqueles com um certo poder aquisitivo. Temos todos nestes dias um sem fim de argumentos para mal dizer o jogo. Mas há, ao mesmo tempo, um outro viés que tenta nos convencer de que ele vai bem, obrigado. Mais nítida do que essa visão antagônica é a sensação que tenho - e que já partilhei aqui - de que  a receita em prática pode desandar. E lhes digo a razão. 

É inocência achar que essa abertura ampla, geral e quase irrestrita aos estrangeiros não vá cobrar um preço. Ela não só está tirando o espaço de jovens talentos formados por aqui como está deixando muito claro também que influi nas oportunidades dos nem assim tão jovens. Pense, por exemplo, num atacante desses meio à moda antiga. Um centroavante pra ser mais exato. Quantos brasileiros temos na primeira divisão brilhando nessa posição? Poucos. A maior parte deles veio de fora. E o futebol pode ter mudado, os esquemas também mas um centroavante sempre será de grande serventia. Deyverson prova essa teoria. 

Por outro lado nosso futebol cresce economicamente a olhos vistos. A qualidade do jogo não. Mas talvez nada torne essa nossa hegemonia tão visível quanto a Libertadores, e não falo dos placares dilatados que Atlético Mineiro e Botafogo tatuaram na pele de seus adversários na rodada de abertura das semifinais do torneio, falo do domínio que os times brasileiros construíram na última meia década. Aos olhos sul-americanos podemos parecer integrantes do grand monde da bola, mas sabemos todos que não é bem assim. Estamos a anos de luz do que pode ser considerado o jet set, pra usar uma expressão que vem lá dos anos 1950 cunhada nos Estados Unidos por um cara chamado Igor Cassini, considerado o rei das fofocas sociais naqueles tempos idos. E o termo cai muito bem pois sabemos que jatinhos seduzem os grandes astros do futebol e não só eles. 

Semana passada Vini Junior pelo Real Madrid e Raphinha pelo Barcelona roubaram a cena no principal torneio de clubes da Europa. Brilharam tanto que um dos  jornais por lá ao dar de cara com o futebol praticado por Vini o considerou o melhor do mundo. E aquela altura todos pareciam acreditar que ele iria ficar com a bola de Bola de Ouro. Talvez seja o caso de seguir as principais Ligas do continente europeu que não se preocupam com o limite de estrangeiros mas determinam que os times tenham um certo números de atletas formados no país e, em alguns casos, nos próprios clubes. Dirão que tudo é uma questão de grana. E é, não dá pra negar.  As SAFs estão aí colocando fermento nas nossas cifras. 

Mas o sistema em si nada tem de novo. E ninguém parece se importar como futuro. Os garotos prodígio vendidos aqui continuam rendendo espetacularmente. E eles sempre toparão o negócio porque afinal o glamour está lá. Alguém que olhe as faturas não terá dúvidas do nosso crescimento futebolístico. Mas em campo o futebol jogado está longe de espelhar a excelência que os números sugerem. A fórmula praticada neste momento deveria servir para melhorar a qualidade do jogo, mas ela me deixa cada vez mais convencido de que andamos reinando num universo muito distante do jet set. Não por falta de jatinhos.  

sexta-feira, 17 de maio de 2024

A fronteira que nos separa



Não é de hoje que tem sido difícil atravessar as fronteiras que separam as tardes das noites nos dias em que o futebol europeu mostra todo o seu esplendor.  O torcedor saberá bem do que quero dizer. Sair de um Real Madrid e Manchester City, ou algo que o valha, e pouco depois dar de cara com um jogo da Copa do Brasil ou mesmo do Brasileirão costuma testar nossa crença no jogo de bola. É um tipo de estimulante às avessas. Não bastasse toda a qualidade com que a grana faz o futebol se vestir ainda há um requinte de enredo que, literalmente, só vendo. E não quero cair naquele lugar comum que define esse abismo com a sentença de que a essa altura no velho continente se pratica um outro esporte. Pode até parecer, mas definitivamente não é. 

Sei que ser assim contundente pode só aumentar essa angústia futebolística que vivemos. Mas creio que há um quê de atitude nisso tudo. E grossura também, que eu não seria inocente de afirmar o contrário. Muitas vezes olho um jogo nosso, como aconteceu ainda outro dia, e a impressão que tenho é a de que hoje em dia certos jogadores cumprem os noventa minutos de uma partida com o ânimo de um burocrata. A mínima vantagem é muitas vezes suficiente para que a vontade de um novo gol vire fumaça. E a partir daí toda a opacidade é só consequência. E por falar em impressões. Quero registrar aqui que ao largo de todos os resultados que o São Paulo vem alcançando depois da chegada do técnico Luís Zubeldía há algo de novo na aura que cerca o time. Na maneira de comemorar cada gol. 

Em outras palavras há uma vibração ali que não existia. E talvez ela seja fruto da confiança que Tite sugere que no Flamengo andou minguando. Pensando nas duas coisas seria o caso de perguntar, alimentando aquele velho dilema que  cerca o frescor das bolachas, se alguém fica confiante porque ganha ou se ganha porque está confiante. O futebol sugere que a confiança  é dependente da vitória. Tenho minhas dúvidas. Acho que a confiança pode se alimentar de muita coisa.  E o futebol é intrigante, nos dribla. E digo isso por que até agora não me sai da cabeça uma das cenas que vi justamente num grande duelo do futebol europeu. Foi no jogo em que o poderoso Real Madrid garantiu mais uma vez vaga na final do principal torneio de clubes do mundo ao eliminar o Bayer de Munique.  

Era uma imagem recuperada do momento em que o time madridista, dono da casa, marca o gol da virada. Aquele que lhe daria a classificação. O quadro da imagem mostra ao fundo a explosão da torcida nas arquibancadas e em primeiro plano, de corpo inteiro, vestindo um terno bem cortado  o técnico do time espanhol, Carlo Ancelotti. E ele vê tudo impassível. Não mexe minimamente um braço. Não altera o semblante. Permanece imóvel com as mãos no bolso, ou os braços cruzados, já não estou certo. Mas impassível. Um sorriso, nada. Ao ver aquilo eu, que sempre me achei um cara pra lá de frio para ver jogos de futebol, custei a acreditar. E me peguei pensando que se conseguisse aquele nível de abstração não sofreria tanto para atravessar aqui por estas bandas as fronteiras que separam as tardes das noites nos dias em que o futebol europeu mostra todo o seu esplendor. 

quinta-feira, 1 de junho de 2023

O futebol moderno



Difícil saber o que seria exatamente a vanguarda do futebol mundial. Mas se ela existe provavelmente está intimamente ligada à grana de Estados Autocráticos que há pouco mais de uma década viram no futebol a ferramenta ideal para expandir sua área de influência. Daqui do hemisfério sul não foi difícil notar isso quando Nasser Al Khelaifi, presidente PSG e CEO de um fundo de investimentos ligado ao governo do Qatar não se intimidou diante das cifras que precisaria honrar para tirar Neymar do Barcelona e fazer dele o jogador mais caro da história na ocasião. Estava ali exposto pra quem quisesse ver que se tratava , acima de tudo, de um negócio de Estado. 

Daqui a alguns dias veremos o Manchester City em campo decidindo o principal torneio de clubes da Europa. E ninguém melhor do que o City , de Pep Guardiola, para exemplificar essa vanguarda. É fato que o resultado talvez não fosse o mesmo se a estrutura milionária colocada à disposição do treinador catalão não estivesse aliada a alguém como ele. Mas essa é outra história. Interessante é notar que a maior vítima de tudo isso até agora tenha sido justamente o Real Madrid, atual campeão europeu de clubes, que se viu encurralado no jogo de volta das semifinais de maneira poucas vezes vista. Justamente o Real, de Florentino Peres, que outrora com gastos estelares fez cair sobre o time madridista a fama de galáctico. Com toda a pompa e vaidade que ela guardava.  

Há um sem fim de questões que vêm na esteira de tudo isso. O futebol virou um tipo de negócio que dá a impressão de ser cada vez mais íntimo de grandes esquemas, sujeito à lavagem de dinheiro ou a conivência com questões pra lá de delicadas como a dos direitos humanos. Algo que a passagem do futebol mundial pelo Qatar durante a última Copa só fez ficar flagrante. Ninguém há de dizer que o futebol gerado por essa realidade não é de encher os olhos. Talvez fosse o caso de se perguntar o quanto ele pode ser considerado verdadeiramente real.  Seja como for é fácil demais entender porque é que dias atrás as manchetes anunciando o interesse do PSG em investir no Santos causou tanto eco. 

Ainda que seja um exercício desafiador compreender como seria possível ficar com a grana sem se render à lei das SAF recém instituída.  Não existiria negócio no mundo tão bom, ao menos pra uma das partes, do que usufruir de uma fortuna sem necessariamente entregar a galinha dos ovos de ouro. Talvez nos falte tempo para acompanhar de perto todos os desdobramentos causados pelo fato de o futebol ter ganho esse tamanho geopolítico e por estar à merce dos interesses de Estados como o de Abu Dabhi. O City chegou ser multado pela UEFA e se ver suspenso por duas temporadas da Champions League há cerca de três anos. E certamente não foi por ser bonzinho. 

O City se viu emaranhado nas questões do tal Fair Play financeiro. Um caso que  expôs totalmente a Premier League, símbolo mor nos dias atuais do que deve ser um torneio nacional. Em julho de 2020, meros cinco meses depois de a UEFA ter anunciado o banimento do City a Corte Arbitral do Esporte anulou a decisão. Se alguém no futebol mundial ainda pode prescindir da grana que jorra desse imenso jogo de interesses de Estado certamente não são alguns dos maiores clubes do mundo. Ao mesmo tempo que um sem fim de outros nem pensarão duas vezes diante da oportunidade de entrar no time.  

quinta-feira, 11 de maio de 2023

O futuro que a gente espera



Talvez o mais fiel retrato do que virou a Seleção Brasileira nos dias de hoje seja o intrigante andamento das conversas para que o posto de técnico seja assumido pelo italiano Carlo Ancelotti. Chega a ser difícil acreditar nisso depois do próprio Ancelotti, ao ser perguntado a respeito, ter dito   que tudo não passava de bobagem. Completou, não sem certa empáfia, dizendo que não fala sobre o futuro dele com ninguém. Colocações que, no mínimo, exigiriam mais tato na hora de tratar do assunto. Mesmo diante dessa posição firme o presidente da CBF não pensou duas vezes em voltar ao tema. Ao conceder entrevista a uma TV Árabe dias depois se mostrou disposto a ir além do dia 25 de maio, inicialmente dado como data limite para a negociação. 

Falou que topa esperar mais, caso o Real Madrid, time atual de Ancelotti, conquiste uma vaga para decidir a Liga dos Campeões da Europa.  O cartola brasileiro deixa soar como justificativa pra tanta demora o fato de a próxima Copa ofertar um número maior de vagas e também o fato de as Eliminatórias  terem o início marcado para o mês de setembro.  O mandatário maior do futebol brasileiro fez questão de dizer que para o torcedor e para a imprensa tudo no futebol é pra ontem. Eu, de minha parte, diria que nunca é cedo para começar a trabalhar quando se tem pela frente um grande desafio. E recolocar o Brasil na dianteira do futebol mundial nunca soou tão desafiador. Fico, sinceramente, com a impressão de que vai se usando a mídia para mandar recados. 

Estivessem minimamente alinhadas as partes, mesmo diante de toda a cobrança a respeito, não seria necessário voltar toda a hora ao tema. Também enxergo nisso tudo um esforço para, de alguma forma, se atrelar a alguém que, como sugeriu o próprio presidente da CBF, é unanimidade. A velha tática de deixar claro que seja qual for o desfecho se tentou o melhor.  Ainda mais quando o interessado diz diante de toda a expectativa gerada pelo assunto que na verdade tem tentado ser paciente e que aguarda o momento certo para entabular uma conversa com o italiano. E que por uma questão de ética não abordaria nenhum treinador que tivesse contrato com algum clube. Pode soar exagerado que se trata de uma cortina de fumaça. Como acho ingênuo acreditar nessa unanimidade pois ainda que a torcida feche com Ancelotti as cornetas daqueles que se dirão desrespeitados com a escolha por um estrangeiro irão soar. 

E não estranharia se nessa toada parte dos descontentes se mostrasse mais favorável a Fernando Diniz, que muita gente aposta - não é de hoje - que seduz o presidente da CBF também. Sou desde sempre um entusiasta do Diniz mas considero que seria uma escolha temerária para a CBF e também que seria, no mínimo, precoce para o atual treinador do Fluminense. Por mais que Diniz esteja fazendo por merecer precisa dar conta de outras etapas e avanços se quiser chegar lá um dia de maneira robusta. Capaz de aguentar os trancos de quem , mais do que qualquer outra coisa, gosta de colocar fogo no circo. Se o empate entre o Real e o City na terça ajudou ou atrapalhou iremos descobrir. E encerro dizendo que se Ancelotti diz que não fala do futuro dele com ninguém, talvez fosse o caso da CBF decidir rápido quem vai cuidar do da Seleção.

quinta-feira, 2 de março de 2023

De olho no futebol dos outros



Nos dois últimos meios de semana quem conseguiu acompanhar os jogos do principal torneio de clubes da Europa renovou em si aquela sensação desconfortável de que o que andamos desfrutando por aqui em matéria de futebol está a anos luz do que se desenrola por lá. Não descarto que caiba aí um sem fim de colocações. Inclusive a de que boa parte do brilho que se vê por lá é fruto de talentos que nascem entre nós. Está aí o Vini Júnior como prova. Ninguém melhor do que ele para ilustrar isso. Enfim, estamos falando de um centro para o qual convergem há tempos os melhores do mundo tenham eles nascido na Noruega ou em um país da África. E pode soar como coisa de ranzinza dizer que mesmo uma bola atrasada por lá é mais virtuosa do que uma que se atrasa aqui. E como se atrasa. A dinâmica de um jogo de primeira linha do futebol europeu derrama graça até no mais tosco dos chutões. E há outro ponto: jogos como o que se deu entre Liverpool e Real Madrid estão em um patamar que também não é o do futebol europeu em sua totalidade. Muito pelo contrário. 

Um modo sonhador de desarmar esse enredo seria apelar para a ousadia. Pensar o jogo de bola de maneira diferente. Aceitar correr riscos. Teorias que estamos cansados de saber que nenhum dos nossos professores está disposto a adotar. Mesmo os que têm à disposição um elenco talentoso Mas já que não conseguimos copiar o futebol, que tal copiar o comportamento? Isso mesmo. Não enlouqueci, ainda. Tente por um instante fazer esse exercício. Imagine nosso futebol, esse mesmo que está aí, sem maiores mudanças, mas sem jogadores caindo depois de qualquer encontrão com o adversário. Com os goleiros sendo obrigados a cumprir minimamente o tempo estipulado pra reposição de bola. Sem os fingimentos constantes que tentam convencer o árbitro de que aquela mão no rosto teve a força de um golpe desferido por um peso pesado. Daríamos , ou não daríamos, um lustro na coisa? 

Digo mais, imagine o futebol não livre - o que seria irreal - mas com os rompantes de valentia tão comuns nos clássicos reduzidos a algo que não afrontasse deveras a civilidade. Atitudes que acostumamos a ouvir que esquentam jogos. Ora, o que esquenta jogo é lance bom. Disposição pra jogar. O que esquenta jogo é time procurando o gol. Criando chances claras de fazer a bola ir dar no fundo da rede adversária. Isso tudo somado a uma arbitragem menos intervencionista e, acima de tudo, mais preocupada em educar os jogadores fariam muito pelo futebol. Não sou inocente a ponto de pensar que todas essas bizarrices não sejam vistas na Europa. O fato é que se dão de modo que não comprometem o espetáculo. 

Acho difícil alguém de bom senso não aceitar a conclusão de que um jogo bem conduzido e uma arbitragem preocupada verdadeiramente em preservar o espetáculo não operariam milagres. Mas estamos na contramão. Entre nós passou a ser um lugar comum afirmar que árbitros muito exigentes podem comprometer o espetáculo. Quantas vezes não notamos que os jogadores em campo parecem menos preocupados em jogar bola e mais preocupados com a catimba. É disso que eu falo ao me referir a um jogo bem conduzido. É disso que eu falo quando digo que se não dá pra copiar o jogo deveríamos , ao menos, tentar copiar o comportamento visto num futebol que gostaríamos de poder chamar de nosso. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Quem salvará Vini Júnior ?




Se a memória não me trai, faz tempo que não abraço neste espaço um personagem. Tenho um fraco por eles, os grandes, claro. E vou  carregar sempre uma ponta de inveja, das boas, de um Mário Filho ou de um Nelson Rodrigues, que sabiam com raríssimo talento elegê-los e, mais do que isso, descrevê-los. E esse eleger é o detalhe porque quando digo que gosto dos grandes isso nada tem a ver com nobreza. Um personagem pode se fazer imenso sendo simples. E personagem para mim, não é de hoje, tem sido o jovem Vinicius Júnior. 

O episódio em que um boneco vestido com a camisa dele apareceu enforcado num viaduto da capital espanhola pouco antes do clássico entre o time dele, o Real,  e o Atlético de Madrid é de um simbolismo macabro. Apesar disso estar muito claro em um primeiro momento temi que a coisa fosse esquecida. Quando um ou dois dias mais tarde veio a notícia de que o ocorrido estava sendo investigado pela polícia e tinha sido levado a outras instâncias me interessei de vez. Tenho acompanhado os desdobramentos. Considerei alvissareiro quando no final da última semana a polícia informou que tinha encontrado impressões digitais e até traços de DNA no boneco enforcado, bem como imagens de carros suspeitos e suas placas, o que foi possível graças as imagens registradas pelas câmeras que monitoram o trafego na região. 

Vinicius Júnior é bom de bola e todo mundo que entende um pouco de futebol já sacou. O que lhe permitiu o requinte de justamente no jogo entre o Real e o Atlético de Madrid  ter não apenas ajudado deveras o time dele , mas também ter anotado o gol que definiu a vitória de virada do Real por três a um. E quem vê esse garoto de vinte e dois em campo, com seu sorriso largo, seu jeito leve, pode custar a acreditar que se trata de alguém que tem estado sob ataque constante nos últimos seis meses. Alvo de atos preconceituosos, racistas. Quisera neste momento pesassem sobre ele apenas os descontentes com as danças que Vini curte fazer ao marcar um gol. 

E como se não bastasse tudo isso voltou a ser manchete na última quinta ao sofrer uma entrada desleal do zagueiro brasileiro, Gabriel Paulista, no jogo contra o Valencia que o Real ia vencendo por dois a zero. Gabriel se desculpou, disse que não estava orgulhoso do que tinha feito. Que não teve a intenção de machucar e que a má fase vivida pelo Valencia o tem deixado com os sentimentos à flor da pele. É fato, o time de Gabriel anda flertando com a parte mais baixa da tabela e sabemos todos o que isso significa no mundo da bola. O que eu não consigo deixar de levar em conta é o quanto tudo o que tem sido dito e feito a Vinicius Júnior não fez dele um alvo. E o quanto não continuará fazendo. No final de semana contra o Mallorca tudo se repetiu. 

Vinicius Júnior talvez seja de longe o melhor que o futebol brasileiro produziu nos últimos tempos. O cara que continua de alguma forma nos fazendo acreditar que nosso pais segue sendo uma fonte inesgotável de talento, com todo o potencial suicida que pode se esconder nisso. Vinicius Júnior precisa de proteção literalmente. Ontem, enfim, a La Liga anunciou a criação de uma Comissão para cuidar disso. Inspetores, segundo eles, serão colocados em setores considerados problemáticos.  Mais importante do que isso, foi o presidente, ainda que tardiamente, ter dito o óbvio: " La Liga não pode ter um jogador que vai a todos os estádios e é insultado". Pois vou além, digo ser lamentável que a CBF  não tenha se pronunciado diante de tal gravidade, ou que  o Real Madrid com todo o poder que tem até agora não tenha levantado a voz nesse sentido. Falar em sentimentos à flor da pele a essa altura não passa de canalhice.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Qual o lugar do nosso futebol?



Qual o lugar que verdadeiramente nos cabe no mundo da bola? Faz pouco mais de uma semana manchetes anunciavam que o Brasil tinha passado a França e assumido o segundo lugar no ranking da FIFA, atrás da Bélgica. De honroso mesmo nisso tudo só o fato de que figurar na lista atrás apenas do primeiro colocado é melhor do que estar lá embaixo. Dizer que o ranking não serve para nada seria um exagero.  Ele determina a posição das seleções em sorteios e tal. Mas no cotidiano do torcedor é algo inexpressivo, uma abstração.  Ao contrário da qualidade do futebol que se pratica aqui e que a cada rodada coloca à prova a paciência de quem insiste em assisti-lo. E o fato de os clubes brasileiros terem  dominado a reta final da Libertadores tampouco deve servir de parâmetro.  

O que não vale para os argentinos. As manchetes por lá não tardaram a anunciar que a atual temporada de Copas foi um tapa de realidade na cara do futebol argentino. Sem dúvida algo que soou mais verdadeiro do que nossa posição no ranking da Federação Internacional. Agora para saber o quão mais verdadeiro será preciso esperar.  É fato que há tempos os hermanos, com sua mistura para lá de precisa de raça e técnica, equilibraram as coisas. Mesmo com os times brasileiros lidando com cifras infinitamente maiores.  O que não deixa de ser , comparativamente,  aquele bom e velho doping financeiro, nem sempre eficiente e cujo custo aqui nos trópicos corroeu e continua corroendo as finanças dos clubes, e antes disso sua soberania. 

Sabendo disso - e como as coisas se dão - não seria demais pedir para que os torcedores de times como Atlético Mineiro e Palmeiras façam uma boa reflexão sobre o papel e o custo que poderão ter seus mecenas. Mas sei que um pedido desses em meio a euforia que os cerca vai soar como coisa de estraga prazeres. Seja como for, em matéria de futebol tenho a impressão clara de que estamos em algum lugar entre  a realidade combalida do futebol sul-americano e os endinheirados do futebol europeu, ainda que nossa diferença de faturamento para eles seja abissal. O que nos iguala de alguma forma é o jeito sempre duvidoso de se levar as coisas.  

Não fosse assim um time como o Barcelona não estaria vivendo a pindaíba atual.  E o Real Madrid vai pelo mesmo caminho. Saibam, os que ainda não sabem, que tudo o que temos pra deixar as coisas com um ar mais responsável é um verniz, que diante de um olhar atento mal consegue esconder os interesses outros que cercam  os grandes  times, mas não só eles. Outra coisa que iguala os daqui com os de lá  são os efeitos causados pela pandemia, o que pode sim estar diretamente ligado a esse momento de superioridade dos times brasileiros.  E está. Para os argentinos, por exemplo, as consequências foram muito mais severas. E normal que neste momento  quem fatura mais sofra menos.  

Talvez também fosse o caso de perguntar até que ponto os poderosos Flamengo , Palmeiras e Atlético Mineiro com suas cifras fora da curva representam verdadeiramente o futebol brasileiro.  Ainda que o caso do Flamengo mereça ser visto de forma distinta. E se alguém por ventura vier a considerar um exagero de minha parte dizer que somos um tanto parecidos com os que vivem do jogo de bola no velho continente não custa dizer que a UEFA vem articulando um fundo para ajudar os clubes com problemas financeiros. Algo em torno de sete bilhões de euros, ou mais de quarenta bilhões de reais. Dinheiro sobre o qual seriam cobrados juros baixos e cujas garantias de pagamento seriam as rendas de futuras competições. Soa, ou não lhe soa, familiar? Bom, pra não deixá-los sem resposta tomo a liberdade de dizer que o lugar que nos cabe no mundo da bola é esse meio termo entre pobres e ricos, mas com um prestígio sempre digno de contestação. 

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Independência ou morte ?



Eis que no último domingo , bem distante das margens do Ipiranga, um seleto grupo de clubes europeus decidiu anunciar a criação de uma Liga e, consequentemente, declarar independência da UEFA, a entidade que rege o futebol no velho continente. O que significou também dar uma escanteada na FIFA. Como era de se esperar a reação foi proporcional à ambição da proposta.  Do alto da prepotência que o dinheiro costuma gerar os doze clubes fundadores deixaram claro que a ideia iria abolir o rebaixamento. Uma regra sem a qual todo o emaranhado de competições deixaria de fazer sentido. 

O governo inglês não tardou a dizer que faria todos os esforços para inviabilizar o projeto, amparado num aporte de quatro bilhões de euros do banco JP Morgan. Figuras importantes e nem tão importantes do mundo da bola colocaram a boca no trombone também. A ideia não durou quarenta e oito horas. Mas a mim, logo de cara, uma coisa ficou muito clara: clubes de futebol não deveriam mesmo ter dono.  Que me perdoem os defensores do clube-empresa. 

A grita foi grande e o que vimos foi todo mundo pulando do barco.  Deixando no ar a evidência de que o futebol é algo muito complexo. Quero acreditar que o corrido servirá ainda para que aqueles que defendem há muito tempo a criação de uma Liga por aqui reflitam melhor sobre a elaboração dela e suas consequências.  Confesso, cá com meus botões, ter visto no ocorrido os poderosos do futebol sendo vitimados pelo sistema que alimentaram. Durante anos inflaram seu negócio de olho na grana dos outros. Pouco importando para isso se o dinheiro que ia para o cofre era limpo ou não. 

Até que chegou uma hora em que os verdadeiramente endinheirados passaram a não ver mais razão para deixar que outros gerissem o que era alimentado com a grana deles. Se for esse o caso mais cedo ou mais tarde estaremos mesmo diante de uma ruptura sem precedentes na história do futebol. Enquanto do outro lado ficaram os que verdadeiramente amam o jogo, os torcedores. Fico pensando o que será que esses senhores pensam a respeito deles, como os encaram intimamente. Por certo não os temem. 

Times como o Real Madrid e Barcelona com seus tentáculos derramados por outros continentes como a Ásia, talvez acreditem que já não dependam de quem está perto e os fez ser o que são. Nas redes, nas TVs, nos jornais, manchetes apontaram a morte do futebol.  Não creio nela enquanto neste mundo houver uma bola e um menino. Quanto ao futebol como esses ditos nobres o conhecem e encaram não creio que valeria nenhuma espécie de lamento.