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quinta-feira, 20 de março de 2025

Wlamir, um herói



Houve um tempo em que o esporte produzia heróis. Digo houve porque não é exatamente assim que a coisa se dá hoje em dia. Hoje as vitórias e as marcas costumam fazer nascer celebridades, o que é infinitamente diferente. Pode ser uma visão subjetiva, pois que seja. Falo isso porque quando me pego a imaginar os campeões de outros tempos vejo neles uma humanidade que os dias atuais se não extinguiram, no mínimo, tornaram difusa. E quando falo desses heróis nascidos de um mundo antes do dito moderno os concebo ainda com um quê de desbravadores. E estou convencido de que não é à toa. E se falo desses homens hoje é porque Wlamir Marques se foi. E ele, sem sombra de dúvida, era um deles. Ou ter sido campeão mundial de basquete nos idos dos anos cinquenta do século passado não era de algum modo trilhar um caminho totalmente desconhecido para um brasileiro? 

Não, não se trata de uma sensação que nasceu com essa evidência da perda. Foram vários os momentos ao longo da minha trajetória profissional em que essa maneira de interpretar tamanhas façanhas foi se solidificando. Por exemplo, como quando certa vez conversei com outro grande herói do nosso esporte, um campeão do quilate de Wlamir Marques. O campeão era o também desbravador, Ademar Ferreira da Silva, primeiro bi-campeão olímpico do nosso país, que me contou com requinte como pareceu uma aventura por mares nunca navegados a ida e a chegada dele à Helsinque, na Finlândia. Isso sete anos antes do título mundial de Wlamir. Helsinque em que Ademar subiria ao lugar mais alto do pódio pela primeira vez. 

A envergadura desses feitos poderia fazer com que essas nobres figuras tivessem pra nós um quê de inalcançáveis. Poderia. Mas heróis são diferentes de celebridades. Wlamir, em especial, foi um tipo de herói do qual sempre me senti um pouco íntimo. Não bastasse ele ter nascido em São Vicente, cidade onde fui criado, ter jogado no Tumiaru, clube onde tentei de várias formas encontrar algum traço de campeão em mim - fosse nadando, remando ou jogando basquete - há ainda uma história curiosa que sempre fez Wlamir, e o nome dele, parecerem coisa de casa. Como filho mais velho quando nasci ganhei o nome de um grande amigo de meu pai que ele queria homenagear e se chamava, Vladir. 

Tempos depois, mais exatamente no ano de 1969, nasceu meu irmão. Então, pairou no ar a dúvida sobre que nome dar ao menino que chegava. Imperativo, segundo meu pai, era que se tratasse de um nome que fosse parecido. A partir daí ficou fácil. Wlamir, coincidentemente nascido no mesmo ano de meu pai, ainda brilhava nas quadras. Muitos anos depois, em minha segunda passagem pela ESPN, fomos colegas de emissora. Certa tarde ao encontrá-lo pelos corredores fiz questão de contar a história que, afinal, lhe era um tributo. Wlamir a ouviu e a recebeu com a elegância e a simpatia de sempre. Naquele dia fui embora feliz trazendo em mim a sensação de quem lhe tinha feito uma reverência. 

Agora, em casa, quando lembravam dessa história a gente caçoava do meu pai dizendo que ele tinha criado mesmo era uma dupla caipira dada a sonoridade que acabou derramando sobre o nome dos filhos: Vladir e Vlamir. Mas interessante mesmo, ao longo do tempo, foi notar também a legitimidade que costuma envolver esse tipo de campeão. Lembro de ouvir Wlamir falar de basquete em certa ocasião e notar as pessoas ao redor totalmente atentas, como que sem poder por um instante sequer deixar de lembrar que estavam diante de um herói. O ouviam como se fosse um oráculo. Compreensível, fruto de uma geração tida como de ouro era considerado por muitos o maior. Ontem Wlamir Marques partiu, mas a história que ele deixa, ensina.    

quinta-feira, 16 de março de 2023

Valeu, Romualdo !



Eu conheci isso aqui quando era tudo mato. É bem provável que em algum momento você tenha ouvido a frase que abre esse artigoOuvi muitas vezes. Confesso a vocês que evito usá-la. Sei que as pessoas não têm culpa alguma de terem vindo ao mundo depois de nós. Como evito usar uma outra, aquela sacada quando nos deparamos com alguém que vimos nascer. O famoso...te peguei no colo. Fiz essa abertura porque queria fazer uma homenagem e pra isso serei obrigado a relembrar um tempo em que ali nos arredores da Rua Quintino Bocaiuva, em São Vicente,  se não era tudo mato, era quase. A Quintino, hoje é uma via de tráfego impiedoso. Mas nos idos dos anos oitenta era uma rua larga de terra. Permitia que a fizéssemos de campinho para travar boas peladas. 

A bola, em geral, era uma dente de leite. As vezes, uma de capotão, que não tardava a ter seu couro corroído pelas pedras do que imaginávamos um gramado. Mas havia um senhor, dono da imobiliária que ficava do outro lado da linha do trem, na Marechal Deodoro, que mais de uma vez deu ao jogo de bola da molecada da minha rua um ar de gala. O senhor era ninguém menos do que o árbitro Romualdo Arpi Filho, falecido no último dia 04 , que não tardaria a viver seu auge profissional apitando uma final de Copa do Mundo. Da primeira vez que a coisa se deu, foi o Zé Carlos, que nunca mais vi, um moreno de pernas tortas que batia um bolão quem chegou botando pilha em todo mundo.  Depois da pelada, a meninada toda empoleirada no muro, ele fez o anúncio: Romualdo tinha prometido trazer uma bola. Imaginem só. Uma bola oficial. 

Entre o olhar cheio de brilho de uns e o olhar cheio de descrença de outros se passaram umas semanas.  Eis que um belo dia o Zé Carlos, que desde sempre tinha chamado pra ele a responsabilidade de sair batendo de porta em porta no início da tarde convocando a molecada pro jogo, trazia embaixo do braço a tal bola presenteada pelo Romualdo. Nunca uma pelada na Quintino tinha tido ar tão nobre.  A entrega tinha se dado em uma segunda-feira e Romualdo tinha dito que a bola era a que tinha sido usada no clássico do domingo. Houve, por esse motivo, quem tivesse sugerido que com uma bola daquela o melhor seria ir jogar na praia. A areia seria infinitamente menos agressiva àquela maravilha. E realmente a Quintino tinha pedra que não acabava mais. Não havia nem bola nem tampão do dedão que ficasse intacto. 

Não faz muito tempo tinha ligado para o Romualdo. Iríamos fazer um programa especial no final de ano e queria tê-lo como convidado. Com elegância me disse que preferia declinar. Considerava que seu tempo tinha passado. Tentei não apelar.  Não consegui. Antes de me despedir saquei as minhas memórias de moleque. Não teve jeito. Lembrando agora me alenta o fato de, ao menos, ter podido dividir com ele tais lembranças. Os mais velhos do que eu, os que viram tudo com mais mato do que eu, dizem que Romualdo, com seu corpo franzino, não teve vida fácil na várzea. Já não importa. Importa é deixar um obrigado a Romualdo por ter dado bola para aquela garotada que antes de receber o presente dele achava que era igual a todas as outras. 

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Skate, a onda. ( ou O Futebol que se cuide)



Já tive o prazer de contar aqui algumas de minhas memórias relacionadas ao surfe. Falar da época ancestral de quando ele entrou na minha vida. Relembrar as pranchas de isopor, motivo de cobiça da meninada, que eram turbinadas com quilhas feitas à mão usando como matéria prima a madeira de caixas de uva que íamos garimpar no final da feira. Bons tempos. E devo confessar que toda empolgação com o skate nessa Olimpíada singular que acabou há pouco anda me trazendo muitas lembranças. Descobri o skate praticamente na mesma época que descobri o surfe. Eu, não, toda a garotada que vivia ali nos limites entre o Gonzaguinha a a Vila Valença, em São Vicente. Se não estou enganado o limite entre os bairros era - e é ainda imagino - decretado pela ferrovia, que só chamávamos de linha do trem, hoje do moderno VLT. 

A ladainha na orelha do meu pai foi a mesma que acabou brindando a mim e a meu irmão com uma verdadeira Kamehameha, assinada pelo lendário surfista e shaper Homero Naldinho. Soubesse o que significaria jamais teria me desfeito dela. Pois bem, em matéria de skate o chororô nos valeu um autêntico DM. Que já não sei se era top mas era um skate que fazia brilhar os olhos da molecada. Não sei bem como, em torno do skate, foi se formando um grupo.  A única vontade que se igualava a de ter um skate era  a de ter  uma rampa para usá-lo. De modo que durante um bom tempo à noite nos dividíamos em grupos e saíamos atrás da matéria prima para tal: compensados de madeira. Um verdadeiro tesouro.  As vigas também eram garimpadas. De modo que a vaquinha que se fazia no final era só pra dar conta dos pregos. 

Disso nasceu ali na esquina da Quintino Bocaiúva com a Cândido Rodrigues uma das maiores rampas do pedaço, que mais tarde se tornaria ainda maior e seria transferida para o terreno baldio que ficava exatamente nessa esquina. E lá permaneceria até que fosse desalojada pela construtora que no lugar ergueu um prédio de três andares. A desilusão foi imensa. Em sua versão mais radical a rampa chegou a ter uma altura de quase dois andares. Um dos projetistas , o cara que processava tudo que a garotada encontrava de material era o Hélinho. Tinha uma mão incrível.  Lá vi andarem, para deleite de todos, caras como Dinho e Luciano Kid, que viria a ser o primeiro campeão brasileiro de street. Eram habituês do local. Figuras com lugar mais do que garantido quando tudo o que cercava o skate no Brasil era  mato.  

Tempos atrás lembro de ter visto um documentário, tenho a impressão de que estrangeiro, que traçava um perfil tão nobre de Dinho, que ao dar de cara com aquilo foi impossível evitar a nostalgia.  Enfim, é com alegria que vejo tudo o que anda acontecendo. Outro dia me peguei pensando se o Comitê Olímpico Internacional não se aproveitou em certo sentido de toda essa história, que não deve ser muito diferente da que  se desenhou pelo planeta, ainda que em momentos diferentes. A rebeldia nesse universo sempre foi uma marca e talvez valesse tentar ficar fora da grande máquina.  O que vale para o Comitê Brasileiro também. 

Não custa lembrar que não fosse o skate e o surfe terem debutado nesse olimpo não teríamos tido a tão cortejada melhor participação do Brasil na história dos Jogos. E tanto uma modalidade quanto outra andaram, não custa lembrar, com as próprias pernas. Respeitando seus valores, se provando capazes de cuidar muito bem dos seus torneios mundiais. Reconheço, claro, que a inclusão deles carrega consigo um reconhecimento , uma possibilidade de que os dois se façam ainda maiores. E isso soa justo, muito justo. ​Além de todo o talento de quem fez o skate neste momento ser o que é, há outros detalhes - e isso vale pro surfe também em algum grau - como a capacidade que os atletas, e a modalidade como um todo, tiveram de saber usar as novas tecnologias, não só pra se comunicar com os apaixonados, mas também para desnudar toda beleza das manobras e o estilo e a filosofia de vida que as cercam. O futebol que se cuide.  

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Bombonera de barro




Eram duas turmas de garotos, entre tantas que aqueles anos guardavam. Cada uma delas com um time pronto para encarar um "contra". Era assim que se denominava um embate que se desse com alguém que não estava entre os seus. Pois na maioria delas havia meninos suficientes para formar bem mais do que um esquadrão. Talvez o termo seja usado até hoje, não sei. Envelheci. Entre elas uma se destacava. Não só pelo futebol mas porque tinha a seu favor - e a favor de sua fama - um campinho singular. Ficava no terreno de uma obra temporariamente abandonada. O lugar havia sido escavado. Por isso, para alcançar o campo de jogo era preciso descer um barranco. E uma vez lá os candidatos a craque se viam cercados por  altas paredes de terra. Soava como uma Bombonera feita de barro. 

Um lugar intimidador, mas  com boas traves, campo marcadinho, portanto,  sedutor também. Coisa rara. Logo, a lista de desafiantes era imensa. O dono da casa era o Pirelli.  Não lembro a razão, mas imagino que pelo fato de naqueles tempos o nome ser quase sinônimo de equipe bem sucedida graças a um time de voleibol que com suas conquistas se fez lendário. O dia do embate contra eles custou a chegar e deu frio na barriga da molecada.  Era lugar pra se pisar miudinho. Outro detalhe era que o campinho que ficava na Rua Visconde do Rio Branco, quase na esquina com a Avenida Presidente  Wilson, em São Vicente, onde hoje está o Edifício Ariane, sempre tinha torcida.  Fato que por si faz aumentar a temperatura de qualquer jogo.  

Quando o duelo se deu teve como destaques nosso centroavante, um cara alto, desengonçado e destemido. E um meio campista adversário, que era o fino. Jeito de moleque de rua, futebol de Lorde. Naquela tarde longínqua não teve chuva grossa nem fina, nem chuva de gols. O embate terminou em zero a zero. Esse mísero placar nascido para driblar os desavisados. Naquele dia aprendi que nem sempre a ausência de gols é sinônimo de pobreza. O que é verdade custou algumas divididas duras e metade da ponta do dedão direito. Barato. Andei lembrando disso tudo ao pensar na bola que não tem rolado e no atual interesse da meninada pelo jogo, que acredito já foi infinitamente maior.  

Sou de uma época em que o futebol era, disparado, a brincadeira-mor da maioria dos garotos. E, dessa forma, cada um deles se fazia - se fez - legítimo para interpretá-lo. Afinal, o vivido e as divididas iam elucidando o peso de cada momento. O peso de ser condenado à sentença cruel de levar uma bola entre as pernas, a euforia de ser alçado à condição de herói depois de marcar um gol de longe vendo a bola entrar no ângulo. A descoberta empírica, crua, de que ninguém volta para casa igual depois de uma grande partida, seja profissional ou não. Nossa brincadeira-mor, antes de tudo, nos fazia descobrir o que pode provocar em alguém a simples possibilidade de uma vitória, ou derrota, com ares épicos. E tudo isso , mais do que me fazer compreender, me fez entender essa onipresença do futebol na nossa cultura, na nossa vida. Além do mais, depois de pisar numa Bombonera de barro como aquela seria um pecado se render à velha miopia que vira e mexe insiste em reduzir o jogo a vinte e dois sujeitos correndo atrás de uma bola.   

* artigo escrito para o jornal " A Tribuna", Santos/SP