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quinta-feira, 3 de abril de 2025

A peneira invisível



Existem muitas teorias que tentam explicar o rumo que o futebol tomou. Uma das mais defendidas é aquela que prega que o fim dos campos de terra, expressão máxima da várzea que outrora cansou de revelar talentos, contribuiu deveras para o empobrecimento do jogo. Difícil combater o argumento. A expansão imobiliária notadamente roubou espaços preciosos nesse sentido e confinou a molecada em quadras, sejam elas as dos prédios ou as de society. Abençoados sejam os meninos que têm ainda uma praia pra usar como cenário de suas  peladas. 

Notem que jogar bola em um gramado natural e em campo grande virou um luxo total. Conheço muita gente que joga - e jogou bola - e nunca teve tamanho privilégio. É fato que a várzea também mudou. Está longe de ser só passado. Em uma cidade como São Paulo ela pulsa, mobiliza multidões, dá identidade a certas comunidades, preservando o ar que tinha em outros tempos. E é, muitas vezes, uma várzea requintada se comparada à de antigamente. Paga bons cachês. Atrai jogadores profissionais recém aposentados. Vira e mexe migra para estádios pequenos como o da Rua Javari, na capital paulista.

Por essas e outras uma manchete anunciando que o jogador considerado o número um da várzea paulista acabara de ganhar a chance de disputar a Série B do Campeonato Brasileiro me chamou a atenção outro dia.  O craque em questão é, Gabriel Mendes, de vinte e nove anos, que chegou lá sem jamais ter passado por uma categoria de base do nosso futebol.  Gabriel é o mais novo reforço do Avaí. E conseguiu a chance depois de ter ido jogar no ano passado no Santa Catarina para disputar a segunda divisão estadual. Lá foi vice-campeão e eleito o melhor meia do torneio. 

Antes disso a melhor chance que tinha tido foi disputar a quarta e última divisão do futebol paulista. Passagem que durou onze jogos. Mas tão valoroso quanto o talento de Gabriel foi uma das declarações dadas por ele que, a meu ver, explica muito certas carências do nosso futebol atual.  Nela o meia explicou a razão que o fez apostar na várzea e não nas categorias de base. Ele se considerava magrinho demais e isso o faria ser preterido. Era a crença que tinha pelo que conhecia desse universo. E apurou com ainda mais lucidez nossa realidade ao dizer que não queria viver o processo para ser jogador profissional. Um processo que ele sabe que precisa ser vivido. 

Em seguida se declarou um apaixonado pela várzea e prometeu na Série B ter o mesmo foco que teve para desenhar a trajetória que o trouxe até aqui. Nesse mercado - que Gabriel conhece tão bem - os valores recebidos no futebol amador ou nas categorias profissionais inferiores praticamente se equivalem. E foi se equilibrando entre eles que viveu todos esses anos. Mas a grande contribuição dessa história é sugerir uma reflexão sobre as categorias de base que ditam o rumo do nosso futebol. 

Não é preciso ser profundo conhecedor do tema pra entender que há um sem fim de condições exigidas da meninada. Exigências que passam por questões físicas, econômicas, e que muitas vezes esnobam o dom, o talento. Quero crer que para muito além de São Paulo onde a várzea, é preciso ressaltar, ostenta uma força singular, seguimos sendo um  país imenso cheio de meninos bons de bola. Uma revisão de processos e de valores certamente faria, além de Gabriel Mendes, muitos outros passarem por essa peneira disfarçada e invisível que vem ditando o futuro do futebol brasileiro. 

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

O futuro do Santos

Raphael Silvestre/Guarani FC


O torcedor santista não deve ler estas linhas com o incômodo da pulga que lhe foi posta atrás da orelha ao testemunhar o Santos perder pela primeira vez na Vila Belmiro nessa também incômoda Série B. Nem se deixar levar pelas impressões do encontro com o lanterna Guarani na noite de ontem. Em linhas gerais o desafio de levar o time de volta à elite do futebol brasileiro tem se dado dentro de certa normalidade. O longo caminho desde sempre sugeriu altos e baixos. E é como a coisa tem se desenhado. O torcedor do Peixe já foi do entusiasmo de uma largada que fez os mais entusiastas acreditarem num título invicto até um jejum de vitórias que fez os mais pessimistas puxarem os cabelos. Donde se conclui que o Santos segue no páreo. Mas está longe de ser uma maravilha. 

Vivendo uma realidade em que a quarta colocação soará inevitavelmente como triunfo é possível chegar à conclusão de que será uma possibilidade, sem  dúvida, se contentar com pouco. Uma vez que o pouco virá muito bem embalado no papel de seda do acesso. E é normal que contente uns, outros não. Que alguns aceitem que no momento em que se fala de reconstrução essa volta à primeira divisão se faz o mais importante dos passos. Mas escrevo tudo isso instigado pela declaração dada pelo Presidente do clube dias atrás quando ao ser perguntado sobre as SAFs respondeu dizendo que o clube está trabalhando para isso. Já escrevi em outra oportunidade que o que considero mais leal com o clube neste momento é justamente nem levar em conta essa possibilidade. Ao menos enquanto a realidade do clube deixar transparecer certa fragilidade. E digo isso, como já disse outras vezes, por considerar que jamais haverá negócio bom para todas as partes envolvidas enquanto uma delas estiver claramente enfraquecida. 

Quero crer que esse trabalho citado seja de longo prazo e a direção do clube esteja levando em conta alcançar uma posição privilegiada para, se for o caso, negociar.  E nisso creio por entender que o atual presidente santista é conhecedor dos meandros e armadilhas que o mundo do futebol costuma esconder.  Mas há, especialmente nesta temporada, um outro detalhe que anda dando uma aura de remédio infalível às recém criadas Sociedades Anônimas de Futebol que é o momento especial que o Botafogo passou a desenhar depois da chegada do falastrão John Textor, que esta semana teve a trajetória dele como homem de negócios muito bem descrita em reportagem do jornalista Lúcio de Castro. Reportagem que revelou como a trajetória de Textor se fez com um misto de falências, relações estreitas com magnatas russos e acusações de pirâmides financeiras. 

O dinheiro empenhado tem sido tamanho que fez o mandatário do mais endinheirado clube do nosso país apontar a ausência do fair play em terras tupiniquins no afã de explicar o sucesso do adversário que jogando em casa, diga-se, tinha acabado de lhe atropelar. Mas se o time da estrela solitária  que não parecia passar de um azarão na temporada passada e nesta se fez um time de respeito -e ainda por cima cheio da grana - pode ficar fácil convencer o torcedor de que esse talvez venha a ser o melhor caminho. Ocorre que a história recente mostra que até agora nenhum desses magnatas ousou comprar um time brasileiro, como dizem por aí, que estivesse bem das pernas. E é nessa condição que o torcedor santista deve querer ver o Santos. Aí, quem sabe, seja possível no futuro pensar em fazer um bom negócio. 

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

É o Tite, mano !



Somos reféns da própria história. Não há como fugir disso. Voltamos a amores. Voltamos a lugares. E ao agir assim desafiamos o que disse certa vez um literato que fez questão de avisar que não deveríamos voltar jamais a um lugar em que fomos felizes, sob risco de não encontrar por lá o que tivemos da outra vez. Mas voltar a algo que deu certo é coisa que ao longo do tempo tem pautado a história dos clubes brasileiros. Filosofando aqui sou levado a crer que por se tratar justamente de algo tão cercado de paixão. Algo do qual o homem costuma ser tão escravo quanto é da própria história. A novela que vimos nos últimos dias envolvendo os treinadores Mano Menezes e Tite evidenciou  essa realidade. 

O primeiro comandou o Corinthians num dos momentos mais emblemáticos de toda a história alvinegra. A queda para a Série B, verdadeira tragédia no momento em que se deu, viria a se transformar em uma espécie de catalisador que fez a fiel torcida mostrar toda a sua força. E à frente dessa recondução triunfal à elite do futebol brasileiro estava o gaúcho Mano Menezes credenciado por já ter vivido com o Grêmio esse tipo de epopeia. O título paulista e o da Copa do Brasil conquistados na sequência sedimentariam de vez a imagem dele no imaginário dos corintianos. 

Tite, por sua vez, que é gaúcho como Mano e tem praticamente a mesma idade, chegou ao Corinthians na condição de velho conhecido. Já tinha passado por lá no início dos anos dois mil e ao voltar, ao contrário de Mano, trazia no currículo um título nacional de primeira divisão e até um título sul-americano. Mas com o Corinthians alcançou e deu ao clube outra dimensão. Fez do time do Parque São Jorge campeão da Libertadores e campeão Mundial de clubes. E só quem é capaz de compreender o que significava para um time como o Corinthians a ausência desses títulos será capaz de compreender o que significa e significou a conquista deles. Não é por acaso que Tite virou uma espécie de deus do time alvinegro. 

Ele, e Mano, tiveram passagens tão fortes pelo clube que nem mesmo as que foram desenhadas pelos dois tempos depois, ao voltar, sem qualquer grande êxito, mudaram o rumo das coisas. Nada me tira da cabeça que pelo momento em que se deu a demissão de Luxemburgo, e por outras informações que circularam, a ideia da direção corintiana era trazer Tite de volta. O desenrolar da história a fez se contentar com Mano. E do mesmo modo que o Flamengo - que dizem tem tudo encaminhado com Tite - não é o Corinthians. Mano Menezes não é o Tite. E mais do que preferir esse ou aquele o que a torcida do Corinthians deve cobrar é que esse abismo que hoje existe entre os dois clubes , no mínimo, diminua consideravelmente. 

O Corinthians tem história, torcida, triunfos pra isso. A falta, é obvia, é de competência administrativa. Normal que o torcedor tenha sua preferência. Como é preciso admitir que as passagens dos dois acabaram os levando à Seleção Brasileira e isso é prova de alguma excelência. E se Mano não teve a longevidade de Tite não custa lembrar que acabou demitido quando o trabalho dele na Seleção passava a ser amplamente respeitado pela crônica esportiva. Tite, por sua vez, dirão os críticos, esteve em duas Copas e saiu das duas muito criticado. Mas aí eu diria , sem titubear: mas é o Tite, mano!