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quinta-feira, 9 de abril de 2020

O que realmente importa



A frase é das mais lembradas, desgastada até, entre as tantas que o dramaturgo, Nelson Rodrigues, cunhou com imensa maestria. É, inclusive, das mais citadas  no meio esportivo. Falo daquela que decretou certa vez que o futebol é a coisa mais importante dentre as coisas desimportantes. E os que, se dizendo apaixonados pelo jogo de bola, ao longo do tempo se recusaram a admitir a precisão do pensamento nela contido a essa altura tiveram bons motivos para mudar de opinião. Compreendo, era realidade não imaginada  ficarmos todos de uma hora para outra sem um mísero jogo de bola sequer para nos distrair. Mais desafiador que isso para o nosso "modus vivendi" só mesmo a notícia de que a novela das nove, que um dia foi das oito, iria sair de cena. 

Pode parecer cruel de minha parte, dado meu ofício, mas digo que o que a realidade nos impõe neste momento é tratar o futebol exatamente desse modo, desimportante. Pois há um número enorme de coisas verdadeiramente importantes para se cuidar. E a pressão para que a bola volte a rolar não será pequena. Desde sempre os cartolas foram bons nisso, em colocar quem manda no bolso. Não são pequenos comerciantes, se é que me faço entender. E não só a pressão não será pequena como certamente os homens da bola neste exato momento estão tramando e se mexendo para contar com a ajuda do governo, colocando na mesa o velho argumento de precisar equilibrar suas contas desequilibradas por natureza. 

Vejam, se na Inglaterra o cultuado Liverpool - cujo valor de mercado em nossa surrada moeda beira os cinquenta bilhões de reais - andou de olho em recursos de um fundo que tem como finalidade proteger trabalhadores durante a pandemia, e disso só desistiu depois de perceber que a intenção tinha pegado muito mal, imaginem vocês o que não pode se dar por aqui. É bom ficar atento. Principalmente porque o esporte se faz neste momento, como sempre, um espelho fiel da sociedade, onde os abastados terão seus trunfos enquanto aos menos favorecidos restará gritar na esperança de que algo seja feito por eles. Se neste momento o futebol se apresenta como um necessitado pensemos no que não andam vivendo então outras modalidades e seus atletas. 

No mais, se me perguntarem do mar vos digo. Apreciei vê-lo mudar de humor com a beleza ímpar com que sempre o fez. A tragar as areias, a invadir os canais. Como gostei de ver saltar a veia poética de Nelson Rodrigues, o homem que certo dia disse que se negava a acreditar que um político, nem mesmo o mais doce deles, tivesse senso moral. Se estava certo ou não os dias estão aí para desafiá-los. Não que eu tivesse dúvida a respeito da poesia em Nelson. Alegro-me pela constatação, e só. Como escreveu , Nilo Oliveira, sabiamente citado outro dia pelo amigo Marcelo Montenegro," o poeta é o que acerta de raspão - e o tempo se encarrega de colocar o alvo no lugar exato  onde o poeta supostamente errou". Palavras que soam ainda mais perfeitas nessa hora em que precisamos discutir o futebol como a coisa mais importante... dentre as coisas desimportantes

* artigo escrito para o jornal "A Tribuna", de Santos/SP

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Um Brasileirão pra durar


Era uma vez o campeonato Brasileiro de 2019, que graças ao futebol apresentado pelo Flamengo tem tudo pra ser mais lembrado do que muitos outros. Antes dele qual teria sido o mais marcante? O que fez triunfar o Palmeiras da era Parmalat seria sério candidato. Tivemos também as edições enaltecidas por acontecimentos. Caso do tri do São Paulo no final da primeira década dos anos dois mil. Mas se tivesse realmente que apontar um talvez escolhesse o do Cruzeiro de 2003, quando o time mineiro sobrou. Fez cem pontos e mais de uma centena de gols sob o comando de Vanderlei Luxemburgo, e  ao fim dele tinha treze pontos a mais do que o vice-líder Santos. A essa altura pode parecer afronta citar o Cruzeiro nessa condição, pouco depois de o time mineiro fazer sua torcida viver o calvário de um descenso com requintes de crueldade . 

Mas há nessa edição do Brasileirão que se vai uma riqueza de personagens que pode ser decisiva pra que ele ganhe ares mais perenes. Muita gente ao lembrar daquele Cruzeiro imediatamente lembrará do papel que teve o meia Alex, mas talvez sofra um tanto para lembrar outros jogadores daquele time que mereciam estar ao lado de Alex. Aristizábal, Edu Dracena. O que não será o caso do time rubro-negro. Suspeito que ao longo de um bom tempo o torcedor do Flamengo ao falar de Gabigol fatalmente se lembrará de Bruno Henrique, e de Arrascaeta, e de muitos outros. De Jesus nem se fala. E o vice-campeão brasileiro também irá contribuir pra isso. Não com um hall tão extenso de nomes pretensamente duradouros.  Mas o argentino Sampaoli, é de se supor, sozinho, dará conta disso. 

A história pode vir a diluir nomes como o do venezuelano Soteldo, tão importante para o time da Vila nesse segundo semestre. O nome do próprio Marinho, outro que foi muito bem, cheio de atitude. Mas o nome de Sampaoli soará mais insistente que esses seja qual for o rumo que ele tomar  depois de ter colocado um ponto final no que , se bem administrado, poderia ter sido mais duradouro e promissor ainda. O capítulo final escrito em plena Vila Belmiro com goleada retumbante sobre o cortejado Flamengo só fez essa sensação de perenidade crescer. Espero como muita gente por aí que essa edição de 2019 - com seus Jorges estrangeiros - tenha mesmo sido um divisor de águas e deixe como nobre legado  uma melhora do nosso futebol. Que semeie naqueles que se encarregam do espetáculo uma dose a mais de ousadia. E por que não dizer de fantasia? 

Gostaria de poder afirmar, mirando o Palmeiras, que dinheiro não é tudo. Mas não é bem assim. O Flamengo ao mesmo tempo em que areja o nosso futebol nos expõe ao risco de um desequilíbrio de forças, de uma polarização entre os muito abastados e aqueles que vivem com modestos orçamentos. Veneno que minou o jogo de bola desde que alguns passaram a ver nele , antes de tudo , um grande negócio. Como costuma ser dito por aí: quem gosta de futebol somos nós. Eles gostam é de dinheiro. E digo isso pois termino esse Brasileirão com a impressão de que ele só foi assim, porque alguém em algum momento pensou mais nele do que na grana. 

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Devemos comemorar ?

Carl de Souza/AFP


Faz tempo me convenci de que esse papo de que somos o país do futebol não é bem assim. Que abraçamos o jogo de bola com a alma e que ele tem um papel seminal na nossa cultura não resta dúvida. Ter se tornado o maior vencedor de Copas potencializou essa nossa ligação com ele. Mas basta se aproximar de um país como a Itália, ou desembarcar num domingo de sol em Buenos Aires e assistir ao que se desenrola nos gramados dos parques da capital argentina pra sacar que não estamos sozinhos nessa, que temos rivais à altura. E como temos. E, sobre o entusiasmo com relação ao jogo, quanto mais o tempo passa mais eu me convenço de que perdemos de goelada para os argentinos. Ou alguém aí tem visto por aqui algo na linha do que se vê por lá com a turba cantando nas arquibancadas do começo ao fim seja qual for o enredo que esteja sendo visto acontecer no gramado?  

Abordo a questão  por tentar até agora achar um norte para entender melhor as imagens registradas no dia em que o Flamengo partiu para a capital peruana para disputar a final da Libertadores. Claro que é preciso levar em conta que se tratava de um feriado, que os flamenguistas não se viam numa situação como essa há quase quarenta anos, que a campanha no Brasileirão tem provocado nos torcedores do time da Gávea uma euforia colossal. Mas mesmo que tudo isso sirva de explicação é preciso reconhecer que o atual momento rubro-negro fez o futebol brasileiro pulsar de um modo que já não é comum. E como foi bonito de ver. Não só a partida mais o torcedor brasileiro fazendo samba no Peru ditando o ritmo impondo seu astral. Se há um acerto nessa história de jogo único pra decidir o principal título do futebol do nosso continente é forçar esse movimento, concentrar a emoção. E se já estava meio sem entender as imagens da partida pra Lima o que se deu na volta foi tão impactante quanto. Uma mar de gente tomando um dos lugares mais simbólicos da pra lá de simbólica cidade do Rio de Janeiro. 

É claro que se trata do clube mais popular de um país imenso. Turbinado por uma sequência de conquistas meio que sem precedente na história do futebol brasileiro. Sou um tanto cético com relação a tudo o que se diz sobre o que esse Flamengo de Jorge Jesus poder ter provocado no nosso futebol. E ainda que não tenha lembrança de ter visto algo parecido em toda a vida considero o nosso jeitinho de lidar com o futebol uma coisa muito difícil de mudar assim meio da noite pro dia. Mas torço sinceramente pra estar errado.  Levo em conta pra chegar a essa conclusão que a permanência não só de Jorge Jesus mas a de  Jorge Sampaoli, técnico do Santos,  seriam fundamentais para que o processo em curso não sofresse uma ruptura. E essa possibilidade  neste momento não soa provável. De qualquer forma a festa flamenguista , se não foi o apogeu de um novo momento do nosso futebol, foi pelo menos uma grande prova de que ele tem salvação. Digo tudo isso sem deixar de levar em conta que podemos estar vendo também o primeiro grande sintoma de um desequilíbrio financeiro. Fala-se que o faturamento do time da Gávea pode beirar um bilhão em breve. O que isso significaria? Devemos comemorar?

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

A sedução das tabelas


Lembro bem que na minha época de moleque gostava de organizar campeonatos de futebol de botão. Mas quase todas as vezes - apesar do grande número de times - por trás de todos eles existiam apenas duas figuras que se enfrentavam: eu e meu irmão. E o mais louco de tudo ao lembrar disso tanto tempo depois é resgatar da memória também comentários do tipo: esse time tá bem, aquele outro está mal, quando na verdade quem estava por trás das equipes citadas podia ser a mesma pessoa. Alguns campeonatos duravam semanas. E se fazíamos comentários do tipo, lembro bem, era porque uma das grandes curtições era tecer a tabela de classificação. E acho que só esse passado explica a relação que continuo tendo com tabelas até hoje. Vira e mexe me pego olhando a do Brasileirão, entre outras. Mas é dela que eu quero falar. Sei que se houver entre os leitores um torcedor do Avaí , corro o risco de que me mande passear, abandone a leitura imediatamente, sabedor que é da condição do time dele. Enterrado na lanterna há uma eternidade de rodadas. 

O que está longe de ser o caso de Flamengo, Palmeiras e Santos, os três primeiros colocados cujas pontuações estão entre as maiores da história recente de pontos corridos do Brasileirão para suas colocações. Mas entre eles e o Avaí existe um mundo a ser explorado. Tenho gostado particularmente de olhar o Vasco, posudo como seu comandante, a essa altura cavando um lugar no meio da tabela. É muito? Não. Mas me parece mais do que o reconhecimento que é dado ao time e ao trabalho de seu treinador, Vanderlei Luxemburgo, que se segue longe do olimpo mostrou que mesmo ausente de grandes conquistas está longe de ser um comum.  A essa hora, apesar de ter um jogo a mais, ostenta a mesma pontuação do Bahia vira e mexe elogiado com entusiasmo pela crítica. Os azedos dirão que há jeitos e jeitos de garantir  um lugar desse na tabela, o que é verdade.  Como é verdade que não se fica no meio dela por puro acaso. 

E mais, as linhas que determinam o limiar entre ficar ou cair pra segundona também inspiram reflexões e garantem boa diversão aos amantes de uma tabela como eu. Cruzeiro e Fluminense parecem fadados a um desgostoso duelo particular. Estão na fronteira do descenso, um do lado de fora e o outro no de dentro. A tabela , meus amigos, é sempre um bom parâmetro. O caro leitor ao lembrar do Grêmio, por exemplo, é capaz de recordar dele um tanto vacilante. Caiu na Libertadores, acaba de perder em casa para um Flamengo reserva, mas basta ir lá dar uma olhada na tábua pra que o fôlego e a arrancada pós trauma continental do tricolor gaúcho - apesar dos pesares - se faça explícita. 

Assim como olhando a bendita  é preciso reconhecer o que vem fazendo o Fortaleza, para quem permanecer na primeira divisão já seria um feito. Dá pra dizer também que a tabela é um dos charmes de um torneio por pontos corridos. Ainda que um charme discreto que os amantes do velho mata-mata terão sempre dificuldade em reconhecer. E , além do mais, tem uma outra virtude, nos garante boas doses de emoção e diversão mesmo depois de o título já estar decidido. O que pelo andar da carruagem pode acontecer depois de amanhã.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Respeito é bom !



Sabemos que vivemos num pais singular. Ou você conhece outro onde a lei precisa pegar?  E algumas, sabemos, não pegam, como dizem. Lembro dessa nossa incomoda singularidade para falar do futebol feminino. Terminada a Copa da modalidade dias atrás não faltaram manchetes anunciando o sucesso do torneio, cuja final teria tido mais público aqui do que nos Estados Unidos. E não custa lembrar: o time norte-americano era um dos finalistas e acabou se sagrando pela quarta vez campeão mundial. O problema com o futebol feminino não é bem esse, mas de certa forma faz lembrá-lo pois a CBF - pressionada pela FIFA - impôs a lei e o clube da Série A que não tivesse sua versão feminina estaria impedido de jogar o Brasileirão este ano.  Não que dado o descaso com que a maioria sempre tratou o futebol feminino  a decisão não tenha sido merecida. 

Sei  que o futebol feminino não é unanimidade e imagino o humor de certo leitor que tenha chegado até aqui interessado mesmo é no futebol de sempre, o masculino. Mas outras leituras, em especial as sobre política, já devem ter dado pistas de que o papel do jornalista é criar certos desconfortos. Talvez seja o caso de colocar logo em campo a declaração de uma das jogadoras do Sport Recife, que foi a razão de eu ter escolhido o tema. As palavras da atleta Sofia Sena podem sim - como afirmou a coordenadora do time pernambucano - terem sido ditas no calor da hora. Sob o peso de quem  tinha acabado de levar de nove a zero do Santos. Mas tem lá sua dose de verdade. 

Sofia, disse o seguinte: Elas (as jogadoras do Santos) treinam todos os dias e a gente mal tem horário pra treinar. Elas convivem com a bola e a gente mal toca na bola. Falta foco do clube em nós. Falta o investimento que a gente não tem de nenhuma forma. Se vira do jeito que pode , tem um horário, uma professora para ensinar vocês, uma bola e se vira aí, o resto a gente que resolve. Eu acho que isso não ganha jogo. A gente pode ter raça, vontade, amor, mas isso não vai ganhar jogo. E estava dito. Interessante notar o grau de consciência a respeito da realidade ao admitir que nem a raça , nem a vontade e nem amor irão resolver a questão. Possibilidade que o torcedor, inocente, gosta muito de cultivar. Mas Sofia está perto demais do futebol para acreditar nisso. 

A realidade é que o Sport, bicampeão estadual, dissolveu todo o departamento da modalidade semanas antes do Brasileirão começar. Mas para não acabar excluído tratou de montar uma equipe às pressas. Alguns times têm problemas financeiros é verdade, outros, como parece ser o caso do Santos, se mostram compromissados com a modalidade.  O que não quer dizer que estão salvos. Ontem, na  véspera do jogo contra o Iranduba, em Manaus, a treinadora Emily Lima fez questão de mostrar as jogadoras do time santista dormindo no saguão do hotel, depois de uma longa viagem, com escala, porque não havia quarto para elas. A logística, que é feita por um empresa contratada pela CBF, também esteve entre os motivos apresentados pela coordenadora do Sport ao justificar a indignação de Sofia.  Pelo que temos visto a verdade sobre o futebol feminino no Brasil é que os clubes se viram de uma hora pra outra tendo de lidar com ele - forçados por uma lei - e o administram neste momento sem terem consciência do que pode e representa. Sem respeito, enfim.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

VAR: uma questão de soberania

 
Osvaldo Lima/ Photo Premium -Lance!
Dizem por aí que o torcedor só enxerga o que quer. Não há teoria capaz de fazer um cabra enxergar o que não está a fim. Pois acho que não foi e o caso do árbitro da partida entre Botafogo e Palmeiras que abriu a última rodada do Brasileirão. Mas não é do pedido de anulação aventado pelo time carioca que alega que a decisão veio depois do jogo já reiniciado que quero falar. Sei que talvez eu compre uma briga danada com os palmeirenses que estão cheios de motivos pra querer ver o que o árbitro no calor do jogo não viu. Ocorre que pra mim, sem o aparato da tecnologia, ele tinha visto tudo muito bem. 

Talvez o cartão amarelo para Deyverson pudesse ser colocado na conta dos exageros ou na conta do estilo do homem do apito, notadamente chegado ao uso indiscriminado do aparato. O lance do palmeirense com Gabriel estou convencido não se tratou de um pisão. Mas foi assim que  narrador, comentaristas e afins envolvidos com o lance o descreveram.  Caso não tenha visto o mesmo não cometerei a indelicadeza de deixa-lo boiando. Mas espero que ao fim da leitura, curioso, o leitor se ponha atrás da imagem para descobrir se olhando você terá visto o que eu vi ou se só vi mesmo o que eu queria ver. Fato é que chamado pelo pessoal da cabine do VAR para rever o ocorrido o árbitro se mostrou convencido de que tinha visto tudo ao contrário. 

Anulou o cartão amarelo que tinha dado ao atacante palmeirense e deu o para o zagueiro Gabriel do Botafogo e marcou pênalti. Pra mim não se tratou de um pisão. Houve um choque de pés? Houve. Mas estou convencido de que ao sentir o toque Deyverson dá uma forçada e cai. O que teria num primeiro momento provocado o cartão. Eu sei, não é fácil no turbilhão de uma partida de futebol, sendo induzido a uma interpretação, acabar não errando. E se fiz questão de destrinchar o lance é pra apontar um erro, e não o da marcação. Mas se é verdade que o árbitro em campo segue sendo o soberano para decidir as coisas do jogo é preciso acabar com essa conversa do pessoal lá da cabine chamar pra rever algo que o árbitro de campo já decidiu. Se for um lance flagrante, um impedimento ou algo que o valha, tudo bem. Faça-se o uso da tecnologia. Agora pra um lance interpretativo como esse que se deu no estádio Nilton Santos, não faz sentido. É decisão que joga contra a credibilidade do VAR, que nasceu tão cheio de boas intenções e viveu mais um final de semana terrível. 

O lance do Rodrygo na partida entre Santos e Internacional é outro exemplo. A boa imagem do aparato nesse momento de implantação passa muito pelo desafio da galera que está com o brinquedinho na mão ser capaz  de ficar quieta. Claro que usado de maneira comedida algo vai escapar. Mas alimentar a ambição ou trabalhar com olhos de lince achando que será possível livrar o futebol de todos os erros que os homens sempre cometeram não passa de ilusão. Começo a achar por isso que o maior desafio de quem controla esse VAR é tomar consciência de que, infelizmente, será preciso aceitar certos erros do homem do apito, de outra forma matarão a pretensa soberania que ainda juram dar a ele. E aí, ou mudam a lei, ou estarão fazendo um tremendo mal para o futebol brasileiro. 

quinta-feira, 28 de março de 2019

A velha caixa de surpresas

A veia do futebol segue a jorrar surpresas. Ou não foi surpreendente o que se viu acontecer nessas quartas de final do Campeonato Paulista? Dirão alguns que os grandes mostraram sua força e nada de novo se esconde aí.  Pode até ser, mas ver o Red Bull fazer o que fez , em especial nos primeiros quinze minutos do jogo de ida diante do Santos, foi de intrigar. Um nível de desacerto e falta de concentração que não rimava com a campanha que o time construiu. Não tinha perdido para os grandes, tinha chegado ao ao mata-mata com um sequência de vitórias de se tirar o chapéu. 

Por outro lado, deve-se reconhecer que há também um jeito de não encarar o ocorrido como surpresa, afinal, o Santos - na média - tinha sido o que foi na hora decidir. A questão é: quem apostaria seu dinheiro depois de ter visto  a equipe da Vila comandada com pompa por Sampaoli  ser derrotada pelo Novorizontino e mais tarde ser goleada  pelo Botafogo? A esses digo que a surpresa está mais até no fato de o time santista ter jogado como quem não tinha desfalques consideráveis, isso depois do time misto ter naufragado em Ribeirão Preto. O zero a zero da volta pra mim só reforçou a impressão de que aquele desacerto do Red Bull na largada lhe tirou as asas. 

Do Palmeiras até me acanho um pouco de falar porque já ando cansado de dizer que faria muito bem a todos, ao futebol, ao patrocinador e ao clube que o time fosse , digamos, um pouco mais plástico. Terminado o jogo de ida me peguei pensando se o próprio Felipão olhando tudo da beira do campo secretamente não se sentia desapontado vendo o time apresentar em campo o que apresentou. E agora, depois de sacramentar a classificação com a goleada por cinco a zero, fico pensando se ele não deu uma dura no time dizendo que precisava colocar ao menos uma cereja no bolo. Fato é que do alto de uma campanha cem por na Libertadores, com vaga garantida na semifinal do Paulista a blindagem promete resistir a qualquer cornetada. 

Mas quem diria que seria a Ferroviária, dona da campanha de números mais acanhados entre os oito candidatos às vagas das semifinais, que iria dar a maior contribuição para esse ar surpreendente que teve o início das quartas de final?  Jogando de igual pra igual com o Corinthians, time que era só evolução, com a defesa encorpando e com Carille alcançando um aproveitamento do tipo que o fez se tornar um dos técnicos mais respeitados do país. O que por sua vez é surpreendente também.

 E, por último, como bem disse um são-paulino que acabou de passar por aqui, imbatível mesmo é o destino que praticamente forçou o tricolor a levar a campo um time diferente. E não é que deu certo?  E alguém aí vai dizer que ouvir aqui e acolá que o time do Morumbi tinha feito a melhor partida do ano diante do Ituano não é de causar surpresa? Enfim, digo a vocês que desde o início achei que ao menos um dos grandes iria ficar pelo caminho. Errei. Mas ter os quatro ditos grandes nas semifinais não deixa de ser uma surpresa, afinal, neste século é apenas a quinta vez que eles se encontram nessa condição.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Lucros e dividendos



Os ditos pequenos que garantiram um lugar nas quartas de final do Campeonato Paulista tiveram aproveitamento considerável. Vale lembrar que houve um momento, inclusive, que nenhum grupo tinha um grande na liderança.  Volto ao assunto pra reforçar a impressão de que se escondem nessa realidade não só questões técnicas e de preparação mas, principalmente, um certo doping emocional já que o torneio  faz muito mais sentido e é infinitamente mais vital para times como Ituano, Novorizontino, Red Bull e afins. 

A realidade esconde também certa soberba dos barões do futebol paulista uma vez que, exceção feita ao Palmeiras, o Estadual se apresenta pra eles como a mais real possibilidade de título ao longo de toda a temporada. E já aviso que dos incomodados pela crueldade da análise talvez só os corintianos tenham direito de considerá-la exagerada. Sobre os outros afirmo que se ocorrer o contrário o sucesso terá um quê de zebra. Acho ainda a contribuição dos pequenos muito mais à altura do que é oferecido pelo Campeonato Paulista. 

Digo isso amparado no nível de competitividade que mostram, consideravelmente melhor do que os dos times ditos menores dos outros estaduais. Para que tenham uma ideia o time que ganha menos por direitos de transmissão no Paulista fatura quase o mesmo de toda a premiação do Campeonato Pernambucano. E em matéria de grana quem mais se aproxima do Paulista é o Carioca, mesmo assim o valor total das cotas do Paulista é trinta e um milhões de reais maior. Não custa dizer também que os quatro grandes de São Paulo colocam no bolso dezessete milhões que, em caso de triunfo, viram vinte e dois.  

Dito de outra forma, significa que o quarteto abocanha pouco mais de sessenta por cento de toda a verba da TV. E tendo em vista o futebol apresentado pelos chamados pequenos sou levado a crer que se o dinheiro fosse dividido de forma mais igual iriam complicar as coisas de vez. Diante desses números aquela velha imagem de um futebol paulista decadente, com os times do interior flertando sempre com a falência, não parece fazer tanto sentido assim. Mas a economia do jogo de bola tem uma lógica toda própria.  Claro, seria muito bom que um dia fosse atrelada à nossa.  

Vejam, nos últimos quatro anos a pobreza extrema no nosso país cresceu trinta e três por cento.  No entanto, no mesmo período, pasmem, os clubes brasileiros dobraram a arrecadação com a venda de jogadores. Quase três mil transações geraram acordos de três bilhões e setecentos milhões de reais. Não, não estou louco.  Somente na temporada passada, ano em que  se registrou o maior movimento desse período, setecentos e noventa e dois jogadores profissionais deixaram o Brasil rumo ao exterior, o que significou um faturamento total de um bilhão e quatrocentos milhões. 

Não é de hoje que os números do futebol brasileiro trazem consigo um ar surreal. Mas o que deve espantar é que tenhamos diante dos olhos toda essa pobreza, não só entre as quatro linhas mas para muito além delas. Um descolamento perverso onde quem fatura pra valer são sempre os mesmos, enquanto quem verdadeiramente merece ser reconhecido são os que conseguem fazer alguma diferença recebendo migalhas. Pelo visto é só aí que o  futebol brasileiro se faz um retrato fiel da nossa realidade.