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sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Pra dar o que falar



Se tem uma questão com a qual podemos concordar é que não é por falta de reflexão que o futebol não anda. Sou levado a crer que não há assunto neste país tão debatido, tão interpretado... tão falado. O que por outro lado talvez explique porque as coisas não andam dando certo nestas plagas. Há muito tema para além das quatro linhas que mereciam tamanha atenção. E que por tabela possivelmente fizessem nosso futebol prosperar. Pois olha, está arriscado a levar uma bola nas costas quem desacredita que o jogo de bola não é, ainda que por vias tortas, um reflexo da sociedade em que está inserido. 

Vejo inclusive no cenário da crônica em geral um viés muito obvio - mas que deveria causar preocupação - que é o fato de que as pessoas hoje em dia parecem se importar mais com a opinião do que com a informação propriamente dita. Busca-se, antes de tudo, um ponto de vista para a partir dele travar um embate mental com o que foi posto. Ocorre que como ressaltava uma velha propaganda de jornal : é possível dizer muitas mentiras partindo de verdades. Minha avó Lucila, mulher sábia, professora, violinista, observadora pra lá de atenta, toda vez que ouvia uma bobagem se apressava a dizer que a fala nos devia ser dada em metros, que era pra se pensar muito antes de usá-la. E eu, garoto novo, demorei um pouco para sacar a inteireza do que ela propunha. 

Mas a velha senhora, taxativa, tratou de esmiuçar o raciocínio dizendo, por exemplo, que era só eu imaginar que cada um teria dois metros de fala por dia. Aí se saísse gastando como  louco acabaria ficando sem depressa. A limitação seria remédio eficaz para provocar o bom uso, essa era a teoria na qual vovó acreditava com fervor. E se coloco esse tema na mesa quando mal está terminada a vossa ceia é porque o que anda sendo dito espanta. Vocês devem lembrar o caso do Dorival Júnior que fez nascer manchetes. Disse o treinador da Seleção Brasileira, enquanto o futebol apresentado por ela não vingava, que estaremos na final da Copa do Mundo de 2026. 

Eis aí um caso em que se a fala tivesse sido dada em metros talvez não tivesse sido ouvido. Dorival em outro momento, e não deve ter sido por acaso, disse com todas as letras que os que falam muito - vejam bem, os que falam muito! - daqui há dois anos terão de engolir uma grande conquista. A ver. Também poderia citar Renato Gaúcho, que semanas atrás num acesso de modéstia disse: eu sou muito bom. Gostaria de acreditar nele, mas pouco depois ouvi Pep Guardiola afirmar que não era bom o bastante. E se o gênio não é bom o bastante que dirá Renato Gaúcho. 

Vovó a essa altura, estivesse entre nós, iria sugerir que os dois metros fossem reduzidos a quinze centímetros.  Ah, e a mais nova pérola nessa linha foi obra do treinador de Luís Zubeldía. O emotivo treinador são-paulino cravou um: seremos campeões da América. O que me faz concluir que não foi à toa que o " Fala muito" de Tite fez tamanho sucesso. Fato é que na ausência de limites cada um segue falando o que bem entender. Já no caso da escrita, fiquem tranquilo, pois em geral não passo de comedidos dois mil e novecentos toques por semana. E que o novo ano que chega seja o melhor de todos!  

quinta-feira, 30 de maio de 2024

O futebol é indomável





Às vezes, enquanto o jogo se desenrola me pego tentando achar em campo as tais linhas. E lhes digo sem medo de errar que não são poucos os momentos em que elas desaparecem sem deixar o mínimo vestígio. Os jogadores vão se movendo de acordo com a realidade que se impõe e que pelo visto atropela qualquer ensaio. A ausência delas ali, ordenadas, indo e vindo, me fazem pensar na natureza indomável do futebol que vira e mexe desde os primeiros minutos dissolve esquemas que pareciam infalíveis. Por isso outro dia quando ouvi o técnico Rogério Ceni dizer depois de um jogo do Bahia que todas as ideias em campo eram dele, me pus a coçar a cabeça. Não estranhem. Sou dado desde que me conheço por gente a me entregar a questões que em outras cabeças jamais teriam lugar. 

Talvez com tudo o que ele sabe - porque sabe do jogo bem mais do que eu - venha a me convencer de que isso é realmente possível. Acho difícil. E olha que costumo acreditar em cada coisa que nem te conto.  Mas, carente de explicação, não vejo outra forma de interpretar o que foi dito que não seja como uma frase mal construída. Os mais impiedosos apontariam nela prepotência. Mas não vamos nos dar a futricas. E isso não tem nada a ver com o Bahia que anda dando gosto de ver e, enquanto o Brasileirão hiberna, dorme lá na vice-liderança com os mesmo treze pontos do líder Athlético Paranaense. Se me interessei pelo tema é porque acredito que  em torno dele podem orbitar respostas para o que andamos vendo. 

Não é de hoje que se acusa os treinadores de impor aos elencos um modo de jogar. O que nestes dias que correm não expõe Rogério Ceni porque o time dele está jogando bem, mas dá boas pistas de como ele espera que seus comandados se comportem. É tudo uma questão de retórica. Ceni fatalmente dirá que foi mal compreendido por mim, que acho que ter dito esquema, e não ideias, seria mais apropriado, mais crível. Na ocasião ele exaltava o meio-campista Cauly. Disse, inclusive, que tinha construído o sistema de jogo para o seu camisa 8. Mas eu já havia até esquecido dessa frase como um bom mote quando ouvi a coletiva do técnico Tite depois da vitória sobre o Amazonas pela Copa do Brasil. Jogo em que o rubro-negro mais uma vez esteve longe de brilhar. E aí o tema me voltou revigorado. 

Foi interessante ouvir Tite, justamente dos técnicos mais cobrados por querer impor um esquema ao time, afirmar que não vai dizer pro Arrascaeta o que ele tem de fazer em campo. Que não vai dizer ao Pedro o que ele tem de fazer. E na sequência ainda complementar o raciocínio dizendo que um técnico só estabelece rotas. Talvez fosse algo nessa linha que Rogério Ceni naquele dia já distante queria ter dito. De qualquer modo, continuo achando que o futebol é dono de uma dinâmica que exige dose cavalar de decisões imediatas. Até por isso o improviso sempre lhe caiu muito bem. E considerarei exagerado e despropositado se dia desses um treinador vier dizer  que todas as rotas em campo são estabelecidas por ele. 

E vou além, estar ciente do quanto um treinador pode influir não só no jogo mas na atuação de um atleta pode ter sido a pedra de toque dos bem sucedidos. Vira e mexe ouço alguém elogiar Guardiola por ter achado o lugar exato onde fulano joga melhor. E isso é outra coisa. A grande graça do futebol, mesmo com todos os esquemas, todos os ensaios, todas as linhas, altas ou não, é que quando a bola rola a gente nem faz ideia do que vai ver se dar em campo. O futebol é indomável.

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Retranqueiro: ser ou não ser?




Já tive a oportunidade de dizer aqui em outro momento que a retranca com o passar dos anos foi ganhando ares de maldita. Pode-se desfiar uma longa teoria a respeito. A minha tiro do modo como a tal foi sendo encarada ao longo dos anos. Ouso dizer que em outros tempos era vista como um dogma do futebol do qual não se ouvia falar mal.  Hoje em dia a coisa está longe de ser assim. Que o diga o laureado técnico Tite. A coisa tanto o cerca que dias atrás ele falou sobre o assunto. Na verdade rebateu com veemência que o queiram ver como retranqueiro. 

A coisa tem muitas nuances. Há retrancas que não anulam a vontade de gol de um time. Há outras que os reduzem a ela. Diante disso, talvez seja pertinente lembrar o que escreveu certa vez Fernando Pessoa. Afirmou o poeta que há arte até no fazer embrulhos. Não foi por acaso que o assunto veio à tona. O Flamengo de Tite nesta temporada anda fazendo gols em número considerável enquanto sua meta até a declaração citada tinha sofrido um único gol. Não me caem bem certos termos para definir a fixação de um time, ou de alguém, para com o setor defensivo. Chega a me dar arrepios ouvir alguém dizer que fulano fechou a casinha, ou que estacionou um ônibus na área pra evitar levar gols. Se não tens muita intimidade com o jogo não se espante. São coisas ouvidas quando não se tem dúvidas sobre ser ou não ser retranqueiro. 

Os argumentos de Tite para se descolar dessa condição foram fortes. Disse que carrega o estigma do gaúcho.  E isso por si só permitiria que desfiássemos outra longa teoria. Disse que saiu do Rio Grande do Sul fazendo três a zero no Grêmio de Ronaldinho. Disse que a história dele tem título com o Grêmio fazendo três a um no Corinthians entrando com bola e tudo no terceiro gol.  Lembrou ter sido campeão mundial de clubes diante do Chelsea criando oportunidades e - usando um termo muito boleiro - indo pra dentro. Embalado no assunto, recordou que pegou o Corinthians pra cair e que precisou ser competitivo com um time que tinha quatorze garotos. Que pegou o Palmeiras na mesma situação, ameaçado de rebaixamento e precisando de uma reformulação extraordinária. E que deu conta disso tudo. 

A mim não resta dúvida da sua capacidade profissional. Foi por mérito que ele agora tem nas mãos o melhor elenco do país. E quero crer que saberá tirar proveito disso. Estava coberto de razão quando disse que é preciso ter cuidado com os rótulos. Acho tudo muito pertinente. Mas devo dizer que quando falava do assunto com um amigo o senti um tanto impaciente. Não demorou muito e, enquanto eu ainda falava, ele me cortou bruscamente e disse: é eu sei, mas e as duas Copas que ele têm nas costas? Argumento afiadíssimo. E que me fez lembrar de Luigi Pirandello. O romancista italiano fez questão de alertar seus leitores , com veemência também, que a gente não é o que pensa que é, nós somos o que o mundo vê. 

O que, ao mesmo tempo, me deixou com a sensação de que este assunto é mesmo bom. Permitiu citar Pessoa e Pirandello num mesmo artigo! Que tabelinha essa! Tite não dirá jamais que a defesa é o cerne de sua estratégia. O que parece óbvio olhando a trajetória dele. Eu, de minha parte, vos digo que nada tenho contra a retranca. Por estilo, prefiro sempre a ofensividade. Só peço aos que decidiram a abraçar que a exerçam, mas com elegância, na medida do possível. Como, talvez, seja o caso de Tite.

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

É o Tite, mano !



Somos reféns da própria história. Não há como fugir disso. Voltamos a amores. Voltamos a lugares. E ao agir assim desafiamos o que disse certa vez um literato que fez questão de avisar que não deveríamos voltar jamais a um lugar em que fomos felizes, sob risco de não encontrar por lá o que tivemos da outra vez. Mas voltar a algo que deu certo é coisa que ao longo do tempo tem pautado a história dos clubes brasileiros. Filosofando aqui sou levado a crer que por se tratar justamente de algo tão cercado de paixão. Algo do qual o homem costuma ser tão escravo quanto é da própria história. A novela que vimos nos últimos dias envolvendo os treinadores Mano Menezes e Tite evidenciou  essa realidade. 

O primeiro comandou o Corinthians num dos momentos mais emblemáticos de toda a história alvinegra. A queda para a Série B, verdadeira tragédia no momento em que se deu, viria a se transformar em uma espécie de catalisador que fez a fiel torcida mostrar toda a sua força. E à frente dessa recondução triunfal à elite do futebol brasileiro estava o gaúcho Mano Menezes credenciado por já ter vivido com o Grêmio esse tipo de epopeia. O título paulista e o da Copa do Brasil conquistados na sequência sedimentariam de vez a imagem dele no imaginário dos corintianos. 

Tite, por sua vez, que é gaúcho como Mano e tem praticamente a mesma idade, chegou ao Corinthians na condição de velho conhecido. Já tinha passado por lá no início dos anos dois mil e ao voltar, ao contrário de Mano, trazia no currículo um título nacional de primeira divisão e até um título sul-americano. Mas com o Corinthians alcançou e deu ao clube outra dimensão. Fez do time do Parque São Jorge campeão da Libertadores e campeão Mundial de clubes. E só quem é capaz de compreender o que significava para um time como o Corinthians a ausência desses títulos será capaz de compreender o que significa e significou a conquista deles. Não é por acaso que Tite virou uma espécie de deus do time alvinegro. 

Ele, e Mano, tiveram passagens tão fortes pelo clube que nem mesmo as que foram desenhadas pelos dois tempos depois, ao voltar, sem qualquer grande êxito, mudaram o rumo das coisas. Nada me tira da cabeça que pelo momento em que se deu a demissão de Luxemburgo, e por outras informações que circularam, a ideia da direção corintiana era trazer Tite de volta. O desenrolar da história a fez se contentar com Mano. E do mesmo modo que o Flamengo - que dizem tem tudo encaminhado com Tite - não é o Corinthians. Mano Menezes não é o Tite. E mais do que preferir esse ou aquele o que a torcida do Corinthians deve cobrar é que esse abismo que hoje existe entre os dois clubes , no mínimo, diminua consideravelmente. 

O Corinthians tem história, torcida, triunfos pra isso. A falta, é obvia, é de competência administrativa. Normal que o torcedor tenha sua preferência. Como é preciso admitir que as passagens dos dois acabaram os levando à Seleção Brasileira e isso é prova de alguma excelência. E se Mano não teve a longevidade de Tite não custa lembrar que acabou demitido quando o trabalho dele na Seleção passava a ser amplamente respeitado pela crônica esportiva. Tite, por sua vez, dirão os críticos, esteve em duas Copas e saiu das duas muito criticado. Mas aí eu diria , sem titubear: mas é o Tite, mano! 

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

O jogo é hoje !





Não estranhe. O nobre leitor já deve ter percebido ou sentido que esta não é mesmo uma quinta-feira como as outras. É dia de o Brasil estrear na Copa. O que me faz desejar que tenha dado de cara com estas linhas antes de a bola rolar. Talvez assim façam mais sentido. Não que deixarão de fazer depois disso. Mas por certo encerrados os noventa e poucos minutos que o time brasileiro passará diante dos sérvios no estádio de Lusail certamente temas outros se revelarão mais eficazes para animar as conversas. Trata-se de um dia em que qualquer mania relacionada ao jogo de bola será mais facilmente aceita. Logo, esquisitos desse meu Brasil, coloquem já um sorriso no rosto e tratem de colocar em prática tudo o que costuma amparar sua fé quando o assunto é um jogo de bola. 

Que o time brasileiro tenha se livrado da Neymar dependência não duvido, mas que o técnico Tite tenha passado a pensar o time sem ele, por sua vez, duvido um tanto. Como acho que uma coisa é ter coragem pra convocar o Daniel Alves, outra bem diferente seria ter coragem para colocá-lo de titular logo de cara. Agora se tem uma coisa que pode ser definitiva para o sucesso do longevo treinador brasileiro será mostrar uma dose respeitável dela. Nunca deixei de reconhecer a competitividade da Seleção Brasileira. Mas não custa lembrar que a história nos mostra que alcançar a condição de campeão do mundo sempre exigiu dos candidatos ir além disso.  Assim como sempre reconheci nos argentinos uma escola de futebol que exige respeito. Rivalidade é uma coisa. Fechar os olhos para qualidades óbvias cegueira, ou em última instância burrice. 

E digo isso mesmo depois de ter visto a zebra histórica que atropelou os hermanos. Minha memória não é um luxo mas lembro bem do que foram capazes de fazer quando enfrentaram em 2014 na final aquela Alemanha que tinha atropelado o time dono da casa. Sabe qual é, né?  Endureceram o jogo, digo que estiveram perto de vencer e, como costumo brincar com os amigos, se isso tivesse acontecido até hoje teríamos argentinos vivendo nas areias de Copacabana só pra seguir tirando onda. Portanto, só os deixo de levar em conta depois de eliminados. Ah, e alegrem-se apesar de o mundo andar como anda. Além do mais, trata-se não só da Copa mais cara da história como, possivelmente, a mais dispendiosa para o torcedor.

 Como bem ressaltou uma manchete dias atrás teremos lá distâncias menores do que as que envolvem a segunda divisão do nosso Distrito Federal.  O que, em tese, possibilitaria aos apaixonados acompanhar mais de um jogo por dia. Três até. O detalhe é que pra tal empreitada seria necessário ter renda levemente parecida com a de um Emir. Lembrem-se , não dá pra ter tudo nesta vida. Lembrem-se também que se estivessem vendo nossa Seleção in loco veriam a bola rolar tendo de se contentar com uma cerveja sem álcool. O que, equivale dizer, é quase um futebol sem bola pra muitos. Também não terás de pagar quase cenzão numa breja. Corra lá na geladeira que você preparou e abra o sorriso diante de tamanha fartura. Enfim, a Copa chegou sugerindo que hoje a labuta mal passará da hora do almoço. Isso se o dia realmente começar.          

quinta-feira, 19 de maio de 2022

A seleção resumida



Sabe-se lá à quantas anda o humor do nobre leitor com a nossa seleção. Não sei, mas posso imaginar. Sobretudo o interesse. Não foram poucas as vezes em que escutei gente dizer por aí o seguinte: não gosto de seleção, gosto de Copa do Mundo. Acho que vem a calhar essa lembrança, em especial, porque a sensação que tenho é a de que cada vez mais a seleção parece se resumir a isso. Vou além, aposto que não será difícil buscar na memória recordações de velhas matérias jornalísticas citando o fato de que mesmo tão perto do início dos últimos Mundiais nosso país ainda não tivesse entrado no clima. O que, lembro bem, se deu na última Copa realizada aqui no nosso país. 

Alguns podem não entender esse estranhamento. Aos mais novos digo que sou de um tempo em que não se tinha como levantar uma questão assim porque bem antes de a bola rolar as ruas já estavam todas pintadas coisa e tal. Os jingles feitos pra ocasião já tinham entrado na nossa cabeça pra não sair nunca mais. E se digo, meio cruelmente, que hoje a seleção se resume a isso é porque foi-se o tempo em que as Eliminatórias davam algum barato. Exceção feita, talvez, a um Brasil e Argentina, ou Uruguai. E olhe lá. Se a Copa que se avizinha fosse, digamos normal, a essa hora estaríamos quase no embalo do ponta pé inicial. 



Mas as peculiaridades do país anfitrião farão com que o momento se dê quando o mês de novembro estiver já na sua segunda quinzena e os Papais Noéis junto com as luzes de Natal já tiverem entrando em cena. Algum iluminado pode vir a ter a ideia de vestir o bom velhinho de verde e amarelo. Logo ele, tradicionalmente vermelho num país em que o tom scarlate virou um pouco a antítese do verde e amarelo. O que me faz pensar que não é má ideia dessa vez pedir a ele que nosso Brasilzão chegue inteiro até lá. Pois infelizmente somos obrigados a reconhecer que mais difícil do que voltar a vencer uma Copa será ter direito a uma eleição tranquila, respeitosa, civilizada, sem gente que insista em derramar sobre ela tons incendiários. 

Mas voltemos ao tema, mais ameno e menos indigesto. Como a última convocação foi feita com antecedência não duvido que hoje mesmo, ou nos próximos dias estas páginas tragam  a notícia de que por causa de certas questões esse ou aquele convocado tenha dado lugar a outro. Ainda que não imagine que isso venha a alterar em nada a paciência ou a simpatia do torcedor pela nossa seleção. Não acho que Danilo vá a Copa.  E não estou dizendo que não mereça. Chego a achar até discutível que se chame a essa altura alguém pra não levar. Pensaria diferente se achasse que Tite pode, faltando tão pouco tempo, incluir alguém nessa barca. 

Tite, que não custa lembrar,  teve todo o tempo possível, o tempo que quase ninguém teve. Um ciclo inteiro para pensar, para trabalhar. Mas não deve nos espantar se não trouxer o caneco porque não é de hoje que é só na Copa que o escrete nacional acaba dando de cara com o futebol em sua totalidade. Não esse praticamente resumido à América do Sul. Onde nossa hegemonia tem acabado por se revelar inútil.  Mas não fará mal algum, se interessando ou não pela seleção, que o torcedor ponha na cabeça - e já pôde constatar isso - que nem mesmo um triunfo mundial no Qatar será capaz de fazer do nosso futebol o que ele foi um dia. Como foi a paixão pela seleção. 

quinta-feira, 1 de julho de 2021

O inocente culpado



Vamos direto ao ponto: por ter dito que a organização da Copa América que neste momento se desenrola em nossas terras foi atabalhoada o técnico da Seleção Brasileira, Tite, foi multado. O que pode ser interpretado como uma punição por dizer a verdade.  Diz o dicionário que atabalhoado é algo feito às pressas. Diz também se tratar de um adjetivo que cabe a algo confuso. Sabemos todos que a Copa América vinha sendo planejada há tempos, dá pra dizer até que vem sendo planejada insistentemente já que ao longo dos últimos seis anos tivemos nada menos do que quatro edições do torneio. Como sabemos também que a edição atual deveria ter sido realizada com jogos na Colômbia e na Argentina. Dois países que por motivos distintos - mas para lá de cabíveis - decidiram abrir mão do torneio. O primeiro envolvido num turbilhão social e o segundo ao se render aos números da pandemia de Covid 19. 

Se  o que estava planejado não foi atabalhoado o desembarque do torneio em terras brasileiras mais do que justifica o adjetivo, ainda que haja um sem fim de outros adjetivos  que seriam apropriados à situação , muito menos polidos do que o usado pelo técnico da Seleção Brasileira. Tite foi enquadrado no artigo 12.2. Mas pelo comportamento que teve não poderia se encaixar em boa parte das situações sobre as quais versa o artigo. Por certo não violou  o que se considera um comportamento aceitável no âmbito do esporte, da Conmebol provavelmente, mas é sobre o esporte e sobre o dito futebol organizado que fala. Também não insultou a Conmebol, seus oficiais ou autoridades.  Muito menos se utilizou de um evento desportivo  para realizar manifestações de caráter não esportivo. 

Diria, inclusive, que a falta de posicionamento a respeito de questões não esportivas, mas muitas vezes ligadas ao ofício que exerce, é uma critica contumaz que se faz ao treinador brasileiro.  Age, como diz um ditado, como um elefante numa loja de cristais. O que não se pode negar à Tite é a virtude da polidez. Difícil imaginá-lo enquadrado em outros termos do artigo, como o que fala de se comportar de maneira ofensiva ou difamatória de qualquer índole.  Restando assim imaginar que a punição se baseou na última linha de tudo o que o artigo descreve. A saber, comportar-se de maneira tal que o futebol como esporte em geral e a Conmebol em particular poderiam ver-se desacreditados como consequência desse comportamento. 

Tudo leva a crer que foi esse "em particular da Conmebol" que baseou o enquadramento. Mas basta conhecer minimamente a história recente da entidade que comanda o futebol sul-americano para se ter ciência de tudo o que ela vem fazendo nos últimos anos é se deixar ser desacreditada. Teve dois presidentes presos e se viu envolvida até o pescoço no escândalo que abalou o mundo do futebol em todo o planeta. A maneira meio fria com que o torcedor brasileiro tem tratado a Copa América não deixa de ser um reflexo de tudo isso. Se já não há como saber se a bola que se joga aqui serve de medida para interpretar a bola que se joga no velho mundo, é preciso reconhecer que Tite tem números respeitáveis. Não que esteja livre de críticas. Quem no cargo seria capaz disso? 

Fato é que os jogos até agora foram de dar sono. Mesmo a goleada sobre o Peru, tão elogiada, esteve longe de encantar. O jogo contra a Colômbia, então, diria que beirou o sofrível. Não fosse a aura de rivalidade que os colombianos deram ao encontro - e aquela tabelinha com o árbitro - a essa hora o torcedor poderia estar mais desencantado ainda. Amanhã a Seleção volta a campo. Há no ar a esperança de que a fase de mata-mata possa dar outro ar ao nosso maltratado torneio de seleções, ainda mais apequenado diante de tudo que temos visto acontecer na Eurocopa. Mas é o que nos resta.   

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Entrevistas



Muito já se falou sobre as entrevistas do mundo do futebol. Recai sobre elas há tempos a fama de serem na maior parte das vezes um teste de paciência. Prova disso é que o velho clichê que diz que as perguntas são sempre as mesmas porque as respostas são sempre as mesmas se viu consagrado. Definição que no fundo esconde uma queda de braço entre quem pergunta e quem responde. O motivo é muito claro, ninguém quer pra si o ônus dessa coisa rasa e de má fama. Fato é que boas entrevistas são cada vez mais raras. Mas seja como for seguirão sendo fundamentais. E assim sendo é interessante notar como têm um lado pouco explorado. O do desconforto que são capazes de gerar.  De outro modo não teriam virado algo obrigatório nos grandes eventos. E se viraram não há de ter sido somente por que  celebridades depois de certo tempo e de alguns milhões de likes possam passar a lhe considerar algo  dispensável, um mero transtorno causado pela fama.  

Duas semanas atrás nem todo mundo falou do vivido pela tenista japonesa, número dois do mundo,  Naomi Osaka, que depois de vencer na abertura de Roland Garros, se negou a dar entrevista e, multada pelos organizadores, acabou abandonando o torneio. Não sem antes ter explicado que tal atitude se devia ao momento que estava passando e à ansiedade que saber que teria de conceder entrevistas lhe causava.  Na esteira dos acontecimentos ficamos sabendo que Naomi luta contra a depressão desde 2018.  



Outros dois fatos recentes acredito merecem citação quando se fala de entrevistas. O primeiro evidenciou a importância e o peso delas. Nossa seleção estava concentrada quando explodiu a notícia de que o Brasil iria sediar a Copa América. Em um primeiro momento, pasmem , os únicos que falaram sobre o assunto foram o presidente da República e o Ministro da Casa Civil. Nada de CBF, nem atletas. Quem cobria a seleção precisou esperar dias até que o protocolo das Eliminatórias fizesse da entrevista de Tite uma obrigação. Do tal manifesto que encerraria essa novela nem vou falar.  

A outra foi uma entrevista concedida pela surfista Maya Gabeira que tivesse sido dada no universo do futebol talvez tivesse tomado contornos bombásticos. Isso porque Maya, que anos atrás quase morreu ao surfar um onda gigante, afirmou que seu companheiro na aventura, o respeitado Carlos Burle, tinha cometido certos erros ao tentar resgatá-la. Sabe-se lá se para dar conta do que manda o bom jornalismo, ou se na tentativa de fazer a declaração render mais likes, não tardou e Burle estava sendo ouvido.  E aí mora o detalhe. 



Burle teve a grandeza de driblar o óbvio. Afirmou sem titubear que compreendia o que Maya tinha dito, que aquilo poderia ser uma forma dela lidar com o ocorrido. Que tinha consciência de que de lá pra cá alguns protocolos de segurança tinham mudado e que talvez hoje agisse diferente. Manteve a postura  serena até para rebater a declaração de Maya que sugeria que o acidente teria sido provocado por uma certa insistência de Burle para que ela encarasse a tal onda que quase lhe custou a vida. 

Seria salutar que as pessoas que estão constantemente envolvidas em entrevistas, seja para perguntar ou para responder, notassem essa possibilidade. Quando se trata de futebol, por exemplo, também é comum as pessoas dizerem que o futebol anda chato porque todo mundo é muito polido. Ninguém tira mais sarro, nem ousa provocar rivalidades, nem falar delas. Mas isso tudo é muito complicado. É preciso perceber o contexto. porque dependendo dele, o dito atualmente - e mais do que nunca - se torna uma afronta, um desrespeito, ou servirá apenas para alimentar manchetes capazes de gerar mais acessos no mundo digital.       


quinta-feira, 12 de março de 2020

A Seleção, a torcida e o coronavírus



Há uma melancolia a rondar nossa seleção. Sei que até o momento de sentar na cadeira na Sala de Imprensa da CBF na última sexta-feira o técnico Tite deve ter tido muito trabalho. Alimentado muitos dilemas.  É do jogo. Mas para além do grande serviço que a fase do Flamengo tem prestado ao futebol brasileiro gostei de vê-la ajudar também a dar um brilho diferente ao escrete nacional. Horas antes da convocação pipocavam manchetes falando a respeito da expectativa que cercava os jogadores rubro-negros. Não era para menos. E vou dizer que entre os muitos rubro-negros tidos como candidatos praticamente todos eram merecedores de uma vaga. Mas ter lá Gabigol, Bruno Henrique e Everton Ribeiro tá de bom tamanho. Duvidava até que Tite viria com essa dose, pra ser sincero. 

Claramente há uma questão mercadológica nas convocações sobre a qual ninguém fala. Além do mais a opção por um jogador envolvido com grandes competições, inserido num centro onde a exigência técnica é infinitamente maior, servirá sempre como um grande argumento a favor dos que atuam no exterior. Um calendário menos surreal, sem conflitos de datas - como a CBF promete - seria fundamental e teria inevitavelmente como efeito colateral testar a ousadia de quem dirige a seleção. 

Na minha visão quando se atravessa um momento como o atual, de uma relação totalmente fria entre os torcedores e a seleção, contar com jogadores que atuam por aqui  dá a impressão de uma certa aproximação. Cria-se um apelo. Quando o time comandado por Tite entrar em campo para encarar a Bolívia, no Recife, e enfim der o primeiro passo à singular Copa do Qatar, estará envolvido por uma áurea diferente. Mas sabe-se lá quando isso vai acontecer pois o coronavírus já adiou o início dos jogos. O nome Eliminatórias bastaria para dar peso ao momento , mas há outro desafio nesse contexto, pessoal.  

Para Tite a sequência do trabalho, que temos visto ir da unanimidade à desconfiança, pode ganhar ares de redenção. Não foi por acaso que durante a entrevista coletiva pós-convocação o treinador  fez questão de se comparar a ele mesmo à frente do escrete e dizer que está ciente de que a melhor seleção brasileira que vimos com ele foi justamente a das Eliminatórias passadas. O que significa dizer que espera ver, no mínimo,  o time com aquela pegada. Não me entendam mal, não penso em loucuras. Apenas na possibilidade de tirar algum proveito do que o futebol brasileiro  anda oferecendo e assim, quem sabe, alterar um pouco essa realidade opaca. 

Caso o coronavírus permita  - e tomara que permita - não tardará e voltaremos a dar de cara com uma desgastada Copa América. E, se nada de relevante acontecer, com essa relação entre seleção e torcida mais desgastada ainda. Um adiamento pode mudar muita coisa. E também não custa lembrar que convocar é uma coisa colocar alguém para jogar, outra, bem diferente. 


* artigo escrito para o jornal "A Tribuna", Santos/SP

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Quanto vale um amistoso da Seleção?

Pedro Martins/ MoWa Press


O futebol e sua dose de crueldade.. Quem diria que veríamos Tite passar de uma quase unanimidade a treinador imensamente contestado. O futebol praticado pela seleção é autopsiado a cada vez que o time brasileiro entra em campo. Abundam teorias a respeito do modo como o Brasil joga. Mas há algo acontecendo com o time que representa o país que não tem estado sob olhar  dos comentaristas e nem sob o olhar do torcedor, que em outros tempos tinha o escrete nacional como uma versão ampliada de tudo o que o time do coração representava e poderia proporcionar. Algo urdido nos bastidores, e que de tão profundo tem escapado até aos poucos jornalistas que ainda praticam a louvável versão investigativa do ofício. 

Às vezes, quando a conversa sobre futebol descamba para o comportamento sempre duvidoso dos cartolas costumo brincar dizendo que quem gosta de futebol somos nós, eles, que têm o futebol como um grande negócio, gostam mesmo é de dinheiro. Seria inocência acreditar que se de uma hora pra outra um craque avaliado em dezenas de milhões de euros deixa de jogar bem acabe, em pouco tempo, perdendo seu lugar entre os convocados. E talvez um levantamento sobre os empresários que estiveram por trás de cada  jogador da seleção nos últimos tempos nos desse uma ideia mais clara de como as coisas andam e qual a lógica que as convocações escondem. 

Mas não é só isso, imagino que quando Ricardo Teixeira, no apagar das luzes, vendeu os direitos de transmissão dos amistosos da Seleção Brasileira até 2022, os endinheirados que fizeram negócio com ele cresceram os olhos, como se diz. Mas o tempo passou e o time brasileiro perdeu o apelo, não se fez campeão do mundo ou algo do tipo, muito menos mostrou um futebol que o fizesse querer ser visto de perto por gente que, teoricamente, está muito distante do Brasil. Ainda que nem nós estejamos perto dela, muito pelo contrário. Pra ser mais claro, deixou de despertar o interesse daqueles que detém esse mercado. 

Desse modo se fez inevitável para quem tem os direitos ir vende-los em Cingapura, ou na Arábia Saudita, onde a seleção irá se apresentar no mês que vem. Quanto valia um amistoso da seleção na hora do negócio, quanto vale hoje, quem sabe ? Podemos realmente ter dificuldade para marcar um encontro com essa ou aquela seleção de renome da Europa como relatou o estafe brasileiro tempos atrás. E mesmo  jogando o fino talvez não tivéssemos uma Alemanha pela frente, mas não estaríamos vendo o que temos visto. Em outros tempos diria que os destinos improváveis se explicavam muito pelo interesse dos donos dos direitos mas quando se vê os estádios em que a seleção joga cada vez mais vazios, ou mesmo improvisados, alguma coisa isso quer dizer. 

Mas quem será capaz de interpretar esses símbolos? No meio de tudo isso o desgaste de Tite é evidente mas não creio ser justo negar a ele um ciclo inteiro com a Seleção. Até porque ele é apenas uma pequena engrenagem no meio dessa lógica mercadológica que a tudo esmaga. Certo está o torcedor, em sua infinita sabedoria instintiva, ligando cada vez menos pra Seleção e cada vez mais para o clube com o qual esteve realmente envolvido desde sempre. Tem sido o que lhe resta. Ainda mais agora que  Brasileirão voltou a entrar em cena no meio da semana.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

A torcida e o Mineirão

Foto: Guilherme Piu

Ouvi dizer por aí que a torcida anda azeda. Ouvi até  ela ser acusada de andar jogando contra. Compreendo a colocação. E ao contrário dos que se mostram preocupados com ela, eu afirmo que se isso é fato deveria ser motivo de comemoração. Uma torcida descontente é, em última análise, prova de evolução. Evolução da sua capacidade crítica, como nunca perco a chance de deixar aqui escrito nas entrelinhas. Não desprezo, por outro lado, a possibilidade de  que esse humor alterado seja sintomático. Um sinal de esgotamento, um cansaço, a paciência chegando ao fim. Afinal, ela sempre trata de enviar antes algum sinal. E não é pra menos, se aqui do lado de baixo do Equador nem jogos entre seleções andam dando muito caldo que dirá o nosso futebol do dia a dia. 

O sentimento que disso transborda é compreensível. Se entregar com devoção a uns noventa e poucos minutos de jogo e receber em troca dois ou três lances de gol, não poupemos palavras, é caso evidente pra se repensar a relação. Ao mesmo tempo é possível vislumbrar nisso uma grande demonstração de que o jogo de bola ainda envolve alguma dose de paixão, esse sentimento que desde sempre fez pouco caso das evidências.  Caso não esteja convencido faça o teste. Seja lá onde for, provoque um papo de futebol e verá que não tardará a aparecer uma figura de contornos conhecidos, molhando as palavras com a ânsia dos abstêmios, de olhos meio tristes, dizendo pra quem quiser ouvir que já não aguenta mais, que não vê a hora dessa pompa toda acabar para que ele possa, enfim, matar a saudade de ver o time dele em campo. 

E é amparado nesse entrega que afirmo: a torcida pode tudo, pode querer ser cruel, condescendente, o que for. E tá pra nascer quem tenha moral para enquadrá-la, para dizer assim, lhe olhando nos olhos, como deveria se comportar. Digo mais, vejam esse Brasil e Argentina que acaba de rolar agigantado pelo que significou em termos históricos. Esse jogo foi outra prova de que o coração da torcida é livre, que ela está longe de ser injusta. E mesmo que muitas vezes vá além do jogo de bola está preso a ele. Aí, Daniel Alves jogou o fino, Gabriel Jesus e Coutinho foram na onda e, de repente, o Mineirão, que foi pra mim antes de qualquer outra coisa um estádio monumental -que certo dia teve sua imponência desafiada pelo chute potente de Nelinho que tratou de chutar uma bola pra fora dele - virou exatamente o que tinha dito o técnico Tite a seu respeito dias antes do embate com os argentinos.  

Pois perguntado sobre os fantasmas que poderiam ali assombrar o time brasileiro o técnico da seleção tratou de pesar as coisas e recordar também que foi no Mineirão que bateu a Argentina por três a zero e que tinha sido ali que tinha visto a torcida mais em sintonia com o time dele.  Ouvi sim relatos de uma breve vaia, mas endereçada ao Presidente da República que mesmo sem marcar um único gol até agora resolveu dar uma desfilada pelo gramado para tirar uma casquinha. Mas isso é detalhe. Bacana foi perceber que esse Brasil e Argentina personificou o sonho possível do torcedor brasileiro , o barato dos adereços, da rivalidade, que foi sempre infalível na hora de apimentar encontros. Rivalidade que, segundo o treinador da nossa seleção, só se tem com quem se admira. Sei não,  Seo Adenor, sei não.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

A vaia


Eu sei, hoje à noite tem Brasil em campo de novo. Mas quero propor outro tema. Uma reflexão. Que me perdoem os entusiastas. Os que se entregam a um modo de torcer quase cego quando o assunto é a seleção brasileira. E nesse momento é bom que se frise que falo da masculina. O que vou colocar aqui não tem nada a ver com o jogo propriamente, nem com a vontade de ver esse ou aquele jogador na condição de titular. Até porque nem sou capaz de afirmar que tenha existido um tempo em que um jogador em ótima fase  tenha tido plena garantia de que teria essa condição assegurada. Há uma lista imensa de preteridos ao longo do tempo que poderia servir de amparo à minha suspeita. O jogo de bola desde sempre teve interesses que transbordaram as quatro linhas ignorando o que se dava dentro delas. 

Quero falar é da vaia. Coisa que andou assombrando o escrete brasileiro no início dessa Copa América.  E já queria mesmo antes de Daniel Alves dar aquela tremenda bola fora dizendo que quem vaia a Seleção vaia o país. Não entendeu nada.  E pelo jeito também não deve ter notado que o país a anda merecendo. ​A vaia é muito mais do que simplesmente o antônimo do aplauso. O aplauso não é tão complexo. A vaia é. E é um patrimônio do torcedor, sua grande arma. A vaia é de uso geral. Costuma causar quase sempre efeito imediato. E por incrível que pareça quase nunca é decantada. A vaia é acima de tudo elegante, dispensa absolutamente o acompanhamento de qualquer palavrão. Quase sempre se revela justa mesmo quando traz com ela algo de escárnio. 

E quanto mais densa, arrisco dizer, mais se veste dessa qualidade. Não é a toa que, em geral, quase sempre se manifesta amparada por uma multidão. Não que não se possa vaiar sozinho. É possível, mas chega a soar como uma traição à sua natureza. A vaia é capaz de traduzir sutilezas do que só um torcedor vê e sente.  Tem em si a beleza da rebeldia, mas não se encerra nela. É muito mais. A vaia é como um trunfo, e traz consigo a beleza das coisas que não pertencem aos catedráticos, aos entendidos. A vaia é o povão. Quer coisa mais linda? 

Impiedosa, e como. A vaia tá sempre de flerte com a indignação. Mas quando digo que é impiedosa não a pense como algo puramente cruel.  Muitas vezes ela é o desafio que o homem precisa pra se superar. E nessa condição já ajudou a escrever lindas páginas ao longo da história. Talvez a mais famosa delas amparada naquela vaia imensa que Julinho Botelho ouviu certa vez no Maracanã ao ocupar o lugar do mítico Mané Garrincha. Vaia que numa alquimia rara se deixou transformar num aplauso capaz de se tornar eterno. Prova cabal de que mesmo temida traz em si a beleza das coisas que se deixam reinventar.  

A vaia tem um amargor insuportável. É sintomática.  A vaia é profunda. E se tem um antídoto este exige uma fórmula feita na hora, especialmente manipulada para cada situação.  O que não é fácil. O caso de Tite é emblemático nesse sentido. Dizer que o homem não entende do riscado é descabido. E por mais que diante da Bolívia o time brasileiro tenha conseguido dilui-la com três gols, o ressurgimento dela nas arquibancadas da Fonte Nova, em Salvador, sugere a exigência de métodos mais eficazes para anulá-la. Enfim, a vaia, meus amigos,  mesmo indesejada, é linda.    

quarta-feira, 19 de junho de 2019

A camisa você precisa sentir

Luiza Gonzalez/ Reuters


Estamos aí. Entre a Copa do Mundo Feminina e a Copa América. Em abstinência total do Brasileirão. Sobre a Copa vi gente indignada e intrigada. A indignação vinha de uma jornalista inconformada com a quantidade de gente questionando as cinco estrelas nas camisas usadas pela nossa seleção feminina. Compreensível. Tinha vislumbrado na insistência um ar de reprovação. Sobre esse tema gostei mais do ar intrigado de um velho amigo que veio me fez a respeito a seguinte pergunta:  Se as meninas vencerem o Mundial nossa seleção masculina passará a usar uma camisa com seis estrelas? Pertinente, muito pertinente, quanto sabemos das patacoadas que nossos cartolas são capazes. Apesar de achar que não tem como ser de outra forma. Afinal de contas vestimos - e isso ficou mais claro do que nunca - a mesma camisa. Fiquemos, então, com o  velho dito pois se perguntar não ofende também não deve ser motivo pra indignação. 

Bom, vivido um outro tanto dei de cara com alguém na internet confessando o prazer de ver a goleira argentina em ação contra a Inglaterra. E na esteira do entusiasmo classificando a Copa como um Mundial de arqueiras de encher os olhos. Mas estamos cansados de saber que vivemos uma época de polarização absoluta. Aí não tardou e ouvi alguém sugerir que o gol era um problema para as meninas.  Grande demais. E que talvez fosse o caso de torná-lo um pouco menor para as moças. Não que eu queira jogar toda e qualquer diferença para escanteio. Homens e mulheres sabidamente têm lá suas particularidades. Mas o momento pede outra maneira de encarar o tema. Imagino que a essa altura o mínimo que podemos lhes dar é essa igualdade. No tempo de jogo, no peso da bola, no tamanho do campo. Se muitos já enxergam diferenças  onde tudo é igual, ao aceitar diferenças não tardaríamos a ouvir alguém dizer que o futebol feminino é outra coisa. 
Bernardett Szabo/Reuters

De minha parte prefiro acreditar na evolução que tenho visto. E quem assistiu a uma Copa Feminina tempos atrás sabe do que estou falando. A evolução é gritante. De intrigar, e talvez indignar mesmo, é ter ficado sabendo que Marta  não tinha um patrocínio na chuteira quando entrou em campo para enfrentar a Austrália. Simplesmente a maior detentora de títulos de melhor jogadora do mundo, única atleta a marcar gol em cinco Mundiais e maior goleadora da história das Copas, já que ao enfrentar a Itália  deixou para trás o alemão Klose. Mas em matéria de indignação é bem provável que nada seja páreo para a dos argentinos com a seleção deles. 

E olha que íamos por caminho parecido quando o juiz apitou o final do primeiro tempo no Morumbi entre Brasil e Bolívia. Qual teria sido o destino do time de Tite se tivéssemos debutado diante dessa Colômbia que liquidou o time de Messi com duas jogadas fatais é coisa que não saberemos jamais. Ainda bem.  Para nos parar por hora bastou a Venezuela. Quem sabe também os comandados do outro Lionel, o Scaloni, treinador argentino, não fazem uma exibição convincente diante do Paraguai logo mais aplacando um pouco o descontentamento de Maradona, que depois do tombo ao encarar a Colômbia disse que a Argentina poderia perder até de Tonga. Mas disse uma verdade, que pode servir a eles, a nós e a todos: a camisa você precisa sentir.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Evolução é jogar bonito



Amanhã a Seleção Brasileira estreia na Copa América. Como foi dito na época em que aqui se realizou a Copa de 2014 talvez  o interesse aumente na hora em que a bola começar a rolar. Pelo que recordo o raciocínio fez algum sentido naquele momento e o país já havia entrado totalmente no clima quando o sete a um alemão dissolveu por completo qualquer resquício de euforia e o nosso futebol foi parar no divã. Mas não demorou muito e acharam que ele poderia ter alta. Foi quando depois da chegada de Tite ao comando do time nossa seleção pareceu pairar sobre todas as outras ao disputar as Eliminatórias para a Copa da Rússia.  

De cara o time brasileiro sob novo comando mandou um três a zero no Equador sem tomar conhecimento da boa campanha adversária e da altitude de Quito. Era só o começo. O que veio a seguir foi mais impactante. Um três a zero na Argentina em pleno Mineirão, no melhor estilo espanta fantasma. E um pouco mais tarde um quatro a um no mítico Estádio Centenário em cima do Uruguai, que seguia com aquela aura assustadora de sempre. Partimos então para a Rússia ostentando uma campanha louvável. E lá descobrimos que um bom retrospecto pode não significar muita coisa. 

Voltamos pra casa depois de ter parado  nas quartas de final diante de um empolgante time belga. Eliminação que, pra variar, fez brotar um sem fim de teorias sobre o que teria levado o time brasileiro a sucumbir de maneira tão estrondosa naquele fatídico primeiro tempo. Mas se alguém disser que se aquele embate com a Bélgica durasse mais dez minutos a história teria outro final, confesso, seria capaz de enxergar algum sentido na teoria. Lembro de ter tido esse sentimento ao ver o VT do jogo tempos depois. 

Foto: FIFA/ Divulgação


Mas são águas passadas. E o naufrágio na Rússia não foi fatal para Tite. Sendo assim, se a última campanha nas Eliminatórias Sul-Americanas nos fez terminar dez pontos à frente do Uruguai e treze à frente da Argentina, e tendo em vista que de lá pra cá nenhuma das seleções que participaram do torneio mostraram nada que sugerisse uma mudança considerável, somos favoritos. Ou não somos?  

Além do mais,  o adversário da estreia será a Bolívia , vice-lanterna na mesma Eliminatória. E pra completar na segunda rodada iremos encarar a Venezuela que terminou na lanterna. Sejamos francos, por mais que não exista mais bobos no futebol é um início de trajeto confortável demais, na medida em que um torneio entre seleções pode ser confortável.  Sinto no ar uma expectativa enorme de como se comportará nossa seleção na ausência de Neymar. O que é salutar. E acho - como muitos por aí - que a Copa América está longe de ser um tudo ou nada para Tite.  

O que pode ser fatal para ele é a ausência de brilho, de um bom futebol.  Por essas e outras será possível, mais do que em outro momento até agora, notar claramente qual será a aposta que irá fazer. Colocar em campo um time preocupado com o resultado ou colocar em campo um time ousado, disposto a usar o poder ofensivo que ele notadamente tem a disposição. O detalhe é: a primeira opção deixará nosso treinador atrelado à dependência de conquistar o título. Mas a segunda, além de livrá-lo disso, provavelmente será a mais apropriada para convencer a torcida de que houve mesmo na nossa seleção alguma evolução.