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quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Antiquado é tentar ganhar no grito

 Alexandre Schneider/Getty Images


Olha, a volta não é fácil. Todos os que tiraram alguns dias para descansar sabem bem disso. Já não falo em férias porque sou levado a crer que a realidade do mercado de trabalho brasileiro fez delas um luxo. E como qualquer luxo não é coisa da qual se possa tirar conclusões que sirvam para o todo. Aos que voltam a dar de cara comigo depois de um período desses e fazem aquela fatídica pergunta: como foi? Costumo brincar afirmando que é duro voltar, mas a gente acostuma. Frase sempre seguida de um risinho sacana. Digo a vocês que a maior virtude de um período de descanso é nos jogar na cara o quanto a nossa rotina é cruel. Seja como for, fato é que estou na área. E, estando, uma das coisas que de cara testaram minha paciência foi o comportamento pouco civilizado dos praticantes profissionais do nosso velho esporte bretão. 

Sobre a cera dos goleiros já tinha tido a oportunidade de falar neste espaço, elencando ideias e iniciativas pensadas aqui e alhures pra tentar colocar os arqueiros na linha. O do Vasco pode até ter sido injustiçado, mas não terá sido à toa. Já nas arquibancadas, outrora tidas como terra de ninguém, onde praticamente tudo era tido como normal, incluído aí cenas que beiravam a barbárie, pelo que vejo agora se cobra um comportamento de nobre. Onde o torcedor que não conseguir segurar um grito de mercenário para alguém que ganha milhões corre o risco de ser intimado pelo próprio. Enquanto isso, em campo, o clima é quase de  vale tudo. E que diga que estou exagerando aquele que diante de berros e palavrões proferidos olho no olho com os árbitros já não pensou: agora esse cara vai  ser expulso. Mas, meio sem acreditar, acaba testemunhando que o homem do apito deixou por isso mesmo. 

E muitas vezes nem se trata do capitão do time que, em tese, poderia fazer essa interlocução. Se é que o que se dá pode ser chamado de interlocução. E na beira do gramado? Bom, ali na área reservada aos ditos professores, a linha de conduta é muito parecida. E acho que não seria exagero afirmar que o técnico do Palmeiras se fez o grande baluarte desse tipo condenável de comportamento. O português mete a boca, como diziam antigamente. Um dia depois do jogo entre Corinthians e Palmeiras cheguei na redação e a conversa se alimentava do tema. Os envolvidos se mostravam indignados com a reação de Abel Ferreira na coletiva pós jogo, quando disse que estava desiludido com o que viu, levantou, e foi embora. Grosseria que ele repetiu no final de semana. Talvez Abel não saiba, mas não há desrespeito maior que se possa fazer a um repórter. 

E como observou um dos que participavam do papo - fazendo coro ao que tem se ouvido por aí - Abel não respeita ninguém. Não respeita o adversário. Não respeita o juiz. Não respeita jornalista. E depois de tudo que já vimos, me digam, como discordar de uma observação dessas? Agora, das feitas por ele, gostei particularmente de uma. Foi quando Abel disse o seguinte: estamos no século vinte e um e andamos a trabalhar com ferramentas do século passado. Ainda que dito de maneira enviesada, porque com a intenção de colocar o VAR em dúvida, sigo considerando uma aberração mesmo não darmos a arbitragem o amparo de tecnologias como a da linha do gol e a do impedimento semiautomático. Não seria a solução de tudo, seria uma ajuda imensa. Mas voltando ao nosso personagem, homem esclarecido que é, deveria se ligar que a essa altura nada soa tão antigo e antiquado quanto querer ganhar no grito. 

quinta-feira, 3 de julho de 2025

O Mundial e a nossa arbitragem



Tenho curiosidade pra saber que tipo de desdobramentos esse Mundial de Clubes irá provocar no futebol brasileiro. Para os europeus, sempre tão falados, e teoricamente donos de uma excelência que o torneio tem insistido em colocar em xeque, o apito final ou a eliminação serão sinônimos de férias. Para os brasileiros hora de voltar a pensar na vida como ela é. Há uma temporada pra se terminar. Voltarão os que lá estiveram de ânimos renovados, escondendo uma dose de confiança, por terem figurado entre os nobres do mundo da bola? Esse número de jogos a mais cobrará um preço alto quando o calendário brazuca tiver feito todas as suas exigências? E mais, irão os que ficaram tirar mesmo algum proveito do tempo que tiveram para trabalhar? Que o deus da bola nos ajude quando todos os fantasmas que rondam nosso futebol voltarem a nos assombrar.  

Por falar neles digo a vocês que a mim soa como uma lição ter atravessado toda a fase de grupos do Mundial sem que um lance tenha se sobreposto ao jogo, virado uma polêmica daquelas. Sem o bendito VAR como protagonista. E olha que foram nisso quarenta e oito jogos. É fato que apenas doze deles envolveram brasileiros e que, de certa forma, temos olhos mesmo é para nós e os europeus. Sendo assim, mesmo que um time de outro continente tenha sido tungado é bem possível que o lance tenha passado despercebido. Mas por falar no tema, a CBF diz que prepara a primeira fornada de árbitros profissionais para o ano que vem.  Sessenta e quatro deles, entre juízes, assistentes e bandeirinhas realizaram na semana passada no Rio de Janeiro treinamentos práticos e teóricos.  

A profissionalização dos árbitros é tema antigo. Hoje em dia a remuneração média de quem atua na Série A é de quinze mil reais. Alguns estão bem acima dessa média o que no entendimento de muita gente já seria suficiente para que vivessem disso. É compreensível. Como é compreensível também a necessidade de um vínculo empregatício. No modelo atual recebem por partidas. Pelo que li a respeito o projeto que vem sendo implementado tem um grande cuidado com a parte física. Quem trabalha na Série A passará a usar aquele tipo de colete, já muito usado pelos clubes, que não deixa escapar nada. Medindo o que eles correram, onde se posicionaram. Tudo muito importante. Só um louco faria pouco caso dessas questões. 

A impressão que tenho é que muito do vivemos se dá em outro plano, no da interpretação, na leitura de jogo. É comum diante de casos polêmicos alguém bradar que não é possível, que esse ou aquele árbitro nunca jogou bola. É um comentário que pode soar banal mas que está longe de ser despropositado. Talvez mais valioso do que profissionalizar fosse com esses cursos conseguir de alguma forma uniformizar a leitura de jogo, aproximar critérios. Vejam, virou comum ouvirmos que fulano é do tipo que deixa o jogo correr, que não dá qualquer falta. Entendo o que está por trás desse ponto de vista. Não deixo de considerar virtude. 

Mas quando se trata de arbitragem importa é ter um padrão. E não alijar nosso futebol de tecnologias que a essa altura são simples, como a do chip que indica se a bola ultrapassou a linha do gol. Seria nobre contribuição. Como seria aquela outra que define um impedimento de maneira automática. Coisas que poupariam os árbitros em muitos casos. Porque falar em profissionalizar sem dar aos árbitros as melhores condições de exercer o ofício será sempre fazer a lição de casa pela metade.

sexta-feira, 7 de junho de 2024

O abstrato no futebol



Já disse aqui em outras ocasiões que sempre achei muito interessante a capacidade que o futebol tem, ou tinha, de fazer as pessoas comungarem com diversos conceitos que não estão escritos em lugar nenhum. É certo que o mundo se rebuscou um tanto e que já não se vê por aí tantas peladas com os gols marcados , por exemplo, com um par de chinelos. Mas essa é a imagem que eu sempre invoco e volto a lhes dizer a razão. Uma bola rasteira que passe entre eles não deixará dúvida de que se tratou de um gol. Ocorre que o futebol é infinitamente mais complexo do que isso. As bolas , em geral, saem do chão. Traçam linhas cruzadas. De modo que boa parte das vezes, estando num cenário desses, não é coisa fácil dizer o que foi e o que não foi gol. 

Mas é fato também que desde moleque o futebol incutiu no nosso imaginário um jeito de resolver questões dessa natureza que decretava e anulava gols. E as decisões por mais que causassem rebuliço desaguavam num consenso. E esse é o tipo de coisa que as tais orientações recentes trataram de violentar. Quando vieram com essa de decretar que bola na mão dentro da área sempre seria pênalti roubaram do futebol a capacidade que ele tinha de semear em nós esse modo quase instintivo de nos entendermos. Pra embasar essa tese ouso dizer que décadas atrás mesmo os lances mais clamorosamente polêmicos não causavam tanto balbúrdia quanto causam hoje. E os motivos são vários. 

Um deles certamente essa questão de que a maneira de ler o jogo era mais consensual. Some-se a isso o vício estabelecido de esmiuçar os lances atrás de algo que seja passível de contestação. É uma insanidade achar que uma imagem por si irá esclarecer tudo de fato. A quem duvida sugiro lembrar das vezes em que diante de uma delas se viu sem saber ao certo o que pensar a respeito. Aos que não acreditam que pesam sobre o futebol coisas impalpáveis, que pensem no tal do fair play. Tão invocado, tão santificado. Mas que jamais constou das regras do jogo. É um acordo implícito, meio na linha desse que se escondeu desde sempre em nós e ajudou a resolver os bafafás que se davam quando se disputava uma pelada com gols marcados por chinelos de dedo, como diria minha saudosa mãe. 

O futebol propõe questões complexas. Exige levar em conta temas abstratos. Mas ao que parece o andar do jogo vem sendo definido por idiotas da objetividade. Termo que, de tão preciso, vira e mexe faz questão de nos lembrar que continua atual. Pra não dizer renovado. E o futebol é inocente nisso tudo. Ele é só um produto gerado por quem o faz, por quem o interpreta. E os astros que aí estão se estivessem interessados em respeitá-lo não andariam fazendo ceras descaradas, não estariam fingindo contusões, tapas na cara, não estariam cercando árbitros com dedos em riste. 

Diante disso pedir que um adversário se revele um santo porque em determinado lance alguém se viu descaradamente prejudicado é algo que beira a malandragem. E tudo é tão sem pé nem cabeça, vejam vocês, que o árbitro, este senhor que deveria ter o poder de disciplinar os jogadores, fica de mãos atadas porque, afinal, fair play não é algo estabelecido na regra. Enfim, desde sempre pesou sobre o futebol algo que não está escrito em lugar nenhum mas que age sobre o jogo. E é preciso dizer também que houve desde sempre nas peladas de gols marcados com chinelos os espertos que forçavam a barra tentado fazer todo mundo enxergar um gol onde a maioria não via. 

quinta-feira, 23 de maio de 2024

O VAR deve acabar ?



Não sei o que você pensa sobre o VAR. É fato que aqui entre nós adquiriu maus modos. Chegou querendo mandar no jogo. E isso não é coisa que se faça. Extrapolou muita vezes o que seria seu papel. Talvez porque recebido com pompas, com ares de salvador da pátria. Hoje me dá a impressão muitas vezes de assombrar a diversão do torcedor. E por falar em torcedor. O mundo moderno não é mesmo bolinho, como diria minha avó. Onde já se viu condená-lo a segurar um grito de gol na garganta até que todos os ângulos de um lance garantam que o que se deu em campo foi dentro da lei. Enfim, o Vídeo Assistant Referee, popularmente conhecido como VAR, virou uma grande questão. O nome sugere alguém trajado de autoridade para concluir por vídeo o que foi ou não foi legal enquanto a bola rola. Ocorre que pela gritaria que tem sido ouvida quase toda vez que se revela algum áudio do lugar em que trabalha a decisão que ele aponta tem sido uma mistura de pontos de vista e urgência. Em que triunfa, não necessariamente quem tem o melhor argumento, mas aquele com maior poder de persuasão ou patente. Essa é minha sensação. 

E nessa bagunça não poderia dar certo. Não teria como ter um futuro promissor. Não com esse tipo de comportamento. Ou de companhias, se preferirem. Algumas rodadas atrás testemunhei uma cena em que, depois do que pareceu uma eternidade, se decretou o gol. A essa altura os jogadores já tinham esgotado a capacidade de encher a paciência do juiz, ou de bater boca entre eles. Estavam reunidos em pequenos grupos. E quando veio a grande notícia davam a impressão até de já ter esquecido que algo estava por ser decidido. E daquele marasmo campal veio a explosão do gol. Despertando por tabela o poderio vocal do narrador.  Um negócio esquisito, sabe?

 Já o VAR inglês sabemos, não deve ser por acaso, é um sujeito mais polido que o nosso. Mas ainda assim, vejam só, andou testando os limites da paciência inglesa. Não sei a correria do dia a dia lhes permitiu saber que no próximo dia 06 de junho será votada uma petição feita pelo time do Wolverhampton para encerrar as atividades do VAR na Premier League, torneio tido como modelo para todos os outros campeonatos nacionais mundo afora. Os argumentos são tão polidos quanto os ingleses. Apontam numerosas consequências negativas não intencionais. Tenho duvidas sobre isso. Mas concordo inteiramente quando dizem, entra outras coisas, que o constante discurso do VAR tira o foco da própria partida e mancha a reputação de quem a organiza. 

Por essas e outras sugiro que voltemos à comunhão primal com o jogo de bola. Vamos ver uma pelada. Algum jogo desses em que o homem  vestido de preto, armado de apito, continua sendo um soberano. Testemos nosso olhar, nossa capacidade de atenção. Lembro bem de na minha época de moleque, enquanto íamos descobrindo a emoção de estar em um estádio, dos lamentos tardios de uns e outros que, uma vez na arquibancada, se distraiam. Perdiam o momento do gol enfeitiçados por algum outro detalhe. E na mínima fração de tempo seguinte a que o fato tinha se dado - quase instintivamente - achavam que teriam direito a um replay. As maravilhas tecnológicas desde sempre nos seduziram. Confortos do tipo sempre tiveram um quê de traiçoeiros. Duvidemos da tecnologia. Acreditemos piamente na alma do futebol. Pode ser a salvação !

quinta-feira, 18 de abril de 2024

Receitas para o futebol



Não sei se vocês sabem  mas o jornalismo costuma usar o termo suíte quando um assunto que foi notícia na edição anterior volta a ser explorado. O termo vem do francês, onde suite significa uma série, uma sequência. É o que de certa forma farei aqui ao retornar não exatamente ao tema arbitragem mas ao que a cerca e que, creio, poderia ajudar àqueles que têm a incumbência de soprar o apito. A contribuição-mor, como já defendi aqui semana passada, seria ordenar um pouco os comentários sobre arbitragem. Não que isso vá livrar os árbitros do purgatório ou de alguma outra seção mais ardente. Quando digo ordenar falo em tecer considerações a respeito dos lances duvidosos só depois que eles já tiverem sido decididos. Sei que hoje em virtude da maneira como as coisas estão se dando nem bem o lance ocorreu os narradores já estão pedindo que o comentarista de arbitragem se pronuncie. Uma urgência que deveria ser evitada já que assim os narradores forçariam seus parceiros de transmissão à elegância do veredito em tempo oportuno. 

Outra coisa que meu viés romântico sugere é livrar os envolvidos no jogo de qualquer interferência externa. O que significa dar um jeito de proibir verdadeiramente qualquer aparato tecnológico. Celulares e afins.  Estou ciente de que há muitas ferramentas de análise que dependem da internet e uma vez que ela entre em campo danou-se. Mas seria possível. Há filtros. Há recursos. Condenaríamos assim os envolvidos com o jogo a acreditar no que olhos viram e ponto. Como antigamente. No jogo de ida da recente decisão paulista me chamou a atenção o tamanho dos monitores instalados nos bancos de reservas da Vila Belmiro. Com eles, mesmo que não venha a narração, vem a câmera lenta, o replay. Todos esses recursos que costumam complicar a nossa interpretação do jogo. Isso me fez lembrar do velho Telê Santana. 

No início dos anos 90 ele pediu que fossem instalados monitores nos bancos de reservas do Morumbi para auxiliá-lo durante as partidas. Reclamava com razão que a visão dali era ruim. E vejam, disse também que era mesmo só pra analisar os jogos e não para pressionar o juiz. Ainda se chamava árbitro de juiz. Elegante - e prevenido - pediu que um monitor fosse instalado também para o time visitante. Mas em um jogo do torneio estadual, orientado pelo juiz, o fiscal da Federação mandou que o desligasse. Telê disse que desligaria. E ficou furioso quando voltou do intervalo e viu que o monitor não estava lá. Não exatamente por ter sido retirado mas pelo fato de que o fiscal não havia confiado nele. Irritado com episódio no Brasileirão pegou um walkie-talkie e passou a assistir aos jogos da tribuna, orientando o auxiliar, Muricy Ramalho, que estava à beira do campo. 

Dois anos mais tarde Washington Rodrigues, treinador do Flamengo, usou do mesmo expediente sem ser molestado. A visão ao nível do campo é mesmo ruim. Para os repórteres atrás dos gols também. Quando comecei a trabalhar lembro que todo mundo queria saber da emoção de poder estar ali à beira do gramado. E lembro das caras de desapontamento quando eu dizia dessa visão prejudicada. Enfim, acho que é uma ideia essa blindagem tecnológica e esse atraso nos comentários de arbitragem. E encerro tomando pra mim o que disse Telê em 1996 quando a Federação finalmente liberou os monitores. Disse ele: "Antes tarde do que nunca". E completou: "Aos poucos eles vão aceitando minhas ideias". Já eu não alimento essa esperança. Não tenho essa pretensão. 

quinta-feira, 16 de junho de 2022

Beleza é fundamental



Que o futebol brasileiro faz tempo não dá conta de entregar o que se espera dele deixou de ser novidade. Entre tantas coisas que desafiam o nosso deleite com o jogo de bola sou levado a desconfiar que ter aberto mão da beleza foi determinante.  Pense rápido. Qual o personagem influente da nossa cena futebolística você é capaz de imaginar atualmente comprometido com a estética?  Capaz, ao menos, de tê-la em um lugar de respeito quando pensa o jogo?  Chegamos ao ponto de concluir que um passo grande para se aproximar da glória por aqui é admitir que o anti-jogo é o caminho mais curto para o sucesso. Essa coisa de querer jogar, de ficar com a bola só complica tudo. 

Mas o estrago não vem sendo  feito apenas por isso.  A contribuição do VAR para o anticlímax tem sido imensa.  Não bastasse, nos últimos dias uma sensação estranha se apoderou de mim causando tremendo desconforto. De repente, comecei a perceber que  passamos a ver o futebol não como um jogo, mas meio que como uma novela. Uma espécie de reality show. Coisa tão em voga nos dias atuais. Tudo foi acontecendo aos poucos. Essa questão da plástica, da beleza, foi quase caindo em desuso.  Notem. Os lances mais bonitos foram perdendo o apelo.  Uma bola  colocada com fina arte por entre as pernas de um adversário. Aquela matada que faz a bola escorrer pelo peito.  Um passe cheio de efeito.  A mágica de parar um lançamento muito longo com um pequeno gesto, um mínimo movimento do pé. Tudo isso foi ficando em segundo plano, perdendo espaço, porque o que passou a importar de verdade foi garimpar uma imagem que o juiz não viu.  Que ninguém viu.  

Mais recentemente dá até pra dizer que a missão primeira das transmissões é meio que alimentar a Central do Apito. Resiste mesmo só a obviedade do gol, mostrado infinitas vezes.  Enfim, o jogo meio que virou uma breve encenação que alimenta todo o resto.  Notícia mesmo é o jogador que, liberado da partida, decidiu ir batucar com os amigos.  As palavras sinceras e duras de um treinador servindo de combustível pra azedar a relação com o elenco. No fundo o barato dessa coisa de abreviar a passagem de um técnico por um time mascara uma curtição dessas que o leitor é capaz de encontrar numa novela em que o ponto de partida são sempre as intrigas, as traições.  E por aí vai.  

Não custa dizer que no fundo os clubes contribuíram fundamentalmente para esse quadro.  Muito antes de a pandemia se abater sobre o mundo já tinham adotado um modo de tratar a imprensa que acabou por causar uma ruptura.  Aos críticos desde sempre diziam que era o modelo que o futebol europeu estava usando e que , portanto,  era sinônimo de excelência. Um olhar mas sensível a respeito da questão talvez tivesse mostrado que era preciso encontrar um meio termo. Algo feito sob medida , mais respeitoso com relação à história que crônica esportiva e o futebol tinham construído por aqui. Pior mesmo é constatar que isso foi a única coisa que os cartolas decidiram realmente copiar do futebol europeu. Atualmente os clubes se negam até a dar informações sobre o estado físico dos atletas. Muitos já não divulgam os relacionados para as partidas. Setoristas podem ver apenas a parte do treino que pouco significa. O que incentiva a busca por detalhes outros. Se ao menos tivesse restado a beleza.  

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Fragmentos do nosso futebol



Tô lá eu, de olho no jogo. Não era nem Copa América, nem Eurocopa. Vasco e Boavista disputavam uma vaga nas oitavas da Copa do Brasil. Partida de volta.  Dois times do Rio. Aquela proximidade que só faz aumentar a rivalidade.  Por certo o adversário sabia bem o que tem vivido o Vasco, fatalmente achava que poderia tirar proveito disso e quem sabe triunfar sobre toda a glória que o time cruzmaltino representa apesar de tudo.  O Boavista estava na frente, ia devolvendo o um a zero que tinha levado em casa. 

Bola na área. Chute da direita. O atacante vascaíno vai nela, que depois de tocada resvala no braço dele.  O juiz dá o gol. O bandeirinha fica na miúda.  A revolta do time que acaba de levar o empate é grande. Pra quem acompanha a transmissão o lance é claro, não fosse o comentarista de arbitragem entrar dizendo  que o torneio usa a regra antiga, que ela já foi mudada e provavelmente na próxima edição não restará dúvida de que o gol seria anulado. Uma certeza discutível pode ter pensado alguém que estivesse acompanhando tudo aquilo. 

A bola não volta a rolar, apesar de já ter sido colocada no meio de campo.  Eis que, de repente, a coisa vai mudando. Todo mundo no gramado começa dar a impressão de que não há o que contestar, foi mão e pronto. Na beira do gramado o bandeirinha, que já tinha tido tempo de conversar com o árbitro e lhe passar suas impressões, passa um pito no treinador do Boavista dizendo que ele está com o celular e que isso é proibido. Que se está com o aparelho o mesmo deveria estar no modo avião. Santa ingenuidade. Fica claro que o técnico a essa altura já sabe como o lance se deu. Que a bola bateu mesmo na mão do atacante adversário. 

A imagem corta pro juiz lá embaixo. A mão direita dele pressiona o ouvido, desenha aquele gesto que já está consagrado no futebol, o do árbitro que espera instruções além campo, lá da cabine onde fica o árbitro de vídeo. Tudo estaria perfeito se a Copa do Brasil naquele jogo tivesse à disposição tal recurso. Mas sabemos todos, não tinha!!! Terá depois, em outra fase. Surge a voz do narrador que precisa versar sobre o que todos estão vendo.  Justifica a cena dizendo que o árbitro está conversando com os assistentes espalhados ali pelo gramado. O árbitro ouve um segundo mais o que está sendo dito e, em seguida, faz soar o apito e aponta pra área onde tudo se deu. Onde aquela pequena novela tinha começado.  O gol está anulado.  

Tinham se passado eternos seis minutos desde o momento em que a bola tinha ido dormir na rede. Pra quem assistia a tudo restou uma certeza: pra resolver a pendenga houve ajuda externa. Mas isso é contra a regra todos sabem. E agora? E daí? Mero detalhe. Eis que no dia seguinte me chega pelo correio uma carta, de um remetente que não conheço. Dentro dela a cópia de uma folha, que havia sido registrada em cartório,  contendo uma lista de sugestões para melhorar o futebol. Nove para ser exato. Entre elas abolir o carrinho. Deu carrinho, por trás, pelo lado, mesmo visando a bola, é cartão.  Sei que é severo mas vai de encontro ao que tenho defendido, a capacidade que a arbitragem tem - ou poderia ter -  para refinar o padrão do jogo. Outra, não parar a partida para a troca de jogadores, apenas no caso do goleiro.  

E onde essas duas coisas se encontram? Bem, o fato descrito se deu no meio de um desses jogos disputados à tarde, a toque de caixa, como tem sido. Pouca gente viu, o gol anulado não foi crucial porque o Vasco marcou outro e ficou com a vaga. Mas tanto a carta quanto a bagunça vista em São Januário mostram bem que o futebol anda precisando ser mais bem tratado. Eis, então, que surge uma Liga dando pinta de que seria capaz de dar conta do recado. Será? É o tipo de coisa que só acredito vendo.  Até porque não resta dúvida de que a CBF  fará tudo o que pode puder pra que a ideia não vá adiante.

quinta-feira, 4 de março de 2021

O videoteipe e o futebol

 



Não sei precisar quando exatamente o vídeo tape passou a fazer parte do mundo do futebol. E não falo do uso simples do recurso, que dava ao telespectador a chance de rever a partida de seu time em outro momento. Muito depois do apito final. Falo do vídeo como recurso para interpretar o jogo. Ficou famosa a frase do dramaturgo Nelson Rodrigues a respeito do tal. Dizia Nelson que o VT era burro.  Numa tradução livre, talvez quisesse dizer com isso que não esclarecia nada. O que deveria nos servir de lição nestes tempos em que o árbitro de vídeo anda fazendo uma verdadeira balbúrdia no nosso futebol. Tomando conta de tudo.  Lembro também, não sei se teria sido na peça escrita pelo Dr Sócrates com Kleber Mazziero no início dos anos dois mil,  de uma cena em que diante de tudo o que está sendo dito pelos comentaristas num programa estilo mesa redonda o jogador em questão simplesmente se revolta com a imprecisão das análises e salta da tela pra vida real para rebater tudo o que os entendidos estavam falando.  Fosse possível na vida real imagino que renderia debates interessantes. 


Desde sempre existiu em meio a arquibancada coisas para nos distrair. Do vendedor do picolé ao sujeito que chega atrasado e pede pra passar na sua frente. Será difícil  encontrar entre os frequentadores de estádio um que jamais tenha perdido um gol, ou um lance importante do jogo  por distração.  Algo para o qual o VT poderia servir de consolo, e certamente vem servindo. Por falar nisso, não sei se viram o que se deu na final da Libertadores. Uma fotografia tirada no exato instante em que Breno Lopes coloca a cabeça na bola para marcar o único gol da partida e dar o título ao Palmeiras é possível ver ao fundo um casal, meio de lado nas cadeiras, todo feliz fazendo uma selfie. De onde concluo que para eles o VT foi a salvação. De onde concluo também que nada deve ter contribuído tanto ao longo da história para que o torcedor perdesse momentos cruciais de um jogo quanto o bendito celular.  E escrevo tudo isso para dizer que o VT além de burro, é um mal intencionado. Não tem lado. Se molda às intenções. 


Com sei lá quantas câmeras de olho em tudo será sempre possível defender quem se queira. Esse ou aquele. Basta ir lá revirar tudo que está gravado e certamente um recorte do tal VT se prestará a teoria que se quer defender. Sem contar os recursos com os quais é possível incrementar as intenções. Pior do que o VT só mesmo a câmera lenta, com seu dom de dar outra dimensão até mesmo ao mais banal dos encontrões. Sei que vai soar ultrapassado, saudosista. Dirão que sou um desconfiado irremediável. E realmente sou. Mas estou convencido de que seria muito salutar  voltar a analisar o jogo de bola apenas com nossos próprios olhos. Tentar decifrá-lo na velocidade em que ele realmente se dá. Enfim, tratar o VT como ele merece, como um modo eficaz de mostrar o que por ventura tivermos perdido. E não deixar esse senhor sabidamente burro e mal intencionado decidir o jogo. 

 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Do juiz ao árbitro

 




Sabe, sou do tempo em que o aventureiro que se entregava ao ato de apitar uma partida de futebol era chamado de juiz. Esse papo de árbitro veio depois, muito depois. A maneira de intitulá-lo pode ter mudado mas a natureza e os desafios do ofício permanecem exatamente iguais. Tá certo, a modernidade encheu o homem de penduricalhos. Mas essa tem sido a realidade de muitas profissões. No que diz respeito aos juízes vivemos uma era muito além da caneta para anotar os cartões. Agora, além das marcas que carregam no uniforme, tem a lata de espuma pra tornar nítida a posição onde deve estar a barreira ou a bola na hora de uma cobrança de falta. O fone de ouvido, o microfone para falar com o árbitro de vídeo - essa entidade que anda colocando à prova nossa paixão pelo jogo. 


Não sei porque motivo os cartolas teimam em desafiar o velho ditado de que paciência tem limite. Um dia ela acaba e aí quem sabe - já que é pra deixar tudo na mão da tecnologia - até nós, os de cabelos brancos acabemos nos entregando a um desses esportes eletrônicos qualquer onde, imagino, ainda se pode gritar gol exatamente na hora em que a bola alcança a rede. Escrevendo aqui agora até bateu uma saudade de ver o ilustre cidadão lá no meio das feras, todo de preto, trajando camisa de gola e tudo. Uma elegância só. Por mais que a bola pudesse vir a lhe bater na canela e ir parar dentro da meta lhe deixando com a sensação de quem de repente se pega nu diante de uma multidão. 



Como disse anos atrás um velho amigo de redação, boleiro das antigas, a gente começa a desconfiar do juiz antes mesmo do jogo começar. Dizia ele que essa era uma mania tipicamente nossa. Como nunca vivi na Inglaterra, na Itália, na Argentina, ou em nenhum outro país em que o futebol tenha esse protagonismo, acabei por encarar a afirmação como possível. 
Pensando bem deve ser para explorar essa desconfiança notória que vira e mexe um time ou um dirigente decide jogar no ventilador a ficha corrida do árbitro que  horas mais tarde será a autoridade que dirá o que valeu e o que não valeu no jogo do time dele. Aí um pede a troca do árbitro escalado, e a outra parte para não deixar barato acusa a primeira de estar tomando tal atitude para colocar o futuro homem do apito contra a parede. Conversa velha, tática manjada, mas que nunca caiu em desuso. Por que será? 


No fundo acho que aceitei a teoria do amigo de redação porque vejo mesmo a dificuldade que temos para acreditar na honestidade de quem apita uma partida de futebol. O cara pode até ser um craque no assunto, mas na hora que pisa na bola o erro nunca soa apenas como um erro. Note. Isso num tempo em  que as pessoas andam acreditando em cada coisa. Terra plana, chip em vacina. Eu, de minha parte, queria a essa altura poder acreditar, ao menos, que o ilustre juiz continua sendo mesmo soberano lá no meio do circo. Mas como? Se agora além de ficar de olho em tudo ele precisa , numa fração de segundo, decidir se deve mesmo confiar no que seus olhos lhe sugeriram. Tá certo, se chegamos a esse ponto foi porque muitos por aí deram bandeira, ajudaram a sustentar grandes esquemas. Mas a desconfiança anda tamanha que agora até quando o juiz não se dá ao trabalho de ir lá na tela conferir o VAR...hum, não sei não!  

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

O VAR só perde pro PIB



Tenho tentado driblar o assunto. Juro. Mas ele teima em se impor. Nas últimas rodadas do Brasileirão foi de longe o que provocou as discussões mais fervorosas. Nem em momentos de pura cornetagem em cima desse ou daquele jogador  foi possível notar veias tão estufadas. E não é pra menos. É coisa que mexe com o humor não só do torcedor, mas com o de todo mundo que de uma forma ou de outra está envolvido nesse circo. Enfim, cedi. Mesmo ciente de que de chato já nos basta o jogo, com exceções cada vez mais raras.  E não se trata de falar mal do árbitro de vídeo, não. 

Temos padecido de algo, creio, que já sabíamos, mas que de alguma forma nos envolvia numa fantasia. A fantasia de que o VAR teria a desejada virtude de ser conclusivo a respeito do jogo. Essa é a primeira questão que gostaria de abordar. Seria preciso - como diria meu amigo Xico Sá - fazer a geringonça tecnológica vestir as sandálias da humildade. Admitir, em certos casos, que mesmo dispondo de tantos recursos não é possível chegar a conclusão alguma. Essa deveria ser a lição deixada pela imagem que levou à anulação do gol de Luciano para o São Paulo diante do Atlético, em pleno Mineirão. Como aquele já estivemos diante de outros lances da mesma complexidade. 

A pena de não ter a coragem de em certas situações tomar tal atitude, aceitar que não é possível ser preciso na análise, é nos condenar eternamente a essa ladainha, que vai se repetir fatalmente. Vira e mexe virá nos assombrar. O tema é complexo. Lembrarão alguns que na jogada em questão o bandeirinha tinha apontado impedimento. Ou seja, sem o árbitro de vídeo o desfecho teria sido o mesmo. A  menos que o árbitro de campo tivesse tomado a decisão de desautorizá-lo. Ato que o faria comprar uma briga daquelas. Um outro detalhe merece reflexão. A forma como tem sido feita a escolha que define quem irá ocupar o posto de árbitro de vídeo. 

Se o escolhido tem trajetória e reputação mais expressivas, mais nome do que aquele que terá a missão de estar no gramado, a situação inevitavelmente fica desconfortável para o dono do apito. E a indução a uma certa forma de ver o ocorrido muito provável. Questão fácil de ser identificada pela Comissão que cuida da arbitragem. No mais, não deve nos causar surpresa que as decisões oriundas da cabine, muitas vezes, deixem transparecer uma quedinha para os grandes. A vida dos times pequenos nunca foi fácil. 

Imaginar que o VAR iria neutralizar essa (como definir?) tendência, pelo visto, é raciocínio tão ingênuo quanto imaginar que o árbitro de vídeo teria o efeito milagroso de arrefecer as polêmicas. O VAR, esse nosso pelo menos, que segundo levantamentos demora quarenta e seis por cento mais tempo do que recomenda a FIFA para tomar decisões, e cujas intervenções da última temporada para essa cresceram bizarros sessenta e oito por cento, precisa urgentemente de um bom analista. Ou quem acabara no divã seremos nós. Mais assustadores do que  esses números do nosso VAR tupiniquim só mesmo os que indicaram a queda vertiginosa do nosso PIB. 

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Carta ao Tio Nelson



Estava há tempos para escrever ao senhor. A estima continua a de sempre, diria até que o que tenho visto se dar no nosso  jogo de bola a tem feito maior. Escrever isso me exige certa coragem pois sabendo de seu gênio ácido talvez me diga que ficou desapontado porque não esperava que eu, depois de velho, virasse um bajulador. É que o senhor não faz ideia de como a coisa anda. Aquela beleza insuportável que o senhor usava para descrever certos lances - como aquele do Rivellino pra cima do Alcir num jogo entre o seu Fluminense e o Vasco - é coisa que praticamente não existe mais. Adorei reler  outro dia aquela coisa de que o gol é anterior a si mesmo, que nasce muito antes da finalização pra rede. E os míticos gols de falta? Viraram mosca branca. E quando damos de cara com um é muitas vezes sem aquela trajetória improvável que instintivamente nos fazia unir as mãos como quem ensaia uma oração. 

Outro dia o Zenon foi ao programa, com seu estilo incomparável. É bonito vê-lo até hoje tão vaidoso do futebol que jogava. Orgulhoso de um dia ter envergado uma camisa dez. Mas tenho lembrado muito do senhor principalmente por causa da chegada do tal árbitro de vídeo.  Um calvário infinitamente maior do que a burrice do VT que o senhor identificou tão bem.  Vou me convencendo de que o melhor mesmo sobre o futebol é não vê-lo por inteiro. E é aí que sua lembrança e saudade crescem. Fico lembrando que sua visão não era assim nenhuma maravilha. 

Agora se enxerga tudo. E, creia, quando a câmera em si não basta o sujeito vai lá, dá um toque na tela e saca , como num passe de mágica, um efeito chamado lupa. E eu lhe pergunto, onde já se viu querer ver o futebol com lupa? Isso só podia redundar na mais incômoda das cegueiras. Aproveito pra dizer também que ando relendo umas coisas do seu irmão. Acho uma injustiça que quase ninguém se lembre que o Maracanã carrega o nome dele. Ainda mais agora que o Flamengo o tem feito pulsar lindamente.  Por falar no Mário,  nos últimos meses já reli umas dez vezes a crônica em que descreve o Telê. Sabe, o tempo passou e hoje em dia quando se fala nele é só como o técnico  que levou o São Paulo a conquistar o mundo ou sobre o homem por trás da mítica seleção de 82. Quase nunca sobre o jogador que se garantiu em campo ao lado de gigantes. 

Aí a gente pega o que se escreve sobre o jogo de bola, a gente presta atenção no que andam dizendo dele e acaba com qualquer dúvida. O discurso sobre o futebol virou algo que flerta com científico. Bate uma tristeza.  Mas tio, é isso, não tem como não sentir saudade de quem a gente gosta. Dava tudo pra saber como é que o senhor traduziria esse tal de Jorge Jesus ou o Ganso que anda pagando de xerife lá no seu  Fluminense. E nem vou falar da seleção que tá que é um desquite só com o povão. 

Veja só, essa é outra palavra do seu tempo que quase não ouço mais: Povão! Acho que um dia, bem lá pra frente , um jogador qualquer terá um ataque de sinceridade como o Carille do Corinthians ensaiou outro dia e dirá que jogar esses amistosos com a Seleção era algo insuportável. Ter de viajar para Cingapura, jogar em estádios de futebol americano, ouvir o discurso messiânico do Tite. Mas só uma coisa une o tempo que foi teu e esse agora, a capacidade humana de suportar o cotidiano com doses mínimas de sinceridade.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

VAR: uma questão de soberania

 
Osvaldo Lima/ Photo Premium -Lance!
Dizem por aí que o torcedor só enxerga o que quer. Não há teoria capaz de fazer um cabra enxergar o que não está a fim. Pois acho que não foi e o caso do árbitro da partida entre Botafogo e Palmeiras que abriu a última rodada do Brasileirão. Mas não é do pedido de anulação aventado pelo time carioca que alega que a decisão veio depois do jogo já reiniciado que quero falar. Sei que talvez eu compre uma briga danada com os palmeirenses que estão cheios de motivos pra querer ver o que o árbitro no calor do jogo não viu. Ocorre que pra mim, sem o aparato da tecnologia, ele tinha visto tudo muito bem. 

Talvez o cartão amarelo para Deyverson pudesse ser colocado na conta dos exageros ou na conta do estilo do homem do apito, notadamente chegado ao uso indiscriminado do aparato. O lance do palmeirense com Gabriel estou convencido não se tratou de um pisão. Mas foi assim que  narrador, comentaristas e afins envolvidos com o lance o descreveram.  Caso não tenha visto o mesmo não cometerei a indelicadeza de deixa-lo boiando. Mas espero que ao fim da leitura, curioso, o leitor se ponha atrás da imagem para descobrir se olhando você terá visto o que eu vi ou se só vi mesmo o que eu queria ver. Fato é que chamado pelo pessoal da cabine do VAR para rever o ocorrido o árbitro se mostrou convencido de que tinha visto tudo ao contrário. 

Anulou o cartão amarelo que tinha dado ao atacante palmeirense e deu o para o zagueiro Gabriel do Botafogo e marcou pênalti. Pra mim não se tratou de um pisão. Houve um choque de pés? Houve. Mas estou convencido de que ao sentir o toque Deyverson dá uma forçada e cai. O que teria num primeiro momento provocado o cartão. Eu sei, não é fácil no turbilhão de uma partida de futebol, sendo induzido a uma interpretação, acabar não errando. E se fiz questão de destrinchar o lance é pra apontar um erro, e não o da marcação. Mas se é verdade que o árbitro em campo segue sendo o soberano para decidir as coisas do jogo é preciso acabar com essa conversa do pessoal lá da cabine chamar pra rever algo que o árbitro de campo já decidiu. Se for um lance flagrante, um impedimento ou algo que o valha, tudo bem. Faça-se o uso da tecnologia. Agora pra um lance interpretativo como esse que se deu no estádio Nilton Santos, não faz sentido. É decisão que joga contra a credibilidade do VAR, que nasceu tão cheio de boas intenções e viveu mais um final de semana terrível. 

O lance do Rodrygo na partida entre Santos e Internacional é outro exemplo. A boa imagem do aparato nesse momento de implantação passa muito pelo desafio da galera que está com o brinquedinho na mão ser capaz  de ficar quieta. Claro que usado de maneira comedida algo vai escapar. Mas alimentar a ambição ou trabalhar com olhos de lince achando que será possível livrar o futebol de todos os erros que os homens sempre cometeram não passa de ilusão. Começo a achar por isso que o maior desafio de quem controla esse VAR é tomar consciência de que, infelizmente, será preciso aceitar certos erros do homem do apito, de outra forma matarão a pretensa soberania que ainda juram dar a ele. E aí, ou mudam a lei, ou estarão fazendo um tremendo mal para o futebol brasileiro. 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Como eu ia dizendo

Foto: istock

Leio aqui que no Campeonato Paulista que aí está os clássicos sumiram da TV aberta. Migraram para o pay-per-view, que como já falamos será cada vez mais a casa dos jogos importantes. Até agora o único clássico que teve esse privilégio foi o que terminou com vitória do Santos sobre o São Paulo por dois a zero. Mas o detalhe interessante embutido na notícia é o que revela a velocidade com que essa transição vai sendo realizada. Do ano passado pra cá as partidas dos principais times de São Paulo no modo pago tiveram um crescimento de quase cinquenta por cento.

 Mesmo correndo o risco de  fazer o leitor - que imagino também torcedor - se sentir meio desiludido não resisti ao tema  por duas razões. A primeira, por me dar a chance de reafirmar o que foi dito aqui na semana passada. E a segunda, quem sabe, para de alguma forma seguir sendo solidário com quem desde sempre gostou de acompanhar um bom jogo de bola e não tem grana, ou não está disposto a pagar para vê-lo. Muito há pra ser feito, e a CBF em reunião realizada na última sexta apontou direções. 

Em um dos temas propostos pela entidade, o que sugeria limitar os clubes a apenas uma troca de treinador por temporada, encontrou apoio apenas no Atlético Mineiro, outrora presidido pelo homem que está convencido de que  estádio é para rico.  Voto louvável, não só pelo teor mas por se diferenciar da maioria que liderada pelo Flamengo decidiu não levar a questão adiante. O presidente do São Paulo,  perguntado sobre o assunto, do alto de suas grandes conquistas no cargo, justificou a posição contrária dizendo, polidamente, que a proposta pareceu a eles uma intromissão em como cada clube conduz sua gestão. 

Isso ninguém pode negar. Aprovar a medida definitivamente seria obrigar os clubes a gerirem de outra forma seus departamentos de futebol. Seria também anular a possibilidade de que os dirigentes continuassem tratando esses profissionais como remédio  de ação mais imediata para aplacar os efeitos de suas trapalhadas. Mas, preparem-se, por que na reunião do Conselho houve uma unanimidade: o árbitro de vídeo. Os clubes aceitaram  arcar com a despesa de pessoal e o sistema, pelo que foi decidido, será implantado já na edição deste ano do Brasileirão, prometendo além de valorosas elucidações  dar um certo ar de pós-modernidade às inevitáveis cornetadas sobre as decisões tomadas pelo homem do apito. 

Escrevam o que digo. A  partir disso, vira e mexe o ângulo do qual a imagem foi captada será colocado em dúvida e os efeitos discutíveis provocados pelo uso indiscriminado da câmera lenta serão dissecados como nunca. Será, verdadeiramente, uma nova era. Mas gostei mesmo é de saber que passaremos a ter uma Supercopa, que colocará frente a frente o campeão do Brasileirão e o campeão da Copa do Brasil. Ainda que o embate sirva pra dar mais uma espremidinha no nosso calendário canibal - e talvez tenha sido pensado pra se fazer mais um dinheirinho - soa a mim como um encontro que o futebol pedia. E já que é pra espremer o ideal seria fazê-lo dentro da mesma temporada para evitar que os campeões não se encontrem já desfigurados pelos negócios inevitáveis que os clubes brasileiros, coitadinhos, são sempre obrigados a fazer para pagar as contas.