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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A regra do capitão



Tudo é uma questão de educação. Foi assim que um amigo certa vez praticamente acabou com uma acalorada conversa a respeito do comportamento dos jogadores em campo. No fundo grande parte do que nos incomoda no mundo externo é uma questão de educação se pensarmos bem. Desde o cidadão que teima em nos fazer ouvir a música que ele escolheu. Passando pelo sujeito que simplesmente ignora o semáforo em vermelho. O que anda na contramão. O que sai pra passear com o pet deixando na calçada os vestígios do passeio. Há um sem fim de exemplos. Mas vamos tratar da boleirada. Bastaram aí umas poucas rodadas pra eu perceber o quanto fui ingênuo ao pensar que a Copa, com suas novas regras, pudesse de algum modo trazer avanços. Mas a impressão que tenho é de que a coisa se acentuou. 

E nem tô falando da manjada simulação que é coisa de dar nos nervos. O que estamos vendo parece beirar o caos total. Chegamos ao ponto em que um lance qualquer tem servido de pretexto para que se cerque o árbitro. Muitas vezes de dedo em riste. Obrigando o tal a escutar outras versões do ocorrido. Todas elas muito duvidosas obviamente. Sou levado a crer que o avanço desse tipo de atitude está ligado ao comportamento de dirigentes que, de uns tempos pra cá, perderam totalmente a postura. Já não pensam duas vezes pra fazer acusações, talvez encantados pela notoriedade que essas bravatas costumam lhes conferir. O que acaba por encorajar os jogadores a seguirem caminho parecido usando os recursos que têm. 

Fato é que a coisa anda beirando o insuportável, a ponto de dar a impressão de ameaçar colocar por terra o pouco encanto que ainda resta do nosso futebol que, um dia, encantou o mundo. Pode soar apocalíptico, e é. Não se enganem.  Já disse aqui, e volto a repetir: a principal arma para combater essa questão continua sendo a arbitragem, na figura dos árbitros. Ainda que eles precisem do amparo de uma autoridade que já nem sei se o futebol brasileiro tem. Imagino que o preço a pagar seria alto. Expulsões logo de cara. Desde sempre um tabu no jogo de bola. Uma farta distribuição de cartões para quem ousasse se exaltar. E outras atitudes que num primeiro momento poderiam soar extremadas mas que no curto prazo poderiam nos levar a uma melhora de comportamento que se faz urgente. E talvez fosse o caso também de colocar essa boleirada, que sempre achou que não tem nada pra aprender, em salas de aula. 

O aprendizado deixaria clara a realidade mais dura que passariam a encontrar em campo na figura dos árbitros, mas também serviria para fazê-los perceber o quanto isso, em última instância, poderia trabalhar a favor de todos. Fato é que nossa memória é mesmo muita curta. Faz pouco mais de dois anos, foi pouco antes dos jogos de Paris, a FIFA instituiu a chamada regra do capitão. Ou seja, apenas os capitães dos times poderiam  se aproximar e falar com os árbitros. E, detalhe, isso nos momentos em que eles fossem tomar decisões importantes. Nada de uma falta na lateral da intermediária ou coisa parecida. Pois bem, isso tinha se dado em julho. No mês seguinte, em agosto, a CBF, dizendo seguir as diretrizes da entidade-mor - cujo presidente atual neste momento vale um artigo - distribuiu um comunicado oficial aos clubes brasileiros dizendo que a partir daquele momento seria estabelecida a tolerância zero para jogadores que pressionassem ou cercassem o árbitro. Só mesmo rindo, pra não chorar. 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Uma aposta quase inocente



Aposta já foi coisa inocente. Houve um tempo em que elas, mesmo podendo ter um viés pernicioso, emprestavam certa graça ao cotidiano. E não foi à toa que acabaram infestando o mundo do futebol. Pode-se apostar em tudo. Que vai, ou não vai, chover. Que você, num arroubo de valentia, vai pagar trinta flexões sob o olhar incrédulo de quem topou a parada. Mas o futebol com essa alma de jogo indomável sempre lhe foi terreno fértil.  Nunca me esqueço que certa vez um editor de imagens, muito dado a esse tipo de desafio, fez questão de travar duelo com um outro editor, palmeirense, tendo em vista o derby que o final de semana lhes reservava. 

Mas o que fez desse episódio algo inesquecível foi a trama que se deu tendo a contenda como ponto de partida. O corintiano era falastrão. Não costumava deixar passar batida a mínima gracinha sugerindo que o time dele não seria capaz de lhe ofertar uma vitória em campo e, por tabela, nas apostas, nas quais nunca pensou duas vezes pra aceitar. Ocorre que certa vez o desafiante, não contente em tirar dele umas cervejas, propôs que o perdedor teria de vestir a camisa do rival. Como o desafiado não era de fugir da raia, deram-se as mãos e esperaram com ansiedade o desenlace que o deus do futebol ia perpetrar.  

O que se deu foi que o corintiano perdeu. E encarecidamente pediu que o pagamento da aposta fosse feito de forma reservada. Ocorre que todo mundo queria, claro, saber como a coisa ia se dar.  E o mais sacana deles fez questão de se esconder perto do lugar marcado e quando o homem vestiu a camisa do Palmeiras saltou na frente dele e fez o clique. Estava registrado para sempre aquele gesto que não durou mais do que uns poucos segundos. Foi colocar e tirar a camisa. Mas o registro ficou durante anos pregado no quadro de fotografias do departamento. O mais legal dessa história é ter visto que na foto o perdedor tinha no rosto um sorriso bonachão, de quem levou a brincadeira na esportiva, como diziam antigamente. 

E olha que o homem é dono de um vozeirão desses que por si só impõe e respeito. E nunca foi um cara de modos suaves, apesar do imenso coração. Essa lembrança me veio depois de eu ter ficado sabendo que o STF decidiu que cartão forçado - a pedido de apostador - não é manipular resultado. E isso quase me fundiu a cuca. Primeiro porque dá uma ideia de como aposta virou coisa séria. Em segundo porque sou capaz de entender que apurar se um cartão foi, ou não foi forçado, é tão difícil quanto decretar que esse ou aquele boleiro deu "migué". E quantos por aí mesmo sem prova viraram sinônimo disso. 

Agora, quem é que pode afirmar que um cartão forçado, feito a pedidos, não manipulou resultado se as casas de apostas topam remunerar quem acerta quantas vezes eles serão vistos em uma partida? Digo a vocês que sou capaz de entender que a sentença queira estabelecer que manipular resultado venha a ser alterar diretamente um placar. Mas discordo. E não me peçam para chegar a alguma conclusão que isso aqui é só um artigo e não um tribunal. De minha parte estou convencido de que isso não vai ficar assim. E digo a razão. Pode-se até dizer que não houve manipulação do resultado, mas manipulação houve, nem que tenha sido a da realidade que cercava o jogo. E vos digo mais. O futebol pode até deixar uma questão dessas  barato, mas as casas de apostas, duvido. É grana que está em jogo. Quer apostar?    

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

A revolução do futebol brasileiro



Se alguma revolução houve no futebol brasileiro nos últimos tempos foi a que destituiu do panteão um grande número de treinadores que durante um bom tempo reinaram por aqui. Não cabe  citar esse ou aquele, mas tenho certeza de que qualquer um que tenha acompanhado a novela que o jogo de bola sempre tece terá em mente bons exemplos para ilustrar esse raciocínio que proponho. Não dá pra negar o papel da crônica esportiva  nisso. Em dado momento o atraso dos ditos professores era apontado dia após dia como a principal causa da modorra vista nos gramados. Seria leviano dizer que padecíamos apenas desse mal. Longe disso.  Para além do que eram capazes àquela altura de construir taticamente havia em paralelo um sem fim de outras questões jogando contra. O retrato que ficou desse tempo é um ballet grotesco, com treinadores pulando de um clube para o outro, e muita retranca, que ao mesmo tempo tinha a intenção de proteger placares e empregos. 

lição que se pode tirar disso é que não era à toa que a crônica mirava os professores. O efeito colateral, num primeiro momento, foi abrir as portas para uma nova geração. Era por ela que se clamava. Novos nomes tiveram oportunidades. Viram cair sobre si a perigosa fórmula do sucesso rápido. Outros, que iam bem, acabaram vitimados por passos maiores do que as pernas. Mas foi um período abreviado porque não tardou e o futebol brasileiro passou a viver uma espécie de abertura, fazendo valer sua condição financeira sobre os outros países do continente. E aí a coisa não teve mais freio. Os primeiros estrangeiros já tinham chegado, pinçados um pouco por esse descontentamento nacional e um pouco também pelas conquistas modestas da nova geração que notadamente precisava de tempo para amadurecer. E foi graças a um sucesso imediato acompanhado de grandes conquistas que os treinadores estrangeiros, feita a revolução, começaram a reinar. 

Os antigos poderão sempre dizer que não tiveram as mesmas armas, já que os que chegaram depois encontraram um futebol brasileiro em que as cifras cresciam com vigor, possibilitando uma melhora sensível na qualidade técnica dos elencos. Nada muito significativo. E como o futebol não está apartado do mundo, muito menos de suas mazelas, riqueza nele é coisa pra poucos também.  Aliás, os dois são tão parecidos que o futebol anda cheio de nobres perdendo a distinção. E notem que os times mais endinheirado do país, Palmeiras e Flamengo, são comandados por dois treinadores  que espelham muito bem essa pós-revolução. Abel Ferreira, tem quarenta e seis anos, e por mais que goste sempre de deixar nas entrelinhas, mas não só nelas, que já decifrou o futebol brasileiro, não deve fazer nem ideia do que aqui se passou antes que chegasse com sua caravela. E nem poderia, não tem culpa alguma. Vive a mais singular realidade já vivida por um treinador nestas terras, pois amparado por uma diretoria poderosa, num clube com finanças invejáveis, assim é visto pelo menos, e cercado por conquistas de respeito que desde sempre se fizeram o melhor dos escudos para exercer o ofício. Em outros tempos teria ar de eterno. 

O outro personagem que ilustra esse momento é Filipe Luís. Mais jovem do que Abel, e que o destino - não sem merecimento -catapultou ao comando do Flamengo.  Tem sido comum ouvir comentários prevendo que irá desenhar uma gloriosa carreira. Algo de que não há razão para duvidar, por sua formação. Difícil é discordar que antes dessa, vamos dizer, mudança de costumes, algum dirigente iria arriscar o pescoço entregando um time milionário nas mãos de um treinador de quarenta anos e não laureado. Não discordo do que dizem a respeito dele, mas muitas vezes, entre amigos, me sinto obrigado a ponderar que não deixa de ser um piloto com poucas horas de voo pilotando um boeing. E algumas páginas desenhadas pelo rubro-negro nesta temporada talvez possam ser explicadas por esse frescor. E é do jogo. Alvissareiro mesmo é notar que, seja como for, o futebol brasileiro em alguma coisa mudou. 

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Quem dá a bola ?



Claramente, agora, quem dá a bola não é o Santos, como sugere o cântico "Leão do Mar". Digam o que quiserem, e que me perdoem os cruzeirenses que andam sonhando alto, os botafoguenses atuais donos do caneco, e todos aqueles que têm uma ponta de esperança de que seus times possam estragar os planos que palmeirenses e flamenguistas têm muito bem traçado. Mas um campeão brasileiro que não venha a ser nenhum dos dois terá sim um quê de surpreendente. Interessante notar, para além das contendas que os dois desenharão pela Libertadores entre a noite de ontem e a de hoje, que o diagnóstico que se faz deles é similar. Elencos renovados que precisam um tempo para que passem a mostrar tudo o que podem. Um parecer difícil de não aceitar, e nem há razão pra isso. 

Chega-se a conclusão, portanto, que triunfará aquele que mais rapidamente conseguir se reinventar. E nesse caso a atuação da dupla formada  por Flaco Lopez e Vitor Roque no meio da semana passada diante do Universitário se não sugeriu certa vantagem do time paulista encheu os alviverdes de esperança. Enquanto a atuação do Flamengo diante do Inter só reforçou uma sensação incômoda não é de hoje para os rubro-negros, que é a de ver o time comandado por Filipe Luís se impor sem no entanto conseguir desenhar placares que corroborem as diferenças vistas em campo em relação aos adversários. E levando em conta o poderio dos dois é preciso tratar as eliminações nas oitavas da Copa do Brasil, não como um fracasso, mas como um insucesso. Se é que não me faço entender, pois o dicionário, se não estou enganado, apontará os dois substantivos como sinônimos. 



Dito de outra forma, ficou no ar essa coisa de que o time rubro-negro não tinha a tal Copa em alta conta, dela não fazia questão. Dá pra entender, mas ainda considero cedo demais. No caso do Palmeiras, a rivalidade com o Corinthians impediu qualquer possibilidade de tratar a questão como algo menor. E o discurso palmeirense, pelo que me lembro, não deixou essa possibilidade nas entrelinhas, ao contrário do Flamengo, cujo diretor, José Boto, disse com todas as letras que a prioridade do clube da Gávea nesta temporada é o Brasileiro. Uma prioridade que exigirá disciplina para ser levada à termo.  A sedução da Libertadores é imensa. Sem contar o fato de que num futuro breve, se vier a ter o Palmeiras como adversário, será instado a repensar a questão. Tudo bem que isso pode depender também de como as coisas andem no Brasileirão. 

Gostaria de acreditar que esse quadro que se desenhou prova a importância do principal torneio de futebol do nosso país. Mas talvez não seja o caso. Diria que ele tem sido tratado como algo que não se pode ficar tanto tempo sem ganhar. E nada mais. Lembrem que o Palmeiras já se viu nesta situação. Com Abel já tinha vencido a Copa do Brasil e sido bi da Libertadores, mas lhe faltava o dito Brasileirão. E naquela momento nem na crônica esportiva, nem no clube, alguém ousou dizer o contrário. O Palmeiras quando venceu o Brasileiro em 2022 tinha sido campeão pela última vez quatro anos antes, com Luiz Felipe Scolari. No ano seguinte, veio Jorge Jesus e o Flamengo não só ficou com a taça como se sagrou bi no ano seguinte, mas sob comando de Rogério Ceni. E, detalhe,  com Felipe Luiz, então lateral, sendo muito elogiado pela atuação na partida do título. O que significa que, apesar de toda a pompa, há quase meia década o time carioca não dá essa emoção ao seu torcedor.  E aí se revela a realidade: o Flamengo, que tanto almeja, se vê necessitado de um Brasileirão. No mais, creio, sejam quais forem as teorias, Palmeiras e Flamengo têm tudo para seguir dominando a cena.  

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

A grande pauta



Sei que o assunto talvez não se revele o mais interessante para o torcedor. É compreensível. Mas digo a vocês que a questão do piso sintético segue sendo, na minha opinião, a grande pauta do futebol brasileiro. E por isso Neymar foi muito bem ao ressuscitar o tema dias atrás. A falta de estudos conclusivos torna o assunto espinhoso. Pesquisando um pouco, como tudo nos dias de hoje, é possível encontrar pareceres à favor e contra. E aceito perfeitamente a validade de quem argumenta que não há provas para se condenar o piso sintético. Mas considero a posição da FIFA um grande sinal de que mesmo com toda a tecnologia disponível ele não consegue fazer com louvor o papel de um gramado natural. E, sejamos sinceros, essa condição talvez inadequada de jogo tem sido enfiada goela abaixo dos jogadores. 

Por isso, digo que é de se condenar que a entidade máxima do futebol chancele o piso sintético mas o proíba nas competições que organiza. Pode haver posição mais ambígua e descarada do que essa? Creio que isso basta para qualquer contestação. Nem precisamos apelar para o fato de as principais Ligas do mundo não quererem nem ouvir falar em gramados que não sejam naturais. É uma pena que inevitavelmente o assunto se revista quase sempre de um viés clubista. A facilidade com a manutenção ampara esse tipo de escolha não há a menor dúvida. Mas acima de tudo influi na questão o gasto, que tende a ser consideravelmente maior no caso da grama natural. Difícil convencer administradores a abraçar uma manutenção mais complexa, e isso só piora quando junto com ela vem também um gasto maior. 

Feita essa reflexão só há uma maneira de impor aos clubes  usar o tipo de grama que o futebol usou desde sempre, ou quase, exigir! Um detalhe pouco lembrado quando se fala nesse assunto é que na tentativa de diminuir gastos passou a ser cada vez mais comum que os campos das categorias de base passem a ter piso sintético. E não me espanta que quem é do ramo aposte que as reclamações tendam a diminuir com o tempo já que as novas gerações se farão mais acostumadas com essa realidade. Mas não é preciso pensar muito para admitir que qualquer vantagem mínima em termos de impacto, qualquer ganho que se tenha em termos de saúde, devem ser tratados como suficientes para definir a questão. E nem vou aqui entrar no mérito do jogo. Faça uma averiguação a respeito e facilmente encontrará gente que joga e jogou, gente credenciada para tratar do tema, falando do quanto o piso sintético transforma o jogo, muda os movimentos, altera sua plástica. Mesmo que dito de maneira velada, com outros termos. 

Neymar com toda a patente que tem bem poderia fazer disso uma bandeira, tem voz pra isso, tem visibilidade, se relaciona bem com os companheiros de ofício, é respeitado por eles. Para além do que conseguirá entregar em campo, o que sabemos depende de um sem fim de fatores, seria uma nobre contribuição para o futebol brasileiro. Nesse momento da história em que nosso jogo de bola é acusado de estar muito aquém daquele que se pratica, em especial nos gramados europeus, seria um modo de, minimamente, fazer o futebol brasileiro mais parecido com o das grandes Ligas do planeta. De outro modo, a grana vai continuar definindo o modus operandi condenando os de agora e os que virão a se apresentar num palco que um dia todos souberam que não era o ideal.  

sexta-feira, 25 de abril de 2025

O Santos atual



Analisar o momento do Santos FC provoca certa melancolia. Dirão os otimistas que ela era maior na temporada passada quando o time foi obrigado a disputar a segunda divisão. Não é um parecer sem sentido. Mas ao relembrar agora a história recente vivida pelo clube tenho a impressão de que a trajetória desenhada ali se deu mais ou menos dentro do esperado. O time alternou bons e maus momentos. Havia no ar não o medo de um novo rebaixamento, mas o temor de passar mais uma temporada alijado da elite. O fim, adornado por um acesso antecipado e pelo título, por certo, soou mais glamouroso do que o percurso. 

Um triunfo que, para além de apaziguar o ânimo dos torcedores, foi extremamente salutar porque evitou uma debacle financeira ainda maior. A essa altura pouca gente deve lembrar que a volta à primeira divisão evitou que o Santos tivesse de devolver um adiantamento de sessenta e dois milhões de reais recebido por ter assinado um contrato de repasse de direitos de transmissão. Contrato que passaria a vigorar este ano e que irá até 2029. Também não me espanta que a visão geral se prenda a questões do presente. Mas, sou levado a crer que pode ser um engano pensar que tudo isso são águas passadas. A história é uma construção sem recessos. O Santos vive hoje a sequência de um período que é o menos glorioso de toda a sua existência. 

A chegada de Neymar, grande ídolo que é, contribuiu imensamente para mascarar essa realidade, para mascarar os desafios dessa continuidade histórica. Voltar jamais será como ter estado sempre. E para além da contribuição o camisa dez possa a vir a dar em campo, e sobre a qual os últimos acontecimentos vão derramando certo pessimismo, há o fato de que nos últimos anos o futebol brasileiro viveu um avanço vertiginoso no que diz respeito a questões econômicas. Entre o Santos e a verdadeira elite do futebol nacional neste momento existe um abismo que jamais existiu. Não consigo enxergar de outro modo, será necessário muito trabalho para diminuí-lo. E reside aí uma outra questão. 

Neymar e seu estafe, com seus parceiros endinheirados, desde sempre são vistos como capazes de salvar o Santos desse atraso. De fazer o clube dar um salto. Ocorre que o primeiro efeito colateral disso tudo tem sido, também desde o primeiro capítulo, ofuscar aqueles que foram eleitos para cuidar do clube. Uma equação pra lá de delicada, pois se há uma coisa que o atual presidente nunca fez questão de esconder foi a dificuldade que vinha tendo para lidar com a situação frágil em que encontrou o clube. E, diante de tudo isso, não é descabido olhar com certo ar de espanto para o elenco santista e sua mais de dezena de recém contratados. 

A montagem do time se não torna claro tudo o que anda acontecendo com o clube, no mínimo, é um elo entre todos os pontos e provoca boas questões. Está a altura das finanças de um clube que nunca escondeu suas fragilidades financeiras? Foi montado pensando em dar amparo a Neymar? É fruto de transações que o clube sozinho não conseguiria ter feito? A complexidade dos dias que o Santos anda vivendo sugere a urgência de se descobrir se há mesmo entre todas as forças que agem sobre o clube neste momento um interesse comum. De outro modo, mesmo que se tire do chapéu um técnico ideal, será difícil voltar a ver o Santos brilhar em campo e ser dono do próprio nariz como ele foi um dia.   

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Luxemburgo não é inocente



Começa mais um dia de treino na Vila Belmiro. É uma terça -feira de sol. O time santista nem deu as caras. Mas repórteres, cinegrafistas e fotógrafos já estão ali à beira do gramado, esperando o treino começar. Divididos em pequenos grupos falam um pouco de tudo. Mas a troca de impressões a respeito do time é o tema principal. Minutos depois os jogadores e a comissão saem do túnel, sem pressa. Alguns vão além dos cumprimentos, param brevemente. O momento é a primeira deixa pra se engatilhar um pedido posterior de entrevista, sentir se a pauta, o tema pensado, vai dar pé. Enfim, ali à disposição da imprensa estão todas as faces de um time profissional. Um olhar atento, treinado também, vai ser capaz de extrair dele todos os detalhes, desvendá-lo. O semblante do artilheiro que vive uma incômoda seca de gols, a petulância do jovem meia recém chegado do interior quando a bola rola, as preocupações e os pedidos que vão sendo externados pelo treinador. Está tudo aos olhos dos presentes. E não irá demorar muito todas as descobertas estarão estampadas nas páginas dos Cadernos de Esportes, estarão sendo contadas nos programas radiofônicos da hora do almoço ou do final da tarde. Nos programas esportivos da TV. 



Existia, claro, um tema, um acontecimento que se impunha, mas ao mesmo tempo cada repórter que aportava ali trazia consigo uma ideia, uma possibilidade. Cinegrafistas e fotógrafos, por sua vez, tinham liberdade para escolher o ponto do qual acreditavam seria possível extrair daquele ambiente a melhor imagem.  Fosse da beira do campo, da arquibancada, atrás do gol. Não estavam confinados em pequenos espaços como hoje. Via-se e mostrava-se tudo, ou quase. E no fim, quando voltavam a se encaminhar para o ponto de onde tinham saído, os repórteres de microfone em punho iam se aproximando a esse ou aquele, barrando-lhes o caminho em nome do ofício. Pra quem cobria futebol existia uma graça em descobrir um personagem que, de algum modo, fosse só seu. Driblar de certo modo a celebridade, o homem-gol da hora, enriquecia a cobertura e ajudava a colocar os tais em seu devido lugar. E não era uma bagunça, não. A coisa tinha seus ritos. Um modus operandi que vinha sendo lapidado desde que o futebol tinha caído nas graças da grande mídia. Nem tudo era possível, não se enganem. Mas cobrir futebol de maneira mais ampla e fiel, ah isso era. 




O que me motivou a escrever sobre o tema foram as lamúrias de Vanderlei Luxemburgo a respeito do trabalho da imprensa. E o que vai aqui não é coisa que se deu há meio século. É cena tirada dos anos noventa, quando Luxa reinava e tirava também bom aproveito dessa maneira de se fazer as coisas. Notadamente sempre se preocupou em entender como ela age. A pandemia certamente acentuou esse abismo. Mas bem antes disso os homens do futebol já tinham se encarregado de tornar a relação  quase estéril. E partir daí iremos buscar informações onde? Nas mídias digitais? Onde homens e instituições sempre podem se mostrar mais como gostariam de ser, e não exatamente como são?  Erra quem pensa que o ônus dos cercadinhos nos CTs, os treinos fechados, a blindagem pesada, essa falta de vontade de falar com os jornalistas, fosse ter como vítima apenas a imprensa. 

segunda-feira, 6 de julho de 2020

O futebol é a nossa cara



O futebol segue sendo o mais fiel retrato do nosso país e por tabela de seu povo. Gostaria muito de poder negar que se trata de uma obra nossa mas não dá. Poderia aqui usar o jogo entre Flamengo e Bangu  que marcou a volta do futebol profissional ao nosso país depois da paralisação causada pela pandemia do coronavírus como exemplo. Mas sou levado a crer que o que se deu no Maracanã foi apenas um lamentável efeito colateral de tudo o que anda se desenhando nos bastidores. Notem, não podemos acusar os cartolas de inércia. 


Notadamente desde os primeiros dias trataram de se mexer. Correram à Brasília rapidinho. É sempre lá que se desembola o meio de campo. E a vitória está perto. Entre outras ajudas, os clubes terão o direito de suspender o pagamento do Profut durante a pandemia. Conhecendo o Brasil seria o caso de perguntar : quem exatamente irá dizer quando a pandemia acabou ? Como é o caso de perguntar se não seria correto dar tal benesse apenas aos clubes que trataram o refinanciamento das dívidas com o devido respeito, já que apenas nove dos trinta e seis clubes que se inscreveram no programa não devem ao governo. 

E há outras questões que merecem uma lupa. Como a medida provisória assinada pelo presidente da República, imediatamente apelidada no Congresso de MP do Flamengo. Aquela que veio depois de algumas visitas do presidente rubro-negro ao planalto. Nela são vários os tópicos, mas o principal é dar aos clubes mandantes o direito de negociar os jogos com as emissoras. O que em um primeiro momento pode parecer simples, mas muda todo o modo como as partidas vinham sendo negociadas, além de deixar a impressão de favorecer o time da Gávea e criar outra realidade para a TV Globo - principal parceira dos  clubes brasileiros - com quem o presidente tem andado às turras.  Agindo assim estão cuidando exatamente dos interesses de quem?  

Não tardou para que alguém dissesse que a mudança favorecerá o  espectador.  Mas sabemos muito bem que  se isso acontecer terá sido por tabela.  Todo o resto  foi relegado à segundo plano. Os atletas, os funcionários dos clubes.  Disso o jogo no Maracanã é prova. Facilitado por um protocolo refeito e assinado na véspera, depois de termos visto equipes voltando a treinar sem autorização. A Alemanha precisou um mês para que um protocolo de cinquenta páginas fosse feito e colocasse todos os clubes sob às ordens que ele ditava.  Protocolo que duas semanas depois foi aprovado pela chanceler Ângela Merkel.  Com um detalhe: lá tudo se reiniciou quando a curva de contágio estava claramente em queda. Mas que certeza temos aqui? 

A CBF acaba de anunciar que o Brasileirão pode voltar no dia 09 de agosto. Será? Na Espanha a retomada se deu setenta e um dias após  o pico do contágio. Na Inglaterra,  foram setenta e oito dias. Sei que muitos são os argumentos que embasam tudo o que vem sendo feito no sentido da retomada. Mas a impressão que tenho é que na falta de unidade para tratar o problema estamos todos, como sociedade e como torcedores, perdidos.  Que cada região tenha seus números e sua realidade sou perfeitamente capaz de compreender. Mas quando se trata de esporte parto do seguinte princípio: a igualdade de condições é imprescindível.  Então, que se tenha a sabedoria de retomar tudo quando todos os envolvidos em uma competição estiverem vivendo uma mesma realidade. 


quinta-feira, 14 de maio de 2020

Quem tem futuro?



Esse tem futuro! Faz tempo que não ouço essa frase e temo que não deva ser por acaso. Como tenho a impressão de que não preciso dar muitos detalhes, pois estou convencido  de que em algum momento você já a tenha ouvido e saiba muito bem do que estou falando.  Mas, se  por ventura lhe for desconhecida, saiba que era um tipo de saudação que se fazia quando se dava de cara com algum traço de talento -  ou coisa que o valha - em alguém ainda jovem. E, embora esteja colocada aqui no masculino, é claro que o futuro nunca fez a menor distinção entre homens e mulheres. 

O triste dessa constatação é ter comigo a mais pura convicção de que o talento segue por aí. Cada vez mais sufocado. Obviamente, por ofício, costumo falar de esporte, mas a reflexão vale para outros campos. Em especial o das artes, que já vinha sendo minado bem antes dessa pandemia dar as caras. Assim como está sob ataque a ciência de quem, vejam como são as coisas, dependemos tanto neste momento. Vivemos num país que mesmo enquanto esteve, supostamente, sadio, jamais foi capaz de colocar em prática um projeto nacional de esporte.  Difícil crer , portanto, que o fará a partir de agora. 

Como não me espanta que em meio a tamanha expectativa sobre o que será do futebol brasileiro eu tenha demorado tanto para dar de cara com uma manchete que fosse a respeito das categorias de base. E quando dei de cara com uma fui informado de que boa parte dos clubes levam em conta retomar as competições menores só no ano que vem. Nisso fecham questão. Em outras palavras, para os nossos dirigentes quando se trata da base, pelo visto, não há urgência. Não que deveria. Mas como eu gostaria de acreditar que estão dispostos a agir assim por questões humanas, ou por preocupação com o próximo. Na realidade é o momento nos dando um contorno mais nítido do que o que o futebol sempre reservou aos que orbitam em torno dele, aos que ainda não alcançaram o estrelato. 

Aposto que você, como eu, se é simpático ao tema, em algum momento da temporada passada, por exemplo, andou convencido de que o nosso futebol feminino estava vivendo um bom momento. E nunca é demais lembrar: constatação que só se fez possível porque de uma hora para outra os fatos obrigaram os manda-chuvas a colocar os cartolas contra a parede e exigir deles investimentos na modalidade. Detalhe que não deve ser esquecido. Se a coisa andou foi por obrigação, com raríssimas exceções. Mas que progresso é esse se  temos tido notícias de times femininos sem uma estrutura mínima, que mal conseguem treinar, e cujas jogadoras - pelo que foi noticiado - aqui e ali têm sido as últimas a ver a cor da grana que a CBF andou mandando para ajudar as equipes? Isso é , ou não é, esmagar o talento?  

Sem falar de outras modalidades com papel pra lá de nobre em nossa história esportiva, como o vôlei e o basquete, onde nem seria preciso chegar à base para constatar que tudo está um tanto em ruínas. Ora, se o vôlei brasileiro , com toda a sua excelência, já vinha convivendo com grandes desafios financeiros, com times deixando de pagar salários, extinguindo equipes, o que pode esperar o praticante de modalidades que sempre estiveram à margem da grande mídia? Não, não é o acaso que fez evaporar a velha frase. Como não foi o acaso que fez tão pertinente nesta hora perguntar: quem tem futuro? 

* artigo escrito para o jornal " A Tribuna", de Santos/SP

quinta-feira, 9 de abril de 2020

O que realmente importa



A frase é das mais lembradas, desgastada até, entre as tantas que o dramaturgo, Nelson Rodrigues, cunhou com imensa maestria. É, inclusive, das mais citadas  no meio esportivo. Falo daquela que decretou certa vez que o futebol é a coisa mais importante dentre as coisas desimportantes. E os que, se dizendo apaixonados pelo jogo de bola, ao longo do tempo se recusaram a admitir a precisão do pensamento nela contido a essa altura tiveram bons motivos para mudar de opinião. Compreendo, era realidade não imaginada  ficarmos todos de uma hora para outra sem um mísero jogo de bola sequer para nos distrair. Mais desafiador que isso para o nosso "modus vivendi" só mesmo a notícia de que a novela das nove, que um dia foi das oito, iria sair de cena. 

Pode parecer cruel de minha parte, dado meu ofício, mas digo que o que a realidade nos impõe neste momento é tratar o futebol exatamente desse modo, desimportante. Pois há um número enorme de coisas verdadeiramente importantes para se cuidar. E a pressão para que a bola volte a rolar não será pequena. Desde sempre os cartolas foram bons nisso, em colocar quem manda no bolso. Não são pequenos comerciantes, se é que me faço entender. E não só a pressão não será pequena como certamente os homens da bola neste exato momento estão tramando e se mexendo para contar com a ajuda do governo, colocando na mesa o velho argumento de precisar equilibrar suas contas desequilibradas por natureza. 

Vejam, se na Inglaterra o cultuado Liverpool - cujo valor de mercado em nossa surrada moeda beira os cinquenta bilhões de reais - andou de olho em recursos de um fundo que tem como finalidade proteger trabalhadores durante a pandemia, e disso só desistiu depois de perceber que a intenção tinha pegado muito mal, imaginem vocês o que não pode se dar por aqui. É bom ficar atento. Principalmente porque o esporte se faz neste momento, como sempre, um espelho fiel da sociedade, onde os abastados terão seus trunfos enquanto aos menos favorecidos restará gritar na esperança de que algo seja feito por eles. Se neste momento o futebol se apresenta como um necessitado pensemos no que não andam vivendo então outras modalidades e seus atletas. 

No mais, se me perguntarem do mar vos digo. Apreciei vê-lo mudar de humor com a beleza ímpar com que sempre o fez. A tragar as areias, a invadir os canais. Como gostei de ver saltar a veia poética de Nelson Rodrigues, o homem que certo dia disse que se negava a acreditar que um político, nem mesmo o mais doce deles, tivesse senso moral. Se estava certo ou não os dias estão aí para desafiá-los. Não que eu tivesse dúvida a respeito da poesia em Nelson. Alegro-me pela constatação, e só. Como escreveu , Nilo Oliveira, sabiamente citado outro dia pelo amigo Marcelo Montenegro," o poeta é o que acerta de raspão - e o tempo se encarrega de colocar o alvo no lugar exato  onde o poeta supostamente errou". Palavras que soam ainda mais perfeitas nessa hora em que precisamos discutir o futebol como a coisa mais importante... dentre as coisas desimportantes

* artigo escrito para o jornal "A Tribuna", de Santos/SP

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Mora na filosofia


Sem firulas. Pode dizer. Quando você ouviu que o Palmeiras tinha contratado Vanderlei Luxemburgo ficou meio sem entender nada e o ocorrido de certa forma lhe intriga até agora, é, ou não é? Mas relaxe, acho que a coisa pode ser encarada como normal. Era difícil mesmo acreditar nos rumores a respeito e creio que isso explica em boa parte essa sensação, da qual partilho, vale a pena dizer. Provavelmente já tínhamos convencido nosso imaginário de que o lugar seria de Sampaoli. E mesmo depois de as tratativas com o argentino terem ido por água abaixo nossa cabeça insistia em trabalhar com possibilidades do mesmo quilate ou que fossem na mesma linha. 

Talvez o Palmeiras tenha sido sob certa ótica até mais ousado, o que não quer dizer mais preciso, ao optar por um velho conhecido. À parte todas as questões que cercam a volta dele ao clube é imperioso reconhecer que sempre é de alguma valia ter no comando alguém identificado com a camisa que vai defender. Ainda que isso não baste, obviamente. Luxemburgo é figura rara. Conhece como poucos o futebol brasileiro e tem um faro pra lá de apurado para sacar quais são os ventos que costumam mover a crônica esportiva. Aquela mistura de experiência com malandragem que as vezes se revela um bom escudo para quem vive nesse meio. 

Mas para ser ainda mais justo com Luxemburgo é preciso admitir que se trata de alguém cuja vida pessoal - em dado momento - turvou de certa forma sua vida profissional. Uma questão sempre delicada demais. Mas seja como for Luxa deu um jeito de passar por cima de tudo e seguir no ofício. Conseguiu se livrar até daquela imagem de treinador que queria tomar conta de tudo, mandar além das quatro linhas. E esse pode ser um detalhe capaz de fazer dessa volta dele a redenção total. E digo isso porque com o Palmeiras querendo colocar limites no poder de certos diretores, ao novo treinador restará o campo. E nisso, todo mundo diz , o homem sempre foi um mestre.  

E não estou dizendo isso da boca pra fora não. Ao longo da carreira não foram poucas as vezes em que perguntei - ou testemunhei gente perguntar - a jogadores e ex-jogadores qual tinha sido o treinador que mais lhes marcou e, devo dizer, não foram poucas as vezes em que a resposta que ouvi foi a mesma e contundente: Luxemburgo. Seu extenso hall de títulos brasileiros deveria ser suficiente para amparar a escolha, mas Luxemburgo tem um cartel que vai muito além e faz dele um dos técnicos mais vitoriosos do nosso futebol. 

Dirigiu a seleção. Bem ou mal construiu uma trajetória que o fez treinador do Real Madrid.  Ao contrário de muitos, não faço pouco caso do que Luxa fez à frente do Vasco. Como entendo os que dizem que se tratou apenas de trabalho mediano. Mas, às vezes, só com nota pra passar a gente se mantém no jogo ou, nesse caso, volta para ele. Luxa, voltou.  E, pra ser mais claro, na minha opinião pensará mais em atacar do que Felipão e Mano juntos. Além do mais, qual outro treinador seria capaz de dizer ao partir que não chegou a um acordo com o time que dirigia nem financeira nem filosoficamente? Só ele.  Mora na filosofia?

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Como eu ia dizendo

Foto: istock

Leio aqui que no Campeonato Paulista que aí está os clássicos sumiram da TV aberta. Migraram para o pay-per-view, que como já falamos será cada vez mais a casa dos jogos importantes. Até agora o único clássico que teve esse privilégio foi o que terminou com vitória do Santos sobre o São Paulo por dois a zero. Mas o detalhe interessante embutido na notícia é o que revela a velocidade com que essa transição vai sendo realizada. Do ano passado pra cá as partidas dos principais times de São Paulo no modo pago tiveram um crescimento de quase cinquenta por cento.

 Mesmo correndo o risco de  fazer o leitor - que imagino também torcedor - se sentir meio desiludido não resisti ao tema  por duas razões. A primeira, por me dar a chance de reafirmar o que foi dito aqui na semana passada. E a segunda, quem sabe, para de alguma forma seguir sendo solidário com quem desde sempre gostou de acompanhar um bom jogo de bola e não tem grana, ou não está disposto a pagar para vê-lo. Muito há pra ser feito, e a CBF em reunião realizada na última sexta apontou direções. 

Em um dos temas propostos pela entidade, o que sugeria limitar os clubes a apenas uma troca de treinador por temporada, encontrou apoio apenas no Atlético Mineiro, outrora presidido pelo homem que está convencido de que  estádio é para rico.  Voto louvável, não só pelo teor mas por se diferenciar da maioria que liderada pelo Flamengo decidiu não levar a questão adiante. O presidente do São Paulo,  perguntado sobre o assunto, do alto de suas grandes conquistas no cargo, justificou a posição contrária dizendo, polidamente, que a proposta pareceu a eles uma intromissão em como cada clube conduz sua gestão. 

Isso ninguém pode negar. Aprovar a medida definitivamente seria obrigar os clubes a gerirem de outra forma seus departamentos de futebol. Seria também anular a possibilidade de que os dirigentes continuassem tratando esses profissionais como remédio  de ação mais imediata para aplacar os efeitos de suas trapalhadas. Mas, preparem-se, por que na reunião do Conselho houve uma unanimidade: o árbitro de vídeo. Os clubes aceitaram  arcar com a despesa de pessoal e o sistema, pelo que foi decidido, será implantado já na edição deste ano do Brasileirão, prometendo além de valorosas elucidações  dar um certo ar de pós-modernidade às inevitáveis cornetadas sobre as decisões tomadas pelo homem do apito. 

Escrevam o que digo. A  partir disso, vira e mexe o ângulo do qual a imagem foi captada será colocado em dúvida e os efeitos discutíveis provocados pelo uso indiscriminado da câmera lenta serão dissecados como nunca. Será, verdadeiramente, uma nova era. Mas gostei mesmo é de saber que passaremos a ter uma Supercopa, que colocará frente a frente o campeão do Brasileirão e o campeão da Copa do Brasil. Ainda que o embate sirva pra dar mais uma espremidinha no nosso calendário canibal - e talvez tenha sido pensado pra se fazer mais um dinheirinho - soa a mim como um encontro que o futebol pedia. E já que é pra espremer o ideal seria fazê-lo dentro da mesma temporada para evitar que os campeões não se encontrem já desfigurados pelos negócios inevitáveis que os clubes brasileiros, coitadinhos, são sempre obrigados a fazer para pagar as contas.         

   

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Nosso futebol anda carente de verdades


O que vocês acham que seria capaz de dar alguma graça a esse futebol previsível que temos visto? Eu acredito que uma dose de verdade, é isso que pode nos salvar dessa mesmice. Vejam só. Outro dia Palmeiras e Fluminense estiveram frente a frente. Não que a partida que valia uma vaga na final da Copa do Brasil tenha sido de todo sem sal. Mas o que me encantou nela foi uma situação que se desenhou depois. 

Terminado o jogo o atacante Fred cruzou com a mãe do zagueiro palmeirense, Vitor Hugo, na zona mista da Arena do time alviverde. De primeira lhe pediu uma foto. Uma vez feito o retrato a senhora aproveitou para lhe dizer o que pensava. Disse ao astro do tricolor carioca que era sua fã mas que estava chateada com o que tinha acabado de ver. E o que tinha visto deve ter sido o que o filho dela definiu como um cara malandro, que chega forte e é meio maldoso. Mas por razões fáceis de adivinhar o zagueiro ao comentar o estilo do adversário não esqueceu de completar a declaração dizendo que se tratava de algo normal. 

Olha, já que anda difícil salvar o futebol em campo que seus protagonistas sejam capazes de, ao menos, interpretá-lo de modo mais nobre e profundo. Exemplos de que isso é possível existem, como fez no último final de semana Dátolo, do Atlético Mineiro. O argentino - que acabara de marcar o bonito gol da vitória do time mineiro - ao ouvir o pedido do repórter pra que falasse da partida não iniciou seu discurso falando do gol marcado e sim admitindo ter tomado a decisão errada em um outro lance em que o certo teria sido acionar um companheiro e não tentar finalizar como ele tinha feito. Nobre, ou não ? Querem mais?

Andamos às voltas com verdadeiras aberrações em matéria de arbitragem não é isso? É! Mas até hoje nenhum dos nossos árbitros foi capaz de falar de seus sentimentos como fez o homem que apitou a final da Copa Argentina. Depois de marcar um penalti em que o jogador tinha sido derrubado quase um metro antes da linha da grande área e de ter validado um gol em impedimento, Diego Ceballos, explicou o ocorrido dizendo que era um ser humano e que tinha se equivocado, nada mais. Em seguida completou a declaração com um tom confessional, disse que não estava conseguindo dormir, que tinha ficado mal e que estava consciente de que se tratava do maior erro dele em toda a carreira. Agora me digam, já viram algo nessa linha dito por um dos nossos? 

E pra que não me acusem de me pautar por exceções, digo-lhes que dias atrás ouvi Guardiola revelar que trazia consigo um sentimento de que os títulos que ele conquistou nos dois primeiros anos à frente do Bayern tinham o mérito do antecessor dele. Quer sinceridade maior que essa?  Pois são declarações desse tipo que me fazem crer que um pouco de verdade faria um bem danado ao nosso futebol.