quarta-feira, 1 de abril de 2026
Rádio Corisco - sobre Oscar Wilde
terça-feira, 26 de outubro de 2021
Ricardo Piglia - Trecho de "Os anos felizes" - Diários de Emílio Renzi
A vida não se divide em capítulos, disse Emilio Renzi ao barman do El Cervatillo naquela tarde, com os cotovelos apoiados no balcão, em pé diante do espelho e das garrafas de uísque, vodca e tequila que se alinhavam nas prateleiras do bar. Sempre me intrigou o modo irreal mas matemático em que ordenamos os dias, disse. O próprio calendário já é uma prisão insensata sobre a experiência porque impõe uma ordem cronológica a uma duração que flui sem critério algum.
O calendário aprisiona os dias, e é provável que essa mania classificatória tenha influenciado a moral dos homens, disse Renzi sorrindo para o barman. Falo por mim, disse, que escrevo um diário, e os diários só obedecem à progressão dos dias, meses e anos. Não há outra coisa que possa definir um diário, não é o material autobiográfico, não é a confissão íntima, nem sequer é o registro da vida de quem o escreve que o define; simplesmente, disse Renzi, é a ordenação do escrito pelos dias da semana e os meses do ano. Só isso, disse satisfeito.
Você pode escrever qualquer coisa, por exemplo, uma progressão matemática, uma lista da lavanderia ou o relato minucioso de uma conversa num bar com o uruguaio que atende o balcão ou, como no meu caso, uma mistura inesperada de detalhes ou encontros com amigos ou testemunhos de acontecimentos vividos, tudo isso pode ser escrito, mas será um diário apenas e exclusivamente se você anotar o dia, o mês, o ano, ou uma dessas três formas de nos orientarmos na corrente do tempo.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2021
Do craque Drummond
A bola é a mesma: forma sacra
para craques e pernas de pau.
Mesma a volúpia de chutarna delirante copa-mundo
ou no árido espaço do morro.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2021
Das memórias de uma trave de futebol em 1955
Hoje deu saudade do estilo do mestre Sérgio Sant'Anna. No conto abaixo ele narra um treino do Fluminense, em 1955, da perspectiva de uma velha e melancólica trave de gol do clube. Só ele mesmo. O conto foi publicado em abril do ano passado e republicado pela FOLHA pouco depois da morte do autor. E pode ser lido na íntegra no link abaixo.
"Para assistir a treinos só vêm mesmo os fanáticos, alguns sócios, a garotada matando aula, alguns desocupados daqui de Laranjeiras. Meu posto é privilegiado, não só pela posição que ocupo no gramado, como pelo fato de estar defendendo a baliza defendida pelo Castilho, o maior goleiro do Brasil. Isso nem se discute. Mas o Fluminense está tão bem de goleiros, que o titular e o reserva, Castilho e Veludo, foram convocados para a seleção na Copa de 54. Castilho treina entre os reservas, para ser mais exigido pelo ataque titular. Nada menos que Telê, Didi, Valdo, Átis e Escurinho. Mas Didi é meia armador e um exímio cobrador de faltas, que bate com sua famosa folha seca.
A folha seca é assim: a bola vem pelo alto, mas perto do gol, perto de mim, de repente perde a força e cai, tantas vezes na rede. Didi acaba de bater uma falta dessas, só que a bola bateu na trave, eu, bem no ângulo. Não sei se devo sentir orgulho ou decepção, acho que ambas as coisas. Pois a cobrança foi perfeita, uma obra-prima, que assisti do meu posto privilegiado, mas ao mesmo tempo me sinto defendendo o gol do Castilho, meu irmão quase, eu diria. Mas Didi sorriu para dentro, com seu jeito discreto, pois foi bonito e engraçado. Pode isso? Pode."




