quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

As traves


De todas as coisas que envolvem o futebol poucas invocam mais a nossa capacidade de improvisar do que a trave. Desde menino aprendemos a colocar lá, ao pé de uma linha de fundo muitas vezes invisível, dois pedaços de tijolos, dois chinelos, dois pequenos pedaços de pau, duas latas, duas pedras, seja o que for. E o resto fica por conta da imaginação. A partir daqueles dois pontos, dispostos a uma distância de alguns pés um do outro, tratamos de visualizar todo o resto. 

A linha reta das traves que vai desaguar no limite das forquilhas. O travessão. As três linhas que formam com o chão um retângulo que desperta infinitas possibilidades. E por mais que uma hora se descubra que as linhas imaginadas não estavam no mesmo lugar, já que um diz, convicto: foi gol! Enquanto o outro tão convicto quanto sentencia: foi por fora. Ainda assim, paira ali naquele ambiente uma suntuosa cumplicidade a respeito dessas linhas imaginárias. Linhas que só acabam  deslocadas por puro interesse. 

E como se sabe nessas traves improvisadas quando uma bola não se colocou por cima dela? Ora, não se sabe. O que se sabe, é que ao colocar ali, um tanto distantes, dois pedaços de tijolos, dois chinelos, dois pequenos pedaços de pau, duas pedras, duas latas, seja o que for, se provoca uma imaginação comum, capaz de apontar o quanto uma bola que se desprende do chão em sua trajetória está apta se ser declarada como provocadora de um gol. Ou eu era louco, ou era apenas um menino encantado com o jogo. Mas trago em mim a certeza de que como todos os outros ali sabia de cor  e com precisão pretensamente matemática cada uma daquelas medidas, cada uma daquelas linhas.

Trave mesmo, dessas com toda estatura e imponência das profissionais que decretam os limites de um gol sem deixar o mínimo espaço para a imaginação foi luxo que eu demorei a provar. Bem antes disso descobri uma com todos os ângulos e linhas à vista e ainda assim nascida do improviso. Fomos morar num prédio simples de três andares recém construído. Lá, entre o primeiro e o segundo blocos, perto do enorme quadro de luz, alguém deixou à mostra um encanamento que saia do chão e formava uma trave em miniatura. Linhas perfeitas a provocar nossa imaginação. 

Chumbada no chão, fixa, resistente, parecia um presente, que fez aquele pedaço de garagem diferente de todo o resto. Foi ali que descobri a emoção de fazer um gol com a bola batendo antes no travessão ou o delírio de marcar um gol mandando a bola no ângulo. Loucura! O futebol estava quase todo desvendado, quase. Até hoje não sei que função poderia ter aquele encanamento. Servir para prender bicicletas, talvez! O fato é que jamais encontrei uma atada ao lugar por um cadeado ou coisa que o valha. Aquele encanamento, desde sua descoberta esteve sempre a serviço da nossa imaginação, assim como os bancos da velha praça em frente ao colégio, cujas linhas víamos como traves perfeitas. 

E só não via quem não era menino ou quem não andava encantado pelo jogo de bola. Até hoje toda vez que passo por uma pelada dessas improvisadas e vejo os gols marcados assim, com dois chinelos, duas pedras, duas latas, dois tijolos, duas pedras, seja como for, algo em mim se renova. O futebol em mim se renova.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Fred está no céu?



Seo Zé, estimado. Estava há tempos pra te escrever. Sentimento que arrefeceu um tanto quando dias atrás te encontrei varrendo a calçada já sem muito sinal daquele abatimento que te tirou o brilho dos olhos. E demorei também porque está longe de ser tarefa fácil escrever sobre perdas. Mas o detalhe crucial que me fez tomar vergonha na cara e pegar na pena pra valer foi ter dado de cara com uma foto aqui num dos meus jornais velhos. Uma foto do Papa Francisco todo sorridente segurando na mão um bem tratado papagaio. Aí a lembrança do nosso velho Fred foi imediata, inevitável. Será que o Vaticano tem licença pra ter papagaio? Nada contra Vossa santidade, que acho até simpática e além de seu tempo, o que é muito bom. Imagina o stress do bicho, ter de participar de uma cerimonia desse quilate, suportar o frenesi dos fiéis e dos fotógrafos.

Tenho visto que no melhor estilo argentino o Sumo Pontífice não tem fugido de  nenhuma dividida. E nesse pique outro dia teria insinuado que os animais têm alma. Tema cabeludo pros católicos que ao longo da história têm visto posições tão contraditórias a respeito desse assunto, fazendo até com que o embate em torno dele deixe transparecer um certo clima de FlaFlu. Mas segundo entendidos ao dizer que "o paraiso está aberto a todas as criaturas de Deus", o Papa não teria feito o que chamam de uma afirmação doutrinária. Desconfiado que sou, tendo em vista a quantidade de gente passeando com seus cães que tenho visto por aí , a proliferação das Pet Shops e esse sem fim de dejetos e saquinhos de plástico porcamente espalhados pelo caminho, sou levado a crer que pode ter se tratado de tema estudado, de viés populista. Seja como for, esse Francisco tem sido um sujeito tão pra frente que se um dia pisasse no Bar do Zé Ladrão, creio, ele o daria a absolvição. Ainda que não fosse por falta de pecados.

Com uma visita ilustre dessas quem sabe nós, os saudosos, pudéssemos lhe contar da dor que ficou depois que Fred, nosso velho papagaio se foi. Falar-lhe da tristeza das crianças. Do enredo que o tirou de nós, tão próprio dos homens. Onde já se viu? Tirar um bicho de onde ele viveu seus últimos vinte e tantos anos, usando como argumento a possibilidade de salvá-lo de maus tratos. Como se fosse fácil sobreviver a mais de duas décadas de sofrimento. Tenho certeza que Vossa Santidade partilharia do nosso desgosto ao saber que depois de todos os trâmites, de todas as liminares que o trouxeram de volta, todos ficaram bem, menos o pobre do Fred, que voltou acabrunhado, doente, necessitando de cuidados. E que sua morte foi justificada como resultado de uma intoxicação.  E não sei se delirei mas tenho a impressão de ter lido por aí que uma autoridade no assunto teria dito que o Fred nesse vai e vem teria conhecido uma papagaia lá nos domínios do Parque do Tietê pra onde foi levado e que dava claros sinais de que precisava reproduzir. Amar, talvez. Afinal, se aos bichos foi dado o céu, por que não a possibilidade de amar ?

 Zé, a história do Fred teve tudo do surrealismo que a gente vive. Desse cotidiano repleto de histórias bizarras. Mas a gente resiste. Prova disso foi dar de cara contigo naquela manhã e perceber teu ar renovado de quem usou a sabedoria que costuma se esconder nos cabelos brancos pra
tratar dessa dor. E vai que esse mundo maluco não faz o Papa pisar mesmo os velhos ladrilhos vermelhos do teu bar um dia. Aí você aproveita e se confessa. Será que o coração do Papa aguentaria? E usa essa deixa pra dizer pra ele também dessa injustiça de uns outros por aí andarem te acusando de comprometer a tranquilidade da zona oeste paulistana. Logo você que conseguiu o quase milagre de erguer um boteco de ambiente familiar. E, ó, se por acaso ele perguntar por mim, diz a verdade. Diz que faz tempo que não apareço. Que tenho dado o ar da graça apenas em esparsas manhãs  a caminho da feira. Diz que pelo menos por aí não tenho bebido nada. Ah! E não esquece de perguntar por onde andará nosso velho Fred agora. Estaria mesmo no céu? Se estiver, terá sido merecido.




* Para mais detalhes da história de Fred, ler o post "Luto no Bar do Zé Ladrão" 03/09/2014  

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O triunfo do surfe


Do mesmo jeito que lembro com carinho das peladas da minha infância lembro do que fazíamos depois de ter descoberto o prazer de surfar. As primeiras pranchas eram de isopor. E as chamadas Rio-Santos as mais desejadas. Um clássico. Mas não bastava ter uma. Era preciso turbiná-la. A primeira medida, então, era serrar uma espécie de leme que elas tinham e que ia de cima a baixo. Feito isso passávamos a ter um bloco perfeito. Depois íamos pra feira atrás de madeira. A preferida vinha das caixas de uvas. Nela desenhávamos as quilhas. Duas. Ninguém ainda tinha ouvido falar em triquilhas. 

Serrávamos, passávamos verniz para que não encharcassem em contato com a água. E para fixá-las usávamos cola Araldite, o que exigia misturar dois componentes. A resina e o endurecedor. Pra finalizar usávamos um pedaço de cano rígido que atravessávamos próximo a rabeta. Por ele passava aquele que faria o papel da cordinha. Em geral, um pedaço de varal. Como amarrar isso direto na canela significaria arruiná-la, pegávamos uma meia velha, macia, e deixávamos que ela fizesse o papel do velcro. Pronto! Era um equipamento jurássico. Mas guardo bem na memória imagens de amigos surfando ondas incríveis com elas. O rei das Rio-Santos pra mim e pro meu irmão era um garoto apelidado de Pinga. Nessa situação não havia propriamente manobras e sim um exercício de habilidade para driblar a ausência total de tecnologia. 

Nos últimos dias cultivei junto com a torcida por Gabriel Medina a esperança de poder colocar essas memórias aqui. Sabia que nosso primeiro título mundial, além de tudo, abriria essa possibilidade. E acho que daqui pra frente serão muitas as oportunidades para falar sobre esse esporte tão bonito, tão fascinante. Nasci em São Paulo, mas minha família mudou pra beira-mar quando eu tinha pouco menos de dois anos. Considero desde sempre essa chance de ter descoberto o mar e seus ensinamentos  um dos maiores presentes que recebi na vida. 

Pra mim essa conquista do jovem Gabriel Medina dá sentido à muita coisa. Ao orgulho que sinto da história que Santos tem com o surfe. Ao fato de ter saído do litoral norte paulista - tão emblemático para os amantes desse esporte - nosso primeiro campeão mundial. E, ainda por cima, de Maresias! Mas não consigo ser de outro jeito. Trato o surfe como trato o futebol, com certo romantismo. Não é fácil fugir do próprio estilo. O surfe definitivamente está na  moda. Invadiu a grande mídia. Está decretado, desde agora, um antes e um depois de Medina. Ele tem tamanho, estilo e juventude pra isso. Mas espero que aqueles que cuidam do surfe jamais esqueçam o que o surfe foi, o que o surfe é. Pra que ele jamais faça o papel que o futebol brasileiro anda fazendo. Pra que jamais digam um dia que o surfe perdeu a alma. 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Notícias do circo

 
O fato que mais me chama a atenção neste primeiro momento pós encerramento da temporada é a importância que tem sido dada aos chamados diretores de futebol. Do jeito que o barco anda esses executivos tem tudo para, num espaço muito breve de tempo, desfrutar da mesma pompa que transformou os treinadores em verdadeiras estrelas. Não duvido da capacidade deles e tampouco desprezo a contribuição que possam dar. Mas, como é difícil acreditar que de uma hora pra outra os clubes passaram a perceber a importância de apostar em profissionais com determinada formação, essa rápida veneração me intriga. E me faz pensar se foram os cartolas que despertaram para algum detalhe ou se foi a mídia que, uma vez tendo aumentado a exposição dos tais profissionais, acabou por desencadear esse processo. Num primeiro momento o fato de os clubes se preocuparem em ter em seus quadros alguém reconhecidamente capacitado para negociar e montar elencos sugere avanço. Só o tempo dirá com mais exatidão do que se trata.

Outra questão que queria colocar nesse balaio aqui diz respeito à situação financeira caótica dos clubes brasileiros. Que a situação é essa todo mundo sabe. Mas nada me tira da cabeça que desde que o tal projeto de refinanciamento das dívidas dos clubes - a chamada Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte - passou a fazer parte do jogo a coisa mudou muito. Ninguém mais faz questão de esconder seus números. Algum tempo atrás descobrir o quanto um time devia de verdade exigia uma boa apuração, convencer um cartola a falar abertamente sobre o assunto, então, nem se fala. De repente, tudo passou a ser dito às claras. Teve até presidente de clube confessando que tinha deixado de pagar tributos por acreditar cegamente que o governo não tardaria a lhe mandar a tábua de salvação. 

Nunca foi tão corriqueiro falar em atraso de salários como nessa temporada. A questão é que com todo o movimento sendo feito em Brasília para que o projeto seja aprovado nada me tira da cabeça que, a partir daí, os clubes fizeram questão de caprichar na dramaticidade. Aos que duvidarem os cartolas farão questão de mostrar seus balanços, que nada mais fazem do que provar a  incompetência administrativa que há tempos impera. E vejam! De uns tempos pra cá, o valor dos direitos de transmissão aumentou espantosamente, o número de sócios torcedores também e o preço dos ingressos idem. Ainda assim o buraco é cada vez maior. É por essas e muitas outras que, diante de tudo que anda acontecendo com o nosso esporte  - e com o nosso país - aquele velho nariz de palhaço usado dias trás pelos jogadores de vôlei para protestar contra as denúncias de irregularidades envolvendo a Confederação da modalidade fariam muito sentido se estivessem na ponta do nosso nariz também.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Brasileirão. Brasileiro?


Reconheço o Campeonato Brasileiro como a grande vedete do nosso futebol. A taça do Brasileirão é de longe a mais cobiçada. O Brasileirão é o que traz status, o que mais dá ao torcedor a possibilidade de tirar uma onda com os adversários, detalhe que talvez bastasse para que os apaixonados pelo jogo o tivessem em alta conta. Mas sou capaz de afirmar ainda que ele é mais do que isso. O Brasileirão tem um quê de play-list, aquela relação de músicas que as rádios tocam desde sempre por motivos outros e que entram na nossa cabeça mesmo que a gente não queira. É só notar .

Até quem não acompanha futebol acaba por saber o que se passa com ele. Mas há uma qualidade que o Brasileirão não tem, e em breve terá ainda menos: representatividade. Definidas as vagas do ano que vem o considerado principal campeonato do país terá apenas dois times de fora do eixo Sul-Sudeste. Serão eles o Goiás e o Sport. E é na falta desse encanto da pluralidade que a Copa do Brasil ganha cada vez mais a minha simpatia. Há uma atitude que os times pequenos emprestam a ela que faz muita falta ao Brasileirão. Além dessa atitude,  considero muito salutar o fato da Copa do Brasil nos fazer dar de cara com escretes de outros cantos, muitas vezes desconhecidos. 

E se levarmos em conta quantos desses times do tal eixo Sul/Sudeste se encontram nas mesmas cidades, ou próximos a elas, ficamos cara a cara com um universo ainda menos expressivo. Do jeito que o negócio anda enquanto a população dessas grandes cidades pra lá de robustas derem conta de manter o faturamento subindo ninguém se importará de deixar algumas dezenas de milhões de torcedores fora da grande festa do futebol. Mesmo que a história mostre - pra quem estiver disposto a ver - que o futebol nunca teve tanta força quanto no tempo em que o universo de envolvidos com ele era infinitamente maior. 

E é interessante notar também como mesmo diante desse desequilíbrio o futebol do nordeste, e algumas vezes o do norte, ainda conseguem médias de público que deixam alguns chamados grandes daqui no chinelo. O futebol moderno, do ponto de vista mercadológico, tem se transformado numa imensa peneira, que vai excluindo da roda os menos afortunados do ponto de vista econômico. Em outras palavras, acho que muito tem sido feito em nome do futebol e pouco para que ele volte a ter a força que já teve um dia. Mas, é só uma reflexão. 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O futebol é justo ?


Com quem afinal o futebol é justo? Fiquei pensando nisso desde que ouvi o técnico do Atlético Mineiro dizer que o título da Copa do Brasil conquistado pelo Galo tinha sido o triunfo mais justo que ele tinha visto em toda a vida. Dito pelo treinador do time em questão poderia ter soado oportunista. Mas o fato é que considerei a declaração muito acertada pois já tinha essa mesma sensação comigo. 

Não demorou e vi o  Muricy resumir a eliminação do São Paulo da Copa Sulamericana pelo Atlético Nacional, da Colômbia, como a maior injustiça já vista por ele. A julgar, então, pelo que anda sendo dito depois de cada rodada o futebol deve ser mesmo o mais injusto dos esportes. E isso faria do acontecido com o Galo algo singular e, por tabela, digno de registro. Notem só o que disseram alguns dos personagens do futebol na penúltima rodada do Brasileirão. 

Mano Menezes, técnico corintiano, que amargou um cinco a dois do Flu, não segurou a onda. Acabou expulso. E mais tarde sugeriu aos jornalistas que decisivo mesmo no jogo tinha sido a vontade do juiz, que estava "louco pra marcar". O mais filosófico dos leitores pode me dizer que o juiz não é, propriamente, o futebol. Realmente não é. Mas tomo a liberdade de incluí-lo no contexto, afinal, o futebol está sujeito à vontade dos homens. 

Fred, o artilheiro, também colocou a boca no trombone. Terminada a peleja no Maraca fez um breve resumo do que o futebol lhe reservou nos últimos tempos. Um atraso monumental nos pagamentos, uma pequena parcela da torcida o colocando contra a parede. Outro que jura de pé junto que o futebol não tem lhe tratado com justiça é Leandro Damião. O atacante santista depois de ter marcado os dois gols da vitória santista sobre o Botafogo disse com todas as letras que foi colocado de lado a certa altura. E que tinha vindo pro Santos pra ser titular. Promessa que se tivesse sido cumprida poderia ter feito o futebol ser injusto com os companheiros dele. É ou não é?

E mais, já abraçamos o sistema de pontos corridos, dizendo, entre outras coisas, que com ele evitaríamos a suposta injustiça de ver um oitavo colocado na fase de classificação tirar o título de quem tinha terminado a mesma fase como líder. O futebol imita a vida, não é o que dizem? Pois, então, ela também não prima pela justiça. 
 

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Dá pra acreditar ?


Quem acredita cegamente na lisura do futebol? Quem colocaria a mão no fogo por ele? É certo que quando se trata do esporte bretão a gente confia desconfiando. E nem poderia ser diferente depois de tudo que já vimos e ouvimos por aí. Da velha máfia da loteria, passando pelas das apostas e a do apito. E isso sem falar nas artimanhas, nos pequenos casos que não chegam a despertar o apetite da grande mídia mas provocam lá seus prejuízos. Mas a novidade não essa, a novidade é outra. E quem diria, hein? Luiz Felipe Scolari, o mais familiar entre os campeões do mundo, também faz parte do time dos desconfiados. Pois isso é o mínimo que se pode deduzir do que disse o treinador depois de ver o time dele, o Grêmio, ser derrotado pelo Corinthians no último domingo.
 
O atual técnico gremista afirmou a certa altura da entrevista coletiva que concedeu que não seria interessante pra quem cuida do futebol, como empresa, ter no próximo torneio continental dois times do sul do país. Dando a entender que esse modo de encarar as coisas estaria prejudicando a equipe que ele dirige. Os jornais logo se apressaram em dizer que um dos principais treinadores do país teria sugerido que tudo teria sido decidido muito antes que o campeonato acabasse, muito antes que os jogos fossem todos jogados. As manchetes que brotaram das palavras ditas por Felipão ainda que possam ter trazido consigo um ar mais explosivo do que aquilo que foi dito, não deixaram de retratar o mais gritante, uma certa descrença do treinador com relação ao que se desenha em campo.
 
Que a natureza da arbitragem é política não há dúvida. Como não deve haver dúvida, inclusive, que a partir daí muito pode acontecer. Tanto é que o delegado da partida não fez questão de que constasse na súmula o que ouviu do treinador. Seria mesmo algo sem importância? Bom, mas o que fica sugerido por Luiz Felipe é algo muito mais articulado do que um simples " o juiz estava vendido", como a gente costuma ouvir por aí, aos quatro cantos, dito de maneira inocente e leviana. Vindo de alguém que por tanto conhecer o futebol poderia lhe descrever ao avesso a declaração merecia mesmo ser explicada com maior riqueza de detalhes. E se uma futura explicação em nada mudar o rumo das coisas, ao menos teria menor probabilidade de virar munição na boca de quem não perde uma chance de questionar a honestidade dessa suprema entidade chamada futebol.
 
E que Felipão não venha nos dizer que tudo foi dito no calor da hora. Sabe como é!? Explicação que, por sua vez, faria a declaração soar irresponsável. Será que foi no calor da hora também que sugeriu discretamente aos jornalistas que eles tinham caído numa armadilha ao acreditarem no que tinha se passado com o goleiro Aranha na Arena gremista? Felipão faz tempo parece sem paciência pro futebol. Pros jornalistas, então, quase nunca teve. Talvez, pros amigos jornalistas, como deixou bem claro durante a Copa. E se, por acaso, der de cara com esta crítica e a considerar infundada sugiro que se dê ao trabalho de assistir a um VT qualquer dos jogos que nossa seleção fez no último mundial. Assim, dando de cara consigo mesmo ali na área técnica, com um pouco de boa vontade, poderá perceber como na maior parte das vezes foram destemperadas suas reações à beira do campo.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

As entrevistas


Não é só o jogo, as entrevistas de futebol também dão o que falar. Os repórteres que as alimentam são acusados - como é do conhecimento de todos - de sempre perguntarem as mesmas coisas. E o efeito colateral dessa falta de riqueza interrogatória seria provocar as respostas de sempre também. Verdade e mentira. Se o país desse às entrevistas sobre política ou economia a atenção que dá as que são feitas tentando elucidar algo sobre o tal jogo de bola a conclusão não seria muito diferente. E não custa lembrar que cada assunto tem lá seus horizontes. 

Levir Culpi e Marcelo Oliveira, comandantes dos times mineiros que farão a grande final da Copa do Brasil, têm mais em comum do que, simplesmente, uma visão sobre o futebol. Os dois têm um discurso rico sobre ele. De Levir foram várias as passagens interessantes que puderam ser ouvidas na coletiva dada por ele depois do jogo de ida da decisão. Destaco aqui a comparação feita entre os jogadores Luan e Jesus Dátolo. Disse o treinador atleticano que os dois aparentemente não têm nada a ver, têm estaturas diferentes, jeitos diferentes, mas que carregam um espírito muito parecido, se entregam ao jogo de forma parecida e que essa simbiose muito tem dado ao Galo. Parece raso mas, feita do jeito que foi, é de uma profundidade incomum nesse cotidiano dos clubes. 

Minha avó paterna costumava dizer que a fala deveria ser dada aos homens em metros, o que os obrigaria a pensar mais antes de usá-la. Mas sabe como é. Falar é fácil, na teoria. E não quero aqui cair naquela conversa de que nas entrevistas de futebol muitos tentam assassinar a nossa língua. Ignoram a conjugação dos verbos, os plurais e por aí vai. Pra mim, mais interessante é capacidade que elas revelam de criar provas contundentes de que é possível ser muito claro sem ser exatamente preciso. 

E, pensando nisso, foi justamente nas falas do pós jogo entre Atlético e Cruzeiro que ouvi, uma vez mais, alguém sacar um "nonde" e encaixá-lo no papo. Isso mesmo. Não sei se já notaram. O "nonde" tem sido muito colocado em jogo nesse campo para substituir algo como o "em que" ou um modesto " no qual". Não entendeu? Eu explico.  Por exemplo, o boleiro é convidado a discursar sobre a partida que acabou. Depois de dizer que seu  time fez um bom jogo manda um "nonde". Algo do tipo " fizemos um bom jogo 'nonde' o time conseguiu se impor...". Prestem atenção, não vai demorar muito e vocês irão dar de cara com um nonde por aí. E o mais interessante, ele fará todo o sentido, que soará correto não digo. Mas acho mesmo interessante notar essa capacidade que a comunicação nos dá de nos fazermos claros, ainda que imprecisos.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

A lojinha dos caras


Sabem, sou cismado com teorias que faz tempo tentam nos vender como salvação. Não suporto, por exemplo, ouvir alguém justificar privatizações dizendo que não há saída. Se o serviço ficar na mão do governo estará fadado a ser ineficiente. Nossa realidade é essa, não discuto. Mas quero crer que um dia  seremos capazes. Um dia teremos  noção melhor daquilo que devemos entregar a terceiros. Se não é viável um Estado que cuide de tudo, também não dá pra sair por aí abrindo mão das coisas em nome do aclamado Estado mínimo. Mas não estou querendo cavar um lugar entre os articulistas de política ou economia, nada disso. 

É que questões parecidas me assombram quando penso na nossa seleção, que neste momento segue reunida depois de ter goleado o selecionado turco em Istambul. Digam se é muito delírio pensar que se um time representa um país deveria ser gerido por ele. É delírio? Mas a lógica do mundo é outra.. e as seleções uma espécie de paraíso fiscal dos cartolas. 

A partir daí o que se dá é óbvio. Os interesses do time passam  a não ser os nossos. Eles vendem os jogos da seleção pra um xeque cheio de dinheiro, que por sua vez cria o Brazil Global Tour e leva nosso time pra bem longe da gente. Ou seja, essa paixão de muitos nada mais é do que a lojinha dos caras. E, ao contrário do que costumamos ouvir por aí, os donos dela não são exatamente uns ignorantes. Podem não ser modernos, mas  não dormem no ponto. E o que me faz acreditar nisso são algumas atitudes tomadas por eles nos últimos tempos. Vejamos. 

Os clubes querem receber quando seus atletas estiverem na seleção. Eles resistem. Resistem, mas molham a mão dos atletas que lá estão com bônus que são acertados a cada jogo. E enquanto os clubes se veem ameaçados por não honrarem o pagamento dos direitos de transmissão a CBF prefere não correr risco e divide com os jogadores cinco por cento do que recebe por isso. Melhor se cercar de garantias. E não deve ser por outro motivo que agora vieram com essa história de dar aos presidentes das federações estaduais, leia-se seu colégio eleitoral, um salário de quinze mil reais. 

Os donos da lojinha estão carecas de saber que seja qual for a área de atuação aliados descontentes são um perigo. Que o diga a presidente Dilma. No mais, seguimos sonhando com um futebol que já não temos, Mas eles... eles  estão preocupados mesmo é em fazer a lojinha faturar alto

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

É proibido proibir


Vou fazer de conta que não estou nem aí pro apelo chic do confronto entre Real Madrid e Barcelona. Também darei um jeito de resistir à tentação de comentar o ocorrido com o time do Palmeiras diante do Cruzeiro e do Corinthians. Raro caso em que a conclusão dos castigos faz crer na evolução de um time. Isso pra versar sobre um detalhe preocupante que o cotidiano tem me revelado, um certo conservadorismo que pode ser sentido no ar. Me falaram até em gente pedindo a volta da ditadura. E mais não quis saber porque nisso não quero crer. 

Aí me vem a cúpula da seleção brasileira com essa história de cartilha. Nada de bonés, brincos e chinelos quando o escrete estiver reunido. Nada de celulares, Ipads, laptops e outras parafernálias eletrônicas. E fica por ela estipulado também o traje social na hora de se apresentar à seleção e que na hora da refeição todos devem permanecer juntos até que o último termine, com o detalhe de que o capitão será o primeiro a deixar a mesa. 

Declarações como a de que isso é para organizar " uma grande empresa como a CBF " soam prepotentes. Sim, prepotentes, pois em que grande empresa se permitiria tamanha falta de sintonia entre os que comandam? Dunga diz que "não é uma cartilha...que não proíbe nada", só faz sugestões.  O coordenador, Gilmar Rinaldi, diz que a cartilha vazou. Ora, tem ou não tem cartilha? 

O mais assustador, no entanto, é ouvir Dunga dizer que o torcedor brasileiro queria isso. E Gilmar completar dizendo que tal atitude atende a um clamor que ouviam quando estavam do outro lado. Tudo tão esdrúxulo como voltar a levar a seleção para treinar na Escola de Educação Física do Exército, no bairro da Urca, como fez seu Marín. 

Os jogadores e toda a sua modernidade me espantam, como me espanta a alienação sugerida por aqueles fones de ouvido que deixam o sujeito com cara de quem não está nem aí pro mundo. Mas não quero por isso que a história ande pra trás. De alguma forma seremos sempre um tanto ultrapassados em alguma coisa e isso não deve nos levar a questionar liberdades. 

A sensação que fica pra mim é a de que Dunga e Gilmar Rinaldi, do alto dos seus meros cinquenta e poucos anos jamais entenderam - e jamais serão capazes de entender - uma canção como a que Caetano Veloso cantou nos idos de 1968. Falo da lendária "É proibido proibir". Se eles estivessem na platéia naquela dia teriam vaiado e atirado objetos, como fizeram muitos dos que estavam por lá. E a resposta dada por Caetano aos descontentes naquele dia parece perfeita para os que comandam hoje nossa seleção. A saber: " Vocês não estão entendendo nada, nada, absolutamente nada... Vocês estão por fora".

terça-feira, 28 de outubro de 2014

No Cartão Verde de Hoje, Raul Plassmann !


TV Cultura / 22 horas / ao vivo. Participe !


´´

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Tá aí o convite!


Noite pra dividir com amigos.
Apareça!

23/10
Livraria da Vila
Rua Fradique Coutinho, 915
São Paulo -SP
19 horas

25/10
Realejo Livros
Santos - SP
18h30




" Escrever é um ócio assaz ocupado"
(Goethe)




quinta-feira, 9 de outubro de 2014

O fiado, o empresário e o futebol


Se hoje em dia dizemos que o futebol não é mais aquele tenha certeza de que é também porque as cifras que o envolvem há tempos engordaram demais. Nessa vida se faz cada coisa por dinheiro! Foi-se o tempo em que o talento por si só era capaz de dar ao seu dono um lugar no time. Quase ninguém fala - mas todo mundo sabe - que hoje em dia sem uma graninha aqui ou ali escalar as montanhas que separam os mortais de um time profissional é praticamente impossível. 

Nesse mercado afortunado paga-se demais, inclusive, por gênios potenciais que nem sempre se revelam. E muitos dos elegidos por sinal são mais respeitados pelas cifras que movimentam do que pelo futebol que apresentam. E foi justamente em nome da fortuna que o futebol se fez permeável, escancarando as portas pra quem tinha "algum" pra colocar no jogo. Nasciam assim os tais parceiros, os tais investidores, nomes tão comuns a quem convive com o dito futebol moderno. 

A FIFA sabe muito bem disso e decidiu decretar que empresários não poderão mais ter participação nos jogadores. A ideia, ainda que ela não admita, é ter mais controle sobre o seu negócio. Certamente não fechará as portas aos multibilionários que nos últimos tempos gastaram parte de seu zilhões apostando no segmento. Além do mais, quem tem cacife  não ficará mais pobre se precisar nos próximos anos montar ou comprar um time. Por trás dessa reorganização certamente está ainda uma preocupação monumental, a de não saber até quando suportarão não pagar devidamente aos clubes por seu jogadores. O que dão hoje a eles são migalhas. 

A queda de braço entre os manda-chuvas do futebol mundial tá rolando e a escolha do Qatar como sede da Copa de 2022, com seu verão incandescente, só acelerou o desconforto entre as partes. Por aqui o São Paulo já move uma ação na justiça pedindo para ser ressarcido pela cessão de seus jogadores à seleção. E a conta, que já andava na casa de uma dezena de milhões de reais aumentará, já que Kaká e Souza a essa hora lá estão, se preparando para enfrentar a Argentina, na China. 
Detalhes que mostram bem como tudo foi levado até hoje. E é por isso que em matéria de administração do futebol nacional eu sou mais os donos de botecos que nunca deixaram de pregar na parede, bem à vista de todos, a velha placa avisando que ali " Fiado, só amanhã". 

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Luto no Bar do Zé Ladrão


Não gosto de drama. Muito menos de usar truques pra segurar o leitor. Por isso vou logo avisando que ninguém morreu. Mas tem sido como se tivesse. A essa altura você pode estar pensando num sem de figuras que frequentam o pedaço. Alfredinho Juventino, o Tio e por aí vai. Acalmem-se, estão todos salvos, com o humor intacto, não se preocupem. Mas preparem-se que o fato é triste. 

Na manhã da última segunda-feira, pouco depois que o Seo Zé levantou a velha porta de ferro dando por inaugurado mais um dia de labuta, pintou polícia na área. Não a polícia que você está pensando. Pintou por lá a Florestal pra dar uma enquadrada no português. Logo no Português que todo mundo sabe cuida da pitangueira que fica em frente ao bar como quem cuida de uma criança. Bom, depois de um rebuliço danado não teve jeito e os homens foram embora levando uma figura lendária, o grande símbolo do lugar, Fred, o velho e genioso papagaio. 

Não houve argumento capaz de salvar o Zé dessa forçada e trágica separação. Os homens da lei não quiseram saber se era verdade, ou não, que a união já beirava os vinte e poucos anos. Difícil foi dar a notícia para o papagaio, não o bicho, o boa praça, figura das mais queridas da casa e o único, além do Zé, a quem o bicho dava certa confiança. Papagaio, o homem,  pegava Fred quando quisesse. E o bicho - era fácil notar - se derretia. Bacana de ver. Era impossível não ficar até com certa inveja dessa intimidade. Mas a todos os outros qualquer tentativa de intimidade acabava mesmo em bicadas, que inevitavelmente colocavam os mais atirados em seu devido lugar. 

Fred era também o elo de ligação com as crianças que, ainda sem idade pra entender tudo o que se passa num boteco, iam até lá pra ver o bicho. E com alguma sorte ganhavam do dono do bar um pedaço de fruta pra dar pra ele. Os mais impiedosos dizem ter certeza de que foi obra de algum eco-chato ou de alguém " que vai votar na Marina". Sabe como é... na dor falamos coisas terríveis.  Nunca suportei ver um bicho preso. Mas me acostumei com a presença de Fred. Achava incrível acompanhar os seus passeios de cabeça para baixo pelo vitrô de ferro acima da porta, sempre com a intenção de acompanhar mais de perto quem tinha pedido alguns amendoins pra acompanhar a birita. Seu olhar pidão sempre lhe garantia algum agrado. Esperto esse Fred. 

Acredito que se ele pudesse falar mesmo, falar tudo, teria dito aos meganhas pra não lhe encher o saco. A minha tristeza é não ter a certeza de que o velho Fred, a essa altura da vida, consiga ser feliz longe dali. Mas é possível. Fico aqui pensando: será que papagaios se dão com maritacas? Que bom seria, o bairro anda cheio delas. Vou perguntar pra um amigo biólogo se é possível. Se for, vou torcer pra um dia desses quando o Zé menos esperar, ao abrir o Bar, dar de cara com o Fred pousado num galho da pitangueira. Um tanto mudado, de penas mais longas, asas recuperadas. E é bom que se diga que cortar as asas dos outros é coisa que não se deve fazer com ninguém. Mas imaginem só que loucura! De repente, o Zé Ladrão e o Fred cara a cara de novo. O Zé com os olhos cheios de água e o Fred, falando baixinho pra ninguém ouvir:

_ Zé, não chora. Me deram a liberdade, mas meu lugar é aqui.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Sem bola de cristal


Se tem uma coisa que essa fase do Cruzeiro me faz ver é o destempero de certos comentários. Destempero que deixa transparecer, na minha opinião, uma falta de respeito com o que o futebol tem de melhor, sua imprevisibilidade. Toda vez que ouço alguém dizer que a taça de campeão brasileiro já pode ser entregue ao time mineiro a sensação que me vem não é a de ter ouvido uma análise precisa, mas algo meio oportunista. Mas o que se há de fazer? Há tempos o universo da bola ilude certos senhores insinuando que o céu será daqueles que jamais deixam de ter uma opinião contundente.. E assim, cheios de medo de serem apontados como um tipo de gente que não sai de cima do muro vão, um a um, se atirando de lá de cima, fazendo cair por terra o bom senso. 

E não me venham com essas estatísticas que mesmo indo ao subterrâneo do jogo nada mais fazem do que transformá-lo em algo raso. Tô cansado de saber que foram raras as vezes em que o campeão do primeiro turno não ficou com o título. Tudo bem. Mas ver o Cruzeiro em campo diz muito mais do que qualquer número. Apenas acho que os que se dão a esse ofício não deveriam esquecer que não há diferença entre dar uma canelada  ou chutar pra longe a possibilidade de tudo mudar, ainda que inesperadamente. Gostaria de saber quantos seriam capazes de admitir mais adiante, se vier a ser o caso, que entregaram a taça a quem não deviam, que o fizeram antes do tempo. As mesmas bolas que se chocaram contra a trave na última tarde de domingo e que foram definitivas para que o líder incontestável saísse de campo derrotado por seu maior rival continuarão lá. O improvável não é impossível. 

Não estou aqui pregando que se feche os olhos para o que temos visto, um time infinitamente superior aos outros, e que façamos dessa imprevisibilidade do futebol um cânone. Mas que tenhamos a humildade de aceitar que pouco podemos diante da riqueza de possibilidades ofertada pelo futebol. E que mesmo achando que tá tudo resolvido se lembrem dessa ínfima chance, até porque soará cuidadoso com o jogo. E, vejam,  não é só a condição do líder que brinca neste momento com nossas certezas. Eu, até a tarde do último domingo, acreditava que o descenso não vitimaria o Palmeiras, apesar de toda a fragilidade. Mais aí ví o que se deu nos noventa minutos em que o time dirigido por Dorival Júnior esteve diante do Goiás e perdi um pouco a crença. O futebol tem o poder  de oferecer e implodir defeitos e virtudes com a rapidez de um raio. Nunca esqueço disso. 

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Como se dizia antigamente: FALÔ E DISSE !



Foto: Buda Mendes / Getty imagens

Se der, anote!


Li que o novo técnico do Santos tem um bloquinho de anotações. Sou adepto dos bloquinhos também, faz tempo. E, na linha do treinador santista, estou longe de fazer deles um talismã. Bússola, certamente. Mais do que me orientar o caderninho de anotações serve pra registrar detalhes e temas que certamente o frenesi cotidiano trituraria ou apagaria da minha memória. Quer ver? 

Acabo de abri-lo. Voltei umas quatro ou cinco páginas e dei de cara com o seguinte: " Dupla britânica que investigava situação dos trabalhadores no Catar desaparece". Lembro de ter feito a anotação porque dias antes tinha lido que a Copa do Mundo que será sediada naquele país já era um desastre. Mil e duzentos trabalhadores envolvidos na construção dos estádios e em obras de infra estrutura tinham morrido. A maioria imigrantes do Nepal e da Índia. Nos últimos dias, vejo aqui, gravei nessas páginas, em tom de lembrete, que o San Lorenzo, da Argentina, dará ao seu novo estádio o nome do Papa Francisco. Agora me pergunto: E aí? 

E assim vai. A reação  espantada do genioso técnico José Mourinho ao início arrebatador do brasileiro Diego Costa, que somou sete gols nas quatro primeiras rodadas do campeonato inglês. Algo nunca visto. A frase feita do treinador do Real Madrid, Carlo Ancelotti: " O futebol é esporte de homens não de senhoritas". Não diga! As anotações sobre o futebol daqui nada têm de muito novo. As ameaças da torcida ao time do Internacional. As pichações na Vila Belmiro. Frases e detalhes do deselegante embate entre o atual e o ex-presidente do São Paulo, bem agora que o time parece ter encontrado uma boa maneira de se apresentar. Os relógios de sessenta mil reais cada que a CBF gentilmente andou distribuindo por aí. Temas que nem por isso acabariam neste espaço. Descansam lá como quem aponta uma direção, e só. 

Ao técnico santista que se, por acaso, der de cara com estas linhas gostaria de dizer que longe de mim um dia chamá-lo de "Enderson do bloquinho", coisa com a qual se mostrou preocupado. Entendo perfeitamente a necessidade desse recurso, sei que a idade realmente não ajuda. Mas, ainda que soe como intromissão, queria sugerir uma pequena anotação. Coisa pouca. Algo do tipo: "pensar  um jeito de colocar o Gabriel no time/ trabalhar a molecada". Isso por mais que o jogo de hoje à noite contra o Grêmio, na Arena do time gaúcho, soe ao treinador e ao Santos como  um capricho do destino, um desafio pra gente grande.  

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Os diferentes



Não faz muito tempo estávamos envoltos na polêmica sobre a ida de Neymar para o exterior. Milhares de observações foram feitas a respeito do tema, mas lembro muito bem que na época se falou muito sobre o que o jovem astro do time santista teria a ganhar se deixando levar pela sedução dos europeus. Um dos argumentos mais defendidos pelos que eram a favor da transferência é que no velho mundo o jovem talento brasileiro iria aprimorar sua noção tática. Diziam, inclusive, que uma vez lá ele iria aprender a marcar. Não que eu me renda a importância de qualquer ensinamento. 

Mas vai ficando cada vez mais difícil acreditar, não no nosso talento nato, mas no nosso apuro técnico. E não digo isso como quem se revela com o humor liquidado pela qualidade dos passes ou das finalizações de quem tem se apresentado por aqui. Digo isso por constatar que os repatriados de agora, mesmo já sem ter mercado em boa parte do mundo, ainda conseguem reinar nos nossos gramados. Já tivemos tantos exemplos. Você deve lembrar muito bem do que o meia Zé Roberto foi capaz não faz muito tempo. O próprio Robinho, ainda que seja cedo pra dizer, parece transitar numa frequência muito mais fina do que seus companheiros de time. 

Outro que reforça esse tese é Kaká. E olha que até outro dia não faltava gente pra duvidar da condição física desse que agora se revela  um verdadeiro catalisador dos talentos que o time do Morumbi conseguiu reunir. Mas alguém como Kaká exercer esse papel não deve ser motivo de surpresa pra ninguém. Afinal, estamos falando do único brasileiro que depois de Ronaldinho conseguiu alcançar o posto de melhor jogador do mundo. O que eu quero realçar é a incapacidade dos que já estavam aqui - ganhando salário de craque e sendo tratados como tal - de cumprir esse papel.  O que me faz admitir que, talento à parte, a oportunidade de jogar no velho mundo torna nossos jogadores diferentes. E isso diz mais sobre nosso atraso do que qualquer goleada sofrida.

No mais, aproveito pra dizer que a vitória do São Paulo sobre o Botafogo, no Mané Garrincha, clareou o horizonte. Hoje à noite o líder Cruzeiro, cheio de moral depois de ter feito o melhor primeiro turno da história do Brasileiro por pontos corridos, estará diante do Bahia, no Mineirão. Em caso de vitória mineira a partida do próximo domingo entre São Paulo e Cruzeiro, marcada para o Morumbi, pode dar ao futebol brasileiro uma aura de excelência cada vez mais rara.. 

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A moral das arquibancadas




Sejamos francos! As arquibancadas sempre foram um ambiente permissivo. Um lugar onde o código de conduta é pra lá de elástico. Os que a frequentaram vestindo terno e gravata que me perdoem, pois não sou desse tempo. E o que as fez desse jeito, suponho, é algo que só pode ser decifrado por estudiosos. Se é que pode. Mas trago comigo teorias de leigo. Teorias que podem ser acusadas de ingênuas, mas que eu sei estão ancoradas num empirismo capaz de conferir a elas certa coerência. 

Toda essa sordidez que temos visto têm algo a ver com uma certa decadência moral dos homens. Sim, porque ao mesmo tempo em que as estatísticas mostram que evoluímos de certa forma no que diz respeito a educação, basta olhar as manchetes dos jornais pra perceber o quanto estamos ficando cada vez mais abomináveis no trato com os outros.

Faz algumas semanas me deparei na internet com uma foto de um garotinho em uma arquibancada. E embora sua face fosse meiga ele ostentava um ar de rancor e o dedo médio em riste. A matéria mostrava como aquele torcedor fanático do Feyenoord, da Holanda, ( que havia ficado famoso em virtude da imagem) tinha crescido, o que tinha virado. Bom, continuava fanático e sendo acompanhado pelo pai. E não é demais frisar que se tratava  de um jovem nascido em um país em que a educação está longe de ser um problema. Como não custa lembrar que cenas lamentáveis são registradas praticamente toda semana em arquibancadas de tudo quanto é canto do  planeta. Pra isso parece não ter índice de desenvolvimento humano ou renda per capita que sirva de antídoto. 

Do mesmo modo que o jogo de bola costuma revelar a personalidade de quem o pratica a arquibancada é capaz de revelar a personalidade de quem torce. Imagens como as que temos visto causam repulsa. E ganham outra dimensão quando as lentes conseguem dar ao ato um rosto. Seja ele o de uma mulher ou o de um menino. Olha, já tiramos tanto das arquibancadas tentando fazer com que os atos praticados por lá não ferissem ninguém. E isso nos custou a alegria das bandeiras, a companhia do radinho de pilha. Mas, por favor, de uma vez por todas, não vamos mais nos enganar. As arquibancadas só serão uma outra coisa quando o homem também for outro. E isso, infelizmente, não se dará nas próximas rodadas.