quarta-feira, 15 de abril de 2026

Não me chame assim



Comete-se muitos pecados por causa do dinheiro. Uns bem mais graves do que o que pretendo tratar aqui, devo reconhecer. Falo dessa coisa de dar nome aos estádios, o popular  "naming rights". O tema andou frequentando manchetes nos últimos dias em virtude do encerramento do contrato do Palmeiras com a antiga patrocinadora. Lembro que na época da escolha do antigo nome, assim como agora, foram dadas aos torcedores três opções. Ganhou por goleada aquela que preservava pelo menos em parte a nomenclatura popular. A saber, o substantivo Parque. Àquela altura o velho Parque Antártica já não existia. Tinha sido demolido. Restando dele, pelo que me lembro, apenas parte de uma das arquibancadas que descansa  escondida nas entranhas da nova edificação. 

Nesse caso específico é interessante notar que o nome que havia sido consagrado pelos torcedores carregava o carimbo de uma marca. Nos seus últimos dias o Estádio Palestra Itália estava consagrado como Parque Antártica. Mas essa associação com a marca tinha se diluído com o passar do tempo. Lembro bem a cara de espanto de um interlocutor quando lhe disse que o nome tinha a ver sim com a conhecida marca de cerveja porque o local em que o estádio tinha sido construído pertencia à Companhia Antártica Paulista. Compreensível. Tinha sido há muito tempo. O interlocutor devia ser mais novo do que eu. 

Mas como se não bastasse a modernidade ir demolindo quase todos os estádio, tira deles o que resta da identidade. Por gordas cifras teimam em batizá-los com nomes que não deixam de soar sem sentido. E a maior prova de que os estádios nunca foram tratados com a devida importância é o fato de até hoje apenas um deles ter sido reconhecido como Monumento Histórico do Futebol Mundial pela FIFA.  O Estádio Centenário, em Montevidéu, no Uruguai, construído para sediar a primeira Copa do Mundo da história. Na certa há outros espalhados pelo mundo que mereciam reverência da mesma ordem.  



Vira e mexe me pego pensando se só a exposição das marcas nas Arenas não seria o suficiente para justificar os investimentos.  Até porque mesmo os nomes mais bem sacados passam a soar meio cafonas, meio kitsch. Vejam o caso do MorumBis. E o do velho estádio Urbano Caldeira batizado de Vila Viva Sorte. Na Argentina, a reforma de La Bombonera tem dado o que falar. Um dos comunicados feitos pelo clube precisou deixar muito claro que o estádio não está sendo demolido. Que não se trata erguer um novo estádio. Mas que ele está apenas sendo ampliado e que terá a identidade preservada. E a possibilidade de venda dos naming rights  tem encontrado forte resistência. Não deve ter sido por acaso que se deu por lá uma das histórias mais lindas nesse sentido. A do San Lorenzo, que  depois de muitos anos de luta da torcida recomprou o terreno onde ficava o antigo estádio. Terreno que tinha sido expropriado na época da ditadura militar e vendido a uma rede de supermercados. Será que a estratégia de marketing ficaria mesmo comprometida, por exemplo, se no caso santista a opção tivesse sido por Vila Belmiro Viva Sorte? 

Isso tudo me trouxe visões dos estádios que carrego na memória. O do próprio Parque Antártica e seu jardim suspenso. O do campo do Beija-Flor, o mais antigo clube da mais antiga Vila do país, onde ia ver jogos com meu pai. E que até hoje me soa portentoso com a arquibancada em curva. Lugar que mesmo com toda sua simplicidade me fez sentir pela primeira vez o que era a alma de um estádio. As tardes passadas nas tribunas de madeira do Mansueto Pierotti onde via desfilar o São Vicente Atlético Clube. A imensidão que sempre pareceu habitar o Estádio Espanha, do Jabuca, na Caneleira. As dores e alegrias vividas no lendário Ulrico Mursa, desde sempre a casa da Portuguesa Santista, que viverá novo momento glorioso neste sábado, e que dizem os autos, ostenta a primeira arquibancada de cimento construída na América Latina. Quando tudo isso soa desprotegido a usurpação do nome mais parece um golpe de misericórdia. 

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