quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Ai Jesus !

Foto: Wun Suen / AFP


A novela envolvendo o treinador Jorge Jesus e o astro maior da Seleção Portuguesa, Cristiano Ronaldo, é dessas coisas que intrigam quem vive de levar adiante a tarefa de tentar decifrar um tiquinho o mundo da bola. E segue dando pano pra manga. Ter deixado o gajo aquecendo por trinta minutos e não tê-lo colocado em campo acabou por ser a gota d'água. Cristiano abandonou os treinos. Mandou preparar seu avião. E as cenas que se deram depois falavam, inclusive, do presidente da Federação Portuguesa e do próprio Jesus tentando convencê-lo de reconsiderar a decisão a caminho do aeroporto. É ou não é cena com ares de novela? Não que tenha se dado exatamente assim, mas assim foi pintada. Figuras de grande estatura do métier não deixaram nem a bola pingar pra dizer que aquilo não era jeito de tratar o craque. 

Entoaram esse coro gente do quilate de Thierry Henry e Ibrahimovic. Sem contar que o treinador, com a história ainda fresca, precisou engolir o camisa nove Hojlund, na partida contra a Dinamarca, comemorar um dos gols como Cristiano e depois do apito final ver a intenção de um cumprimento ser repudiada pelo adversário, que as notícias fizeram questão de descrever como um fã declarado do português. Do jogador, não do técnico, claro. E parto daí para embaralhar a análise. Teria o dinamarquês misturado alhos com bugalhos e, emotivo, tomado decisão errada? Talvez no fundo até seria capaz de entender que a essa altura, pra lá dos quarenta anos, Cristiano seja um craque mais de passado do que de futuro. Mas também fico pensando se não teria visto no momento a oportunidade de virar notícia. Tática tão em voga. 

Tenho reservas sobre o comportamento de Jorge Jesus, que saiu muito mal do Flamengo e , depois disso, vira e mexe foi visto em manchetes de teor parecido. Mesmo como treinador, se não lhe tiro os méritos, também não durmo no barulho. O que alcançou depois de comandar o Flamengo esteve longe de ter o peso que o futebol brasileiro lhe emprestou. E se muitas vezes a escolha de um jogador é criticada por priorizar mais a grana do que o desafio técnico, como foi dito de Neymar muitas vezes, para Jorge Jesus a critica também serve. Mas o que me intriga pra valer é um outro aspecto. Pensar que tivesse Jesus facilitado um pouco as coisas teria sido ele a dirigir a Seleção Brasileira neste momento -e na Copa - e não Carlo Ancelotti. E isso é um detalhe interessante porque apesar das coisas terem se dado nessa ordem Carlo Ancelotti nunca foi chamado de plano B. E nem o melhor dos currículos deveria servir como antídoto contra essa verdade. Apesar de todo o respeito que a trajetória de Carlo invoca. 

Jorge Jesus, que por hora segue bem amparado já que os resultados têm vindo, pelo visto não pensa duas vezes para mostrar que uma vez no cargo quem manda é ele. E há um sem fim de histórias que se deram na Gávea para fortalecer essa impressão. No time mando eu, como disse, é algo que as escolhas e as atitudes de Carlo Ancelotti nunca deixaram transparecer. Até aqui uma vocação para a gestão e para acomodar interesses parece ter se tornado a grande marca do treinador italiano. Coisa que sabemos todos anda cobrando dele um preço caro demais. Jorge Jesus pode não ter sido polido e, vá lá, talvez nem mesmo justo. Mas com uma das melhores gerações do futebol português nas mãos e com a chance de mostrar ao mundo que pode bem mais do que fez com o time rubro-negro tratou de tomar as rédeas do negócio. Parece ter se livrado do peso de gerenciar o futebol imenso e a vaidade idem de Cristiano Ronaldo. Mas poderá ter daqui pra frente como adversário os melindrados que acham que o modo como tratou a questão acabou por atropelar o que manda a etiqueta da bola. Ai Jesus! 

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

As futebolistas

 

Três futebolistas - obra de Ángel Zarraga / 1922




Não conhecia essa obra, achei que o momento especial vivido pelo Futebol Feminino no Brasil pedia compartilhar. As informações abaixo são do site  "Arte que acontece"  

* Em 1928, as Olimpíadas de Amsterdã incluíram uma Olimpíada de arte, onde um júri premiou algumas obras com uma exposição no Museu Stedelijk, além de uma medalha olímpica – equivalente à dos atletas. O México enviou Angel Zarraga com, entre outras coisas, sua pintura As futebolistas, que retrata Jeanette Ivanoff, Henriette Comte e Théresè Renault – vencedora da primeira copa francesa de futebol feminino em 1922. Zárraga foi assim o primeiro artista mundial a retratar o futebol feminino em tela, o que causou um frenesi no mundo esportivo altamente conservador.





quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Nem um centavo a mais


 

Ao futebol foi dado tudo. Ao longo do tempo benesses refinanciaram e perdoaram dívidas. Terrenos públicos foram cedidos para a construção de centros de treinamentos. Isenções de impostos. O que não os impede de tentar ir sempre além. Há pouco mais de meia década o trio de ferro paulistano, formado por Corinthians, Palmeiras e São Paulo, devia aos cofres do munícipio mais de cem milhões de reais só de IPTU. Divida que eles, claro, contestavam alegando que a isenção para esses espaços é amparada por lei, quando ela na verdade reza que deve ser solicitada anualmente e, importante ressaltar, podem ser negadas. Donde concluo que nem se deram ao trabalho de solicitar. Os espaços em questão eram os das sedes fixas e não os dos Centros de Treinamento, onde outras questões entram na discussão e quase sempre as justificativas fazem de contrapartidas discutíveis o principal argumento para o não pagamento. Vá o cidadão comum deixar de pagar um imposto pra ver como são eficazes os meios que um governo tem de lhe complicar a vida a partir do momento em que ele deixa de honrar uma dívida dessa natureza. 

A coisa é seria, ou deveria. Em março deste ano a Prefeitura de São Paulo divulgou uma lista com os maiores devedores da Dívida Ativa do município. Nela o Corinthians ocupava a trigésima sétima posição com uma divida de tributos municipais de cerca de 450 milhões de reais.  Nada seria capaz de justificar esse disparate mas digamos que, ao menos, parecer probo daria um outro verniz a esses maus pagadores. Mas eles já não têm como fazer isso. Com exceção do Palmeiras que, neste momento, destoa totalmente dos rivais, a história de Corinthians, São Paulo e Santos é de envergonhar. Na semana passada Omar Stábile, o presidente em exercício do time do Parque São Jorge, foi denunciado pelo Ministério Público de São Paulo, por apropriação indébita, e teve pedido o afastamento dele de qualquer função no clube. Fato que a história impede de ser encarado como um caso à parte. Ocorre que se ele está no cargo foi por ter vencido uma eleição, indireta, depois do antigo presidente, Augusto Melo, ter sofrido impeachment e pouco depois ter sido expulso do clube. Desfecho que se deu também à trajetória do presidente anterior, Andrés Sanchez, um dos nomes mais emblemáticos da história recente do clube. E aquele que o sucedeu, Duílio Monteiro Alves, só não teve o mesmo destino porque quando os fatos sugeriam isso pediu o desligamento do quadro de sócios. 

No São Paulo, semanas atrás, envolvido em maracutaias que passavam pela exploração indevida de camarotes do Morumbi em dias de show, o presidente, Júlio Casares, investigado pela Polícia, teve no início deste mês o mesmo destino de Andrés Sanchez e de Augusto Melo. Mas contribuição maior para essa realidade lamentável do futebol paulista tem dado o Santos Futebol Clube que viu seus últimos cinco presidentes serem expulsos do clube. Ainda que contestações jurídicas ou administrativas tenham trazido alguns de volta. Trajetória iniciada em abril de 2016, com Odílio Rodrigues e integrantes  do Comitê de Gestão, e que teve seu último capítulo em outubro de 2024, com Andrés Rueda indo pelo ​mesmo caminho.  O que me faz concluir que os clubes estão longe de merecer benesses. E se a lei, sempre ela, assim reza, que seja alterada. Nem um centavo a mais. E não me venham dizer que sem elas o futebol acaba. Ou eu conheço pouco o futebol, ou a tão falada proibição das Bets está prestes a virar justificativa para que o governo volte a lhes estender a mão. 

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O futebol como enigma



Neste momento o futebol brasileiro é indecifrável para grande parte dos jogadores que o fazem. Soa veemente, eu sei. Disse aqui em outro momento que a abertura para estrangeiros ter sido feita do modo que foi fatalmente teria consequências. Mas pelo visto, enfim, o tema provocou reflexões. Dias atrás o técnico do Palmeiras, Abel Ferreira, tinha falado a respeito. Mas falado meio por tabela, porque a intenção primeira era questionar e regra que estabelece o número de jogos a partir do qual um jogador pode mudar de clube. O que estaria forçando, segundo o treinador, os clubes a ir buscar jogadores no exterior. Uma crítica que faria mais sentido se a regra não tivesse sido alterada recentemente. Até o ano passado eram permitidos seis jogos. A partir deste ano, doze. 

O que me deixa sempre um tanto desconfiado das intenções por trás da declaração. Seja para forçar uma possibilidade maior de o clube usar seu poderio financeiro ou driblar um pouco outros assuntos de superfície espinhosa que sempre interessam mais à imprensa do que aos entrevistados. De qualquer modo, a parte incontestável é que a velocidade como tudo foi feito será sempre discutível. Abel lembrou que quando aqui chegou podiam ser cinco os estrangeiros. Pouco depois sete. E mais rápido do que isso liberaram nove. Mas na última segunda, depois de se reunir com os clubes, a CBF anunciou que o limite de estrangeiros passará a diminuir a partir do ano que vem, ao ritmo de um jogador por ano. Até voltar a ser de cinco. O que se dará em 2030. 

Tem sido normal vem em campo pelo Brasileirão equipes com mais de meio time formado por jogadores vindos de outras paragens. E é nesse detalhe que eu quero me apegar para interpretar o instante mais polêmico que o nosso futebol viveu nos últimos dias. A fatídica cobrança de pênalti que Menphis Depay transformou num chute inesquecível pra arquibancada. Estão certos os que andam por aí decretando que a vida dele jamais voltará a ser mesma depois disso. Estou longe de não considerar que perder, ou não, um pênalti é castigo que pode macular qualquer um que exerça o ofício. E há uma lista imensa de jogadores vitimados por esse tipo de situação. Mas costumo duvidar quando um jogador que vem de fora diz que sabe muito bem o que significa essa ou aquela rivalidade, aquele clássico. E o motivo é muito simples: na maior parte das vezes não têm recursos para fazer esse tipo de interpretação, não têm vivência.  E não têm culpa alguma disso, vejam bem. 

De qualquer forma, ficam prejudicados por essa impossibilidade de compreensão. Não quero com isso absolver o camisa dez corintiano por contrato. E acho que a crítica mais sensata que se pode fazer é que para um jogador que se diz de tamanha categoria uma cobrança daquela magnitude teria, no mínimo, que acabar no gol.  Ou mais tragicamente encontrar a mão do goleiro no meio do trajeto. Que sirva de aviso, porque muitos dos que aqui se exibem, alguns já mais íntimos, correm o mesmo risco. A história que Menphis desenhou com o clube, as atitudes tomadas desde o dia em que chegou sugerindo cumplicidade total com a nação alvinegra, essa condição que fez dele alguém com poder para subjugar o clube, podem ter se transformado em uma armadilha da qual será complicado se  desvencilhar. Entender o que é o Corinthians exige uma vida. Mas só os mal intencionados não aceitarão que errar é mesmo humano. Talvez, se ele tivesse um dia conversado com o saudoso Doutor Sócrates quem sabe teria ouvido, como ouvi certa vez, que em matéria de futebol quase sempre optar pela força é um equívoco. E aí, naquela bendita hora, pudesse ter lembrado disso. 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

O futebol na intimidade



Existe uma face do jogo de bola que não pertence a todo mundo. É íntima. E a imprensa já teve recursos melhores para desvenda-la. Diria que ser bem sucedido nesse tipo de empreitada fez a fama de muito jornalista, de muito repórter por aí. Merecidamente. No ofício é algo muito parecido como marcar um belo gol. Diria que os mais famosos casos do tipo se deram quando essa intimidade guardava detalhes que os envolvidos gostariam que jamais tivessem sido desvendados. Algo na linha do que se deu com o caso que entrou para a história como A Máfia da apito. Um esquema de manipulação de resultados descoberto pelo Ministério Público e pela Polícia Federal através de escutas telefônicas e que na época colocou em xeque a credibilidade da arbitragem brasileira. 

Mas há um outro tipo de intimidade, esse nobre, que encanta o torcedor. E não é à toa. Algo na linha do do que ouvi certa vez do goleiro Marcos do Palmeiras, exímio contador de causos sobre o jogo de bola. Infelizmente não vou lembrar detalhes da partida. Mas a alma do que se deu trago comigo. Eis que o arqueiro, diante da disputa por pênaltis que se avizinhava, ao notar que o sorteio que acabava de ter sido feito exigiria que os times mudassem de lado no campo teve uma espécie de iluminação. Era um momento em que as paradinhas andavam muito na moda para desespero dos goleiros. Então, ao se encaminhar para a trave que ficava do outro lado, e percebendo que iria passar perto dos jogadores adversários, o que ele fez? 

Se virou pra trás, como se estivesse falando só com os companheiros de time, e avisou em alto e bom tom que o árbitro tinha dito que não valia paradinha. E que se alguém usasse do artifício ele iria mandar voltar. O que não passava de lorota. Seja como for, ninguém arriscou fazer a graça. Ele defendeu uma ou duas cobranças, já não lembro, e o Palmeiras se classificou. Em geral, essas quase confissões só se dão muito depois do ocorrido. Mas nunca perdem a graça. Intimidade é intimidade. Lembro também de ouvir Seo Macia, o Pepe, contar uma outra. Interessantíssima. De um dia em que o Santos foi enfrentar o mítico Botafogo. Nos tempos em que esse era o jogo. E alguém deu ao técnico santista a dica de que o segredo era não deixar Zagallo jogar. E o velho lobo não era visto como um jogador a ser temido. O que foi ouvido com certa descrença. 

Fato é que a dica foi aceita. E o Santos, com um esquema especial pra cuidar de Zagallo, desenhou pra cima do time carioca um placar de respeito. Nada como um detalhe íntimo pra encher o futebol de graça. Isso tudo me voltou porque dias atrás se deu uma situação do tipo que ficou um pouco no meio do caminho entre algo que se descobriu e algo que foi declarado. Saiu da boca do classudo meio-campista, Rodri, agora jogador do Barcelona, que após ser substituído acabou flagrado pelas câmeras comentando com um colega de time que os adversários que tinham em campo eram muito ruins, muito fracos.  O que me fez ficar pensando que tipo de juízo não fazem intimamente os jogadores brasileiros dos adversários ou dos times que enfrentam. 

Mas é tão difícil imaginar algo do tipo sendo proferido por aqui que quase me convenço de que o Brasileirão é mesmo um torneio com um nível de competitividade que não se vê em nenhum outro lugar do mundo. Incrédulo com o que tinha acabado de testemunhar, Rodri perguntou ao amigo que estava o lado em que posição o adversário tinha terminado a temporada anterior. Ficou sabendo que tinha sido nono. E na atual andou flertando com a lanterna. Agora eu vos pergunto: dá pra imaginar um corintiano, ou um são paulino falando isso da Chapecoense?  

                   

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

A força da grana



Sou de um tempo em que os números no futebol tinham outro peso. Não que não balizassem as manchetes. Mas o nome do jogador, sua história, soavam como mais notícia do que o valor que eles iriam custar. E se tem uma coisa que mudou no futebol foram os números. Faz uns dias dei de cara com as cifras que o futebol mundial tinha acabado de movimentar na última janela, que nem estava totalmente fechada é bom que se diga. Havia muita gente esfregando as mãos por esse mundão afora e ainda eram mais de seiscentas as transações a serem concretizadas. Até ali tinham sido pouco mais de cinquenta bilhões de reais. O número era anunciado como um novo recorde na história do futebol. Mas meu espanto arrefeceu um tanto quando vi que a marca tinha superado a anterior por meros um por cento e meio. Esperava mais porque acabamos de sair de uma Copa do Mundo. E tá pra ser inventada vitrine maior pra esse tipo de negócio do que ela. 

O leitor mais atento dirá: mas esse por cento e meio é uma fortuna. Sem dúvida é. Infinitamente mais do que a maioria de nós ganhará trabalhando toda uma vida. E mesmo se juntássemos os nossos cofrinhos ainda assim seguiria sendo.  Apesar da robustez das faturas, o Brasil andou na contramão. Os negócios nesse meio de ano ficaram muito abaixo dos registrados no ano passado, quando entre chegadas e partidas o superávit foi além de um bilhão de reais. Quando se trata desse universo, quatro dos cinco maiores compradores - Inglaterra, França, Espanha e Portugal - compuseram também o top cinco dos maiores vendedores. A exceção foi a Alemanha, que no quesito entrega deu lugar ao Brasil. Não deixando dúvidas sobre a nossa incontestável vocação para entregar riquezas. 

No dia a dia do ofício faço o possível para não cair nessa teia dos números. São de complicada apuração. Em geral aparecem servindo a interesses. E como sou um sujeito desconfiado, considero-me um ateu no que diz respeito à precisão dos balanços. E até que as transações apareçam lá todo mundo já perdeu o interesse em se certificar se foram eternizadas com o mesmo tamanho que andaram frequentando manchetes. E mais, sempre fui assombrado por uma imagem: a de um negociador inescrupuloso, com um charuto a pender do canto da boca, ouvindo com ar cínico todos os números que a crônica anda vomitando sem desconfiar que isso só evidencia aos mal intencionados o tamanho da imprecisão dela. Nunca vi um jogador, ou agente, contestar números anunciados. Talvez alimentando aquela lógica de que é melhor deixar que os outros pensem que eles andaram ganhando mais que ganharam. Ou, ao invés disso, deixar os outros pensando que eles ganharam menos do que na verdade ganharam. 

Se alguém se lembra de algum jogador que tenha dito algum dia que ganhava mais ou menos do que andavam falando, me contem quando foi. Pois se vi algo do tipo minha memória apagou. Ela, às vezes, é seletiva é fato. Números são um perigo. Mas, falando neles, se tem uma coisa que tenho ouvido soar nos bastidores não é de hoje é que há uma bolha imensa ameaçando o mercado do futebol brasileiro. Só que números sempre são relativos. De outro modo ousaria dizer que acho um absurdo que uma proposta de SAF pro Santos em valores totais ronde a casa dos dois bilhões de reais. Como pode um clube com essa história valer pouco mais de dois Enzo Fernandes? O argentino que nesta janela de transações foi o mais caro. Custou ao Manchester City, que lhe tirou do Chelsea, pouco mais de 871 milhões de reais. Caneladas matemáticas à parte, a impressão que fico é de que argentinos andam fazendo negócio bem melhor do que brasileiros.       

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Aos goleiros



Eles são um caso à parte no futebol. A singularidade que lhes pesa é óbvia. Basta que uma bola tome o caminho da meta e acabe nas mãos de um deles para que se faça explícita essa sua condição. Em qualquer outra situação tocar a mão na bola redundaria em punição. Não sou capaz de dizer se a admiração nasceu dessa realidade ao avesso que vivem, ou de uma certa cumplicidade por ter gasto uma boa fatia do tempo que passei em campos por aí aceitando o papel de arqueiro. Quem jogou bola sabe muito bem o quanto vale alguém que se dispõe a isso. Cansei de ver peladas perderem parte da graça porque não havia no lugar um bendito com disposição para encarar a parada. 

E quando havia um não bastava, claro, eram necessários dois desses tipos destemidos. Os famosos gols caixote, não nos enganemos, nunca foram uma opção. Sempre foram a prova maior de que os goleiros são raros. E pelo que ouço seguem sendo. Tá aí algo que o tempo não mudou. E jogar com gol grande, como diziam, tem um quê de requinte. Era e continua sendo outra experiência. Tem mais, uma coisa é fazer a bola cruzar a linha do gol vencendo o jogador mais recuado do time adversário. Outra bem diferente é fazer isso levando a melhor sobre um goleiro. 

Aposto que vocês já ouviram por aí alguém dizer, quando um deles é castigado com uma bola dessas que se encaixam com precisão entre a trave e o travessão - dessas que o goleiro mesmo pulando jamais iria alcançar - que ainda assim ele fez o gol ficar mais bonito. Acho que é bem por aí, mesmo quando vazado, um arqueiro com estilo embeleza o lance. Torna mais evidente a "finesse" da jogada. E faz isso mesmo que o castigo venha em forma de drible.  Haverá sempre esse universo a separar o mandar a bola pra rede com o gol escancarado ou passando pelo defensor da meta. Percebam. O reconhecimento do árbitro,  por exemplo, como alguém que aceita passar pelo que passa por vontade própria é sempre lembrado,  sempre tido como algo difícil de compreender. Acho que do goleiro deveria se dizer o mesmo. 

E mais. A indulgência que é dada aos centroavantes nunca lhes é ofertada. Dos atacantes se costuma perdoar até jejuns de gols que duram uma quase eternidade. E quando voltam a marcar dão a impressão de estarem, vejam só, totalmente redimidos.  Já com os abnegados que abraçaram a causa da meta a rigidez das críticas é algo que não se dribla. Muito pelo contrário. Não é raro vermos um deles se esticar e mandar a bola pro lado e na sequência ouvir alguém ao seu lado afirmar, em tom impiedoso, que aquela bola dava pra segurar. Ou que aquela outra não podia ter sido rebatida pra dentro da área. Há um céu e um inferno escondidos nos noventa minutos que só pertencem aos goleiros. A eles, e um tanto aos zagueiros, não se exige menos do que uma infinita precisão. Uma bola entre as pernas anulará o brilho de dezenas de defesas impecáveis, mesmo aquelas inacreditáveis, que os narradores mais entusiasmados teimam em classificar como milagres. 



Diante de tudo isso, vejo em Fábio, do Fluminense, do alto de seus quarenta e muitos anos, um jogador injustiçado. Baita goleiro. E que diga sobre esse fardo Léo Jardim, o arqueiro do Vasco. Maldito quando o cruzmaltino caiu diante do Santos outro dia, maldito quando o time dele depois foi goleado pelo Palmeiras. Exaltado três dias depois quando o time dele venceu o Vitória em São Januário. Ou Santos, o arqueiro do Athlético Paranaense, vitimado por essa sina no jogo contra o Fluminense no final de semana. Por essas e outras creio que qualquer goleiro ao aceitar a vocação, aceitou sem perceber também o castigo que invariavelmente recai sobre os que ousam assumir essa posição singular.  

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Os nobres do futebol brasileiro



Para além do fato de fazer valer o investimento seria muito bom que o Palmeiras fosse mesmo lapidando pra valer o futebol que anda jogando. Mas não há como derrotar o pragmatismo de quem rebate esse argumento dizendo que se vierem os títulos basta.  Não tenho a menor dúvida. Ocorre que jogar um bom futebol continua sendo um antídoto muito apropriado para possíveis insucessos.  E já que é para tratar as coisas de modo pragmático é bom que se diga que o time de Abel já passou da hora de equilibrar as coisas com seu maior rival, que anda por aí ostentando a marra de quem se fez atual campeão brasileiro e da Libertadores. E na mesma temporada. O que nunca foi pouca coisa. E algo que o Palmeiras jamais conseguiu. 

Não sou do tipo que costuma fazer pouco caso de vice-campeonatos. Mas é preciso admitir que chega uma hora em que eles já não resolvem. E é justamente esse o momento que o Palmeiras atravessa. E se tem conseguido lidar bem com as situações e ir toureando as cobranças é também porque teve lá seus méritos. Um bicampeonato da Libertadores é algo gigante, mas glória da qual, aos poucos, o tempo vai tirando o viço. Seja lá como o Palmeiras venha a viver os últimos capítulos desta temporada acho que Abel deveria ser mantido até o final dela. E assim dar cara ao que pode pode vir a ser glória ou ocaso. Caí neste tema porque não é de hoje que ando incomodado com o fato de na maior parte das vezes acabar obrigado, pelo que se dá, a tingir esse nosso encontro com ares de crítica. 

Sei que é o que a realidade pede, mas andei imaginando que cairia bem forçar uma mudança de tom.  Assim me coloquei à procura de um recorte que, de alguma forma, versasse sobre o que nosso futebol tem de bom. E já faz um tempo que sua melhor versão encontra tradução em Palmeiras e Flamengo, ou vice-versa. Ainda que sejamos obrigados a reconhecer que muitas vezes mais pelo poderio econômico do que exatamente pelos tratos dados à bola. E nessa renhida disputa não estar mais na Copa do Brasil pode não ter sido uma tragédia, mas que os rubro-negros gostariam de não ter dado aos palmeirenses essa chance de vira e mexe serem lembrados, como quem não quer nada, que o time alviverde, apesar de tudo, segue vivo nas três frentes, isso gostariam. 

Aos palmeirenses um velado desconforto reside no fato de o rival ser visto, não é de hoje, como dono de um futebol mais capaz de encantar. Que aproveite o embalo do bom jogo de ontem contra o Santos. Equilibrar essa questão talvez fosse, veladamente também, uma maneira de minar um pouco a confiança do rival.  Porque o futebol pode ter mudado muito, pode ter virado de cabeça pra baixo, mas estar diante de um time de futebol respeitável, brilhante, jamais deixará de causar alguma intimidação. Coisa bem diferente de ficar a frente a frente com uma equipe vencedora, mas que tem na capacidade de competir seu viés mais louvável. 

Que Abel e seus comandados não creiam, por outro lado, que a Copa do Brasil venha a servir de tábua de salvação. Já serviu. Nos dias que correm tem tudo pra não fazer efeito. Será preciso no mínimo adornar a história palmeirense com um novo Brasileirão ou com uma nova Libertadores. Enquanto com o Flamengo a realidade tem tudo pra ser mais benevolente. Num arroubo de complacência, e a depender de como a história venha a se desenhar, o torcedor rubro-negro talvez seja até capaz - depois da bronca - de absolver o time, o clube, se acabar vice nas duas frentes. E não se trata, de modo algum, de usar dois pesos, duas medidas. É uma condição que o Flamengo conquistou por ter sido mais vencedor e ter jogado mais nos últimos tempos. Mas, como gostam de lembrar os entendidos, as conquistas perdem efeito rápido. E títulos precisam sempre ser alimentados com títulos.  

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Futebol: Quanto mais você conhece...



Toda vez que o futebol nos revela uma de suas faces bizarras, e são muitas, costumo sacar uma velha frase que a vida me fez cunhar sobre o jogo de bola que, acredito eu,  resume bem a realidade que o cerca. A frase é: Futebol, quanto mais você conhece mais difícil fica de gostar. Os que convivem mais comigo já a escutaram muitas vezes. Fiz dela um antídoto para os momentos em que essa dita paixão nos envergonha, nos obriga a pensar o quanto nossa razão precisa ser posta de lado para conseguir seguir enxergando o futebol como algo encantador e divertido. Nos últimos dias vimos as ofensas racistas novamente encenadas em arquibancadas argentinas onde a reincidência daria margem a uma punição dessas exemplares que os homens que cuidam do futebol, pelo visto, nunca têm o interesse em praticar. Muito pelo contrário. 

A tática, em geral, estamos cansados de saber, quando tomam alguma atitude nesse sentido, é para pouco depois tratar de ir abrandando a pena. Transformando punições em multas. Ou acabam tomando outros caminhos tão manjados quanto. E depois de tudo o que temos visto há aí um protocolo estabelecido que começa com o gesto feito pelo árbitro apontando a situação e que, em seu desdobramento maior, retira os times de campo. Com certeza não vamos resolver a questão parando partidas por uns míseros minutos e solicitando para um jogador do time da casa ir até a beira do campo pedir que a cambada na arquibancada maneire. Algo na linha do que se deu no jogo de ida do Corinthians contra o Rosário Central, na Argentina. 

A sequência do roteiro tomou seu caminho protocolar. Com a Conmebol abrindo investigação para apurar o corrido. E estar na arquibancada sempre foi um jeito eficaz de se fazer íntimo do futebol, de conhecê-lo. E por isso arrisco dizer que mesmo com todo o avanço em matéria de comportamento - que a onda do politicamente correto veio decretar - a vivência nesse ambiente é prodiga em nos fazer desgostar do jogo. Como é um tremendo desgosto dar de cara com os números divulgados no Fórum Brasileiro de Segurança Pública de São Paulo, segundo os quais em dias de jogos as ameaças e agressões contra as mulheres chegam a crescer quase trinta por cento. Segundo os resultados os dias que registram os maiores aumentos são as segundas, sextas e domingos. E que os registros de lesão corporal sobem mais nos dois dias do final de semana. 

Mas o que achei ainda mais estarrecedor foi o aumento dos registros do tipo em mulheres na faixa dos quinze aos vinte e nove anos que nesse recorte chega a quarenta e quatro por cento.  Era de se esperar que a onda do politicamente correto ajudasse, no mínimo, a estancar o crescimento desse tipo de violência, mas em comparação ao estudo feito anteriormente os números cresceram. E, pasmem, houve também uma inversão com os registros de violência física superando os de ameaça. Imaginar o futebol como catalisador desse tipo de comportamento é profundamente triste. O estudo recomenda ações envolvendo clubes, Federações e torcidas para mitigar a violência contra a mulher. Decidir pela melhor estratégia pode até gerar dúvidas, só não dá pra duvidar de que o futebol insiste em fazer valer a velha máxima de que quanto mais o conhecemos mais difícil fica de gostar.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Que critério é esse?



Nada de justiça. As conversas sobre o jogo de bola clamam mesmo é por critério. Faz tempo que essa invocação é feita como se pudesse nos livrar dos males causados por arbitragens que, na falta dele, acabam condenadas da maneira mais veemente. Por definição, critério é um padrão usado como base para fazer uma avaliação, um julgamento, uma comparação. O último caso vem bem a calhar porque nas muitas tentativas que andamos fazendo para tentar livrar a cara de um árbitro, ou na maior parte das vezes condená-lo, é daí que partimos. Mas alcançar um padrão não é algo simples.  E a coisa descamba de vez, alterando ânimos, quando fica evidente que talvez nem um mesmo árbitro consiga ter um padrão. Em outras palavras, critério. 

O que me faz crer que atingir essa uniformidade venha a ser algo tão complexo quanto chegar à iluminação que tanto norteia a aspiração dos budistas. Um dos hábitos muito notados é o de comparar esse lance com aquele. O que, em geral, acaba servindo como ponto de partida para contestar a decisão apresentada, já que em cada um desses momentos a decisão tomada diante deles foi diferente. Mas como o viés filosófico baixou de vez por aqui vou tentar ampliar o horizonte do que está proposto. Portanto, vos digo: encontrar dois lances exatamente iguais - em tese - me parece tão desafiador quanto encontrar duas pessoas exatamente iguais. Coisa que nem mesmo os gêmeos conseguem ser. Um lance pode ser parecido muitas vezes com um outro, mas tudo o que o cerca provavelmente fará dele algo singular.  

E no fundo disso tudo está algo mais alarmante, a suspeita de que ninguém mais sabe o que viria a ser esse critério. Aproveito e deixo aqui a minha confissão de que me sinto numa infinidade de momentos parte desse time. E, digo mais, nem mesmo os boleiros, que deveriam exibir notável conhecimento a respeito da questão, se mostram competentes pra isso. Muito pelo contrário. Vejam o caso que se deu no jogo entre Grêmio e Mirassol dias atrás, quando o time do interior paulista jogando na casa gremista teve um gol anulado que poderia ter mudado tudo. Quando dei de cara com a cena de imediato discordei da decisão do árbitro. Pra dizer a verdade a considerei quase absurda. Eis que depois do jogo o personagem que protagonizou o lance que levou à anulação do tento disse com todas as letras que a bola tinha mesmo resvalado no braço dele. O que a meu ver nem constituiria culpa porque estava junto ao corpo, coisa que os entendidos vivem dizendo que justifica a absolvição. 

Mas em seguida o jogador do Mirassol objetou que discordava da decisão porque se o mesmo lance tivesse se dado no meio de campo teria sido interpretado de outro jeito. E eu me peguei a pensar em todas as  variantes advindas de casos assim. Sem contar que não consegui deixar de ponderar que esperar que lances que se dão dentro da área, ou bem longe dela, sejam vistos exatamente da mesma forma não faz muito sentido. A veia filosófica me faz crer que a urgência que cada um embute e o evidente efeito que cada um pode ter quase os levam pra lados totalmente opostos. Se você chegou até aqui pensando que eu vos brindaria com uma alguma solução, peço perdão por desapontá-lo. Não sou mágico. Mas não vou perder a oportunidade de dizer que estou convencido de que em outros tempos, quando tudo o que tínhamos eram nossos olhos e uns poucos recursos técnicos para tentar entender o todo, esse tal critério parecia algo mais factível.    

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A regra do capitão



Tudo é uma questão de educação. Foi assim que um amigo certa vez praticamente acabou com uma acalorada conversa a respeito do comportamento dos jogadores em campo. No fundo grande parte do que nos incomoda no mundo externo é uma questão de educação se pensarmos bem. Desde o cidadão que teima em nos fazer ouvir a música que ele escolheu. Passando pelo sujeito que simplesmente ignora o semáforo em vermelho. O que anda na contramão. O que sai pra passear com o pet deixando na calçada os vestígios do passeio. Há um sem fim de exemplos. Mas vamos tratar da boleirada. Bastaram aí umas poucas rodadas pra eu perceber o quanto fui ingênuo ao pensar que a Copa, com suas novas regras, pudesse de algum modo trazer avanços. Mas a impressão que tenho é de que a coisa se acentuou. 

E nem tô falando da manjada simulação que é coisa de dar nos nervos. O que estamos vendo parece beirar o caos total. Chegamos ao ponto em que um lance qualquer tem servido de pretexto para que se cerque o árbitro. Muitas vezes de dedo em riste. Obrigando o tal a escutar outras versões do ocorrido. Todas elas muito duvidosas obviamente. Sou levado a crer que o avanço desse tipo de atitude está ligado ao comportamento de dirigentes que, de uns tempos pra cá, perderam totalmente a postura. Já não pensam duas vezes pra fazer acusações, talvez encantados pela notoriedade que essas bravatas costumam lhes conferir. O que acaba por encorajar os jogadores a seguirem caminho parecido usando os recursos que têm. 

Fato é que a coisa anda beirando o insuportável, a ponto de dar a impressão de ameaçar colocar por terra o pouco encanto que ainda resta do nosso futebol que, um dia, encantou o mundo. Pode soar apocalíptico, e é. Não se enganem.  Já disse aqui, e volto a repetir: a principal arma para combater essa questão continua sendo a arbitragem, na figura dos árbitros. Ainda que eles precisem do amparo de uma autoridade que já nem sei se o futebol brasileiro tem. Imagino que o preço a pagar seria alto. Expulsões logo de cara. Desde sempre um tabu no jogo de bola. Uma farta distribuição de cartões para quem ousasse se exaltar. E outras atitudes que num primeiro momento poderiam soar extremadas mas que no curto prazo poderiam nos levar a uma melhora de comportamento que se faz urgente. E talvez fosse o caso também de colocar essa boleirada, que sempre achou que não tem nada pra aprender, em salas de aula. 

O aprendizado deixaria clara a realidade mais dura que passariam a encontrar em campo na figura dos árbitros, mas também serviria para fazê-los perceber o quanto isso, em última instância, poderia trabalhar a favor de todos. Fato é que nossa memória é mesmo muita curta. Faz pouco mais de dois anos, foi pouco antes dos jogos de Paris, a FIFA instituiu a chamada regra do capitão. Ou seja, apenas os capitães dos times poderiam  se aproximar e falar com os árbitros. E, detalhe, isso nos momentos em que eles fossem tomar decisões importantes. Nada de uma falta na lateral da intermediária ou coisa parecida. Pois bem, isso tinha se dado em julho. No mês seguinte, em agosto, a CBF, dizendo seguir as diretrizes da entidade-mor - cujo presidente atual neste momento vale um artigo - distribuiu um comunicado oficial aos clubes brasileiros dizendo que a partir daquele momento seria estabelecida a tolerância zero para jogadores que pressionassem ou cercassem o árbitro. Só mesmo rindo, pra não chorar. 

quinta-feira, 16 de julho de 2026

E não me venham falar em favoritos

Patrick Smith -FIFA 


Não sei bem o que nos espera no próximo domingo. No outro... já sei bem. E ando me preparando pra ele. O ofício exige. E lá, quando o mês de julho estiver mais ou menos aos quarenta do segundo tempo, nos restará torcer pra que o futebol brasileiro mantenha minimamente a temperatura.  Não sei como cada um de vocês chega neste último capítulo da Copa. Preparem-se. Teremos o líder Palmeiras recebendo o Atlético Mineiro. O Flamengo - sete pontos  atrás lembram? - de encontro marcado com o São Paulo no Maraca. E não adianta lamentar porque é o que teremos para o momento.

Confesso a vocês que levei um bom tempo pensando na possibilidade de França e Argentina decidirem a Copa em duas edições seguidas. Era difícil não enxergar esse detalhe como requinte. Afinal, se tratava de coisa que nunca tinha sido vista. Esse Mundial bombadão  talvez tenha nos entregado mais do que esperávamos. Fazendo nascer um sem fim de marcas, muitas delas discutíveis, mas ainda assim alardeadas com entusiasmo desmedido. Digo isso porque se certas seleções chegaram pela primeira vez à fase eliminatória foi em razão da sanha desmedida por lucros. O que, figurativamente, trouxe a linha de chegada pra algum lugar um pouco mais perto de quem competia. 

Devemos nos render é a outras, mais legítimas. Como a que fez de Lionel Messi o maior artilheiro de todos os tempos em Copas do Mundo. Convenhamos, não é coisa que se vê a toda hora. Ainda que Mbappé com todo seu talento juventude e horizonte pra outra Copa soe como promessa de fazer a marca do camisa dez argentino das mais breves do tipo em toda a história também.  A anterior, do alemão Miroslav Klose, foi soberana por doze anos. Mas... a França se foi nos fazendo testemunhar um capítulo que soou esquisito, não fosse uma notável Espanha a responsável por decretar o fim daquela trajetória que muitos imaginavam fadada ao sucesso. Ver esse time francês condenado a ouvir gritos de olé foi algo totalmente fora da curva. E há, creio, uma lição nessa despedida que revelou o primeiro finalista. E que vai muito além de incensar o time espanhol apontando para o talento óbvio de um Lamine Yamal. 

A lição que fica é a de que o futebol moderno, muitas vezes traduzido pelos entendidos com conceitos recém fundados, não deve deixar de valorizar  aspectos tidos como clássicos. A capacidade refinada de trocar passes. A necessidade de uma identidade. Coisa que outro dia, se não estou enganado, ouvi um certo professor muito respeitado dizer que não era exatamente o que buscava. A valorização do conjunto, que sempre alonga os pequenos espaços e favorece o tipo de movimentação que costuma gerar uma oferta abundante de opções de passe. E quando isso se dá... o melhor é não estar na pele do adversário. 

E por falar em adversário a Espanha que se cuide, porque a Argentina chegará no domingo pra lá de vitaminada por uma vitória sobre os ingleses que escancarou o quanto os comandados de Scaloni têm de coragem e de tarimba. E nem vou falar de Messi que seria chover no molhado. Mais do que a patente de atual campeã mundial a Argentina é um time cascudo. Ainda ouço aqui as palavras ditas por Harry Kane depois. Tentamos segurar o jogo e nesse nível isso não basta. Acho que o temperamental treinador inglês, que é alemão, ao pensar pequeno condenou a nação mais íntima do futebol a deixar escapar uma chance que ela esperava há muito tempo. E não me venham falar em favorito quando uma seleção que acaba de mostrar que lida muito bem com adversidades encontra uma outra que tá cansada de mostrar que se recusa a mudar de estilo mesmo diante da maior das dificuldades.  

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Confissões de um amador

 


Sabe, não é do meu feitio dar traço tão pessoal a esse nosso encontro. Vira e mexe tenho umas recaídas, reconheço. Mas é que há nesse meu fazer um traço de terapia, visto que estas linhas insistentemente traçadas por vezes fazem com que o bendito que as crava no papel se conheça um tanto melhor. E isso para o bem e para o mal. Mas dessa vez é a Copa que aí está que me fez tomar esse caminho. Enfim, preciso confessar minha tendência ao amadorismo. Só pode ser isso. Não vejo outra maneira de explicar. Sei que há tanta gente que dedicou a vida a decifrar esquemas. A se fazer bom nesse ou naquele jeito de jogar. Senhores que são vistos como doutores nessa arte, as construindo ou as interpretando. Gente que, às vezes, mesmo perdendo de sete a um não abandona aquele jeitão seguro e segue olhando os que não lhe adulam com ar de descaso e, mais do que tudo, de impaciência. 


E estou convencido disso mesmo que alguém da patente de um Ancelotti tenha se definido como um sujeito que não é nem cem por cento tonto, nem cem por cento gênio. Mesmo assim, continuo a achar que nem passa pela cabeça de qualquer um deles aceitar esse meu modo de ver o futebol. Ainda que no caso do italiano, depois de ter visto o que vi, eu seja levado a crer que a parte da afirmação que versa sobre não se tratar de um gênio soe mais precisa. Mas pode ser só um efeito colateral das escolhas dele que parecem ter contribuído para semear uma certa depressão futebolística em muitos dos meus amigos. E não se impacientem, vocês vão logo entender onde quero chegar. 


É que ao ver partidas como vi a Colômbia e o México fazerem, acabo convencido de que uma dose considerável da mais pura entrega talvez nos fizesse viver algumas alegrias e, a partir delas, sabe como é, poderíamos ganhar confiança e aí o céu seria o limite, ou por um infortúnio qualquer talvez o limite viesse a ser a França de Mbappé e sua turma. E que turma.! Mas seria um final digno. Não haveria do que reclamar. Acho que nos termos atuais a isso se dá o nome de intensidade. Pois toda vez que dou de cara com uma peleja descrita pelo narrador como de altíssima intensidade está lá um time desses que - como diz meu tio Afonso, sabedor das coisas - coloca o coração na ponta da chuteira. Um time para o qual não há bola perdida, que não deixa o adversário respirar, que dá um jeito de ter pulmão pra maior parte do tempo ir marcar o outro time lá no campo dele. 


Tudo bem ! O México e a Colômbia ficaram pelo caminho, mas com a postura de quem sabe que tem um nome a zelar. Sem contar que encontraram pelo caminho um time inglês e um Suíço que não se furtaram a encarar o jogo da mesma forma. A Colômbia me empolgou de tal modo que já imaginava vê-la diante dos atuais campeões do mundo. E imaginava que se mostrasse em campo a disposição que tinha tido diante de Portugal nada me tirava da cabeça que daria aos seus torcedores, mesmo eliminada como acabou sendo, um tipo de dor da qual eles poderiam quase se orgulhar. 


Olha, não que eu ache que nossos jogadores sejam incapazes de tomar pra si tal tarefa. São dados a fazer coisas mais difíceis.  Brilhar na Premier League, serem artilheiros por lá. Serem vistos como estrelas pelas quais muitos se mostram dispostos a pagar dezenas e dezenas de milhões de euros. Vocês não fazem ideia de como essa minha crença num certo amadorismo me maltrata. Não entrem nessa, acho que deve ser bem menos sofrido se sentir um tanto derrotado achando que o talento de Casemiro, Paquetá, Raphinha e Neymar uma hora dessas iria nos fazer novamente campeões do mundo. 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Um atalho pro caneco



A Copa, não tenho dúvida, e já disse, serve pra colocar certas coisas no lugar. No meio dela só uma coisa me assombra: a volta à realidade do futebol brasileiro. Temor que lembro bem ter cultivado em momentos similares de outrora. Não bastasse a qualidade duvidosa de muitos jogos, tem a arbitragem. O VAR. Mas não quero minar a diversão de ninguém. Por falar nele, todo reconhecimento ao que conseguiu o Paraguai, que pelo jogo que fez na estreia me deu a impressão de nem estar muito a fim de encarar o Mundial. Ou de não ter entendido o que ele significava. Digo isso porque o gol anulado feito pelo zagueiro alemão Jonathan Tah, que bem poderia ter classificado a Alemanha, soou como um erro que, pensando bem, atentou contra os alemães e contra quem ainda insiste, uma vez estando em campo, em jogar bola e não se ocupar de não deixar que outros joguem. Juro que não vi a falta no goleiro que embasou a anulação.

Sei que a onda agora é conseguir parar a remada forte dos noruegueses, mas antes de versar sobre os nórdicos gostaria de falar sobre os orientais que dias atrás estiveram no nosso caminho. E aí volto ao mote do início. Porque se a vitória diante do Japão nos mostrou que em matéria de bola ainda temos alguns recursos que soam raros para certos adversários, eles por outro lado, se bem observados, podem nos ensinar muito. Achei o máximo ficar sabendo que o projeto para o futebol japonês prevê a conquista de uma Copa até o ano de 2050. A paciência é uma virtude imensa. E isso, o planejamento, e não o resultado em si, deveria virar um mandamento para os dirigentes brasileiros que torraram praticamente todo o último ciclo entre uma Copa e outra pensando no próprio umbigo e contratando treinadores como quem só quer tirar uma batata quente da mão. Condenando a torcida brasileira neste momento a torcer para que o medalhão Carlo Ancelotti com toda a sua estrada se faça o guru que nos guiará por algum atalho que leve até o mais cobiçado dos canecos. 

Dirão os entusiasmados que esse revirar o passado está sendo feito fora de hora. Coisa tão difícil de saber que no Equador - e no Paraguai posteriormente- acabaram decretando feriado depois de um jogo. Entendo que políticos não possam jamais deixar uma bola pingando na área. Se a moda pega os franceses talvez não voltem a trabalhar. Não sei , algo me diz que esses Presidentes sul-americanos se fossem centroavantes, temo, acabariam acusados de ter perdido totalmente o tempo de bola.  Ainda acho que pra nação feriados fazem mais sentido em dias de jogos e não depois deles. E, além do mais, anda meio na cara que foi-se o tempo em que a política era farta de craques. A maldição dos perebas nesse campo me dá a impressão de ser uma epidemia mundial. 

Mas voltando aqui pra nossa casinha, seja qual for o desfecho do encontro que o Brasil tem marcado com os noruegueses em vindouro domingo, é bom não esquecer que triunfos do tipo,ainda mais os que acabam nos deixando com a taça na mão, sempre tiveram o poder de sugerir de maneira convincente de que a partir dali nada mais seria como antes. Mas não tarda e os nossos meninos bons de bola continuam se despendido de suas paragens, os dirigentes se distraem com seus afazeres, ou tentando se livrar de algum pecado e o futebol brasileiro volta a procurar o caminho que perdeu. E que fazia dele algo respeitável, belo, raro, recriando a mágica que dava à camisa amarela um peso mais difícil para os outros suportarem do que pra quem a veste. Tudo enquanto os japoneses com seus passos estudados, sua determinação e sua devoção pelo coletivo vão caminhando sem retroceder, e assim quem sabe acabem chegando em 2050 bem antes de nós.   

sexta-feira, 26 de junho de 2026

FOTOGRAFIA : A Seleção dança !

                                         



                                        A melhor foto que vi da Seleção na Copa até agora.







 

quinta-feira, 25 de junho de 2026

A coisa vai mudando


Foto: Hannah Peters -FIFA


Tenho sérias dúvidas sobre a nossa capacidade de interpretar uma partida de futebol sem ser contaminado pelo que o placar determina. Coisa que os bem intencionados desde sempre trataram de nos recomendar. E, de certa forma, a tarefa parece tomar uma dimensão ainda mais desafiadora quando o jogo em questão é de Copa do Mundo, um torneio curto que dá a todo encontro um ar de tudo ou nada.. O que também pode, por vias tortas, forçar o acerto analítico. Papo meio maluco eu sei.  E isso me veio à cabeça depois de ter testemunhado o segundo capítulo escrito por Ancelotti e seus ungidos no Mundial, mas não apenas ele. Tendo em vista a dificuldade imposta pelo bom time marroquino e a fragilidade notória dos haitianos a análise pode se embaralhar um pouco. 

Não estou dizendo aqui que o Brasil começou bem. Ao contrário. Um minuto antes de Vinicius Júnior fazer o gol de empate contra o Marrocos o Brasil estava totalmente perdido em campo. E o adversário tinha se feito respeitar. Ouvi muita gente antes da estreia dizendo que o empate nem seria um mal resultado. E se pensarmos bem, com o ciclo que o Brasil teve, com o treinador que lá está, tendo chegado um tanto em cima da hora, pensar na vitória como algo muito provável deixava trair certa soberba. Fato é que o apito final soou e vieram duras críticas, para as quais o empate diante de uma seleção respeitável esteve longe de servir de paliativo. Deu-se então o segundo capítulo, revelando um outro placar. E forçando um outro olhar. 

Diante dele, ou melhor, depois dele, o meu modo de encarar Matheus Cunha mudou. Passou a ser imperativo  reconhecer todo o serviço prestado por ele, que na estreia tinha perdido o lugar. Cunha desenhou uma longa trajetória no futebol europeu e com o Manchester United vive, muito provavelmente, o melhor momento da carreira. E mais, tanto anda sendo dito a respeito de Casemiro, se deveria ou não ser titular. Pois que Ancelotti decida. Mas me parece visível que na principal proposta de jogo do italiano Matheus Cunha desempenha papel importantíssimo. Impressão que se reforçou no jogo contra a Escócia. Outro caso meio nessa mesma linha é o de Vinicius Júnior. 

O caminho até aqui ajudou a colocá-lo no lugar que ele verdadeiramente ocupa, não só na Seleção, mas no futebol brasileiro. Neymar pode até voltar a brilhar, fazer o que soa um tanto impossível, mas neste momento o grande nome do futebol brasileiro é Vinicius Júnior.  Inclusive pela postura que sempre teve, desafiadora. Um verdadeiro protagonista, muitas vezes reduzido e contestado injustamente, porque é o cara que joga mais no clube do que na Seleção. Mas, por favor,  a realidade da Seleção é outra. E isso joga contra todos, não só contra ele, que dá a impressão de estar tomando consciência de que neste momento, queiram, ou não, é o grande nome do time brasileiro. 

Quanto a Neymar, seja qual for a dimensão que vier a ter no final dessa história, deverá ter consciência de que poucos na longa trajetória  do nosso futebol foram tão amparados. O mercado o amparou. A mídia, em grande parte, o amparou. Os companheiros de Seleção nem se fala. Isso por mais que seja difícil acreditar que um jogador que tinha jogado a última partida pela Seleção no distante ano de 2023, que voltou a treinar pra valer no último domingo, possa estar verdadeiramente apto a ser competitivo em um jogo de Copa do Mundo. Neste momento acredito mais na confiança que o escrete brasileiro vai tomando do que em uma suposta evolução. Fato mesmo é que a partir do jogo de ontem à noite contra a Escócia qualquer erro, ou equívoco, poderá se revelar fatal.  

quinta-feira, 18 de junho de 2026

O que a Copa me mostrou



Em meio a tantos conteúdos relativos à Copa e ao futebol com os quais fui bombardeado nos últimos dias um me tocou em especial. Tratava-se um trecho de depoimento dado por Zagallo ao Museu da Pessoa. Nele o campeão do mundo relembrava circunstâncias que cercaram a final da Copa de 1958, a primeira vencida pelo Brasil. E o fez com nobreza, para destacar a postura que tiveram os suecos a respeito do jogo decisivo. O Brasil, todo mundo sabia, não gostava de jogar na chuva, lhe fazia mal. A água jogava contra o talento, impedia a bola de pé em pé. E antes da decisão choveu muito. Choveu na quinta, choveu na sexta, choveu no sábado. Domingo, dia da decisão, não. A chuva tinha parado. O velho Lobo ao falar deixava vislumbrar em seu rosto a certeza de uma lembrança que parecia ter o frescor de algo vivido no dia anterior. Pudera. E os suecos, que fariam a final com o Brasil, sabiam muito bem o que a chuva significa para o time adversário. Mas o que fizeram eles? Mandaram cobrir o gramado. Protegê-lo em nome do espetáculo. Sem dar a mínima para o proveito que poderiam tirar da situação. O fim da história todo mundo sabe. O time brasileiro impôs a eles um cinco a dois e os suecos nunca mais voltaram a disputar o título. 

Resgato essa passagem porque acredito que se tem um coisa para a qual essa Copa que aí está pode nos servir é para nos jogar na cara o quanto a postura dos homens molda o futebol.  Logo de cara tivemos em campo, no jogo de abertura, um árbitro brasileiro. Justo quando a arbitragem por tudo o que andamos vivendo por aqui deixa no ar a impressão de que ela é o pior que o futebol brasileiro tem a oferecer. E quero passar longe de qualquer veredito a respeito da atuação de Wilton Pereira Sampaio. Mas quero tomar partido e dizer que não concordo nenhum um pouco com o que ouvi sendo dito por aí. Que ele lá não apitou como apita aqui. Tenho dúvidas de que poderia, uma vez que o respeito ao árbitro, as atitudes em campo, o peso de cada jogo, a exposição planetária, redundam em realidade totalmente distinta. 

Sem contar que os árbitros que lá estão passaram a ter recursos que até então não tinham. Regras para evitar que o jogo se transforme em enrolação. E um amparo tecnológico ampliado, que a arbitragem da partida entre Estados Unidos e Paraguai me deixou com a impressão de ter usado com maestria. Quis o destino que fosse nessa partida que eu desse de cara pela primeira vez com um jogador a esbravejar com o árbitro. E esse alguém era o o zagueiro Gustavo Gomes, cujo comportamento conhecemos bem. Mas, foi um lance na linha de fundo que me fez perceber que nosso futebol aqui pode ser ajudado. Foi quando o VAR, com toda a discrição necessária, avisou o árbitro de campo, o holandês Danny Makelie, que ele tinha sido iludido. Tinha sido vítima de uma dessas encenações bizarras, feita pelo paraguaio Almirón. Encenação que tinha feito o zagueiro do time norte-americano, Ream, levar o cartão amarelo. 

Constatada a malandragem o cartão foi imediatamente invertido. E o meio campista paraguaio vai poder contar para os netos um dia que foi o primeiro esperto a passar a vergonha de ser flagrado pelo VAR cometendo um ato do tipo em uma Copa do Mundo. A correção só foi possível porque havia um cartão amarelo dado.  Mas acho que tá mais do que na hora de não fazer coisas dessa natureza depender de situação alguma. Constatado o flagrante o meliante deveria ser punido, fosse qual fosse o contexto. Do jeito que está posta a mudança creio que já será de grande valia na realidade absurda criada pelos jogadores brasileiros. Fará quem sabe evoluirmos um tanto, mas deixo uma sugestão. Podendo o flagrante ser dado a qualquer momento, sem ter redundado em cartão, tenho certeza de que faria nosso jogo andar um meio século para a frente. Não me iludo. Sei que isso é só o começo, que os homens do apito a partir de agora irão cada vez mais dar de cara com jogos que para serem devidamente domados exigirão deles cada vez mais. E que a qualquer momento um espertalhão, ou um esquentadinho, pode fazer a Copa tomar ares de Libertadores. Por isso deixo um "viva" pra quem ainda trata o futebol com a nobreza devida.    

sexta-feira, 12 de junho de 2026

O preço da maior Copa de todas



Sabemos todos que a última não foi uma quinta-feira qualquer. A abertura da Copa pode não ser daqueles momentos que altera drasticamente agendas, esvaziando escritórios, lotando bares, tornando a chegada em casa uma corrida contra o relógio. Mas se coloca na ordem do dia. No mínimo se intrometendo no cotidiano de muitos. Mesmo antes de a bola rolar as atenções se voltaram para o estádio Azteca que se já tinha ar de nobre, a partir de ontem ganhou ainda mais, ao se transformar no único lugar do planeta a servir de cenário para o evento em três oportunidades. Mas há um sem fim de detalhes que já vivemos por aqui e que passarão despercebidos. Os gastos astronômicos que se escondem por trás da festa. 

No caso do México falam num total de 41 bilhões de reais investidos. Isso para ter três sedes e não uma Copa toda pra chamar de sua. Serão breves onze jogos na pouco expressiva fase de grupos e apenas dois quando o evento chegar ao mata-mata. Pra se ter uma ideia, segundo a apuração do Tribunal de Contas da União, o gasto do Brasil que sediou uma Copa inteira em 2014 foi de 25 bilhões. A reta final de preparação por lá evidenciou, como sempre, que as obras de mobilidade não andaram na velocidade que tinham de andar. Tudo muito previsível. 

E muitos dos que têm bons motivos pra protestar contra o governo local não perderam a oportunidade. Uma semana antes da abertura os professores mexicanos em greve nacional, bloquearam ruas, entraram em confronto com a polícia, derrubaram símbolos ligados ao Mundial e ameaçaram fechar aeroportos. Tão batido quanto ver professores nesta situação são as reivindicações que fazem. Salários defasados, mudanças no sistema de aposentadoria. Perdoem o contraponto ao momento festivo. Mas isso tudo serve para elucidar as manobras de quem verdadeiramente lucra com o evento. 

A Copa de 2026  expandida para quarenta e oito seleções e três países está quebrando todos os recordes financeiros e, leio aqui, já se tornou o maior motor econômico da história do futebol mundial.  A competição projeta uma geração de 80 bilhões de dólares, cerca de 400 bilhões de reais, em produção bruta global. Seja lá o que isso quer dizer. O que por tabela torna muito claro porque a próxima será disputada em seis países e três continentes. Esse gigantismo todo me faz pensar quanto não lucrarão os sites de apostas ao redor do mundo. E se não estamos fadados a um dia vermos o mundo inteiro envolvido com a Copa. Assim pelo menos as Seleções poderiam economizar jogando cada uma na sua casa, ou tornando as disputas regionalizadas. Isso geraria economia, um impacto menor na emissões de carbono. Mas ninguém vai querer jogar contra algo que vem dando tão certo. Ainda que a gente saiba que as emissões de carbono da edição que está pra começar, segundo especialistas, irão muito além das emitidas nas edições de 2018 e de 2022. 

Mas talvez a FIFA esteja tão antenada com tudo que por isso até já anunciou a troca da empresa que há décadas produz os álbuns e as figurinhas oficiais que, descobri dias atrás, usa um tipo de silicone no verso das mesmas que contamina o processo de reciclagem padrão. E por isso se jogado no lixo comum - ou misturado com a coleta seletiva - fatalmente irá parar em aterros sanitários onde precisará de cem anos pra se decompor. O que a essa altura não tem o menor cabimento. Não quero com esses detalhes todos minar a diversão de ninguém. Mas como jornalista fui doutrinado a olhar sempre para os dois lados. E a conclusão que chego com toda a minha rabugice é que é preciso sempre questionar.  Por exemplo, qual será realmente o preço a pagar por essa Copa que nos vendem como a maior de todos os tempos?