quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Os nobres do futebol brasileiro



Para além do fato de fazer valer o investimento seria muito bom que o Palmeiras fosse mesmo lapidando pra valer o futebol que anda jogando. Mas não há como derrotar o pragmatismo de quem rebate esse argumento dizendo que se vierem os títulos basta.  Não tenho a menor dúvida. Ocorre que jogar um bom futebol continua sendo um antídoto muito apropriado para possíveis insucessos.  E já que é para tratar as coisas de modo pragmático é bom que se diga que o time de Abel já passou da hora de equilibrar as coisas com seu maior rival, que anda por aí ostentando a marra de quem se fez atual campeão brasileiro e da Libertadores. E na mesma temporada. O que nunca foi pouca coisa. E algo que o Palmeiras jamais conseguiu. 

Não sou do tipo que costuma fazer pouco caso de vice-campeonatos. Mas é preciso admitir que chega uma hora em que eles já não resolvem. E é justamente esse o momento que o Palmeiras atravessa. E se tem conseguido lidar bem com as situações e ir toureando as cobranças é também porque teve lá seus méritos. Um bicampeonato da Libertadores é algo gigante, mas glória da qual, aos poucos, o tempo vai tirando o viço. Seja lá como o Palmeiras venha a viver os últimos capítulos desta temporada acho que Abel deveria ser mantido até o final dela. E assim dar cara ao que pode pode vir a ser glória ou ocaso. Caí neste tema porque não é de hoje que ando incomodado com o fato de na maior parte das vezes acabar obrigado, pelo que se dá, a tingir esse nosso encontro com ares de crítica. 

Sei que é o que a realidade pede, mas andei imaginando que cairia bem forçar uma mudança de tom.  Assim me coloquei à procura de um recorte que, de alguma forma, versasse sobre o que nosso futebol tem de bom. E já faz um tempo que sua melhor versão encontra tradução em Palmeiras e Flamengo, ou vice-versa. Ainda que sejamos obrigados a reconhecer que muitas vezes mais pelo poderio econômico do que exatamente pelos tratos dados à bola. E nessa renhida disputa não estar mais na Copa do Brasil pode não ter sido uma tragédia, mas que os rubro-negros gostariam de não ter dado aos palmeirenses essa chance de vira e mexe serem lembrados, como quem não quer nada, que o time alviverde, apesar de tudo, segue vivo nas três frentes, isso gostariam. 

Aos palmeirenses um velado desconforto reside no fato de o rival ser visto, não é de hoje, como dono de um futebol mais capaz de encantar. Que aproveite o embalo do bom jogo de ontem contra o Santos. Equilibrar essa questão talvez fosse, veladamente também, uma maneira de minar um pouco a confiança do rival.  Porque o futebol pode ter mudado muito, pode ter virado de cabeça pra baixo, mas estar diante de um time de futebol respeitável, brilhante, jamais deixará de causar alguma intimidação. Coisa bem diferente de ficar a frente a frente com uma equipe vencedora, mas que tem na capacidade de competir seu viés mais louvável. 

Que Abel e seus comandados não creiam, por outro lado, que a Copa do Brasil venha a servir de tábua de salvação. Já serviu. Nos dias que correm tem tudo pra não fazer efeito. Será preciso no mínimo adornar a história palmeirense com um novo Brasileirão ou com uma nova Libertadores. Enquanto com o Flamengo a realidade tem tudo pra ser mais benevolente. Num arroubo de complacência, e a depender de como a história venha a se desenhar, o torcedor rubro-negro talvez seja até capaz - depois da bronca - de absolver o time, o clube, se acabar vice nas duas frentes. E não se trata, de modo algum, de usar dois pesos, duas medidas. É uma condição que o Flamengo conquistou por ter sido mais vencedor e ter jogado mais nos últimos tempos. Mas, como gostam de lembrar os entendidos, as conquistas perdem efeito rápido. E títulos precisam sempre ser alimentados com títulos.  

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Futebol: Quanto mais você conhece...



Toda vez que o futebol nos revela uma de suas faces bizarras, e são muitas, costumo sacar uma velha frase que a vida me fez cunhar sobre o jogo de bola que, acredito eu,  resume bem a realidade que o cerca. A frase é: Futebol, quanto mais você conhece mais difícil fica de gostar. Os que convivem mais comigo já a escutaram muitas vezes. Fiz dela um antídoto para os momentos em que essa dita paixão nos envergonha, nos obriga a pensar o quanto nossa razão precisa ser posta de lado para conseguir seguir enxergando o futebol como algo encantador e divertido. Nos últimos dias vimos as ofensas racistas novamente encenadas em arquibancadas argentinas onde a reincidência daria margem a uma punição dessas exemplares que os homens que cuidam do futebol, pelo visto, nunca têm o interesse em praticar. Muito pelo contrário. 

A tática, em geral, estamos cansados de saber, quando tomam alguma atitude nesse sentido, é para pouco depois tratar de ir abrandando a pena. Transformando punições em multas. Ou acabam tomando outros caminhos tão manjados quanto. E depois de tudo o que temos visto há aí um protocolo estabelecido que começa com o gesto feito pelo árbitro apontando a situação e que, em seu desdobramento maior, retira os times de campo. Com certeza não vamos resolver a questão parando partidas por uns míseros minutos e solicitando para um jogador do time da casa ir até a beira do campo pedir que a cambada na arquibancada maneire. Algo na linha do que se deu no jogo de ida do Corinthians contra o Rosário Central, na Argentina. 

A sequência do roteiro tomou seu caminho protocolar. Com a Conmebol abrindo investigação para apurar o corrido. E estar na arquibancada sempre foi um jeito eficaz de se fazer íntimo do futebol, de conhecê-lo. E por isso arrisco dizer que mesmo com todo o avanço em matéria de comportamento - que a onda do politicamente correto veio decretar - a vivência nesse ambiente é prodiga em nos fazer desgostar do jogo. Como é um tremendo desgosto dar de cara com os números divulgados no Fórum Brasileiro de Segurança Pública de São Paulo, segundo os quais em dias de jogos as ameaças e agressões contra as mulheres chegam a crescer quase trinta por cento. Segundo os resultados os dias que registram os maiores aumentos são as segundas, sextas e domingos. E que os registros de lesão corporal sobem mais nos dois dias do final de semana. 

Mas o que achei ainda mais estarrecedor foi o aumento dos registros do tipo em mulheres na faixa dos quinze aos vinte e nove anos que nesse recorte chega a quarenta e quatro por cento.  Era de se esperar que a onda do politicamente correto ajudasse, no mínimo, a estancar o crescimento desse tipo de violência, mas em comparação ao estudo feito anteriormente os números cresceram. E, pasmem, houve também uma inversão com os registros de violência física superando os de ameaça. Imaginar o futebol como catalisador desse tipo de comportamento é profundamente triste. O estudo recomenda ações envolvendo clubes, Federações e torcidas para mitigar a violência contra a mulher. Decidir pela melhor estratégia pode até gerar dúvidas, só não dá pra duvidar de que o futebol insiste em fazer valer a velha máxima de que quanto mais o conhecemos mais difícil fica de gostar.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Que critério é esse?



Nada de justiça. As conversas sobre o jogo de bola clamam mesmo é por critério. Faz tempo que essa invocação é feita como se pudesse nos livrar dos males causados por arbitragens que, na falta dele, acabam condenadas da maneira mais veemente. Por definição, critério é um padrão usado como base para fazer uma avaliação, um julgamento, uma comparação. O último caso vem bem a calhar porque nas muitas tentativas que andamos fazendo para tentar livrar a cara de um árbitro, ou na maior parte das vezes condená-lo, é daí que partimos. Mas alcançar um padrão não é algo simples.  E a coisa descamba de vez, alterando ânimos, quando fica evidente que talvez nem um mesmo árbitro consiga ter um padrão. Em outras palavras, critério. 

O que me faz crer que atingir essa uniformidade venha a ser algo tão complexo quanto chegar à iluminação que tanto norteia a aspiração dos budistas. Um dos hábitos muito notados é o de comparar esse lance com aquele. O que, em geral, acaba servindo como ponto de partida para contestar a decisão apresentada, já que em cada um desses momentos a decisão tomada diante deles foi diferente. Mas como o viés filosófico baixou de vez por aqui vou tentar ampliar o horizonte do que está proposto. Portanto, vos digo: encontrar dois lances exatamente iguais - em tese - me parece tão desafiador quanto encontrar duas pessoas exatamente iguais. Coisa que nem mesmo os gêmeos conseguem ser. Um lance pode ser parecido muitas vezes com um outro, mas tudo o que o cerca provavelmente fará dele algo singular.  

E no fundo disso tudo está algo mais alarmante, a suspeita de que ninguém mais sabe o que viria a ser esse critério. Aproveito e deixo aqui a minha confissão de que me sinto numa infinidade de momentos parte desse time. E, digo mais, nem mesmo os boleiros, que deveriam exibir notável conhecimento a respeito da questão, se mostram competentes pra isso. Muito pelo contrário. Vejam o caso que se deu no jogo entre Grêmio e Mirassol dias atrás, quando o time do interior paulista jogando na casa gremista teve um gol anulado que poderia ter mudado tudo. Quando dei de cara com a cena de imediato discordei da decisão do árbitro. Pra dizer a verdade a considerei quase absurda. Eis que depois do jogo o personagem que protagonizou o lance que levou à anulação do tento disse com todas as letras que a bola tinha mesmo resvalado no braço dele. O que a meu ver nem constituiria culpa porque estava junto ao corpo, coisa que os entendidos vivem dizendo que justifica a absolvição. 

Mas em seguida o jogador do Mirassol objetou que discordava da decisão porque se o mesmo lance tivesse se dado no meio de campo teria sido interpretado de outro jeito. E eu me peguei a pensar em todas as  variantes advindas de casos assim. Sem contar que não consegui deixar de ponderar que esperar que lances que se dão dentro da área, ou bem longe dela, sejam vistos exatamente da mesma forma não faz muito sentido. A veia filosófica me faz crer que a urgência que cada um embute e o evidente efeito que cada um pode ter quase os levam pra lados totalmente opostos. Se você chegou até aqui pensando que eu vos brindaria com uma alguma solução, peço perdão por desapontá-lo. Não sou mágico. Mas não vou perder a oportunidade de dizer que estou convencido de que em outros tempos, quando tudo o que tínhamos eram nossos olhos e uns poucos recursos técnicos para tentar entender o todo, esse tal critério parecia algo mais factível.    

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A regra do capitão



Tudo é uma questão de educação. Foi assim que um amigo certa vez praticamente acabou com uma acalorada conversa a respeito do comportamento dos jogadores em campo. No fundo grande parte do que nos incomoda no mundo externo é uma questão de educação se pensarmos bem. Desde o cidadão que teima em nos fazer ouvir a música que ele escolheu. Passando pelo sujeito que simplesmente ignora o semáforo em vermelho. O que anda na contramão. O que sai pra passear com o pet deixando na calçada os vestígios do passeio. Há um sem fim de exemplos. Mas vamos tratar da boleirada. Bastaram aí umas poucas rodadas pra eu perceber o quanto fui ingênuo ao pensar que a Copa, com suas novas regras, pudesse de algum modo trazer avanços. Mas a impressão que tenho é de que a coisa se acentuou. 

E nem tô falando da manjada simulação que é coisa de dar nos nervos. O que estamos vendo parece beirar o caos total. Chegamos ao ponto em que um lance qualquer tem servido de pretexto para que se cerque o árbitro. Muitas vezes de dedo em riste. Obrigando o tal a escutar outras versões do ocorrido. Todas elas muito duvidosas obviamente. Sou levado a crer que o avanço desse tipo de atitude está ligado ao comportamento de dirigentes que, de uns tempos pra cá, perderam totalmente a postura. Já não pensam duas vezes pra fazer acusações, talvez encantados pela notoriedade que essas bravatas costumam lhes conferir. O que acaba por encorajar os jogadores a seguirem caminho parecido usando os recursos que têm. 

Fato é que a coisa anda beirando o insuportável, a ponto de dar a impressão de ameaçar colocar por terra o pouco encanto que ainda resta do nosso futebol que, um dia, encantou o mundo. Pode soar apocalíptico, e é. Não se enganem.  Já disse aqui, e volto a repetir: a principal arma para combater essa questão continua sendo a arbitragem, na figura dos árbitros. Ainda que eles precisem do amparo de uma autoridade que já nem sei se o futebol brasileiro tem. Imagino que o preço a pagar seria alto. Expulsões logo de cara. Desde sempre um tabu no jogo de bola. Uma farta distribuição de cartões para quem ousasse se exaltar. E outras atitudes que num primeiro momento poderiam soar extremadas mas que no curto prazo poderiam nos levar a uma melhora de comportamento que se faz urgente. E talvez fosse o caso também de colocar essa boleirada, que sempre achou que não tem nada pra aprender, em salas de aula. 

O aprendizado deixaria clara a realidade mais dura que passariam a encontrar em campo na figura dos árbitros, mas também serviria para fazê-los perceber o quanto isso, em última instância, poderia trabalhar a favor de todos. Fato é que nossa memória é mesmo muita curta. Faz pouco mais de dois anos, foi pouco antes dos jogos de Paris, a FIFA instituiu a chamada regra do capitão. Ou seja, apenas os capitães dos times poderiam  se aproximar e falar com os árbitros. E, detalhe, isso nos momentos em que eles fossem tomar decisões importantes. Nada de uma falta na lateral da intermediária ou coisa parecida. Pois bem, isso tinha se dado em julho. No mês seguinte, em agosto, a CBF, dizendo seguir as diretrizes da entidade-mor - cujo presidente atual neste momento vale um artigo - distribuiu um comunicado oficial aos clubes brasileiros dizendo que a partir daquele momento seria estabelecida a tolerância zero para jogadores que pressionassem ou cercassem o árbitro. Só mesmo rindo, pra não chorar.