quinta-feira, 28 de maio de 2026
Um grande personagem
sexta-feira, 22 de maio de 2026
Ancelotti em versão brasileira
sexta-feira, 15 de maio de 2026
O mito corintiano
Desde que assumiu o comando do Corinthians o técnico Fernando Diniz tem claramente optado pelo que eu chamaria de uma gestão passional. Num primeiro momento isso pode parecer não fazer muito sentido já que o treinador ao longo de toda sua carreira demonstrou ser um profissional com esse perfil, sempre emotivo. Tudo muito afinado com sua formação. Sua condição de psicólogo. Mas no Corinthians, tenho a impressão, tudo tomou um outro tamanho. Não por acaso. A história pessoal dele legitima o discurso. O faz forte. Já ouvi até quem tenha dito que tanta ênfase poderia dificultar possíveis idas futuras a outros times da capital.
Mas se há uma coisa que se deve reconhecer em Diniz é a coragem. Muitos treinadores por aí já foram chamados de convictos, no bom e no mau sentido, mas poucos, muito poucos, de tantos que temos acompanhado, agiram dando a impressão de não ter a mínima preocupação de manter o emprego. O jogo desse mineiro sempre foi outro. Fé cega no jeito de interpretar o jogo e a vida. E isso explica certamente porque as emoções que desperta em geral estão nos extremos. E acabam por emprestar algum sentido a essa coisa já meio batida de ser, ou não ser, Dinizista. Desde a primeira coletiva dada na condição de técnico do Timão, Diniz ressaltou seu mais de meio século vivendo na zona leste paulistana, reino corintiano. O fato de morar no bairro do Tatuapé. E talvez isso me soe tão cheio de sentido porque lá também tenho raízes. Nasci na maternidade Cristo Rei que, outro dia me disseram, nem existe mais.
Não discuto a estratégia. Mas quero confessar que ela tem me feito pensar muito sobre o mito de ser corintiano. Um mito , como se sabe, é uma narrativa que explica certos aspectos culturais de um povo. Aqui, no caso, leia-se torcida. E em certo sentido o enredo da última partida do time na Libertadores, com um gol livrando o time da derrota nos acréscimos, foi creditado a esse mito corintiano. Quem sou eu para negar. Mas vou achar sempre prudente lembrar que comungo de certo ateísmo ludopédico, que me faz entender que as conquistas sempre exigirão que se jogue um pouco de bola. E digo isso porque não faz muito tempo ouvi um amigo pregar que essa coisa de ter garra e tal não é exclusividade de ninguém. Observação difícil de contestar num primeiro momento.
Mas como me dou o direito de ter também certas crenças confesso certa dificuldade em não reconhecer nos corintianos, se não a raça sem igual, a fé. Que atire a primeira pedra aquele que, amando, jamais sofreu pelo time que torce. Portanto, sofredores todos somos. O que enxergo é esse traço. Em outros tempos muito comentado, mas que ultimamente não vejo tão em evidência assim, falo da tal fé corintiana. A velha alcunha de fiel torcida. E sei que ela deve andar sendo testada por todos os pecados que têm transformado um dos clubes mais populares do país em um verdadeiro caso de polícia. É óbvio que a fé também jamais será exclusividade de ninguém.
O amigo Oscar Ulisses, observador sagaz das coisas que se dão em campo, alimenta a teoria de que o corintiano, mais do que qualquer outro torcedor se importa é com a vitória. Não interessa que ela venha no último centésimo, ou seja fruto de um futebol que não se dá ao respeito de ser chamado de elogiável. Quem sabe não seja possível explicar isso por uma capacidade de fé fora da curva. Pois diante de um desfecho do tipo só um fiel pode se achar verdadeiramente atendido. E, cá entre nós, só com muita fé pra acreditar que dá pra ser campeão da libertadores, ou que ainda não é tempo de começar a levar o Brasileirão a sério. Seja como for, Diniz deixou claro que pra qualquer missão com o alvinegro faz questão de relacionar o mito.
segunda-feira, 11 de maio de 2026
Hoje tem !
Cartão Verde, ao vivo, toda segunda, 20h, na TV Cultura
Com Arnaldo Ribeiro, Mauro Cezar Pereira e Oscar Ulisses
Assista:
quinta-feira, 7 de maio de 2026
O drible não tem culpa
Vou fazer o possível para driblar o que se deu em um treino entre o garoto Robinho Junior e o astro Neymar. Entrevero que virou das notícias mais comentadas nos últimos dias. Quero usá-lo apenas como um ponto de partida. Sem entrar nos méritos. Ainda que melhor mesmo seria dizer deméritos. É que mais do que qualquer outra coisa, o episódio a mim serviu para tornar ainda mais evidente o tratamento pouco honroso que o drible vem recebendo no nosso futebol não é de hoje. Que ele seja demonizado quando se dá num jogo à vera, como temos visto acontecer muitas vezes, se não é aceitável, ao menos, se dá em um contexto onde a rivalidade impera, e quase sempre é usada como argumento para justificar destemperos. Mas em um treino? Onde mais um jogador poderia lapidar suas habilidades?
Vestir o drible com esse traje de desrespeito pode explicar a razão para que ele ande sendo coisa tão rara de se ver. O drible é, antes de tudo, requinte. E é bem provável que no altar das coisas sagradas do jogo de bola só ocupe lugar menos nobre do que o gol. Há o lançamento primoroso. A matada de bola certeira. Mas tudo isso transita em outras instâncias. Notem que quase sempre pesa sobre o driblador a pecha de sujeito que gosta de fazer pouco caso do adversário. Enxergam nele um provocador. Mas é a eles que os amantes do jogo mais facilmente se rendem. Não por acaso fazem fama. Ainda que quase sempre tenham sobre si esse quê de hereges. Se pensarmos bem, nesse futebol de hoje tão físico, onde não segurar muito a bola é mandamento, desenhar um lance que favoreça o drible pode beirar a desobediência.
Imagino que muito provavelmente não há castigo maior para um driblador do que se ver vitimado pelo veneno que ele costuma inocular em suas vítimas. A história dá pistas de que esse gesto - que até os dicionários parecem ter certa dificuldade para definir - abriu as portas da realeza para muitos. Mas só os verdadeiramente nobres foram capazes de dispensar ao drible o tratamento devido. Estando eles no papel de executores ou de executados. É famosa a história do primeiro treino que Garrincha fez no Botafogo em junho de 1953. Escalado na ponta-direita pelo técnico Gentil Cardoso, o novato que ainda não tinha completado vinte anos de idade, não tomou conhecimento do lateral esquerdo que estava ali para marcá-lo. O lendário Nilton Santos, jogador da seleção.
No primeiro lance, pra se livrar da tentativa do desarme, Garrincha o driblou pra fora. Nilton Santos, então, teria corrido atrás dele e, uma vez lado a lado, viu o garoto parar bruscamente e lhe aplicar outro drible parecido, mesmo que dessa vez a tentativa de lhe tirar a bola tenha sido mais veemente. E não foi tudo. Apesar de Nilton Santos ter levado a melhor em algumas situações, acabou tomando uma bola entra as pernas. Algo que, dizem, Nilton Santos jamais tinha permitido a ninguém. Depois do treino, os dirigentes do Botafogo, ainda que loucos para fazer o garoto assinar qualquer papel, claro, foram consultar Nilton Santos, que definiu o jovem como um monstro. E afirmou que precisavam contratá-lo. É melhor ele conosco, do que contra nós, sentenciou o lateral-esquerdo, tido como o melhor de todos os tempos. Mas muitos dos entendidos que andei ouvindo nas últimas horas preferem dizer que desavenças do tipo são normais. Vejam, uma coisa é se desentender. Outra, bem diferente, é culpar o drible. O drible não tem culpa.





