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quinta-feira, 9 de julho de 2026

Confissões de um amador

 


Sabe, não é do meu feitio dar traço tão pessoal a esse nosso encontro. Vira e mexe tenho umas recaídas, reconheço. Mas é que há nesse meu fazer um traço de terapia, visto que estas linhas insistentemente traçadas por vezes fazem com que o bendito que as crava no papel se conheça um tanto melhor. E isso para o bem e para o mal. Mas dessa vez é a Copa que aí está que me fez tomar esse caminho. Enfim, preciso confessar minha tendência ao amadorismo. Só pode ser isso. Não vejo outra maneira de explicar. Sei que há tanta gente que dedicou a vida a decifrar esquemas. A se fazer bom nesse ou naquele jeito de jogar. Senhores que são vistos como doutores nessa arte, as construindo ou as interpretando. Gente que, às vezes, mesmo perdendo de sete a um não abandona aquele jeitão seguro e segue olhando os que não lhe adulam com ar de descaso e, mais do que tudo, de impaciência. 


E estou convencido disso mesmo que alguém da patente de um Ancelotti tenha se definido como um sujeito que não é nem cem por cento tonto, nem cem por cento gênio. Mesmo assim, continuo a achar que nem passa pela cabeça de qualquer um deles aceitar esse meu modo de ver o futebol. Ainda que no caso do italiano, depois de ter visto o que vi, eu seja levado a crer que a parte da afirmação que versa sobre não se tratar de um gênio soe mais precisa. Mas pode ser só um efeito colateral das escolhas dele que parecem ter contribuído para semear uma certa depressão futebolística em muitos dos meus amigos. E não se impacientem, vocês vão logo entender onde quero chegar. 


É que ao ver partidas como vi a Colômbia e o México fazerem, acabo convencido de que uma dose considerável da mais pura entrega talvez nos fizesse viver algumas alegrias e, a partir delas, sabe como é, poderíamos ganhar confiança e aí o céu seria o limite, ou por um infortúnio qualquer talvez o limite viesse a ser a França de Mbappé e sua turma. E que turma.! Mas seria um final digno. Não haveria do que reclamar. Acho que nos termos atuais a isso se dá o nome de intensidade. Pois toda vez que dou de cara com uma peleja descrita pelo narrador como de altíssima intensidade está lá um time desses que - como diz meu tio Afonso, sabedor das coisas - coloca o coração na ponta da chuteira. Um time para o qual não há bola perdida, que não deixa o adversário respirar, que dá um jeito de ter pulmão pra maior parte do tempo ir marcar o outro time lá no campo dele. 


Tudo bem ! O México e a Colômbia ficaram pelo caminho, mas com a postura de quem sabe que tem um nome a zelar. Sem contar que encontraram pelo caminho um time inglês e um Suíço que não se furtaram a encarar o jogo da mesma forma. A Colômbia me empolgou de tal modo que já imaginava vê-la diante dos atuais campeões do mundo. E imaginava que se mostrasse em campo a disposição que tinha tido diante de Portugal nada me tirava da cabeça que daria aos seus torcedores, mesmo eliminada como acabou sendo, um tipo de dor da qual eles poderiam quase se orgulhar. 


Olha, não que eu ache que nossos jogadores sejam incapazes de tomar pra si tal tarefa. São dados a fazer coisas mais difíceis.  Brilhar na Premier League, serem artilheiros por lá. Serem vistos como estrelas pelas quais muitos se mostram dispostos a pagar dezenas e dezenas de milhões de euros. Vocês não fazem ideia de como essa minha crença num certo amadorismo me maltrata. Não entrem nessa, acho que deve ser bem menos sofrido se sentir um tanto derrotado achando que o talento de Casemiro, Paquetá, Raphinha e Neymar uma hora dessas iria nos fazer novamente campeões do mundo. 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Um atalho pro caneco



A Copa, não tenho dúvida, e já disse, serve pra colocar certas coisas no lugar. No meio dela só uma coisa me assombra: a volta à realidade do futebol brasileiro. Temor que lembro bem ter cultivado em momentos similares de outrora. Não bastasse a qualidade duvidosa de muitos jogos, tem a arbitragem. O VAR. Mas não quero minar a diversão de ninguém. Por falar nele, todo reconhecimento ao que conseguiu o Paraguai, que pelo jogo que fez na estreia me deu a impressão de nem estar muito a fim de encarar o Mundial. Ou de não ter entendido o que ele significava. Digo isso porque o gol anulado feito pelo zagueiro alemão Jonathan Tah, que bem poderia ter classificado a Alemanha, soou como um erro que, pensando bem, atentou contra os alemães e contra quem ainda insiste, uma vez estando em campo, em jogar bola e não se ocupar de não deixar que outros joguem. Juro que não vi a falta no goleiro que embasou a anulação.

Sei que a onda agora é conseguir parar a remada forte dos noruegueses, mas antes de versar sobre os nórdicos gostaria de falar sobre os orientais que dias atrás estiveram no nosso caminho. E aí volto ao mote do início. Porque se a vitória diante do Japão nos mostrou que em matéria de bola ainda temos alguns recursos que soam raros para certos adversários, eles por outro lado, se bem observados, podem nos ensinar muito. Achei o máximo ficar sabendo que o projeto para o futebol japonês prevê a conquista de uma Copa até o ano de 2050. A paciência é uma virtude imensa. E isso, o planejamento, e não o resultado em si, deveria virar um mandamento para os dirigentes brasileiros que torraram praticamente todo o último ciclo entre uma Copa e outra pensando no próprio umbigo e contratando treinadores como quem só quer tirar uma batata quente da mão. Condenando a torcida brasileira neste momento a torcer para que o medalhão Carlo Ancelotti com toda a sua estrada se faça o guru que nos guiará por algum atalho que leve até o mais cobiçado dos canecos. 

Dirão os entusiasmados que esse revirar o passado está sendo feito fora de hora. Coisa tão difícil de saber que no Equador - e no Paraguai posteriormente- acabaram decretando feriado depois de um jogo. Entendo que políticos não possam jamais deixar uma bola pingando na área. Se a moda pega os franceses talvez não voltem a trabalhar. Não sei , algo me diz que esses Presidentes sul-americanos se fossem centroavantes, temo, acabariam acusados de ter perdido totalmente o tempo de bola.  Ainda acho que pra nação feriados fazem mais sentido em dias de jogos e não depois deles. E, além do mais, anda meio na cara que foi-se o tempo em que a política era farta de craques. A maldição dos perebas nesse campo me dá a impressão de ser uma epidemia mundial. 

Mas voltando aqui pra nossa casinha, seja qual for o desfecho do encontro que o Brasil tem marcado com os noruegueses em vindouro domingo, é bom não esquecer que triunfos do tipo,ainda mais os que acabam nos deixando com a taça na mão, sempre tiveram o poder de sugerir de maneira convincente de que a partir dali nada mais seria como antes. Mas não tarda e os nossos meninos bons de bola continuam se despendido de suas paragens, os dirigentes se distraem com seus afazeres, ou tentando se livrar de algum pecado e o futebol brasileiro volta a procurar o caminho que perdeu. E que fazia dele algo respeitável, belo, raro, recriando a mágica que dava à camisa amarela um peso mais difícil para os outros suportarem do que pra quem a veste. Tudo enquanto os japoneses com seus passos estudados, sua determinação e sua devoção pelo coletivo vão caminhando sem retroceder, e assim quem sabe acabem chegando em 2050 bem antes de nós.   

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Driblando a excelência



Em um primeiro momento a afirmação de que o futebol faz pouco caso da excelência técnica pode soar leviana. O que o leva a esse caminho pouco nobre é que é a grande questão. Há um sem fim de acontecimentos que deixam isso claro. Dois muito recentes podem ser tomados como exemplo. A demissão do técnico Hernán Crespo, quando o São Paulo dava a impressão de estar vivendo um momento promissor. E a troca de Filipe Luís pelo português Leonardo Jardim no comando do Flamengo. No caso rubro-negro contribuiu para dar ares mais surreais ao ocorrido o fato de o Flamengo pouco antes ter construído uma goleada de oito a zero sobre o Madureira, que pode não ser um adversário intimidador mas mesmo um leigo no assunto teria noção de que um placar dessa envergadura não se constrói sem um resquício que seja de excelência. 

Talvez esse discurso venha a soar meio sem pé nem cabeça pra muitos, já que vivemos em um país que fez popular aquele ditado que diz: manda quem pode, obedece quem tem juízo. Quase um mantra. Sem querer brigar com a realidade, ou por em dúvida o viés cruel do poder, diria que o ideal é que quem manda tenha juízo, já que ele é a faculdade de bem julgar e avaliar. Coisa que tanto no caso tricolor, quanto no do time carioca, o tempo vai sugerindo que não foi o que se deu.  Que quem manda tenha suas preferências também é algo a ser considerado. Mas diria que quanto mais importante o cargo mais ele exige que as preferências sejam deixadas de lado em nome da instituição. Tudo exige um momento certo, até impor vontades. Incompatibilidade de gênios nesses casos terá sempre um quê de canelada. 

E pra mim foi esse o caminho que tomou também o italiano Carlo Ancelotti ao incluir Neymar entre seus vinte e seis preferidos. E essa não é uma reflexão sobre o jogador. É uma reflexão sobre escolhas, sobre o que priorizar. Argumentos temos de todos os tipos. Quem já não ouviu entendidos por aí professarem que goleiro é uma posição de confiança do treinador.  Que o sujeito é bom de grupo. Que fulano melhora o futebol dos outros. Mas eu vos pergunto: e a excelência técnica tão primordial para grandes conquistas que lugar ocupa nesse universo cada vez mais mercadologicamente desenhado? O certo desapontamento que venho alimentando a respeito do treinador da Seleção se alimenta muito disso. Imaginava que uma das diferenças que notaríamos no trabalho de um profissional acostumado a lidar com jogadores de tão alto nível seria uma exigência descomunal com relação à excelência técnica e física.  Talvez o tempo nos mostre que ter um estrangeiro a comandar o time não muda realmente tudo. 

E isso é um ponto de vista que não se restringe a ter, ou não ter, Neymar no grupo. Pois a convocação, de uma maneira geral, trouxe outros nomes que sugerem que  essas excelências não são exatamente prioridades. Ou que elas em última análise podem ser compensadas com uma boa dose de vivência, de experiência. Só assim para aceitar sem questionamento certos nomes que figuraram na dita lista também. Talvez o talento em estado bruto, com toda a mística que o cercou desde sempre, fosse o único argumento aceitável em alguns casos, mas um sujeito pragmático como eu sempre vai achar que o talento nunca se apresenta  despido de uma considerável dose excelência física e técnica. E que é melhor encarar um amistoso de despedida mais como uma festa do que como um oráculo.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Ancelotti em versão brasileira



Eis que podemos, enfim, nos sentir banhados por ares futuros. Uma vez que a grande questão que parecia cercar o futebol brasileiro ficou para trás. Aos que podem ser driblados por meias palavras, que não fiquem dúvidas: sabemos agora que Neymar está entre os vinte e seis preferidos de Carlo Ancelotti, que inevitavelmente nos últimos dias andou frequentando manchetes com uma assiduidade só comparável a dos tempos em que ele próprio se fez a grande questão. Vocês devem lembrar 
que eu brincava com os amigos de ofício dizendo que só acreditaria na contratação quando visse o italiano vestindo o agasalho da Seleção com seus infinitos patrocínios dando treino na Granja Comary.  E pensar que nos dias que virão isso será coisa abundante. Trivial mesmo. 

Mas agora que o treinador já soa tão nosso , que confessa andar disfarçado nas caminhadas que faz pela orla carioca, que já sentiu a vibe dos camarotes chiques do carnaval, e não digo só do  carnaval simplesmente porque acho que vai uma distância aí entre uma coisa e outra, agora eu gostaria de saber como ele viu o modo como a crônica esportiva tratou o principal nome do futebol brasileiro nos últimos tempos. Pode ter achado exagerada toda a importância dada a uma questão a que ele desde o começo emprestou tons pragmáticos, dizendo que podia ser resolvida com uma fria análise até mais física do que técnica, mas que nos momentos finais admitiu não ser uma decisão tão simples. 

Sou capaz de levar em consideração que Ancelotti tenha maturidade e poder suficientes para não se deixar influenciar. Ainda que a decisão dê a impressão de ter ido no sentido contrário. Só não sou capaz de acreditar que ele possa ter ficado indiferente ao burburinho em que o tema se transformou.  Uma celeuma que soou desproporcional e destemperada mesmo em se tratando de um jogador que se fez em dado momento a mais cara transação da história do futebol. Com humildade admito que Carlo Ancelotti tem recursos infinitamente maiores do que os meus - e da maioria absoluta dos que se pronunciaram - para decidir o caso. A dúvida que pode paira agora sobre ele é a que paira não é de hoje sobre o futebol. Até que ponto os interesses podem ter peso maior do que o talento, do que a capacidade de jogar bola, em momentos como esse que aguardamos com tamanha expectativa. 

Fato é que a página está virada e Ancelotti deve desfrutar da melhor forma possível a condição de alguém que chegou com grande amparo. Pode parecer distante de ter desenhado um time até este momento capaz de inspirar confiança. Mas já ficou claro que se há um descontentamento com ele, nasce da maneira meio tacanha que alguns ditos professores têm de encarar o futebol. Como é fato que diante da falta de brilho que temos visto em mais de duas décadas, e que o último ciclo parece ter tornado tão evidente, uma certa descrença no título é inevitável. A mesma descrença que, se acabar em taça, batizará Ancelotti menos como um milagreiro e mais como um profissional de cuja excelência não se deve duvidar. E se isso vier a acontecer as escolhas soarão certas como só um triunfo dessa ordem sabe fazer. E que Neymar, a quem o futebol deu muito, faça por merecer.   

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Eu e a Seleção




Olha eu sei que eu nem devia falar disso aqui. Ainda mais agora que cumprimos todos os compromissos e neste final de ano não teremos mais nenhum encontro. Quem sabe no ano que vem as coisas mudem. Uma festa de gala sempre tem o poder de mudar as coisas. Fazer sacudir um pouco o pó dessa nossa rotina sul-americana meio pobretona e sem glamour. Até acho que o  melhor que temos a fazer é tocar a vida sem pensar um no outro. Tenho certeza que se trata de tática que trará um certo alívio. Você sabe que falo isso com dor no coração. Nos conhecemos há tanto tempo. Tá na cara que nossa relação não é mesma. Como eu sei que já não sou quem eu era. Quisera eu. Mas talvez seja mesmo você quem mais mudou, tá todo mundo dizendo. 

Entenda isso mais como um desabafo do que como uma acusação. Não existe insanidade maior do que acreditar que algo possa permanecer exatamente igual pra sempre. E com os anos tão entrados, como dizem, não fico alimentando esperança de que você volte a ser o que era. Nem eu tenho esperança de mudar. Quem sabe sendo um cara mais resignado, com mais vocação pra aceitar que, muitas vezes, é preciso se contentar com o trivial, pudesse voltar a ter alguma alegria em estar ao seu lado. Mas você me acostumou tão mal. E olha que eu te conheci depois de você ter vivido seu melhor momento. Que importa.  Fomos felizes. Prova disso é que nunca havia passado pela minha cabeça esse rompimento. A sedução que você exercia em mim me bastava. 



Lembro bem da época idílica que foi o começo dos anos oitenta, quando entre um bailinho e outro, ainda animados pela trilha sonora dos embalos de sábado à noite, eu desfrutava a sensação de que você me daria o que em outros tempos tinha dado a outros, aos que tiveram a sorte de chegar antes de mim. Você numa versão capaz de conquistar o mundo, de deixá-lo a seus pés. O que até viemos a viver, mas de um jeito diferente, mais normal. E esse tipo de simplicidade não cabe numa relação como a nossa. Por mais que eu a vida toda tenha cultuado o simples. E não fique pensando besteira. Que só estou nessa porque arrumei outro alguém para me divertir, pra me fazer sonhar.  A minha outra paixão de adolescente, que desde sempre me fez promessas muito parecidas com as tuas está que é um declínio só.  

Foi vista caindo por aí. E depois de ter dado a impressão de que tinha se aprumado voltou a fazer tudo errado. Não duvido que volte a viver o martírio que andou vivendo não faz muito tempo. E, olha, te digo que seria bem feito. A impressão que tenho é que pegou gosto pelas atitudes mal pensadas, mal refletidas. Anda flertando com o desatino. Tipo de atitude que eu sempre considerei imperdoável. Mas deixe isso pra lá. Falemos de nós. Acho até que você não vai mal, orientada por esse italiano que te arrumaram. Sei que é um nobre. E preciso admitir que é dono de uma reputação considerável. Não deixo de reconhecer isso. Se vai te dar jeito não sei.  Como nem sei se ele sabe com precisão de tudo que você andou aprontando. Se sabe dos descaminhos que a trouxeram até aqui. Se há alguém nesse mundo que pode consertar sua vida é ele, não eu. Mas se vai, não sei. 

Nunca a distância se fez tão presente entre nós. Antes te sentia tão perto. Mas o destino, pelo que vejo, insistiu e insiste em te levar cada vez mais longe. Acho até que não seria descabido dizer que ao te olhar agora, quase não te reconheço. E não sei se por isso posso culpá-la, já que esse costuma ser o que se dá com quem é enredado pela fortuna. Essa coisa tão maquiavélica que se finge ser o paraíso e tantas vezes se revela mais dura que um purgatório. Enfim, a realidade aí está. E diante dela o que posso prometer nesse momento é que por tudo o que já vivemos não serei capaz de te esquecer.  É possível que siga te acompanhando, mas com uma devoção fria, uma devoção não de quem ama, mas de quem apenas cumpre um ofício.    

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Ah, os nossos treinadores !

Tenho um amigo de profissão, sábio, que vive alertando os estabanados de que é possível dizer qualquer coisa a qualquer pessoa, o segredo reside no modo de falar. Mas é fato que o mundo está repleto de gente que não faz a mínima questão de ser gentil. E como fiz dos treinadores brasileiros tema deste espaço dias atrás, não vou resistir à tentação de falar sobre o ocorrido no Fórum de treinadores realizado na última terça e que virou notícia pra valer graças a imensa saia justa provocada pelas declarações dadas por Emerson Leão e Oswaldo de Oliveira. Os dois sacaram a gentileza de campo e foram pro ataque pra mostrar que ainda não engoliram a realidade que os mandou, talvez para sempre, ao banco de reservas. Realidade que eles ajudaram a construir. 


Pensando no amigo citado, imagino que o momento até comportasse, pelo que representava, palavras que afirmassem aos presentes de que aquela era uma oportunidade para repensar tudo o que tinha sido feito pelos treinadores brasileiros na nossa história recente, e que claramente se faz necessário um esforço de toda a classe  para que num espaço de tempo muito breve eles possam retomar um espaço que foi todo deles e que hoje está ocupado por um dos treinadores mais respeitados do mundo, que aceitou a missão de trabalhar pelo futebol brasileiro, e  a quem fizeram questão de homenagear na ocasião. Algo nessa linha. Mas, levando em consideração o que prega o velho amigo de redação, adequar discursos exige humildade, exige cuidado. 


Em uma coisa , ao menos, Emerson Leão acertou, o culpado por Carlo Ancelotti hoje ser visto como o maioral na antiga colônia dos ditos professores que aqui reinaram é mesmo culpa dele e de seus conterrâneos. Isso sem falar em Oswaldo de Oliveira, que soou ainda menos polido do que o ex-goleiro da Seleção Brasileira. Mais pelo tom inflamado e por se mostrar tão incomodado com o fato de a Seleção estar sendo comandada por um estrangeiro, do que propriamente por afirmar que espera ver um brasileiro no cargo depois da Copa. E eu arrisco dizer que boa parte dos que acompanham futebol também gostaria que isso se desse. A questão posta - não é de hoje - é que o cargo exige alta capacidade. Também é interessante notar que a deselegância parte justamente de dois profissionais que estão certamente entre os principais nomes arrancados do panteão outrora intocável do futebol brasileiro quando a realidade começou a mudar.


O que eu sei é que não faltou canelada. Em Ancelotti, que topou dar uma descida da Sala que ocupa na sede da CBF já que lhe disseram que era uma homenagem o que lhe aguardava no Auditório do piso térreo. Canelada na aproximação que a Federação de Treinadores tentava com a CBF, como foi dito com todas as letras por um dos seus diretores que repudiou as palavras de Oswaldo de Oliveira. Enquanto o presidente, Wagner Mancini, adulado no discurso de Leão, adotando a linha que sugere meu amigo, reconheceu que foram falas fortes, mas frutos do tom democrático do Fórum, que o próprio Ancelotti sugeriu que a CBF recebesse, vejam só. À parte tudo que essa postura evidencia e justifica, devo dizer que Oswaldo de Oliveira foi dos treinadores mais educados que vi no trato com a imprensa. O mesmo não pode ser dito de Emerson Leão, que vi ser grosseiro algumas vezes, mas que sempre soube respeitar ambientes. Os que já viveram um tanto sabem bem que a partir de certo momento a gente passa a não ter papas na língua. O que não anula grosserias - nem de deixa de aclarar posições contestáveis - e que, no caso, só torna mais evidente o tamanho do trabalho que os treinadores brasileiros têm pela frente se quiserem voltar a ser vistos como os tais.     

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

O futuro nos dirá



Desconfio que apesar de tudo o que vimos rolar no gramado do Maracanã e no quase céu boliviano, onde fica o estádio de El Alto, o sentimento do torcedor com relação à Seleção Brasileira não sofreu grandes alterações nessa reta final das Eliminatórias para a Copa. Imagino que alimente esse sentimento um misto de curiosidade, uma pitada leve de pendor cívico, tudo isso temperado com a paixão pelo futebol que habita em muitos desde sempre, apesar das dores e provações a que as paixões costumam nos condenar.  O jogo de terça contra a Bolívia foi uma provação. Teve um quê de castigo. A pergunta que me faço, às vezes, com certo receio da resposta, é a seguinte: e se Ancelotti não conseguir fazer a Seleção Brasileira jogar, quem seria capaz de dar conta de tão desafiadora missão ? 

E vejam que não estou pedindo títulos, nada disso. Imagino algo que possa ser definido como um resgate da respeitabilidade, um certo reconhecimento de que há ali um time de se admirar. Mas reconheço que essa minha modéstia de quereres é de complexa execução porque conseguir isso sem levantar uma taça exige certa boa vontade de quem interpreta o desenrolar da história.  Melhor seria ganhar uma Copa e pronto! Não há nada melhor para neutralizar a acidez dos críticos.  Deixo aqui até uma ideia para o caso de termos de pensar em um novo treinador. Que tal Lionel Scaloni? Esse professor de trajetória tão singular, que sem jamais ter comandado um clube sequer, foi capaz não só de fazer da Argentina campeã do mundo, mas de alguma forma ajudar a pavimentar o caminho para que Lionel Messi pudesse, enfim, tomar o lugar que lhe pertencia no futebol argentino e mundial. 

E antes que alguém passe a coçar a cabeça lendo estas linhas ao pensar que não temos um Messi, lhes digo que estou ciente disso. E concluo indo além na questão. Se vier a ser verdade o que se diz à boca pequena, que quem manda é o Messi, que os hermanos só chegaram onde chegaram porque quiseram jogar para ele e coisa e tal. Pois bem, então talvez more aí um motivo a mais para acreditar que Scaloni poderia nos ajudar, já que ele deve saber muito bem quem merece esse tipo de benesse, quem verdadeiramente é capaz de exercer tal papel. Mas o que eu sei é que as Eliminatórias ficaram para trás e, pela ótica grandiosa do tempo, talvez não tarde o dia em que seremos obrigados a apurar se os donos do jogo querem que Ancelotti continue, ou se terão de empreender a dura missão de substituí-lo. 

Por hora, nos devolverão o Brasileirão, com uma rodada que analisada friamente tem tudo pra ser mais desafiadora para o Palmeiras, que recebe o Internacional, do que para o Flamengo, que encara o antepenúltimo colocado, o Juventude, mas no sempre caloroso Alfredo Jaconi, em Caxias do Sul. Para um rubro-negro tão endinheirado e confessadamente obcecado pela conquista do principal torneio de futebol do país qualquer resultado que não seja a vitória soará mal. Não que o Palmeiras, no Allianz Parque, tenha mais opções. Não tem. Agora, mais espinhosa será a rodada para o Cruzeiro que,  talvez, munido da grande fase de Kaio Jorge, teima em se colocar entre rubro-negros e alviverdes e na segunda-feira irá fechar a rodada jogando em Salvador contra um Bahia que pareceu perder um pouco do fôlego diante do entusiasmado Mirassol. Bahia que ainda teve de dar conta das finais da Copa do Nordeste em meio à Data Fifa e ontem foi eliminado da Copa do Brasil.  

Já o Santos escreverá o segundo capítulo da era Vojvoda, fora de casa, enfrentando o Atlético Mineiro, que escreverá o primeiro da segunda era Sampaoli. E pensar que dias atrás as manchetes diziam que a volta do treinador argentino à Vila não se deu porque o time não conseguiria atender às exigências dele. E imagino que deviam ser mesmo cabeludas, porque o Santos que ele terá de enfrentar encerrou a janela de transferências contratando muito, apesar de ter no mercado a credibilidade aniquilada como fez questão de dizer o próprio executivo de futebol do time alvinegro. Mas não tem nada não, como diria Peninha, o futuro nos dirá tudo o caldo que deu a Seleção com Don Carlo no comando, e em que pé foi parar a credibilidade santista.  

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

A seleção no Maraca

Foto:Gov. Estado do RJ- Divulgação


A noite desta quinta-feira pode deixar certos torcedores nostálgicos. E não é pra menos. Veremos a Seleção Brasileira se apresentar no Maracanã. Time e estádio perderam prestígio, mas não perderam a majestade. Será, quem sabe, uma noite pra não deixar dúvida de que nas mãos de Carlo Ancelottii a história pode mesmo ser escrita de um modo diferente. Talvez nem todos lembrem, porque é daquelas páginas que pedem pra ser esquecidas, que a última apresentação no templo chamadMário Filho foi um fiasco danado. Naquela noite, não bastasse a confusão que se estabeleceu no setor sul  - e acabou envolvendo os jogadores argentinos preocupados em defender compatriotas e familiares que estavam por lá - pela primeira vez na história das Eliminatórias o Brasil perdeu uma partida jogando em casa. 

E nem perdemos levando um gol de Messi, o que acabaria por ser mais aceitável. Fomos derrotados por um gol solitário marcado pelo zagueirão, Otamendi. Vejam vocês. Aquela noite, que teve o time brasileiro chamado de sem vergonha e olé entusiasmado vindo das arquibancadas quando os adversários teimavam em ficar com bola, só não soou mais terrível do que a passagem de Fernando Diniz pelo cargo. Ao se despedir, pouco depois, tinha se tornado o primeiro treinador a perder um jogo pelas Eliminatórias em casa, o primeiro a sofrer três derrotas seguidas no torneio e o primeiro a perder para a Colômbia nele. De quebra tinha colocado por terra uma invencibilidade de trinta e sete jogos do time brasileiro. 

Justiça seja feita, o castigo de Diniz, ainda que merecido, ganhou ares de tragédiaE, insistindo em fazer alguma justiça, a Colômbia andava jogando bola. O que não tem sido nem um pouco o caso dChile, lanterna das Eliminatórias e que chega ao Maracanã no dia de hoje carregando o fardo de ter sofrido até aqui uma dezena de derrotas. Secretamente, até Dom Carlo, homem tão curtido de grandes experiências futebolísticas, deu pistas de que irá sentir lhe correr pela espinha uma sensação diferente  na hora em que o túnel lhe entregar a visão de um Maracanã funcionando a todo vapor. Pode até, quem sabe, ter desenhado um time levando em conta todo esse contexto. Um time, não digo mais brasileiro, pois nesse quesito dessa vez se mostrou mais comedido, mas um escrete pra frente, para usar um termo que os que venham mesmo a ficar nostálgicos na noite de hoje vendo a bola rolar irão entender com facilidade. 

Um verniz de brasilidade que talvez se fizesse bem expresso na figura de kaio Jorge, que vem roubando a cena com a camisa do Cruzeiro e ocupa neste momento o posto de grande artilheiro do principal campeonato de futebol do país. Não basta ter quatro atacantes, é preciso ter alma. No mais, fico aqui tecendo suposições sobre como veremos a Seleção ocupar tão nobre palco. Intrigado sobre como Ancelotti resolverá a questão das laterais, que têm sido uma provação para muitas equipes. E imagino que a intrigante convocação do experiente e improvável, Douglas Santos, seja de alguma forma uma prova do quanto isso vem mexendo com a cabeça dos treinadores. Pois que jogue o fino se tiver a chance. 

A fragilidade do adversário sugere um jogo sem maiores complicações, mas costuma morar justamente aí a veia sobrenatural do bendito futebol. E é bom, diante da festa possível, não esquecer que a atribuladíssima história recente da CBF comprometeu todo o ciclo entre a última Copa e a que vem aí. Não faz muito tempo - corria o mês de março de 2022 - fechávamos as Eliminatórias, justamente diante do Chile, e no Maracanã, vencendo por quatro a zero e garantindo a vaga no Mundial do Qatar de maneira invicta. O que sugere que lá pra cá andamos para trás e e talvez explique  a razão do torcedor brasileiro andar desiludido. Mas, apesar de tudo, dessa opacidade que a falta de virtuosismo e de beleza depositam sobre a carcaça do nosso escrete, uma noite com Seleção Brasileira e com Maracanã ainda continua sendo diferente das outras.   

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Era uma vez a minha Seleção



Começamos esta semana vendo a Seleção Brasileira inaugurar uma nova era. Talvez mais correto seja dizer o futebol brasileiro entrar em uma nova era. E, confesso, essas minhas palavras iniciais me fizeram lembrar que outrora o escrete nacional, de algum modo, representava mesmo nosso futebol . O tempo parece ter afastado os dois. É só uma impressão. Mas não é que Don Carlo topou assumir a bronca? Nada me tira da cabeça que só topou porque, no fundo, se trata de uma aposta breve. Tirando os compromissos iniciais contra Equador e Paraguai restarão míseras três rodadas das Eliminatórias e depois disso será cuidar da logística pré-Copa que poderá muito bem ser desenhada de forma que o novo técnico da Seleção não precise estar exatamente no Brasil. Se a negociação envolvesse todo um ciclo talvez a disposição fosse outra. O que acho compreensível. 

Mas, seja como for, pode contar com a minha torcida, mas que não conte com a de todos. Digo isso porque pressinto por trás de declarações polidas como a dada por Carlos Alberto Parreira, uma pontinha de secação. Não sei se é essa exatamente a palavra. Disse o ex-treinador e campeão do mundo dias antes: preferia um treinador brasileiro, mas Ancelotti é bem-vindo. E em seguida afirmou que o treinador  tem que vivenciar o país. E esse é um detalhe que, confesso, tenho curiosidade para ver como será tratado pelo italiano. Mas não deixo de considerar que até nisso poderá nos surpreender. Ter dito que quer aprender português pode ser uma pista nesse sentido. 

Fato é que Ancelotti poderá mudar radicalmente nossa maneira de encarar aquela velha questão sobre técnico ganhar ou não ganhar jogo. Enfim, faço firulas aqui para dizer que a chegada de Ancelotti soa a mim como um divisor de águas, como algo que condena a versão mais terna da Seleção Brasileira que trago comigo a parecer ainda mais distante. Tinha onze anos em 1978. Me divertia inocentemente com o cabelão solar de Marinho Chagas, que acabou fora do mundial mas não das minhas lembranças de moleque.  Quatro anos mais tarde pintaria na área a Copa que acabaria cravada no imaginário da minha geração como uma tatuagem. E se falo da minha geração é porque hoje considero que aquele futebol era feito sob media pra nós. Dos mais velhos exigiria inocência demais. E para os mais novos, creio, era de uma profundidade que comprometia a compreensão.  

Enfim, estes dias de contornos tão singulares me deixam a impressão de que era uma vez a Seleção. A minha seleção. Não como um time escalado, mas como sinônimo do que o nosso futebol tinha de mais louvável. E a minha Seleção, desde sempre, teve Zico, Sócrates e Falcão. Tinha outros, mas não com tamanho ar de majestade. Uma majestade que com alguma licença poética ouso dizer que nem mesmo o título de 1994 conseguiu ter. Embora seja impossível esquecer a cena de Roberto Baggio mandando a bola pra longe.  Uma final de Copa disputada nos penaltis tinha algo de premonitório, não sei. E Carlo Ancelotti estava lá no Rose Bowl. Era auxiliar da seleção italiana, comandada por Arrigo Sacchi. E nem vou falar da esculhambação que ao longo do tempo corroeu toda a credibilidade da entidade que comanda não só a nossa seleção mas nosso futebol.  Não consigo crer que, como dizem alguns,  o que rola nos bastidores não entra em campo. O que eu sei é que ainda não conseguiu apagar a melhor lembrança que trago comigo da Seleção. Hoje , mais do que nunca, uma Seleção de outros tempos.  

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Don Carlo



Não, jamais ouvi alguém chamá-lo assim. É possível que seja algo um tanto íntimo ou que se dê só para o seleto grupo que costuma frequentar alguns dos maiores elencos europeus. Ou algo reservado aos que o cercam, aos parças, como nos habituamos a ouvir. A nós, os mortais, creio caber chamá-lo mesmo de Carlo Ancelotti. E mal sabe ele o papel que terá se realmente vier a aceitar o comando da Seleção Brasileira. Em primeiro lugar será o homem que desafiará, mesmo sem ter tal intenção, todos aqueles que que consideram uma afronta entregar o escrete brasileiro a um estrangeiro. E não são poucos. 

E, depois disso, encarnará uma ruptura da qual muita gente duvidava, ou duvida, eu inclusive. E considero a coragem ora apresentada pelo presidente da nossa Confederação para a empreitada efeito colateral de um misto de falta de opções caseiras com a necessidade de um escudo cada vez mais forte, diante do insucesso nos gramados e da condução administrativa contestável e falsamente democrática. Quero crer que ainda chegará o dia em que um patrimônio como a seleção de futebol de um país  ter dono virá a ser algo questionado nos tribunais. Não à toa trataram de tentar convencer o mundo de que o futebol e seus mandatários precisam de uma justiça própria, que não lhes cabe a dos comuns. 

Nessa toada, Don Carlo, que em matéria de futebol considera que já tenha visto de quase tudo, sem querer ainda por cima se descobrirá inserido num lugar e em uma realidade que nunca frequentou. Que não tenha dúvida a respeito. E quero crer que poderá existir algum viés louvável escondido nisso. Nem que seja sentir de longe o que representa a Seleção no nosso imaginário. Mas é preciso levar em conta também que até nesse ponto poderá vir a ser surpreendido. Digamos que esteja um dia na padaria tomando um café, tentando ser normal, e se dê a entabular uma conversa com aquele que lhe serve. Eis que no meio do papo o sujeito lhe confessa que perdeu o interesse pelo time nacional faz tempo, que hoje ele quer saber mesmo é do time para o qual torce, e olhe lá.  

Digo mais, sabemos todos que o desgosto com a seleção é tamanho que se Don Carlo pegar pela frente um sincerão é capaz de secretamente se perguntar o que tinha na cabeça quando aceitou o convite. No mais, foram tantas idas e vindas que eu aqui já nem sei qual verbo usar. Se tudo isso seria ou será. Se é caso de passado ou de futuro. Fato é que há aí em curso um segundo renascimento de Don Carlo como possível treinador brasileiro. O que já virou notícia até no The New York Times. Notícia sustentada pelo fato de que tudo já estaria alinhado com o Real Madrid com quem Don Carlo ainda tem contrato.  

Dizem que a coisa se resolve em poucos dias, pra alívio dos palmeirenses que não gostaram nenhum um pouco de ver Ednaldo com "zóio de lula" pra cima de Abel Ferreira. Questão de tempo, pouco tempo, dizem os jornais espanhóis. Então, o palmeirense talvez não tenha mais motivo pra se preocupar ainda que o tal acordo com a direção madridista seja verbal. E nessa novela desde sempre esse foi o x da questão. 

Olha, que me perdoem aqui os que, por ventura ou descuido, pensam diferente. Mas Don Carlo, não se enganem, é outra categoria. Mesmo Jorge Jesus com seu ar divino não lhe chega aos pés. Don Carlo, ao contrário de muitos treinadores, foi também um grande jogador. Como técnico é apontado entre os dez melhores de toda a história. Mas continuo com minha desconfiança crônica e só vou acreditar na hora que der de cara com o homem vestido de agasalho passando um friozinho lá na Granja Comary.

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

O opaco escrete nacional



A impressão que tenho passada a data FIFA é de que definitivamente a Seleção Brasileira só anda nos divertindo na esfera do debate. Com a bola no pé está longe disso. Como montar o escrete nacional é um tema instigante, em tudo quanto é papo de bola que andei frequentando nos últimos dias o assunto se impunha. E é só um entre tantos que a Seleção sugere. Não era pra menos. Retomando as Eliminatórias estacionada em uma vexatória sexta colocação ter de achar um time se fez algo urgente. Se Dorival o achou tenho dúvidas. Mas mês que vem tem mais Seleção, quando visitaremos os chilenos e receberemos os venezuelanos. 

O que dá pra apontar a essa altura é o quanto o discurso do presidente da CBF não fazia sentido algum. Enquanto prometia a chegada do técnico Carlo Ancelotti - que tenho a sensação nunca esteve mais perto do Brasil do que está neste exato momento -  dizia aos quatro ventos que não tinha pressa. Em julho passado anunciou Fernando Diniz e o torcedor talvez já não lembre que mesmo naquele momento continuava insistindo que Ancelotti assumiria o cargo na Copa América e comandaria nossa seleção até a Copa de 2026. O que conseguiu com isso tudo foi consumir um tempo precioso. Gastar parte de um ciclo que já parecia pouco para tarefa que se tinha pra realizar. 

Talvez o torcedor já não lembre também que o presidente da Confederação, ao apresentar Diniz, disse que a escolha se dava, entre outras coisas, porque a proposta dele era quase parecida com a do famoso treinador que estava a caminho. E aí é preciso reconhecer que esse quase parecida é que pegou. Não em um primeiro momento. Pois o começo de Diniz com o escrete nacional em nada pareceu com a realidade que não tardaria a se instalar. O debute com goleada sobre a Bolívia - é teve isso - foi interpretado por jornais mundo afora com tinta forte. 

O Diário AS, da Espanha sentenciou: show histórico de Neymar.  Ele tinha feito dois gols e ultrapassado a marca de Pelé em jogos oficiais com a seleção. Como se fosse possível estar acima de Pelé. O segundo capítulo também teve triunfo mas já deu pistas mais robustas do que viria. A vitória sobre o Peru, que mais tarde se acomodaria na lanterna das Eliminatórias veio com um gol solitário do zagueiro Marquinhos no penúltimo minuto do tempo regulamentar. Enfim, ainda vivemos mais um empate com a Venezuela, em casa, para em seguida desaguar na série de três derrotas seguidas para Uruguai, Colômbia e Argentina. Histórico que Dorival teve sobre as costas ao debutar diante do Equador na sexta passada e que faria qualquer treinador pensar duas vezes antes de escolher suas cartas. Coisa que, como abri dizendo, o torcedor fazia insistentemente. Afinal, a responsabilidade era do Dorival mas o interesse de muitos além dele. 

Dorival, assim como Diniz, venceu com direito a elogios o primeiro jogo no comando da Seleção. Não era uma partida de Eliminatória mas era contra uma seleção dita de primeira linha. Como Diniz, chegou lá num momento em que seu trabalho se destacava. Como Diniz, dá impressão de ir ficando menor investido do cargo. Daí a levar a seleção aos lugares que ela já frequentou vai chão. Mas talvez já tenha uma grande obra realizada se fizer o torcedor brasileiro voltar a se divertir minimamente com a seleção com a bola rolando. O que, convenhamos, é infinitamente mais difícil do que ganhar da Inglaterra. E não foi o caso nem contra o Equador, muito menos contra o Paraguai.  

sexta-feira, 17 de maio de 2024

A fronteira que nos separa



Não é de hoje que tem sido difícil atravessar as fronteiras que separam as tardes das noites nos dias em que o futebol europeu mostra todo o seu esplendor.  O torcedor saberá bem do que quero dizer. Sair de um Real Madrid e Manchester City, ou algo que o valha, e pouco depois dar de cara com um jogo da Copa do Brasil ou mesmo do Brasileirão costuma testar nossa crença no jogo de bola. É um tipo de estimulante às avessas. Não bastasse toda a qualidade com que a grana faz o futebol se vestir ainda há um requinte de enredo que, literalmente, só vendo. E não quero cair naquele lugar comum que define esse abismo com a sentença de que a essa altura no velho continente se pratica um outro esporte. Pode até parecer, mas definitivamente não é. 

Sei que ser assim contundente pode só aumentar essa angústia futebolística que vivemos. Mas creio que há um quê de atitude nisso tudo. E grossura também, que eu não seria inocente de afirmar o contrário. Muitas vezes olho um jogo nosso, como aconteceu ainda outro dia, e a impressão que tenho é a de que hoje em dia certos jogadores cumprem os noventa minutos de uma partida com o ânimo de um burocrata. A mínima vantagem é muitas vezes suficiente para que a vontade de um novo gol vire fumaça. E a partir daí toda a opacidade é só consequência. E por falar em impressões. Quero registrar aqui que ao largo de todos os resultados que o São Paulo vem alcançando depois da chegada do técnico Luís Zubeldía há algo de novo na aura que cerca o time. Na maneira de comemorar cada gol. 

Em outras palavras há uma vibração ali que não existia. E talvez ela seja fruto da confiança que Tite sugere que no Flamengo andou minguando. Pensando nas duas coisas seria o caso de perguntar, alimentando aquele velho dilema que  cerca o frescor das bolachas, se alguém fica confiante porque ganha ou se ganha porque está confiante. O futebol sugere que a confiança  é dependente da vitória. Tenho minhas dúvidas. Acho que a confiança pode se alimentar de muita coisa.  E o futebol é intrigante, nos dribla. E digo isso por que até agora não me sai da cabeça uma das cenas que vi justamente num grande duelo do futebol europeu. Foi no jogo em que o poderoso Real Madrid garantiu mais uma vez vaga na final do principal torneio de clubes do mundo ao eliminar o Bayer de Munique.  

Era uma imagem recuperada do momento em que o time madridista, dono da casa, marca o gol da virada. Aquele que lhe daria a classificação. O quadro da imagem mostra ao fundo a explosão da torcida nas arquibancadas e em primeiro plano, de corpo inteiro, vestindo um terno bem cortado  o técnico do time espanhol, Carlo Ancelotti. E ele vê tudo impassível. Não mexe minimamente um braço. Não altera o semblante. Permanece imóvel com as mãos no bolso, ou os braços cruzados, já não estou certo. Mas impassível. Um sorriso, nada. Ao ver aquilo eu, que sempre me achei um cara pra lá de frio para ver jogos de futebol, custei a acreditar. E me peguei pensando que se conseguisse aquele nível de abstração não sofreria tanto para atravessar aqui por estas bandas as fronteiras que separam as tardes das noites nos dias em que o futebol europeu mostra todo o seu esplendor. 

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Nosso Brasileirão surreal



O Botafogo tá na fogueira. Não há como mascarar essa verdade. A mim soou desde o início que tamanha frente era cruel demais de administrar. Tivesse o time botafoguense desenhado uma liderança normal a realidade seria outra. Mas a bola , a sorte e os gols de Tiquinho Soares o colocaram em total evidência. O fizeram desenhar o melhor primeiro turno da era dos pontos corridos. Impor aos que precisaram se contentar em persegui-lo uma distância que chegou a treze pontos. Algo que em dado momento soou gigante. E agora está aí deixando o pessoal da crônica com cara de quem não acredita no que vê.  Está pra nascer quem consiga explicar do que o futebol é capaz. Interpretar esse maluquice a que o time da estrela solitária tem condenado seus torcedores. 

O modo como começou o jogo contra o Vasco dias atrás. Valente, dando pinta de que poderia voltar a ser o que vinha sendo, que não sentiria a bigorna sobre as costas que acabou sendo o encontro  com o Palmeiras. O tipo de enredo que costuma minar qualquer confiança. Pra desespero dos que foram convencidos a sonhar com o título brasileiro desde praticamente o início a partir de agora, sob comando de Tiago Nunes, será torcer para que a realidade não venha realmente a ser tão perversa quanto a curva de aproveitamento sugere.  No momento em que escrevo ouço gente aqui afirmando que não se trata de uma questão técnica mas psicológica. Cheguei a crer que Lúcio Flávio ter sido alçado à condição de comandante atendendo ao clamor do elenco que via nele o cara pra tocar o barco um antídoto pra isso. Mas a tempestade se fez. 

Os capítulos que se seguiram ajudaram a manter a veia surreal de tudo o que estamos vendo se dar. O Bragantino que no momento em que passou a ser visto como sério candidato não conseguiu segurar a onda também. O Palmeiras que foi ao Maracanã renascido para encarar aquele que a história recente fez seu maior rival e de lá saiu fazendo o torcedor alviverde, tão acostumado a grandes conquistas, duvidar um tanto dessa alentadora sobrevida. Crença resgatada pouco depois na vitória sobre o Inter que lhe fez chegar a liderança.  Mas aproveitemos o caldo que a história vai nos dando. 

Na ausência do brilho técnico, de jogos memoráveis, de times que dão gosto de ver, já não podemos dizer que nosso futebol anda totalmente sem graça. Por mais que  essa graça tenha um quê da emoção que costuma nos ser oferecida num jogo de bingo. Daquelas que todos começam a se olhar quando vários jogadores estão esperando uma última pedra. Ou estaria exagerando? O que me leva a aceitar a afirmação feita dia desses pelo glorificado Carlo Ancelotti que - dizem - colocará em breve todo seu conhecimento a favor da Seleção Brasileira. Disse ele que ganhar é a única maneira para se avaliar um técnico. Que tenham isso em mente Abel Ferreira, Tite, Pedro Caixinha, e todos os que por ventura tenham condições de chegar lá. Ainda que eu creia que eles saibam de cor e acreditem cegamente nessa teoria.

Eu, de minha parte, acho que a coisa não é tão simples assim, mas sabidamente tenho perfil de quem enxerga tudo de forma mais complexa. Sou , por isso, instado a acreditar mais no que disse certa vez Frida Kahlo, ao sugerir uma fórmula para se tornar invencível. Rir. Isso mesmo, rir.  Disse ela: rir, não como os que sempre ganham. Mas como aqueles que não se rendem. O que me fez ver que esse pode ser um jeito bom de encarar as imensas decepções e glórias que este Brasileirão está prestes a ofertar. 


sexta-feira, 23 de junho de 2023

A grande aposta



Se o futebol já não é o mesmo, olhar pra nossa Seleção é a melhor maneira de se convencer que o que passou passou. Os tempos são verdadeiramente outros. A cada dia um jogo de seleção fica mais distante  do que é estar diante de um bom jogo entre clubes. Chega a ser desleal. Tá certo que isso é coisa que vale mais para o futebol europeu do que para o nosso. Mas quando se trata de seleções falta de magnetismo é meio geral pelo que sinto. Como é fato que amistosos, no nosso caso, há muito tempo parecem ter os adversários escolhidos para que fiquem ausentes de peso. Digo isso com respeito a seleções como a da Guiné.  Senegal se fez respeitar. E o Marrocos pode ter sido um erro de cálculo. A realidade empurra a todos nós para aquela condição de torcedores de Copa do Mundo. E preparem-se porque até elas já não serão como eram. 

Mas vejam como a coisa anda feia pro lado do torcedor. Desde o início dos tempos  cornetar o treinador da Seleção Brasileira é um dos maiores prazeres que o jogo de bola oferece , só perdendo para o prazer de cornetar o juiz. E não é que a CBF agora, ao aceitar essa condição de que Carlo Ancelotti só assuma o escrete nacional no ano que vem, roubará dos torcedores até isso. Cornetar alguém que sabidamente estará no posto de passagem está longe de proporcionar o mesmo barato.  Que o presidente da CBF apostou alto é difícil de discordar. Mas, desconfiado que sou,  vou ter a coisa como certa só quando o nobre italiano desembarcar por estas bandas e puder ser visto vestindo agasalho lá pros lados da Granja Comary.  

Prova de que Ancelotti está muito acima dos outros é que não vimos até agora nenhum coro bradar contra essa coisa de entregar o comando da Seleção Brasileira a um estrangeiro. O que vem a ser ao mesmo tempo a constatação de que para quem comanda o nosso futebol não há entre os treinadores brasileiros alguém com envergadura suficiente para assumir o cargo.  E se em tempos muito recentes vimos aqui entre nós ser ensaiada uma renovação nesse sentido ela parece ter se dissolvido. No Brasileirão, por exemplo, há dois nomes que pairam revestidos de excelência já faz um bom tempo. Um é o treinador do Palmeiras, Abel Ferreira. O outro, o do Fortaleza, Juan Pablo Vojvoda. Dois estrangeiros. Mas no meio de tudo isso fica a impressão de que a CBF com essa sua grande aposta não quer se colocar em rota de colisão com os clubes. Uma lógica que tira do jogo um nome como Dorival Júnior que, gostem ou não, dá a impressão de viver sua maturidade profissional. 

E por falar em treinadores, seguem aí na cena do  futebol brasileiro dois que passaram pelo comando da Seleção. Um é Vanderlei Luxemburgo. O outro, Luiz Felipe Scolari.  O primeiro, se não teve o sucesso do segundo no posto, conseguiu algo pra lá de raro que é ter comandado o Real Madrid, hoje justamente sob a batuta de Ancelotti. Enfim, de minha parte vos digo que acho essa história toda muito esquisita.  Mas fico pensando que se um dia Carlo Ancelotti vier fatalmente fará o torcedor brasileiro, cornetando ou não, resgatar parte da fantasia que um dia a Seleção Brasileira tão bem representou.