quinta-feira, 16 de julho de 2026

E não me venham falar em favoritos

Patrick Smith -FIFA 


Não sei bem o que nos espera no próximo domingo. No outro... já sei bem. E ando me preparando pra ele. O ofício exige. E lá, quando o mês de julho estiver mais ou menos aos quarenta do segundo tempo, nos restará torcer pra que o futebol brasileiro mantenha minimamente a temperatura.  Não sei como cada um de vocês chega neste último capítulo da Copa. Preparem-se. Teremos o líder Palmeiras recebendo o Atlético Mineiro. O Flamengo - sete pontos  atrás lembram? - de encontro marcado com o São Paulo no Maraca. E não adianta lamentar porque é o que teremos para o momento.

Confesso a vocês que levei um bom tempo pensando na possibilidade de França e Argentina decidirem a Copa em duas edições seguidas. Era difícilo enxergar esse detalhe como requinte. Afinal, se tratava de coisa que nunca tinha sido vista. Esse Mundial bombadão  talvez tenha nos entregado mais do que esperávamos. Fazendo nascer um sem fim de marcas, muitas delas discutíveis, mas ainda assim alardeadas com entusiasmo desmedido. Digo isso porque se certas seleções chegaram pela primeira vez à fase eliminatória foi em razão da sanha desmedida por lucros. O que, figurativamente, trouxe a linha de chegada pra algum lugar um pouco mais perto de quem competia. 

Devemos nos render é a outras, mais legítimas. Como a que fez de Lionel Messi o maior artilheiro de todos os tempos em Copas do Mundo. Convenhamos, não é coisa que se vê a toda hora. Ainda que Mbappé com todo seu talento juventude e horizonte pra outra Copa soe como promessa de fazer a marca do camisa dez argentino das mais breves do tipo em toda a história também.  A anterior, do alemão Miroslav Klose, foi soberana por doze anos. Mas... a França se foi nos fazendo testemunhar um capítulo que soou esquisito, não fosse uma notável Espanha a responsável por decretar o fim daquela trajetória que muitos imaginavam fadada ao sucesso. Ver esse time francês condenado a ouvir gritos de olé foi algo totalmente fora da curva. E há, creio, uma lição nessa despedida que revelou o primeiro finalista. E que vai muito além de incensar o time espanhol apontando para o talento óbvio de um Lamine Yamal. 

A lição que fica é a de que o futebol moderno, muitas vezes traduzido pelos entendidos com conceitos recém fundados, não deve deixar de valorizar  aspectos tidos como clássicos. A capacidade refinada de trocar passes. A necessidade de uma identidade. Coisa que outro dia, se não estou enganado, ouvi um certo professor muito respeitado dizer que não era exatamente o que buscava. A valorização do conjunto, que sempre alonga os pequenos espaços e favorece o tipo de movimentação que costuma gerar uma oferta abundante de opções de passe. E quando isso se dá... o melhor é não estar na pele do adversário. 

E por falar em adversário a Espanha que se cuide, porque a Argentina chegará no domingo pra lá de vitaminada por uma vitória sobre os ingleses que escancarou o quanto os comandados de Scaloni têm de coragem e de tarimba. E nem vou falar de Messi que seria chover no molhado. Mais do que a patente de atual campeã mundial a Argentina é um time cascudo. Ainda ouço aqui as palavras ditas por Harry Kane depois. Tentamos segurar o jogo e nesse nível isso não basta. Acho que o temperamental treinador inglês, que é alemão, ao pensar pequeno condenou a nação mais íntima do futebol a deixar escapar uma chance que ela esperava há muito tempo. E não me venham falar em favorito quando uma seleção que acaba de mostrar que lida muito bem com adversidades encontra uma outra que tá cansada de mostrar que se recusa a mudar de estilo mesmo diante da maior das dificuldades.  

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Confissões de um amador

 


Sabe, não é do meu feitio dar traço tão pessoal a esse nosso encontro. Vira e mexe tenho umas recaídas, reconheço. Mas é que há nesse meu fazer um traço de terapia, visto que estas linhas insistentemente traçadas por vezes fazem com que o bendito que as crava no papel se conheça um tanto melhor. E isso para o bem e para o mal. Mas dessa vez é a Copa que aí está que me fez tomar esse caminho. Enfim, preciso confessar minha tendência ao amadorismo. Só pode ser isso. Não vejo outra maneira de explicar. Sei que há tanta gente que dedicou a vida a decifrar esquemas. A se fazer bom nesse ou naquele jeito de jogar. Senhores que são vistos como doutores nessa arte, as construindo ou as interpretando. Gente que, às vezes, mesmo perdendo de sete a um não abandona aquele jeitão seguro e segue olhando os que não lhe adulam com ar de descaso e, mais do que tudo, de impaciência. 


E estou convencido disso mesmo que alguém da patente de um Ancelotti tenha se definido como um sujeito que não é nem cem por cento tonto, nem cem por cento gênio. Mesmo assim, continuo a achar que nem passa pela cabeça de qualquer um deles aceitar esse meu modo de ver o futebol. Ainda que no caso do italiano, depois de ter visto o que vi, eu seja levado a crer que a parte da afirmação que versa sobre não se tratar de um gênio soe mais precisa. Mas pode ser só um efeito colateral das escolhas dele que parecem ter contribuído para semear uma certa depressão futebolística em muitos dos meus amigos. E não se impacientem, vocês vão logo entender onde quero chegar. 


É que ao ver partidas como vi a Colômbia e o México fazerem, acabo convencido de que uma dose considerável da mais pura entrega talvez nos fizesse viver algumas alegrias e, a partir delas, sabe como é, poderíamos ganhar confiança e aí o céu seria o limite, ou por um infortúnio qualquer talvez o limite viesse a ser a França de Mbappé e sua turma. E que turma.! Mas seria um final digno. Não haveria do que reclamar. Acho que nos termos atuais a isso se dá o nome de intensidade. Pois toda vez que dou de cara com uma peleja descrita pelo narrador como de altíssima intensidade está lá um time desses que - como diz meu tio Afonso, sabedor das coisas - coloca o coração na ponta da chuteira. Um time para o qual não há bola perdida, que não deixa o adversário respirar, que dá um jeito de ter pulmão pra maior parte do tempo ir marcar o outro time lá no campo dele. 


Tudo bem ! O México e a Colômbia ficaram pelo caminho, mas com a postura de quem sabe que tem um nome a zelar. Sem contar que encontraram pelo caminho um time inglês e um Suíço que não se furtaram a encarar o jogo da mesma forma. A Colômbia me empolgou de tal modo que já imaginava vê-la diante dos atuais campeões do mundo. E imaginava que se mostrasse em campo a disposição que tinha tido diante de Portugal nada me tirava da cabeça que daria aos seus torcedores, mesmo eliminada como acabou sendo, um tipo de dor da qual eles poderiam quase se orgulhar. 


Olha, não que eu ache que nossos jogadores sejam incapazes de tomar pra si tal tarefa. São dados a fazer coisas mais difíceis.  Brilhar na Premier League, serem artilheiros por lá. Serem vistos como estrelas pelas quais muitos se mostram dispostos a pagar dezenas e dezenas de milhões de euros. Vocês não fazem ideia de como essa minha crença num certo amadorismo me maltrata. Não entrem nessa, acho que deve ser bem menos sofrido se sentir um tanto derrotado achando que o talento de Casemiro, Paquetá, Raphinha e Neymar uma hora dessas iria nos fazer novamente campeões do mundo. 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Um atalho pro caneco



A Copa, não tenho dúvida, e já disse, serve pra colocar certas coisas no lugar. No meio dela só uma coisa me assombra: a volta à realidade do futebol brasileiro. Temor que lembro bem ter cultivado em momentos similares de outrora. Não bastasse a qualidade duvidosa de muitos jogos, tem a arbitragem. O VAR. Mas não quero minar a diversão de ninguém. Por falar nele, todo reconhecimento ao que conseguiu o Paraguai, que pelo jogo que fez na estreia me deu a impressão de nem estar muito a fim de encarar o Mundial. Ou de não ter entendido o que ele significava. Digo isso porque o gol anulado feito pelo zagueiro alemão Jonathan Tah, que bem poderia ter classificado a Alemanha, soou como um erro que, pensando bem, atentou contra os alemães e contra quem ainda insiste, uma vez estando em campo, em jogar bola e não se ocupar de não deixar que outros joguem. Juro que não vi a falta no goleiro que embasou a anulação.

Sei que a onda agora é conseguir parar a remada forte dos noruegueses, mas antes de versar sobre os nórdicos gostaria de falar sobre os orientais que dias atrás estiveram no nosso caminho. E aí volto ao mote do início. Porque se a vitória diante do Japão nos mostrou que em matéria de bola ainda temos alguns recursos que soam raros para certos adversários, eles por outro lado, se bem observados, podem nos ensinar muito. Achei o máximo ficar sabendo que o projeto para o futebol japonês prevê a conquista de uma Copa até o ano de 2050. A paciência é uma virtude imensa. E isso, o planejamento, e não o resultado em si, deveria virar um mandamento para os dirigentes brasileiros que torraram praticamente todo o último ciclo entre uma Copa e outra pensando no próprio umbigo e contratando treinadores como quem só quer tirar uma batata quente da mão. Condenando a torcida brasileira neste momento a torcer para que o medalhão Carlo Ancelotti com toda a sua estrada se faça o guru que nos guiará por algum atalho que leve até o mais cobiçado dos canecos. 

Dirão os entusiasmados que esse revirar o passado está sendo feito fora de hora. Coisa tão difícil de saber que no Equador - e no Paraguai posteriormente- acabaram decretando feriado depois de um jogo. Entendo que políticos não possam jamais deixar uma bola pingando na área. Se a moda pega os franceses talvez não voltem a trabalhar. Não sei , algo me diz que esses Presidentes sul-americanos se fossem centroavantes, temo, acabariam acusados de ter perdido totalmente o tempo de bola.  Ainda acho que pra nação feriados fazem mais sentido em dias de jogos e não depois deles. E, além do mais, anda meio na cara que foi-se o tempo em que a política era farta de craques. A maldição dos perebas nesse campo me dá a impressão de ser uma epidemia mundial. 

Mas voltando aqui pra nossa casinha, seja qual for o desfecho do encontro que o Brasil tem marcado com os noruegueses em vindouro domingo, é bom não esquecer que triunfos do tipo,ainda mais os que acabam nos deixando com a taça na mão, sempre tiveram o poder de sugerir de maneira convincente de que a partir dali nada mais seria como antes. Mas não tarda e os nossos meninos bons de bola continuam se despendido de suas paragens, os dirigentes se distraem com seus afazeres, ou tentando se livrar de algum pecado e o futebol brasileiro volta a procurar o caminho que perdeu. E que fazia dele algo respeitável, belo, raro, recriando a mágica que dava à camisa amarela um peso mais difícil para os outros suportarem do que pra quem a veste. Tudo enquanto os japoneses com seus passos estudados, sua determinação e sua devoção pelo coletivo vão caminhando sem retroceder, e assim quem sabe acabem chegando em 2050 bem antes de nós.