quinta-feira, 9 de abril de 2026

Libertadores não é tudo



Neste meio de semana a temporada, enfim, entrou em outro estágio com os torneios continentais fazendo suas rodadas inaugurais da fase de grupos. Não é coisa pra qualquer um. Ainda mais quando o assunto é a Libertadores, esse torneio que os mais velhos viram ser tratado com descaso e que hoje em dia se fez o tal. A ponto de ofuscar a magnitude do Campeonato Brasileiro, e que tem servido de palco para o nosso futebol desfilar sua imponência. Dos últimos dez títulos ficamos com oito. O que já seria de lhe ameaçar a graça, que parece ficar comprometida de vez se atentarmos para o fato de que as últimas oito dessas dez edições terminaram com um time brasileiro campeão. E que cinco dessas oito tiveram como vice uma equipe brasileira também. Mas não nos apequenemos com o olhar frio da racionalidade. 

graça da Libertadores segue viva. Entre nós, pelo menos. E diante disso chega a ser intrigante notar como a realidade muda quando o assunto é a Copa Sul-Americana. Nela, das últimas dez edições os times brasileiros só se deram bem em três. Duas  ainda na década passada. E apenas uma nos anos vinte do século que corre. Ainda que equipes brasileiras tenham estado nas finais em outras seis oportunidades. A derrocada do Atlético Mineiro para o Lanús na temporada passada nos fez chegar ao quinto vice seguido. As razões para tamanho disparate certamente turbinariam qualquer roda de papo disposta a decifrar o caso. Os mais místicos talvez digam que os torneios têm almas diferentes. Outros, mais pragmáticos, podem  justificar essa diferença se apoiando na própria realidade atual do futebol sul-americano. 

A falta de fôlego financeiro dos clubes argentinos para competir com os brasileiros faz deles uma espécie de segunda força, num momento que espelha também a evolução do futebol do Equador e da Colômbia. Das últimas dez Libertadores vencidas por brasileiros quatro tiveram argentinos como vices. Enquanto na Sul-Americana  os argentinos ficaram com quatro dos últimos dez títulos, os equatorianos com três e os colombianos com dois. Feitos que não devem ser encarados com surpresa já que nas Eliminatórias recém encerradas para a Copa o Equador foi o segundo colocado, atrás da Argentina, e a Colômbia a terceira. Todos à frente do Brasil, que foi o quinto. E entre eles e nós ficou o Uruguai, que na última década não teve um representante sequer em qualquer das finais sul-americanas. 

Mas é bom que o futebol brasileiro e seus homens de negócios não pensem que por essa condição não têm trabalho pela frente. Manter essa hegemonia talvez passe por ter um torneio nacional de padrão muito superior ao atual, onde a vital qualidade do campo de jogo venha a ser apenas um detalhe. Quem esteve atento às convocações da última Data FIFA pôde perceber que elas sugeriram, não que ter um campeonato local respeitável é garantia de triunfos, mas que é um bom amparo. A França - que anda jogando muito  - tinha apenas seis de seu vinte seis convocados atuando no país. E esse número teve uma ajuda tremenda do PSG, que lhe deu cinco deles. Mas a Espanha entre os seus vinte e seis tinha vinte deles jogando em casa. Número parecido com o da Alemanha, que tinha dezesseis entre vinte e cinco. 

Coloco esses dados aqui por acreditar que seja também uma maneira de forçar a reflexão sobre o modo como o futebol brasileiro se abriu aos estrangeiros. O que pode fazer um campeonato melhor não se traduzir exatamente em uma expansão no horizonte dos jogadores brasileiros. Como disse, não se trata de uma fórmula do sucesso. A Argentina, atual campeã do mundo, tinha apenas cinco entre os vinte e três convocados atuando no país. Já a Inglaterra, que há tempos não ganha nada, chamou trinta e cinco e só cinco atuavam fora. Não me espantaria se daqui há algum tempo os ingleses passassem a ganhar. A questão é olhar o todo e entender que exemplo deve ser seguido. Ser o maioral na Libertadores é ótimo, mas jamais será garantia de uma excelência que nos colocará em outro patamar no mundo da bola. 

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Tirando onda



Hoje tomo a liberdade de dar uma escanteada no futebol, desde sempre tão hegemônico no nosso universo esportivo. Não sem citar que esse desde sempre tem um quê de licença poética, já que só os mais atentos ao desenrolar da história talvez lembrem, ou saibam, que houve sim um tempo em que as páginas esportivas não eram dominadas pelo dito jogo de bola e sim pelo turfe. Isso foi lá nos idos do fim do século dezenove e começo do vinte. Portanto, antes de tantos outros acontecimentos ajudarem a desenhar tudo o que temos testemunhado, dá pra dizer, ao longo do último século. Entre eles o fato de Charles Muller ter tido a bendita ideia de colocar uma bola na bagagem quando certa vez retornava ao Brasil. E vejam vocês como o mundo dá voltas. O futebol veio tomar o lugar justamente de um esporte tão íntimo de apostas. Já dizia um ditado que ouvi pela primeira vez quando garoto: quem tem fama deita na cama. E controlem seus instintos porque cama nesse contexto nada tem de alcova. Era só um jeito direto de dizer que para os famosos tudo costuma se dar mais facilmente. E isso não deixa de ser uma realidade para o futebol brasileiro hoje em dia. Não há como duvidar de quem ele tem mesmo vivido da fama. Lá se vão bem mais de duas décadas  sem uma Copa.  E arrisco dizer,  terá de trabalhar muito para voltar a ser respeitado pelos adversários como foi um dia. Mas seja como for, continuará sendo tratado como uma vedete por tudo o que representa e, mais do que isso, por tudo o que movimenta. 



Feita essa introdução  vou chegar onde quero. Enquanto o nosso futebol perdia ao brilho vimos outras modalidades evoluírem de maneira espetacular sem jamais gozar de prestígio semelhante. E nem vou citar aqui o fato de termos sido brindados com Gustavo Kuerten tri em Roland Garros porque naquele momento o futebol ainda estava para nos dar um título mundial. O que não me impede de dizer que ter tido um brasileiro como maior tenista do mundo com direito a derrotar lendas como Agassi e Sampras, segue sendo pra mim, se não a mais grandiosa, a mais surpreendente página da história esportiva do nosso país desde o Tri no México. No mais , para embasar o que digo aqui, apelo para outras duas modalidades que pratiquei e  quando o fôlego me permite, ainda pratico, e que alcançaram nessa lacuna de tempo uma excelência que o nosso futebol passou a dever. Uma delas é o vôlei, de tanta tradição na cidade de Santos, que tive a felicidade de ver disparar rumo ao apogeu e dominar o mundo de uma maneira que a meninada do clube onde a gente  treinava jamais sonhou que veria, naquele tempo em que a União Soviética - de Savin e companhia - parecia estar a anos de luz de nós. 



A outra modalidade é o nosso surfe, que também vi se fazer cada vez mais profissional e competitivo e que este ano terá, pela primeira vez na história, um número de atletas maior do que a Austrália. E só quem sabe o que a Austrália significa nesse universo é que terá uma boa noção do que isso representa. Mas de tão à frente dos outros o surfe brasileiro nos oferece hoje muitos outros argumentos para justificar seu protagonismo na cena planetária. Dos onze últimos títulos mundiais oito foram vencidos por brasileiros. Dos últimos cinco ficamos com quatro. O único que perdemos, perdemos para um havaiano, talentosíssimo, e isso também tem lá um grande simbolismo. E teremos na temporada que começou oficialmente ontem, quatro campeões mundiais brigando pelo título. O que jamais tinha acontecido também. Não quero com isso contestar a alcunha do Brasil como país do futebol.  Ainda que ela soe cada vez mais abstrata. Só quero jogar um pouco de luz a quem tem feito mais por merecer.  E ajudar a tornar evidente que se os brasileiros hoje em dia em matéria de futebol têm tudo para ouvir gracinhas, dentro da água têm tudo para seguir tirando onda.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Rádio Corisco - sobre Oscar Wilde




 

RádioCorisco - poemas e fábulas - está no ar desde janeiro deste ano. O programa é apresentado e produzido por Fábio Malavoglia, amigo de fina sensibilidade e dono de um conhecimento ímpar.


Sobre este programa:

Um panorama da profundidade de Oscar Wilde, célebre autor do “Retrato de Dorian Grey” mas esquecido como brilhante poeta impressionista. Momentos e virtudes de sua vida e talentos, por Fernando Pessoa e Jorge Luís Borges. O conto “O Ímã”, criado de improviso e resgatado pelo biógrafo Hesketh Pearson . E as melodias dos contemporâneos Debussy, Satie e Ravel.





Ouça o programa no link abaixo:

Corisco - sobre Oscar Wilde


RádioCorisco é transmitido aos sábados, às 16h30 horas, com reapresentação às quartas-feiras, à 01h, na Rádio USP 93,7Mhz (São Paulo) e Rádio USP 107,9 (Ribeirão Preto), e também por streaming. As edições do programa estão disponibilizadas nos podcasts do Jornal da USP e nos agregadores de áudio como Spotify, iTunes e Deezer.  

sexta-feira, 27 de março de 2026

O mito de estragar o jogo




Dizer que o nosso futebol tem virado uma coisa muitas vezes medonha a essa altura é chover no molhado. Posso até estar errado mas o nível de descontentamento do torcedor evolui de maneira preocupante. Não é pra menos. Fosse eu dirigente começava a me preocupar seriamente com isso. Ideias para nos tirar desse pântano sempre pintam na área. A urgência dos fatos as faz nascer. De minha parte estou convencido que a mais eficaz das estratégias seria tornar a arbitragem mais severa. E, pensando bem, talvez nem seja esse o caso. O que ela precisa é apenas fazer valer a lei. Aplicá-la com rigor. E é claro que isso pode soar um tanto estranho porque os árbitros nunca foram tão vistos com tamanha desconfiança, aos menos os nossos. Sendo assim, acreditar que eles são os mais indicados para colocar ordem no barraco pode suscitar piadinhas. Entendo a boa intenção dos que pregam que árbitro bom é árbitro que deixa o jogo rolar. Mas pensando bem esse tipo de postura vai no sentido contrário do que precisamos, pois ainda que não queira deixa pairar no ar um quê de permissividade. E acho que do jeito que a coisa anda o que precisamos é de um simples "cumpra-se a regra" e nada mais. 

Entendo, por exemplo, que o esperto que leva um leve toque no pescoço e cai no chão se contorcendo como se lhe tivessem arrancado os olhos é merecedor, no mínimo, de um cartão amarelo de tanto que atenta contra o bom andamento do jogo. E isso está aí plenamente banalizado. São raros os casos de punição do tipo. Em geral elas acontecem nos extremos, como quando um piadista como Deyverson aceita correr o risco do mais absoluto ridículo. Se querem uma prova de que andamos longe do indicado e simples "cumpra-se a regra" notem que há um certo consenso que vigora entre os entendidos do jogo de bola que reza que um árbitro não deve estragar um jogo. Com isso querem dizer que se um jogador comete uma falta dessas sinistras no começo de uma partida , se possível, deve-se evitar a expulsão e resolver o caso com um quase indolor cartão amarelo. E assim agir num sem fim de situações. Ora, uma falta pra expulsão deve ser encarada como uma falta pra expulsão e ponto. Cheguei a ficar surpreso, imagino que como muitos, ao ver no clássico entre São Paulo e Palmeiras no último sábado o goleiro Carlos Miguel levar um cartão amarelo por retardar a saída de bola. Coisa que ele - e tantos outros arqueiros - faz constantemente. 

E o que fez o cidadão ao levar o amarelo? Zombou da cara do árbitro dando em direção à bola uma corridinha fajuta, que se fez puro deboche. Por certo levou em conta a máxima: ele acabou de me dar o amarelo, não vai dar o vermelho. Como não deu. Mas deveria. Teria sido merecido. E a grita seria geral. Ainda mais se tratando de um time comandado por uma comissão técnica, dirigida por Abel Ferreira, que tem a pressão sobre a arbitragem como método, como vira e mexe ouvimos dizerem por aí. Salvar o futebol não é algo que poderá ser feito sem atitudes contundentes. Os indisciplinados, que se enquadrem todos! Chegamos a um ponto em que salvar o espetáculo exigirá compromete-lo, que seja. E não que isso nos abrirá as portas do paraíso ludopédico. O resto talvez se resolva a partir dos treinos com bola. Para que uma vez remediada a questão do comportamento inadequado possamos cuidar de quem é incapaz de acertar o gol chutando da entrada da grande área. Dos que por temor evitam passes longos e teimam em tocar a bola pro lado. Aí quem sabe partidas com duas ou três chances de gol em cada tempo passem a ser algo raro. Aí quem sabe o futebol brasileiro volte a respirar com vigor e se faça capaz de desenhar um jogo que árbitro algum será capaz de estragar... nem que seja por vergonha de se revelar o único pereba em campo.

sexta-feira, 20 de março de 2026

SAF não é a salvação

Foto: Equipe do Brasil de Garça/SP


Teço estas linhas com um fio estranho, cuja matéria prima é de uma pureza que o mundo atual - e muitos dos que ainda seguem montados nele - acharão inapropriada e, por que não dizer, um tanto absurda. Foi-se o tempo em que o futebol era só um jogo. O ventre insaciável do mundo que a tudo traga não tardou em transformá-lo numa mina de ouro para alguns. E isso só foi possível porque para muitos, ou quase todos, ele continuou sendo o que sempre foi. Uma paixão, uma curtição, um modo eficaz de driblar as mazelas cotidianas. Mas como não quero que a ingenuidade contamine a matéria que compõe essa minha reflexão, não vou aqui dizer que o futebol nunca teve dono. Bastou se mostrar rentável para que fizesse nascer barões, oligarcas. Como sempre vimos nesses e em outros campos. Alguns muito populares, venerados, e outros tantos tomados por figuras folclóricas. Símbolos de um arcabouço que até outro dia resistia e dava aos clubes a ilusão de que seguiam sendo de todos.

Clubes que durante anos tentaram nos convencer seriam salvos por refinanciamentos sem fim. Deixando no ar, ao mesmo tempo, uma espécie de absolvição a quem administrou mal, deixou de pagar impostos, de honrar contrapartidas. E como, ao contrário das jazidas que podem ter fim, os veios que exploram seguem fartos, era preciso encontrar uma saída para seguir viabilizando esse negócio vital que alimenta um segmento  colossal. Mas um negócio que se visto por suas planilhas contábeis se revela financeiramente inviável, incapaz de seduzir mesmo o mais desavisado dos investidores. Diante dessa realidade aterradora, que mal poderia haver em aceitar que um clube de futebol passasse a ter dono? 

E dane-se que os clubes tenham nascido com ideais tão cheios de virtude, tão cheios de boa intenção, tão cheios de vontade de servir, de fazer do esporte um instrumento social. Clubes geridos por Conselhos,  sem remuneração. Sugerindo a paixão como seu grande motor.  Escrevo isso porque me parece muito óbvio que neste momento em que o Palmeiras se faz o único dos mais tradicionais times paulistas capaz de desafiar o que o tempo impôs, os outros, apequenados por tantos descaminhos, abalados por dívidas, andam fatalmente enxergando a redenção nessa fórmula recém elaborada. Fórmula que, antes de qualquer outra coisa, se faz prova cabal da incapacidade dos clubes, e de todos aqueles que se encarregaram deles até aqui. 

Mas, sem que notem ou queiram notar, salvar o modelo que soa ultrapassado seria salvar um jeito de pensar o futebol, de lhe honrar a alma. Mas ninguém está preocupado com isso. Importa é que a roda siga girando. E aqui está a matéria prima que tece o fio destas linhas, uma sonhada resistência. Pois as SAFs, dito de maneira bruta, transformam os torcedores todos em torcedores de margarina. Faz cair sobre os clubes um quê de produto, desses que podem estar em gôndolas de supermercado. Uma mercadoria que a qualquer hora pode trocar de mãos. E reduz o torcedor a mero consumidor. Gostaria de acreditar na capacidade dos Conselhos Deliberativos. Na lição de presidentes eleitos de maneira teoricamente democrática. Mas não é fácil crer nessa fórmula se ao longo do tempo os Conselhos, os presidentes, mesmo tendo a chave dos cofres, acabaram nos trazendo até esta realidade lamentável em que a maior parte dos clubes se encontra. Virar SAF pode até ser a única saída, só não acho que será a salvação.   

quinta-feira, 12 de março de 2026

A realidade dos treinadores

Foto: Gilvan de Souza/Flamengo


Eu não faço ideia de como anda a reputação do treinador que cuida do seu time. Mas é fato que eles cavaram um lugar de destaque na história do jogo de bola. Não sei dizer se isso se deu desde sempre. É comum ouvir por aí que a história recente é que fez deles celebridades. Que não deveriam ter todo esse cartaz. Acho que nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Imagino que ao treinador seja reservado um papel que se não o coloca na mira dos holofotes, não faz dele alguém que deva ter a discrição de um árbitro, de quem se diz que os melhores são aqueles que passam despercebidos na peleja. Ainda que os desse tipo pareçam uma raça em extinção. 

Talvez nem por culpa deles, mas de tantas atribuições que lhe foram dadas. Passar spray no local da falta e da barreira, sob pena de ser ludibriado pelos espertalhões, jogar a moeda do cara ou coroa pra cima, sem esquecer da propaganda, dizendo que naquele momento cara significa televisão e coroa máquina de lavar. Saber a exata hora de ignorar, ou não, os chamados vindos da cabine do VAR. Olhando assim, a impressão que tenho é de que ao menos a vida dos treinadores desde o princípio não foi tão modificada. Muito pelo contrário. 

O tempo ao invés de exigir mais lhes deu regalias. Uma comissão que só inflou com o passar dos anos. Deixando -lhes à disposição, muitas vezes, dois auxiliares. Sem contar um sem fim de especialistas que lhe passam a segurança de que seus comandados estão se alimentando como devem,  números que elucidam o quanto esse ou aquele andam correndo pelo time. E até informações científicas que, em última análise, podem até lhes blindar contra o popular migué. E por estas  bandas nem precisam ter um currículo de encher os olhos para passar a ganhar cifrar de encher os bolsos.  

Mas se o futebol nunca esteve perto de ser uma ciência exata, analisar treinadores muito menos. Nos últimos dias vários deles geraram um sem fim de manchetes. Os demitidos Hernán Crespo e Filipe Luís, agora ex-Flamengo. O recém contratado, Leonardo Jardim, agora rubro-negro. O que levou à derrocada dos dois primeiros foi se esclarecendo com o passar do tempo. E deixou nas entrelinhas o que não deveria ser novidade pra ninguém: Interesses se chocam e pessoas também. Que Filipe se revelou um vitorioso está claro. Agora se com o estrelado elenco que tinha outros seriam capazes de fazer o mesmo ou mais, nunca saberemos. 


Seja como for lá se foi Filipe Luís e sua mentalidade europeia. Era assim que muitos o enalteciam. Seja isso lá o que for. Talvez só um complexo terceiro mundista. Leonardo, o que chegou, obteve a quase consagração dirigindo o Cruzeiro.  De tão incensado me deixou com a impressão de já estar entre nós há um bom par de anos. Nada. Foi anunciado pelo time mineiro no início da temporada passada, em fevereiro. De cara acabou eliminado na semifinal do Campeonato Mineiro, esse mesmo que ia fritando o Tite, que lhe ocupou o lugar. Em geral, ​na maior parte das vezes, o salário que o futebol 

brasileiro tem pago a certos treinadores parece maior do que o que eles oferecem. Uma temporada a mais nos permitirá saber melhor do que é capaz Leonardo Jardim. Se jurou amor incondicional ao Cruzeiro. Se disse que não queria trabalhar muito anos por aqui por causa das distâncias colossais, pouco importa. Só os idiotas não se contradizem, diria Nelson Rodrigues.

quinta-feira, 5 de março de 2026

O figurão



Não se deixe levar pelo tom pouco sério que o título pode sugerir. O escolhi com a intenção de deixar cair sobre o elegido o véu de certa descontração. E também por acreditar que é assim que gente de tal envergadura é tratada no popular, quando, de repente, o nome do tal surge numa conversa de bar. Não que a descontração combine com ele.  Não se trata de um nobre, no que diz respeito a títulos e afins, mas é impossível negar-lhe importância. E se acabei seduzido por este homem foi também porque, de certa forma, ele me permite falar de futebol seguindo uma mesma linha, já que na semana passada o assunto aqui foi o futebol brasileiro, e este personagem me dá a chance agora de um olhar sobre o jogo de bola mas com pretensão mundial. O que esclarece  também porque afirmei que a aparição do sujeito em conversas de bar não deve causar surpresa. 

Nasceu na era dele, por exemplo, essa coisa de Copa com quarenta e oito seleções, em várias cidades e, como não tarda veremos, até em três continentes. E isso, convenhamos, é coisa que o torcedor tem bons motivos pra cornetar na roda com os amigos. Onde já se viu, não é?  Bom, ainda não se viu , mas não demora o homem nos fará testemunhar essa invencionice. E se hoje sabemos muito bem de quem se trata é porque na semana passada ele comemorou uma década no cargo importante que ocupa. E que fez dele alguém que todo mundo que tenha a mínima intimidade com o mundo do futebol conhece. è o cartola-mor. E espero que esta maneira pouco formal de tratá-lo não seja vista como falta de respeito.  Se a uso é para reforçar a linguagem descontraída que me esforço aqui para lapidar desde que o título me veio à cabeça. 

Mas pra não perder o fio da meada e justificar a razão de ter citado a oportunidade de manter uma linha no tema, é porque se no artigo anterior desta folha disse que pouco pensamos o futebol brasileiro, pensamos muito menos o papel do futebol no mundo. E a biografia recente desse figurão é um bom recorte para tornar claro como o jogo de bola anda sendo cuidado. Ou usado. Tenho dúvidas sobre o termo mais apropriado neste caso.  Suíço italiano, de pai nascido na Calábria e a mãe na Lombardia, frequentou manchetes na semana passada em virtude dos dez anos completados onde foi apresentado como alguém que expandiu competições e aproximou  a principal entidade do futebol mundial de disputas geopolíticas. 


Fato é que andou forçando tanto a tabelinha com a política que acabou investigado pelo Comitê Olímpico Internacional, do qual faz parte também, sob suspeita de violar as regras de neutralidade da entidade. Se viu absolvido defendendo que não fazia mais do que cumprir seu papel ao fomentar esforços de reconstrução em lugares como a Faixa de Gaza. A investigação tinha se dado a partir da presença dele, em Washington, na reunião inaugural do Conselho de Paz, criado por Donald Trump. Esse mesmo que anda colocando o mundo em pé de guerra. O problema desse tipo de parceria, de tabelinha, é precisar uma hora mandar a bola para outro lado. 


E não dá pra deixar de citar aqui o fato desse figurão ter sido visto vestindo boné dos USA com inscrições notadamente políticas, o que nos instiga a perguntar que tipo de neutralidade é essa que se tenta preservar. Que o futebol possa e deva ser usado para defender grandes causas é coisa que não se discute. Mas defender o fim da proibição da Rússia em competições internacionais decretada depois da invasão à Ucrânia, como ele fez recentemente, parece não levar em conta, entre outros fatores, a pressão que o futebol pode fazer a favor da tão falada e abstrata paz. Mas quem sou eu para dizer como o futebol deve ser tratado no âmbito global. Só me causa preocupação um figurão desse dando a impressão de já não poder se negar a vestir um boné sob pena de começar uma guerra. Talvez seja o caso de perguntar a Gianni Infantino o que ele acha.  

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A crença na camisa 10

Foto: Fluminense 


Nos dias atuais em que gols de falta e dribles rareiam é preciso que o torcedor encontre algo em que se amparar. De misérias já chegam essas a que o mundo nos condena para além -  ou aquém - das cifras que guardamos nos bolsos ou nos cofres. Não dá pra residir nesse deserto sem crer que ainda há escondido em algum lugar um oásis para matar essa nossa sede de grande lances sobre os gramados, muitos deles já deixando transparecer aquela morbidez que costuma rondar as samambaias de plástico nos consultórios. Nesse reino do futebol desde sempre tão fértil para superstições, parece estar pra nascer mandiga capaz de fazer ressuscitar o encanto que um dia cercou o jogo. 

A penitência é tamanha que começo a desconfiar que tudo não passa de ilusão. Que teimamos em alimentar essa esperança só porque o tempo foi editando tudo, livrando do desaparecimento fragmentos que mereciam perdurar. O gol iluminado de Falcão certa tarde no Beira-Rio, os dribles de Garrincha, os lances singulares encenados por Pelé, Zico cobrando uma falta com impiedosa precisão. Peço desculpas aos que, mais vividos do que eu, tenham sido testemunhas oculares de que esse futebol dos sonhos um dia foi possível, que existiu. A esses peço que sejam indulgentes. Talvez isso aqui não passe de lamento de um desiludido.  

Pensando bem, é possível que tudo isso seja fruto do tempo que me foi dado viver. Nem aquele em que o futebol se revelava fascinante,  nem esse outro de agora no qual a beleza nele não passa de um vestígio. Insisto nessa versão porque não consigo ignorar que o presente muitas vezes se revela mais pesado do que o passado, de quem ousamos guardar só aquilo que nos interessa. E mais pesado também do que o futuro que, sabemos, moldamos a nosso bel prazer, por mais que as evidências sugiram de modo gritante que não tardará o momento em que passaremos a não ter mais direito a um. 

Mas quero crer que nada estará totalmente perdido se continuarmos a ter um camisa dez por perto. A gente acredita em cada coisa. É fato, no entanto, que a essa altura do campeonato já não parece justo depositar sobre as costas deles este fardo. No fundo, preciso confessar: o que vai aqui é uma reverência a eles. Que se não irão nos salvar da pasmaceira, poderão nos deixar com a sensação de que nem tudo está perdido, que ainda há uma trincheira com uns pouco gatos pingados tentando debelar abstrato inimigo. Elegi o tema levado pela leitura de uma matéria que apontava quais eram os camisas dez nos quais deveríamos ficar de olho nesta temporada. 

Paulo Henrique Ganso estava lá. Acaba de completar 300 jogos pelo Fluminense. O mais clássico dos que temos à disposição. É por causa de caras com a visão de jogo dele que sigo acreditando que se um camisa dez não seria exatamente a salvação poderia funcionar, no mínimo, como um agradável paliativo. Menphis também estava listado. Mas dele me recuso a falar. Nunca tive a ilusão de ser perfeito, ainda que tenha sido acusado por vezes de tentar. Sou do tipo que não engole alguém vestir a camisa dez por contrato. Em outros eu acho que é muita areia pro caminhãozinho. Caso de Gustavo Scarpa, do Atlético Mineiro. E isso nada tem a ver com considerá-lo um mau jogador. É refinado até, mas a dez pra mim exige mais do que refinamento. 

Não sei é um jeito de se portar. De conseguir tratar o jogo de maneira muito original. Como um chef que ao fazer um prato trivial o faz notadamente melhor do que todo mundo. Se encaixa no modelo pra mim mais o futebol de Everton Ribeiro do que o do Scarpa. Refinamento que não consigo enxergar em Luciano, do São Paulo, que talvez tenha alcançado a honra pelo conjunto da obra e pela insistência em se irmanar com a torcida tricolor do que propriamente pelo futebol. No meu entendimento nasceu para ser um nove, ainda que falso, se é que me faço entender. Enfim, atualmente só uma coisa além de um camisa dez de fina estirpe me faz crer que o futebol possa ter salvação, os canhotos. Mas dessa crença falamos outra hora. 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Era uma vez o Paulistão




O tema não é novo. Há tempos os torneios estaduais minguaram. E, por mais que possa parecer, a razão de sua teimosa sobrevivência não está na tradição, está nas cifras que sustentam. O que vale, principalmente, para o Campeonato Paulista. De longe o mais abastado entre seus semelhantes. Talvez o tema se faça um tanto sem sentido para os mais novos, que já os conheceram despidos de trajes nobres. A coisa mudou tanto que chego a ter a impressão de que hoje em dia um título estadual 

não teria apelo suficiente para livrar verdadeiramente um time grande da sensação de jejum e de toda cobrança que se dá na ausência de triunfos. 


Foi-se o tempo em que um Estadual cumpria o papel que cumpriu a edição paulista de 1977 quando o Corinthians ao bater a Ponte Preta levou a fiel torcida até o céu que o jogo de bola sempre promete. Com direito a suspensão das aulas e outras tantas alterações no cotidiano só possíveis quando esse tipo de caneco era cultuado pra valer. Nem seria preciso recuar tanto no tempo para explicitar o que a história fez com eles. As duas finais  entre Palmeiras e Corinthians no início dos anos noventa, lembro bem, ainda tinham aura nobre, provocavam uma mobilização considerável. Mas sou obrigado a reconhecer que àquela altura a rivalidade entre os dois, é bem possível, já cumpria sem que se percebesse o papel de turbinar importâncias. 


Final 1995 - Foto: Ricardo Correa -Placar



E essa decadência, tão evidente, este ano ganhou outra dimensão. Não bastasse a diminuição das datas reservadas a eles, o ajuste do calendário que adiantou o início do Brasileirão o condenou de vez à sombra. Sou capaz de entender as razões. Não sou um lunático disposto a bradar contra os times mistos, os times poupados, os times de base no lugar do profissional. Nada disso. Apenas acho que isso tudo abriu um precedente e, amparados nele, muitos resolveram jogar contra os estaduais também. A CBF que, quando viu a bola pingando na área com a necessidade de mexer no calendário em ano de Copa, não pensou duas vezes para lhes tomar algumas datas, já que isso viria a servir por tabela para minar e mandar recado a quem tinha se revelado oposição. 


Mas, na minha opinião, o golpe que parece ter levado os estaduais às cordas, em especial o outrora chamado Paulistão, é uma mescla que une a inoperância dos dirigentes ao comodismo dos treinadores. Ao menos é essa a impressão que tive ao acompanhar alguns jogos neste início de temporada. Pra mim é visível a falta de interesse de muitos times para jogar essas partidas. E aí é claro que falo de times que têm horizontes que vão além das fronteiras estaduais. Ainda que para alguns essa condição seja discutível. São muitos os momentos em que fica claro que ​a vitória deixou de ser prioridade. Se pensa nela até, mas sem estar disposto a correr riscos, a agredir o adversário. 


E o resultado desse tipo de escolha sabemos todos é um jogo no estilo "tico-tico" no fubá que não tem tamanho. Entenderia totalmente o torcedor que se levantasse da arquibancada, dando às costas ao time, gritando que lhe avisassem quando estivessem a fim de jogar bola, pois aí quem sabe decidisse voltar.  Como afirmei acima, entendo muitas questões, mas as propostas, as ideias de jogo que se apresentam, beiram a covardia. Num tempo em que os entendidos afirmam que a ciência nos deixa saber exatamente quantos minutos um atleta pode atuar, a ausência de intensidade não se justifica. Conclui-se que quem foi a campo estava apto ao embate. Ou, os elencos no início da temporada são mesmo um mar de atletas meia bomba. O Flamengo anda reforçando essa tese.  

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O sucesso é ofensivo

O craque e o Rei


O conceito de craque é algo que sempre vai dar o que falar. Mas muitos do que desfilam por aí com esse peso sobre os ombros o ganharam sem muito esforço, sem merecer mesmo.  Foi-se o tempo em que se usava o termo com parcimônia e os laureados davam conta do recado. E quando ele se faz fácil o tempo tem tudo pra transformá-lo mais em castigo do que em benção. Craque é reconhecimento complicado de tratar e dar conta. Mas já que é pra falar de craques escalo aqui um de cujo talento não tenho a menor dúvida: Antônio Carlos Jobim. Homem que para além de maestro, viu antes de muitos o que o homem andava a fazer com o planeta e foi, talvez, um dos grandes interpretes desse nosso país ao mesmo tempo tão lindo e tão surreal. 

Dizia Tom Jobim que sucesso no Brasil é ofensa pessoal. E aos que já não aguentam mais ouvir falar de Flamengo sugiro ir se acostumando  porque a incompetência dos outros tem tudo para fazer o reinado do time da Gávea longevo. Mas aqui em terras paulistas é o Palmeiras que verdadeiramente corrobora a frase do maestro, com ajuda imensa do grande tempero do jogo que sempre foi o ato de secar. A lógica que alimenta tudo isso é muito óbvia. O que sobrou do trio de ferro pouco amedronta. E o Santos com a pobreza das últimas temporadas e esse misto de clube que ainda não virou SAF - mas já tem dono  - pouco anda podendo fazer para ajudar a quebrar essa lógica. 

E essa indigência, ou quase, dos grandes rivais só agiganta o sucesso do Palestra. Acho até provocador escrever isso aqui depois do Palmeiras ter sido vice duas vezes, coisa que muitos tentam usar para negar o sucesso do clube alviverde. Logo, quando Flamengo e Palmeiras se colocam frente a frente nos últimos tempos o que se vê por estas bandas é uma imensa torcida para que o triunfo acabe na cidade maravilhosa, o que significa também mandar o incômodo sucesso para bem longe daqui. Afinal, ter de lidar com ele é terrível.  Então, é melhor que se dê longe. Essa realidade, essa constatação, talvez sirva também  para aliviar um pouco a barra de Abel Ferreira. A quem não se pode negar o título de bem sucedido. 

Mas nesse sentido a impressão que tenho é que o português com seu comportamento muitas vezes discutível, seus atos lamentáveis à beira dos gramados, dão certo ar abstrato a humildade que deixa exalar, e fazem do sucesso dele uma, como disse o maestro, ofensa das boas. Por essas e outras tenho claro para mim que Abel, definitivamente, tornou o Palmeiras um time mais antipático para seus oponentes. Só não sei decretar com precisão a dose que o comportamento dele e o sucesso têm nisso. Mas vou avisando aos incomodados que dificilmente a banda tocará de outro jeito na temporada vindoura. 

Por falar nisso, vendo o ano que se vai em perspectiva sou levado a crer que devemos levantar aos mãos e agradecer a contribuição dada pelo Cruzeiro, pelo Mirassol, pelo Fluminense com a assinatura de Zubeldía, e mesmo pelo notável esforço feito por Fortaleza e Vitória na reta final do Brasileirão, pois sem isso tudo o principal torneio de futebol do nosso país teria sido infinitamente mais pobre. O que sob certa ótica mostra que é possível sim se fazer honrado mesmo sem direito a desfrutar do sucesso de modo absoluto. 

Fazendo aqui uma reflexão sociológica arrisco dizer que com todas as armadilhas que o sucesso esconde o Flamengo tem lidado melhor com ele. Fruto, talvez, de ter optado por um elenco mais maduro. Sem contar que quase sempre foi visto como dono de uma excelência maior do que a de seu principal desafiante.  A juventude pode, no entanto, dar ao Palmeiras um horizonte maior sem ter de fazer grandes mudanças no elenco.  Mas é fato também, que dois anos sem um título de grande expressão colocaram o time e Abel na fronteira que separa o sucesso da desconfiança. E aí não há alternativa... só o sucesso em estado puro salva. O que certamente soara como ofensa, aos outros.         

 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Uma aposta quase inocente



Aposta já foi coisa inocente. Houve um tempo em que elas, mesmo podendo ter um viés pernicioso, emprestavam certa graça ao cotidiano. E não foi à toa que acabaram infestando o mundo do futebol. Pode-se apostar em tudo. Que vai, ou não vai, chover. Que você, num arroubo de valentia, vai pagar trinta flexões sob o olhar incrédulo de quem topou a parada. Mas o futebol com essa alma de jogo indomável sempre lhe foi terreno fértil.  Nunca me esqueço que certa vez um editor de imagens, muito dado a esse tipo de desafio, fez questão de travar duelo com um outro editor, palmeirense, tendo em vista o derby que o final de semana lhes reservava. 

Mas o que fez desse episódio algo inesquecível foi a trama que se deu tendo a contenda como ponto de partida. O corintiano era falastrão. Não costumava deixar passar batida a mínima gracinha sugerindo que o time dele não seria capaz de lhe ofertar uma vitória em campo e, por tabela, nas apostas, nas quais nunca pensou duas vezes pra aceitar. Ocorre que certa vez o desafiante, não contente em tirar dele umas cervejas, propôs que o perdedor teria de vestir a camisa do rival. Como o desafiado não era de fugir da raia, deram-se as mãos e esperaram com ansiedade o desenlace que o deus do futebol ia perpetrar.  

O que se deu foi que o corintiano perdeu. E encarecidamente pediu que o pagamento da aposta fosse feito de forma reservada. Ocorre que todo mundo queria, claro, saber como a coisa ia se dar.  E o mais sacana deles fez questão de se esconder perto do lugar marcado e quando o homem vestiu a camisa do Palmeiras saltou na frente dele e fez o clique. Estava registrado para sempre aquele gesto que não durou mais do que uns poucos segundos. Foi colocar e tirar a camisa. Mas o registro ficou durante anos pregado no quadro de fotografias do departamento. O mais legal dessa história é ter visto que na foto o perdedor tinha no rosto um sorriso bonachão, de quem levou a brincadeira na esportiva, como diziam antigamente. 

E olha que o homem é dono de um vozeirão desses que por si só impõe e respeito. E nunca foi um cara de modos suaves, apesar do imenso coração. Essa lembrança me veio depois de eu ter ficado sabendo que o STF decidiu que cartão forçado - a pedido de apostador - não é manipular resultado. E isso quase me fundiu a cuca. Primeiro porque dá uma ideia de como aposta virou coisa séria. Em segundo porque sou capaz de entender que apurar se um cartão foi, ou não foi forçado, é tão difícil quanto decretar que esse ou aquele boleiro deu "migué". E quantos por aí mesmo sem prova viraram sinônimo disso. 

Agora, quem é que pode afirmar que um cartão forçado, feito a pedidos, não manipulou resultado se as casas de apostas topam remunerar quem acerta quantas vezes eles serão vistos em uma partida? Digo a vocês que sou capaz de entender que a sentença queira estabelecer que manipular resultado venha a ser alterar diretamente um placar. Mas discordo. E não me peçam para chegar a alguma conclusão que isso aqui é só um artigo e não um tribunal. De minha parte estou convencido de que isso não vai ficar assim. E digo a razão. Pode-se até dizer que não houve manipulação do resultado, mas manipulação houve, nem que tenha sido a da realidade que cercava o jogo. E vos digo mais. O futebol pode até deixar uma questão dessas  barato, mas as casas de apostas, duvido. É grana que está em jogo. Quer apostar?    

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

É preciso mais do que Fair Play



O futebol brasileiro ensaia um passo de modernidade com a CBF anunciando regras de Fair Play financeiro coisa e tal. Acho louvável, ainda que me esfrie totalmente os ânimos ter ciência de que o que foi proposto irá valer mesmo lá para 2028. E é bom que se diga que estabelecer regras não vem a ser exatamente transformar o futebol em algo limpo. Seria preciso muito mais do que isso. Do ponto de vista da grana tornar o futebol transparente se faz infinitamente mais desafiador do que, por exemplo, fazer com que nossos árbitros ao apitar tenham os mesmos critérios, coisa tão reivindicada nos dias atuais. Vejam. O futebol inglês, tido como o supra sumo desse universo, já se sabia há mais de dez anos tinha mais de quatro bilhões de euros em paraísos fiscais. Foi o que apontou uma investigação feita no Reino Unido e que, na época, não deixou dúvidas de que essa era uma tendência entre os clubes daquele país. Trinta e oito deles estavam usando a tática. Ou seja, um a cada quatro, distribuídos pelas várias Ligas disputadas por lá.

A razão mais óbvia para adotar esse tipo de estratégia é dar um drible no Fisco. Mas diante do que tinha sido apresentado os envolvidos com entidades que tratam da Transparência Internacional não tardaram a avisar que o risco obviamente não era apenas de evasão, mas o de atrair criminosos interessados em usar o futebol para lavar dinheiro. É certo que esse tipo de conduta está longe de ser exclusividade do futebol. Mas, seja como for, é dele que tratamos aqui. E sendo assim, tão importante quanto estabelecer regras de Fair Play financeiro seria fazer com que o futebol se livrasse de todo o dinheiro sujo. Também é interessante notar como é que isso tudo vai se dando por aqui. O futebol brasileiro já teve times históricos, times mais ricos do que a maioria, já teve times bem sucedidos, cujo corpo administrativo era considerado exemplar. Mas o tempo transformou todos eles em pó. 

A realidade atual é de uma hegemonia financeira e administrativa encarnada em dois clubes: Flamengo e Palmeiras. Os dois se fazem notadamente distintos de todos os outros nesses quesitos, ainda que em campo, muitas vezes, essa supremacia se dilua. Diante dessa realidade exemplar que nunca perdurou, se perguntar quanto tempo esse sucesso vai durar é inevitável. Afinal, como está dito, até aqui o jeitão de gerir os clubes de futebol tratou de tornar evidente que todos os projetos tidos como de sucesso escondiam uma base frágil, que mais cedo ou mais tarde acabou minada por interesses outros.  Mas é fato que o que foi construído até aqui por Flamengo e Palmeiras está tendo papel fundamental no que estamos vendo, nessa tentativa de transformação, de avanço. 

Os dois conquistaram a condição de poder agora apontar o dedo para muitos de seus adversários os acusando de práticas financeiras mundanas. E aos acusados resta baixar as orelhas pois sabem todos que têm culpa no cartório. E como têm. Por essas e outras me forço para tentar ver mais além. Digo a vocês que se é assim que a banda toca neste momento, o bem intencionado futebol brasileiro - agora tão disposto a abraçar a modernidade - deve se livrar das dívidas de impostos, dos terremos grandiosos sempre cedidos com a desculpa das contrapartidas, das dívidas trabalhistas. A roupa do bom mocismo social já não lhe cai bem nessa era recém inaugurada em que as histórias que antes soavam como sendo de todos passaram a ter donos, a estar a serviço de interesses próprios. Ir arranjando as coisas é preciso, e dá até para se tomar como algo digno de elogio, mas uma coisa é decretar o Fair Play financeiro, e outra, muito diferente, fazer do futebol algo exemplar.  

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Do jeito que tá não dá





Teorias que tentam explicar porque é que o futebol virou o que virou são muitas. As que mais costumo ouvir: aquela embasada na evolução da questão física, e uma outra que afirma que a coisa anda assim porque acabaram os espaços. No fundo elas estão intimamente ligadas, creio eu. Afinal só com muito fôlego para se ocupar todos os espaços.  Tenho consciência da minha condição. Não me julgo dono de conhecimento suficiente para sugerir propostas. Mas, amparado na longa observação do jogo a que o ofício tem me condenado em bem mais de três décadas, me sinto apto a selecionar o que parece e o que não parece fazer sentido. Quanto tive a alegria de ter o Doutor Sócrates como companheiro 
de programa lembro bem de como ele defendia fervorosamente a tese de que pro futebol voltar a ter a graça que tinha seria preciso tirar dois jogadores de cada time. 

E, a respeito disso, nunca esqueci que certa vez recebemos como convidado o técnico Renê Simões, a quem o Doutor fez questão de externar a ideia. Passado muito tempo, quando a madrugada 
já era um tanto profunda, percebo um recado na caixa postal do celular. Intrigado, tratei de acessá-la. Era Renê Simões dizendo que depois de ter pensado muito a respeito da teoria do Magrão tinha chegado a conclusão de que ele estava coberto de razão. Se estava ou não, não sei. O que sei é que o Doutor tinha feito o homem matutar pra valer. O que, aliás, diria que era a grande marca do Doutor depois do calcanhar. Fato é que o futebol tem lá seu orgulho. Sempre fez soar um tanto profano sugerir mudanças em suas regras. Isso enquanto modalidades como o vôlei, por exemplo, praticamente se reinventaram. 

O que sei é que do jeito que tá não dá. Alguma coisa precisa mudar. Lembro que tempos atrás o guru desse tipo de questão era o ex-meio campista e treinador francês, Arsène Wenger, elevado em 2019 à condição de Diretor de Desenvolvimento Global de Futebol da FIFA. Conhecido não só pela história vitoriosa que construiu ao comandar o Arsenal - mas também pela grande contribuição que deu ao futebol ao tratar de modo singular e inovador a arte de selecionar treinar e até mesmo de alimentar jogadores - Wenger nunca soou como um lunático imbuído dessa missão. O que, convenhamos, não seria difícil. Uma das sugestões dele foi a de que os laterais deveriam passar a ser cobrados com os pés e em no máximo cinco segundos para agilizar o andamento do jogo. Para Wenger uma cobrança de escanteio cuja curva levasse a bola para fora do campo de jogo mas a trouxesse de volta deveria ser válida. E por uma razão óbvia: isso ajudaria a criar novas  situações de gol. 

Reverente ao que o futebol tem de melhor ele também se mostrou a favor de beneficiar os atacantes no que diz respeito ao impedimento, que não seria marcado caso alguma parte do corpo de quem ataca estivesse na mesma linha do último defensor.  O que talvez ninguém tenha se dado conta é que a criação desse cargo, digamos, desenvolvimentista, tenha saído do papel para arejar um pouco a cabeça do famoso International Board, o órgão da FIFA que regulamenta as regras, e que nunca se fez sinônimo de avanço. Ideias não faltam, o que falta é a vocação pro novo. Dias atrás o chileno Manuel Pellegrini, ex-treinador do City e atual do Bétis, da Espanha, deu uma ótima sugestão inspirado no basquete. Segundo Pellegrini, um time deveria ser proibido de voltar a bola para seu campo de defesa uma vez que ela passasse da linha de meio de campo. Sugestão que imagino deva causar taquicardia em muito jogador meia boca que anda por aí escudado em passes que não vão além de um metro.    

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Eu e a Seleção




Olha eu sei que eu nem devia falar disso aqui. Ainda mais agora que cumprimos todos os compromissos e neste final de ano não teremos mais nenhum encontro. Quem sabe no ano que vem as coisas mudem. Uma festa de gala sempre tem o poder de mudar as coisas. Fazer sacudir um pouco o pó dessa nossa rotina sul-americana meio pobretona e sem glamour. Até acho que o  melhor que temos a fazer é tocar a vida sem pensar um no outro. Tenho certeza que se trata de tática que trará um certo alívio. Você sabe que falo isso com dor no coração. Nos conhecemos há tanto tempo. Tá na cara que nossa relação não é mesma. Como eu sei que já não sou quem eu era. Quisera eu. Mas talvez seja mesmo você quem mais mudou, tá todo mundo dizendo. 

Entenda isso mais como um desabafo do que como uma acusação. Não existe insanidade maior do que acreditar que algo possa permanecer exatamente igual pra sempre. E com os anos tão entrados, como dizem, não fico alimentando esperança de que você volte a ser o que era. Nem eu tenho esperança de mudar. Quem sabe sendo um cara mais resignado, com mais vocação pra aceitar que, muitas vezes, é preciso se contentar com o trivial, pudesse voltar a ter alguma alegria em estar ao seu lado. Mas você me acostumou tão mal. E olha que eu te conheci depois de você ter vivido seu melhor momento. Que importa.  Fomos felizes. Prova disso é que nunca havia passado pela minha cabeça esse rompimento. A sedução que você exercia em mim me bastava. 



Lembro bem da época idílica que foi o começo dos anos oitenta, quando entre um bailinho e outro, ainda animados pela trilha sonora dos embalos de sábado à noite, eu desfrutava a sensação de que você me daria o que em outros tempos tinha dado a outros, aos que tiveram a sorte de chegar antes de mim. Você numa versão capaz de conquistar o mundo, de deixá-lo a seus pés. O que até viemos a viver, mas de um jeito diferente, mais normal. E esse tipo de simplicidade não cabe numa relação como a nossa. Por mais que eu a vida toda tenha cultuado o simples. E não fique pensando besteira. Que só estou nessa porque arrumei outro alguém para me divertir, pra me fazer sonhar.  A minha outra paixão de adolescente, que desde sempre me fez promessas muito parecidas com as tuas está que é um declínio só.  

Foi vista caindo por aí. E depois de ter dado a impressão de que tinha se aprumado voltou a fazer tudo errado. Não duvido que volte a viver o martírio que andou vivendo não faz muito tempo. E, olha, te digo que seria bem feito. A impressão que tenho é que pegou gosto pelas atitudes mal pensadas, mal refletidas. Anda flertando com o desatino. Tipo de atitude que eu sempre considerei imperdoável. Mas deixe isso pra lá. Falemos de nós. Acho até que você não vai mal, orientada por esse italiano que te arrumaram. Sei que é um nobre. E preciso admitir que é dono de uma reputação considerável. Não deixo de reconhecer isso. Se vai te dar jeito não sei.  Como nem sei se ele sabe com precisão de tudo que você andou aprontando. Se sabe dos descaminhos que a trouxeram até aqui. Se há alguém nesse mundo que pode consertar sua vida é ele, não eu. Mas se vai, não sei. 

Nunca a distância se fez tão presente entre nós. Antes te sentia tão perto. Mas o destino, pelo que vejo, insistiu e insiste em te levar cada vez mais longe. Acho até que não seria descabido dizer que ao te olhar agora, quase não te reconheço. E não sei se por isso posso culpá-la, já que esse costuma ser o que se dá com quem é enredado pela fortuna. Essa coisa tão maquiavélica que se finge ser o paraíso e tantas vezes se revela mais dura que um purgatório. Enfim, a realidade aí está. E diante dela o que posso prometer nesse momento é que por tudo o que já vivemos não serei capaz de te esquecer.  É possível que siga te acompanhando, mas com uma devoção fria, uma devoção não de quem ama, mas de quem apenas cumpre um ofício.    

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Era uma vez o futebol arte



Tenho dito não é de hoje que as transmissões têm feito pouco caso da beleza. Um pecado capital. Deveriam por natureza jogar a favor dela. Mas os tempos mudam. Nem lembro a última vez que ouvi alguém falar do futebol como uma arte. O que em outros tempos se não abundava era notadamente menos raro. São muitos os fatores que levaram à essa mudança de olhar. Mas ouso dizer que a obsessão atual pela arbitragem é um dos principais e se iniciou antes da implementação do árbitro de vídeo, mas foi levada às últimas consequências depois que isso se deu. Um dia, quero crer, evoluiremos. E corremos o risco de olhar para trás e ver de maneira escancarada  a sandice que alimentávamos.

Digo isso porque diante de toda a dúvida que já alimentei tentando chegar a alguma conclusão sobre um sem fim de lances que as transmissões trataram de averiguar, sou levado a crer que mais do que opinião temos um olhar que é só nosso. Os filósofos que me ajudem com essa teoria. Ou cada um enxerga de um jeito ou não passamos de um bando de teimosos. Hoje um ponta pé qualquer, um tapinha que jamais iria doer, são resgatados no segundo seguinte e passam a ser analisados com um fervor absurdo. Ao mesmo tempo, um lance de efeito, um lençol bem dado, um chapéu, uma caneta, não recebem o mesmo tratamento. Prova da nossa indigência ao tratar do jogo. 


Pudera. É tanta coisa pra mostrar.  A tela que precisa se acomodar pra exibir a publicidade. O treinador que dá chilique à beira do gramado. O lance de potencial polêmico. E aí quase não sobra espaço para o drible, para uma matada de bola dessas que sempre será sinônimo de excelência. Sei que pode soar de um romantismo exagerado, algo de que sou constantemente acusado por companheiros de ofício. Mas precisamos reeducar nosso olhar. Não só porque seria uma maneira de acalmar essa veia estufada pela discórdia, mas também uma espécie de resgate da face mais sedutora do jogo. Sobre o romantismo, digo a vocês que secretamente até me alegro porque a essa altura ele chega a ser uma forma de desobediência, de rebeldia. 


Além do mais, só quem nunca se viu em comunhão com alguma minoria é que não sabe da nobreza que elas podem guardar. Até me espantei vendo um jogo do Atlético Mineiro dia desses, pois em dado momento um jogador do Galo deu um drible bonito no marcador e o lance foi mostrado umas três vezes. E merecia. Usando os dois pés, o atleticano puxou a bola de um pro outro e a colocou entre as pernas de quem tentava barrá-lo, para em seguida se desvencilhar dos puxões, das tentativas sempre desesperadas que esse tipo de lance provoca. Sim, porque nunca bastou dar o drible, ou o chapéu, sempre foi preciso no instante seguinte se salvar da apelação que certamente vem. Esses lances são um tipo de castigo que uma vez sofrido tem na falta sua última possibilidade de vingança. 


Digo isso ciente de que para muitos a coisa sempre foi assim. Mas um romântico incorrigível como eu  quer acreditar que houve um tempo em que ser driblado não era exatamente uma questão de vida ou morte. E grandioso mesmo era devolver na mesma moeda. Mas não tô aqui pra semear poesia nesse árido chão. Gostaria apenas que essa minha reflexão fosse vista como uma proposta pragmática, pois é disso que se trata, e não como um devaneio de alguém que não entende o que virou o futebol.  Já que é disso que me acusam, ainda que veladamente, quando você dá a entender que ainda alimenta alguma esperança de que o futebol venha a ser algo mais plástico do que tem sido. Até porque se entregar sem reflexão a essa mania instituída de autopsiar lances de natureza polêmica me parece o avesso da arte do jogo.