![]() |
| Foto: Hannah Peters -FIFA |
Tenho sérias dúvidas sobre a nossa capacidade de interpretar uma partida de futebol sem ser contaminado pelo que o placar determina. Coisa que os bem intencionados desde sempre trataram de nos recomendar. E, de certa forma, a tarefa parece tomar uma dimensão ainda mais desafiadora quando o jogo em questão é de Copa do Mundo, um torneio curto que dá a todo encontro um ar de tudo ou nada.. O que também pode, por vias tortas, forçar o acerto analítico. Papo meio maluco eu sei. E isso me veio à cabeça depois de ter testemunhado o segundo capítulo escrito por Ancelotti e seus ungidos no Mundial, mas não apenas ele. Tendo em vista a dificuldade imposta pelo bom time marroquino e a fragilidade notória dos haitianos a análise pode se embaralhar um pouco.
Não estou dizendo aqui que o Brasil começou bem. Ao contrário. Um minuto antes de Vinicius Júnior fazer o gol de empate contra o Marrocos o Brasil estava totalmente perdido em campo. E o adversário tinha se feito respeitar. Ouvi muita gente antes da estreia dizendo que o empate nem seria um mal resultado. E se pensarmos bem, com o ciclo que o Brasil teve, com o treinador que lá está, tendo chegado um tanto em cima da hora, pensar na vitória como algo muito provável deixava trair certa soberba. Fato é que o apito final soou e vieram duras críticas, para as quais o empate diante de uma seleção respeitável esteve longe de servir de paliativo. Deu-se então o segundo capítulo, revelando um outro placar. E forçando um outro olhar.
Diante dele, ou melhor, depois dele, o meu modo de encarar Matheus Cunha mudou. Passou a ser imperativo reconhecer todo o serviço prestado por ele, que na estreia tinha perdido o lugar. Cunha desenhou uma longa trajetória no futebol europeu e com o Manchester United vive, muito provavelmente, o melhor momento da carreira. E mais, tanto anda sendo dito a respeito de Casemiro, se deveria ou não ser titular. Pois que Ancelotti decida. Mas me parece visível que na principal proposta de jogo do italiano Matheus Cunha desempenha papel importantíssimo. Impressão que se reforçou no jogo contra a Escócia. Outro caso meio nessa mesma linha é o de Vinicius Júnior.
O caminho até aqui ajudou a colocá-lo no lugar que ele verdadeiramente ocupa, não só na Seleção, mas no futebol brasileiro. Neymar pode até voltar a brilhar, fazer o que soa um tanto impossível, mas neste momento o grande nome do futebol brasileiro é Vinicius Júnior. Inclusive pela postura que sempre teve, desafiadora. Um verdadeiro protagonista, muitas vezes reduzido e contestado injustamente, porque é o cara que joga mais no clube do que na Seleção. Mas, por favor, a realidade da Seleção é outra. E isso joga contra todos, não só contra ele, que dá a impressão de estar tomando consciência de que neste momento, queiram, ou não, é o grande nome do time brasileiro.
Quanto a Neymar, seja qual for a dimensão que vier a ter no final dessa história, deverá ter consciência de que poucos na longa trajetória do nosso futebol foram tão amparados. O mercado o amparou. A mídia, em grande parte, o amparou. Os companheiros de Seleção nem se fala. Isso por mais que seja difícil acreditar que um jogador que tinha jogado a última partida pela Seleção no distante ano de 2023, que voltou a treinar pra valer no último domingo, possa estar verdadeiramente apto a ser competitivo em um jogo de Copa do Mundo. Neste momento acredito mais na confiança que o escrete brasileiro vai tomando do que em uma suposta evolução. Fato mesmo é que a partir do jogo de ontem à noite contra a Escócia qualquer erro, ou equívoco, poderá se revelar fatal.

Nenhum comentário:
Postar um comentário