sexta-feira, 12 de junho de 2026

O preço da maior Copa de todas



Sabemos todos que a última não foi uma quinta-feira qualquer. A abertura da Copa pode não ser daqueles momentos que altera drasticamente agendas, esvaziando escritórios, lotando bares, tornando a chegada em casa uma corrida contra o relógio. Mas se coloca na ordem do dia. No mínimo se intrometendo no cotidiano de muitos. Mesmo antes de a bola rolar as atenções se voltaram para o estádio Azteca que se já tinha ar de nobre, a partir de ontem ganhou ainda mais, ao se transformar no único lugar do planeta a servir de cenário para o evento em três oportunidades. Mas há um sem fim de detalhes que já vivemos por aqui e que passarão despercebidos. Os gastos astronômicos que se escondem por trás da festa. 

No caso do México falam num total de 41 bilhões de reais investidos. Isso para ter três sedes e não uma Copa toda pra chamar de sua. Serão breves onze jogos na pouco expressiva fase de grupos e apenas dois quando o evento chegar ao mata-mata. Pra se ter uma ideia, segundo a apuração do Tribunal de Contas da União, o gasto do Brasil que sediou uma Copa inteira em 2014 foi de 25 bilhões. A reta final de preparação por lá evidenciou, como sempre, que as obras de mobilidade não andaram na velocidade que tinham de andar. Tudo muito previsível. 

E muitos dos que têm bons motivos pra protestar contra o governo local não perderam a oportunidade. Uma semana antes da abertura os professores mexicanos em greve nacional, bloquearam ruas, entraram em confronto com a polícia, derrubaram símbolos ligados ao Mundial e ameaçaram fechar aeroportos. Tão batido quanto ver professores nesta situação são as reivindicações que fazem. Salários defasados, mudanças no sistema de aposentadoria. Perdoem o contraponto ao momento festivo. Mas isso tudo serve para elucidar as manobras de quem verdadeiramente lucra com o evento. 

A Copa de 2026  expandida para quarenta e oito seleções e três países está quebrando todos os recordes financeiros e, leio aqui, já se tornou o maior motor econômico da história do futebol mundial.  A competição projeta uma geração de 80 bilhões de dólares, cerca de 400 bilhões de reais, em produção bruta global. Seja lá o que isso quer dizer. O que por tabela torna muito claro porque a próxima será disputada em seis países e três continentes. Esse gigantismo todo me faz pensar quanto não lucrarão os sites de apostas ao redor do mundo. E se não estamos fadados a um dia vermos o mundo inteiro envolvido com a Copa. Assim pelo menos as Seleções poderiam economizar jogando cada uma na sua casa, ou tornando as disputas regionalizadas. Isso geraria economia, um impacto menor na emissões de carbono. Mas ninguém vai querer jogar contra algo que vem dando tão certo. Ainda que a gente saiba que as emissões de carbono da edição que está pra começar, segundo especialistas, irão muito além das emitidas nas edições de 2018 e de 2022. 

Mas talvez a FIFA esteja tão antenada com tudo que por isso até já anunciou a troca da empresa que há décadas produz os álbuns e as figurinhas oficiais que, descobri dias atrás, usa um tipo de silicone no verso das mesmas que contamina o processo de reciclagem padrão. E por isso se jogado no lixo comum - ou misturado com a coleta seletiva - fatalmente irá parar em aterros sanitários onde precisará de cem anos pra se decompor. O que a essa altura não tem o menor cabimento. Não quero com esses detalhes todos minar a diversão de ninguém. Mas como jornalista fui doutrinado a olhar sempre para os dois lados. E a conclusão que chego com toda a minha rabugice é que é preciso sempre questionar.  Por exemplo, qual será realmente o preço a pagar por essa Copa que nos vendem como a maior de todos os tempos?

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