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sexta-feira, 15 de maio de 2026

O mito corintiano



Desde que assumiu o comando do Corinthians o técnico Fernando Diniz tem claramente optado pelo que eu chamaria de uma gestão passional. Num primeiro momento isso pode parecer não fazer muito sentido já que o treinador ao longo de toda sua carreira demonstrou ser um profissional com esse perfil, sempre emotivo. Tudo muito afinado com sua formação.  Sua condição de psicólogo. Mas no Corinthians, tenho a impressão, tudo tomou um outro tamanho. Não por acaso. A história pessoal dele legitima o discurso. O faz forte. Já ouvi até quem tenha dito que tanta ênfase poderia dificultar possíveis idas futuras a outros times da capital. 

Mas se há uma coisa que se deve reconhecer em Diniz é a coragem. Muitos treinadores por aí já foram chamados de convictos, no bom e no mau sentido, mas poucos, muito poucos, de tantos que temos acompanhado, agiram dando a impressão de não ter a mínima preocupação de manter o emprego. O jogo desse mineiro sempre foi outro. Fé cega no jeito de interpretar o jogo e a vida. E isso explica certamente porque as emoções que desperta em geral estão nos extremos. E acabam por emprestar algum sentido a essa coisa já meio batida de ser, ou não ser, Dinizista. Desde a primeira coletiva dada na condição de técnico do Timão, Diniz ressaltou seu mais de meio século vivendo na zona leste paulistana, reino corintiano. fato de morar no bairro do Tatuapé. E talvez isso me soe tão cheio de sentido porque lá também tenho raízes. Nasci na maternidade Cristo Rei que, outro dia me disseram, nem existe mais. 

Não discuto a estratégia. Mas quero confessar que ela tem me feito pensar muito sobre o mito de ser corintiano. Um mito , como se sabe, é uma narrativa que explica certos aspectos culturais de um povo. Aqui, no caso, leia-se torcida. E em certo sentido o enredo da última partida do time na Libertadores, com um gol livrando o time da derrota nos acréscimos, foi creditado a esse mito corintiano. Quem sou eu para negar.  Mas vou achar sempre prudente lembrar que comungo de certo ateísmo ludopédico, que me faz entender que as conquistas sempre exigirão que se jogue um pouco de bola. E digo isso porque não faz muito tempo ouvi um amigo pregar que essa coisa de ter garra e tal não é exclusividade de ninguém. Observação difícil de contestar num primeiro momento.

 Mas como me dou o direito de ter também certas crenças confesso certa dificuldade em não reconhecer nos corintianos, se não a raça sem igual, a fé. Que atire a primeira pedra aquele que, amando, jamais sofreu pelo time que torce. Portanto, sofredores todos somos. O que enxergo é esse  traço. Em outros tempos muito comentado, mas que ultimamente não vejo tão em evidência assim, falo da tal fé corintiana.  A velha alcunha de fiel torcida. E sei que ela deve andar sendo testada por todos os pecados que têm transformado um dos clubes mais populares do país em um verdadeiro caso de polícia. É óbvio que a fé também jamais será exclusividade de ninguém. 

O amigo Oscar Ulisses, observador sagaz das coisas que se dão em campo, alimenta a teoria de que o corintiano, mais do que qualquer outro torcedor se importa é com a vitória. Não interessa que ela venha no último centésimo, ou seja fruto de um futebol que não se dá ao respeito de ser chamado de elogiável. Quem sabe não seja possível explicar isso por uma capacidade de fé fora da curva. Pois diante de um desfecho do tipo só um fiel pode se achar verdadeiramente atendido. E, cá entre nós, só com muita fé pra acreditar que dá pra ser campeão da libertadores, ou que ainda não é tempo de começar a levar o Brasileirão a sério. Seja como for, Diniz deixou claro que pra qualquer missão com o alvinegro faz questão de relacionar o mito. 

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Me dá um dinheiro aí

A mobilização dos corintianos para pagar a dívida do estádio do time é um caso a ser estudado. O protocolo de intenções foi assinado na última sexta-feira.​ Confesso pra vocês que duvidei que a ideia fosse vingar. Não pela disposição dos fieis em ajudar, mas pela complexidade da operação. Não me passou pela cabeça que uma instituição pública como a Caixa fosse aceitar se envolver com tão singular operação. Mas o desenrolar dos fatos vai me jogando na cara que não deveria duvidar. Afinal, o banco já tinha aceitado entrar no negócio do estádio, cuja arquitetura jurídica desde sempre soou surreal. Mas pensando bem a Gaviões deve gozar de um histórico como pagador que põe no bolso a maioria absoluta dos clubes brasileiros. E ao longo da história já se mostrou capaz de grandes mobilizações. 

Espero que o jornalismo elucide, ainda que por tabela, os bastidores da ideia, suas minúcias. Seria muito salutar para a legitimidade da empreitada que tivesse nascido de maneira espontânea. Mas a estreita relação entre organizadas e clubes me faz crer mais em um trama do que num arroubo de paixão. O que lhe emprestaria legitimidade. E ao ser criada neste momento em que a estrondosa dívida corintiana tem andado na ordem do dia ela ganha um quê de salvadora. Mudará um pouco o foco. Ajudará a acobertar o contra indicado modus operandi dos dirigentes que seguem gastando como se os cofres estivessem cheios e a dívida ameaçadora não passasse de intriga de adversários e opositores. 

Sou do tipo que não daria um centavo para aliviar a barra de cartolas. Mas tenho curiosidade pelo andamento e pelos argumentos que as doações irão revelar.  Ainda que muitos dos doadores, sem dinheiro para bancar a mensalidade de um plano de sócio, sigam alijados das arquibancadas da custosa Arena. A imensa maioria verá no ato de entregar a bufunfa uma prova de paixão. E é uma possibilidade já que ela nunca fez questão de andar de mãos dadas com a razão.  Só acho que isso tudo não deve ser entregue assim, para usar um termo tão antigo quanto vaquinha, de mão beijada. Os corintianos que vão colocar a mão no bolso deveriam exigir que a Gaviões se tornasse credora do clube. E futuras quitações deveriam servir para obras sociais. Seria um modo de engrandecer a torcida que ao longo da história tem se envolvido com boas causas. Outras nem tanto, é fato. 

Estou longe de ser um especialistas no assunto, mas deve existir um modo, se não esse de nominar a Gaviões como credora, de fazer com que a doação não se encerre nela. Que se exija uma contrapartida. Não consigo entender de outra maneira. A moda pode pegar, vai saber. E daria aos clubes uma margem de manobra que embora soe inventiva num primeiro momento pode vir a ser danosa. Nossos dirigentes estão longe de ser uma categoria que anda precisando de ajuda. Tudo o que eles não andam merecendo é ter moleza. O termo vaquinha traz com ele algo de sútil. Imagine se neste momento se falasse em arrecadação. Essa outra palavra possível que suscita tantas coisas. Fisco, entre elas. E se defendi aqui essas posições é porque desde meu tempo de moleque uma vaquinha ou ajudava a todos, ou ajudaria alguém que andava merecendo. E esse não é o caso dos nossos cartolas, insisto. Imagino que a essa hora  alguns deles silenciosamente andam esfregando as mãos e lembrando daquela velha marchinha de carnaval que diz: me dá um dinheiro aí.