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quinta-feira, 18 de junho de 2026

O que a Copa me mostrou



Em meio a tantos conteúdos relativos à Copa e ao futebol com os quais fui bombardeado nos últimos dias um me tocou em especial. Tratava-se um trecho de depoimento dado por Zagallo ao Museu da Pessoa. Nele o campeão do mundo relembrava circunstâncias que cercaram a final da Copa de 1958, a primeira vencida pelo Brasil. E o fez com nobreza, para destacar a postura que tiveram os suecos a respeito do jogo decisivo. O Brasil, todo mundo sabia, não gostava de jogar na chuva, lhe fazia mal. A água jogava contra o talento, impedia a bola de pé em pé. E antes da decisão choveu muito. Choveu na quinta, choveu na sexta, choveu no sábado. Domingo, dia da decisão, não. A chuva tinha parado. O velho Lobo ao falar deixava vislumbrar em seu rosto a certeza de uma lembrança que parecia ter o frescor de algo vivido no dia anterior. Pudera. E os suecos, que fariam a final com o Brasil, sabiam muito bem o que a chuva significa para o time adversário. Mas o que fizeram eles? Mandaram cobrir o gramado. Protegê-lo em nome do espetáculo. Sem dar a mínima para o proveito que poderiam tirar da situação. O fim da história todo mundo sabe. O time brasileiro impôs a eles um cinco a dois e os suecos nunca mais voltaram a disputar o título. 

Resgato essa passagem porque acredito que se tem um coisa para a qual essa Copa que aí está pode nos servir é para nos jogar na cara o quanto a postura dos homens molda o futebol.  Logo de cara tivemos em campo, no jogo de abertura, um árbitro brasileiro. Justo quando a arbitragem por tudo o que andamos vivendo por aqui deixa no ar a impressão de que ela é o pior que o futebol brasileiro tem a oferecer. E quero passar longe de qualquer veredito a respeito da atuação de Wilton Pereira Sampaio. Mas quero tomar partido e dizer que não concordo nenhum um pouco com o que ouvi sendo dito por aí. Que ele lá não apitou como apita aqui. Tenho dúvidas de que poderia, uma vez que o respeito ao árbitro, as atitudes em campo, o peso de cada jogo, a exposição planetária, redundam em realidade totalmente distinta. 

Sem contar que os árbitros que lá estão passaram a ter recursos que até então não tinham. Regras para evitar que o jogo se transforme em enrolação. E um amparo tecnológico ampliado, que a arbitragem da partida entre Estados Unidos e Paraguai me deixou com a impressão de ter usado com maestria. Quis o destino que fosse nessa partida que eu desse de cara pela primeira vez com um jogador a esbravejar com o árbitro. E esse alguém era o o zagueiro Gustavo Gomes, cujo comportamento conhecemos bem. Mas, foi um lance na linha de fundo que me fez perceber que nosso futebol aqui pode ser ajudado. Foi quando o VAR, com toda a discrição necessária, avisou o árbitro de campo, o holandês Danny Makelie, que ele tinha sido iludido. Tinha sido vítima de uma dessas encenações bizarras, feita pelo paraguaio Almirón. Encenação que tinha feito o zagueiro do time norte-americano, Ream, levar o cartão amarelo. 

Constatada a malandragem o cartão foi imediatamente invertido. E o meio campista paraguaio vai poder contar para os netos um dia que foi o primeiro esperto a passar a vergonha de ser flagrado pelo VAR cometendo um ato do tipo em uma Copa do Mundo. A correção só foi possível porque havia um cartão amarelo dado.  Mas acho que tá mais do que na hora de não fazer coisas dessa natureza depender de situação alguma. Constatado o flagrante o meliante deveria ser punido, fosse qual fosse o contexto. Do jeito que está posta a mudança creio que já será de grande valia na realidade absurda criada pelos jogadores brasileiros. Fará quem sabe evoluirmos um tanto, mas deixo uma sugestão. Podendo o flagrante ser dado a qualquer momento, sem ter redundado em cartão, tenho certeza de que faria nosso jogo andar um meio século para a frente. Não me iludo. Sei que isso é só o começo, que os homens do apito a partir de agora irão cada vez mais dar de cara com jogos que para serem devidamente domados exigirão deles cada vez mais. E que a qualquer momento um espertalhão, ou um esquentadinho, pode fazer a Copa tomar ares de Libertadores. Por isso deixo um "viva" pra quem ainda trata o futebol com a nobreza devida.    

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Andar com fé



Se tem uma coisa que me chamou a atenção nesse breve tempo em que deixamos de nos encontrar é como a tal Mega-Sena da virada vai ano após ano ganhando destaque nessa fronteira entre os anos. Dizem que sonhar não custa nada, mas sonhar com essas tais centenas de milhões de reais sem ter feito uma aposta não é sonho é sandice. Donde concluo que esse sonho tem seu preço. Aliás, que muitos topam pagar como podemos concluir pelo tamanho da bolada. Nossa realidade cruel, não dá pra negar, certamente contribui deveras pra esse quadro. A loteria , creio, cumpre o papel de uma espécie de último recurso em busca da felicidade ou, mais humildemente, em busca de uma vida digna. Por mais que nunca nos tenha faltado aviso de que a felicidade não se compra. 

Enfim, muito foi noticiado. O adeus ao velho lobo, Zagallo. O adeus ao cultuado Beckenbauer. A chegada de Dorival Júnior ao comando da Seleção Brasileira. Eu disse pra vocês que só acreditava na chegada de Ancelotti quando o visse de agasalho dando treino na Granja Comari, não disse? Essa sempre me pareceu uma cena difícil de se materializar. E pelo andar da carruagem jamais se materializará. Mas falando nas manchetes que ocuparam esta nossa lacuna, nenhuma me desafiou mais do que aquela que dizia que os brasileiros tinham gasto mais de 50 bilhões de reais em apostas on-line em 2023. Pensando bem não deveria, afinal, somos o povo que consagrou a aposta como uma espécie de fé. E que discorde aquele que nunca fez uma fézinha. 

E se digo que a notícia me desafiou é porque se trata de um número colossal. E talvez a maior parte das pessoas não tenha ideia do que ele representa. Como ainda não temos os números fechados de 2023 levemos em conta o exercício anterior. Em 2022 todas as loterias oficiais do país juntas foram responsáveis por uma arrecadação de 23,2 bilhões de reais. Menos da metade do faturamento das apostas on-line. E, vejam, foram números muito significativos  que representaram  a maior arrecadação da história. E justamente no ano em que a loteria pública brasileira completava sessenta anos de existência. Mais espantoso ainda se faz a realidade se levarmos em conta que até outro dia praticamente nem se falava em apostas on-line. 

Volto a insistir no papel que a nossa realidade social tem nisso tudo porque esse recorde histórico significou também um aumento de vinte e cinco por cento em relação ao ano anterior.  Um crescimento vertiginoso para algo tão estabelecido. E pensar que chegamos a esse cenário com todas essas empresas de apostas operando fora do nosso país. A regulamentação só agora está virando uma realidade e, ouso dizer, uma realidade ainda não totalmente estabelecida. Quase metade desse recorde histórico foi obra da Mega-Sena que em apenas um mês faturou mais do que o ECAD, nossa entidade responsável pela arrecadação e distribuição de direitos autorais de músicos e músicas. O que não deveria espantar já que somos um povo que gasta treze vezes mais com apostas lotéricas do que indo ao cinema. Mas por falar em música, não custa lembrar que quando Gilberto Gil canta que anda com fé, pois a fé não costuma falhar, está falando de algo mais transcendental do que uma aposta. Apostas, quase sempre, falham.