Mostrando postagens com marcador Nilton Santos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Nilton Santos. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 7 de maio de 2026

O drible não tem culpa



Vou fazer o possível para driblar o que se deu em um treino entre o garoto Robinho Junior e o astro Neymar. Entrevero que virou das notícias mais comentadas nos últimos dias. Quero usá-lo apenas como um ponto de partida. Sem entrar nos méritos. Ainda que melhor mesmo seria dizer deméritos. É que mais do que qualquer outra coisa, o episódio a mim serviu para tornar ainda mais evidente o tratamento  pouco honroso que o drible vem recebendo no nosso futebol não é de hoje. Que ele seja demonizado quando se dá num jogo à vera, como temos visto acontecer muitas vezes, se não é aceitável, ao menos, se dá em um contexto onde a rivalidade impera, e quase sempre é usada como argumento para justificar destemperos. Mas em um treino? Onde mais um jogador poderia lapidar suas habilidades? 

Vestir o drible com esse traje de desrespeito pode explicar a razão para que ele ande sendo coisa tão rara de se ver. O drible é, antes de tudo, requinte. E é bem provável que no altar das coisas sagradas do jogo de bola só ocupe lugar menos nobre do que o gol. Há o lançamento primoroso. A matada de bola certeira. Mas tudo isso transita em outras instâncias. Notem que quase sempre pesa sobre o driblador a pecha de sujeito que gosta de fazer pouco caso do adversário. Enxergam nele um provocador. Mas é a eles que os amantes do jogo mais facilmente se rendem. Não por acaso fazem fama. Ainda que quase sempre tenham sobre si esse quê de hereges. Se pensarmos bem, nesse futebol de hoje tão físico, onde não segurar muito a bola é mandamento, desenhar um lance que favoreça o drible pode beirar a desobediência. 



Imagino que muito provavelmente não há castigo maior para um driblador do que se ver vitimado pelo veneno que ele costuma inocular em suas vítimas. A história dá pistas de que esse gesto - que até os dicionários parecem ter certa dificuldade para definir - abriu as portas da realeza para muitos. Mas só os verdadeiramente nobres foram capazes de dispensar ao drible o tratamento devido. Estando eles no papel de executores ou de executados. É famosa a história do primeiro treino que Garrincha fez no Botafogo em junho de 1953. Escalado na ponta-direita pelo técnico Gentil Cardoso, o novato que ainda não tinha completado vinte anos de idade, não tomou conhecimento do lateral esquerdo que estava ali para marcá-lo. O lendário Nilton Santos, jogador da seleção. 

No primeiro lance, pra se livrar da tentativa do desarme, Garrincha o driblou pra fora. Nilton Santos, então, teria corrido atrás dele e, uma vez lado a lado, viu o garoto parar bruscamente e lhe aplicar outro drible parecido, mesmo que dessa vez a tentativa de lhe tirar a bola tenha sido mais veemente. E não foi tudo. Apesar de Nilton Santos ter levado a melhor em algumas situações, acabou tomando uma bola entra as pernas. Algo que, dizem, Nilton Santos jamais tinha permitido a ninguém.  Depois do treino, os dirigentes do Botafogo, ainda que loucos para fazer o garoto assinar qualquer papel, claro, foram consultar Nilton Santos, que definiu o jovem como um monstro. E afirmou que precisavam contratá-lo. É melhor ele conosco, do que contra nós, sentenciou o lateral-esquerdo, tido como o melhor de todos os tempos. Mas muitos dos entendidos que andei ouvindo nas últimas horas preferem dizer que desavenças do tipo são normais. Vejam, uma coisa é se desentender. Outra, bem diferente, é culpar o drible. O drible não tem culpa. 

 

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Os laterais



Se há um aspecto claro no futebol brasileiro destes dias é certa falta de brilho dos nossos laterais. Isso num país que sempre encheu a boca para falar deles. Um dos seus mais notáveis, não por acaso, ficou para sempre conhecido como a enciclopédia. Tamanho era seu conhecimento do ofício. Ao falar sobre o assunto impossível não lembrar também de Carlos Alberto Torres, com quem tive a honra de trabalhar, e cuja alcunha de capita também não esconde a envergadura que tinha. Aos mais novos tenho o zêlo de salientar que esse capita era o de um time que formava com nomes como Pelé, Gérson e Rivellino. Fato é que hoje em dia quando alguém leva a conversa sobre nossos laterais para esse lado, geralmente tendo como pano de fundo a Seleção Brasileira, fica difícil discordar.  

Há questões que podem fortalecer essa impressão. Como a excelência de nossos goleiros ou a maneira um tanto pop star com que costumam ser tratados os atacantes e meias ofensivos. Mas não só eles. Vivemos um momento em que os volantes, tão malditos em outros tempos, ganharam um verniz de nobreza, merecidamente. E tem sido nesse contexto de pouco brilho que o lateral do Flamengo, Rodinei, tem vivido. O cara que acabou encarregado de bater o penalti que daria ao time rubro-negro o título da Copa do Brasil semana passada. Um capricho do destino.  E não me venham tentar convencer de que naquele instante boa parte dos flamenguistas instintivamente não seguraram a respiração. Mas Rodinei foi lá e executou com louvor o que lhe cabia.  

Não foram poucas as vezes em que o vi apontado como o mais frágil do time da Gávea. E talvez seja. O que faz do fato de ter conquistado um posto de titular absoluto num time desse uma façanha. Outro veredito que se faz pesar sobre o Rodinei é de que costuma dar conta do recado quando ataca, mas sem ter a mesma desenvoltura quando a missão é defender.  Não é uma afronta dizer isso, mas também não é descabido imaginar boa parte dos que ocupam essa posição não execute essas tarefas com a mesma desenvoltura. Como talvez não seja absurdo dizer que os laterais tem sido exigidos em medida maior do que costumavam ser recentemente. 

Primeiro, pela habilidade dos meias ofensivos e atacantes que se aprimoraram deveras fazendo o tal jogo do um contra um algo imensamente desafiador.  Mas também pelo fato de uns tempos para cá as beiradas do campo terem passado a ser exploradas incansavelmente. Está aí esse batalhão formado do que se convencionou chamar nos últimos tempos de atacantes de lado, de beirada. Enfim, isso não é uma defesa do futebol de Rodnei. É só uma reflexão sobre uma posição que tem se revelado carente.  O que eu sei, mesmo, é que esse papo me fez lembrar de Roberto Carlos. Talvez o grande ícone da posição em anos mais recentes, não por acaso dono de uma trajetória gloriosa no futebol europeu. E que nos tempos de repórter vi muitas vezes de perto e que era de impressionar pela velocidade e precisão não só nos jogos, mas também nos treinos. Talvez também pese sobre Rodnei a responsa de vestir a camisa de um time que um dia teve de um lado Leandro, e do outro, o maestro Júnior.