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quinta-feira, 28 de maio de 2026

Um grande personagem

 


Talvez ele seja o maior personagem  da história recente  do futebol. E lógico que faço a afirmação sem esquecer de figuras que certamente seguirão sendo lembradas por muito tempo e que até poderiam rivalizar com o sujeito que irei fazer tema central destas linhas. Mas, por hora, esqueça Messi, Cristiano Ronaldo. Vamos tratar de alguém cuja contribuição soa estar muito além do talento. Envolve postura, representação, vanguarda. Pep Guardiola está por trás de boa parte dos times que nos últimos anos andaram encantando os apaixonados por futebol.  Lembro bem do que me perguntei muitas vezes em segredo ao vê-lo aceitar o desafio de treinar um time na Premier League. E o que me perguntava era: será que o cara vai mesmo conseguir triunfar na Liga reconhecida como a de maior excelência no mundo?  E aí é preciso lembrar a posição modesta que o Manchester City ocupava na ocasião apesar da dinheirama que já o cercava. 

Seja como for, o cara não deixou dúvida a respeito. Ao anunciar a saída do clube no fim da semana passada tinha no currículo nada menos do que seis títulos do campeonato inglês. Divididos de maneira nobre. Um bi e um tetra campeonato. Neste meio tempo saiu da condição de homem que pensou e comandou um Barcelona que parecia nascido de um sonho pra se ver em dado momento cobrado por torcedores como se fosse um comum. E se a imagem dele como um treinador consagrado na principal Liga do planeta não deveria nos surpreender, vê-lo em determinado momento, bater boca com um torcedor que lhe cobrava pela fase questionável  que o clube dele atravessava foi algo que considerava, confesso, pouco provável. O imaginava acima das coisas mundanas que costumam cercar o jogo de bola. Inocentemente imaginei que estaria pra nascer torcedor capaz de, quase olho no olho, cornetar Guardiola. A cornetagem, como a ignorância, não tem limites, mas a paciência de um treinador tem. 

E, para além de como ele andou tratando e pensando o futebol, gostei de ver um Guardiola já consagrado dizer quando saiu do Barcelona que iria se impor um ano sabático. Algo que parece pouco complexo de se executar mas que costuma ser raro, porque treinadores demitidos e com boa reputação costumam se recolocar no mercado de trabalho de modo a dar inveja até aos mais bem preparados executivos que existem por aí. Mas fazer dinheiro não era o caso. Como ainda não parece ser. Poderia ter ficado no City, tinha ainda um ano de contrato. Mas se foi dizendo estar ciente da necessidade que o ofício impõe de vencer. Sabe que se passou dez anos no clube em que estava foi porque se sagrou campeão vinte vezes. Do contrário, disse Guardiola com todas as letras, teria sido demitido. Tenho curiosidade de saber como, a partir de agora, esse catalão irá encaminhar a carreira. O que será que ainda pode desafiá-lo? Em matéria de futebol, o que será que lhe falta?  

Guardiola não esconde que quer dirigir uma seleção. E isso me lembra, como talvez queiram lembrar alguns, que nem sempre Guardiola acertou. Prova disso é ter dito tempos atrás que o técnico da Seleção Brasileira seria sempre um brasileiro. Ancelotti aí está colocando por terra a teoria defendida por Pep naquele instante. Não digo que a CBF tenha errado ao renovar o contrato com o italiano, mas parece claro, por tudo que Guardiola andou dizendo, que essa tal assinatura borra uma possibilidade que poderia fazer bem ao nosso futebol. Três anos atrás, apontado como o principal pilar do Manchester City, Guardiola disse com todas as letras que não tinha inventado o futebol, que o jogo pertencia aos jogadores. Que não inventou é fato, como parece ser fato também que o fez soar de maneira singular.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

É preciso mais do que Fair Play



O futebol brasileiro ensaia um passo de modernidade com a CBF anunciando regras de Fair Play financeiro coisa e tal. Acho louvável, ainda que me esfrie totalmente os ânimos ter ciência de que o que foi proposto irá valer mesmo lá para 2028. E é bom que se diga que estabelecer regras não vem a ser exatamente transformar o futebol em algo limpo. Seria preciso muito mais do que isso. Do ponto de vista da grana tornar o futebol transparente se faz infinitamente mais desafiador do que, por exemplo, fazer com que nossos árbitros ao apitar tenham os mesmos critérios, coisa tão reivindicada nos dias atuais. Vejam. O futebol inglês, tido como o supra sumo desse universo, já se sabia há mais de dez anos tinha mais de quatro bilhões de euros em paraísos fiscais. Foi o que apontou uma investigação feita no Reino Unido e que, na época, não deixou dúvidas de que essa era uma tendência entre os clubes daquele país. Trinta e oito deles estavam usando a tática. Ou seja, um a cada quatro, distribuídos pelas várias Ligas disputadas por lá.

A razão mais óbvia para adotar esse tipo de estratégia é dar um drible no Fisco. Mas diante do que tinha sido apresentado os envolvidos com entidades que tratam da Transparência Internacional não tardaram a avisar que o risco obviamente não era apenas de evasão, mas o de atrair criminosos interessados em usar o futebol para lavar dinheiro. É certo que esse tipo de conduta está longe de ser exclusividade do futebol. Mas, seja como for, é dele que tratamos aqui. E sendo assim, tão importante quanto estabelecer regras de Fair Play financeiro seria fazer com que o futebol se livrasse de todo o dinheiro sujo. Também é interessante notar como é que isso tudo vai se dando por aqui. O futebol brasileiro já teve times históricos, times mais ricos do que a maioria, já teve times bem sucedidos, cujo corpo administrativo era considerado exemplar. Mas o tempo transformou todos eles em pó. 

A realidade atual é de uma hegemonia financeira e administrativa encarnada em dois clubes: Flamengo e Palmeiras. Os dois se fazem notadamente distintos de todos os outros nesses quesitos, ainda que em campo, muitas vezes, essa supremacia se dilua. Diante dessa realidade exemplar que nunca perdurou, se perguntar quanto tempo esse sucesso vai durar é inevitável. Afinal, como está dito, até aqui o jeitão de gerir os clubes de futebol tratou de tornar evidente que todos os projetos tidos como de sucesso escondiam uma base frágil, que mais cedo ou mais tarde acabou minada por interesses outros.  Mas é fato que o que foi construído até aqui por Flamengo e Palmeiras está tendo papel fundamental no que estamos vendo, nessa tentativa de transformação, de avanço. 

Os dois conquistaram a condição de poder agora apontar o dedo para muitos de seus adversários os acusando de práticas financeiras mundanas. E aos acusados resta baixar as orelhas pois sabem todos que têm culpa no cartório. E como têm. Por essas e outras me forço para tentar ver mais além. Digo a vocês que se é assim que a banda toca neste momento, o bem intencionado futebol brasileiro - agora tão disposto a abraçar a modernidade - deve se livrar das dívidas de impostos, dos terremos grandiosos sempre cedidos com a desculpa das contrapartidas, das dívidas trabalhistas. A roupa do bom mocismo social já não lhe cai bem nessa era recém inaugurada em que as histórias que antes soavam como sendo de todos passaram a ter donos, a estar a serviço de interesses próprios. Ir arranjando as coisas é preciso, e dá até para se tomar como algo digno de elogio, mas uma coisa é decretar o Fair Play financeiro, e outra, muito diferente, fazer do futebol algo exemplar.  

quinta-feira, 20 de junho de 2024

As Copas e a América



Dizer que a Seleção Brasileira está longe de ter o apelo que teve um dia é chover no molhado. As resenhas cansam de elaborar teorias a respeito. Motivos são muitos. E o mais apontado entre eles é o distanciamento que se deu entre os jogadores e a torcida. Há nessa receita muitos ingredientes e, na minha modesta opinião, um deles influi diretamente no ânimo dos jogadores: foi-se o tempo em que um triunfo com a Seleção era notoriamente o ponto alto da carreira de um atleta. Atualmente só a Copa é capaz de se aproximar desse significado. Não por acaso quando se fala no assunto hoje em dia sempre aparece alguém fazendo questão de se definir como um torcedor de Copas. Mas veja, não de Copa América, que por sinal começa hoje. Copa do Mundo!!! E mesmo ela já não goza do glamour que teve um dia. Mas resiste. 

Ponto alto pra um boleiro hoje em dia é vencer a Champions League  ou a Premier League. E não lhes tiro a razão. Se o peso das competições mudou ao longo das últimas décadas seria insano pedir que continuassem as encarando com o mesmo ânimo. Talvez isso explique a Seleção Brasileira que temos visto em campo. Dorival  Júnior teve um contexto a favor dele. Logo de cara dois adversários desses sobre os quais um bom resultado diminui consideravelmente a margem para críticas dada a excelência de quem se enfrenta. E o escrete nacional foi bem, ainda que no segundo capítulo diante da Espanha parte do brilho visto diante dos ingleses tenha se escafedido. Depois disso a história andou e diante dos comuns México e EUA o futebol brasileiro voltou a ser mais parecido com o que a gente andava vendo. 

O garoto Endrick que os enredos em campo iam pintando como o talismã de Dorival não virou. O que pode ter sido bom até para o próprio Endrick que não parece disposto a dosar nem um pouco seu jeitão de se achar o tal. Também considero para o time a ausência de Neymar salutar. Como considero para Dorival. Espero vê-lo em campo jogando tudo o que sabe. Mas de tão talentoso e importante que se fez até hoje estou pra ver um treinador lidar com Neymar de acordo com o futebol que ele tem para oferecer no momento. E não tenho razões para acreditar que com Dorival seria diferente. Não podendo contar com ele será inevitável pensar em outras alternativas. E sem Neymar em campo a dinâmica de jogo da Seleção se altera. Pois se os treinadores são incapazes de lhe negar a vaga de titular os companheiros muitas vezes são incapazes de lhe negar a bola.  O que por outro lado só evidencia a  importância que lhe cerca. 

E, além do mais, um planejamento a longo prazo precisará levar em consideração já não ter como contar com Neymar. Diante dessa incerteza sobre o que ainda pode o nosso futebol e essa profunda mutação dos torneios e seu poder de sedução é bem provável que venhamos a ficar cara a cara com um sentimento que nos cerca há algum tempo: o de não saber ao certo a estatura de certas conquistas. Vencer a Copa América poderá soar como algo que não nos tenha colocado um passo sequer mais perto daquelas que são vistas hoje realmente como as grandes Seleções do mundo. Talvez um embate daqueles com a Argentina, atual campeã do mundo, nos envaideça mais do que o próprio título. A Colômbia antes disso é possível que nos crie algum temor. Mas tudo isso só irá nos mostrar que a Seleção Brasileira já não é o que foi. Mas nem as Copas o são.

quinta-feira, 23 de maio de 2024

O VAR deve acabar ?



Não sei o que você pensa sobre o VAR. É fato que aqui entre nós adquiriu maus modos. Chegou querendo mandar no jogo. E isso não é coisa que se faça. Extrapolou muita vezes o que seria seu papel. Talvez porque recebido com pompas, com ares de salvador da pátria. Hoje me dá a impressão muitas vezes de assombrar a diversão do torcedor. E por falar em torcedor. O mundo moderno não é mesmo bolinho, como diria minha avó. Onde já se viu condená-lo a segurar um grito de gol na garganta até que todos os ângulos de um lance garantam que o que se deu em campo foi dentro da lei. Enfim, o Vídeo Assistant Referee, popularmente conhecido como VAR, virou uma grande questão. O nome sugere alguém trajado de autoridade para concluir por vídeo o que foi ou não foi legal enquanto a bola rola. Ocorre que pela gritaria que tem sido ouvida quase toda vez que se revela algum áudio do lugar em que trabalha a decisão que ele aponta tem sido uma mistura de pontos de vista e urgência. Em que triunfa, não necessariamente quem tem o melhor argumento, mas aquele com maior poder de persuasão ou patente. Essa é minha sensação. 

E nessa bagunça não poderia dar certo. Não teria como ter um futuro promissor. Não com esse tipo de comportamento. Ou de companhias, se preferirem. Algumas rodadas atrás testemunhei uma cena em que, depois do que pareceu uma eternidade, se decretou o gol. A essa altura os jogadores já tinham esgotado a capacidade de encher a paciência do juiz, ou de bater boca entre eles. Estavam reunidos em pequenos grupos. E quando veio a grande notícia davam a impressão até de já ter esquecido que algo estava por ser decidido. E daquele marasmo campal veio a explosão do gol. Despertando por tabela o poderio vocal do narrador.  Um negócio esquisito, sabe?

 Já o VAR inglês sabemos, não deve ser por acaso, é um sujeito mais polido que o nosso. Mas ainda assim, vejam só, andou testando os limites da paciência inglesa. Não sei a correria do dia a dia lhes permitiu saber que no próximo dia 06 de junho será votada uma petição feita pelo time do Wolverhampton para encerrar as atividades do VAR na Premier League, torneio tido como modelo para todos os outros campeonatos nacionais mundo afora. Os argumentos são tão polidos quanto os ingleses. Apontam numerosas consequências negativas não intencionais. Tenho duvidas sobre isso. Mas concordo inteiramente quando dizem, entra outras coisas, que o constante discurso do VAR tira o foco da própria partida e mancha a reputação de quem a organiza. 

Por essas e outras sugiro que voltemos à comunhão primal com o jogo de bola. Vamos ver uma pelada. Algum jogo desses em que o homem  vestido de preto, armado de apito, continua sendo um soberano. Testemos nosso olhar, nossa capacidade de atenção. Lembro bem de na minha época de moleque, enquanto íamos descobrindo a emoção de estar em um estádio, dos lamentos tardios de uns e outros que, uma vez na arquibancada, se distraiam. Perdiam o momento do gol enfeitiçados por algum outro detalhe. E na mínima fração de tempo seguinte a que o fato tinha se dado - quase instintivamente - achavam que teriam direito a um replay. As maravilhas tecnológicas desde sempre nos seduziram. Confortos do tipo sempre tiveram um quê de traiçoeiros. Duvidemos da tecnologia. Acreditemos piamente na alma do futebol. Pode ser a salvação !