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quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

É preciso mais do que Fair Play



O futebol brasileiro ensaia um passo de modernidade com a CBF anunciando regras de Fair Play financeiro coisa e tal. Acho louvável, ainda que me esfrie totalmente os ânimos ter ciência de que o que foi proposto irá valer mesmo lá para 2028. E é bom que se diga que estabelecer regras não vem a ser exatamente transformar o futebol em algo limpo. Seria preciso muito mais do que isso. Do ponto de vista da grana tornar o futebol transparente se faz infinitamente mais desafiador do que, por exemplo, fazer com que nossos árbitros ao apitar tenham os mesmos critérios, coisa tão reivindicada nos dias atuais. Vejam. O futebol inglês, tido como o supra sumo desse universo, já se sabia há mais de dez anos tinha mais de quatro bilhões de euros em paraísos fiscais. Foi o que apontou uma investigação feita no Reino Unido e que, na época, não deixou dúvidas de que essa era uma tendência entre os clubes daquele país. Trinta e oito deles estavam usando a tática. Ou seja, um a cada quatro, distribuídos pelas várias Ligas disputadas por lá.

A razão mais óbvia para adotar esse tipo de estratégia é dar um drible no Fisco. Mas diante do que tinha sido apresentado os envolvidos com entidades que tratam da Transparência Internacional não tardaram a avisar que o risco obviamente não era apenas de evasão, mas o de atrair criminosos interessados em usar o futebol para lavar dinheiro. É certo que esse tipo de conduta está longe de ser exclusividade do futebol. Mas, seja como for, é dele que tratamos aqui. E sendo assim, tão importante quanto estabelecer regras de Fair Play financeiro seria fazer com que o futebol se livrasse de todo o dinheiro sujo. Também é interessante notar como é que isso tudo vai se dando por aqui. O futebol brasileiro já teve times históricos, times mais ricos do que a maioria, já teve times bem sucedidos, cujo corpo administrativo era considerado exemplar. Mas o tempo transformou todos eles em pó. 

A realidade atual é de uma hegemonia financeira e administrativa encarnada em dois clubes: Flamengo e Palmeiras. Os dois se fazem notadamente distintos de todos os outros nesses quesitos, ainda que em campo, muitas vezes, essa supremacia se dilua. Diante dessa realidade exemplar que nunca perdurou, se perguntar quanto tempo esse sucesso vai durar é inevitável. Afinal, como está dito, até aqui o jeitão de gerir os clubes de futebol tratou de tornar evidente que todos os projetos tidos como de sucesso escondiam uma base frágil, que mais cedo ou mais tarde acabou minada por interesses outros.  Mas é fato que o que foi construído até aqui por Flamengo e Palmeiras está tendo papel fundamental no que estamos vendo, nessa tentativa de transformação, de avanço. 

Os dois conquistaram a condição de poder agora apontar o dedo para muitos de seus adversários os acusando de práticas financeiras mundanas. E aos acusados resta baixar as orelhas pois sabem todos que têm culpa no cartório. E como têm. Por essas e outras me forço para tentar ver mais além. Digo a vocês que se é assim que a banda toca neste momento, o bem intencionado futebol brasileiro - agora tão disposto a abraçar a modernidade - deve se livrar das dívidas de impostos, dos terremos grandiosos sempre cedidos com a desculpa das contrapartidas, das dívidas trabalhistas. A roupa do bom mocismo social já não lhe cai bem nessa era recém inaugurada em que as histórias que antes soavam como sendo de todos passaram a ter donos, a estar a serviço de interesses próprios. Ir arranjando as coisas é preciso, e dá até para se tomar como algo digno de elogio, mas uma coisa é decretar o Fair Play financeiro, e outra, muito diferente, fazer do futebol algo exemplar.  

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

O fim da cera



Há muita coisa além do VAR que tem contribuído deveras para azedar nosso divertimento com o futebol. É fato que, inventado o jogo, ficou óbvio que a humanidade foi pródiga em produzir sujeitos que se acham mais espertos do que os outros. E disso sabe bem não só o mega craque cujo destino lhe deu a ventura de encher as burras jogando no velho continente ou nas Arábias, como sabe também o mais mortal dos peladeiros que desfilam por aí. Mas talvez em matéria de brincar com a nossa paciência só a cera praticada pelos goleiros soe como páreo para o árbitro de vídeo. Não que a cera seja exclusividade dos arqueiros. Não se trata disso. 

Acontece que com o jogador de linha ela passa a ter um sem fim de artifícios para dissimula-la. Seja encenando dores lancinantes em virtude de uma ponta de pé que mal lhe tocou o tornozelo ou esticando os braços para que o adversário o ajude a lidar com uma câimbra virtual. Não que os goleiros não façam uso dessas artimanhas. Mas boa parte das vezes, na hora da reiniciar a peleja, estão ali apenas eles e a bola. E quanto mais importante for o jogo mais a cera se faz proveitosa. Diria que a partir daí tudo passa a se resumir a um embate entre a cara de pau do outrora camisa um e a capacidade do árbitro em lidar com ela. Mas nem tudo está perdido meus amigos. 

Leio aqui que a FIFA já testa em campeonatos da base inglesa uma regra que puniria com escanteio o arqueiro malandrinho que não vier a soltar a pelota em oito segundos. É fato que já existe a regra que pune esse tipo de engraçadinho com um tiro livre indireto. Mas ela é raramente usada. Senti um leve alívio ao ler isso. Quem sabe o Brasil não seja o único no planeta em que certas não leis não pegam. E quem diria que isso nos seria revelado ao versar sobre os que têm a missão de pegar e teimam em não soltar. 

Mais alvissareiro foi saber que uma vez implantada a tal contagem regressiva os dados mostraram que nas setecentas e noventa e seis vezes em que a bola foi parar nas mãos de um goleiro eles nunca ultrapassaram os oito segundos. Ora, essa meninada fina assim só pode estar querendo acabar com a alma das peladas. A regra agora irá agora ser testada na Itália. E lá trocarão o tipo de punição. Ela não será feita com escanteios mas com laterais. O que significa que o nobre leitor talvez tenha de seguir tomando um lexotam para continuar aturando a cera que todo mundo sabe que mexe com nossos nervos. 

Seja como for achei a ideia muito bacana. Afinal, já temos telões em boa parte dos estádios mostrando pra torcida as cenas de terror produzidas naquela bendita cabine do VAR. Colocar um cronômetro ali com um sinal sonoro potente não implicaria grandes esforços. Sugiro inclusive um sinal bem estridente daqueles que o goleiro que o fizesse soar acabaria vaiado pelas duas torcidas. Tem de ser por aí.    

quinta-feira, 28 de maio de 2020

A novela e o futebol



Sei que vivemos na era das séries. E já nem sei se é o caso de chamá-las de séries de tv tantas são as telas que nos cercam nestes tempos. Fato é que não sou muito dado a elas.  Mas não me creiam um sujeito antiquado ou daquele tipo que briga com o novo. Nem tanto. No fundo de tudo talvez esteja somente uma falta de tempo onipresente que não me abandona nem em plena pandemia. De todo modo, não vou esconder que uma longa  sequência de capítulos de certa forma me entedie. Traga a mim a impressão de estar vendo uma novela.  E em matéria de novela parei em o Bem Amado,  com Paulo Gracindo no papel soberbo de Odorico Paraguaçu.  Embora nunca tenha conseguido apagar da memória também uma das cenas derradeiras de Pecado Capital, gravada nas obras do metrô paulistano, quando Francisco Cuoco morre com uma mala cheia de dinheiro nas mãos ao som de Paulinho da Viola. 



É!Acreditem, as trilhas de novela já foram de um requinte assustador. Não por acaso colecionadores de vinil crescem os olhos quando ainda hoje quando dão de cara com um LP da trilha sonora de Locomotivas ou Véu de noiva. Memórias do tempo em que se tinha, quando se tinha, uma única tela em casa. E quem decretava a sintonia era o pai ou a mãe.  Não se falava mais nisso. Mas o que eu queria dizer é que dias atrás terminei de ver a série The English Game, que retrata os primórdios do futebol inglês. Seis capítulos que fatalmente levam à reflexão qualquer um que tenha esse jogo em alta estima. 


Licenças históricas e poéticas à parte, o que me impressionou, no entanto, foi a constatação de que mais de um século depois o jogo siga desafiado pelas mesmas questões. O poder da grana, a cartolagem disposta a qualquer artimanha para não perder as rédeas do negócio, uma suposta paixão que na arquibancada -  ou nos seus arredores, e muitas vezes em nome do jogo - se transforma em pura violência. E, além de tudo isso, o  peso da vida de cada homem por trás desse jogo planetário. Fergus Suter, o protagonista, entrou para a história - ainda que o tema seja controverso - como o primeiro jogador profissional. Em outras palavras, o primeiro a receber uma grana para tal.  E tinha, rapaz pobre que era, por trás de si uma trajetória pessoal pra lá de sofrida.  

Enfim, tudo naquela história que se desenrola há quase cento e quarenta anos soa atual. Ou ainda não há, claramente, uma disputa entre endinheirados e desafortunados? Isso por mais que o tal fair play financeiro não passe de um acerto de contas entre os primeiros. Estranho é notar que para cada personagem austero e insensível que toma vulto no enredo facilmente encontraríamos entre nós um assemelhado. Mas ninguém que pudesse fazer o papel de um certo lorde que foi capaz de enfrentar grandes embates em nome de algo  que nos soa cada vez mais como uma abstração: o dito espírito esportivo.

* artigo escrito para o jornal " A Tribuna", Santos/SP