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quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Antiquado é tentar ganhar no grito

 Alexandre Schneider/Getty Images


Olha, a volta não é fácil. Todos os que tiraram alguns dias para descansar sabem bem disso. Já não falo em férias porque sou levado a crer que a realidade do mercado de trabalho brasileiro fez delas um luxo. E como qualquer luxo não é coisa da qual se possa tirar conclusões que sirvam para o todo. Aos que voltam a dar de cara comigo depois de um período desses e fazem aquela fatídica pergunta: como foi? Costumo brincar afirmando que é duro voltar, mas a gente acostuma. Frase sempre seguida de um risinho sacana. Digo a vocês que a maior virtude de um período de descanso é nos jogar na cara o quanto a nossa rotina é cruel. Seja como for, fato é que estou na área. E, estando, uma das coisas que de cara testaram minha paciência foi o comportamento pouco civilizado dos praticantes profissionais do nosso velho esporte bretão. 

Sobre a cera dos goleiros já tinha tido a oportunidade de falar neste espaço, elencando ideias e iniciativas pensadas aqui e alhures pra tentar colocar os arqueiros na linha. O do Vasco pode até ter sido injustiçado, mas não terá sido à toa. Já nas arquibancadas, outrora tidas como terra de ninguém, onde praticamente tudo era tido como normal, incluído aí cenas que beiravam a barbárie, pelo que vejo agora se cobra um comportamento de nobre. Onde o torcedor que não conseguir segurar um grito de mercenário para alguém que ganha milhões corre o risco de ser intimado pelo próprio. Enquanto isso, em campo, o clima é quase de  vale tudo. E que diga que estou exagerando aquele que diante de berros e palavrões proferidos olho no olho com os árbitros já não pensou: agora esse cara vai  ser expulso. Mas, meio sem acreditar, acaba testemunhando que o homem do apito deixou por isso mesmo. 

E muitas vezes nem se trata do capitão do time que, em tese, poderia fazer essa interlocução. Se é que o que se dá pode ser chamado de interlocução. E na beira do gramado? Bom, ali na área reservada aos ditos professores, a linha de conduta é muito parecida. E acho que não seria exagero afirmar que o técnico do Palmeiras se fez o grande baluarte desse tipo condenável de comportamento. O português mete a boca, como diziam antigamente. Um dia depois do jogo entre Corinthians e Palmeiras cheguei na redação e a conversa se alimentava do tema. Os envolvidos se mostravam indignados com a reação de Abel Ferreira na coletiva pós jogo, quando disse que estava desiludido com o que viu, levantou, e foi embora. Grosseria que ele repetiu no final de semana. Talvez Abel não saiba, mas não há desrespeito maior que se possa fazer a um repórter. 

E como observou um dos que participavam do papo - fazendo coro ao que tem se ouvido por aí - Abel não respeita ninguém. Não respeita o adversário. Não respeita o juiz. Não respeita jornalista. E depois de tudo que já vimos, me digam, como discordar de uma observação dessas? Agora, das feitas por ele, gostei particularmente de uma. Foi quando Abel disse o seguinte: estamos no século vinte e um e andamos a trabalhar com ferramentas do século passado. Ainda que dito de maneira enviesada, porque com a intenção de colocar o VAR em dúvida, sigo considerando uma aberração mesmo não darmos a arbitragem o amparo de tecnologias como a da linha do gol e a do impedimento semiautomático. Não seria a solução de tudo, seria uma ajuda imensa. Mas voltando ao nosso personagem, homem esclarecido que é, deveria se ligar que a essa altura nada soa tão antigo e antiquado quanto querer ganhar no grito. 

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Peladas profissionais



Pra começo de conversa vos digo que não sei se foi o futebol que mudou ou se fui eu. E a única coisa que pode atenuar esse dilema é chegar à conclusão de que mudamos os dois. O que é muito provável. E aí eu poderia fazer uma média e dizer que mudei pra pior e o futebol para melhor. O que pode até ser o caso falando de mim, mas não consigo acreditar que seja evolução o que vai me colocando em desacordo com o jogo de bola. Os analistas de desempenho certamente têm todos os dados disponíveis para me convencer de que o futebol virou outra coisa. Eu sei disso. E lhes digo que o homem que se ampara nos números, e só neles, terá sempre um quê daqueles que Nelson Rodrigues definiu perfeitamente como idiotas da objetividade. 

Mas não estou aqui pra maldizer o ofício de ninguém. O que eu tô fazendo é quase uma autoanálise, querendo entender porque me parece cada vez mais difícil encontrar algum encanto no que vejo se desenrolar entre as quatro linhas. Não duvido que olhando o jogo cientificamente ele possa ter dado um salto, mas daí a dizer que isso o tornou mais bonito me soa totalmente descabido. Poderia elencar aqui um sem fim de motivos para tentar explicar esse caldo insosso que os times andam derramando sobre os gramados e mexendo com o meu humor. Com o nosso humor imagino. Pois não seria tão egoísta de levar essa pensata adiante se não acreditasse que esse descontentamento nos aproxima. E, veja, quando falo de futebol falo do nosso aqui. Porque quando vejo o jogo que se pratica por aí o papo é outro. 

Em primeiro lugar o que acho é que os nossos times, seja lá qual for o tamanho deles, andam se contentando com pouco. Com muito pouco. Os passes de lado que que se propagam como praga nem precisam de dois gols, basta um e já brotam como erva daninha. E aí, fico imaginando, impera aquela maneira de pensar que desde sempre questionou a razão de se correr quando o time está ganhando. E não estou pedindo pra ver viradas de jogo daquelas que paralisam o adversário, nem lançamentos longos primorosos, coisas que não tardarão se farão tão raras quanto os gols de falta. Existem coisas no futebol moderno que me escapam. Dias atrás, confesso, fiquei surpreso ao ouvir o técnico do Flamengo definir o papel do ex-jogador  Rodrigo Caio na comissão técnica do Flamengo. Disse ele que a designação é: analista de bola parada. Tenho o maior respeito pelo Rodrigo, que sempre foi um cara de fino trato. O que não entendo é como nesse futebol em que se cuida de cada detalhe os jogadores têm dificuldade pra acertar a bola no gol e, em campo, insistentemente, optam por ações tão pouco arrojadas, tão pouco corajosas. 

Notem como é raro nos dias de hoje ver um time construindo uma jogada de ataque pela zona central do campo. Não duvido que o meio ande congestionado, que o jogo se tornou mais físico. Mas quero acreditar que o talento ainda segue sendo capaz de nos surpreender. Pense em alguns dos times mais afinados que vimos nos últimos tempos, não são muitos, e talvez lhe venha a cabeça alguns lances bem construídos nessa zona proibida. Enfim, não estou aqui para elaborar receitas. Admiro a alma malandra do futebol, que afinal veio da rua. Mas não essa malandragem de mão no rosto fingindo ter levado um tiro de canhão. Isso não deixa de ser um desaforo pro torcedor, que acostumou a engolir essas e outras. E se continuo me dando ao jogo e ao ofício é porque ainda acredito que seja possível lapidar essas peladas profissionais que temos visto.  

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

O fim da cera



Há muita coisa além do VAR que tem contribuído deveras para azedar nosso divertimento com o futebol. É fato que, inventado o jogo, ficou óbvio que a humanidade foi pródiga em produzir sujeitos que se acham mais espertos do que os outros. E disso sabe bem não só o mega craque cujo destino lhe deu a ventura de encher as burras jogando no velho continente ou nas Arábias, como sabe também o mais mortal dos peladeiros que desfilam por aí. Mas talvez em matéria de brincar com a nossa paciência só a cera praticada pelos goleiros soe como páreo para o árbitro de vídeo. Não que a cera seja exclusividade dos arqueiros. Não se trata disso. 

Acontece que com o jogador de linha ela passa a ter um sem fim de artifícios para dissimula-la. Seja encenando dores lancinantes em virtude de uma ponta de pé que mal lhe tocou o tornozelo ou esticando os braços para que o adversário o ajude a lidar com uma câimbra virtual. Não que os goleiros não façam uso dessas artimanhas. Mas boa parte das vezes, na hora da reiniciar a peleja, estão ali apenas eles e a bola. E quanto mais importante for o jogo mais a cera se faz proveitosa. Diria que a partir daí tudo passa a se resumir a um embate entre a cara de pau do outrora camisa um e a capacidade do árbitro em lidar com ela. Mas nem tudo está perdido meus amigos. 

Leio aqui que a FIFA já testa em campeonatos da base inglesa uma regra que puniria com escanteio o arqueiro malandrinho que não vier a soltar a pelota em oito segundos. É fato que já existe a regra que pune esse tipo de engraçadinho com um tiro livre indireto. Mas ela é raramente usada. Senti um leve alívio ao ler isso. Quem sabe o Brasil não seja o único no planeta em que certas não leis não pegam. E quem diria que isso nos seria revelado ao versar sobre os que têm a missão de pegar e teimam em não soltar. 

Mais alvissareiro foi saber que uma vez implantada a tal contagem regressiva os dados mostraram que nas setecentas e noventa e seis vezes em que a bola foi parar nas mãos de um goleiro eles nunca ultrapassaram os oito segundos. Ora, essa meninada fina assim só pode estar querendo acabar com a alma das peladas. A regra agora irá agora ser testada na Itália. E lá trocarão o tipo de punição. Ela não será feita com escanteios mas com laterais. O que significa que o nobre leitor talvez tenha de seguir tomando um lexotam para continuar aturando a cera que todo mundo sabe que mexe com nossos nervos. 

Seja como for achei a ideia muito bacana. Afinal, já temos telões em boa parte dos estádios mostrando pra torcida as cenas de terror produzidas naquela bendita cabine do VAR. Colocar um cronômetro ali com um sinal sonoro potente não implicaria grandes esforços. Sugiro inclusive um sinal bem estridente daqueles que o goleiro que o fizesse soar acabaria vaiado pelas duas torcidas. Tem de ser por aí.