A maneira que a crônica esportiva tem de tratar o futebol em linhas gerais não costuma primar pelo humanismo. Ainda que o amparo no conhecimento científico esteja mais presente do que nunca. Tão presente que acho que seria prudente que os interessados no tema pudessem entender melhor tudo o que anda balizando os corpos clínicos dos clubes na tentativa de mitigar os danos causados por esforços físicos cada vez maiores. Afinal, quando um jogador deixa de ser escalado sempre fica no ar a impressão de que se tratou de uma escolha e não de uma constatação. Uma vez que, segundo os especialistas, os exames a tudo esclarecem. O que alia lógica e saber científico, coisas que ajudaram a criar o pensamento que nos tirou da idade média e nos levou mais tarde a era moderna.
E talvez resida aí a grande dificuldade para que a interpretação do jogo e de tudo que o envolve se dê de maneira mais humana. Há sobre ele uma crença que impede que o científico se imponha. E isso me faz lembrar uma expressão que, mesmo antiga, está longe de cair em desuso: jogar no sacrifício. E com ela está posta a possibilidade de que se conteste o que os laboratórios permitiram ver. Difícil não aceitar que não é preciso estar fisicamente cem por cento pra jogar. Mas a partir disso tudo fica meio nebuloso. E enveredamos por um caminho onde as bases passam a ser tão abstratas quanto a das religiões. De quem não contesto o nobre papel, mas que me sinto obrigado a dizer que precisaram ser dribladas um tanto para que o humanismo viesse a florescer.
E se digo que o futebol não costuma primar pelo que aquele movimento propunha é porque a crônica esportiva em muitas situações está longe tratar o homem com o cuidado devido. Ainda que o deixe tanto no centro das reflexões que a coisa facilmente acaba descambando pro pessoal e pra fofoca. E as lesões que andam aí frequentando manchetes quase diariamente, que podem tirar o jovem Estevão da próxima Copa, que acabamos de saber impossibilitaram a ida ao mundial do zagueiro Eder Militão, todas elas são retratadas com certa frieza. Em geral, viram notícia no primeiro e nos últimos capítulos. Mas o drama que trazem consigo raramente é lembrado. E a dor tem sido desde sempre companheira de quase todo atleta de alto rendimento.
Imagino que devam estar parecendo eternos os meses que o atacante Paulinho, do Palmeiras, tem sido obrigado a ficar longe dos gramados. E a realidade que o aguarda é conhecida. Quem se recupera não tarda e será cobrado para mostrar em campo que está apto a exibir o vigor dos heróis. O técnico Fernando Diniz, de perfil tão humanista, dias atrás deu uma declaração que vale a pena ser resgatada aqui. Não desacreditou o que vem dos laboratórios, mas afirmou que um atleta não é só músculos e ossos, ao ser questionado sobre o modo como iria gerir o elenco corintiano.
Seja como for, as lesões - que parecem nos assombrar nestes dias - deveriam ser tema mais estudado. Para elucidar o que o futebol tem virado do ponto de visto físico. Para elucidar o tamanho dos danos causados por esses calendários draconianos impostos aos atletas. Realidade que esse momento torna muito evidente. Na última Copa, a França, por causa de lesões, teve seu elenco devastado. Ficou sem vários jogadores. Entre eles Benzema, na época o atual melhor do mundo. Ficou também sem Pogba, sem Kanté. Outros nomes viveram o mesmo. O argentino, Lo Celso. O alemão, Marco Reus. O senegalês, Sadio Mané. Enfim, escolhi o tema por que voltamos a viver esse tempo em que uma lesão se faz imensamente maior do que algo que simplesmente provoca ausências


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