quinta-feira, 2 de abril de 2026

Tirando onda



Hoje tomo a liberdade de dar uma escanteada no futebol, desde sempre tão hegemônico no nosso universo esportivo. Não sem citar que esse desde sempre tem um quê de licença poética, já que só os mais atentos ao desenrolar da história talvez lembrem, ou saibam, que houve sim um tempo em que as páginas esportivas não eram dominadas pelo dito jogo de bola e sim pelo turfe. Isso foi lá nos idos do fim do século dezenove e começo do vinte. Portanto, antes de tantos outros acontecimentos ajudarem a desenhar tudo o que temos testemunhado, dá pra dizer, ao longo do último século. Entre eles o fato de Charles Muller ter tido a bendita ideia de colocar uma bola na bagagem quando certa vez retornava ao Brasil. E vejam vocês como o mundo dá voltas. O futebol veio tomar o lugar justamente de um esporte tão íntimo de apostas. Já dizia um ditado que ouvi pela primeira vez quando garoto: quem tem fama deita na cama. E controlem seus instintos porque cama nesse contexto nada tem de alcova. Era só um jeito direto de dizer que para os famosos tudo costuma se dar mais facilmente. E isso não deixa de ser uma realidade para o futebol brasileiro hoje em dia. Não há como duvidar de quem ele tem mesmo vivido da fama. Lá se vão bem mais de duas décadas  sem uma Copa.  E arrisco dizer,  terá de trabalhar muito para voltar a ser respeitado pelos adversários como foi um dia. Mas seja como for, continuará sendo tratado como uma vedete por tudo o que representa e, mais do que isso, por tudo o que movimenta. 



Feita essa introdução  vou chegar onde quero. Enquanto o nosso futebol perdia ao brilho vimos outras modalidades evoluírem de maneira espetacular sem jamais gozar de prestígio semelhante. E nem vou citar aqui o fato de termos sido brindados com Gustavo Kuerten tri em Roland Garros porque naquele momento o futebol ainda estava para nos dar um título mundial. O que não me impede de dizer que ter tido um brasileiro como maior tenista do mundo com direito a derrotar lendas como Agassi e Sampras, segue sendo pra mim, se não a mais grandiosa, a mais surpreendente página da história esportiva do nosso país desde o Tri no México. No mais , para embasar o que digo aqui, apelo para outras duas modalidades que pratiquei e  quando o fôlego me permite, ainda pratico, e que alcançaram nessa lacuna de tempo uma excelência que o nosso futebol passou a dever. Uma delas é o vôlei, de tanta tradição na cidade de Santos, que tive a felicidade de ver disparar rumo ao apogeu e dominar o mundo de uma maneira que a meninada do clube onde a gente  treinava jamais sonhou que veria, naquele tempo em que a União Soviética - de Savin e companhia - parecia estar a anos de luz de nós. 



A outra modalidade é o nosso surfe, que também vi se fazer cada vez mais profissional e competitivo e que este ano terá, pela primeira vez na história, um número de atletas maior do que a Austrália. E só quem sabe o que a Austrália significa nesse universo é que terá uma boa noção do que isso representa. Mas de tão à frente dos outros o surfe brasileiro nos oferece hoje muitos outros argumentos para justificar seu protagonismo na cena planetária. Dos onze últimos títulos mundiais oito foram vencidos por brasileiros. Dos últimos cinco ficamos com quatro. O único que perdemos, perdemos para um havaiano, talentosíssimo, e isso também tem lá um grande simbolismo. E teremos na temporada que começou oficialmente ontem, quatro campeões mundiais brigando pelo título. O que jamais tinha acontecido também. Não quero com isso contestar a alcunha do Brasil como país do futebol.  Ainda que ela soe cada vez mais abstrata. Só quero jogar um pouco de luz a quem tem feito mais por merecer.  E ajudar a tornar evidente que se os brasileiros hoje em dia em matéria de futebol têm tudo para ouvir gracinhas, dentro da água têm tudo para seguir tirando onda.

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