quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O futebol como enigma



Neste momento o futebol brasileiro é indecifrável para grande parte dos jogadores que o fazem. Soa veemente, eu sei. Disse aqui em outro momento que a abertura para estrangeiros ter sido feita do modo que foi fatalmente teria consequências. Mas pelo visto, enfim, o tema provocou reflexões. Dias atrás o técnico do Palmeiras, Abel Ferreira, tinha falado a respeito. Mas falado meio por tabela, porque a intenção primeira era questionar e regra que estabelece o número de jogos a partir do qual um jogador pode mudar de clube. O que estaria forçando, segundo o treinador, os clubes a ir buscar jogadores no exterior. Uma crítica que faria mais sentido se a regra não tivesse sido alterada recentemente. Até o ano passado eram permitidos seis jogos. A partir deste ano, doze. 

O que me deixa sempre um tanto desconfiado das intenções por trás da declaração. Seja para forçar uma possibilidade maior de o clube usar seu poderio financeiro ou driblar um pouco outros assuntos de superfície espinhosa que sempre interessam mais à imprensa do que aos entrevistados. De qualquer modo, a parte incontestável é que a velocidade como tudo foi feito será sempre discutível. Abel lembrou que quando aqui chegou podiam ser cinco os estrangeiros. Pouco depois sete. E mais rápido do que isso liberaram nove. Mas na última segunda, depois de se reunir com os clubes, a CBF anunciou que o limite de estrangeiros passará a diminuir a partir do ano que vem, ao ritmo de um jogador por ano. Até voltar a ser de cinco. O que se dará em 2030. 

Tem sido normal vem em campo pelo Brasileirão equipes com mais de meio time formado por jogadores vindos de outras paragens. E é nesse detalhe que eu quero me apegar para interpretar o instante mais polêmico que o nosso futebol viveu nos últimos dias. A fatídica cobrança de pênalti que Menphis Depay transformou num chute inesquecível pra arquibancada. Estão certos os que andam por aí decretando que a vida dele jamais voltará a ser mesma depois disso. Estou longe de não considerar que perder, ou não, um pênalti é castigo que pode macular qualquer um que exerça o ofício. E há uma lista imensa de jogadores vitimados por esse tipo de situação. Mas costumo duvidar quando um jogador que vem de fora diz que sabe muito bem o que significa essa ou aquela rivalidade, aquele clássico. E o motivo é muito simples: na maior parte das vezes não têm recursos para fazer esse tipo de interpretação, não têm vivência.  E não têm culpa alguma disso, vejam bem. 

De qualquer forma, ficam prejudicados por essa impossibilidade de compreensão. Não quero com isso absolver o camisa dez corintiano por contrato. E acho que a crítica mais sensata que se pode fazer é que para um jogador que se diz de tamanha categoria uma cobrança daquela magnitude teria, no mínimo, que acabar no gol.  Ou mais tragicamente encontrar a mão do goleiro no meio do trajeto. Que sirva de aviso, porque muitos dos que aqui se exibem, alguns já mais íntimos, correm o mesmo risco. A história que Menphis desenhou com o clube, as atitudes tomadas desde o dia em que chegou sugerindo cumplicidade total com a nação alvinegra, essa condição que fez dele alguém com poder para subjugar o clube, podem ter se transformado em uma armadilha da qual será complicado se  desvencilhar. Entender o que é o Corinthians exige uma vida. Mas só os mal intencionados não aceitarão que errar é mesmo humano. Talvez, se ele tivesse um dia conversado com o saudoso Doutor Sócrates quem sabe teria ouvido, como ouvi certa vez, que em matéria de futebol quase sempre optar pela força é um equívoco. E aí, naquela bendita hora, pudesse ter lembrado disso. 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

O futebol na intimidade



Existe uma face do jogo de bola que não pertence a todo mundo. É íntima. E a imprensa já teve recursos melhores para desvenda-la. Diria que ser bem sucedido nesse tipo de empreitada fez a fama de muito jornalista, de muito repórter por aí. Merecidamente. No ofício é algo muito parecido como marcar um belo gol. Diria que os mais famosos casos do tipo se deram quando essa intimidade guardava detalhes que os envolvidos gostariam que jamais tivessem sido desvendados. Algo na linha do que se deu com o caso que entrou para a história como A Máfia da apito. Um esquema de manipulação de resultados descoberto pelo Ministério Público e pela Polícia Federal através de escutas telefônicas e que na época colocou em xeque a credibilidade da arbitragem brasileira. 

Mas há um outro tipo de intimidade, esse nobre, que encanta o torcedor. E não é à toa. Algo na linha do do que ouvi certa vez do goleiro Marcos do Palmeiras, exímio contador de causos sobre o jogo de bola. Infelizmente não vou lembrar detalhes da partida. Mas a alma do que se deu trago comigo. Eis que o arqueiro, diante da disputa por pênaltis que se avizinhava, ao notar que o sorteio que acabava de ter sido feito exigiria que os times mudassem de lado no campo teve uma espécie de iluminação. Era um momento em que as paradinhas andavam muito na moda para desespero dos goleiros. Então, ao se encaminhar para a trave que ficava do outro lado, e percebendo que iria passar perto dos jogadores adversários, o que ele fez? 

Se virou pra trás, como se estivesse falando só com os companheiros de time, e avisou em alto e bom tom que o árbitro tinha dito que não valia paradinha. E que se alguém usasse do artifício ele iria mandar voltar. O que não passava de lorota. Seja como for, ninguém arriscou fazer a graça. Ele defendeu uma ou duas cobranças, já não lembro, e o Palmeiras se classificou. Em geral, essas quase confissões só se dão muito depois do ocorrido. Mas nunca perdem a graça. Intimidade é intimidade. Lembro também de ouvir Seo Macia, o Pepe, contar uma outra. Interessantíssima. De um dia em que o Santos foi enfrentar o mítico Botafogo. Nos tempos em que esse era o jogo. E alguém deu ao técnico santista a dica de que o segredo era não deixar Zagallo jogar. E o velho lobo não era visto como um jogador a ser temido. O que foi ouvido com certa descrença. 

Fato é que a dica foi aceita. E o Santos, com um esquema especial pra cuidar de Zagallo, desenhou pra cima do time carioca um placar de respeito. Nada como um detalhe íntimo pra encher o futebol de graça. Isso tudo me voltou porque dias atrás se deu uma situação do tipo que ficou um pouco no meio do caminho entre algo que se descobriu e algo que foi declarado. Saiu da boca do classudo meio-campista, Rodri, agora jogador do Barcelona, que após ser substituído acabou flagrado pelas câmeras comentando com um colega de time que os adversários que tinham em campo eram muito ruins, muito fracos.  O que me fez ficar pensando que tipo de juízo não fazem intimamente os jogadores brasileiros dos adversários ou dos times que enfrentam. 

Mas é tão difícil imaginar algo do tipo sendo proferido por aqui que quase me convenço de que o Brasileirão é mesmo um torneio com um nível de competitividade que não se vê em nenhum outro lugar do mundo. Incrédulo com o que tinha acabado de testemunhar, Rodri perguntou ao amigo que estava o lado em que posição o adversário tinha terminado a temporada anterior. Ficou sabendo que tinha sido nono. E na atual andou flertando com a lanterna. Agora eu vos pergunto: dá pra imaginar um corintiano, ou um são paulino falando isso da Chapecoense?  

                   

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

A força da grana



Sou de um tempo em que os números no futebol tinham outro peso. Não que não balizassem as manchetes. Mas o nome do jogador, sua história, soavam como mais notícia do que o valor que eles iriam custar. E se tem uma coisa que mudou no futebol foram os números. Faz uns dias dei de cara com as cifras que o futebol mundial tinha acabado de movimentar na última janela, que nem estava totalmente fechada é bom que se diga. Havia muita gente esfregando as mãos por esse mundão afora e ainda eram mais de seiscentas as transações a serem concretizadas. Até ali tinham sido pouco mais de cinquenta bilhões de reais. O número era anunciado como um novo recorde na história do futebol. Mas meu espanto arrefeceu um tanto quando vi que a marca tinha superado a anterior por meros um por cento e meio. Esperava mais porque acabamos de sair de uma Copa do Mundo. E tá pra ser inventada vitrine maior pra esse tipo de negócio do que ela. 

O leitor mais atento dirá: mas esse por cento e meio é uma fortuna. Sem dúvida é. Infinitamente mais do que a maioria de nós ganhará trabalhando toda uma vida. E mesmo se juntássemos os nossos cofrinhos ainda assim seguiria sendo.  Apesar da robustez das faturas, o Brasil andou na contramão. Os negócios nesse meio de ano ficaram muito abaixo dos registrados no ano passado, quando entre chegadas e partidas o superávit foi além de um bilhão de reais. Quando se trata desse universo, quatro dos cinco maiores compradores - Inglaterra, França, Espanha e Portugal - compuseram também o top cinco dos maiores vendedores. A exceção foi a Alemanha, que no quesito entrega deu lugar ao Brasil. Não deixando dúvidas sobre a nossa incontestável vocação para entregar riquezas. 

No dia a dia do ofício faço o possível para não cair nessa teia dos números. São de complicada apuração. Em geral aparecem servindo a interesses. E como sou um sujeito desconfiado, considero-me um ateu no que diz respeito à precisão dos balanços. E até que as transações apareçam lá todo mundo já perdeu o interesse em se certificar se foram eternizadas com o mesmo tamanho que andaram frequentando manchetes. E mais, sempre fui assombrado por uma imagem: a de um negociador inescrupuloso, com um charuto a pender do canto da boca, ouvindo com ar cínico todos os números que a crônica anda vomitando sem desconfiar que isso só evidencia aos mal intencionados o tamanho da imprecisão dela. Nunca vi um jogador, ou agente, contestar números anunciados. Talvez alimentando aquela lógica de que é melhor deixar que os outros pensem que eles andaram ganhando mais que ganharam. Ou, ao invés disso, deixar os outros pensando que eles ganharam menos do que na verdade ganharam. 

Se alguém se lembra de algum jogador que tenha dito algum dia que ganhava mais ou menos do que andavam falando, me contem quando foi. Pois se vi algo do tipo minha memória apagou. Ela, às vezes, é seletiva é fato. Números são um perigo. Mas, falando neles, se tem uma coisa que tenho ouvido soar nos bastidores não é de hoje é que há uma bolha imensa ameaçando o mercado do futebol brasileiro. Só que números sempre são relativos. De outro modo ousaria dizer que acho um absurdo que uma proposta de SAF pro Santos em valores totais ronde a casa dos dois bilhões de reais. Como pode um clube com essa história valer pouco mais de dois Enzo Fernandes? O argentino que nesta janela de transações foi o mais caro. Custou ao Manchester City, que lhe tirou do Chelsea, pouco mais de 871 milhões de reais. Caneladas matemáticas à parte, a impressão que fico é de que argentinos andam fazendo negócio bem melhor do que brasileiros.       

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Aos goleiros



Eles são um caso à parte no futebol. A singularidade que lhes pesa é óbvia. Basta que uma bola tome o caminho da meta e acabe nas mãos de um deles para que se faça explícita essa sua condição. Em qualquer outra situação tocar a mão na bola redundaria em punição. Não sou capaz de dizer se a admiração nasceu dessa realidade ao avesso que vivem, ou de uma certa cumplicidade por ter gasto uma boa fatia do tempo que passei em campos por aí aceitando o papel de arqueiro. Quem jogou bola sabe muito bem o quanto vale alguém que se dispõe a isso. Cansei de ver peladas perderem parte da graça porque não havia no lugar um bendito com disposição para encarar a parada. 

E quando havia um não bastava, claro, eram necessários dois desses tipos destemidos. Os famosos gols caixote, não nos enganemos, nunca foram uma opção. Sempre foram a prova maior de que os goleiros são raros. E pelo que ouço seguem sendo. Tá aí algo que o tempo não mudou. E jogar com gol grande, como diziam, tem um quê de requinte. Era e continua sendo outra experiência. Tem mais, uma coisa é fazer a bola cruzar a linha do gol vencendo o jogador mais recuado do time adversário. Outra bem diferente é fazer isso levando a melhor sobre um goleiro. 

Aposto que vocês já ouviram por aí alguém dizer, quando um deles é castigado com uma bola dessas que se encaixam com precisão entre a trave e o travessão - dessas que o goleiro mesmo pulando jamais iria alcançar - que ainda assim ele fez o gol ficar mais bonito. Acho que é bem por aí, mesmo quando vazado, um arqueiro com estilo embeleza o lance. Torna mais evidente a "finesse" da jogada. E faz isso mesmo que o castigo venha em forma de drible.  Haverá sempre esse universo a separar o mandar a bola pra rede com o gol escancarado ou passando pelo defensor da meta. Percebam. O reconhecimento do árbitro,  por exemplo, como alguém que aceita passar pelo que passa por vontade própria é sempre lembrado,  sempre tido como algo difícil de compreender. Acho que do goleiro deveria se dizer o mesmo. 

E mais. A indulgência que é dada aos centroavantes nunca lhes é ofertada. Dos atacantes se costuma perdoar até jejuns de gols que duram uma quase eternidade. E quando voltam a marcar dão a impressão de estarem, vejam só, totalmente redimidos.  Já com os abnegados que abraçaram a causa da meta a rigidez das críticas é algo que não se dribla. Muito pelo contrário. Não é raro vermos um deles se esticar e mandar a bola pro lado e na sequência ouvir alguém ao seu lado afirmar, em tom impiedoso, que aquela bola dava pra segurar. Ou que aquela outra não podia ter sido rebatida pra dentro da área. Há um céu e um inferno escondidos nos noventa minutos que só pertencem aos goleiros. A eles, e um tanto aos zagueiros, não se exige menos do que uma infinita precisão. Uma bola entre as pernas anulará o brilho de dezenas de defesas impecáveis, mesmo aquelas inacreditáveis, que os narradores mais entusiasmados teimam em classificar como milagres. 



Diante de tudo isso, vejo em Fábio, do Fluminense, do alto de seus quarenta e muitos anos, um jogador injustiçado. Baita goleiro. E que diga sobre esse fardo Léo Jardim, o arqueiro do Vasco. Maldito quando o cruzmaltino caiu diante do Santos outro dia, maldito quando o time dele depois foi goleado pelo Palmeiras. Exaltado três dias depois quando o time dele venceu o Vitória em São Januário. Ou Santos, o arqueiro do Athlético Paranaense, vitimado por essa sina no jogo contra o Fluminense no final de semana. Por essas e outras creio que qualquer goleiro ao aceitar a vocação, aceitou sem perceber também o castigo que invariavelmente recai sobre os que ousam assumir essa posição singular.