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sexta-feira, 20 de março de 2026

SAF não é a salvação

Foto: Equipe do Brasil de Garça/SP


Teço estas linhas com um fio estranho, cuja matéria prima é de uma pureza que o mundo atual - e muitos dos que ainda seguem montados nele - acharão inapropriada e, por que não dizer, um tanto absurda. Foi-se o tempo em que o futebol era só um jogo. O ventre insaciável do mundo que a tudo traga não tardou em transformá-lo numa mina de ouro para alguns. E isso só foi possível porque para muitos, ou quase todos, ele continuou sendo o que sempre foi. Uma paixão, uma curtição, um modo eficaz de driblar as mazelas cotidianas. Mas como não quero que a ingenuidade contamine a matéria que compõe essa minha reflexão, não vou aqui dizer que o futebol nunca teve dono. Bastou se mostrar rentável para que fizesse nascer barões, oligarcas. Como sempre vimos nesses e em outros campos. Alguns muito populares, venerados, e outros tantos tomados por figuras folclóricas. Símbolos de um arcabouço que até outro dia resistia e dava aos clubes a ilusão de que seguiam sendo de todos.

Clubes que durante anos tentaram nos convencer seriam salvos por refinanciamentos sem fim. Deixando no ar, ao mesmo tempo, uma espécie de absolvição a quem administrou mal, deixou de pagar impostos, de honrar contrapartidas. E como, ao contrário das jazidas que podem ter fim, os veios que exploram seguem fartos, era preciso encontrar uma saída para seguir viabilizando esse negócio vital que alimenta um segmento  colossal. Mas um negócio que se visto por suas planilhas contábeis se revela financeiramente inviável, incapaz de seduzir mesmo o mais desavisado dos investidores. Diante dessa realidade aterradora, que mal poderia haver em aceitar que um clube de futebol passasse a ter dono? 

E dane-se que os clubes tenham nascido com ideais tão cheios de virtude, tão cheios de boa intenção, tão cheios de vontade de servir, de fazer do esporte um instrumento social. Clubes geridos por Conselhos,  sem remuneração. Sugerindo a paixão como seu grande motor.  Escrevo isso porque me parece muito óbvio que neste momento em que o Palmeiras se faz o único dos mais tradicionais times paulistas capaz de desafiar o que o tempo impôs, os outros, apequenados por tantos descaminhos, abalados por dívidas, andam fatalmente enxergando a redenção nessa fórmula recém elaborada. Fórmula que, antes de qualquer outra coisa, se faz prova cabal da incapacidade dos clubes, e de todos aqueles que se encarregaram deles até aqui. 

Mas, sem que notem ou queiram notar, salvar o modelo que soa ultrapassado seria salvar um jeito de pensar o futebol, de lhe honrar a alma. Mas ninguém está preocupado com isso. Importa é que a roda siga girando. E aqui está a matéria prima que tece o fio destas linhas, uma sonhada resistência. Pois as SAFs, dito de maneira bruta, transformam os torcedores todos em torcedores de margarina. Faz cair sobre os clubes um quê de produto, desses que podem estar em gôndolas de supermercado. Uma mercadoria que a qualquer hora pode trocar de mãos. E reduz o torcedor a mero consumidor. Gostaria de acreditar na capacidade dos Conselhos Deliberativos. Na lição de presidentes eleitos de maneira teoricamente democrática. Mas não é fácil crer nessa fórmula se ao longo do tempo os Conselhos, os presidentes, mesmo tendo a chave dos cofres, acabaram nos trazendo até esta realidade lamentável em que a maior parte dos clubes se encontra. Virar SAF pode até ser a única saída, só não acho que será a salvação.   

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Nada será como antes



O ano que vem promete sensações novas para quem gosta de futebol. Mas não se empolgue não. Tô falando da realidade distinta a que as mudanças orquestradas pela FIFA e pela CBF irão condenar os amantes do jogo de bola, e não prevendo triunfos. Muito menos descrete nacional, como pode concluir dessa breve abertura um leitor mais empolgado. Vejam, depois de todas as alterações que serão feitas no calendário nacional na temporada vindoura, os torcedores que gostam de gastar os janeiros à beira-mar talvez precisem deixar as areias para ver que enredo terá o debute do time do coração no principal campeonato do país. Uma vez que isso passará a se dar antes mesmo do carnaval, e não mais quando as águas de março já tiverem fechado o verão, como andamos acostumados. Donde concluo que os cartolas andam ousados. Não deveriam encarar tão de peito aberto a concorrência, porque se pensarmos bem são poucos os times por aí com mais apelo do que uma boa praia. Vai saber. Não duvido que o sol brilhando e as areias escaldantes, que também tantas emoções provocam, venham dar uma leve derretida na audiência das primeiras rodadas.  E nem vou falar da petulância diretiva de marcar compromissos para essa época, quando estamos todos cansados de saber que neste rincão dos trópicos o ano só começa depois da folia de Momo. 

Outro efeito das alterações poderá ser uma certa sensação de que as cervejas da quarta à noite já tiveram acompanhamento melhor, já que nos primeiros meses do ano que vem passarão a se destinar aos jogos dos torneios estaduais. Nunca foi má tática, e passará a ser mais indicada ainda, dar uma turbinada nos petiscos.  Quem sabe jogando com uma linha dtrês atrás, ou ao lado, dos copos. E que fique registrado que sou e fui, desde sempre, totalmente contra o fim dos Estaduais. Os considero parte importante do patrimônio futebolístico que construímos e que deveria ao longo do tempo ter sido mais bem tratado. Tenho a essa altura sérias dúvidas se um tratamento digno será possível diante das míseras onze datas a que a nova ordem lhes condenou. 

Mas quando falo em novas sensações falo também da Copa do Mundo, claro. Copa que parece ter transformado, Gianni Infantino, o presidente da FIFA, em amigo de infância de Donald Trump, que morro de curiosidade de saber se seria capaz de nos explicar a regra do impedimento. Será, sem dúvida, o momento mais singular da vida dos que há tempos se entregam a esse tipo de prazer, ou de paixão, como preferem os mais ardentes. A coisa dessa vez irá muito além de tentar adivinhar que papel a Seleção Brasileira interpretará. Esqueça tudo o que você já viu em matéria de mundiais. Serão três países. Infinitas quarenta e oito seleções. Sugerindo um nível técnico como realmente nunca se viu.  Podem escrever o que estou dizendo: não demora e a Micronésia vai garantir um lugar na Copa. Não quero parecer aqui um descrente nos avanços. Só os ignorantes não aceitam a obviedade de que tudo está em constante transformação. Está aí o Santos que não me deixa mentir, o Santa Cruz. 

E é sempre bom saber que pelo menos no que diz respeito à Copa do Mundo não estaremos solitários. Os italianos verão, talvez novamente de longe, que já não se faz mais Copa como antigamente. Os alemães, os argentinos. Só não arrisco dizer que até no Uzbequistão isso se dará já que os uzbeques serão debutantes nessa. Importa é não ser refratário ao novo. Sinto-me tão vanguardista escrevendo isso. Que venha a Copa do Brasil com final em jogo único, a Série D com sua quase centena de elegidos. Como chegaremos lá não sabemos. Agora como chegaremos na Copa o jogo de amanhã contra a Coréia do Sul pode nos dar mais algumas pistas. Mas temo certo desapontamento já que  sob a batuta do prestigiado Ancelotti, e ainda que nada  venha a ser como antes, pouca coisa mudou.  

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Viva o Seo Macia !



O futebol está em nós de um jeito muito singular. Não só com aqueles que nossos olhos puderam ver em campo mas também com aqueles que a história tratou de ungir com ares de eternos e que não ver em campo. Se a Copa de 1982, nos idos dos meus saudosos quinze anos,  me pegou em cheio com Zico, Sócrates e Falcão, à minha geração escaparam nomes como Pagão, Toninho Guerreiro, Jair Rosa Pinto, de quem nem por isso deixo de me sentir um tanto íntimo. A magia do jogo alimenta em nós a possibilidade de ultrapassar esse desvão histórico com devoção. E sigo acreditando que de alguma forma isso é possível, tanto são os craques de outras áreas que admiramos e trazemos pras nossas vidas. 

Quisera eu puder ter visto em campo um Zizinho, um Didi. Deus do céu, um Garrincha. Quem dera. E não tratem como heresia não ter citado até aqui o Rei Pelé que, dizia meu pai, vimos em campo. Mas que eu devo confessar, um tanto envergonhado, não ter conservado em mim a mínima lembrança. O que nesta hora faz com que eu me sinta como se a memória tivesse - diante de um estádio lotado - colocado a bola entre as minhas pernas. E nesse time cultuado, a que meu tempo não me deu direito, está também, em lugar de honra, o ponta-esquerda Pepe. Muito se fala sobre o seu chute potente com o qual ele foi deixando pelo caminho um sem fim de adversários, mas que eu , secretamente, aprendi a admirar por outras virtudes menos exaltadas, como a precisão, por exemplo. 

Nunca esqueci do slogan de uma antiga propaganda de pneus que dizia o seguinte: potência não é nada sem controle. E a primeira vez que ouvi aquilo lembrei imediatamente do Seo Macia porque no dia em que eu o conheci ele fez com o amigo que estava a meu lado uma brincadeira que sempre gostou de fazer e que consistia em jogar a bola repentinamente pro alto e dizer de antemão onde ela iria parar. Lembro bem. Naquele manhã de sol na Vila, disse que seria na linha de meio de campo e quando cheguei perto dela pude comprovar que a mesma não estava mais de dois dedos além do previsto. Impressionante. Mas se não sou do jogador testemunha, sou do homem. E com certos privilégios até, que me foram dados pela profissão e pelo destino. 

No primeiro caso, por ter desfrutado dos registros cuidadosos que ele tratou de fazer a respeito da própria história. E de poder, na condição de jornalista poder colhê-los. E no segundo, por ter vivido em São Vicente, e vê-lo muitas vezes por ali, com os amigos a falar de futebol. A revirar lembranças. E, vejam só, por ter formado num time de escritores ocasional que, podem acreditar, teve a honra de ter Seo Macia como treinador. O mesmo bondoso destino que, tabelando com a filha Gisa e outros amigos, me deu a oportunidade de escrever um prefácio para sua biografia publicada tempos atrás pela valente Realejo. 

E não bastassem todas as conquistas o ponta-esquerda a essa altura do jogo se apresenta com a alta patente dos que viveram muito e não se deslumbraram com a imensidão da própria obra. Que bom é saber que partir do próximo sábado, no Museu Pelé, estará a exposição Pepe - Futebol, vida e glórias. Aos amantes do futebol digo que se trata de oportunidade imperdível, em especial aos que, como eu, lamentam não tê-lo visto em campo, pois o homem segue aí cativante e admirável como nem todos os grandes campeões conseguem ser. Viva o Seo Macia!  

quinta-feira, 11 de abril de 2024

Foi ou não foi?


Você é do tipo que confia ou não confia nos árbitro de futebol? Sempre lembro de um velho companheiro de redação que costumava pregar, em alta voz, que nós brasileiros temos o traço perverso de começar a duvidar do árbitro bem antes do jogo começar.  Sempre vinha com essa quando a arbitragem virava tema do papo. Impossível lhe tirar a razão. Mas duvido que sejamos os únicos a conviver com essa pulga atrás da orelha. Fato é que gato escaldado tem medo de água fria. E tá pra nascer entre nós quem não tenha vivido trauma do tipo. Os santistas que sonharam com o título brasileiro de 1995 que o digam. 

Mas acho que já estamos em um estágio que deveria causar preocupações ainda maiores. Estamos na era em que passou a ser realmente um desafio saber o que viria a ser um bom árbitro. Ainda que alguns gozem nitidamente de prestígio maior. Como goza, ou gozava, Raphael Claus. E talvez a culpa não seja exatamente deles. Mas de tudo que se andou fazendo com relação a arbitragem. O mais incrível é que quando a dita interpretação era levada em conta o consenso a respeito do que se apitava parecia maior. Mais aí algum iluminado insistiu que as coisas precisavam ser mais claras e que bola na mão era bola na mão. E do que soava óbvio se fez o caos. 

Então passamos a ouvir  que era preciso levar em conta as orientações mais recentes repassadas aos árbitros. E eis que as orientações passaram a rivalizar com as regras, ou a dar essa impressão. Agora o que não dá margem a dúvida é árbitro ruim. Se você tem alguma lembre do senhor que apitou o amistoso entre Espanha e Brasil dias atrás. Enfim, alimentando esse fogo eterno dos embates entre foi ou não foi está não só essa área nebulosa em que pairam todas as interpretações e também um sem fim de câmeras que podem, a depender do ângulo em que estão postas, nos convencer facilmente de uma coisa ou de outra. Não queria ser o anunciador dessa nada alvissareira realidade. E peço desculpas se por acaso ainda restar nesse mundo alguém que não tenha feito essa constatação. 

Eu ao menos já me peguei muitas vezes mudando de opinião na mais perfeita sintonia com as alternâncias de ângulos. E chega a me dar arrepios lembrar disso porque a partir daí é possível - acompanhado de imagens - criar a narrativa que se queira para um lance, um jogo. A final do Paulista mostrou bem isso com o tal pênalti marcado em Endrick . Não há de ser , creio, um fato isolado desta nossa era infinitamente tecnológica e dada a desafiar pontos de vista. Tento na medida do possível adequar meu modo de ver o futebol a todas as orientações que soam por aí com certo ar de pregação. Tenho dúvidas monstruosas a respeito de muitos lances analisados sem pestanejar pelos mais experientes interpretes do jogo. 

Na maior parte das vezes sofro mesmo é quando as mãos e braços insistem em entrar no jogo. Entendo que se trata de um esporte de contato, aceito os jogos de corpo, mas quando um braço entra em cena deslocando alguém minha mente ultrapassada tende ainda a achar que foi falta, que foi pênalti, que foi claro. Mas pode ser apenas uma falta de atualização da pouca inteligência nada artificial que me foi dada a carregar na cabeça. E que me faz pensar que está mais do que na hora de os comentaristas de arbitragem terem a elegância de darem seus vereditos só depois de resolvido o lance em campo. E aí sim opinarem se foi ou não foi. 

quinta-feira, 9 de março de 2023

O Santos sob o olhar da história



Pode até ser que você não seja desses que andam cornetando o Campeonato Paulista. O que pensando bem é coisa que vejo mais ser encenada pela crônica do que pela torcida. Digam os descontentes o que quiser. Que o estadual acaba esvaziado. Que acaba complicando a preparação dos times para torneios mais importantes. Que sem ele o calendário deixaria de ser draconiano. De minha parte gostaria que fosse mais equilibrado. Ano após ano o que temos visto nada tem de novo. Das últimas dez edições sete delas tiveram na final os ditos grandes, incluído aí o Santos junto ao trio de ferro. Vez ou outra pinta um coadjuvante. Papel que tem pertencido ao São Bernardo nessa edição atual. 

Interessante notar que se analisarmos não só a última década, mas as duas décadas anteriores, seremos levados a crer que essas surpresas têm se tornado mais raras. Entre os anos de 2013 e 2022 foram três as oportunidades em que um time de menor porte figurou na final.  Ainda que só um deles, como na década anterior, tenha chegado ao título. E de maneira geral o time que cumpre esse papel de dar ao torneio um verniz de surpreendente quando rouba a cena acaba canibalizado. Tem os seus mais destacados nomes rapidamente cooptados. Afinal, quem irá resistir aos encantos de um Palmeiras ou de um Corinthians, que sempre embutem nesse seu cortejo a insinuação de que com eles o mundo do futebol definitivamente se abrirá pra esses que despontam. É o que vimos acontecer nos últimos dias com o jovem Crhystian Barletta de vinte e um anos, destaque do São Bernardo, que está na dele, tem de aproveitar o momento e voar. 

Esse recorte histórico também nos serve para analisar o papel do Santos. Nas últimas dez edições do Campeonato Paulista metade delas, cinco, foram decididas exclusivamente pelo trio de ferro. As últimas cinco, aliás. Quando o time da Vila Belmiro passa a fazer parte da análise o número salta para sete. Ou seja, na última década o Santos esteve em duas finais com os grandes. Em uma foi derrotado pelo Corinthians e na outra bateu o Palmeiras. Bons tempos. Também figurou em outras duas decisões. Em uma foi derrotado pelo Ituano e na outra venceu o Audax , que na época fez esse dito papel de sensação do campeonato. 

Pode parecer representativo, mas na década anterior o Peixe tinha estado em seis decisões e vencido cinco delas. E com louvor, porque ao vencer a edição de 2012 voltava  a ser tri estadual depois de 43 anos. A última vez que tinha alcançado tal feito tinha sido entre 1967 e 1969 época do Santos comandado por Pelé. E nem vamos falar da conquista da Libertadores porque o papo é só o Paulista. Este ano, depois de dois, o time da Vila Belmiro conseguiu chegar à fronteira da fase de grupos sem estar ameaçado pelo rebaixamento. Difícil negar que tenha avançado, portanto. E se a torcida não enxergava nisso um motivo de comemoração depois da melancólica atuação diante do Ituano na última rodada essa reação ficou mais do que compreensível. Os mais precisos dirão que o grande desafio santista é dar conta do Brasileiro que vem aí, tido como um dos mais cascudos dos últimos tempos. Muito pode ser dito a respeito, o que não dá é pra brigar com a história recente que impõe ao Santos retomar um lugar de honra que ele ano após ano tem visto lhe escapar.

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Cadê meus titulares ?



O título acima pode soar estranho, mas não descabido diante do que temos vivido. Ainda que seja levado a considerar que a turma que sente saudade do tempo em que um time entrava em campo com camisas de um a onze tenha dificuldade para entender que o tempo passa e as coisas mudam. E não se sinta envergonhado se for o seu caso. Embora um tanto conformado, sou dessa turma também. O rodízio de jogadores anda dando nó na cabeça de muito torcedor. Tostão , com sua pena nobre, dias desses versou sobre a questão. Tendo em vista todo o aparato à disposição de quem monitora um elenco profissional hoje em dia ignorar o que a medicina diagnóstica pode mostrar seria, antes de qualquer outra coisa algo leviano. Tenho muita curiosidade para saber qual a margem que se coloca diante do que esse aparato todo revela.  Pois só sabendo qual a margem com a qual os clubes trabalham seria possível dizer se andam, por exemplo, cautelosos demais com a questão. 

E digo isso porque se tem uma coisa que alimenta o discurso descontente dos torcedores é essa desconfiança. A de que estão tratando tudo com muita cautela. Mas é fato que o efeito disso é um certo, digamos, empobrecimento das escalações. Como dizer de outro jeito?  O tema tem sido constante nos debates esportivos. Digo mais, talvez só perca para a arbitragem, imbatível nesse sentido. E cuja capacidade para alimentar acalorados debates e gerar polêmicas o advento do VAR só parece ter turbinado. O lendário jogador, Roberto Rivellino, com quem tenho a alegria de conviver profissionalmente, outro dia encaixou no nosso papo uma frase a respeito do assunto que mais pareceu um xeque mate. Mandou na lata: tudo bem poupar um e outro, mas com a temporada tão perto do final é preciso , ao menos, se ter uma vaga ideia do que seria um time titular.  

E se uma temporada que já flerta com o fim não nos dá muitas vezes essa condição , por outro lado vai mostrando como ter de encarar mais de uma frente é algo desafiador.  Por mais que o técnico do Fortaleza seja bom no que faz. Não há de ter sido puramente as estratégias que tramou que sozinhas fizeram o time , que passou vinte rodadas na zona de rebaixamento, dar o salto que deu na tabela. Do mesmo modo que o líder do Brasileirão, o Palmeiras, que ganhou algumas semanas inteiras para trabalhar ( o certo não seria dizer: descansar?) depois de eliminado da Copa do Brasil, só anda mostrando esse fôlego todo porque viu diminuído seu número de jogos. Mas a euforia e o desejo de novos títulos praticamente impede que os palmeirenses vejam uma eliminação como algo providencial.  

O Santos também pode ser tido como ponto de partida para abordar o tema. Há outros fatores. Contratações, troca de treinador. Tudo enquanto o time ia tendo seu horizonte reduzido ao Brasileirão. Se o torcedor tem dúvida do quanto a oitava colocação soa surpreendente. Que pegue a tabela e veja quais os times que neste momento estão à frente do time da Vila Belmiro.  Times todos de futebol respeitado de algum modo. Por mais que os treinadores de Santos e Fortaleza andem jogando com o resultado e mente, dizer que essa condição não teve a ver com o fato de não ter de pensar no tal rodízio de jogadores como antes, é negar o óbvio. Não dá pra deixar de dizer também que a essa altura ficar nessa de cadê meus titulares é coisa de quem segue em mais de uma competição. O que, sejamos sinceros, é um luxo.         

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Aos santistas, resta o Brasileirão



Dias atrás a imprensa ressaltou a coincidência de o Santos Futebol Clube ter chegado à reta final do primeiro turno do Campeonato Brasileiro ostentando campanha idêntica a da temporada passada. Constatação que pode ser interpretada com otimismo, ou não. Alguns podem ter pensado que ter chegado à então décima sétima rodada desse modo era uma resposta pra se jogar na cara daqueles que no início do ano anunciavam o apocalipse. O que é compreensível. Mas não deixa de ser compreensível também que os menos otimistas vejam nisso um bom motivo para continuar pregando que é preciso abrir o olho. 

Erra quem acredita que a temporada passada deva servir de parâmetro. Não só porque seria fechar os olhos para certas fragilidades expostas pelo clube mas, acima de tudo, fazer de conta que o time não viveu o que viveu no Campeonato Paulista deste ano. Algo um tanto desesperador. Sem contar que, como costuma ser do feitio do futebol, a décima colocação ao final do torneio passado  não é uma fiel representação do que foi a campanha santista. É fato, não seria de todo mau repeti-la este ano. Significaria não só continuar na elite do futebol brasileiro como voltar a estar na Copa Sul-Americana. Mas o que passou passou e interessa mesmo é olhar pra frente. 

Quis o destino, ou a bola que o time vem jogando, que o Santos se veja neste momento com seu horizonte reduzido ao Brasileirão. O que diante de tudo que o clube vem vivendo deveria desde sempre, na minha modesta opinião, ser encarado como prioridade absoluta. O futebol brasileiro trata as mudanças de treinadores como remédio, não é novidade. Como não é novidade que administrar um mesmo remédio seguidamente pode ter como consequência a perda do efeito.  Não escrevo isso para contestar a chegada de Lisca ao comando do time. O tema me é caro. Prova disso é que escrevi neste mesmo espaço não faz muito tempo  a respeito da formação dos treinadores. 

Não me entra na cabeça que, diante das dificuldades que esse tipo de cargo impõe, os clubes não pensem em formar treinadores, como formam profissionais de outros cargos e jogadores. Também não vejo muito sentido em se ter uma comissão técnica fixa, se o importante cargo de auxiliar não é visto como uma etapa de um plano de carreira que culminaria com o comando do time.  Alguém dirá que é encarado assim mas que não era o momento. Colocação que eu responderia dizendo que irei considerar no que dia em que a coisa realmente acontecer.

Apesar de toda a grana que representa um torneio como a Copa do Brasil ou a Copa Sul-Americana o contexto geral faz do Brasileirão o grande motor do futebol brasileiro. Sem estar inserido nele o filme é outro, as possibilidades também. Por mais que se veja o Cruzeiro, depois de tudo o que viveu, dar pinta de que o mundo não acaba é que é uma questão de tempo apenas estar de volta à elite. A realidade vivida por cada clube é singular, não há como comparar.  Além do mais, não é preciso chegar a isso para estar exposto da pior forma. O simples fato de ver o time santista frequentemente reduzido à condição de quem briga para não cair é prova de que tudo anda mal. Mas confinado apenas à disputa do Brasileirão o time terá nove semanas seguidas com apenas um jogo. O que em matéria de futebol brasileiro é tido como o paraíso pelos treinadores e comissões técnicas. Mas aos santistas neste momento o paraíso ludopédico deve soar como miragem.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

A formação do treinador



Não sei se você anda contente com o técnico do seu time. Também não faço ideia do que pensa exatamente sobre essa onda de técnicos estrangeiros que tomou conta do futebol brasileiro.  Noto que alguns, mesmo refratários a essa abertura, se empolgam quando ouvem alguém fazer a velha insinuação de que na seleção Guardiola seria uma boa. Não é pra menos. O sujeito é singular. Escolhi falar a respeito para seguir ligado a temas abordados aqui nas semanas anteriores.  No caso, a bendita regra que limitava a contratação de técnicos ao longo do Campeonato Brasileiro e que os cartolas decidiram abolir. Sei que é assunto controverso, assim como essa história de se contratar treinadores estrangeiros. 

E justo quando os times flertam com essa condição de se tornarem empresas, vem um louco como eu pregar essa limitação.  Coisa que sabemos todos não faria o menor sentido no mundo corporativo.  É um argumento forte.  Mas vamos em frente. Quando escrevi a respeito citei o fato de a extinção da lei impedir, por tabela,  que profissionais que conhecem bem o cotidiano dos clubes passassem a ter oportunidades.  Eis que ao mesmo tempo, Fernando Lázaro, tendo sobre ele o rótulo nada edificante de interino, passou a comandar o Corinthians com aproveitamento de respeito.  Marcelo Fernandes o Santos. Interessante notar  que o Corinthians teve protagonismo em mostrar que esse poderia ser um caminho.  Está aí Fábio Carille para provar a teoria. Gostem dele ou não. 

Uma coisa é a parte teórica. Fundamental, certamente. Coisa da qual a CBF tratou de cuidar nos últimos anos. Mais do que isso, decretou a exigência do curso e o que vimos foi um sem fim de treinadores com ar de sabe tudo sentados em salas de aula na condição de alunos. Todos não, Renato Gaúcho disse que as férias dele eram sagradas e que o tal curso da CBF ficaria para outra hora. É fato também que muitos nomes que pulavam de um clube para o outro temporada após temporada perderam mercado. Saíram de cena.  E não querer crer que reside aí uma renovação é brigar com os fatos.  E os fatos me fazem acreditar que , para além da teoria que os cursos de treinadores oferecem, e que de modo algum descarto mesmo com seu ar cartorial, os clubes deveriam passar a pensar em formar treinadores. 

Pode soar um tanto ousado já que muitos mal conseguem dar conta da formação de jogadores. Mas não me parece descabido.  Um treinador formado no clube teria não só amplo conhecimento da instituição , como dos atletas que ao longo dos anos por ventura tenham ali se formado.  Nos últimos dias a imprensa, inclusive, andou destacando as qualidades do português Luís Castro,  que esteve na mira do Corinthians. E não por acaso ressaltava a longa experiência dele com as categorias de base e o fato de ter a licença PRO da FIFA. Mas o que podem saber os medalhões que alguém bem formado não saberia?  Experiência é coisa que se ganha. 

Muitos dos treinadores que estão por aí se arvoram do fato de terem sido jogadores, muitas vezes medianos. E vejo nisso algo que merece atenção realmente. O ideal talvez seria pensar essa formação prospectando entre os próprios jogadores  aqueles que tenham perfil para esse ofício, os que se interessam pela parte teórica, os que têm de alguma forma sede por conhecimento, que foram estudar Educação Física, que tenham boa capacidade intelectual e de comunicação.  Em dado momento se faria uma escolha. Sei que existe aí um mercado que poderia morrer e que, no mundo da bola há essa mística de que lidar com boleiros não é fácil.  Ora, mas se eles não se rendem a quem sabe, que se mude a cabeça deles. 

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Mistérios do futebol



Há muitos mistérios a rondar o futebol. Um deles, intrigante, é o que faz um jogador render muito mais num time modesto do que em um time grande. Exemplos são muitos. Tenho certeza de que o nobre leitor tem bons exemplos guardados na memória. E muito pode ser dito a esse respeito. A cobrança maior, o bafo da torcida, o fato de se deparar com um nível técnico sensivelmente mais alto. E, vejam, estou falando de times que vivem nossa realidade não de atletas que saíram do Brasil para jogar no exterior. Caso no qual, aliás, se encaixaria Gabriel Barbosa, que ao voltar da Europa virou ídolo do Flamengo. Ainda que no Brasileirão não figure no topo da tabela dos artilheiros. 

No topo está Gilberto, atacante do Bahia, e que de certa forma poderia ser visto assim. Passou pelo Internacional, pelo São Paulo e, no primeiro caso, vindo de um time de menor expressão. Não despontou. Batucando estas linhas acabei lembrando, por exemplo, do frisson causado pelo meia Piá quando vestiu a camisa da Ponte Preta. Dava gosto. A temporada com o time de Campinas lhe valeu a ida para o Corinthians, onde desembarcou  com toda a pompa mas sem conseguir dar conta de toda a expectativa que o cercava. Já havia passado pelo Santos em duas oportunidades, inclusive.  

Poderíamos falar de times mesmo, muitas vezes formados majoritariamente por atletas que desenharam caminhos desse tipo.  Outro dia conversando com o lendário Roberto Rivellino acabamos caindo no assunto. Riva ouviu, ouviu. E eu ali na ânsia de descobrir o que ele ia dizer, imaginando que com tudo o que sabe poderia dissolver de uma vez por todas esse mistério.  Ponderou apenas que ao estar num clube menor o bom futebol costuma ser, quase sempre,  a única maneira de ir - ou voltar - a um time de maior expressão. Há uma velha máxima que diz que muita facilidade amolece o espirito, da qual nunca duvidei. 

É fato que a vida de nababo que os grandes clubes oferecem aos seus jogadores hoje em dia poderia muito bem ter sua parcela de influência nessa realidade. Diziam na época que o Real Madrid dos galácticos acabou ruindo um pouco por causa disso, lembra? O clube era obrigado a fazer contratos milionários, que por sua vez tinham de ser longos. Chegou uma hora em que todo mundo ali tinha ainda três ou quatro anos de contrato, ganhando muito. Em outras palavras, estavam com o burro na sombra. É um jeito raso de ver o fato, talvez.  Mas como o intrincado da realidade a faz difícil de explicar, vai saber. E por falar em artilheiros, o que é sempre bom. Gilberto, dizem, anda na mira do Santos, do Corinthians e do São Paulo.  Se rolar, veremos como se sai. Mas talvez não haja nada de mistério nisso tudo, só as forças que atuam sobre os homens, e os interesses de sempre. Vai ver sou eu que ando meio místico.   

quinta-feira, 29 de abril de 2021

A Vila mais famosa do mundo



Dizem por aí que a Vila Belmiro está por um fio. Pelo menos essa que até hoje ajudou a manter em alta a estima do torcedor santista. Sabemos todos não se trata do estádio mais moderno do país. E levando em conta conceitos arquitetônicos, não de coração, nem mesmo um dos mais bonitos. Mas quem poderia duelar com a  Vila em charme e importância? Um dos estádios mais antigos do país e casa, sim, casa, do rei do Futebol. O que dispensa qualquer outro adjetivo. Não se enganem os de agora que se no ano de 2074  o mundo quiser reverenciar o centenário do dia em que Pelé se ajoelhou no circulo central da Vila, de abraços abertos para se despedir, o cenário fará tanto sentido. 

Não quero fazer o papel do sujeito que é do contra. O  testemunho que me dou o direito de dar é de que não devemos nos enganar. Aqueles recuos tão bonitos nas apresentações virtuais não serão vistos por quem pisar os arredores do Urbano Caldeira. Em tempo, persistirá o nome? Ou se verá derrotado implacavelmente por um futuro naming right? Vivo perto do Allianz Parque e vos digo, com toda sua imponência é preciso procurar muito até achar um ponto do qual seja possível ver seu desenho, tão cravado está no espaço que lhe foi dado. Qualquer semelhança com a Vila não será mera coincidência. 

Não que os frequentadores e os torcedores da casa não se rendam à sua beleza e conforto.  Mas o Allianz Parque nada tem do velho Parque Antártica, que tive o privilégio de frequentar muito graças ao ofício de repórter. Uma coisa exclui a outra, impiedosamente. Uma vez reconstruído nenhum estádio será o mesmo. Que a cidade seja carente de uma Arena para espetáculos dá pra concordar. Mas se Santos está tão perto da capital e lá as possibilidades são outras, quem optaria por um show na Vila? Roger Waters? Paul McCartney? Que filão desse negócio sobrará pra cidade? Questionamentos que, acredito, merecem ser feitos.  

Nunca foi tão simples para mim aceitar essa questão de se passar a terceiros por três décadas um patrimônio. Se um clube tem o terreno e a história para  fazer dele algo grandioso não seria o caso de buscar recursos para a execução? Dirão alguns que não se trata da atividade fim do clube, e isso diz muita coisa. A questão é  complexa.  Não deve ser por acaso que o único estádio declarado pela FIFA como monumento do futebol seja o Centenário, em Montevidéu, no Uruguai, palco da primeira Copa da história. Uma singularidade que também diz muito, ou no resto do planeta não há outros lugares que mereceriam essa honraria?

Algo me diz que a Vila Belmiro certamente deveria estar entre eles,  por motivos que de tão óbvios nem terei o trabalho de apontar.  Mas há tempos esporte e construção civil se misturam. É só ver o que virou cada edição dos Jogos Olímpicos. Enfim, trago comigo três certezas a esse respeito. Uma já desfiei aqui ao afirmar que uma vez posta abaixo a Vila Belmiro, o velho caldeirão, terá tido um fim. A outra, que acho todo santista de camisa ou não deve considerar, é se esse é um tema para ser decidido por um Conselho ou por uma Cidade. E por último, que o momento pede pra que a prioridade seja o time, não a Vila. 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Sábado tem Maracanã



Quer dizer, então, que estamos às vésperas de testemunhar Palmeiras e Santos decidirem o título da Libertadores? Uma canção que ficou famosa na época da Jovem Guarda dizia: domingo tem Maracanã, tem Maracanã.  Mas dessa vez é sábado, que me perdoe o autor da obra, Pedro Paulo. E será com o requinte de um jogo único, o que tenho pra mim como um modo muito eficaz de aumentar  as emoções que cercam um momento desses. Não tem essa de lá e cá. É entrar em campo sabendo que não haverá uma segunda chance. Quando as luzes do principal estádio do país se apagarem ou se terá a glória, ou sobre as costas o peso de uma derrota retumbante. 

Nestes tempos malucos confesso a vocês que a minha primeira torcida foi para que o espetáculo pudesse ser encenado com elenco completo. Pois mais do que ter a sensação de que o momento e o palco da partida clamam por isso seria uma maneira de não ver castigado pelo destino alguém que ao longo dessa temporada tão bizarra tenha suado tanto pra chegar lá, ou cuja ausência imediatamente se traduziria em perda de brilho.  E digo isso porque se o futebol brasileiro não se faz assim tão merecedor dessa pompa todos os que arriscaram as canelas pra estar no Maraca no sábado o fazem, e muito. E com todos em condição de jogo essa página da nossa história esportiva será escrita de forma mais grandiosa. Com a frieza possível diria que não há favorito, até porque o futebol tem lá suas vaidades. 

Existem diferenças, isso sim.  De um lado um time endinheirado de quem sempre se esperou muito e que parece estar maturado. Certamente alguém lembrará das centenas de milhões que custou o time comandado agora por Abel Ferreira. Isso pesa, se traduz em cobrança. Mas é bom que se respeite o Palmeiras, e lhes digo: não foi à toa que ele se fez o principal rival do Flamengo nos dias atuais. Sim, porque se há um time com o qual mede forças é o time da Gávea. Quem não concordaria, por exemplo, que o Palmeiras não foi pensado, montado, imaginado para atuar como atuou magistralmente o Flamengo na temporada passada? 

O Santos tem outra receita. Ou não tem receita. Não fosse esse abismo entre vitória e derrota arriscaria dizer que seria injusto pedir mais a esse time. Um time que fez a crônica esportiva se render a ele.  Um finalista improvável.  Uma equipe que ao longo dos últimos meses teve tudo para morrer na praia. Vitimado por uma administração posta pra fora, por atrasos de salários, coisa que costuma envenenar trajetórias.  Nem o mais otimista torcedor santista seria capaz de apostar no que está vendo. Uma desconfiança que Soteldo, Marinho & Cia trataram de dissolver jogando o fino.  

De tão grandioso esse Palmeiras e Santos que veremos notadamente contaminou os amantes do jogo, está além do que encerra. Impossível ficar indiferente diante dele. Torcedores de todos os times estarão secretamente cruzando os dedos pra esse ou para aquele, guardando pra si suas razões inconfessáveis. E quem sabe tirando de leve uma casquinha com a camisa alheia. Afinal, uma decisão dessa envergadura não deixa de ser patrimônio de todos os que cultuam o bom e velho jogo de bola.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Nem tudo está perdido

                                                                Foto: Cesar Greco

Aos saudosistas eu digo que há esperança. Nem tudo está perdido quando se trata de futebol. Vejam, a capacidade que o jogo sempre teve de nos surpreender, por exemplo. Quero crer que ela segue, se não intacta, viva.  As mudanças e a dinheirama podem a ter enfraquecido mas ela resiste. Impressão que se renovou na retumbante queda do Flamengo na Libertadores. Ainda que tratar um time com a tradição de um Racing como zebra possa ter em si algo de heresia. E pode parecer cruel dizer mas essa mesma virtude do jogo de bola esteve refletida na classificação do Santos diante da LDU. Talvez em menor grau, mas esteve. Normal que a essa altura muitos digam que  tinham apostado todas as fichas no time santista. Digo mais. Não é surpreendente ver o Santos envolvido na disputa por uma vaga na semifinal do torneio continental com o Grêmio e perceber que muita gente enxerga nesse duelo uma ausência de favorito? 

Outra coisa que a queda do Flamengo mostrou é o quanto essa coisa de mudar de time no meio da temporada pode fragilizar um treinador. Parece óbvio que parte da sedução exercida sobre Rogério Ceni, que o fez mudar de ares, estava além de toda a tradição do time carioca. Estava na possibilidade de conquistar títulos importantes em curtíssimo prazo.  O que podendo contar com um elenco de respeito como o do rubro-negro estava longe de soar descabido. Um preço que Abel Braga anda pagando também por ter aceitado voltar  ao Internacional. Embora, claro, a história dos dois seja infinitamente distinta. Rogério Ceni nesse caso tem muito mais a perder. 

E por falar em treinadores que chegam no meio do Campeonato a boa surprese é o português, Abel Ferreira.  Jovem, de  currículo modesto, mas que tem se mostrado apto a fazer do Palmeiras um time  capaz de jogar um futebol com o qual o torcedor sonhou durante muito tempo. O que na mão de muitos pareceu impossível.  Os que costumam frequentar este espaço já puderam notar minha simpatia pelo tipo de discurso que Abel tem apresentado, pela forma de explicar o que anda fazendo. Só o fato de ter aportado por aqui e demonstrado interesse profundo na história do clube que iria comandar, sem que isso soasse artificial mas sim fruto de alguma preparação, já seria o suficiente para distingui-lo do todo. 

Nós aqui, mesmo íntimos do futebol brasileiro,  poderíamos enxergar um Palmeiras que não fosse acadêmico. Um Palmeiras bem sucedido até como foram tantos, mas que nem por isso entraram para a história como uma academia. Vai saber. De repente, para alguém que tenha começado essa relação pelos livros é possível que lhe tenha soado inconcebível pensar num time que não tivesse um futebol vistoso como meta. Abel, que entrou no mira do clube alviverde por obra de analistas de desempenho, que testou para Covid e viu de longe o time dele patinar diante do Libertad na terça, dias atrás deu o que falar ao afirmar que não imaginava o menino Gabriel Véron vendido por uma soma de dinheiro menor do que a que foi dada a Neymar.  Exagero? Talvez. Quem sabe exatamente como se distribuem as cifras nesse mundo da bola? Algumas são óbvias, outras surpreendentes, como o jogo. Só não são inocentes, sou levado a crer. 

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

O Rei é nosso !


                                                             

Tomem ciência. Fosse o maior camisa dez de todos os tempos um italiano, um alemão, e era uma vez essa proximidade que de alguma forma nos deixa na condição de íntimos do Rei. Talvez a essa altura as pessoas já nem lembrem, até pela insanidade do ato, que certo dia um certo presidente santista decidiu mandar Pelé, que ocupava um cargo de diretoria, embora do Santos. Bastaram algumas horas e um mundo de jornalistas estava às portas da Vila Belmiro esperando a despedida, como se um adeus desse tipo fosse possível. Foram horas de espera até que um carro parou em uma das esquinas e dele desceu Pelé, com o sorriso de sempre no rosto como sendo o avesso do fato. Respeitosa, a pequena multidão de jornalistas foi se dirigindo a ele. Mas para a surpresa de todos uma repórter em disparada, esbaforida, quase arrastando o cinegrafista pelo cabo do microfone avançou em direção ao Rei e para lá de afoita perguntou:

_ Pelé, o que você tem a dizer?


No silêncio que se deu, o sorriso dele cresceu ainda mais, e com aquele tom de voz sereno e inconfundível disse:


_Agora? Nada!


Murcha e sem entender direito o que tinha vivido, a repórter se encolheu e voltou a sumir entre os profissionais e curiosos. Tinha sem querer atropelado o protocolo que quase todos ali conheciam bem. Passada a cena, sem microfones em punho, perguntamos ao Rei qual seria o itinerário dele. Pelé disse que subiria até sua sala e depois iria se despedir dos jogadores que treinavam no gramado e lá falaria com a imprensa. Resgato a história por achar que ela reflete de algum modo essa proximidade, esse privilégio de ao menos em algum momento da história estar perto de Pelé e que esta data a se comemorar me fez notar melhor. Como veladamente mostra o cerimonial que se cumpria, mesmo Pelé tendo sido sempre um homem despido de arroubos. Não tardou e Pelé estaria de volta à Vila, ao Santos, claro. E como era assim nunca esqueci também certa cena que vi registrada em noventa e quatro, na época da Copa dos Estados Unidos. Num evento com o Rei uma fila imensa - que transbordava a sala de um prédio luxuoso e descia pelas escadarias de alguns andares - colocando em linha convidados vips, celebridades, Chefes de Estado. Tudo muito diferente de certos dias em que Pelé aparecia em Urbano Caldeira e era cercado por alguns poucos repórteres que faziam a cobertura diária do clube. Escolhi essa receita pra homenagem porque falar do jogador é chover no molhado. E também pra driblar algo que já virou um chavão: colocar na balança o Rei e o Edson. Pois, de verdade, acho que não existe homem que exposto desse jeito aos olhos do mundo pareceria perfeito. Não que isso deva servir de perdão. E vamos em frente, Rei, que o tempo sempre foi dos nossos adversários mais duros.    





* Foto: Domício Pinheiro 

quinta-feira, 30 de abril de 2020

O papel da torcida





Tarde de sábado. A faixa de areia próxima da Fonte Luminosa, no Gonzaga, ferve. Um grande número de torcedores se aglomera em torno do campo traçado para ser o cenário da decisão do Torneio de Inverno de Futebol de Praia.  Alguns que estão ali desceram a serra especialmente pra isso. O que não era raro.  Campos Melo e Democrático, dois dos times mais respeitados desse universo futebolístico, fazem um jogo quente e,  acima de tudo, disputadíssimo. 

O placar registra um empate  em dois a dois quando é apontado um pênalti a favor do Democrático, naquele início dos anos setenta dono de um futebol refinado, lembrado com admiração até hoje. Ao soar o apito a bagunça se instaura em forma de descontentamento. Não demora e um sem fim de olhares passam a exigir uma posição do bandeirinha, olhares pra lá de inquisidores, pra dizer o mínimo. Mas ele, valente, ratifica o que tinha sido sinalizado pelo árbitro, ainda que àquela altura fosse quase impossível em meio ao areião distinguir as de linhas de fundo e as da lateral da grande área, local onde o lance se deu. 

Fato é que o tal pênalti entrou pra história mas nunca foi batido. Isso porque a revolta dos que se consideraram injustiçados terminou com os tais arrancando as duas traves. E ponto final. Um episódio que sem dúvida alguma não decretou o fim de um momento glorioso mas que possivelmente contribuiu para que ele tivesse parte de seu brilho roubado e, quem sabe, até fosse abreviado. No dia seguinte o espaço em branco estampado em uma das folhas do principal jornal da cidade -  com uma legenda avisando que ali deveria estar a foto do campeão - quis ser, antes de qualquer outra coisa, um puxão de orelha. E foi.

Tudo muito passional  como sempre foi a receita do jogo de bola.  Fiz questão de resgatar essa passagem, já que andei falando tanto do Futebol de Praia, porque ela é um ótimo exemplo do quanto pode ser decisivo o papel da torcida para o futebol. É tênue demais, e sempre foi, essa linha que separa o ato de torcer que enaltece daquele que mancha, agride e fere o futebol. E em certo sentido não deixa de ser exatamente o que temos visto acontecer com o futebol dito profissional. Nós que há tempos temos sido condenados a jogos com torcida única. Uma realidade triste, provocada por alguns, mas que a todos condena. 

Sem a paixão não teria existido o Futebol de Praia com aquele esplendor, aquele clima  que nas últimas semanas tentei resgatar.  Mas essa mesma paixão não deixou de lhe roubar o brilho, como disseE se voltei ao tema foi instigado por uma pesquisa divulgada  dias atrás que apontou que atualmente quase quatro em cada dez torcedores têm como seu mais de um time. Isso mesmo, torcem para dois times ou mais. Ainda que o segundo, muitas vezes, seja gringo. Para mim uma grande prova de que o torcedor, assim como o futebol,  está em constante mutação.  Além disso, o  tema da pesquisa, como podem ver, me foi também uma boa oportunidade para não deixar passar em branco o papel que a torcida teve - para o bem e para o mal - na saudosa época em que o Futebol de Praia reinava.  

* artigo escrito para o jornal " A Tribuna", de Santos/SP

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Reis da Praia

Foto ilustrativa - Fonte: giginarede.blogspot.com





Ele domina a bola. O burburinho em torno do campo diminui. Respirações que se rearranjam. Prova do suspense que o lance suscita. A linha que ele traça não é a mais curta em direção ao gol, mas ninguém duvida que seja a melhor. Sabem do que é capaz. Os dribles vão se sucedendo. E agora o efeito se dá ao contrário. O barulho da torcida aumenta. Os zagueiros ficaram para trás. Resta o goleiro, arrancado do lance com um corte a sugerir uma lâmina. Chuta, chuta. A sugestão para o desfecho é pedida em tom de desespero. Como se Peirão, o homem com a bola, não soubesse o que fazer com ela. O camisa dez não ouve nada. Só pensa no lateral que, com o canto do olho, vê se aproximar em velocidade, e que justifica as súplicas de quem assiste a tudo. Ameaça chutar. E o instinto do adversário o faz usar a única arma possível: se atirar, dar um carrinho. Mas a bola no instante seguinte está no ar, levantada com sutileza, enquanto o pobre lateral cumpre - já um tanto envergonhado - sua trajetória. Vai parar longe. Não sem antes ter dado outro quilate ao gol mais bonito da carreira daquele que semana passada chamei de o Rei da Praia. Foi contra o Praia Grande, em setenta e três, ano em que o Campos Melo se sagrou campeão. 




Mas saibam vocês que muito antes de Peirão brilhar já ia na praia ver um jogador: Carlos Prieto, o Gigi, naqueles idos dos anos sessenta estrela do Nautico. Tempos depois, quando Peirão passou a fazer o que fez, Gigi tinha bons motivos para não se espantar. Conhecia o garoto desde os tempos de juvenil no futebol de salão do clube Internacional. E também porque o futebol de praia nunca teve segredos para ele que ajudou a fundar a Liga e que hoje se orgulha, com razão, de um dia tê-la visto com mais de dois mil e quinhentos inscritos. Mas talvez a grande prova de que aqueles foram anos de ouro seja a questão que os dois fazem de dizer - e que num primeiro momento pode parecer um arroubo de humildade -  que não eram os únicos, que tinha muita gente boa. Argumento reforçado pelo fato de na época terem sido raros os bicampeões. 




Gigi, creiam, nunca gostou de calçar chuteiras. E por ser alto acabou centroavante depois de ter começado como meia. Peirão,  segundo o amigo, fazia lembrar o Sócrates, pela inteligência. Não deve ter sido à toa o flerte com a medicina. E Peirão, por sua vez, gostava da área mas não de ficar parado por lá. Os dois nunca deixam de lembrar que futebol de praia não é futebol de areia. E que há um abismo que o separa do futebol de várzea. E eu, bom, só faço questão de dizer que a cátedra do jogo de bola jamais será privilégio de profissionais. 


* artigo escrito para o jornal " A Tribuna", de Santos/SP

quinta-feira, 16 de abril de 2020

O Rei da Praia


Em pé: Zé Carlos, Ned, Pedrinho, ??, Jorge Amaral e Wilson
Agachados: Wilson, Germano, Nico, Zé Lua e Peirão
Fonte: giginarede.blogspot.com


A coisa se deu assim. Sempre me interessei pelo futebol de praia. Poderia encontrar na minha própria história explicação pra isso. Dias e tardes atrás de uma bola às margens do Atlântico. Tanto que na conversa que tivemos por telefone - tempos de pandemia - o homem disse também que guarda muito bem a lembrança de verões em que as peladas à beira mar pareciam não ter fim. O que teve fim foi o tempo em que o futebol de praia tinha glamour.  Em que os jornais da cidade se interessavam por ele e que, não raro, uma cena das rodadas disputadas nas tardes de sábado podiam ser vistas na primeira página convidando os interessados  a saber de outros detalhes, dos resultados. Essa foi a época dele.  

Mas o que despertou meu interesse por sua figura foi  o fato de várias vezes enquanto conversava sobre futebol de praia o nome dele sempre aparecer. Conversas cujos interlocutores nem se conheciam. Coincidências que foram me convencendo de que o homem tinha mesmo bola para, vira e mexe, ser chamado de o Pelé da Praia. Não foi difícil encontrá-lo. Luiz Francisco Peirão Rodrigues não tem ideia de quantos gols fez. Não importa. Jogava com a dez, claro. Rei é Rei. E, embora tenha vestido outras camisas, entrou para a história envergando a do Campos Melo. Time com o qual venceu o campeonato de 1973, já um tanto perto da fronteira que marcaria o final do que hoje pode ser visto como um apogeu. 

Uma época de ouro que foi da metade dos anos sessenta até a metade dos setenta. Sucesso facilmente  medido pela atração que exercia. Muitas partidas, mesmo disputadas na praia, tinham lotação esgotada. Era difícil encontrar um ponto sequer de onde desse pra ver o jogo. E se o auge do futebol de praia durou uma década o reinado de Peirão se ocupou de abrilhantar metade dela. E o fez sem ter noção do que representava, sem notar a fama. Só o tempo o deixou tomar ciência dela, ainda que os acontecimentos lhe dessem pistas. 

Lembrou que certa vez depois de uma partida disputada contra o Igaratá ali perto da Fonte Luminosa, no Bairro do Gonzaga, onde nasceu, foi abordado por um garoto que lhe pediu a camisa. Teve de dizer não. O o motivo era simples: só tinha aquela. O Rei da Praia usava a mesma camisa durante toda a temporada, quando não atravessa umas duas ou três com ela. Peço desculpas aos que são do métier por entrar em solo sagrado. Ao qual , se não for impedido, gostaria até de voltar semana que vem. Porque a virtude da história de Peirão, de sua fama, é provar que a beleza  sempre fica. Mesmo depois de o futebol ter virado outra coisa. 

* artigo escrito para o jornal " A Tribuna", de Santos/SP