Mostrando postagens com marcador Argentina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Argentina. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 16 de julho de 2026

E não me venham falar em favoritos

Patrick Smith -FIFA 


Não sei bem o que nos espera no próximo domingo. No outro... já sei bem. E ando me preparando pra ele. O ofício exige. E lá, quando o mês de julho estiver mais ou menos aos quarenta do segundo tempo, nos restará torcer pra que o futebol brasileiro mantenha minimamente a temperatura.  Não sei como cada um de vocês chega neste último capítulo da Copa. Preparem-se. Teremos o líder Palmeiras recebendo o Atlético Mineiro. O Flamengo - sete pontos  atrás lembram? - de encontro marcado com o São Paulo no Maraca. E não adianta lamentar porque é o que teremos para o momento.

Confesso a vocês que levei um bom tempo pensando na possibilidade de França e Argentina decidirem a Copa em duas edições seguidas. Era difícilo enxergar esse detalhe como requinte. Afinal, se tratava de coisa que nunca tinha sido vista. Esse Mundial bombadão  talvez tenha nos entregado mais do que esperávamos. Fazendo nascer um sem fim de marcas, muitas delas discutíveis, mas ainda assim alardeadas com entusiasmo desmedido. Digo isso porque se certas seleções chegaram pela primeira vez à fase eliminatória foi em razão da sanha desmedida por lucros. O que, figurativamente, trouxe a linha de chegada pra algum lugar um pouco mais perto de quem competia. 

Devemos nos render é a outras, mais legítimas. Como a que fez de Lionel Messi o maior artilheiro de todos os tempos em Copas do Mundo. Convenhamos, não é coisa que se vê a toda hora. Ainda que Mbappé com todo seu talento juventude e horizonte pra outra Copa soe como promessa de fazer a marca do camisa dez argentino das mais breves do tipo em toda a história também.  A anterior, do alemão Miroslav Klose, foi soberana por doze anos. Mas... a França se foi nos fazendo testemunhar um capítulo que soou esquisito, não fosse uma notável Espanha a responsável por decretar o fim daquela trajetória que muitos imaginavam fadada ao sucesso. Ver esse time francês condenado a ouvir gritos de olé foi algo totalmente fora da curva. E há, creio, uma lição nessa despedida que revelou o primeiro finalista. E que vai muito além de incensar o time espanhol apontando para o talento óbvio de um Lamine Yamal. 

A lição que fica é a de que o futebol moderno, muitas vezes traduzido pelos entendidos com conceitos recém fundados, não deve deixar de valorizar  aspectos tidos como clássicos. A capacidade refinada de trocar passes. A necessidade de uma identidade. Coisa que outro dia, se não estou enganado, ouvi um certo professor muito respeitado dizer que não era exatamente o que buscava. A valorização do conjunto, que sempre alonga os pequenos espaços e favorece o tipo de movimentação que costuma gerar uma oferta abundante de opções de passe. E quando isso se dá... o melhor é não estar na pele do adversário. 

E por falar em adversário a Espanha que se cuide, porque a Argentina chegará no domingo pra lá de vitaminada por uma vitória sobre os ingleses que escancarou o quanto os comandados de Scaloni têm de coragem e de tarimba. E nem vou falar de Messi que seria chover no molhado. Mais do que a patente de atual campeã mundial a Argentina é um time cascudo. Ainda ouço aqui as palavras ditas por Harry Kane depois. Tentamos segurar o jogo e nesse nível isso não basta. Acho que o temperamental treinador inglês, que é alemão, ao pensar pequeno condenou a nação mais íntima do futebol a deixar escapar uma chance que ela esperava há muito tempo. E não me venham falar em favorito quando uma seleção que acaba de mostrar que lida muito bem com adversidades encontra uma outra que tá cansada de mostrar que se recusa a mudar de estilo mesmo diante da maior das dificuldades.  

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

A Seleção e o Santos



Hoje à noite a Seleção Brasileira estará em campo. Terá pela frente o vice lanterna das Eliminatórias, o Chile. Em outros tempos tal encontro talvez não despertasse maior preocupação, mas esse tempo passou. E como o embate se dará na capital chilena não foi incomum nas últimas horas dar de cara na crônica esportiva com prognósticos que pedem cautela. Que falam em jogo complicado. E não dá pra dizer que sejam comentários descabidos. Mesmo porque neste momento o honrado escrete nacional repousa na quinta colocação com o mesmo número de pontos da Venezuela. Mas a Venezuela, atentem, pode até dizer que anda fazendo boa campanha. A ver como se sai hoje diante da Argentina. 

Tudo depende do ponto de vista. Nos jogos anteriores o Brasil venceu o Equador, que está acima. Mas perdeu para o Paraguai, que está abaixo. Não é de hoje que a Seleção vem encolhendo treinadores, se é que me entendem. Dorival que se cuide porque, no popular, essa é uma Data Fifa pra sair da lama. Afinal, depois do vice lanterna teremos direito a um encontro com o lanterna Peru, que a depender dos resultados poderia sair dessa condição mas para isso amanhã teria de, pelo menos, vencer o Uruguai. A situação é tão esquisita que por mais que o torcedor se mostre descontente a cada convocação é difícil imaginar que os nomes mudem radicalmente. Boa parte dos que já deram a cara deve permanecer, mesmo com idas e vindas, até a próxima Copa do Mundo. 

E se tem uma coisa muito clara na minha opinião é que a Seleção não está dando liga. Há quem diga que não temos jogadores fora de série, não deixa de ser verdade, mas estou convencido de que com o que temos - e com alguma dose de magia - seria possível ir além. Quem sabe até resgatar um quinhão do respeito e da simpatia da nossa maltrata torcida. E por falar no humor da torcida, a do Santos deu outra azedada neste começo de semana. A euforia de um jogo que poderia levar o Peixe de volta à liderança da Série B desaguou em derrota para o Goiás. E já faz tempo a relação dos torcedores com o treinador santista tem sido uma questão. 

Carille visivelmente não vem aliviando. A torcida também não. Mas nunca repensar essa relação se fez tão necessário. E urgente! No sábado, quando o Santos voltar à Vila Belmiro para receber o Mirassol, candidatíssimo a uma das vagas, nada será mais sábio do que apoiar o time.  E que já preparem os ânimos porque será inocência esperar um time de encher o solhos. No máximo um time fazendo uma apresentação acima da média parece plausível. E Carille, que andou dizendo que o clima que encontra nas ruas é diferente daquele que tem sentido nas arquibancadas precisa perceber o óbvio: não são os que ficam pela rua que se encarregam de dar o tom no estádio. 

Ah, e que o comandante santista tenha a sensibilidade de perceber que nessa reta final de campeonato voltar a não dar as caras em uma coletiva pós-jogo seria algo muito inadequado.  Maus exemplos nesse sentido andam fartos por aí. E certas reponsabilidades são intransferíveis. É absolutamente compreensível que, do alto de toda experiência que adquiriu, Carille não queira mais engolir sapos ou fazer média. Que se mostre muito seguro a respeito do que pensa e faz. Mas flertar com a antipatia jamais será boa tática. E, além do mais, voltar à elite do futebol brasileiro é algo que parece encaminhado, jamais garantido. 

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

O jeitinho argentino



Costumo brincar com meus amigos dizendo que se a Argentina tivesse vencido a Copa de 2014 muitos dos hermanos estariam em Copacabana comemorando até hoje. Se tivessem vencido a Libertadores no sábado idem. Gosto de imaginar a cena. Um tipo com jeitão portenho, uma já surrada camisa da seleção, pele vermelha do sol, deixando transparecer intimidade total com a praia e, claro, pronto pra falar de futebol com quem chegasse perto disposto a isso. É uma licença poética , mas que diz muito sobre do que são capazes. Algo que, de certa forma, elucida o jeito deles de torcer. Infinitamente mais vibrante do que o nosso. Tão vibrante que aos poucos foram me convencendo de que podem nos ensinar muito a respeito. 

E, olha, como costumo brincar também, venderam caro aquela Copa para os alemães. Não fosse o tal de Gotze achar aquele gol na prorrogação, sei não.  A recente decisão que fez deles campeões mundiais também foi um espelho disso. A França mesmo oscilando e não mantendo a pegada que tanto impressionou no início do Mundial  era páreo duro. E mesmo fazendo uso de todos os recursos possíveis, inclusindo aí um afiado Mbappé, acabou sucumbindo diante dos argentinos. Por essas e outras vejo neles algo que parece nos faltar faz tempo. Poderia dizer que é uma competitividade, mas não é só isso. É uma questão anímica. Um certo dom para dar alma às grandes batalhas e a certas páginas que o futebol desenha.  Fazendo muitas vezes, no meu modo de ver, essa coisa de dizer que somos o país de futebol soar prepotente. 

E talvez seja por isso que pra nós uma final contra um time argentino jamais soará como uma final qualquer. E isso nunca se reduzirá ao velho discurso da rivalidade que, como já disse, muitos exploraram sem pudor na ânsia de esquentar transmissões. Assim como costumamos dizer que esse ou aquele escrete argentino não anda com o time afinado como teve em outros tempos. Seja como for na hora em que a bola rola a garganta dá um nó porque sabemos que, seja como for, nada tornará a missão mais fácil. No mais, somos muito parecidos. Irmanados que estamos nesta nossa América. Ameaçados pela inflação. Desiludidos com a constatação de que nossos países poderiam muito mais. Igualados também pela sombra de uma certa extrema direita que nos torna outro tanto iguais. 

Sem contar que a final da Libertadores nos mostrou ainda uma outra semelhança: um certo despreparo para lidar com o futebol quando ele vira um grande evento. Mas bagunça na hora de decidir um título continental é coisa que manchou tempos atrás o futebol europeu também. Mas por estas bandas, não sei, a coisa se mistura a um certo descaso. Enfim, ficamos parecidos, inclusive, quando o futebol revela seu lado mais perverso, mais bárbaro. A essa altura pode soar descabida essa espécie de ode aos argentinos, depois de torcer para que a maneira de pensar o futebol defendida por Diniz triunfasse. E se triunfou justamente sobre eles, isso sem dúvida alguma amplificou a graça da coisa. E provou também que nos momentos em que o futebol revela seu lado nobre os argentinos podem muito. Disse Diniz horas depois do triunfo sobre o Boca - ao se vestir novamente de técnico da Seleção Brasileira - que talvez esteja na hora de admirar mais quem é bom do que quem ganha. Mas aí, nesse caso, lhes digo eu: não é pra tanto.        

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Los hermanos



Desde a mais tenra idade os iniciados no futebol acabam por dar de cara com o modo como se deve tratar um argentino. Talvez mais cedo do que isso só se aprenda as malandragens do jogo de bola.  Não sei exatamente os da geração atual, mas aos da minha não tenho a menor dúvida de que sempre nos foi sugerido tratá-los como nossos grandes rivais. Diria que dos uruguaios sempre se traçou perfil parecido, mas um grau abaixo. Não é de se espantar que para alimentar todo esse discurso de rivalidade tenha-se recorrido às mais escabrosas histórias de falta de espírito esportivo, ainda que muitas vezes trazidas de tempos imemoriais. Não nego a rivalidade e sei bem de seu tempero.  Como sou até capaz de entender que ao longo da história os locutores tenham feito dela sua arma principal para esquentar um jogo, uma transmissão. 

Mas isso claramente fez não ser do nosso feitio olhá-los pelo viés puramente futebolístico. Quando viemos a nos render de verdade a esse tipo de virtude foi quando acabamos por dar de cara em campo com um Maradona.  Jogador que -  com o justificado ar de Deus que acabou por ganhar - deve por tabela ter sido responsável pelo milagre de em certos momentos nos pegarmos torcendo por uma vitória dos nossos maiores rivais. O que pelo visto Messi conseguiu fazer também e com louvor. Obviamente nos rendemos a outros. Kempes, Batistuta. Ao próprio Di Maria, com sua exibição de gala na final da Copa agora. Olha, que conteste a teoria aquele que, sem levar em conta a tal rivalidade, não daria um lugar no seu time a um deles. 

Somos os riquinhos do continente em matéria de futebol.  Em outras questões comungamos com toda a falta de desenvolvimento que infelizmente até hoje não deixou de ser uma marca dessa nossa América do Sul. E essa condição de abastados talvez explique esse ar de mimado dos nossos jogadores. Bem antes de o árbitro apitar o final desta Copa que acaba de entrar para a história já estava convencido de que os argentinos, sim os argentinos, têm muito a nos ensinar. Depois dela me convenci de vez. Por mais que o futebol tenha virado o que virou, com seleções como a do Marrocos onde quatorze dos convocados tinham nascido em outros países, acredito que a maneira de jogar bola ainda seja de algum modo um retrato de um povo. E um povo pode se preservar mesmo tendo sido afastado de sua terra. 

Talvez isso explique o sucesso do próprio Marrocos, que fez tudo que fez sob o comando de um treinador recém chegado. Um cara que colocou por terra o dogma de que o êxito em matéria de futebol está intimamente ligado ao tempo que um treinador teve para trabalhar.  Só um entre tantos dribles que o futebol jamais vai cansar de dar nas nossas teorias.  Por falar em drible, ele já foi nossa marca, como foi a ginga, como foi o improviso. Esse foi o Brasil que se fez gigante nos gramados. E enquanto todas essas armas surtiram efeito fomos os tais. Mas isso foi bem antes de a compactação passar a ser a palavra de ordem para os que pensam o futebol taticamente. Admiro o jeito argentino de pensar as coisas, seus craques da literatura, seu jeito intenso de viver as emoções. Sua coragem para ter passado a limpo o negro período da ditadura. Admiro a maneira deles de encarar o jogo.  

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

O futebol é complexo



Tão complexa quanto a lei do impedimento é a fórmula que faz o futebol ser o que é. Acho interessante que, em especial de uns tempos para cá, as táticas para se tentar cumprir a missão de levar a bola até dentro do gol adversário tenham ganhado tanto destaque. Mas não arriscaria dizer que as tais linhas desenhadas pelos times em campo estejam na boca do povo. E chamar a atenção para isso é uma forma de mostrar os tantos vértices que fazem o bendito jogo de bola um sucesso planetário. É possível falar profundamente sobre o futebol passando longe de questões, digamos, científicas. E aí vou aproveitar pra lembrar uma passagem que vivi certa vez ao entrevistar o saudoso jornalista Armando Nogueira. 

Eu já não era um iniciante, um foca como costumam dizer no meio. Mas via que tinha um jeito de ver o jogo que me afastava dessas questões pragmáticas. E, então, enquanto esperava ser chamado pra fazer a entrada ao vivo ia papeando com o sábio que tinha ao meu lado. E uma hora a conversa se encaminhou pra isso. Não sei bem como, mas dividi essa questão com Armando Nogueira que prontamente virou pra mim e disse: não esquente, eu nunca escrevi uma linha sobre tática. Soou como um salvo conduto. Não que eu tivesse a pretensão de ser um Armando Nogueira. Só queria legitimar meu jeito de encarar a coisa. Foi muito bom ouvir aquilo. Prova disso é que nunca esqueci aquele bate papo. E uma Copa , por exemplo, parece amplificar muito todas as possibilidades do jogo. 

Passamos a nos divertir não exatamente com o que se dá entre as quatro linhas mas com o todo. A derrocada de um gigante. A glória de um selecionado tido como simples figurante. Esta aí o Marrocos. Como andei dizendo pra uns amigos, até ver um jogo torcendo pra uma Seleção que não estava em campo rolou.  Foi quando acompanhei a Argentina renascer de vez diante de uma Polônia covarde, sem brilho. Queria mesmo é ver o México ter acabado com a vaga que acabou por ficar com o time do goleador polonês. A Copa , de tão grande,  ludibria nossos sentidos.  Esta semana a coisa pode ter melhorado, a partir de amanhã promete pegar fogo, mas tecnicamente falando os jogos da primeira fase e das oitavas tiveram qualidade discutível. 

Ainda assim nos divertimos. Não exatamente com o jogo. Muitas vezes com o enredo. Por aquilo que um resultado encerrava. Longe de ter sido uma curtição intimamente ligada a arte de jogar bola, que é a grande promessa que um Mundial encerra. Lembro bem que na Copa passada não foi diferente. Os mais pessimistas, talvez fosse  o caso de dizer os mais exigentes, até por isso estão cheios de razão quanto dizem que uma Copa com um número maior de seleções como deve ser a próxima só vai empobrecer ainda mais o torneio no que diz respeito a qualidade das partidas. A Copa anterior teve o mesmo tom, nas surpresas, inclusive.  

A Alemanha, na ocasião fazendo a primeira partida de Mundial  depois de ter se sagrado campeã no Brasil, acabou derrotada pelo México na estreia. Para mais tarde se despedir tão melancolicamente como dessa vez na fase de grupos. A Argentina que ao debutar não passou de um empate contra a Islândia. O Japão, cujas pernas parecem não ter dado conta das cobranças de penaltis contra a Croácia, ao abrir a campanha na Rússia mandou um dois a um na Colômbia, que terminaria a primeira fase como líder do grupo. Por isso eu digo a vocês, futebol é algo complexo, capaz de nos seduzir pela excelência, mas capaz também de nos divertir mesmo na mais evidente falta dela.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Treinadores daqui e de lá





Em dinheiro a gente pensa sempre, sendo capitalista ou comunista, não se deixem enganar. Nesse sentido estou convencido de que não basta um viés de formação pra fugir dessa verdade. Seria preciso fugir do planeta. E sabe-se lá com que realidade daríamos de cara viajando por essas galáxias afora. Mas antes que venham a pensar que estas linhas deveriam estar na verdade nas páginas de economia me adianto pra dizer que a conversa foi dar aí foi por ter visto as cifras que o treinador Marcelo Gallardo fez vir à tona quando entrou na mira do Flamengo para comandar o rubro-negro carioca. Gallardo segundo foi noticiado recebe trinta e quatro milhões de reais por temporada. Isso sem contar o staff do argentino, que trabalha com onze outros profissionais, e leva a conta a praticamente quarenta milhões. 

Longe de mim tentar estabelecer o que é caro ou barato nesse mundo da bola. Ainda mais quando se trata do Flamengo que há tempos anda flertando com um faturamento de bilhão de reais. Diante disso nada soa muito descabido. Mas essa reflexão toda me fez cair a ficha de que mesmo com times menores se impondo na tabela desse Brasileirão que está por um fio não iremos escapar do nocivo desequilíbrio que a grana impõe. Ainda que entre nossos endinheirados, não é novidade pra ninguém, as contas andem mais frágeis do que porcelana. Sem contar outros fatores. Entre eles a constatação de que se em campo o drible anda virando coisa cada vez mais rara nas páginas contábeis seguem abundando. 

Olha, que Gallardo construiu fama capaz de justificar esse frenesi inicial entre flamenguistas não dá pra discutir. O que dá pra discutir é esse quase fetiche pelos técnicos portugueses que se deu ao mesmo tempo. Uma coisa é querer trazer de volta Jorge Jesus , amparado em tudo o que ele representou, outra é estender isso a nomes como  José Peseiro, Antônio Oliveira, Carlos Carvalhal, entre outros. Treinadores sem trajetória nem conquistas que os amparem.  Mas o interessante é que em dado momento resolvi questionar um companheiro de ofício a respeito, e o camarada - em tom um tanto sério - fez questão de me lembrar que os dois últimos treinadores que venceram a Libertadores  são portugueses, e que o bicampeão aqui aportou sem trajetória e sem conquistas.  

Seria um tipo de superstição?  Detalhes que me fizeram concluir que tão complicado quanto entender a economia do futebol é desvendar todas as conexões, razões e interesses que se escondem por trás da escolha de quem, até que provem o contrário, vai mandar no time. Gallardo que não virá, pois na tarde de ontem anunciou a permanência dele no River,  mostrou ter o que nos ensinar ao contar em sua comissão com um neurocientista.

Muito se fala também que os treinadores argentinos brilham na Europa, enquanto os brasileiros mal conseguem atravessar nossas fronteiras. O que não se fala, é que em outros tempos treinadores brasileiros tiveram vez - e brilharam - na Argentina. Brandão com o Independiente. Tim, ex-jogador da Portuguesa Santista, com o San Lorenzo, sendo campeão invicto. E , vejam só, o mestre Didi, que na época colocou uma garotada pra jogar por lá - bateu o Boca - e deixou um legado, adivinha pra quem? Para o River.  Isso mesmo, o River Plate, de Gallardo.  

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Messi, o grande



Nos últimos dias o jogador argentino, Lionel Messi, tem ocupado mais espaço nas manchetes esportivas do que quase todos os jogos que têm rolado por aí. Mais até do que muitos clubes. E não é pra menos.  Messi, faz tempo, se tornou o principal fiel depositário da magia do futebol. Isso num tempo em que ter alguém à altura de vestir com dignidade uma camisa dez é muita coisa. Por força do hábito muitos não conseguirão driblar o que virou mania. Comparar o futebol dele com o de Cristiano Ronaldo etc e tal.  Não caio nessa e em outros tempos já deixei aqui minha opção pelo argentino. Ainda que reconheça no português um atleta raro e com lugar garantido na história. Como também não quero especular sobre o destino do argentino. Pouco importa. 

Seja qual for a camisa que ele venha a vestir a minha torcida é apenas para que ele nos mostre que ainda não perdeu o entusiasmo com o jogo. E  que venha a aportar em um time com elenco capaz de lhe dar o suporte técnico que merece. O que não é fácil. A ausência dessas duas condições, ou uma delas que seja, pode redundar numa perda considerável  para o futebol como um todo. Enquanto batuco estas linhas um programa de TV coloca um correspondente no ar pra dizer que o caso Messi pode levar à renúncia do presidente do clube catalão. Ao mesmo tempo em que as páginas de esportes elencam os fatos que teriam levado o craque a enviar à direção do clube a fatídica carta na qual externava sua vontade de partir. 

Aliás, se há algo que mudou em Messi de uns tempos para cá foi justamente o fato de passar a falar, de deixar claro o que lhe incomoda e o que quer. E não só no clube catalão onde nos últimos tempos adotou uma postura dura até, mas também na seleção argentina. Basta lembrar o comportamento que teve na última Copa América. Ali parecia ter deixado de vez para trás o jeitão que durante tanto tempo o caracterizou. O de um cara tímido, calado. A idade, sabemos bem, costuma diminuir consideravelmente nossa paciência. E isso tem um lado bom pois se há alguém com envergadura nesse meio para comprar brigas esse cara é Lionel Messi. Enfim, na minha opinião, o que verdadeiramente importa neste momento não é o número de gols que ele marcou, os títulos que ganhou, as marcas incríveis que alcançou, muito menos os incensados seis títulos de melhor do mundo. 

É o que Messi passou a significar a sua maior contribuição. A sua marca verdadeira.  Um controle de bola mágico. Uma maneira de pensar o jogo que mais parece uma assinatura. A consciência disso, dessa condição tão distinta, se faz necessária, principalmente pra cortar pela raiz aquele tipo de comentário que nasce da falta de sucesso dele com a  camisa argentina, da ausência da conquista de uma Copa do Mundo. Coisa que poderiam fazê-lo maior, mas que certamente não o fizeram menor. Podemos pensar o inverso também, como é que esse argentino conseguiu ser o que é sem nunca ter se visto na condição de campeão de uma Copa? Como, que fórmula é essa?  Desconfio que o fato de ter nascido em Rosário é parte essencial dela.  

quarta-feira, 3 de julho de 2019

A torcida e o Mineirão

Foto: Guilherme Piu

Ouvi dizer por aí que a torcida anda azeda. Ouvi até  ela ser acusada de andar jogando contra. Compreendo a colocação. E ao contrário dos que se mostram preocupados com ela, eu afirmo que se isso é fato deveria ser motivo de comemoração. Uma torcida descontente é, em última análise, prova de evolução. Evolução da sua capacidade crítica, como nunca perco a chance de deixar aqui escrito nas entrelinhas. Não desprezo, por outro lado, a possibilidade de  que esse humor alterado seja sintomático. Um sinal de esgotamento, um cansaço, a paciência chegando ao fim. Afinal, ela sempre trata de enviar antes algum sinal. E não é pra menos, se aqui do lado de baixo do Equador nem jogos entre seleções andam dando muito caldo que dirá o nosso futebol do dia a dia. 

O sentimento que disso transborda é compreensível. Se entregar com devoção a uns noventa e poucos minutos de jogo e receber em troca dois ou três lances de gol, não poupemos palavras, é caso evidente pra se repensar a relação. Ao mesmo tempo é possível vislumbrar nisso uma grande demonstração de que o jogo de bola ainda envolve alguma dose de paixão, esse sentimento que desde sempre fez pouco caso das evidências.  Caso não esteja convencido faça o teste. Seja lá onde for, provoque um papo de futebol e verá que não tardará a aparecer uma figura de contornos conhecidos, molhando as palavras com a ânsia dos abstêmios, de olhos meio tristes, dizendo pra quem quiser ouvir que já não aguenta mais, que não vê a hora dessa pompa toda acabar para que ele possa, enfim, matar a saudade de ver o time dele em campo. 

E é amparado nesse entrega que afirmo: a torcida pode tudo, pode querer ser cruel, condescendente, o que for. E tá pra nascer quem tenha moral para enquadrá-la, para dizer assim, lhe olhando nos olhos, como deveria se comportar. Digo mais, vejam esse Brasil e Argentina que acaba de rolar agigantado pelo que significou em termos históricos. Esse jogo foi outra prova de que o coração da torcida é livre, que ela está longe de ser injusta. E mesmo que muitas vezes vá além do jogo de bola está preso a ele. Aí, Daniel Alves jogou o fino, Gabriel Jesus e Coutinho foram na onda e, de repente, o Mineirão, que foi pra mim antes de qualquer outra coisa um estádio monumental -que certo dia teve sua imponência desafiada pelo chute potente de Nelinho que tratou de chutar uma bola pra fora dele - virou exatamente o que tinha dito o técnico Tite a seu respeito dias antes do embate com os argentinos.  

Pois perguntado sobre os fantasmas que poderiam ali assombrar o time brasileiro o técnico da seleção tratou de pesar as coisas e recordar também que foi no Mineirão que bateu a Argentina por três a zero e que tinha sido ali que tinha visto a torcida mais em sintonia com o time dele.  Ouvi sim relatos de uma breve vaia, mas endereçada ao Presidente da República que mesmo sem marcar um único gol até agora resolveu dar uma desfilada pelo gramado para tirar uma casquinha. Mas isso é detalhe. Bacana foi perceber que esse Brasil e Argentina personificou o sonho possível do torcedor brasileiro , o barato dos adereços, da rivalidade, que foi sempre infalível na hora de apimentar encontros. Rivalidade que, segundo o treinador da nossa seleção, só se tem com quem se admira. Sei não,  Seo Adenor, sei não.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Diga lá: Brasil x Argentina!


Hoje à noite tem um Brasil e Argentina à vera. É daqueles jogos cuja sonoridade dos nomes envolvidos, mesmo quando ditos apenas mentalmente, basta pra deixar transparecer seu tamanho. O encontro será no Mineirão onde pouco mais de dois anos atrás os alemães nos fizeram ver o quanto nosso futebol e nossos selecionáveis estavam vulneráveis. Imagino que alguém tenha resolvido dar um basta na situação ciente de que um dia a seleção precisaria voltar lá. Talvez até tenha sido ideia de Tite, apresentado dois dias antes da confirmação do jogo no estádio mineiro. 

Mas, seja qual for o enredo que venha a se desenhar por lá na noite de hoje, não terá o poder de livrar a seleção brasileira do que viveu ali. Sinto dizer mas aquilo é pra sempre, e q qualquer discurso no sentido contrário falso. Será também o encontro de dois técnicos em início de trabalho.Tite ao debutar no comando do time brasileiro contou com um Gabriel Jesus inspirado e de lá pra cá não perdeu o embalo. E que embalo, em quatro jogos fez de um Brasil sexto colocado o líder das Eliminatórias.

Não que Edgardo Bauza, o atual técnico argentino, contratado menos de dois meses depois, tenha começado mal quando recebeu o Uruguai, em Mendonza. Outro clássico daqueles ao qual basta sentir a sonoridade dos nomes. Messi estava de volta depois do penalti perdido na Copa América, do vice-campeonato diante do Chile e, num daqueles dias, se encarregou de fazer o gol que deu a vitória e a liderança das Eliminatórias ao time argentino. Mas no futebol as coisas mudam rápido, algo que não devemos deixar de ter em mente mesmo quando o Brasil dá pinta de ter encontrado um rumo. Prova disso é que de lá pra cá a Argentina não venceu mais.

Empatou com a Venezula fora de casa e também fora de casa repetiu o placar de dois a dois diante do Peru. Nesse jogo esteve duas vezes em vantagem, mas viu Cueva - esse mesmo, do São Paulo, que acaba de fazer um belo clássico contra o Corinthians - aos trinta e oito do segundo tempo, de penalti, marcar o segundo gol peruano. Guerrero tinha feito o primeiro. Para completar, na última rodada a Argentina perdeu em casa para o Paraguai. Por essas e outras desembarcaram aqui fora da zona de classificação para a proxima Copa do Mundo, amargando uma nada brilhante sexta posição e tendo de ouvir a torcida se perguntar se a classificação para a Copa virá, isso dois meses após ter batido o Uruguai e assumido a liderança. Algo muito parecido com o que vivíamos antes da chegada de Tite.

Mas Bauza não perdeu a pose, andou dizendo pra quem quisesse ouvir que trabalha pra ser campeão do mundo e que vem ao Brasil pra vencer. Fez questão de justificar a afirmação lembrando aos interessados que o trabalho dele não faria sentido se não acreditasse que pode dar conta disso. Coincidência, ou não, Messi não participou dos últimos três jogos da Argentina, mas estará de volta hoje. 

Ainda assim se o discurso de Bauza soa um tanto pretensioso, pretensiosa também será qualquer análise que venha a sugerir que Tite a essa altura já consertou a seleção brasileira. Mesmo porque os grandes problemas que o futebol brasileiro tem pra resolver não passam exatamente pelo futebol da seleção. Mas o que sem dúvida Tite fez foi resgatar o interesse do torcedor pelo time nacional. Chego a duvidar que algum apaixonado por futebol não mova mundos pra acompanhar esse Brasil e Argentina de hoje a noite. Jogo tão grande que se vencermos nos dará a impressão de que realmente viramos uma página