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quinta-feira, 10 de outubro de 2024

A Seleção e o Santos



Hoje à noite a Seleção Brasileira estará em campo. Terá pela frente o vice lanterna das Eliminatórias, o Chile. Em outros tempos tal encontro talvez não despertasse maior preocupação, mas esse tempo passou. E como o embate se dará na capital chilena não foi incomum nas últimas horas dar de cara na crônica esportiva com prognósticos que pedem cautela. Que falam em jogo complicado. E não dá pra dizer que sejam comentários descabidos. Mesmo porque neste momento o honrado escrete nacional repousa na quinta colocação com o mesmo número de pontos da Venezuela. Mas a Venezuela, atentem, pode até dizer que anda fazendo boa campanha. A ver como se sai hoje diante da Argentina. 

Tudo depende do ponto de vista. Nos jogos anteriores o Brasil venceu o Equador, que está acima. Mas perdeu para o Paraguai, que está abaixo. Não é de hoje que a Seleção vem encolhendo treinadores, se é que me entendem. Dorival que se cuide porque, no popular, essa é uma Data Fifa pra sair da lama. Afinal, depois do vice lanterna teremos direito a um encontro com o lanterna Peru, que a depender dos resultados poderia sair dessa condição mas para isso amanhã teria de, pelo menos, vencer o Uruguai. A situação é tão esquisita que por mais que o torcedor se mostre descontente a cada convocação é difícil imaginar que os nomes mudem radicalmente. Boa parte dos que já deram a cara deve permanecer, mesmo com idas e vindas, até a próxima Copa do Mundo. 

E se tem uma coisa muito clara na minha opinião é que a Seleção não está dando liga. Há quem diga que não temos jogadores fora de série, não deixa de ser verdade, mas estou convencido de que com o que temos - e com alguma dose de magia - seria possível ir além. Quem sabe até resgatar um quinhão do respeito e da simpatia da nossa maltrata torcida. E por falar no humor da torcida, a do Santos deu outra azedada neste começo de semana. A euforia de um jogo que poderia levar o Peixe de volta à liderança da Série B desaguou em derrota para o Goiás. E já faz tempo a relação dos torcedores com o treinador santista tem sido uma questão. 

Carille visivelmente não vem aliviando. A torcida também não. Mas nunca repensar essa relação se fez tão necessário. E urgente! No sábado, quando o Santos voltar à Vila Belmiro para receber o Mirassol, candidatíssimo a uma das vagas, nada será mais sábio do que apoiar o time.  E que já preparem os ânimos porque será inocência esperar um time de encher o solhos. No máximo um time fazendo uma apresentação acima da média parece plausível. E Carille, que andou dizendo que o clima que encontra nas ruas é diferente daquele que tem sentido nas arquibancadas precisa perceber o óbvio: não são os que ficam pela rua que se encarregam de dar o tom no estádio. 

Ah, e que o comandante santista tenha a sensibilidade de perceber que nessa reta final de campeonato voltar a não dar as caras em uma coletiva pós-jogo seria algo muito inadequado.  Maus exemplos nesse sentido andam fartos por aí. E certas reponsabilidades são intransferíveis. É absolutamente compreensível que, do alto de toda experiência que adquiriu, Carille não queira mais engolir sapos ou fazer média. Que se mostre muito seguro a respeito do que pensa e faz. Mas flertar com a antipatia jamais será boa tática. E, além do mais, voltar à elite do futebol brasileiro é algo que parece encaminhado, jamais garantido. 

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Em meio à dor da América



Não sei se o Caro leitor faz parte do grupo de indignados com essa questão envolvendo a Copa América. De minha parte digo a vocês, como já comentei com amigos, que logo que a Argentina disse não, depois de a Colômbia o ter feito também, considerei uma questão de tempo essa batata quente vir parar no nosso colo.  E de imediato me lembrei do sorteio que apontou o Qatar como sede da Copa de 2022. Nos dois casos bastaria conhecer um pouco das manobras do futebol desenhadas longe dos gramados para sacar que o desfecho tanto em um caso, quanto no outro, era óbvio.  

Pelo que foi noticiado bastou um telefonema do mandatário da CBF para o Palácio do Planalto para decidir a questão.  Num primeiro momento os veículos de comunicação, todos, incluindo grandes jornais do exterior,  deram a notícia.  A Conmebol foi logo fazendo uma publicação oficial agradecendo nominalmente ao presidente brasileiro.  Mas eis que horas depois o Ministro da Casa Civil se pronunciou. Disse que o tema estava sendo analisado e se apressou em falar das condições exigidas.  Condições que se analisadas com rigor eram visivelmente protocolares.  Exceção feita, talvez, à proibição de público nos estádios. A ver. 

Enfim, a confirmação não tardou. Um dos artigos que li a respeito jogava luz sobre a submissão dos governos ao futebol.  Mas reside aí um aspecto interessante, pra não dizer lamentável, o tamanho da submissão do nosso governo. Pois quem costuma acompanhar os movimentos envolvendo esses dois atores sabe bem que a ligação entre futebol e governo na Argentina sempre foi umbilical, a ponto de em certo momento da história o governo ter comprado os direitos do Campeonato Argentino. Ainda assim, diante da pandemia e de todos os seus desdobramentos, parece ter tido alguma sensibilidade. Bom senso mesmo. 

Que o momento exige esse tipo de conduta não resta dúvida.  No fundo é o dinheiro ditando , como sempre, as atitudes.  O torneio em questão representa o segundo maior faturamento da Confederação de Futebol Sul Americana. Como foi ele, o dinheiro, que determinou o momento em que o futebol brasileiro voltou a ser jogado, que determinou a intensidade da insistência para que o Campeonato Paulista não ficasse pelo caminho meses atrás, quando os números da pandemia apavoravam aos menos aqueles que não a negam. 

Foi o dinheiro e essa sempre suspeita tabelinha entre cartolas e governo.  A Copa América, não se enganem, mais do que um torneio virou um signo, um símbolo. E é disso que se trata. Os que a negarem serão imediatamente apontados como alinhados com isso e aquilo. Os que a abraçarem, idem. Mas seja como for será responsabilidade de quem disse sim, de quem ao aceitá-la seguiu negando que a hora pede outros esforços. E não me venham com essa canalhice de fazer o velho e cara de pau minuto de silêncio às vítimas. 

Fico me perguntando, testemunha de tantas perdas, de tantas histórias tristes, em que mundo vivem certos cidadãos que passeiam por aí sem máscaras, muitos com ar desafiador até.  A vida é de cada um, que façam com ela o que bem entender. O que jamais vou aceitar é o descaso com o próximo. Por certo veremos ainda quedas de braço, descontentes recorrendo ao judiciário. Que os indignados se revelem, é um direito. E como se não bastasse a tristeza por essa falta de humanismo,  temos de digerir  também a constatação de que o futebol, esse grande catalisador do nosso povo, vai aos poucos sendo maculado por homens que fizeram dele um modo de enriquecer. E, no fundo, se importam é com isso.      

 

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

A Libertadores é o que parece?



Eu gosto desse papo sobre a importância que a Copa Libertadores ganhou nos últimos anos. Por uma razão simples: vejo nele a possibilidade de entender melhor o que seduz de verdade o torcedor.  Como é que a emoção se processa na cachola de quem ainda gasta tempo e saliva com o jogo de bola. Não teço teorias mirabolantes, de modo que considero a enorme exposição na mídia capaz de  explicar em boa parte o que temos visto. Essa quase febre. Que os clubes a tenham comprado no sentido literal e figurado é óbvio. E se trata de reação intimamente ligada aos cofres. A bolada que cai na mão do campeão é considerável. 

Some-se a isso a possibilidade de figurar ao lado do campeão da Europa no Mundial de clubes e a fórmula da sedução talvez esteja desvendada. O verbo figurar nesse caso foi escolhido a dedo, não foi usado à toa, pois sempre correremos esse risco. Com já vimos acontecer. E a coisa só vai mudar no dia em que o futebol que se joga aqui for de alguma forma parecido com o que temos visto ser jogado na Europa. Enfim, lembro que tempos atrás a fase de grupos da Libertadores era encarada com certo desdém.   Um jogo aqui, outro ali, prendiam a atenção do torcedor. Mas era na reta final que a coisa dava liga. Hoje em dia, não. Os tambores rufam desde a chamada pré-Libertadores. Região da disputa que, se merece alguma fama, é mais por ter sido local de naufrágios improváveis de times ditos favoritos do que propriamente por sua importância. 

Digo mais, acho que essa volta - da maneira que está proposta - um tanto absurda. Dá a impressão de relevar totalmente o momento que o mundo atravessa. Manter a tabela assim, com jogos de ida e volta, obrigando delegações a frequentar aeroportos e outros locais, a fazer deslocamentos internacionais, é de uma insensibilidade enorme.  Certamente não foi por amor ao futebol que se decidiu desse modo, muito menos por respeito à saúde dos atletas e suas famílias. Sem contar que o formato com jogos únicos se mostrou capaz de contribuir bastante para aumentar a emoção em torno das partidas. Sem contar que estamos falando de uma edição que mal tinha começado. O que , em outras palavras, significa manter um número significativo de jogos num cenário que segue sendo de pura incerteza.E se falo dessa questão dos jogos únicos é não só porque seria um modo de poupar a parte física dos jogadores, mas também uma maneira de favorecer a melhora da qualidade técnica. Ainda que na cabeça do torcedor, tudo leva a crera emoção seja ingrediente capaz de suprir a falta de beleza muitas vezes


Longe dos mata-matas considero a Libertadores tecnicamente um torneio que deixa muito a desejar, pra não dizer que em alguns momentos apresenta um nível capaz fazer  um entendido no assunto corar de vergonha. E é de se esperar que a pandemia, frequentemente acusada por aqui de complicar o padrão de jogo e o trabalho das comissões técnicas, torne essa edição da Libertadores um tanto  mais opaca. Sem contar que cada país viu seu futebol voltar a cena em um momento. Dando aos times brasileiros alguma vantagem nesse sentido, já que voltaram a treinar já faz algum tempo. Enfim, acho a Libertadores um pouco uma metáfora desse nosso tempo em que, como dizem, quase tão importante quanto ser é parecer.