quinta-feira, 12 de março de 2026

A realidade dos treinadores

Foto: Gilvan de Souza/Flamengo


Eu não faço ideia de como anda a reputação do treinador que cuida do seu time. Mas é fato que eles cavaram um lugar de destaque na história do jogo de bola. Não sei dizer se isso se deu desde sempre. É comum ouvir por aí que a história recente é que fez deles celebridades. Que não deveriam ter todo esse cartaz. Acho que nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Imagino que ao treinador seja reservado um papel que se não o coloca na mira dos holofotes, não faz dele alguém que deva ter a discrição de um árbitro, de quem se diz que os melhores são aqueles que passam despercebidos na peleja. Ainda que os desse tipo pareçam uma raça em extinção. 

Talvez nem por culpa deles, mas de tantas atribuições que lhe foram dadas. Passar spray no local da falta e da barreira, sob pena de ser ludibriado pelos espertalhões, jogar a moeda do cara ou coroa pra cima, sem esquecer da propaganda, dizendo que naquele momento cara significa televisão e coroa máquina de lavar. Saber a exata hora de ignorar, ou não, os chamados vindos da cabine do VAR. Olhando assim, a impressão que tenho é de que ao menos a vida dos treinadores desde o princípio não foi tão modificada. Muito pelo contrário. 

O tempo ao invés de exigir mais lhes deu regalias. Uma comissão que só inflou com o passar dos anos. Deixando -lhes à disposição, muitas vezes, dois auxiliares. Sem contar um sem fim de especialistas que lhe passam a segurança de que seus comandados estão se alimentando como devem,  números que elucidam o quanto esse ou aquele andam correndo pelo time. E até informações científicas que, em última análise, podem até lhes blindar contra o popular migué. E por estas  bandas nem precisam ter um currículo de encher os olhos para passar a ganhar cifrar de encher os bolsos.  

Mas se o futebol nunca esteve perto de ser uma ciência exata, analisar treinadores muito menos. Nos últimos dias vários deles geraram um sem fim de manchetes. Os demitidos Hernán Crespo e Filipe Luís, agora ex-Flamengo. O recém contratado, Leonardo Jardim, agora rubro-negro. O que levou à derrocada dos dois primeiros foi se esclarecendo com o passar do tempo. E deixou nas entrelinhas o que não deveria ser novidade pra ninguém: Interesses se chocam e pessoas também. Que Filipe se revelou um vitorioso está claro. Agora se com o estrelado elenco que tinha outros seriam capazes de fazer o mesmo ou mais, nunca saberemos. 


Seja como for lá se foi Filipe Luís e sua mentalidade europeia. Era assim que muitos o enalteciam. Seja isso lá o que for. Talvez só um complexo terceiro mundista. Leonardo, o que chegou, obteve a quase consagração dirigindo o Cruzeiro.  De tão incensado me deixou com a impressão de já estar entre nós há um bom par de anos. Nada. Foi anunciado pelo time mineiro no início da temporada passada, em fevereiro. De cara acabou eliminado na semifinal do Campeonato Mineiro, esse mesmo que ia fritando o Tite, que lhe ocupou o lugar. Em geral, ​na maior parte das vezes, o salário que o futebol 

brasileiro tem pago a certos treinadores parece maior do que o que eles oferecem. Uma temporada a mais nos permitirá saber melhor do que é capaz Leonardo Jardim. Se jurou amor incondicional ao Cruzeiro. Se disse que não queria trabalhar muito anos por aqui por causa das distâncias colossais, pouco importa. Só os idiotas não se contradizem, diria Nelson Rodrigues.

quinta-feira, 5 de março de 2026

O figurão



Não se deixe levar pelo tom pouco sério que o título pode sugerir. O escolhi com a intenção de deixar cair sobre o elegido o véu de certa descontração. E também por acreditar que é assim que gente de tal envergadura é tratada no popular, quando, de repente, o nome do tal surge numa conversa de bar. Não que a descontração combine com ele.  Não se trata de um nobre, no que diz respeito a títulos e afins, mas é impossível negar-lhe importância. E se acabei seduzido por este homem foi também porque, de certa forma, ele me permite falar de futebol seguindo uma mesma linha, já que na semana passada o assunto aqui foi o futebol brasileiro, e este personagem me dá a chance agora de um olhar sobre o jogo de bola mas com pretensão mundial. O que esclarece  também porque afirmei que a aparição do sujeito em conversas de bar não deve causar surpresa. 

Nasceu na era dele, por exemplo, essa coisa de Copa com quarenta e oito seleções, em várias cidades e, como não tarda veremos, até em três continentes. E isso, convenhamos, é coisa que o torcedor tem bons motivos pra cornetar na roda com os amigos. Onde já se viu, não é?  Bom, ainda não se viu , mas não demora o homem nos fará testemunhar essa invencionice. E se hoje sabemos muito bem de quem se trata é porque na semana passada ele comemorou uma década no cargo importante que ocupa. E que fez dele alguém que todo mundo que tenha a mínima intimidade com o mundo do futebol conhece. è o cartola-mor. E espero que esta maneira pouco formal de tratá-lo não seja vista como falta de respeito.  Se a uso é para reforçar a linguagem descontraída que me esforço aqui para lapidar desde que o título me veio à cabeça. 

Mas pra não perder o fio da meada e justificar a razão de ter citado a oportunidade de manter uma linha no tema, é porque se no artigo anterior desta folha disse que pouco pensamos o futebol brasileiro, pensamos muito menos o papel do futebol no mundo. E a biografia recente desse figurão é um bom recorte para tornar claro como o jogo de bola anda sendo cuidado. Ou usado. Tenho dúvidas sobre o termo mais apropriado neste caso.  Suíço italiano, de pai nascido na Calábria e a mãe na Lombardia, frequentou manchetes na semana passada em virtude dos dez anos completados onde foi apresentado como alguém que expandiu competições e aproximou  a principal entidade do futebol mundial de disputas geopolíticas. 


Fato é que andou forçando tanto a tabelinha com a política que acabou investigado pelo Comitê Olímpico Internacional, do qual faz parte também, sob suspeita de violar as regras de neutralidade da entidade. Se viu absolvido defendendo que não fazia mais do que cumprir seu papel ao fomentar esforços de reconstrução em lugares como a Faixa de Gaza. A investigação tinha se dado a partir da presença dele, em Washington, na reunião inaugural do Conselho de Paz, criado por Donald Trump. Esse mesmo que anda colocando o mundo em pé de guerra. O problema desse tipo de parceria, de tabelinha, é precisar uma hora mandar a bola para outro lado. 


E não dá pra deixar de citar aqui o fato desse figurão ter sido visto vestindo boné dos USA com inscrições notadamente políticas, o que nos instiga a perguntar que tipo de neutralidade é essa que se tenta preservar. Que o futebol possa e deva ser usado para defender grandes causas é coisa que não se discute. Mas defender o fim da proibição da Rússia em competições internacionais decretada depois da invasão à Ucrânia, como ele fez recentemente, parece não levar em conta, entre outros fatores, a pressão que o futebol pode fazer a favor da tão falada e abstrata paz. Mas quem sou eu para dizer como o futebol deve ser tratado no âmbito global. Só me causa preocupação um figurão desse dando a impressão de já não poder se negar a vestir um boné sob pena de começar uma guerra. Talvez seja o caso de perguntar a Gianni Infantino o que ele acha.  

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A crença na camisa 10

Foto: Fluminense 


Nos dias atuais em que gols de falta e dribles rareiam é preciso que o torcedor encontre algo em que se amparar. De misérias já chegam essas a que o mundo nos condena para além -  ou aquém - das cifras que guardamos nos bolsos ou nos cofres. Não dá pra residir nesse deserto sem crer que ainda há escondido em algum lugar um oásis para matar essa nossa sede de grande lances sobre os gramados, muitos deles já deixando transparecer aquela morbidez que costuma rondar as samambaias de plástico nos consultórios. Nesse reino do futebol desde sempre tão fértil para superstições, parece estar pra nascer mandiga capaz de fazer ressuscitar o encanto que um dia cercou o jogo. 

A penitência é tamanha que começo a desconfiar que tudo não passa de ilusão. Que teimamos em alimentar essa esperança só porque o tempo foi editando tudo, livrando do desaparecimento fragmentos que mereciam perdurar. O gol iluminado de Falcão certa tarde no Beira-Rio, os dribles de Garrincha, os lances singulares encenados por Pelé, Zico cobrando uma falta com impiedosa precisão. Peço desculpas aos que, mais vividos do que eu, tenham sido testemunhas oculares de que esse futebol dos sonhos um dia foi possível, que existiu. A esses peço que sejam indulgentes. Talvez isso aqui não passe de lamento de um desiludido.  

Pensando bem, é possível que tudo isso seja fruto do tempo que me foi dado viver. Nem aquele em que o futebol se revelava fascinante,  nem esse outro de agora no qual a beleza nele não passa de um vestígio. Insisto nessa versão porque não consigo ignorar que o presente muitas vezes se revela mais pesado do que o passado, de quem ousamos guardar só aquilo que nos interessa. E mais pesado também do que o futuro que, sabemos, moldamos a nosso bel prazer, por mais que as evidências sugiram de modo gritante que não tardará o momento em que passaremos a não ter mais direito a um. 

Mas quero crer que nada estará totalmente perdido se continuarmos a ter um camisa dez por perto. A gente acredita em cada coisa. É fato, no entanto, que a essa altura do campeonato já não parece justo depositar sobre as costas deles este fardo. No fundo, preciso confessar: o que vai aqui é uma reverência a eles. Que se não irão nos salvar da pasmaceira, poderão nos deixar com a sensação de que nem tudo está perdido, que ainda há uma trincheira com uns pouco gatos pingados tentando debelar abstrato inimigo. Elegi o tema levado pela leitura de uma matéria que apontava quais eram os camisas dez nos quais deveríamos ficar de olho nesta temporada. 

Paulo Henrique Ganso estava lá. Acaba de completar 300 jogos pelo Fluminense. O mais clássico dos que temos à disposição. É por causa de caras com a visão de jogo dele que sigo acreditando que se um camisa dez não seria exatamente a salvação poderia funcionar, no mínimo, como um agradável paliativo. Menphis também estava listado. Mas dele me recuso a falar. Nunca tive a ilusão de ser perfeito, ainda que tenha sido acusado por vezes de tentar. Sou do tipo que não engole alguém vestir a camisa dez por contrato. Em outros eu acho que é muita areia pro caminhãozinho. Caso de Gustavo Scarpa, do Atlético Mineiro. E isso nada tem a ver com considerá-lo um mau jogador. É refinado até, mas a dez pra mim exige mais do que refinamento. 

Não sei é um jeito de se portar. De conseguir tratar o jogo de maneira muito original. Como um chef que ao fazer um prato trivial o faz notadamente melhor do que todo mundo. Se encaixa no modelo pra mim mais o futebol de Everton Ribeiro do que o do Scarpa. Refinamento que não consigo enxergar em Luciano, do São Paulo, que talvez tenha alcançado a honra pelo conjunto da obra e pela insistência em se irmanar com a torcida tricolor do que propriamente pelo futebol. No meu entendimento nasceu para ser um nove, ainda que falso, se é que me faço entender. Enfim, atualmente só uma coisa além de um camisa dez de fina estirpe me faz crer que o futebol possa ter salvação, os canhotos. Mas dessa crença falamos outra hora. 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Era uma vez o Paulistão




O tema não é novo. Há tempos os torneios estaduais minguaram. E, por mais que possa parecer, a razão de sua teimosa sobrevivência não está na tradição, está nas cifras que sustentam. O que vale, principalmente, para o Campeonato Paulista. De longe o mais abastado entre seus semelhantes. Talvez o tema se faça um tanto sem sentido para os mais novos, que já os conheceram despidos de trajes nobres. A coisa mudou tanto que chego a ter a impressão de que hoje em dia um título estadual 

não teria apelo suficiente para livrar verdadeiramente um time grande da sensação de jejum e de toda cobrança que se dá na ausência de triunfos. 


Foi-se o tempo em que um Estadual cumpria o papel que cumpriu a edição paulista de 1977 quando o Corinthians ao bater a Ponte Preta levou a fiel torcida até o céu que o jogo de bola sempre promete. Com direito a suspensão das aulas e outras tantas alterações no cotidiano só possíveis quando esse tipo de caneco era cultuado pra valer. Nem seria preciso recuar tanto no tempo para explicitar o que a história fez com eles. As duas finais  entre Palmeiras e Corinthians no início dos anos noventa, lembro bem, ainda tinham aura nobre, provocavam uma mobilização considerável. Mas sou obrigado a reconhecer que àquela altura a rivalidade entre os dois, é bem possível, já cumpria sem que se percebesse o papel de turbinar importâncias. 


Final 1995 - Foto: Ricardo Correa -Placar



E essa decadência, tão evidente, este ano ganhou outra dimensão. Não bastasse a diminuição das datas reservadas a eles, o ajuste do calendário que adiantou o início do Brasileirão o condenou de vez à sombra. Sou capaz de entender as razões. Não sou um lunático disposto a bradar contra os times mistos, os times poupados, os times de base no lugar do profissional. Nada disso. Apenas acho que isso tudo abriu um precedente e, amparados nele, muitos resolveram jogar contra os estaduais também. A CBF que, quando viu a bola pingando na área com a necessidade de mexer no calendário em ano de Copa, não pensou duas vezes para lhes tomar algumas datas, já que isso viria a servir por tabela para minar e mandar recado a quem tinha se revelado oposição. 


Mas, na minha opinião, o golpe que parece ter levado os estaduais às cordas, em especial o outrora chamado Paulistão, é uma mescla que une a inoperância dos dirigentes ao comodismo dos treinadores. Ao menos é essa a impressão que tive ao acompanhar alguns jogos neste início de temporada. Pra mim é visível a falta de interesse de muitos times para jogar essas partidas. E aí é claro que falo de times que têm horizontes que vão além das fronteiras estaduais. Ainda que para alguns essa condição seja discutível. São muitos os momentos em que fica claro que ​a vitória deixou de ser prioridade. Se pensa nela até, mas sem estar disposto a correr riscos, a agredir o adversário. 


E o resultado desse tipo de escolha sabemos todos é um jogo no estilo "tico-tico" no fubá que não tem tamanho. Entenderia totalmente o torcedor que se levantasse da arquibancada, dando às costas ao time, gritando que lhe avisassem quando estivessem a fim de jogar bola, pois aí quem sabe decidisse voltar.  Como afirmei acima, entendo muitas questões, mas as propostas, as ideias de jogo que se apresentam, beiram a covardia. Num tempo em que os entendidos afirmam que a ciência nos deixa saber exatamente quantos minutos um atleta pode atuar, a ausência de intensidade não se justifica. Conclui-se que quem foi a campo estava apto ao embate. Ou, os elencos no início da temporada são mesmo um mar de atletas meia bomba. O Flamengo anda reforçando essa tese.