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quinta-feira, 10 de julho de 2025

O time da rua de trás



Se tem uma coisa que esse Mundial de Clubes tornou evidente é um certo temor que temos de encarar quem tem fama. Qualquer pessoa mais atenta há de ter notado que começamos a temer esse tipo de adversário assim que o encontro com eles é anunciado. Entendo que a coisa possa se dar mais no âmbito da mídia, que não pode ver uma bola dessa pingando na área. Por isso gostaria muito de desvendar o quanto esconde de verdade aquele discurso que prega que não tem dessa, que é no campo de jogo que a coisa se resolve. Não acho que se trate de uma inverdade. E foi refletindo sobre embates que dão certo frio na barriga que acabei lembrando do meu tempo de moleque, quando os ditos times da rua de trás testavam a coragem da meninada. 

O time da rua de trás era um signo. Boa parte do tempo batíamos bola com a mesma turma, com os mais chegados. Vez ou outra pintava alguém de fora, mas nada que fizesse a pelada tomar outro ar. Tanto era assim que a prática ia nos ensinando como distribuir os times sem comprometer o equilíbrio. Coisa que qualquer um da minha geração irá lembrar. Qualquer um que tenha vivido aquele tempo em que o futebol era, disparado, a brincadeira número um dos meninos. Mas os tais times da rua trás colocavam por terra essa cumplicidade. Faziam do jogo de bola um verdadeiro enfrentamento. Eram adversários desconhecidos, de quem muitas vezes se contavam histórias de grandes feitos. Fossem eles feitos de dribles, gols ou valentia. O frio na barriga era provocado também por não sermos sabedores do comprometimento deles com a lealdade. 

Lembro bem de um time desse tipo. E no meu caso não era bem o time da rua de trás. Era o da molecada que morava a certa altura da Rua Freitas Guimarães. Quatro ou cinco quadras adiante do lugar onde costumávamos construir nossos estádios imaginários. Lá formavam, entre outros, os irmãos Claudinho e Marqueta. Sabe-se lá como é que encaravam nosso time. Sobre o deles sei que a fama não era feita só de bola. Detalhes que foram me fazendo entender o papel da intimidação no esporte. Embora nesse clássico não lembre de peleja que tenha acabado em sopapos e pontapés, o que chegava a ser comum nesse tipo de encontro. Seja como for que nos encaravam havia um respeito mútuo. E, lembrando agora, havia também uma coisa engraçada: a dificuldade de colocar nossos times frente a frente. Como se sobre aquela molecada que em geral só tinha de dar conta da escola pesasse um calendário draconiano e cheio como esse do futebol brasileiro. 

Mas esses pormenores todos ofertavam graça.  A citada dificuldade dava a esse tipo de "contra" - era assim que chamávamos - um ar solene. Não era raro que nos preparássemos, ensaiássemos jogadas. Trocássemos impressões sobre quem deveria receber marcação especial. Mas a lição maior que um encontro desses deixava era a de que jogar com um time realmente bom melhorava nosso futebol. Não esqueci até hoje a boa sensação de terminar um jogo desses que era tido como duríssimo com a certeza de que não só eu, mas o time , tinha ido muito além do que achava que podia. Muitas vezes mesmo não passando de um empate, ou até mesmo sendo derrotado. E minha capacidade de imaginação andou tentando me convencer nos últimos dias que isso talvez possa explicar um pouco os resultados que andamos vendo no pomposo Mundial de Clubes que ainda se desenrola na terra do Tio Sam. 

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Nossos futebóis



Há o futebol estabelecido e há o futebol que nos vai na alma, como sugeriu com sabedoria certa vez um dos nossos maiores poetas. O estabelecido anda daquele jeito. E sua realidade mordaz tem sido assunto aqui neste espaço, mesmo porque sem uma ligação com a mais pura realidade cotidiana sem alma acaba ficando a crônica. O que o futuro reserva ao jogo de bola saberemos só quando o cronômetro que solfeja a história andar. Mas do passado já sabemos quais são os frutos. E não são poucos. Há ainda por aí uma geração para a qual o jogo de bola, não é exagero, veio a ser motivo de vida. E não estou falando de nomes como o lendário goleiro italiano Buffon ou do baiano Magno Alves. Os dois já bem pra lá de quarentões e atuando. Falo de gente, digamos, com histórias comuns , ou quase. 

Gente como meu estimado Tio Afonso, o boleiro-mor da família. Um boa praça que, entre idas e vindas, e muito preparo de um pasto de berinjela destinado ao pós -jogo, não pensa em aposentadoria. Esteve em campo, dando aquela distribuída na meiúca, do alto de seus oitenta e dois e anda encarando a fisioterapia com disciplina de dar inveja, convencido de que o joelho vai parar de reclamar dessa insistência. Até infiltração já encarou pra ter condição de atuar.  E se digo que temo pelo futuro do jogo é por estar convencido de que é a prática que alimentou desde sempre tudo isso. E pelo que vejo ela vai , ainda que aos poucos, esmorecendo. Já não há espaço. Na maior parte das vezes a bola rola em campos de society.  

O barato de jogar num campo de verdade, com suas dimensões desafiadoras, vai virando coisa pra iniciados. Mas abençoado seja o society, a praia, e os terrenos baldios ainda não encampados por construtoras  que, seja como for, ainda nos fazem acreditar que o futebol seguirá arrebanhando novos adeptos e ajudando a manter os antigos. Essa vontade de render homenagem aos resistentes me veio depois de ter dado de cara com a notícia de que no Suriname uma figura singular havia se tornado  o jogador mais velho a atuar profissionalmente.  Não sei se viram essa. 

Ronnie Brunswijk, aos sessenta anos e cento e noventa e oito dias, vestiu a camisa do Inter Moengo Tapoe, pela Liga da Concacaf.  À parte o que a história pode conter de vaidade trata-se de uma pérola.  Ainda que o tal seja o Presidente e dono do clube poderia  ter ficado de fora. Mesmo porque não se tratou de uma apresentação honrosa. O time dele foi goleado por seis a zero. É fato que se trata de um sujeito para lá de controverso. Foi segurança de um ditador que governou o país, chegou ser condenado na Holanda por tráfico de cocaína e no final do jogo em questão apareceu distribuindo dinheiro no vestiário adversário. Vai entender.  

De qualquer forma por um instante fui convencido de que se trata de um desses casos em que o futebol não sai da pessoa. Seja como for em matéria de amor pelo futebol sou muito mais o meu tio cuja história é, além de tudo, infinitamente menos controversa.  Do ponto de vista da coordenação motora jogar bola esconde uma complexidade considerável. Em outras palavras, machuca mesmo. Por isso quis render tributo, jogar alguma luz sobre a paixão que o cerca e ainda faz muito pelo futebol. Já que pelo viés oficial ele tem honrado pouco os apaixonados por ele.     

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Esporte, o último da fila


Dizem que no Senado o jogo pode ser mais duro. O governo joga contra faz tempo. Fato é que o auxílio para o esporte acabou aprovado na Câmara. Pouco mais de um bilhão e meio de reais. Enfim, um tipo de atenção que promete ir desde times e agremiações famosas até os confins da várzea. E tem o mérito de jogar luz sobre um universo esquecido deixando claro que o esporte  sempre foi o responsável por uma teia social enorme. Não teríamos os campeões que tivemos e temos não fosse ela. Segundo o autor o projeto olhou para aqueles que muitas vezes ficam na prateleira da invisibilidade do esporte. Em seguida lembrou de quem se trata: boleiros, maqueiros, professores de educação física que, aliás, poucas vezes na vida vi serem lembrados. Não custa destacar que o presidente da República tinha vetado o projeto em março, quando o Câmara havia tentado aprovar o pagamento emergencial aos profissionais da área. 

Na época o principal adversário vestia a camisa do Ministério da Economia que alegou um impacto de até quinze bilhões no orçamento. Impasse que foi driblado com um mecanismo que limitou os gastos com a medida a esse pouco mais de um bilhão e meio de reais. O auxílio irá durar  três meses e tem natureza alimentar, o que quer dizer que não pode sofrer bloqueios judiciais ou bancários, ser usado para pagar dívidas.  O que só caberá em casos que envolvam pensão alimentar. Mas na esteira dessa aprovação vieram outras. O tão falado Profut teve o prazo de inscrição reaberto e os clubes ganharam a possibilidade de refinanciar dívidas fiscais. 

As entidades que recebem dinheiro das loterias,  o que não é o caso do futebol, poderão usar até vinte por cento dos recursos para pagar salários e impostos. Diante disso o Novo foi o único a votar contra, o partido queria retirar o trecho que permitia que as Confederações usassem os recursos da Lei Piva, a das loterias, para pagar dívidas, subtraindo assim dinheiro que deveria ter o esporte como destino. A emenda chegou a ter o apoio do PV, mas acabou rejeitada. O que não dá pra rejeitar é o argumento do deputado, Paulo Ganime, do Novo, ao falar sobre o tema. Segundo ele cada vez que se criam ferramentas para que maus gestores  sejam salvos pelo Estado a gente faz com que isso se perpetue. Vai dizer que não há razão nisso? 

Enfim, depois de três semanas sob ataque do governo o projeto não só passou como provocou falas cheias de verdades, que nem por isso devem nos encher de esperança. Mas, seja como for, é sempre bom ouvir que os profissionais do esporte estão no último lugar na fila das políticas públicas, que o poder público tem um débito com o setor. Diria que por tabela um débito com a saúde mental e física da população. Leila Barros, medalhista em Atlanta com nossa seleção de vôlei e que hoje é senadora pelo Distrito Federal, disse não imaginar que um senador vá votar contra o setor esportivo. Eu não teria tanta certeza. E fosse o caso de jogar contra por causa de certas benesses aos clubes, tudo bem, mas negar um auxílio emergencial num momento como o atual, podendo contar com um limite de gastos, chega a me parecer cruel. Mas pensando bem o que pode ser mais cruel do deixar o esporte na condição de último da fila?