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quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Era uma vez o Itaquerão?

                                                          Foto: Wander Roberto /2019

Se você gosta de futebol e nunca leu algo escrito por Mário Filho a respeito do jogo de bola não tem ideia do que está perdendo. Sou suspeito para falar pois chego a gostar mais dele do que do irmão, Nelson Rodrigues, coisa que se a memória não me falha não faz muito tempo confessei. Não me entendam mal, tenho Nelson em altíssima conta. Mas tomarei a liberdade até de brincar um pouco com o tema. Vira e mexe alguém lembra que Nelson não enxergava bem. Mário enxergava muito, cada mínimo movimento. que pode ser facilmente percebido com a leitura de um texto escrito por ele sobre Telê Santana. Linhas em que Mário o define como sendo o ponteiro dos segundos, jamais o das horas. Isso em virtude do  jeito de Telê se movimentar em campo, destar em todo canto do gramado. Sem nem sempre ser percebido . Portanto, não poderia haver injustiça maior do que subtrair do estádio mais importante do nosso país o nome dele. Subtrair é figura de linguagem, seu nome está lá estampado em letras grandes. Mas só os mal arrazoados acreditam que se trate de tema sobre o qual alguém deva ou possa legislar. O Mário Filho é o Maracanã, e ponto. 

Essa questão do nome sempre foi um fantasma que rondou o novo estádio corintiano.  O que se fez ainda maior pelo fato de o atual presidente do clube ter se mostrado desde sempre incomodado com a alcunha: Itaquerão. Eis que horas atrás, enfim, o Corinthians anunciou quem dará nome ao estádio. Um patrocinador, óbvio. Poderia ser o fim de uma novela mas, digamos, tem tudo pra ser o início de uma nova temporada dela. Isso porque talvez não seja tarefa fácil convencer os interessados por futebol desse nome de batismo. A coisa se arrastou por mais de meia década, o que certamente serviu para sedimentar na cabeça dos torcedores o apelido. Os desgostosos com esse nome, Itaquerão, vira e mexe sugerem chamá-lo de Arena Corinthians. Compreensível. 

Mas como profissional de  comunicação posso fazer uma observação. Há um consenso de que palavras repetidas empobrecem o texto jornalístico.  E quando o estádio tem o nome do time a repetição se torna inevitável.  Os mais atentos terão notado que o estádio palmeirense era chamado muitas vezes, no início, não de Arena Palmeiras mas de nova casa palmeirense. Nesse sentido sempre considerei uma ótima sacada chamá-lo de Allianz Parque, o que de certa forma o ligou ao antigo nome, que sempre frequentou  o imaginário do torcedor.  Ainda que o nome oficial do Parque Antártica fosse Estádio Palestra Itália. Quantas vezes aquele seu amigo torcedor do São Paulo lhe disse que iria ver um jogo no Cícero Pompeu de Toledo? Ele diz que vai é no Morumbi e acabou.   Mesmo que muitos adversários gostem de lembrar que o estádio fica na verdade é no Jardim Leonor. 

Tenho a mais absoluta certeza de que Mário Filho, conhecendo o futebol como conhecia, jamais se sentiria desrespeitado ao ver, ouvir, seu nome substituído por Maracanã. É literalmente do jogo. Fazer com que um estádio passe a ser chamado assim ou assado pode ser uma questão de negociação, quando se trata de veículos de comunicação. Mas colocar um nome na ponta da língua do torcedor, pelo que a história mostra, não é exatamente uma questão de negociação. Muito menos de imposição.  

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Declaração de pobreza


Dirá o alcaide Belo-horizontino, se confrontado, que o que disse é a mais pura realidade. Diante do valor dos ingressos e da pompa que passou a cercar as Arenas é difícil afirmar o contrário. Logo, dizer que estádio é pra rico e que pobre tem de assistir pela televisão pode até espelhar a realidade, mas diria que, antes de mais nada, espelha a mentalidade dos nossos dirigentes, há tempos catapultados a importantes cargos públicos pelo velho e sedutor jogo de bola. E ainda que o futebol tenha fincado raízes profundas em nossa terra graças a rapazes de nobre estirpe foi o povão que o fez grande. Tão grande que hoje em dia esse  jogo, apartado dos pobres, se bem analisado em termos culturais,  está longe de ter a magnitude que teve décadas atrás. E isso deveria ser uma preocupação. 

O raciocínio do Sr Alexandre Kalil, ex-presidente do Atlético Mineiro, esconde a lógica que extinguiu a geral do Maracanã, a arquitetura siamesa dos estádios, o raciocínio mercadológico que reduz a ida a um jogo de futebol a uma "experiência" e a atmosfera fria que nasce dos lugares onde o público já não se faz plural. Mas que importa isso? Os donos do espetáculo sabem que têm as cartas na mão e seguirão faturando bonito custe o que custar um ingresso. A declaração é prova cabal também de que não é de hoje muito se faz em nome do futebol mas pra ele, verdadeiramente, quase nada. Mas quem é exatamente esse sujeito pobre que ele imagina vendo futebol pela tv hoje em dia? Nos tempos em que o futebol foi abraçado pelo povo a declaração faria todo o sentido.  O trabalhador chegava em casa e sabia que tinha garantido o direito de se divertir com a peleja que realmente  interessava. Nem sempre a do seu clube, mas a principal. 

Mas o tempo passou e o torcedor pra ver seu time em campo passou a ter de pagar uma TV a cabo. E o cabo lhe pareceu o paraíso.  Com as promessas da tv fechada achou que estaria livre da penitência que a TV aberta vinha lhe impondo: se ver apartado do seu time de coração quando ele jogava em casa. Lembrando aqueles dias agora a gente chega a conclusão de que o ingresso nunca foi barato. É que hoje ele passou a ser inviável seja qual for a mágica que o pobre faça para lhe arrumar um lugar no orçamento. E como os pobres desse nosso pretenso país do futebol foram bons nesse tipo de truque ! Fazendo, inclusive, não raro, nossos estádios pulsar no embalo de uns duzentos mil. 

 Mas quando tudo parecia resolvido o cabo passou a usar a tática um tanto perversa da TV aberta, então, para ver seu time de coração o torcedor passou a ter que comprar o pay-per-view. Olha, nunca um produto teve a alma tão explicitada pelo próprio nome. Nestes dias que correm a única salvação pro torcedor é ter tido a sorte de se reconhecer apaixonado por um time grande. Um desses times que os magos da tv aberta - verdadeiramente popular - vivem manipulando para obter audiência e cifras empolgantes. 

Enfim, não vamos aqui dizer que o citado cartola mentiu ao dizer que estádio é pra rico e que pobre tem que ver jogo pela televisão.  Minha única preocupação aqui é deixar claro que, a seguir por esse caminho não tardará o dia em que o futebol será definitivamente pra rico e que os pobres terão, como sempre, arrumado alguma outra forma de se divertir. Neste dia os cartolas estarão todos reunidos de charuto em punho ostentando seus números e o fato de terem feito o nosso velho e bom jogo de bola ter a aura fina de um jogo de golf.