quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Era uma vez o Clube dos 13 ?

Não há novidade no que vou dizer. O futebol é pródigo em dinamitar biografias. Risco elevado ao extremo quando alguém aceita o papel de dirigente. Patrícia Amorim, presidente do Flamengo, foi à sede da CBF receber um título vencido. A CBF queria cortejá-la ? Ou premiá-la por ter sinalizado em algum momento que se deixaria seduzir, apesar de ocupar uma das vice-presidências do Clube dos 13? Resta torcer para que as intenções do anfitrião sejam claras, ao menos, para a mandatária do time rubro-negro.

O fato é que o futebol visto pelo viés mercadológico em breve não será mais o mesmo. Homens vestindo ternos bem cortados entrarão em uma sala e entregarão suas propostas. A bola está com eles. Dirão a que horas você verá o seu time entrar em campo, quantas vezes, e para ser ainda mais cruel, terão decidido previamente quanto estão dispostos a pagar por essa sua paixão, quanto o seu encanto pelo futebol anda valendo no mercado.

A implosão do Clube dos 13, que cuidou dos interesses dos principais clubes do nosso futebol nos últimos vinte anos, sem dúvida, representa uma ruptura. Não é fácil aceitar derrotas, portanto, não causa espanto que na iminência dela os que se sentiram em perigo tenham se esmerado em tramar um jeito de driblar a tardia decisão do CADE - Conselho Administrativo de Defesa Econômica - determinando que a era da preferência na hora de negociar os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro deveria ficar para trás, acabar.

Quem sou eu para dizer o que está certo ou errado? Os dissidentes de agora, amparados na sua importância, na dimensão expressiva de suas torcidas, podem mesmo se dar bem. Que investidor não gostaria de se aliar às duas maiores torcidas do país e mais alguns seletos convidados?

Mas, diante de tantas jogadas e artimanhas porque não determinar que seja qual for o modelo adotado deverá valer sempre a melhor oferta, afinal, quando o CADE decidiu pelo fim da preferência queria preservar o futebol, o direito de quem der o maior lance. Ora, se a regra pode ser mudada de acordo com o interesse aí fica fácil ganhar o jogo.

A intenção do Clube dos 13 não era passar a negociar cada mídia em separado? TV aberta, fechada, internet e tal ? Então, uma vez rachado o Clube dos 13, deveria se estabelecer que os clubes terão que, individualmente, ou não, negociar seus direitos de transmissão sem exclusividade, quem der mais leva. Não era essa a regra? Bom, regras nunca são claras meus amigos, por mais que tentem nos convencer do contrário.

Como ficará o futebol depois disso? Com os ricos mais ricos e os pobres mais pobres? O momento que a gente atravessa nos faz ver o óbvio: A grande tabelinha do futebol brasileiro é feita entre a TV Globo e a CBF. Ou vocês acham que podendo negociar com um time, ou alguns de cada vez, o interesse não será maior pelos que representam o filé? Aos que chegarem atrasados para o banquete, sem muito a oferecer, restarão migalhas.

Bendito ano de 1987, que viu a criação do Clube dos 13 e que viu nascer a malfadada Copa União que virou argumento para que as raposas apostassem na desunião dos clubes. Está decidido? Ainda não. Era uma vez o Clube dos 13 como a gente conheceu? Talvez. A partir de agora é um pouco cada um por si. Resta saber se vai dar Liga.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Caprichos do futebol

Eu sei que esta semana que está chegando ao fim foi do Ronaldo, cuja aposentadoria anunciada nos fez enxergar melhor a dimensão do Fenômeno. O sorriso do menino criado em Bento Ribeiro permanecerá incrustado no imaginário dos amantes da bola pra sempre. Mas o futebol é caprichoso e eu gosto de me render aos seus caprichos.

Falo do Sul-Americano sub-20 e sua garotada. No dia em que o Uruguai derrotou a Argentina por um a zero e garantiu a classificação para os Jogos de Londres a delicadeza da história aflorou. Os uruguaios garantiram ali a volta deles a uma Olimpíada depois de mais de oitenta anos. Isso muita gente se apressou em dizer. Os detalhes, no entanto, ficaram de fora, e é neles que reside a beleza desse momento.

Quando o futebol amadureceu no início do século passado os uruguaios, elegantemente, tiveram papel de destaque. Não sediaram a primeira Copa do Mundo por acaso. Eram na época bi-campeões olímpicos, donos de um futebol veloz e de um domínio de bola que impressionava até os ingleses. E foi justamente contra a Argentina nos Jogos de Amsterdã, em 1928, que eles conquistaram o ouro olímpico pela última vez.

Quatro anos antes, em Paris, já tinham enfrentado estádios lotados, com mais de sessenta mil pessoas, e só foram levar um gol na semifinal, quando venceram a Holanda, time da casa, por dois a um. Seria o primeiro e o único gol sofrido porque na final iriam garantir o ouro com uma vitória por três a zero sobre a Suiça.

A gente sabe que esse negócio de medalha de ouro é complicado. Só pode ser essa a explicação para o fato do nosso futebol não ter nos levado até hoje ao lugar mais alto do pódio olímpico. E olha que não foi por falta de craques. Vocês devem lembrar que recentemente Diego e Robinho também naufragaram nesse mar de tentativas.

Bom, a história segue caprichosa como sempre. Nossos garotos de agora podem ter cometido mais erros do que acertos diante da Argentina. Ouvi, de gente muito rodada, que a nossa seleção tinha deixado escapar a chance da vaga ali. Nada disso. A história nos reservou um final de arrepiar.

Não é sempre que se chega a um título entre seleções nacionais na última rodada, e condenando um adversário com a tradição do Uruguai a uma impiedosa goleada por seis a zero. O acontecido me fez pensar que nosso futebol é menos preciso quando amadurece. Acho que se distrai com a fama, perde aquela indispensável fome de bola.

Quem sabe chegará o dia em que teremos os mesmos olhos para o andar de baixo, pra garotada. Ainda não temos. Fosse essa façanha obra da seleção principal o oba-oba seria o de sempre, de torrar a paciência.

Naquele meio de semana que ficou pra trás, quando o prazer pequeno burguês da TV a cabo me permitiu escolher entre vários jogos. Corinthians e Ituano, pelo Paulista, Fluminenese e Argentinos Juniors, pela Libertadores e Argentina e Uruguai pelo Sul-Americano sub-20, todos no mesmo horário, não tive dúvidas, só me entreguei pra valer ao jogo da meninada. E afirmo - com a determinação de quem entra em uma dividida - que não me arrependi.

Vejam, a história tem sido tão rebuscada que mesmo tendo nos dado tanto em matéria de bola ainda não nos permite dizer que ganhamos tudo. Olho ainda neste instante, uma foto da garotada feliz, de taça na mão, na euforia da consagração, e me pergunto: Será essa a geração que nos levará a essa conquista que jamais experimentamos? Tramo um ponto final para este artigo rendido aos caprichos da história, que nos trouxeram Ronaldo, essa nova geração talentosa e que, por certo, nos trarão muito mais.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Árido Futebol

Esqueça de uma vez por todas o futebol romântico. Seu ambiente acolhedor. Os uniformes feitos de algodão. Os shorts apertados e curtos sem nada estampado no traseiro. Sou do tempo em que a cerveja ainda era uma consequência nada explícita do jogo de bola, do tempo em que curtíamos no intervalo, extasiados, na companhia segura dos nossos pais, uma velha e boa "caçulinha".

Mas o futebol, senhores, virou uma terra árida. Já não é possível chegar até a peleja relaxado, não conseguimos carregar pra arquibancada o astral sugerido pelos domingos. No fundo sabemos que a qualquer momento o bicho pode pegar, no pior dos sentidos. Até o sanduiche de pernil na porta do estádio é engolido com um olhar desconfiado que nos rouba o prazer do paladar. Como eram deliciosos os tremoços saboreados no Ulrico Mursa.

Dos idos de 1990 pra cá rolou muita paulada e muito blá-blá-blá. Os nossos promotores de justiça descobriram que as organizadas tinham o incrível poder de transformá-los em celebridades, elegíveis, inclusive. Ao longo dos últimos anos, como sempre, o futebol mexeu com o coração de milhões mas, infelizmente, deixou um rastro de algumas dezenas de mortos.

O vandalismo e as ameaças recentes envolvendo o Corinthians são apenas a ponta de um imenso iceberg. Responda de primeira: Você tem medo de ir ao estádio? Não!? Então saia por aí dizendo, sem medo de errar, que és alguém mais destemido do que a grande maioria. Um levantamento feito recentemente apontou que de cada cem brasileiros apenas um vai ao estádio e o principal motivo desse afastamento é a violência.

Quem está preocupado? O pay-per-view vai muito bem, obrigado. E se um dia o vazio dos estádios incomodar encheremos as arquibancadas por computador. A culpa não faz parte das regras que orientam o jogo dos donos do espetáculo. Só quem se dispõe a pegar um metrô, um trem, ou um ônibus em dia de clássico na imensa São Paulo é que sabe e sente o tamanho da dose de coragem necessária pra embarcar numa dessa. O que não se faz em nome de uma paixão. Seja ela cega ou não.

E não venham me falar em Estatuto do Torcedor porque depois dele - criado em 2003 - a coisa só piorou. Entre 2005 e 2008 foram vinte e cinco mortes ligadas ao futebol, direta ou indiretamente. Em nome da nossa segurança a Polícia Militar, já faz algum tempo, decidiu escoltar as torcidas organizadas até o campo de jogo. Seu desfile dantesco pelas ruas intimida o cidadão comum, paralisa o trânsito. A luz vermelha das viaturas acentua a imbecilidade de seus cantos belicosos repletos de ameaças.
Por causa deles as bandeiras tiveram que deixar os estádios, os radinhos de pilha tiveram que deixar os estádios e a geral nos pais de família na hora de entrar em um estádio é cada vez mais "fina". Quem é que vai salvar o nosso futebol desss falta de fair-paly marginal? Quem é que vai fazer o baderneiro bater ponto na delegacia na hora do jogo? É tanta baboseira que chegaram até a anunciar que a partir de 2010, isso mesmo 2010, pra frequentar os estádios o torcedor iria precisar se cadastrar, ser dono de uma carteirinha. Que criatividade, não? Ria, se puder. Ou chore. O futebol que nos tocou a alma está cada vez mais distante, cada vez mais pra trás.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Ô peixe !


Foi esta semana. Ainda na segunda-feira. Eu vi. A coisa não estava sacramentada. Faltava o cerimonial, o juramento. Mas o baixinho já estava lá... na imensidão dos prédios oficiais de Brasília. E alinhado. De terno escuro. O jeito de falar, intacto, era o do velho boleiro. Não teve jeito, destoou. Estranho ouvir um político falando com jeito de jogador de futebol. Quem sabe uma mera questão de treino.
Inquirido sobre suas nobres intenções, como sempre costuma acontecer aos deputados, o eterno camisa onze citou as crianças e me fez lembrar do Pelé, que segundo definição do próprio Romário, calado é um poeta. O que devemos esperar? Discursos recheados de gírias, peixe? Ou é tua intenção mudar de estilo? Não creio.
Seja qual for a tática, fique de olho aberto, bem aberto. Há muita coisa em jogo. Muitas crianças, viu? Esse sim é um jogo pra valer. Como você nunca viu. Esqueça o futebol. Futebol não passa de um esporte influente. Olha, poucos são os países deste planeta que poderiam te dar tamanha torcida. E com todos torcendo a favor. Perceba o tamanho do sonho. Da responsa.
O macete é ser vigilante. Por que por mais que a gente deseje - e queira - a marcação aí é frouxa, dá mole, não se faz dura como deveria. E esse é o tipo de coisa que amolece a disposição e a moral dos homens. Digo mais. Você acaba de entrar em um reino onde não faltarão espertos querendo te mostrar os tais atalhos pra ganhar o jogo. Mestres em fazer a correria sem se cansar, entende? Pura tentação.
Peixe, fica de olho porque essa vida no planalto pode te deixar parecido com os outros homens. Coisa que você nunca foi. Quem te viu em campo sabe bem disso. Dos tantos gols que já vi nessa vida é teu um dos que mais me dão prazer em rever. Brasil e Holanda, 1994. Um avanço rápido pela esquerda. Bebeto cruza. A bola vem a meia altura, desenhando uma curva para baixo. Entras em velocidade pelo meio da área. Marcado de perto. De olho na bola. De repente, ela pinga. E você, com um passo de balé, intui o momento exato de tocá-la. Com o bico da chuteira, corpo no ar, a manda pro gol. Domínio absoluto da arte.
Juro que não queria acreditar. Quando o repórter perguntou em quem você iria se espelhar para exercer teu legítimo mandato, por um instante, prendi a respiração. Saíste pela tangente sem deixar um nome sequer. Posso compreender. Não é uma tarefa simples buscar exemplos nesse deserto de ídolos que virou a nossa política. Criteriosamente escolhidos os bem intencionados daí talvez não sejam suficientes para montar um único time.
E mais, Brasília não tem praia. Louvados sejam os recessos. Não esquente, por certo ao redor do Lago Paranoá não faltarão quadras de areia para que possas brincar teu futevôlei. Além disso, a vida, essa sim uma verdadeira caixinha de surpresas, é bondosa, você bem sabe. Portanto, você há de encontrar alguns bons parceiros nessa enorme bancada.
Não esqueça apenas que aqui fora a onda da torcida continua sendo a mesma. O que a gente quer, e precisa, é de alguém que entre pra valer nas divididas. Como disse o artista, a gente quer é ver gol. Não precisa ser de placa. Ô peixe, o que a gente quer é ver gol.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

E por falar em futebol

Um dos segredos do futebol mundo afora pode ter sido o fato de se tratar de uma modalidade que nos permite, ou permitiu, ir muito além do deleite visual e do resultado. Há em torno desse que é tido como o esporte mais popular do planeta toda uma aura teórica, uma discussão infinda que o transforma, também, num divertimento mental. Algo que nem mesmo as mais clássicas provas do esporte tiveram direito.

Talvez o mais correto seja até dizer delírio mental tendo em vista as conversas travadas por aí. O fato é que, claramente, discutir o futebol passou a ser tão prazeroso quanto assisti-lo. E do jeito que as coisas andam não tardará o dia em que a discussão será mais interessante do que o próprio jogo.

Esse raciocínio pode servir de explicação para algo muito comum entre aqueles que têm como ofício interpretar, dissecar o futebol: O fato de que não há opinião que faça o sujeito mudar de ideia sobre o que viu ou pensa que viu. A visão que as pessoas passaram a ter sobre o jogo virou algo tão pessoal, que pouco adianta tentar usar o bom senso para mostrar outras possibilidades.

O que interessa é o que o cara acha que viu e ponto. Cismou que não foi penalti ? Que o lateral do time dele é um perna de pau? Ih! Não haverá teoria, raciocínio ou número capaz de salvá-lo de tal condenação. E ficamos assim, uns tentando convencer os outros do que acreditam ter visto no gramado.

Mas o que me incomoda é que muitas vezes a sensação que tenho é a de que fazer o próprio ponto de vista valer passou a ser uma questão de honra. E está aí um combustível poderoso para discussões idiotas, mal pensadas, mal criadas. Há ainda um outro aspecto que me chama a atenção. No papo, assim como na hora de jogar bola, o sujeito se revela, não tem jeito. Estar com o futebol na ponta da língua escancara a alma do cidadão tanto quanto uma pelada.

Outro detalhe é o interesse das pessoas por opiniões. A cada dia a opinião parece triunfar sobre a notícia. O sujeito abre o jornal e vai logo procurando os colunistas. Não quer se informar, quer o duelo mental com quem escreveu, seja pra concordar ou não. É possível, inclusive, que este seja até o motivo de eu estar tendo a honra da sua leitura neste exato momento.

Pode ter sido sempre assim, não descarto essa possibilidade, mas a minha aposta é a de que este modo de agir cresce a olhos vistos. Na maior parte das vezes a discussão tem como ponto de partida uma opinião dada por alguém e não exatamente uma notícia ou uma jogada. Os lances polêmicos é que embaralham um pouco essa maluquice.

Onde já se viu? Elevamos as presepadas dos juízes ao estrelato, mas não damos o mesmo tratamento a uma bola bem colocada entre as pernas do adversário. Não deixamos que os bons dribles que não se transformaram em gols virem manchetes. Precisamos curar um pouco esse nosso cotidiano ludopédico. Em qualquer campo o excesso de reflexão costuma brigar com aquela atitude mais poética que só pode ser extraída do coração.

Já basta ter de aturar o cada vez mais reforçado time dos devotos da polêmica. Torço para que a gente use bem este ano que está só começando e torço também para que as nossas estrelas, repatriadas ou não, sejam capazes de fazer o jogo muito mais nobre do que a nossa conversa sobre ele. Como diria Nelson Rodrigues, não sei se me faço entender. Será?

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A arte da intuição

Em matéria de futebol há uma coisa que sempre me deixou intrigado.E agora que a temporada chegou ao fim vou aproveitar a deixa pra colocar o assunto em campo. A bola não está rolando mesmo. Os que me conhecem podem ficar até com a impressão de que este é um texto feito em causa própria. Não lhes tiro a razão.

O fato é que sempre percebi entre os profissionais que me cercam uma certa falta de habilidade para adivinhar resultados de jogos. Não falo da capacidade de análise. Conheço figuras que fazem um raio x de um time de futebol com uma profundidade e com um embasamento de arrepiar. Mas na hora de cravar o resultado do jogo a teoria não se comprova.

De minha parte, inclusive, conheço muitos jornalistas que jogam na loteria esportiva, mas não tenho notícia de que algum deles tenha faturado algo. Compreendo que o segredo nesses casos convém, mas duvido que o sujeito iria perder a chance de contar o feito para, secretamente, se deliciar com o fato de ter sido capaz de antever o que iria acontecer nos quatorze jogos listados. Não teria sido uma simples sequência de chutes. Jamais.

Por outro lado, conheço algumas figuras que nada têm a ver com o futebol e que causam assombro com essa capacidade. Conheço um sujeito, por exemplo, que certa vez fez todo mundo rir quando disse que o Flamengo, apesar da vantagem, não iria segurar o América do México em pleno Maracanã. E não é que o Mengo levou um tremendo de um chocolate e os rubro-negros ainda hoje se lembram bem de um tal Cabañas? Os descrentes dirão se tratar de uma obra do acaso. Pois fiquem sabendo que o cara, um engenheiro, antes disso, já tinha acertado umas três ou quatro do mesmo tipo. Onde estava este fatídico salto alto que nenhum dos especialistas que conheço foi capaz de enxergar?

Fico cada vez mais com a impressão de que muita teoria, muita informação, anula o nosso sexto sentido ludopédico. Sei que esse "nosso" será combatido, pois muitos não terão coragem de se irmanar comigo nessa deficiência interpretativa do que estará estampado no placar quando a partida chegar ao fim. Não é de hoje que o time dos humildes tem elenco menos numeroso do que o time dos metidos a visionários do score.

Vale dizer também que o que me levou a escolher este tema foi uma matéria que li dias atrás na internet. Ela dizia que os capitães dos times brasileiros da primeira divisão, como videntes, tinham se revelado ótimos jogadores. Dos vinte atletas ouvidos no início do Campeonato nenhum deles foi capaz de apontar o Fluminense como campeão. E apenas um, o zagueiro William do Corinthians, apontou o Jonas, do Grêmio, como artilheiro do torneio.

Tá certo que nesse caso o grau de dificuldade é muito maior. Mas se trata de gente que vive o futebol, de gente que conhece bem os seus meandros, e que mesmo assim parece não ter sido capaz nem ter de desconfiar do que o futebol reservava. É por essas e outras que eu acredito que, muitas vezes, só a intuição pura decifra o jogo. Vai apostar?

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A bola está com os astros

Foi antes da penúltima rodada. Ele passou por mim, quando todo mundo já dava como certo que o Palmeiras não faria o menor esforço pra complicar a vida do Flu e, com o olhar limpo de quem se ampara nos astros, fez a profecia de que o Felipão era de escorpião, tipo de gente que leva a moral em conta. Disfarçadamente garantia ali que o duelo não seria a moleza que muitos previam.

Alguns dirão que está aí um belo exemplo de que até os astros podem ser driblados. Ou não? Estaria mesmo traçado o nosso destino? E aquele chute em curva do Dinei? Seria prova disso, ou prova de que essa coisa de entregar o jogo é história pra boi dormir? Cada um com sua crença. O fato é que o papo me deixou curioso pra saber o que o cara podia tirar dos astros.

O cara é o Silviano, companheiro de redação, torcedor do São Paulo e místico por natureza. Não resisti. Resolvi convidar o sujeito para fazer uma prévia leitura da derradeira rodada do Brasileirão. Escrevi num pedaço de papel o nome e a data de nascimento de alguns personagens. Sugeri, não uma previsão, mas um perfil rápido. E não é que o sujeito topou?

Voltou no dia seguinte com o papel todo rabiscado. Ao me ver, abriu o sorriso e avisou que o Muricy estava com tudo. Sagitário e cabra - no horóscopo chinês - o técnico do Fluminense estaria vivendo um ano de dádivas, ainda que confusas. De início cravou que seria o campeão, depois pensou melhor e disse que o escorpião (Mancini ) é o inferno astral do sagitário ( Muricy). Completou dizendo que o treinador do tricolor das laranjeiras poderá num futuro breve acabar na seleção. Foi assim que ele interpretou a possibilidade de novos e proveitosos contatos ditados pela astrologia.

Sobre o duelo entre Grêmio e Botafogo vislumbrou que o quarto lugar do Brasileirão ficará com o virginiano Renato Gaúcho. Não sem antes avisar que o cara é tigre no horóscopo chinês. E de acordo com o nosso astrólogo convocado, o capricorniano Joel Santana, rato no chinês, é um cara muito sensível e, apesar de viver um ano bom, será afetado por um ambiente que não é dos melhores.

Sobre Vagner Mancini e Arthur Neto, técnicos do Guarani e do Goiás, fez questão de dizer que os dois estão sob muita pressão. Mas traduziu o sinal de progresso no lado técnico da profissão como uma possibilidade de triunfo goiano na Sulamericana. Será?

Tite? Claro! Classificou o treinador corintiano, que é boi no chinês, como um visionário, que atravessará um período difícil mas será capaz de perseverar.

Aproveitei também pra pedir alguma luz sobre a partida que irá revelar o último rebaixado da série A, Vitória e Atlético Goianiense. A sentença foi de que Antonio Lopes, técnico do time baiano, tem a qualidade de saber esperar e não ficar nervoso nunca. Mas como se trata de um duelo com Renê Simões, ou seja, um duelo entre dois dragões o jogo terminará empatado, o que salvará os goianos.

Agora, preparem-se, porque a notícia mais bombástica de todas ele deixou pro fim: Washington voltará a marcar! Diz ele que os astros reservam um lucro pro atacante do Flu no final do ano. E esse lucro, segundo o místico, seria o reencontro com alegria do gol. Acredite se quiser.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Pontos (e corações) corridos

Evitar um campeão de ocasião, neutralizar a alta dose de surpresa que o futebol traz no ventre. Não vamos nos iludir, esses foram alguns, mas estão longe de serem os únicos interesses que fizeram a cartolagem aceitar a fórmula de disputa que por hora decide o nosso principal campeonato nacional.

Durante muito tempo os entendidos no assunto clamaram por ela. Anunciada como a mais justa, a que premia a regularidade, a que enaltece o planejamento. A fórmula em questão, ao ser eleita, foi recebida com honras. Demos adeus a era dos mata-matas de nariz um tanto empinado, com o ar sisudo de quem carrega consigo a certeza de fazer jus a alcunha de moderno.

Mas agora que os interessados em outros detalhes do jogo já não têm vergonha de confessar sua saudade dos tempos que ficaram pra trás e o nosso jeito original de encarar as coisas se manifestou, os pontos corridos parecem despidos de qualquer nobreza, de algo que o faça melhor que os outros. Convenhamos, não tardou para que o nosso jeitinho brasileiro desse um colorido todo especial a esse tipo de disputa.

O Campeonato Brasileiro de 2010 representa, expressa, o amadurecimento entre nós desse jeito de decretar um campeão. Nele torcemos diferente. Os sãopaulinos, por exemplo, descobriram que nem só a vitória do próprio time é capaz de trazer alegria. E no auge da descoberta nem tiveram receio de externar essa euforia, esse entusiasmo pelo triunfo do outro, o que deixou o presidente Lula, digamos, insatisfeito. E não é tudo.

No domingo que vem os são paulinos ainda terão a possibilidade de tirar uma casquinha ao ver o Palmeiras executar sua missão diante do líder Fluminense. Mas não se deixem enganar. Nada disso brota da bendita fórmula eleita. Brota é da gente esse jeito perverso e gostoso de torcer.

Carregamos as mesmas mazelas e vícios, seja diante dos pontos corridos ou dos mata-matas. A cada campeonato ficamos mais na cara do gol da nossa personalidade. A cada campeonato nos revelamos mais a nós mesmos. No fundo todo torcedor sabe que essa pretensão da fórmula exata não existe. O futebol não a permite.

Azar de quem um dia acreditou que seria possível neutralizar uma fatia qualquer que fosse dessa capacidade de surpreender que faz parte do bate-bola. Restam duas rodadas. Mas quem será capaz de prever tudo o que elas reservam? Aí está a graça.

Senhores, enquanto o futebol respira o improvável nos ronda. Creiam. Nesta hora não há um só corintiano convencido de que o centenário foi um ano que passou sem título. E também não há nesse mundo torcedor do Fluminense que secretamente não leve em conta essa veia fatal do jogo.

A possibilidade do triunfo é que nos acelera coração. O título só o inunda de alegria, euforia. São coisas diferentes. Emoções outras. Poeticamente falando, nos pontos corridos os times aceitam o critério de construir uma obra. No mata-mata também, mas aceitam no fim de tudo colocá-la em jogo. Aceitam provocar a sorte, se expor às surpresas das quais tratamos aqui. Mas a fórmula que nos revira e nos revela como torcida é a mesma sempre.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

É vencer ou vencer

Ainda que o encontro no início da semana entre o governador do Estado, o prefeito de São Paulo e o todo-poderoso Ricardo Teixeira não tenha revelado de onde virão os milhões que farão a capacidade do futuro estádio do Corinthians saltar dos atuais 47 mil lugares para algum número além dos 60 mil, a minha impressão é a de que será muito mais difícil e trabalhoso o Timão ganhar o Campeonato Brasileiro do que faturar a abertura da próxima Copa do Mundo.

Bastaria uma ou outra conquista para o alvinegro salvar este tão cultuado ano centenário. No caso das duas virarem realidade aí a alma corintiana estará lavada. Uma alegria tão grande que promete fazer os fiéis do Parque São Jorge esquecerem, ao menos por enquanto, essa ausência sofrida de uma conquista continental libertadora.

Em campo, como se não bastassem os adversários diretos, o Corinthians ainda terá que lidar com a desconfortável sensação de ver o seu destino sendo decidido pelos pés de alguns dos maiores rivais. Isso sem falar nas coisas de ar sobrenatural que vez ou outra garantem ao futebol desfechos inesperados.

Logo, muito mais controlada parece andar a coisa no campo político onde o principal adversário tem toda a pinta de já ter sido batido. Além do mais, se Ricardo Teixeira, presidente da CBF e do Comitê Organizador Local há tempos vestiu a camisa do Corinthians, quem será verdadeiramente capaz de endurecer o jogo? Lula? Não creio.

Pra quem não lembra, o anúncio oficial do futuro estádio corintiano foi feito na véspera do centenário do clube. Notícia de precisão cirúrgica. E quando Lula esteve lá pra ser homenageado, muita gente interpretou o silêncio dele sobre o novo estádio alvinegro como uma desaprovação sobre o rumo que a Copa de 2014 na cidade de São Paulo tomava.

Nesse jogo de cartas marcadas o momento ideal para divididas costuma passar rápido, é breve. E agora que o estádio corintiano virou o representante do Estado para a próxima Copa os descontentes têm pouco a fazer.

Muita gente estranhou quando Andrés Sanchez foi anunciado chefe da delegação brasileira na Copa do Mundo da África. Hoje, só estando muito desatento pra não perceber que essa "convocação" deu frutos. Teixeira tinha mesmo um plano pra ele. Não aceitar isso seria defender a versão de que tudo foi uma conquista de Andrés, que com habilidade descomunal convenceu o presidente da CBF a fazer dele o homem que daria um estádio ao Corinthians. Coisa que já frequentou a agenda de muita gente graúda.

Qual será o preço disso tudo? Isso é que realmente deve importar. Posso estar enganado? Posso. Mas estou convicto de que um dia teremos a resposta. Toda a verdade deixa pistas.
Que a imensa nação corintiana desfrute de toda a alegria possível.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Doping! Doping?

Nos últimos tempos os casos de doping têm sido acompanhados de intimidades. Esquisito. Que dizer do nadador francês Fréderick Bousquet, que depois de ter sido flagrado no exame revelou que há oito anos tratava de hemorróidas? Se defendeu dizendo que usava um remédio que não continha o estimulante heptaminol, mas que por conta de uma crise pouco antes de um torneio em seu país entrou na farmácia, comprou uma outra medicação e a usou sem ler a bula.

Há dramas que provocam risos. Querem outro exemplo? O do velocista norte-americano, La Shaw Merritt, medalha de ouro nos quatrocentos metros na ultima olimpíada, que irá amargar uma suspensão muito maior que a de dois meses imposta ao nadador francês. Merritt levou um gancho de quase dois anos. E por que? Segundo ele porque andou ingerindo um remédio para aumentar o pênis. Um remédio que prometia um aumento "natural" do dito cujo de até vinte e sete por cento. Pelo visto, nem todos os músculos de Merritt foram capazes de o levar até onde ele pretendia.

Esta semana até a vitória da Alemanha sobre a lendária Hungria de Puskas na Copa de 54 foi posta em dúvida, depois que um estudo revelou que vários jogadores alemães se doparam com injeções de pervitina, uma metanfetamina dopante. Segundo a pesquisa eles acreditavam que se tratava de vitamina C. Vai saber!

Mas a cena mais explícita de doping eu testemunhei dia desses. E essa ninguém me contou. Eu vi. A pelada corria solta na areia da praia. Próximo de uma das traves um verdadeiro amontoado de jogadores me chamou a atenção. Parei pra ver. Estavam todos ali na ânsia de ter nos pés uma bola que poderia vir da esquerda. Exemplo puro de futebol passional, com todo mundo achando que podia resolver a parada.

Restavam do outro lado do campo, claro, o goleiro do time que não estava sendo atacado e um zagueiro, que vestia uma camisa três azul celeste. Um senhor de bigode imponente e muitos cabelos brancos a sugerir respeito.

Até achei normal quando ele olhou para a barraquinha - que se encontrava pouco depois da linha lateral - e fez um sinal com as mãos. Imaginei, de imediato, que tinha acusado o golpe do calor e pedido uma garrafa de água. Segui, distraído, com os olhos na contenda e quase não acreditei quando o cara da barraca se aproximou com um copo nas mãos. Água? Que nada! Ele tinha mandado era preparar uma batida de maracujá.

Mediu os movimentos da rapaziada atrás da bola, o bolo perto da área adversária estava formado mais uma vez. Enfim, o momento era perfeito para o bote. Apertou o passo. Tomou o copo de plástico das mãos do barraqueiro, dispensou o canudinho e mandou pra dentro um gole robusto. Como percebeu que ainda tinha mais tempo. Tornou a apreciar a bebida. E não me venham falar em isotônicos. Voltou pra posição mais feliz do que nunca.

Não vou perder tempo esmiuçando a atuação dele depois disso, porque a essa altura vocês poderão achar que uma possível falta de classe para tratar a bola poderia ser resultado dessa prática, digamos, liberal. Puro doping? Pode até ser. Mas um doping charmoso. Sem a intenção de vencer ninguém. Pelo contrário, talvez o descompromissado zagueiro saiba muito bem que essa prática pode deixá-lo mais suscetível a derrota. Mas de que vale uma vitória sem prazer? Que vida boa essa do zagueirão lá da praia. Sem ter que dar satisfação pra ninguém. Não é?

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Da vida dos Reis

Da vida dos Reis costuma-se exaltar os grandes feitos, o conforto, as facilidades da nobreza, as muitas mordomias. Tudo normal, quando o mundo, de tanto girar, fez desses nobres personagens fáceis. Que Reis nos sobraram? O Juan Carlos, da Espanha?

O que não se fala é que ao longo da história grande parte dos Reis não teve vida fácil. Morriam cedo. Muitos passaram a maior parte da vida em meio a batalhas ferozes, dormindo em camas de campanha, cercado de homens e de uma realidade imunda. Assim, e só assim, conseguiam reafirmar a condição de líderes e manter a honra.

Metaforicamente com o Rei do Futebol não foi diferente. Lembro que dez anos atrás, quando completava sessenta anos, Pelé concedeu uma entrevista a uma rádio. Depois de cumprir o compromisso por lá, se entregou a um bate-papo em clima amistoso, como sempre, com os jornalistas que naquele dia tinham a missão de ouvi-lo e, mais importante, tinham a informação de onde ele estaria.

Recordo também que no final do encontro, quando o pessoal já dispersava, eu, e se não me engano, o Luciano Faccioli, estendemos um pouco a conversa e tomamos a liberdade de brincar com o fato de sua majestade não ter um único fio de cabelo branco. Usaria o rei uma tintura? Nada como estar diante de um Rei "diferente".

Desta vez, perto de completar setenta anos, Pelé decidiu não falar. Quantas perguntas sobre o tema fariam sentido? Sinto, porque por outro lado, a idade costuma dar aos homens uma lucidez impressionante. Além do mais, uma chance a menos de falar com o Rei será sempre uma chance a menos.

Mas queria dizer que parte dessa lucidez percebi na entrevista que Pelé concedeu na última sexta durante o lançamento de um programa educacional-esportivo. Disse, por exemplo, que chegou a dizer pra Neymar que " o dom do futebol a gente ganhou de Deus. Mas o resto é a gente que tem que cuidar. A gente tem que cuidar da condição física".

Como li certa vez, se a gente pudesse aprender com a cabeça dos outros deixaria de dar várias cabeçadas nessa vida. Mas já vivi o suficiente para perceber que, entre aqueles que viram essa lenda dos gramados de perto, a condição física dele, inata ou não, foi um fator que o colocou na frente de todos os outros. Portanto, fica aí a dica, que serve até para os cabeças-de-bagre irem um pouco além.

Acho até que isso pode explicar aquela ausência de cabelos brancos nessa divindade. Há quem diga ainda que Pelé foi muito ajudado pelo fato de ter brilhado em uma época em que a televisão já se fazia presente. Não entro nessa. Se pouco vi Pelé, imagina os que vieram antes dele.

Respeito os homens pela história que deixam. Não é fácil construí-las. Pelé, quem sabe, desta vez, ciente disso decidiu dar um drible nessa invenção maluca que leva tudo de bom e de ruim para dentro da nossa casa. Pobre dos que não sabem usá-la com moderação. O que sei do Rei é que poucas vezes na vida encontrei alguém com tamanha capacidade para lidar com a fama.

Um dia, quando o Santos inaugurava o CT ali perto da Santa Casa de Santos, depois de perceber que o "homem" iria chegar e não havia uma bola no lugar. Sim, o centro de treinamento estava sendo erguido. Perto do desespero, implorei a um guri que se amontoava entre os fotógrafos e cinegrafistas para que arrumasse uma bola. O menino deu conta do recado.

Quando o Rei chegou, olhou aquela multidão de sedentos por imagens e declarações, mirou o sol, e decretou:

_ Quem está com câmeras vai pra lá. A luz tá melhor pra lá!

Ordenou que todos se posicionassem atrás de um dos gols. E com a bola debaixo de um dos braços caminhou lentamente até a linha imaginária do meio de campo, que também não existia. Colocou a bola no chão e veio com ela dominada, narrando sua trajetória até o chute derradeiro. Finalizou dizendo:

_ Lá vai Pelé! É gol!!!

Foi ao fundo da rede, pegou a bola e saiu dizendo:

_ O primeiro gol aqui nesse lugar foi eu que fiz! Isso ninguém vai tirar!

E eu nunca mais esqueci como era diferente de tudo ver Pelé fazer um gol.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Técnico ganha jogo?

Quantas pessoas você conhece que têm um treinador como ídolo? Será que eles são tão importantes assim? Veja, não se trata de diminuir a importância de figuras como Telê Santana e outros. Faço as perguntas tentando dividir com vocês uma reflexão sobre o frenesi que envolveu a chegada de Carpeginai ao São Paulo e, mais recentemente, a saída de Adilson Batista do time do Corinthians.

Não vou correr do lugar comum, até porque se a pergunta soa banal, sua resposta há tempos provoca profundas reflexões em botecos, mesas redondas e afins. Afinal, técnico ganha jogo? Não! Como ouvi certa vez de um pragmático que tinha o cotovelo apoiado no balcão. "Técnico só ganharia jogo se entrasse em campo. Como não entra, não ganha!". Vai discordar?

O fato é que ganhando, ou não, a importância deles é incontestável. Só sendo importante pra receber quase, ou meio, ou mais de um milhão de reais por mês. Não quero com isso dizer que não merecem cada centavo que faturam, mas quero apontar o que considero a grande virtude de um treinador.

Diria que um grande treinador é aquele que sabe como funciona o universo da bola e, principalmente, como os homens lidam e se comportam quando estão dentro dele. Isso explica porque nem sempre grandes jogadores se tornam grandes treinadores e porque pernas-de-pau nacionalmente conhecidos acabam sendo vistos como grandes estrategistas.

Há uma tendência, que me parece cada vez mais forte, de reduzir toda a complexidade do futebol a esquemas táticos. Na última sexta-feira, durante a coletiva que concedia a um grupo considerável de jornalistas, o treinador do São Paulo, Paulo Cesar Carpegiani, enquanto respondia a uma dessas questões táticas, não mediu palavras. Foi enfático ao avisar o autor da pergunta que não era "apegado a esquemas táticos, essas coisas" e que para ele mais importante que isso era o posicionamento do jogador em campo. Mas ninguém se interessou em fazer daquilo uma oportunidade pra mudar o rumo da prosa e o papo seguiu o curso de sempre.

No caso envolvendo Adilson Batista, a questão é outra. Por mais que tentem sinalizar que o problema passava pelo lado inventivo do treinador, muita coisa me faz crer que questões distantes dos esquemas e das teorias táticas levaram Adilson a jogar a toalha. Os desfalques? A necessidade de improvisar? Sim, tudo isso fez parte da receita que o fez durar pouco mais de dois meses no comando do time.

Mas, na minha modesta opinião, foram as questões humanas que provocaram a saída. Adilson se recusou a conversar com a torcida, por exemplo. Dizem que silenciosamente respondeu essa intimidação com uma ousadia disfarçada, colocando em campo todos os jogadores condenados pela voz que dizia falar em nome dos que frequentam a arquibancada. Técnico ganha jogo? Não. Mas na minha opinião valem mais aqueles que uma vez perdido o jogo fazem questão de salvar a honra.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Que jogo é esse?

Nestes tempos de jogo pesado a semana começou com um baita contra-ataque da imprensa, cansada das entradas duras desferidas pelo time que está ganhando. E ganhando bem. Vocês viram? Sabe como é, quando a partida esquenta sempre aparecem aqueles que acreditam que a história de ganhar no grito pode fazer algum sentido. Quase todo time tem esse tipo de sujeito, ou alguém chegado a tramas, a ardis.

Em todo o caso vale destacar que o que pesou mesmo para deixar o ambiente tenso foi a já conhecida rivalidade histórica. Coisa de muitos anos. Trata-se de um clássico mundial. E sempre com um dos lados batendo mais, disso não podemos esquecer. Prestem atenção. Falo de um jogo pra valer, desses de acabar com a ilusão, desses que podem nos imputar derrotas irreparáveis.

Pudera todo o peso da vida ser o da torcida que vê seu time cair, pudera. A vida não é feita de gols. Gols são apenas enfeites desse nosso cotidiano duro. A vida é mais, e o dia da grande decisão se aproxima. Esquentar o clima, nessas horas, sempre vai interessar a alguém. Já sinto no ar aquele burburinho que costuma incendiar as grandes pelejas. Sei que tremularão as bandeiras, que gritarão os mais entusiasmados, os mais fanáticos.

O dia está aí. No domingo, de preferência antes do futebol, terás que escalar um time, meu amigo. Dizer quais são os que você levaria a campo. Pra mim, tarefa das mais difíceis. E pensar que ainda tem técnico por aí reclamando do elenco que tem pra trabalhar. Há tempos olho a lista dos relacionados e nenhuma escalação que imagino me traz a sensação de dar conta do recado.

Por hora, cá estou, com essas seis camisas na mão, imaginando quais seriam os melhores para cada posição, sem saber direito a quem entregá-las. Mais hei de usar o tempo que me resta para pensar numa boa maneira de atuar, numa boa tática. Como se não bastasse tão exigente tarefa, ainda tenho aqui na garganta aquele empate por cinco a cinco.

Como que empate? Aquele em que o juiz não soube o que fazer, não decretou prorrogação, nem o gol de ouro, muito menos uma disputa por penaltis. Nada! Não houve ganhador em tão solene confronto. Ficamos assim, sedentos de uma decisão suprema, com esse intrigante placar rondando nossas cabeças. Com essa possibilidade de vitória em aberto, nos deixando ansiosos, nos frustrando. Talvez não valha a pena esquentar a cabeça. Com o que vale?

É só mais um caso de regulamento mal redigido. Ou mais um descaso. Deveriam ter pensado em chamar o cara que fez o regulamento da Série D. Talvez estranhássemos a proposta, mas ficar sem saber quem ganhou, isso jamais. Vamos pensar que se tratou, ao menos, de um marcador muito sugestivo. Afinal, qual seria o seu placar para um duelo entre fichas sujas e fichas limpas? Empate? É provável!

O futebol será sempre essa eterna caixinha de surpresas, enquanto nessa vida absurda que se desenrola além das quatro linhas nada mais há de nos surpreender. O jogo é duro, sempre foi, quem é do time sabe.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Uma imagem vale mesmo mais do que mil palavras



















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O secretário-geral da FIFA, Jérome Valcke, em sua recente visita ao país afirmou:
" Posso dizer que a FIFA está contente com o trabalho". Precisava?
A foto é de Luiz Mello/O Dia
Na outra imagem Lula tinha acabado de assinar a MP que cria a APO
(Autoridade Pública Olímpica).










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Quem entende o futebol ?

Pobre de quem pensa ser capaz de decifrar o futebol. Vai por mim. Outro dia, nem bem o sol tinha raiado, um sujeito na padaria, ao me ver saboreando um café com leite - ponto de partida pra premeditar uma maneira de encarar o batente - mandou na lata, sem nem mesmo ter o zelo de fazer um singelo "bom dia" de prefácio, nada disso, baixou na área incorporando o melhor estilo beque-de-fazenda e cravou:

_ Como é que você explica o São Paulo, caindo aos pedaços, em crise, empatar com o Fluminense, a sensação do Campeonato?

Acostumado com as armadilhas impostas pelo ofício, contido, respondi a traiçoeira pergunta com um sorriso discreto e, acima de tudo, silencioso. Era cedo demais pra aceitar um desafio teórico dessa magnitude. Mas a tática falhou. O sorriso e o silêncio não bastaram. Apelei, então, para a simplicidade e, colocando na frase um tom de despedida, sugeri:

_ O São Paulo jogou bem e o Fluminense estava longe de ser aquele.

Pra meu alívio o inquisidor matutino se deu por satisfeito e seguiu seu caminho. Hoje, algumas rodadas depois, fico eu aqui tentando adivinhar o que ele anda pensando sobre o time armado por Muricy, principalmente, depois da derrota para o Guarani. Ainda bem que ele não me pediu para decifrar a goleada do Atlético Goianiense, então lanterna, sobre o Palmeiras de Felipão, nem para lhe dizer a razão que faz o Atlético Mineiro de Diego Souza, Ricardinho e Tardelli, patinar nas mãos de Luxemburgo. Ou ainda, esclarecer os tropeços do Barcelona e do Milan diante de adversários modestos muito além das nossas fronteiras. A zebra é uma possibilidade mundial, senhores.

E não é que esta semana nem bem tinha começado e eu me vi, de novo, diante de uma outra "casca de banana" ludopédica? Com o Corinthians na cola do Flu, a charada da vez era a seguinte: Qual deles é o melhor?

Jucilei, volante do timão, já faz algum tempo, ajudou a ecoar o debate ao dizer que o melhor elenco estava no Parque São Jorge. Nessa também não caio. Falar em elenco é amplo demais. Topo a parada, mas me dou o direito de não tornar esse duelo muito pessoal.

No gol, Julio Cesar pode não ter a experiência de Fernando Henrique, mas tem dado conta do recado. Vejo aí certa igualdade. O mesmo serve para a defesa. Willian e Chicão têm entrosamento e maturidade, mas Gum tem mostrado ser um zagueiro acima da média. Se eu fosse montar um time e tivesse que escolher os laterais de um ou de outro, ficaria com os do Corinthians.

No meio de campo a briga é boa. Isso quando se trata da parte criativa. Deco e Conca desequilibram. Já quando se trata de volantes fico com os comandados por Adilson Batista.

No ataque não tem jeito, o time das Laranjeiras leva ampla vantagem. Emerson é, ou foi (quem sabe?) um dos segredos do sucesso do tricolor carioca. Fred, em perfeitas condições de jogo, é respeitável. Assim como é impossível negar em Washington a vocação para o gol.

Mas é bom lembrar que a briga pelo título brasileiro deste ano, a meu ver, está muito além. Não descarto o Cruzeiro, nem mesmo o Inter. Duvido um tanto da capacidade competitiva do Botafogo.

Mas não sou adivinho, nem alimento a arrogância de achar que é possível saber tanto de futebol a ponto de antecipar surpresas. Fosse assim naquele dia, na padaria, estaria com a resposta na ponta da língua.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Torcer é um tipo de esperança

Eu sei que a maioria sempre acha que por trás de cada palavra dita ou escrita por um jornalista esportivo está a paixão dele por um clube. Mas não temo tais acusações e, por isso, voltarei ao assunto. Faço questão de deixar aqui registrada a minha torcida.

Desde o momento em que o presidente santista anunciou que Neymar ficaria torço para que o projeto dê certo. Por puro amor ao futebol. Nada a ver com clubes, distintivos, história pessoal. Penso simplesmente no bem que o sucesso da empreitada poderá nos fazer.

Trata-se do lance mais a favor do nosso futebol desde que o Palmeiras em meados de 2009, inflado pela possibilidade de voltar a ser campeão brasileiro, anunciou que não venderia nem Diego Souza, nem Cleiton Xavier.

O fato é que o tempo passou e os acontecimentos no Parque Antártica fizeram muita gente questionar a atitude. O time alviverde deixou escapar o título e, para trauma geral, até a vaga na Libertadores. A torcida bufou, com razão. O elenco acusou o golpe. A vida seguiu. A prometida volta por cima demorou e a paciência da torcida chegou ao fim.

Diego Souza perdeu a classe, foi afastado, e não é demais dizer que precisou sair pela porta dos fundos nos idos do último mês de junho. Cleiton Xavier, que a essa altura estava longe de ser visto com o respeito e a admiração de antes, acabou vendido para o Metalist, da Ucrânia, pouco mais de duas semanas depois. A dupla, outrora vista como a grande arma do time, acabou numa gelada. O caminho para trazer de volta a euforia e a fé no futuro tem custado muito caro ao Palmeiras.

É por essas e outras que digo que é preciso torcer para que o projeto santista tenha um desdobramento favorável. Caso a coisa não saia como o esperado as acusações de que o Santos rasgou dinheiro serão inevitáveis. E pior, terá ido por água abaixo o sonho de um dia poder lutar contra os milhões disparados constantemente pelas super potências econômicas do futebol.

Sim, o presidente do Clube do 13, Fabio Koff, ligou para elogiar o mandatário santista. Até o Lula, na segunda, deu um jeito de se aproximar e tirar uma casquinha dessa boa imagem tão corajosamente construída. Louvável. Mas pouco restará se o projeto não vingar, se Neymar não for negociado por números que justifiquem tanto sonho, ou se deixar de ser em campo esse menino audacioso, de golas levantadas, como que a avisar que ali está um talento ímpar.

Agora, se Neymar continuar sendo esse que se viu no gramado da Vila no último domingo, à vontade com a sua missão, se os projetos de marketing tiverem suas cifras aumentadas, se o lucro for maior na hora da partida, se o Santos resgatar um pouco daquela imagem de time que um dia perambulou pelo planeta se exibindo, aí não vai faltar quem queira copiar a fórmula.

E, nós, amantes do futebol, com nossas preferências seja lá por que clube for, teremos muito a comemorar. Eu disse, eu disse, torcer é um tipo de esperança.

* Artigo escrito para o jornal " A Tribuna", Santos

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A nossa moeda

Desde que a seleção brasileira recheada de juventude brilhou as páginas dos cadernos de esporte amanhecem ainda mais cheias de cifras retumbantes. Milhões de euros têm sido oferecidos. Nem bem o gramado do bilionário estádio de Nova Jérsey tinha sido colocado às escuras e o quase anônimo zagueiro David Luiz fazia o Chelsea se dispor a tirar dos cofres vinte e sete desses milhões estrangeiros que andam voando por aí.

Tamanho é o desejo de consumo do time de Stamford Bridge que o Santos ameaçou se refugiar na mediação da FIFA. David Luiz ainda não foi, mas a esquadra inglesa do russo Abramovich, cuja trajetória parece saída de um filme holywoodiano sobre mafiosos - subiu a proposta para trinta e cinco milhões, isso depois de torrar outros vinte e dois milhões de euros e levar o "nosso" Ramires.

Os números sugerem que essas transações alimentam um mercado saudável. Pura ilusão! Os clubes espanhóis estão falidos, os clubes ingleses passam de mão em mão, o Campeonato Italiano exibe um módico resquício de glamour. Mas o futebol é sedutor e, mesmo assim, atrai a todo instante um novo bilionário para o jogo.

Olhe pra nós. Sei que não será agradável admitir. A terra brasilis há tempos virou uma espécie de escolinha onde os garotos mais talentosos conquistam o direito de ir buscar fama e fortuna nos "times de cima", leia-se hemisfério norte. Pra sobreviver precisamos vender tantos jogadores por ano. É provável que você já tenha ouvido a frase anterior sair da boca do cartola-mo do seu time. Falam na sobrevivência do futebol mas estão preocupados mesmo é em manter suas benesses. O preço dessa manutenção é a brevidade do seu prazer.

Sabe aquele jogador que você tem em alta conta, aquele que fez a diferença, aquele que te encheu de orgulho durante a temporada ? Aquele que você sempre lembrava na hora de tirar um sarro com os amigos? É justamente ele que seu diretor e seu presidente, cercado por parceiros e agentes, decidirão vender em jantares e encontros regados a tudo que existe do bom e do melhor. Será com ele que os tais irão pagar a conta.

Treinadores com salários astronômicos, craques rodados repatriados como artigos de luxo, tudo isso não passa de um esquema para manter a roda viva. Dela sairá o argumento para deixar tudo mais ou menos como está.

Depois de ter sido informado de que o Palmeiras foi ao banco pedir empréstimo e deu como garantia suas cotas de transmissão do Campeonato Paulista dos próximos anos, acabo de saber que o São Paulo - o time "diferente" do Morumbi - trilhou o mesmo caminho e entregou como garantia aos banqueiros, sempre solícitos, os direitos de TV dos próximos quatro estaduais.

Você conseguiria ser feliz sabendo que suas contas estão cada dia piores, que você anda gastando mais do que ganha? Pois é! Mas os homens do futebol não estão nem aí. A bancarrota nunca lhes foi uma ameaça. Não há código civil ou estatuto que os ponha contra a parede. Seus enormes Centros de Treinamentos construidos em áreas doadas estão isentos de IPTU, não faltam influentes dispostos a ajudar e, além do mais, é sempre possível tramar um refinanciamento, bolar uma timemania.

O talento dos nossos jovens é a moeda que eles têm nas mãos. Moeda que dá a eles a certeza de que a bola e as dívidas continuarão rolando.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

A Pátria de técnico novo

Relembre aí os bate-papos que você travou nos últimos dias. As conversas no botequim, no banco,na padaria. Fiquei com a nítida impressão de que a estratégia atabalhoada - e arrogante - da CBF para escolher o novo treinador da seleção brasileira conseguiu o improvável, ou melhor, o indesejável.

A condução do negócio transformou o "não" de Muricy Ramalho em algo maior e mais saboroso pra ser discutido do que o "sim" de Mano Menezes. Pelo jeito o assunto foi ouvido até no silêncio das igrejas, entre uma reza e outra.

Você pode pensar o que quiser sobre esses fatos, partilhar da opinião que me parece da maioria, e achar que o Muricy deixou escapar uma chance de ouro, que não teve a noção exata da oportunidade que se apresentava. Mas é preciso dar ao fiel das Laranjeiras, Muricy Ramalho, o direito de cuidar da própria vida. E mais, optar por não conviver com o estilo de Ricardo Teixeira deixa no ar a possibilidade de uma certa sabedoria.

Enfim, mesmo sem aceitar a missão o treinador do Fluminense pôde sentir o gostinho do cargo, afinal, acordou no dia seguinte com o país discutindo uma decisão que era só dele. Dias depois a internet ainda navegava no mar da repercussão.

Na já tardia segunda-feira Zagallo disse que Muricy errou: "O Fluminense tinha que ficar em segundo plano. Em primeiro sempre vem a seleção, o seu país." Com todo o respeito Velho Lobo, por favor, Dunga se foi, viramos a página, vamos aproveitar a oportunidade para deixar de lado essa dose extrema de pátria quando o assunto é futebol. Até porque a pátria também tem suas obrigações, e pátria que se preza não deixa, jamais, seu torcedor sem segurança, saúde, educação e tantas outras coisas. Essa sim a mais verdadeira falta de amor à camisa.

E se o Muricy surpreendeu ao fazer questão de honrar a palavra dada, coisa rara neste nosso país farto de condutas deploráveis, o ex-comandante corintiano tem sido reconhecido não só pelo trabalho técnico, mas pelo comportamento franco, pela transparência. Neste ponto acredito que estamos, então, diante de um empate. Mas também não resta dúvida de que a convocação para o amistoso contra os Estados Unidos foi o primeiro lance de um treinador que saiu em desvantagem. E foi um bom lance. Mais do que nunca Mano tem nas mãos a tarefa de virar o jogo.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Em nome da bola

O assunto ficou pingando na área, vocês sabem. De minha parte, penso que a bola deveria ser inatacável. Vê-la na condição de ré me causa certo constrangimento. Tão redonda e desafiadora. Ainda mais quando se trata dessas que têm os gomos cuidadosamente unidos para servir a nata do esporte bretão.

Como se não bastasse maltratá-la com os pés, agora deram para ofendê-la, deram para difamá-la. Sabe-se lá com que interesses. Por pior que seja, a difamada Jabulani deve ter lá suas qualidades, cuidadosamente moldadas em laboratórios de alta tecnologia e última geração.

Pensando bem, e levando em conta a qualidade técnica que temos visto por aí, faz muito sentido que as estrelas, de repente, se vejam ameaçadas por ela. Vou além. Traiçoeira ou não, será a mesma para todos. A bola tem espírito nobre, jamais deixaria alguém em desvantagem.

Estranhar a bola, é quase do jogo. Recordo que quando menino muitas vezes na hora da pelada escolher a bola era motivo de briga. Se fosse jogo contra o time de outra rua, aí nem se fala. A coitada recebia todo tipo de insulto. Era acusada de estar velha, murcha, dura, pingando demais, de menos. Em geral, era o time que estava em casa que decidia qual delas iria rolar. Todo mundo sempre prefere jogar com a bola que está acostumado.

Falando nisso, tempos atrás tive que me desfazer de duas bolas. Uma de vôlei e uma de futebol. Sei que pode soar ridículo, mas não foi fácil. Depois de ter me divertido tanto com elas, me sentia como se estivesse tramando a pior das traições. De tanto adiar o momento encontrei um paliativo: fotografá-las! Seria uma maneira de guardá-las além da memória. E assim o fiz. Ao lembrar de tal fato, neste instante, é inevitável pensar nos pés e mãos de quem terão ido parar. Será que ainda fazem a alegria de alguém? Basta de reminiscências.

A bola, como eu dizia senhores, entre diversas injúrias, foi acusada de parecer ter sido "comprada em supermercado". Pois quando eu era moleque comprei e ganhei muita bola " de supermercado". E elas me deram muito alegria. Como toda a galera da rua, eu não nutria muita simpatia pelas que eram leves demais. Mas não as desprezava, é importante que se diga.

Gostávamos mesmo de uma um pouco mais pesada e resistente, e ela tinha nome: dente-de-leite.Era de plástico, sim, e vendida em supermercado. Toda branca, imitava o desenho clássico das bolas de couro, com os gomos em hexágono pintados em preto. Era o máximo. Um verdadeiro sonho de consumo. E nem vamos aqui falar nas bolas de meia, dos rachões frenéticos disputados com bolinha de tênis. Ah! Que saudade que me deu agora do "capotão" queimando o peito do pé a cada chute.

Pra mim, essa picuinha toda em torno da Jabulani, a bola oficial da Copa da África, vem provar um dos grandes pecados do futebol atual: ter se distanciado da essência do jogo.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

O menino

Tenho visto esse menino, e seu encanto, muitas vezes, já fez eu me pegar imaginando como seria o futebol jogado em outros tempos. O futebol dos craques que hoje os mais velhos não cansam de lembrar e endeusar. Há nele um ingrediente improvável, aquela elegância que costumamos encontrar apenas nas fotos e vídeos em preto e branco que se encarregaram de eternizar a alma do futebol brasileiro.

Eu, que baixei no mundo depois deles, vi Zico, vi Maradona, vi Romário, vi Ronaldo, e não posso reclamar. Os que virão, talvez vejam muito menos. A modernidade tem lá sua pobreza. Quem sabe se a vida tivesse me dado a chance de apreciar um Ademir da Guia no auge hoje as palavras não tivessem aqui tentando driblar a minha pretensão de fazer esse elogio. O texto fluiria melhor.

Mas é que tenho visto esse menino, tal qual um mágico, a revelar espaços no gramado. Espaços que só se materializam no momento em que ele faz nascer um passe, um lançamento, ou coisa que o valha. Um menino, sim, mas com o olhar altivo de quem enxerga o campo de jogo de um ponto qualquer, superior, calmo, calculado.

Mais do que aprender, descobri, e faz tempo, que há uma certa sabedoria, em seja qual for o ofício, que resulta em estilo, resulta numa plástica apurada. E isso ele tem de sobra, como tem. O corpo e os pés em total sintonia com os movimentos que sua imaginação propõe. E como se não bastasse, o cabelo de corte simples, o olhar sem deslumbre, a lucidez de quem tem um dom.

Por causa do futebol desse menino, no futuro, quando os interessados na memória do nosso futebol revirarem a história do Campeonato Paulista de 2010, irão certamente encontrar, decantado, o requinte das jogadas dele. Conforta saber que o futebol atual tem algo a deixar como legado. Há neste menino o consenso reservado aos grandes artistas, e isso soa justo.

Pouco importa que o treinador da seleção brasileira prefira os outros, ou que alimente uma cegueira própria dos que fazem da vitória o grande objetivo. No escrete que acaba de ser anunciado, ela, a vitória, é muito mais provável do que a beleza. Pensando bem, esse menino merece um outro ambiente. O nome desse menino é Paulo Henrique Chagas de Lima, vulgo "Ganso".