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quinta-feira, 13 de março de 2025

A Copa de Trump


Imagem: Divulgação FIFA


Já não sei ao certo que lugar a Copa do Mundo guarda no imaginário das pessoas. Que peso tem para as novas gerações. Uma cena que se fez muito presente no meu cotidiano ao longo dos anos é aquela que, vez ou outra, nos faz topar com alguém que confessa seu desinteresse pelo futebol mas se apressa em se definir como um torcedor de Copas. É compreensível. Mas o que talvez as pessoas ainda não tenham se dado conta é que o modelo de Copa que conhecíamos já era. É passado. Como também não devem ter se dado conta, tamanho se faz o frenesi cotidiano, do quanto estamos perto da próxima. Será a primeira edição com quarenta e oito seleções. Donde se conclui que, se nas últimas a qualidade técnica não foi um primor, se o novo modelo vier a nos seduzir não será nesse quesito. Desculpe o termo. É esse carnaval que não sai de mim. 

E talvez seja pensando nisso que a FIFA tratou de dias atrás anunciar que pela primeira vez na história o torneio mundial de futebol terá no intervalo da final um espetáculo musical. E foi logo convocando o Cold Play. Afinal, alguém precisa garantir o show. Copa que terá também um quê de volta ao Mundo já que será disputada em dezesseis cidades de três países. Estados Unidos, México e Canadá, este último um verdadeiro debutante em matéria de Mundiais. E é essa combinação de nações que a essa altura me faz coçar a cabeça. Já que o recém eleito presidente americano vem jogando duro, inclusive, com os parceiros dessa empreitada. Num primeiro momento pensei que Gianni Infantino, o presidente da FIFA, não deveria estar dormindo. Mas talvez ainda esteja já que foi justamente quando Donald Trump exercia seu primeiro mandato que tudo foi tramado. 

E vale lembrar que na ocasião o presidente americano não fugiu das divididas para derrotar a candidatura de Marrocos. Lances que se não teriam feito de Infantino e Trump amigos íntimos certamente serviram para torná-los mais próximos. Na época o mandatário da FIFA esteve na Casa Branca. E pouco mais tarde não só esteve na posse como foi um dos primeiros líderes de entidades com peso mundial a felicitar Trump pela vitória nas eleições. É fato que a FIFA está mais do que escaldada com relação a situações desconfortáveis. Basta lembrar que precisou lidar - talvez o certo fosse dizer driblar - com um sem fim de denuncias sobre direitos humanos. E minimizar declarações escabrosas feitas por entidades e veículos de imprensa que acusavam o Qatar, último país sede, pela morte de milhares de trabalhadores, vitimados pelas condições inadequadas e as altas temperaturas do país.

Não havendo mudanças nas táticas impactantes de Trump é de se imaginar que Infantino terá de se revelar um verdadeiro craque nas costuras políticas. A abertura no estádio Azteca, na capital do México, deverá soar um tanto nostálgica para muitos de nós, mas tem tudo pra se dar envolta numa realidade que já não nos permite sonhar tanto. Podemos duvidar que Dorival nos faça chegar ao Mundial prontos a encenar um papel digo da história que o nosso país construiu nesse que é um dos maiores eventos do planeta. Como podemos a essa altura, também, duvidar que Dorival lá chegue a depender do que se dará nos jogos contra a Colômbia e a Argentina nos próximos dias. Dois adversários de respeito. Só não dá pra duvidar que o presidente americano não fará questão de explorar bem ao estilo dele tão midiático acontecimento. Na última sexta anunciou a criação de uma força tarefa pra cuidar da Copa que será, claro, presidida por ele, Trump. É por essas e outras que me despeço dizendo: te cuida Infantino.   

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

O caminho do futebol é o da grana





Naquele início de dezembro de 2010 quando num evento, pomposo como sempre, realizado na Suiça, as fichas com os nomes da Rússia e do Qatar foram mostradas e o mundo ficou sabendo qual seria o caminho das Copas depois de passar pelo Brasil os mais atentos não ficaram surpresos. Talvez tenha sido o resultado mais fácil de se prever da história. A razão é muito simples: o caminho das Copas tem sido faz tempo o caminho da grana. É possível pensar que nem sempre tenha sido assim se conseguirmos crer que dinheiro e interesses não são a mesma coisa. 

O Brasil tinha recém torrado pouco mais de dezesseis bilhões fazendo, portanto, a Copa mais cara da história, mas a Rússia alardeava que estava disposta a gastar quase trinta. Na época o vice primeiro ministro russo, Igor Shuvalov, disse que nunca iriam se arrepender da escolha. O que me faz pensar o quanto a Copa não ajudou a turbinar o poder de Vladimir Putin que insiste em fazer pairar sobre o mundo nos dias de hoje a ameaça de uma guerra nuclear. Os russos tinham o argumento de jamais ter recebido um mundial e o de abrir de vez um grande mercado.  Argumentos meio gastos. Tinham sido usados antes para embasar candidaturas como a dos Estados Unidos e da África. 

Ao Qatar bastaria apontar o cofre. Mas o protocolo tem lá suas exigências. E para dar conta dele nada como bradar aos quatro ventos a possibilidade de se realizar pela primeira vez na história um Mundial no Oriente Médio. Fato é que o mundo acabou vendo coisas mais singulares do que isso. Uma Copa realizada em dezembro. Um Mundial com graves acusações de violações de direitos humanos como nunca se tinha visto. Enfim, o tempo passou e pouca gente se deu conta da cifra que envolveu esse capítulo da história do futebol. O Qatar gastou, ou diz ter gasto, mais de um trilhão de reais. Isso mesmo, um trilhão. Não se trata de um erro de digitação.

Não duvido que a cifra soe até normal para o orçamento deles que têm colocado verdadeiras fortunas também para construir museus. Pagando valores astronômicos em obras de arte e projetos assinados por arquitetos mundialmente famosos. Diz o dito popular que quem pode, pode. Como se diz também dos bem sucedidos que não costumam brincar em serviço. O que cai como uma luva pra descrever os homens da FIFA. Farão agora a Copa voltar aos Estados Unidos, dessa vez a estendendo pela América. Colocando também Canadá e México na jogada.  Apesar de tudo, das crises, os EUA ainda são um grande mercado. E por mais que a Arábia Saudita diga que não tem uma candidatura elaborada ela está inevitavelmente no caminho das Copas. Como o Qatar que, não é de hoje, faz com o futebol transações que mais  parecem negócios de Estado. 

Que a Arábia Saudita não veja o futebol como uma maneira de melhorar sua imagem é difícil de acreditar. Não fosse assim, qual a razão de ter levado pra lá há tempos as decisões da Supercopa da Espanha e da Itália? Ou de ter promovido dias atrás um amistoso envolvendo o PSG, que simplesmente colocou Messi e Cristiano Ronaldo frente a frente? Mas sedutor mesmo para a FIFA, essa pra lá de endinheirada entidade sem fins lucrativos, é saber que a Arábia Saudita tem um fundo de dois trilhões e meio de reais para financiar o que o país achar interessante. E sabendo disso, o que você me diz, o futebol fará, ou não, o caminho da grana?  E o ex-presidente da FIFA, Joseph Blatter blefou, ou estava errado, quando disse que a Copa do Qatar tinha sido um erro? 

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Olha a Copa aí !




Vamos partir aqui mais uma vez do empírico, do que a experiência cotidiana nos revela quando o assunto é Copa do Mundo. O mais comum tem sido ouvir por aí que a curtição com a Copa já não é a mesma. Seria o caso, claro, de perguntar o que à luz da história segue sendo exatamente igual? Os mais saudosistas bradam como se fossem espadas o tempo em que se enfeitavam as ruas com bandeiras, com pinturas. Os mais sentimentais culpam a distância que passou a separá-los dos craques que hoje em dia se exibem, majoritariamente, no continente europeu. Honesto de minha parte é dizer aqui que são observações feitas pelos que me cercam, pelos que em geral costumam ser da mesma geração que eu. Tenho curiosidade de saber o que pensa a garotada a respeito disso, que espaço uma Copa toma de suas vidas. De que maneira toma. 

A impressão que tenho é a de que se tem uma coisa que não mudou muito é o encanto que um álbum de figurinhas do Mundial ainda exerce sobre pessoas das mais diferentes idades. É fato que os mais velhos talvez guardem nisso um modo de resgatar o prazer de outros tempos. Mas vejo nos olhos daqueles que acabaram de chegar e que descobrem a curtição de um álbum do tipo pela primeira vez o mesmo brilho nos olhos. Há notadamente nessa Copa que se aproxima peculiaridades que a farão diferente de todas as outras. Talvez o fato de ser a primeira sediada no Oriente Médio seja de alguma forma algo menos impactante do que a forma como irá se misturar às nossas vidas. Com o ano chegando ao fim, misturando-a com os preparativos para o Natal que sempre nos exige algo. E iremos certamente muito além disso pois será mesmo um Mundial singular e que já provocou atitudes contundentes e não é de hoje. 



Meses atrás a Dinamarca  tinha anunciado que faria questão de ficar invisível no evento e , numa espécie de boicote como resposta aos atropelos no que diz respeito aos direitos humanos, irá atuar com seus três uniformes em tons totalmente monocromáticos escondendo dessa forma a marca da patrocinadora e o brasão da Confederação. Não consigo deixar de imaginar que uma campanha surpreendente deles no Mundial tiraria na mesma proporção a eficácia dessa invisibilidade. Os capitães de várias seleções da Europa prometem entrar em campo usando braçadeiras com as cores do arco íris para promover a inclusão e se posicionar contra qualquer tipo de discriminação o que parece estar longe de ser prioridade para os anfitriões. 

E tão assombrosas quantos as histórias desumanas que cercam o Mundial são as cifras envolvidas no evento que consumiu mais de um trilhão de reais, isso mesmo. Implodindo de vez as fronteiras entre o que é esporte e o que é construção civil num mega evento esportivo. Não custa lembrar que dias atrás, Joseph Blatter, o ex-todo poderoso do futebol mundial disse com todas as letras que a escolha do Qatar foi um erro. Que o Mundial é grande demais para o país. O tamanho do erro veremos. No mais, gosto mesmo é dos detalhes que vão dando molho na coisa. Como as declarações do técnico da Espanha dizendo que uma das únicas certezas é que ele tem é a de que em campo o time que comanda não irá morrer de medo. Declaração que parece talhada sob medida para uma seleção conhecida como a fúria.