quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Cadê o futebol ?

Depois de desfrutar do nobre direito das férias, herança deixada pelo governo Getúlio Vargas, contemplar alguns entardeceres e arejar a cuca, cá estou a batucar estas linhas para o nosso reencontro ainda em meio ao bafo escaldante desse verão que ensaia nos deixar.

As agruras são as mesmas, se renovam como as estações. Está pra nascer o dia em que o regulamento do Campeonato Paulista estabelecerá um preço máximo para os ingressos, evitando assim que cartolas do nosso interior possam acreditar que colocar o preço nas alturas seja mesmo a melhor maneira de tirar proveito da passagem de um time grande por suas cidades.

Pra quem não sabe, ou já não lembra, o ingresso mais barato para a partida entre Catanduvense e Palmeiras custou míseros oitenta reais. Mas não pensem que mazelas são exclusividade do futebol. No nosso honrado Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman, tratou de cuidar da sua reeleição e se garantir no poder até 2016.

Nesse nosso país que vai se acostumando, depois de muita dor e injustiça, a ter presidentes eleitos pelo povo, o esporte está longe de ser um exemplo de democracia. Ao contrário, um forte odor de Mubaracks, Kadafis e afins exala das nossas piscinas, pistas, quadras e campos.

E o que se passa com o Santos ? Pode-se dizer muito do time da Vila, menos que tenha nos últimos tempos honrado a fama de ser o melhor, ou um dos melhores times do país. Ganhar, ou não, não é o caso. O caso é que não se vê em campo o menor sinal de um time que não foi desmontado.

Não há futebol e a impressão que tenho é a de que não há conjunto, o que pode ser mais nocivo do que a falta de futebol. O embarque pra Bolívia, para encarar o The Strongest, se aproxima. Já vou avisando que não sou do time dos que costumam colocar em dúvida a capacidade de Muricy Ramalho. Considero o treinador, ora santista, um dos mais legítimos da classe.

Quando estava em campo provou sua capacidade e, mais tarde, no banco, está aí com toda a sua estatura. Consagrado. Mas os problemas do time da Vila, às vésperas de viver a beleza e o entusiasmo de seu primeiro centenário, não são poucos.

As laterais preocupam. De um lado por escassez de talento, e do outro porque uma geração está cara a cara com o fim. Pará, que devo dizer, talvez tenha sido o jogador que deu a virada mais espetacular na carreira que já vi, depois de amargar fase difícil para em seguida deslanchar e conquistar o respeito da torcida, voltou a ser uma incógnita.

E olha que tempos atrás quase ninguém seria capaz de dizer que Pará não era um jogador que dava conta do recado. Passou. Pode voltar, é verdade, sempre pode. Maranhão? Que fatalidade essa última! Mas ainda não esqueci que no jogo contra o Paulista, naquele lance em que ficou com a missão de acompanhar e parar Renan Marques, não mostrou - como diria o técnico Tite - estar com a " faca nos dentes".

A defesa do peixe, experiente, tem dado caldo ralo. Ou engrossa, ou engrossa. Embora valha lembrar que o Santos, ao esbaldar criação, deu-se até o direito de ter uma defesa em estágio inferior ao ataque, o que pode aborrecer os pessimistas e que os otimistas podem até classificar como um luxo.

Mas, ao que tudo indica, se houver um revés não terá sido por falta de gols. Se Borges não é artilheiro, quem é? De Neymar, nada a dizer a não ser que tome cuidado pra não se molhar nessa chuva de festas e badalação. E o Ganso. Ah! O Ganso. Trata-se, no meu modo de ver, do mais elegante jogador desse longo e bom momento santista. E acredito que não seria exagero dizer que se trata até do mais elegante jogador da história recente do futebol brasileiro.

Agora, na minha cabeça a imagem de um maestro desafinado e com dificuldade de retomar o ritmo perfeito é a melhor imagem para descrevê-lo atualmente. No meio do caminho, no domingo, há o Linense. Pouco importa. Até a bola rolar pela Libertadores tudo terá sido sido irrelevante, depois não. Depois a temporada começa pra valer, e aí, será preciso mostrar futebol. E cadê?



*artigo escrito para o jornal "A Tribuna", Santos

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Mais que um desabafo

Tenho com o futebol relação muito saudável. Nunca xinguei ninguém na hora de torcer, nunca me desgastei pensando nas alegrias que ele deixou de me dar, jamais olhei de lado para os que adoram outro time e, ainda que possa ser acusado de total apatia, só tiro um sarro usando o jogo como tema quando tenho certa intimidade com o interlocutor.

Nos casos em que não costumo segurar a onda, procuro ter em mente uma palavra que faço soar internamente como um mantra: parcimônia. Questão de educação, ainda que vocês não acreditem. Mas no exato momento em que escrevo estas linhas sou obrigado a ver um corintiano desfilando na redação com a camisa do Barcelona, o que quase me faz deixar de lado esses princípios que me são tão caros. Na verdade, ainda que tenha sido por um instante, deixei. Ah! Se deixei. Na terceira vez em que cruzei com ele, disparei:

_ Pô, essa daí é de um campeão legítimo, hein?

Sarrinho de nada. Se tratava de um amigo. Mas para não colocar a amizade em risco apertei um pouco o passo - já que estava de passagem - e na sequência não fiz força alguma para ouvir a resposta. Olha, não levem muito em conta essa minha rigidez moral. A minha regra pra esse tipo jogo é simples: Jamais permitir que a brincadeira derrote os bons modos.

Fazer essa espécie de auto-análise ludopédica foi o jeito que encontrei para tratar tão amarga derrota. Não me lembro em passado recente jogo que tenha despertado tamanho sarcasmo nos secadores, independentemente do seu nível de crueldade. Foi um embate que serviu pra muitas coisas. Pra mostrar quais são os santistas que gostam de analisar o jogo, e quais os que diante de uma possibilidade histórica se transformam numa espécie de "Pacheco", se é que os mais novos irão lembrar do famoso torcedor que era Brasil de qualquer jeito.

Aos mais entusiasmados andei dizendo que estavam exagerando por razão simples: Ou a vitória santista não seria muito provável ou tudo que andávamos falando do Barcelona de Pep Guardiola até ali era um tremendo exagero. Espero um desconto para o tom dessa nossa conversa, uma vez que ela não deixa de ser também um desabafo. Abro o coração pra dizer que esse jogo com o Barça me fez repensar muitas das minhas teorias.

Sempre acreditei e defendi o futebol limpo, mas toda aquela cortesia dos santistas, a todo instante fazendo questão de levantar os adversários do chão, de passar a mão em suas cabeças, chegou a me irritar. Jamais serei a favor de entradas duras ou desleais mas um pouco de virilidade não compromete a qualidade do jogo.

Por outro lado, me peguei pensando que diante de adversário de recursos tão leais e bonitos qualquer falta soava como tremenda deselegância, e ninguém ali queria ser chamado de brucutu. Seria muito bom se essa aura se instalasse na maioria das partidas. Mas pedir pra todo mundo jogar um pouco como o Barcelona é demais.

Quero crer que para nós, que vimos o jogo por esse vértice doloroso, tenha ficado alguma herança. Pelo que foi dito houve um ensinamento em tudo isso. Não me recordo de um jogo em que os derrotados, em uníssono, tenham dito que a derrota lhes ensinou. Muricy disse, Neymar disse, Ganso disse. No mais é acreditar nas palavras de Fernando Pessoa que dizia que
" conformar-se é submeter-se, e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isso...vence só quem nunca consegue."

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Para o Doutor Sócrates

O último domingo, Magrão, o dia da tua partida, durou uns dez anos. E como foi difícil atravessá-lo. No sábado, um tanto sorrateiro até, entrei na igreja de Santo Antonio do Embaré e rezei por ti. Algo me dizia que precisavas disso.

Ali, em meio a quietude inquietante dos templos, tive comigo a certeza de que mesmo muito baixinho, quase em silêncio, todas as preces que estavam sendo ditas em teu nome, juntas, seriam capazes de fazer mais barulho do que todos os estádios cheios que um dia tua elegância foi capaz de emocionar.

De lá pra cá, tanto foi dito, escrito e mostrado em teu nome. Tua figura, de repente, ganhou uma onipresença, e como ela te fez justiça. O velho Michel, na segunda, batucou um texto bonito, como sempre, falando dessa coisa inestimável - mas nem sempre percebida - que é estar ao lado de um gênio. Eu li, e fiquei lembrando de você, ali, sentado na cadeira ao lado da minha, humildemente envaidecido com a maneira como levamos o compromisso de fazer um programa de televisão juntos toda semana. Como foi bacana meu amigo.

Admirava em segredo a tua devoção com esse nosso encontro semanal por saber muito bem que eras esse tipo de pessoa rara que por motivo nenhum nesse mundo aceita fazer o que não gosta, e muito menos o que não lhe dá prazer.

Teimosamente vou te esperar no corredor que leva ao estúdio, mesmo sabendo que não vais chegar. Fecho os olhos agora e vejo você se aproximar, sem pressa, e dizer com um sorriso no rosto: "Fala Véio Mussa". Magrão, você não gostava da limitação dos scripts e dos roteiros e esse ditador terno aqui sabe que ficou te devendo um pouco de anarquia, no melhor dos sentidos. Teria sido a melhor maneira de provar que tinha me rendido ao seu estilo.

Quando dizia que esse teu jeito de não se preocupar com a vida me causava inveja não se tratava de uma metáfora. Saiba que vou carregar esse ensinamento comigo mesmo que ele não passe de um plano mirabolante que eu jamais seja capaz de colocar em prática.

Que saudade eu já sentia de invadir as madrugadas em tua companhia em uma mesa de bar, e nem preciso dizer que o nosso Xico também. Pra alguém que tinha orgulho da boemia se perder numa madrugada faz todo sentido, mais até do que essa coisa de partires num domingo em que o Corinthians ganhou um título. Que importa isso, se te perdemos um pouco?

Digo um pouco pois sei que vais continuar por aí, teu rosto permanecerá estampado nas camisas dos jovens de corpo e espírito. És uma bandeira. E pensar que nas nossas noites inundadas de risos, conversas, ideias e ideais, vinham à nossa mesa os bêbados te saudar. Os caretas a confessar a adoração pelo Doutor, apesar das juras de amor por um time que não era o teu. E vinham as moças, os velhos, a implorar uma fotografia. Vinham os loucos pedir pra beijar tua mão. E nos embasbacava a tua habilidade pra lidar com tudo isso, como quem dava um daqueles toques de calcanhar, surpreendentes, quase impossíveis.

Parta em paz. Você merece mais do que essa terra pode te dar. A ladainha do futebol permanecerá a mesma e do jeito que a coisa vai tua imagem e teus lances parecerão cada vez mais geniais. Ficará a tua lição de que o homem deve estar sempre acima de qualquer time. Ficará a tua lição de quem teve a coragem de fazer tudo que quis. o exemplo de ser sempre você mesmo. De agir em absoluta sintonia com o que se pensa. Nem que fosse por dez segundos, como gostavas de dizer.

Você, Magrão, foi a mais pura tradução do que a inteligência é capaz de fazer quando se une à arte de jogar bola. Acostumar com a ideia de que você deixou nosso time vai ser jogo duro, ô se vai.

Com carinho, do Véio Mussa.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Não dá pra se gabar do Gabão

Não quero ser um desmancha-prazeres. E se, por acaso, o termo lhe soar antiquado, posso apelar para uma época mais recente - que já vou avisando também não será moderna - onde os sujeitos dados a esse tipo de desprazer eram tidos como aqueles que "cortam o barato". Fui claro? Temo que não! Mas explico.

Hoje é dia de jogo da seleção brasileira. Não se espante caso tenha esquecido. Eles já foram muito importantes, quase inesquecíveis. Não são mais. Portanto, não se trata da sua memória e eu espero que isso de alguma forma o tranquilize.

A partir das quatro horas da tarde, horário de Brasília, narradores e comentaristas irão usar de todo seu poder de sedução para capturar sua atenção. As análises serão abundantes. Teorias sobre como Mano Menezes poderá tirar proveito de um jogo contra o Gabão não faltarão. Mas não se deixem levar por quimeras táticas, no que diz respeito ao futebol o embate será de pouca valia.

O papel da seleção na tarde de hoje será o de um "grande convidado". A definição não é minha. Foi dada por um diretor da Federação de Futebol do Gabão ao comentar o amistoso. Pode soar estranho mas será exatamente esse o papel da nossa seleção já que a partida marca a inauguração do novo estádio de Libreville, a capital daquele país.

Mas não pensem que o suposto cachê de um milhão de dólares será pago pelo país africano. Há mais gente envolvida nesse jogo. Não se trata de uma tabelinha e sim de uma triangulação. O novo estádio, que no ano que vem será o palco da grande final da Copa das Nações Africanas, foi um presente dos chineses.Para explicar essa jogada só entrando nos detalhes de um outro jogo, muito mais pesado e muito mais lucrativo do que o futebol, por incrível que isso possa parecer.

A nossa seleção, que dessa vez terá somente jogadores que atuam fora do Brasil, empresta a sua popularidade para melhorar a imagem dos asiáticos que vão expandindo cada vez mais seus negócios pelo continente africano. Fico aqui com essas coisas todas na cabeça e sinto pelos torcedores humildes que estarão na arquibancada sem o direito de ver ao menos Kaká, que acabou cortado por contusão, e poderia dar algum brilho a esse nosso escrete e ser, de alguma forma, útil ao Mano.

Sabe, não se trata mesmo de cortar o barato ou de ser um desmancha-prazeres. Mas é triste, muito triste, constatar como o nosso futebol está sendo usado. Senti uma certa melancolia na segunda quando li que a seleção tinha se reunido em Frankfurt, na Alemanha, e que os vinte e um convocados depois de um almoço seguiriam para a capital do Gabão, com jogadores convocados pela primeira vez como o lateral Alex Sandro, o meia Dudu... Fiquei imaginando a falta de intimidade ali, por mais que o clima que se respira seja de amizade, companheirismo.

Pasmem. Os chineses, pelo que andei lendo por aí, construíram cinquenta e dois estádios no continente africano e devem entregar mais nove até o fnal do ano que vem. Estádios que seguem um mesmo padrão de arquitetura. Estádios sem alma. Dizem que os que foram construídos em Gana, distantes menos de quinhentos quilômetros um do outro, são idênticos. Imagine você indo ao Rio de Janeiro ver um jogo, e depois a Minas Gerais, e depois a Salvador, entrando em arenas absolutamente iguais. Não faz sentido. É muita pobreza no meio de tantas cifras milionárias.

Homens de negócios. Estão todos lá, os chineses, de olhos crescidos pra cima tanta riqueza, pro mar de petróleo que se esconde sob o solo do Gabão. O ferro, o manganês, as madeiras, as coisas que um dia também arrancaram da nossa terra. Transações. O jogo continua. A nossa seleção entra em campo só pra dar o drible, entende? O mundo continua o de sempre. Importa é faturar.Não dá pra se gabar do Gabão.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O deserto de um zero a zero

Não é de hoje que eu cismo com o zero a zero. Ninguém merece ser castigado por este que é o placar mais miserável do futebol. E essa minha compaixão se faz maior quando eu lembro de toda provação reservada aos que - em plena oferta do pay-per-view - ainda teimam em acompanhar as pelejas das arquibancadas.

Um verdadeiro exército de românticos que faz questão de alimentar essa paixão que os arrebatou desde a mais tenra infância. Faço essa afirmação baseado no fato de jamais ter encontrado um torcedor que tenha se apaixonado pelo jogo depois de burro-velho.

E falo de um tipo que nada tem a ver com essa versão pós-moderna chamada sócio-torcedor. Falo do sujeito que ainda tem coragem de encarar filas, do cara que topa o desafio de ir, dias antes do jogo, ao Pacaembu, ao Morumbi, seja lá onde for, encarar uma fila dantesca, mal organizada, mal intencionada.Gente que aceita na boa o risco de sair de mãos abanando depois de tanto esforço, gente que aceita barganhar o preço dessa emoção com cambistas.

O embate do último domingo entre Vasco e São Paulo turbinou esse meu desconforto diante do referido placar. O duelo travado em São Januário é meu argumento maior para essa teoria insana, mas poética. Não há nada capaz de aplacar o vazio contido em uma partida de futebol sem gol.

Mesmo um cara como eu, que quando moleque tinha os goleiros em alta conta, que sonhava em fazer defesas como Manga, como Rodolfo Rodrigues, mesmo eu me peguei desiludido. Nem mesmo as fantásticas defesas do arqueiro tricolor Denis, honrando, no sentido mais literal da palavra, o posto que pertence ao lendário Rogério Ceni, me satisfez.

Há algo que uma partida sem gol não tem e que não é o próprio gol e sua emoção. Não me venham com obviedades, por favor. Guardem o sorrisinho cínico de quem sugere que um jogo de futebol sem gol, claro, não tem bola rede, não tem o abraço caloroso entre os atletas depois dele, não tem aquela explosão histérica da torcida. Não é nada disso. Futebol sem gol é festa de aniversário sem brigadeiro. Praia sem sol.

Futebol sem gol é obra inacabada, e aí está uma boa explicação para que, apesar de tudo, alguns jogos sem eles sejam lembrados. Para os do contra, deixo aqui a pergunta fatídica: Por que será que jogos repletos de gols nunca são questionados?

Vai me dizer que nunca existiu um 6 x 2, um 8 x 1 , um 5 x 2 que tenha sido ruim? Qual é a graça que se esconde em tamanho desequilíbrio? O que ocorre é que a fartura costuma esconder fraquezas. Será que os velhinhos, e nem tão velhinhos, do "board" da FIFA jamais pensaram em por um fim a esse castigo? É do jogo dirão.

É verdade, é do jogo. Sem o castigo a própria humanidade seria outra. Pensando bem, se o futebol sempre esteve a imitar a vida, não poderia estar livre desse infortúnio. Ainda que não lhes falte beleza, o que eu sei é que há um deserto imenso escondido em uma partida sem gol, pode notar.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Zero a zero no Ministério

A mudança no Ministério do Esporte deixa tudo na mesma. Seguimos sem motivo pra comemorar. Como precisamente apontou o amigo Juca Kfouri na sua coluna da Folha de hoje, contrariar os "comunistas" seria deixar Agnelo Queiroz, governador do Distrito Federal sob a mira, e ele agora é PT. Ainda assim quero acreditar que mesmo na ausência de tal contrariedade, de algum modo, o governador será alvejado, afinal, tudo aponta para ele. Quanto a Aldo Rebelo, que acaba de ser escolhido para administrar a pasta, vale dizer que semanas atrás foi goleado por Ana Arraes, mãe do governador de Pernambuco, na disputa por uma vaga no Tribunal de Contas da União. Sálario de 25 mil reais. O placar? 222 a 149. Acho interessante citar o fato porque mostra bem o foco dos nossos políticos, dos que nomeiam e dos que são nomeados. Aldo queria estar no TCU, acabou no Ministério do Esporte. Se perguntado, com certeza dirá que atendeu a um "chamado".

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Futebol em estado bruto

Bar do Zé Ladrão, dia desses, sete da noite. Enquanto o português - dono do lugar - segue teimando em convencer os desavisados de que é francês, a sua mais tradicional freguesia vai chegando. Alguns com a dor do dia sobre os ombros, mas não todos. Afinal, o Bar do Zé não é praia mas tá cheio de personagens que fizeram a invejável escolha de levar a vida...boiando.

Estava eu de passagem. Na pressa. Tinha pensado até em desviar a rota, usar a outra calçada, mas eis que a rua se revelou ausente de automóveis e ao atravessar fiquei cara a cara com o bajulado estabelecimento comercial. Num primeiro instante me contive. Parei na porta. Cumprimentei muitos dos presentes com um olhar festivo. Por incrível que possa parecer, resisti.

Mas não poderia negar ao seu Zé uma reverência maior. Senti no aperto de mão que ele estava louco pra falar do Corinthians. O empate com o Inter ainda fresco na memória praticamente lhe transbordava dos olhos. Acontece que a sabedoria do seu Zé é imensa e ele jamais cairia na arapuca de fazer um comentário futebolístico pra todo mundo ouvir, a liturgia do cargo não permite.

É quase como dizer que dono de bar que se preza não bebe, nem fala de futebol com entusiasmo. Fui amigo. Junto com o sorriso lhe recitei baixinho: " Eu te disse que o Alex ia dar caldo". Exemplarmente contido o Zé não deixou que a resposta fosse além de um sorriso.

Fiquei ali por uns minutos, num esforço tremendo para driblar as colocações e as gracinhas que os mais chegados costumam dizer a quem passa os dias debruçado sobre as coisas do futebol. Mas devo dizer que, como sempre, me diverti notando o micro-cosmos do futebol que se esconde em qualquer botequim. O jogo e sua onipresença.

Na minha breve permanência no recinto vi de tudo um pouco. O relaxamento pomposo que invadiu a alma dos torcedores do time da Vila, quando o Edson, de cabelos brancos como a mais tradicional camisa santista esnobou seu interlocutor dizendo:

_ Nem adianta me provocar. Ó, tô numa espécie de pré-temporada. Só vou voltar a falar sobre futebol em dezembro, tá?

Vi ali também o Botafogo carregando o fardo imenso de ser tido como um campeão improvável, sendo clássico ao seu modo.Vi o Palmeiras mexer com o brio dos seus torcedores, que confabulavam alvoroçados tentando entender o que tem se passado na Academia de Futebol, divididos entre o respeito e a repulsa pelo modo truculento de seu treinador, outrora tão vitorioso e familiar.

O que tenho dizer ao seu Zé, e naquele instante por respeito não pude, é algo muito simples. Que o Corinthians não caia no conto de que a tabela lhe reserva facilidades. E esse não é um ensinamento qualquer. Vi mais até, porque nos bares as maldades ludopédicas são ditas sem o menor pudor.

Vi o embate do tricolor com o Vasco sendo encarado mesmo como dose pra Leão. Maldade tamanha que o sujeito lá da porta, quando eu já estava de saída, interpretou assim:

_ Olha, se o Leão ganhar do Vasco eu não me empolgo, não! Não terá feito nada além de confirmar que é um técnico que costuma dar certo no início.

Depois parti, carregando comigo a certeza de que é cruel e explícita essa beleza do futebol que se destila nos bares.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A diferença quem faz são os homens

Há algo de intrigante no desempenho dos times do Rio neste Brasileirão. Mas o acontecido, talvez, tenha explicação. No ano passado, logo após conquistar o título com o Fluminense, Muricy Ramalho fez questão de dizer umas verdades. O então treinador do time das Laranjeiras, em pleno momento de festa, afirmou que esperava que o triunfo servisse para abrir os olhos da diretoria, que era preciso criar uma estrutura melhor para o futebol do Flu.

Muricy foi além, enalteceu a comissão técnica que, segundo ele, muitas vezes tinha se desdobrado para suprir tanta carência. Foi assim na lata mesmo! Muricy disse que se tratava de uma turma de guerreiros que muitas vezes tinha saído em busca de uma academia às pressas para fazer a recuperação dos atletas, já que o clube não tinha uma piscina ideal para isso. E olha o Fluminense aí, soltando o bafo no cangote das equipes mais bem colocadas do campeonato.

A estrutura atual do Vasco, do Botafogo e do Flamengo também estão longe de honrar toda a tradição desses clubes. Que uma estrutura de primeira faz diferença não resta dúvida. Mas, pra mim, a lição que fica é que apenas ela jamais será capaz de levar um clube aos títulos.

Poderíamos dizer que no caso do Palmeiras, que conta com uma boa estrutura, o elenco acabou comprometendo o trabalho da temporada? É possível. Mas o que dizer do São Paulo, que tem ótimo elenco e um centro de treinamento tido como modelo? Time, meus amigos, precisam e precisarão sempre dar liga.

Querem outro exemplo? O Santos! É bem provável que tudo que o clube santista conseguiu nos últimos tempos seja reflexo das altas somas investidas em infra-estrutura. Mas ainda que o título da Libertadores sirva de desculpa para um time pouco interessado e pouco vibrante, não dá pra negar que com hotel, campos de treinamento e tudo, o saldo do caro elenco santista anda no devedor.

Podemos citar ainda o enigmático caso do Cruzeiro, que nos últimos anos esteve na briga por todos os grandes títulos, era apontado como favorito ao Brasileirão no início da temporada atual, enaltecido por suas instalações esportivas, e agora aí está o time mineiro, à beira do vexame. Vale ressaltar que além de boa estrutura os cruzeirenses têm bom elenco.

Meu romantismo não é tão grande que me permita dizer que essa coisa de boa estrutura é bobagem. Claro que não é. Morro de curiosidade pra saber onde estariam os grandes do Rio nesse momento se tivessem estruturas melhores do que as atuais. Resposta que jamais virá, lógico.

Pois a minha explicação, senhores, é simples. E o melhor de tudo é que ela protege a grande mística do futebol. A minha explicação é: o poder dos homens. São os homens que fazem a diferença. Ainda bem! Imaginem como o jogo perderia a graça se ter tudo do bom e do melhor fosse garantia de título.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Se liga, peixe !

Neste mesmo espaço tempos atrás comentei a chegada do ex-jogador Romário ao Congresso. Vê-lo eleito deputado federal me causou temor e faço questão de lembrar a razão. Alguém que tenha desenhado a trajetória que ele desenhou nos gramados deveria pensar muito antes de permitir que as páginas mais recentes de sua biografia fossem escritas no campo político.

De lá pra cá Romário tem demonstrado muito interesse pelos assuntos que envolvem o Mundial que nosso país irá sediar. Esta semana, no Fórum Legislativo sobre a Copa 2014 realizado na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro falou em tom severo que o Brasil não pode se render aos interesses da FIFA, que "...precisamos colocar a FIFA em seu devido lugar".

O nobre deputado vem construindo frases de efeito que, muito provavelmente, não levarão a lugar algum. Um dia antes tinha postado em sua página no twitter o seguinte comentário: " Lei Geral da Copa é o seguinte...galera. O Brasil entra com aquilo, a FIFA entra com aquele outro aquilo... e o Brasil sifu...". O mesmo Romário que, segundo a Folha de São Paulo publicou na terça, é o único brasileiro entre os 22 integrantes do Comitê Técnico e de Desenvolvimento da entidade.

Escolhi o tema porque acredito que a mídia tem sido condescendente com o baixinho. Já ouvi por aí que ele está muito bem assessorado e, quando inaugurou seu site para fiscalizar as obras da Copa no início de agosto e lá colocou uma entrevista com o jornalista escocês Andrew Jennings, conquistou amplo espaço e elogios nos mais variados meios de comunicação. Jennings, pra quem não lembra, havia sido o responsável pela notícia do acordo feito com a justiça suiça no qual vários cartolas tinham sido obrigados a devolver dinheiro de propina recebido da falida ISL, e entre eles estaria Ricardo Teixeira.

Não quero desmerecer as atitudes de Romário, reconheço a importância de uma voz discordante a respeito do assunto no Congresso, mas acho que mesmo com toda a dificuldade por estar tendo que se situar em um ambiente totalmente novo e cheio de detalhes, um deputado federal bem intencionado pode muito mais. Até porque a essa altura lá se vai quase um ano do seu primeiro mandato.

Mas o que tem me causado maior incômodo é saber que Romário fechou acordo com uma emissora de TV e trabalhará como comentarista de futebol durante os Jogos Pan Americanos. Desconheço sua agenda, não imagino qual será a combinação de datas, e nem mesmo se ele terá direito a uma licença que o permitirá cumprir essa função. Acho isso simplesmente incompatível, seja qual for o argumento.

Arrisco-me a afirmar que os que votaram nele não esperavam vê-lo na condição de comentarista pelos próximos quatro anos. Como no Brasil o eleitor costuma aceitar todo tipo de falta de postura, estou ciente do risco enorme que corro de queimar a língua. Não vi, nem ouvi, ninguém falar nada a respeito disso. Classifico essa atitude de Romário como uma tremenda bola fora.

É claro que essa não é a única coisa esquisita que vemos por aí. Outra coisa que gostaria de comentar é a sucessão corintiana. Andrés Sanchez diz que não quer nem saber de reeleição, já nos bastidores vai deixando claro que quer continuar sendo o homem forte por trás do Itaquerão. O argumento seria o de que trabalhou muito por isso e que o novo estádio poderia virar alvo dos adversários, sofrer paralisações, e isso colocaria tudo a perder.

Ora, é muito fácil aceitar o fato de não ser mais o presidente desse jeito. Imaginem o Lula dizendo que estava em paz com sua saída mas que não abriria mão de continuar dando as cartas no famoso PAC, o nosso Programa de Aceleração do Crescimento, que de tão importante foi fundamental para sedimentar o perfil de gerenciadora e para eleger a atual presidente, Dilma Roussef.

Por mais que a gente saiba que nos bastidores os mais poderosos continuarão a ser os mais poderosos, colocar a coisa nesses termos é demais. A conclusão não pode ser outra. Se o futebol anda mais cara-de-pau do que a nossa política, não será o Romário que irá salvá-lo.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

E essa nossa seleção?

Muito se fala na relação dos brasileiros com a seleção. Relação que não seria a mesma de outros tempos. Mas se tudo muda, porque é que justamente a nossa relação com a seleção brasileira iria permanecer intacta, imutável?

Há pouco mais de dez anos eu estava envolvido na produção de um documentário sobre os trinta anos da conquista do tricampeonato mundial no México e lembro muito bem do entusiasmo do pessoal ao ouvir da boca do José Genoino, ainda um ícone ilibado da esquerda (eu disse que o tempo muda tudo), que naquela época quando a bola rolava não tinha ideologia que resistisse. Se não me engano o depoimento foi dado ao repórter Dorival Brammont. O poder de transformação do passar dos dias é tão poderoso que nem mesmo as ideologias restaram.

Seja como for, a frase de Genoino condensava de modo preciso a relação do povo com a seleção nos idos de 1970. Não vou ficar aqui papagaiando o que estamos cansados de ouvir. Que a seleção quase não joga no Brasil, que nossos grandes nomes partem cedo para o exterior, que nossos craques estão mais interessados nos milhões do que em defender a seleção.

Também não vou ter a petulância de apontar quais seriam as razões reais para esse estado atual de desinteresse pelo time canarinho. Quem sabe? Só posso usar da sinceridade e dizer que não tenho lembrança de ter visto um jogo contra a Argentina com tão pouco entusiasmo como foi o caso dos dois últimos. É bem verdade que a Argentina contribuiu pesadamente para esse meu desânimo. Mas vem aí a Costa Rica e depois o México. Isso por acaso lhes entusiasma?

Bom, acredito que só uma vez na era Mano Menezes essa relação pareceu revigorar. Foi na primeira convocação dele, quando mais do que nos últimos tempos, a seleção foi um retrato fiel da vontade popular. Depois disso, graças a Andrés Santos e Fernandinhos, esse contentamento, essa concordância, essa cumplicidade, só diminuiram. É a impressão que tenho.

E para piorar ainda mais temos esse conflito com os clubes, que ficam sem seus jogadores mais importantes em momentos-chave. Intuo que a única coisa capaz de zelar por essa relação seria resgatar a sua versão mais apaixonante e apaixonada. A única coisa capaz de mudar isso seria construir um time que nos fizesse lembrar da sublime seleção de setenta ou que nos arrebatasse como fez a de 82, o que não será viável sem uma dose gigantesca de ousadia que, infelizmente, não vislumbro em lugar algum.

O que ouvimos é que precisamos cautela para usar o talento de Lucas, que precisamos atenção porque um time mais ofensivo irá comprometer a nossa retomada de bola e diminuir o avanço dos laterais. Ou seja, por hora, tentam nos seduzir com um discurso desgastado de renovação, tentando esconder o óbvio. A grande estratégia dos homens que comandam a seleção brasileira atualmente é montar um time para vencer, nada mais que isso.

Ao contrário dos times, que muitas vezes calam torcidas com um triunfo, a seleção sempre precisou e precisa ir além. Mais do que qualquer outra equipe sua missão não é provar eficiência - como não deveria ser para ninguém que gosta de jogar bola - e sim fazer um povo feliz em grande estilo. Foi assim que nos acostumaram, foi assim que sempre nos venderam a ideia, e agora querem nos tirar essa oportunidade, essa alegria.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

De Loco todo mundo tem um pouco

Com a vossa permissão vou tratando aqui de misturar nesse caldeirão de palavras assuntos diferentes, pois que hoje acordei com um receio tremendo de ser visto como um chato. O que pode ser inevitável, eu sei. Devagar aí com a graça. Mas quero menos ainda que pese sobre essa minha cuca a culpa de não ter feito pelo menos meio artigo na intenção de obter a salvação.

Tô cansado de saber que o sujeito que se dá ao trabalho de falar sobre futebol com certa sobriedade e sem deslumbre está fadado a ser visto como um mala. Mas fazer o que se essa minha bendita consciência - seja lá o que isso for - não me dá sossego à alma?

O primeiro e mais agradável dos temas é o direito que qualquer um tem de perder gols. Não há nada nesse mundo que exista só com perfeição, o próprio mundo em si não me deixa mentir, e não seria o futebol a exceção. Você mesmo, se é metido a jogar bola, já deve ter tido seu momento Loco Abreu.

O jogador do Botafogo, que pode ser acusado de tudo menos de não ter estilo, pagou o mico? Pagou! Mas senhores, a bola é redonda e não perdoa a mínima imperfeição motora. O pior de tudo foi ver o lance do Loco Abreu comparado ao do Rivaldo. Na minha visão duas situações totalmente distintas.

O lance de Loco Abreu só esperava uma conclusão qualquer. O de Rivaldo exigia a escolha de uma maneira para concluí-lo. Ouvi de tudo, até especialista dizendo que naquela situação o camisa dez do tricolor tinha que ter enchido o pé. Rivaldo tentou o sublime. Teve a coragem de optar pelo mais difícil. Quem garante aos devotos do chutão que a bola não teria resvalado em alguém e ido parar nas arquibancadas?

E pra não dizerem que estou aqui puxando o saco do Rivaldo e pra manter viva a possibilidade de ser visto como um mala, aproveito pra dizer que nem tudo que ele faz me agrada. No jogo contra o Corinthians, por exemplo, que terminou num retumbante zero a zero, Rivaldo teve a última chance do jogo em uma cobrança de falta. Optou por bater direto pro gol e viu a bola se perder por cima do travessão adversário.

Naquela situação, ao contrário, o que me parecia mais inteligente era alçar a bola na área e deixar o bicho pegar, como fez Rogério Ceni no lance que levou o tricolor ao empate com o Botafogo no último domingo. Nem sempre a coragem de optar pelo mais difícil é sinônimo de inteligência. O grande jogador sempre se imagina capaz de tudo, só o equilíbrio o torna diferente. Jogar futebol é difícil como fez questão de lembrar o jogador do Botafogo depois da partida.

Feitas tais considerações, com as quais o nobre leitor pode concordar ou não, vou logo azedando a conversa pra não deixar passar em branco essa Lei Geral da Copa. A votação dela nos dará a medida exata do quanto estamos vendidos. Semanas atrás citei a visita de consultores alemães dizendo que o Brasil tinha que jogar duro com a FIFA. Volto a dizer, acho vergonhoso que tenha que vir alguém de fora nos dizer isso.

Veja tudo que o governo cedeu, o tamanho da cobiça dos cartolas. A entidade máxima do futebol não está brigando porque o nosso governo decidiu barrar o descalabro que é permitir a livre transferência de divisas, as isenções de impostos para a FIFA e seus comparsas. Nada disso. Teria ameaçado levar a Copa de 2014 para outro lugar porque a Lei enviada para o Congresso não retirou a meia entrada, porque o governo - que está bancando praticamente tudo - quer que as TVs que não são detentoras dos direitos do Mundial possam usar três por cento dos jogos e trinta segundos de eventos. Repito, três por cento e trinta segundos.

Melhor seria que a Copa fosse mesmo parar nos EUA, assim poderíamos alimentar a ilusão de ter resgatado uma parte ínfima que fosse da nossa soberania. De outro modo me restará a certeza de ter sido derrotado muito antes da bola ter começado a rolar, e sabe-se lá onde.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Pobreza coletiva

Entrevistas coletivas são, em geral, muito chatas. Nessa realidade infértil que se abateu sobre o futebol em nome da modernidade - em que já não é possível ao jornalista tramar uma pauta e decidir soberanamente que jogador irá ouvir - esse tipo de entrevista virou um mal necessário. O resultado está aí para quem ainda tiver paciência para ver ou ouvir.

A coletiva concedida por Neymar na última segunda foi uma prova cabal dessa teoria. O jovem jogador santista teve os nervos testados. Precisou repetir infinitamente as mesmas coisas, provocado por perguntas feitas de maneiras diferentes mas que giravam em torno de uma só questão. Como dizem os espanhóis, Neymar ficou "aburrido". Não era pra menos.

A culpa de tudo isso não é dos jornalistas, ou só dos jornalistas. A eles só resta, ou restou, aquele momento. Uns perguntam o mesmo porque querem a interpelação gravada na sua própria voz, outros se distraíram no momento em que ela foi respondida pela primera vez, há também os que concluiram que as respostas anteriores não esgotaram o tema, e assim a roda da mesmice passa a girar de maneira irritante e descontrolada. Seria demais pedir aos repórteres que não repitam questões sobre um mesmo tema. Embora eu ache que esse dia não tardará.

Agora, imaginem que os treinadores, jogadores ou dirigentes quando vão gravar, em geral, atendem veículos em separado. Primeiro falam pra TV, depois para as rádios e finalmente para o pessoal da mídia impressa. Pensam o quê? Jogar em times de primeira linha não é só andar de carrão, flertar com mulheres bonitas e fazer um considerável pé de meia. A vida de boleiro tem lá suas penitências, e são muitas, eu sei. Todo ofício tem.

Muitos ali têm sido levados dia após a dia a repercutir essa ladainha da saída do Neymar só por causa das notícias que chegam até nós vindas dos sites e jornais esportivos da Espanha. O Caro leitor já notou que os furos nunca saem de um veículo como o "El País", por exemplo, hoje considerado um dos jornais mais respeitados do mundo? Nada disso.

Elas, as notícias bombásticas, sempre partem dos "ilibados" diários esportivos da Espanha que só faltam estampar as bandeiras do Real e do Barça como se fossem logotipos da empresa. Tenham a santa paciência. Não resta dúvida de que a permanência de Neymar tem sido de grande valia não apenas para o Santos mas também para o futebol brasileiro.

Acredito que a única razão que poderia amparar e provocar um desejo de partida em Neymar seria o fato de querer ser reconhecido como o melhor do mundo. Um desejo pra lá de legítimo. Não podemos ser inocentes. Pra brigar por esse título só mesmo atravessando o Atlântico, pois a FIFA parece não ter olhos para a América.

E pedir que Neymar dê conta disso, mude essa realidade, é pedir para que ele aceite brigar com moinhos de vento. Enquanto isso, ficamos todos nós, que nem sabemos ao certo onde vamos almoçar amanhã, querendo saber de Neymar o que ele fará depois da Libertadores do ano que vem.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Futebol pelego

Que os dirigentes não queiram colocar fogo no circo dá pra entender. Eles são partes atuantes dessa imensa festa chamada futebol brasileiro. Uma boa prova disso é que o Ministério do Esporte abriu o cofre para o Sindafebol, o Sindicato Nacional das Associações de Futebol, que pelo que o Google me diz aqui nem mesmo um site tem.

Os mais de seis milhões de reais foram repassados com a intenção de que o Sindafebol coloque em andamento um projeto visando a Copa de 2014, cujo objetivo é cadastrar torcidas organizadas, mesmo sem ter a mínima experiência pra isso. Oito meses se passaram desde a assinatura do contrato e até agora tudo continua no papel.

Mustafá Contursi, figuras das mais conhecidas no mundo da cartolagem e presidente do Sindicato se apressou em dizer que não era bem assim, não estava apenas recebendo dinheiro, e que havia uma contrapartida. É verdade, ela existe, e é de dois por cento do valor do convênio. Ou seja, para receber os mais de seis milhões o Sindafebol terá que gastar cento e vinte seis mil reais. Mas não era exatamente sobre os cartolas que eu queira versar.Acabei levado pela indignação.

Queria falar da atitude dos nossos atletas. Na minha vida de repórter o que mais escutei foram histórias de jogadores que depois de trabalhar ficaram sem ver a cor do dinheiro. E nesse time de maus pagadores jogam todos,grandes e pequenos. Pois acabamos de ver os jogadores da Espanha colocarem em curso a quarta greve da história do futebol naquele país. Uma das grandes bandeiras era fazer com que o fundo criado para salvar os atletas, vítimas de calote, tivesse recursos suficientes para cumprir sua função.

E pensar que nós aqui, no terror do nosso subdesenvolvimento, na eterna condição de país do futuro, do futebol e tal, nem fundo temos. Não seria uma boa hora pra pensar nisso? Os movimentos do mundo estão aí pra nos ensinar, ao menos. Mas vocês são capazes de imaginar algumas das estrelas da nossa seleção dando a cara a tapa,como fez o Puyol e tantos outros lá na Espanha?

Vale lembrar que no mundo da bola os bem pagos são minoria, as cifras estampadas nos jornais criam um mundo de fantasia. O fato é que os caras bateram o pé e fizeram os manda-chuvas garantirem o pagamento de cinquenta milhões de euros que os clubes ainda deviam a mais de duzentos jogadores que ficaram com salários atrasados da última temporada.

Eles também conseguiram ampliar o valor do fundo para cobrir salários de jogadores de clubes em dificuldades financeiras e incluir no acordo uma clausula que põe fim aos contratos se os clubes ficarem em dívida com o atleta por mais de três meses.

Na Itália a bola só irá rolou na última sexta depois de encerrada uma greve, que se não foi tão contundente e eficaz como a da Espanha, mostrou que os jogadores são capazes de se mobilizar para lutar por seus interesses. Eles se negaram a pagar sozinhos um tal "imposto de solidariedade" criado pelo premiê Silvio Berlusconi, que é também o presidente de honra do Milan.

Outra preocupação dos italianos foi exigir garantias de que os clubes irão preservar atletas em fim de contrato, ou que não façam parte dos planos dos times, e de que eles não serão transferidos contra sua vontade, além de ter assegurado o direito de continuar treinando com o restante do grupo.

Não é só o nosso jeito de jogar que anda frágil, é nossa maneira de lidar com o futebol também. Pelo visto estamos ficando para trás. O que somos capazes de copiar dos europeus em matéria de bola? Planos de marketing extravagantes, o jeito pesado de jogar?

Fossemos nós um povo que cuida bem dos seus direitos não seria exagerado dizer que os nossos jogadores de futebol teriam vergonha de encarar a torcida de cabeça erguida, olho no olho. Fossemos nós esse outro tipo de povo. Mas de alguma forma somos todos pelegos,no amor,na vida,e isso por si só é capaz de explicar o futebol que temos. E, olha, não foi por falta de alguém para apontar o caminho, não é mesmo meu nobre Doutor Sócrates? E viva a nossa independência fantasiosa, a nossa democracia.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

A seleção no Bar do Zé

Se um dia vocês passarem por lá não se deixem levar pela aparência. O Bar do Zé Ladrão é família. Normalmente, aos domingos, por volta das cinco e meia da tarde já está com as portas de ferro arriadas. Mas no último domingo, com o Mano Menezes fazendo sua estréia em competições oficiais no comando da seleção o Zé entrou no clima que ronda as licitações para a Copa de 2014 e flexibilizou o horário de fechamento. Dizem que a tática não redundou em aumento do faturamento uma vez que o futebol apresentado pela seleção brasileira abateu o ânimo dos presentes, inclusive o daqueles que antes da bola rolar demonstravam uma insensata euforia.

Dizem mais, muitos foram embora antes do apito final e os que restaram não tardaram a deixar o local. O que o Zé achou bom. Mas o fato que eu vos relato se deu mais de setenta e duas horas depois, o que deixa claro que se o futebol da nossa seleção não serviu para o divertimento, foi pra lá de eficaz para provocar e manter as discussões vivas. E o papo corria numa boa quando Curió se encarregou do primeiro rompante:
_ Eu não aguento é essa ladainha da imprensa. Pô, já ouvi e li de tudo. Que foi um fracasso. Que a gente não deve esperar que a seleção dê show. Esses caras tão forçando a barra. Zero a zero é fracasso? Fracasso seria perder, levar de três ou quatro. Aí vá lá!

Nisso o sujeito que trabalha no açougue - cujo nome infelizmente não me recordo - decidiu entrar na conversa:

_ Olha, meu chapa. Sei não.

Curió entrou de sola, não deu chance pro cara prosseguir:

_ Não entra numas de defender, não. Vamos ser honestos. Se a gente não pode esperar show do Brasil pode esperar show de quem? Só da Espanha? Se é assim, vamos parar com esse papo de futebol arte. Vamos mandar colocar um anúncio no jornal avisando que o futebol arte morreu.

O cara do açougue tentou de novo:

_ O futebol bonito tá lá, só não virou.

_ Não virou? Vou te dizer uma coisa. O bonito reside no simples. Pelé era simples na maior parte do tempo. Agora esses caras usam três brincos em cada orelha. Nada contra, de verdade. Mas os caras são enfeitados, entende? Quem joga futebol é o homem, sacou? Não esquece disso.

Foi aí que o Curió percebeu que eu tava ligado no papo. Não deu outra, virou a sua metralhadora verbal pra mim.

_ E aí, tu é jornalista esportivo, não vai falar nada?

Pensei comigo: Como jornalista vira alvo fácil. Mas mesmo esse meu breve silêncio irritou o cara:

_Vai dizer que não é? Esse seria teu time?

_ Curió, só vou te dizer uma coisa: Jamais negaria a batuta ao Ganso se tivesse uma orquestra.

_ Jornalista metido a erudito é f...

Abençoado seja o rapaz do açougue que decidiu voltar pro campo de batalha e me salvou:

_ O Curió não tá errado, não. Os caras exageram. Pra mim o Robinho venceu faz tempo.
Mas é geral. Vocês não viram a Argentina, o Uruguai?

_ Ô meu chapa, não foge do assunto. Nós estamos falando do Brasil. Se liga.

Vi que tinha jeito, quase implorei:

_ O Zé vê quanto é o meu café aqui, que eu vô embora!

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Santos: Outra vez a América

O juiz mira o céu e apita.
Com dez minutos de jogo Ganso já tinha esbanjado categoria.
O Santos vacila. O Peñarol chega.

Depois de ver lançamento pra Zé Love dar em nada,
Ganso fecha a cara, pede toque de bola.

O tal juiz deixa no ar a velha impressão de quem esqueceu os cartões em casa.
Novo passe primoroso de Ganso. Neymar é agarrado. Pouco depois, num lance de Pelé,
o menino usa a sola pra tirar de campo seu mais implacável marcador.

Zé Love manda a bola pra lateral e estufa o peito.
Léo perde a melhor chance do primeiro tempo.

O placar em zero a zero sugere tensão,
mas na volta pro gramado,em menos de dois minutos:
um toque de letra de Ganso,um avanço perfeito de Arouca
e uma finalização fatal de Neymar. Um a zero.

O Santos começava a triunfar. Arouca renascia.

Diante do futebol consistente de Adriano e Danilo,
o segundo gol, de Danilo,pareceu fazer justiça.
Injusto foi o Deus do futebol fazer Durval
participar do gol do Peñarol.Dois a um.

Amar Zé Love foi difícil até o último minuto.
Como foi difícil ver Ganso deixar o gramado.

Estava decretada a festa santista...
quando Pelé entrou em campo pra dizer que torcer era uma ato sofrido.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

É no Pacaembu. Ufa!

Ele fez como sempre. Entrou e sentou na última banqueta que ficava bem no final do balcão. Os mais íntimos estavam cansados de saber que o lugar pra ele tinha um ar de tribuna. Toda vida disse pra quem quisesse ouvir que dali podia ficar de olho em tudo que se passava no recinto, mas os amigos estavam cansados de saber que, no fundo, a razão era outra, tudo não passava de superstição.

Não era novidade pra ninguém que ele alimentava a crença de que uma vez sentado ali o Santos não perdia. Quando dava o azar de pintar na área e encontrar o lugar ocupado não pensava duas vezes. Arrumava outra banqueta e dava um jeito de colar no intrometido, que não demorava para perceber a intimidade dele com o local e, mesmo contrariado, acabava dando o fora.

Pra diminuir a possibilidade desse infortúnio, mesmo em dias sem jogo ele fazia questão de marcar posição ali, na esperança de que o ritual o ajudasse a manter qualquer um bem longe dele. Mas ontem quando o Silvio chegou ao bar percebeu no ar a inquietação do amigo que, claro, ocupava a sagrada última banqueta do balcão.

_ Que cara é essa meu velho? Tá pensando no quê?
_ Pensando no quê, tô pensando no jogo do peixe.

Silvio, que é palmeirense, não perdeu a chance de tirar uma casquinha.

_ Não vê a hora, né? Acalma esse coração que o primeiro jogo é só na semana que vem. Pra que sofrer agora?

Maneco respondeu, primeiro, com um olhar meio de lado, sugerindo certo desprezo. Mas a resistência dele durou pouco.

_ Não não tô nem aí com o jogo. Ponho a maior fé que meu time tem futebol de sobra pra ganhar desse Peñarol. Mas essa possibilidade do Morumbi quase me pôs louco. Ainda bem que se ligaram.
_ Ué!? Cê acabou de dizer que o Santos tem futebol de sobra. Qualé?
_ Vê se entende. Até você que é palmeirense vai sacar. Tá tudo dando certo no Pacaembu. Não podemos jogar na Vila. Beleza! Agora, só de pensar em ter que jogar no Morumbi eu já passava mal. Só de pensar naquela arquibancada me dá desgosto. Não sou novo, mas em 62,63, eu tinha sete anos, sei lá onde estava com a cabeça, não lembro de nada. E olha que espremendo os miolos sou capaz até de me ver com meus irmãos brincando na frente da nossa casa no Marapé, e olha que naquela época eu tinha bem menos que isso. Fazer o quê, né? Se a gente pudesse escolher as memórias não seria ruim. Em 2003, então, acreditei piamente que veria o meu time campeão da Libertadores e tomamos aquelas duas traulitadas do Boca. Logo do Boca.

Sarrista de fama reconhecida, Silvio não deixou a oportunidade passar. Entre o amigo e a piada, ficou com a piada:

_Não sei porque é que tu sofre. A tua banquetinha, que fica quase na entrada do banheiro, não é mágica? Burro foi você ter deixado ela aí em 2003. Se tivesse aguentado mais um pouco esse arzinho com uma leve fragrância de xixi, a história seria outra.

Contrariado, Maneco tentou por um fim na conversa.

_ Engraçadinho, vai se divertir com o esquadrão do Felipão, vai! Aquilo que é time, né?
_Ué! Eu não te entendo, não é o futebol que vale? Vocês não tem um timão?
_ Um dia você vai entender de tudo que é feito o futebol. Um dia. Os torcedores do São Paulo não conseguem nem disfarçar a uruca em cima do Santos.Tremem só de pensar que outro time, e não o deles, será campeão da Libertadores. É coisa descarada. Aquilo lá seria uma arapuca, arapuca das boas. Ufa!
- Então, ter um time bom não resolve nada?
_ O que resolve é a fé, a fé! Um dia você vai entender. E ó, dessa vez não arredo pé daqui,não.

Maneco pagou a conta, se despediu dos outros. Mas antes tirou a banqueta do lugar... que só podia ser dele.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

FIFA: A grande dama

A quarta-feira da semana que vem será dia de eleição na FIFA. Uma mera formalidade. Joseph Blatter deverá ser reeleito, e mesmo ocupando o cargo há mais de uma década incluiu entre as suas promessas de campanha a intenção de "reconstruir a imagem da FIFA".

Também falou de reformas nos Comitês de ética, disciplinar e de apelação. Mas silenciou sobre o Comitê Executivo, principal orgão da entidade, cujos integrantes recentemente foram acusados de negociar votos para eleger futuras sedes de mundiais entre outras coisas.

Blatter chegou até mesmo a confessar já ter sido vítima de tentativa de suborno. Disse que quando era secretário-geral recebeu um envelope cheio de dinheiro e que não pôde recusá-lo por ter sido colocado no seu bolso. (Preparem-se porque o final da história é melhor)

Na impossibilidade da devolução, ao chegar à FIFA o entregou ao diretor financeiro que se encarregou de colocar o dinheiro na conta de um banco, de onde o mesmo seria sacado dias depois pelo próprio autor do suborno, que tinha sido avisado de que a quantia se encontrava lá, à sua disposição. Eu também gostaria de ter tido mais detalhes dessa história incrível mas Blatter é um homem atarefado, sem tempo para explicações menores.

Nestes dias que antecedem o pleito muita coisa tem sido dita. O fantasma da falência da ISL - o braço comercial da entidade, que durante vinte anos negociou os direitos de transmissão dos eventos organizados pela FIFA e naufragou em 2001 deixando uma dívida de 300 milhões de dólares - voltou a assombrar muita gente, inclusive, Ricardo Teixeira, presidente da CBF e do nosso Comitê Organizador da Copa de 2014.

O caso ISL, o segundo maior colapso financeiro da história da Suiça, terminou com a FIFA fazendo um acordo com a justiça. Vejam. Ninguém foi preso. Muita gente teria tido que devolver dinheiro. O problema é que o sigilo desse acordo vem sendo contestado na justiça por um jornalista.

Mas ainda que a vitória dele, tão improvável quanto a derrota de Blatter, revele todos os nomes e valores, qual seria o tamanho do dano que poderia causar à FIFA? Os cartolas do primeiro escalão são mestres em manter o jogo sob controle e estão cansados de dar provas disso.

O fato é que a FIFA, mais do que nunca, vai deixando de ser uma casa acima de qualquer suspeita. E não podemos esquecer, por um só momento que seja, de um detalhe: o nosso destino nunca esteve tão atrelado a ela.

A ruína da "grande dama" do futebol, financeira ou moral, também será nossa. É por essas e outras que a minha indignação vai ficando cada vez maior. Onde já se viu gastar bilhões do dinheiro público com estádios num país como o nosso?

Por mim podem jogar qualquer traço de ufanismo com relação a Copa de 2014 no lixo, ele não me serve. Para mim é tudo muito claro. Se um dia formos um país digno, reconhecido, de primeiro mundo - pra usar um clichê, uma vez que o primeiro mundo se encontra em plena convulsão - não terá sido por causa de uma Copa do Mundo, ou por causa de uma edição dos Jogos Olímpicos.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

O futebol no cotidiano

Peço licença para dividir com vocês um fato corriqueiro. Algo cotidiano, mas que poderia muito bem servir de base para estudos comportamentais profundos. Deu-se com um zelador palmeirense na intenção, não de arrebanhar mais um torcedor para o time pelo qual ele torce, e sim com a sacana intenção de evitar que o seu maior rival, de repente, conquistasse mais um adorador. A tática para direcionar o interesse do gringo saiu quase por instinto.

Nas rápidas conversas travadas com o estrangeiro que fazia pouco havia se mudado para o Brasil o futebol tinha se tornado assunto cada vez mais frequente. E o tal homem, recentemente inserido nessa nossa sociedade, ao que tudo indica, não teve a menor dificuldade para sacar que estava ali a chave para se enturmar, para entrar de vez nos papos mais animados do botequim que ele costumava frequentar com moderação discutível. Mas deixemos de rodeio e vamos direto ao que interessa nessa conversa.

No dia da final do Campeonato Paulista, com a cidade tomada de vez pelo clima de decisão, o papo na passagem pela portaria se estendeu além do normal. O gringo se mostrou um tanto dividido. O zelador não pensou duas vezes:

_Corinthians nunca. Não faça isso É a pior coisa que existe! Se afaste, se afaste!

Mal intencionado, mas de alma bondosa, o rei da guarita não encontrou coragem para sugerir que ele não se deixasse levar pelo momento decisivo e passasse a prestar a atenção num tal time do Parque Antártica porque o filme da goleada para o Coritiba não lhe saia da cabeça e ele se convenceu de que isso não era coisa que se faça.

Com certo esforço, é verdade, argumentou a favor do Santos. Disse se tratar de um time simpático, que estava jogando bem e que, ao que tudo indicava, era sério candidato ao título paulista. Imaginou que a oferta de uma alegria fácil poderia cooptá-lo de vez. Se o gringo não viraria palmeirense pelo menos corintiano também não iria ser.

Quando sacou que a conversa ia mesmo além do esperado se surpreendeu com alguns comentários do finlandês, que semanas atrás tinha confessado pouco ter visto futebol na vida. Elogiar a habilidade de Neymar era chover no molhado, mas enaltecer o posicionamento e o poder de marcação do Jonathan parecia além da conta. O cara só podia estar tomando umas aulas de bola. Não era possível.

Aproveitou a deixa e puxou a conversa pro seu lado. Perguntou, cheio de esperança, se o estrangeiro já tinha visto o Valdívia jogar. Mas o gringo fez uma cara de quem não sabia do que se tratava. Fechou o semblante. O zelador o socorreu, tentou explicar. O gringo quase teve uma convulsão. Enrolou a língua pra tentar dizer o tal nome e tudo que conseguiu pronunciar foi algo parecido com:

_ Vôdivia!? ......

Desencantado o palmeirense despistou. Disse que se tratava de um bom jogador que, infelizmente, ainda não tinha encontrado seu melhor futebol. E secretamente se auto-sacaneou pensando que se ele ainda não tinha encontrado devia ser porque não sabia onde o tinha deixado.

O finlandês ouviu tudo com muita atenção. Não prometeu torcer para o Santos e nem deu alguma pista de que tinha entendido como devia ficar longe do Corinthians. Mas não partiu sem antes contar algumas aventuras vividas como volante de um time formado por alguns amigos da empresa marítima para a qual trabalha. Deixou no ar uma insinuação de que tinha deixado de ser um leigo no assunto. O zelador estava quase acreditando naquele semi-discurso quando veio a frase fatal:

_ Bom, Palmeiras, Corinthians. É tudo igual!

O zelador se despediu, com respeito. Mas em silêncio lamentou que o gringo não tivesse entendido absolutamente nada.

_ Palmeiras, Corinthians, tudo igual. Vê se pode? - disse indignado o zelador quando terminou de me contar a história.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

A bola está com a Dilma

Em matéria de política as notícias não têm sido nada alvissareiras. Em caso de dúvida dê um passeio pelas páginas que tratam do assunto e tire as suas próprias conclusões. Tão desoladoras quanto elas têm sido os fatos envolvendo o futebol e a política. Na era Lula os nossos dirigentes nadaram de braçada e ganharam motivos de sobra para espantar os fantasmas outrora saídos de uma CPI que acabou esvaziada mas que serviu para expor os horrores escondidos no ventre do futebol nacional.

Entre as tantas ajudas dadas pelo ex-presidente aos cartolas está, inclusive, a assinatura de uma medida provisória autorizando o Corinthians a fazer parte da loteria batizada de Timemania mesmo depois do clube ter perdido o prazo de inscrição. Foi por isso que dias atrás o título de uma matéria que encontrei na internet me chamou a atenção.

O título dizia: "Estilo Dilma contrasta com "boleiragem" de Lula e já vira obstáculo para cartolas". O texto afirmava que os envolvidos com a Copa de 2014 eram os mais atingidos por essa mudança de estilo. Afirmava ainda que "o tom agora" era " mais de cobrança do que ajuda incondicional". É pouco eu sei. Mas talvez se trate da melhor notícia envolvendo futebol e política que eu li nos últimos tempos. Uma pena se tratar mais de uma versão do que, provavelmente, de um fato.

Eu estava no Palácio do Planalto em 2008 quando Lula recebeu os primeiros brasileiros campeões do mundo em um evento para celebrar os cinquenta anos do feito. Durante quase uma hora Lula costurou os principais momentos daquela conquista, com suas impressões pessoais e amarrou todas essas coisas com elogios individuais, sem deixar um deles sequer sem uma citação entusiasmada. Tudo com cara de improviso. Lance de mestre.

Na ocasião prometeu a todos uma aposentadoria que ainda não veio, e nem sei se deveria. O que eu sei é que promessa é promessa e não se deve fazer sem a certeza de poder cumprir. E isso nada tem a ver com religião, hein? Lula conquistou todos ali, estava claro no rosto de cada um, fossem eles jogadores ou não.

A oportunidade de acompanhar o ex-presidente de perto ao longo dos seus mandatos não tive, mas não creio cometer pecado se disser que naquele momento o seu discurso "boleiro" atingiu o auge. Em razão desse histórico de cumplicidade entre a nossa maior autoridade e os nossos dirigentes é que dar de cara com um título desses renovou em mim alguma esperança. Poder imaginar os nossos cartolas receosos de levar uma virada me alegra.

Dilma pode até não marcar o gol, mas o simples fato de deixar claro quem está com a bola já me faz levantar entusiasmado na arquibancada. E digo mais, não resta dúvida de que a trama que trouxe a Copa de 2014 para o Brasil é o resultado mais palpável dessa relação que se estabeleceu entre o poder executivo e os poderosos do mundo da bola. Eles têm muito em comum. Não deve ser por acaso que dos vinte e sete partidos em atividade no Brasil dez deles são presididos pelas mesmas pessoas há mais de uma década, alguns há mais de duas.

Só um louco para não levar em conta que na hora da festa todos os envolvidos farão questão de receber de volta as ajudas e os louros por ter jogado na defesa de tão custoso e problemático espetáculo. Dilma, ao tratar o assunto com o tom gerencial que ele exige, dá pistas de que poderá se revelar um tipo de jogadora que Lula não foi.

Melhor que isso só mesmo se fosse possível trocar as nossas eleições presidenciais de ano. Do contrário, teremos eternamente que lidar com essa realidade perversa que coloca no mesmo calendário a Copa e as eleições. Futebol e política quanto mais distantes melhor. Não para eles, claro, mas para nós.