Mostrando postagens com marcador categorias de base. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador categorias de base. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 23 de setembro de 2025

O destino do talento



Se tem uma coisa para a qual a última janela da transferências serviu foi para mostrar que o futebol é mesmo um mundo à parte. Sabemos disso faz tempo, mas neste momento em que guerras e chantagens tarifárias colocam o planeta em ebulição e testam a lucidez da economia poderia ser até normal a constatação de que o período de negociações de atletas foi o maior da história, afinal, o mercado tem dessas, é um monstro insaciável que exige sempre que as cifras não se acomodem custe isso o que custar. Mas ocorre que os cinquenta e três bilhões que foram movimentados, segundo a FIFA, representaram um crescimento de cinquenta por cento em relação ao mesmo período do ano passado. Um desempenho que deve causar inveja em muitos investidores graúdos por esse mundão afora.  

Desse montante , dezesseis bilhões foram investidos pelos ingleses, que também foram os que mais venderam atletas, seguidos por Portugal e, vejam, pelo Brasil. E é aí que eu quero chegar porque ainda que comprar e vender seja do jogo, são ações com consequências infinitamente distintas. E ainda que eu tenha pra mim que boa parte das vezes nossos clubes comprem muito mal é na hora de vender que em geral se torna explícita nossa falta de apuro para esse tipo de negócio. Já posso imaginar um mandatário qualquer, com ar de enfado, tentando me explicar que o futebol aqui nestas terras tem suas peculiaridades e se a gente não vende as contas não fecham. A quem eu responderia, com uma inocência sacana, que se a nossa realidade continua sendo essa depois de passadas tantas décadas - e em termos tão gritantes - é porque administrativamente mal evoluímos. 

E mesmo os clubes bem sucedidos da hora, para os quais esse argumento que sugere uma corda no pescoço já não faria sentido, poderiam muito bem ser colocados na prateleira dos que nem sempre compram bem, ou dos que aceitam pagar muito. Mas como a economia do futebol é tão singular, se é que me entendem, essas suposições sempre se verão fundadas em terreno movediço. Já sobre as vendas, usando a memória dos fatos, talvez seja mais fácil encontrar uma base sólida para ancorá-las. Vamos ao caso do jovem atacante do Santos, Luca Meirelles, de dezoito anos, vendido para o já conhecido porto de talentos brasileiros chamado Shakhtar Donetsk, da Ucrânia. Destino que teve também o jovem Lucas Ferreira, do São Paulo. A grita das duas torcidas foi grande, e não era para menos. No caso do tricolor, as negociatas desse tipo, digamos, precoce, levaram também Henrique Carmo e Matheus Alves, ao CSKA da Rússia. Tão similar quanto o perfil das mercadorias é o perfil dos compradores. O que nos leva a crer que nesse meio difícil mesmo é driblar o caminho da grana. 

E nem vou cair naquele lugar comum e dizer que esse tipo de negócio drena o talento do futebol  brasileiro. Ou apontar que o Palmeiras, ao vender o zagueiro Vitor Reis, de dezenove anos, para o Manchester City, no último janeiro, o fez por um valor praticamente igual ao que o São Paulo amealhou vendendo cinco das suas joias. E por falar em Palmeiras, dias atrás a transação feita com um outro jogador do time alviverde voltou a escancarar como é manjada a rota que muitos times brasileiros reservam aos seus talentos. Vendido ao tal Shakhtar um ano e pouco atrás por treze milhões de euros, o ponta Kevin acaba de sair de lá para o Fulham, da Inglaterra, por quarenta milhões. Outro negócio da China, como diriam em outros tempos. E não venham me falar de tudo que o Shakhtar conseguiu nos últimos anos, que passou a ter alguma relevância no mundo da bola porque, muito além das questões esportivas, não entra na minha cabeça que venha a ser ideal mandar garotos para países em guerra. O talento deles deveria ser mais bem tratado, mas o destino deles mais ainda.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Quem tem futuro?



Esse tem futuro! Faz tempo que não ouço essa frase e temo que não deva ser por acaso. Como tenho a impressão de que não preciso dar muitos detalhes, pois estou convencido  de que em algum momento você já a tenha ouvido e saiba muito bem do que estou falando.  Mas, se  por ventura lhe for desconhecida, saiba que era um tipo de saudação que se fazia quando se dava de cara com algum traço de talento -  ou coisa que o valha - em alguém ainda jovem. E, embora esteja colocada aqui no masculino, é claro que o futuro nunca fez a menor distinção entre homens e mulheres. 

O triste dessa constatação é ter comigo a mais pura convicção de que o talento segue por aí. Cada vez mais sufocado. Obviamente, por ofício, costumo falar de esporte, mas a reflexão vale para outros campos. Em especial o das artes, que já vinha sendo minado bem antes dessa pandemia dar as caras. Assim como está sob ataque a ciência de quem, vejam como são as coisas, dependemos tanto neste momento. Vivemos num país que mesmo enquanto esteve, supostamente, sadio, jamais foi capaz de colocar em prática um projeto nacional de esporte.  Difícil crer , portanto, que o fará a partir de agora. 

Como não me espanta que em meio a tamanha expectativa sobre o que será do futebol brasileiro eu tenha demorado tanto para dar de cara com uma manchete que fosse a respeito das categorias de base. E quando dei de cara com uma fui informado de que boa parte dos clubes levam em conta retomar as competições menores só no ano que vem. Nisso fecham questão. Em outras palavras, para os nossos dirigentes quando se trata da base, pelo visto, não há urgência. Não que deveria. Mas como eu gostaria de acreditar que estão dispostos a agir assim por questões humanas, ou por preocupação com o próximo. Na realidade é o momento nos dando um contorno mais nítido do que o que o futebol sempre reservou aos que orbitam em torno dele, aos que ainda não alcançaram o estrelato. 

Aposto que você, como eu, se é simpático ao tema, em algum momento da temporada passada, por exemplo, andou convencido de que o nosso futebol feminino estava vivendo um bom momento. E nunca é demais lembrar: constatação que só se fez possível porque de uma hora para outra os fatos obrigaram os manda-chuvas a colocar os cartolas contra a parede e exigir deles investimentos na modalidade. Detalhe que não deve ser esquecido. Se a coisa andou foi por obrigação, com raríssimas exceções. Mas que progresso é esse se  temos tido notícias de times femininos sem uma estrutura mínima, que mal conseguem treinar, e cujas jogadoras - pelo que foi noticiado - aqui e ali têm sido as últimas a ver a cor da grana que a CBF andou mandando para ajudar as equipes? Isso é , ou não é, esmagar o talento?  

Sem falar de outras modalidades com papel pra lá de nobre em nossa história esportiva, como o vôlei e o basquete, onde nem seria preciso chegar à base para constatar que tudo está um tanto em ruínas. Ora, se o vôlei brasileiro , com toda a sua excelência, já vinha convivendo com grandes desafios financeiros, com times deixando de pagar salários, extinguindo equipes, o que pode esperar o praticante de modalidades que sempre estiveram à margem da grande mídia? Não, não é o acaso que fez evaporar a velha frase. Como não foi o acaso que fez tão pertinente nesta hora perguntar: quem tem futuro? 

* artigo escrito para o jornal " A Tribuna", de Santos/SP