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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

O futebol é ilusão



Uma das coisas que mais me intrigam é porque mesmo tendo praticado tantos esportes quando garoto nunca pensei em fazer dele profissão. No cerne de tudo estava o divertimento, e só. Era assim quando acordava de madrugada para ir com um amigo de classe às aulas de remo. Foi assim quando a molecada descobriu o surfe e cedo ia em bando para a praia. Era assim nos tempos da natação. E tudo isso, claro, me veio depois de ter descoberto o prazer de jogar bola. Essa questão voltou à minha cabeça insistentemente quando comecei a trabalhar como repórter. Ia cobrir um treino e ficava , muitas vezes, curtindo uma inveja boa de quem estava ali trabalhando e ao mesmo tempo cuidando do corpo - e por tabela da cabeça. 

O vôlei foi dos esportes mais longevos na minha vida. Vieram os campeonatos, a possibilidade de disputar uma edição dos jogos abertos. Mas era como se tudo se encerrasse ali. Pensando bem pode haver uma explicação muito simples pra tudo isso: a ausência de um talento desses  que costumam mudar o destino das pessoas. Já contei aqui que a única vez que flertei com essa possibilidade foi depois de meu pai ter visto meus cotovelos inchados de tanto fazer defesas nas peladas que travávamos no chão duro da garagem do prédio em que morávamos. Deu-me uma bronca e em seguida me perguntou porque não ia jogar bola na praia. E avisou que se era assim iríamos arrumar um time - e consequentemente um campo - pra eu treinar. 

Foi uma das mais breves possibilidades da minha vida. No sábado, quando chegamos ao treino, enquanto meu pai conversava com o treinador e explicava a situação vi o garoto que jogava no gol fazer três defesas incríveis. E todo o devaneio a respeito de um caminho repleto de glórias como arqueiro evaporou. Andei lembrando disso tudo dias atrás adivinhem por que? Dei de cara com uma manchete, oras. Sim, estou obcecado por elas. A dita versava sobre a trajetória do atacante Yuri Mamute, que muito jovem foi alçado à essa condição tão perigosa de craque prestes a ser revelado para o mundo. Tinha dezesseis anos quando viu cair sobre ele esse fardo de ser uma grande promessa do nosso futebol. Com toda a tentação que realidades assim certamente escondem. 

E a vida seguiu com todos os requintes precoces que costumam por à prova uma maturidade que inexiste. Yuri foi convocado para umas das nossas seleções de base. Foi campeão. Laureado como o melhor jogador de um dos torneios mais prestigiosos do mundo na categoria. Coisas que deveriam bastar para tirar alguém do lugar comum. Mas apesar de tudo isso, ele diz com todas as letras que se desiludiu. Hoje cita as oportunidades que não teve, que o futebol ainda assim não lhe deu. No meio do caminho deu de cara com algo infinitamente mais presente no futebol do que o sucesso: a contusão. 

Foi parar no futebol grego, no Japão. Voltou ao Brasil. Hoje está no Joinville. Onde tem vivido a alegria de fazer gols. Essa coisa tão desejada e que em se tratando do jogo de bola sempre foi o melhor dos combustíveis. Consagrado, ou não, ter o esporte em nossas vidas, quero crer, já é um tipo de vitória. E que os que sonham com ele e não ficariam satisfeitos com algo menor do que a glória levem em conta o que ele tem de sublime, mas que levem em conta também o que ele tem de dor. E aí já não importa que seja verdadeira, ou não, a frase dita por Mamute que me fez de novo aqui escravo de uma manchete. A frase era: O futebol é ilusão. Mas qual de nós viveria sem ela?   

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

O VAR só perde pro PIB



Tenho tentado driblar o assunto. Juro. Mas ele teima em se impor. Nas últimas rodadas do Brasileirão foi de longe o que provocou as discussões mais fervorosas. Nem em momentos de pura cornetagem em cima desse ou daquele jogador  foi possível notar veias tão estufadas. E não é pra menos. É coisa que mexe com o humor não só do torcedor, mas com o de todo mundo que de uma forma ou de outra está envolvido nesse circo. Enfim, cedi. Mesmo ciente de que de chato já nos basta o jogo, com exceções cada vez mais raras.  E não se trata de falar mal do árbitro de vídeo, não. 

Temos padecido de algo, creio, que já sabíamos, mas que de alguma forma nos envolvia numa fantasia. A fantasia de que o VAR teria a desejada virtude de ser conclusivo a respeito do jogo. Essa é a primeira questão que gostaria de abordar. Seria preciso - como diria meu amigo Xico Sá - fazer a geringonça tecnológica vestir as sandálias da humildade. Admitir, em certos casos, que mesmo dispondo de tantos recursos não é possível chegar a conclusão alguma. Essa deveria ser a lição deixada pela imagem que levou à anulação do gol de Luciano para o São Paulo diante do Atlético, em pleno Mineirão. Como aquele já estivemos diante de outros lances da mesma complexidade. 

A pena de não ter a coragem de em certas situações tomar tal atitude, aceitar que não é possível ser preciso na análise, é nos condenar eternamente a essa ladainha, que vai se repetir fatalmente. Vira e mexe virá nos assombrar. O tema é complexo. Lembrarão alguns que na jogada em questão o bandeirinha tinha apontado impedimento. Ou seja, sem o árbitro de vídeo o desfecho teria sido o mesmo. A  menos que o árbitro de campo tivesse tomado a decisão de desautorizá-lo. Ato que o faria comprar uma briga daquelas. Um outro detalhe merece reflexão. A forma como tem sido feita a escolha que define quem irá ocupar o posto de árbitro de vídeo. 

Se o escolhido tem trajetória e reputação mais expressivas, mais nome do que aquele que terá a missão de estar no gramado, a situação inevitavelmente fica desconfortável para o dono do apito. E a indução a uma certa forma de ver o ocorrido muito provável. Questão fácil de ser identificada pela Comissão que cuida da arbitragem. No mais, não deve nos causar surpresa que as decisões oriundas da cabine, muitas vezes, deixem transparecer uma quedinha para os grandes. A vida dos times pequenos nunca foi fácil. 

Imaginar que o VAR iria neutralizar essa (como definir?) tendência, pelo visto, é raciocínio tão ingênuo quanto imaginar que o árbitro de vídeo teria o efeito milagroso de arrefecer as polêmicas. O VAR, esse nosso pelo menos, que segundo levantamentos demora quarenta e seis por cento mais tempo do que recomenda a FIFA para tomar decisões, e cujas intervenções da última temporada para essa cresceram bizarros sessenta e oito por cento, precisa urgentemente de um bom analista. Ou quem acabara no divã seremos nós. Mais assustadores do que  esses números do nosso VAR tupiniquim só mesmo os que indicaram a queda vertiginosa do nosso PIB. 

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Quem tem futuro?



Esse tem futuro! Faz tempo que não ouço essa frase e temo que não deva ser por acaso. Como tenho a impressão de que não preciso dar muitos detalhes, pois estou convencido  de que em algum momento você já a tenha ouvido e saiba muito bem do que estou falando.  Mas, se  por ventura lhe for desconhecida, saiba que era um tipo de saudação que se fazia quando se dava de cara com algum traço de talento -  ou coisa que o valha - em alguém ainda jovem. E, embora esteja colocada aqui no masculino, é claro que o futuro nunca fez a menor distinção entre homens e mulheres. 

O triste dessa constatação é ter comigo a mais pura convicção de que o talento segue por aí. Cada vez mais sufocado. Obviamente, por ofício, costumo falar de esporte, mas a reflexão vale para outros campos. Em especial o das artes, que já vinha sendo minado bem antes dessa pandemia dar as caras. Assim como está sob ataque a ciência de quem, vejam como são as coisas, dependemos tanto neste momento. Vivemos num país que mesmo enquanto esteve, supostamente, sadio, jamais foi capaz de colocar em prática um projeto nacional de esporte.  Difícil crer , portanto, que o fará a partir de agora. 

Como não me espanta que em meio a tamanha expectativa sobre o que será do futebol brasileiro eu tenha demorado tanto para dar de cara com uma manchete que fosse a respeito das categorias de base. E quando dei de cara com uma fui informado de que boa parte dos clubes levam em conta retomar as competições menores só no ano que vem. Nisso fecham questão. Em outras palavras, para os nossos dirigentes quando se trata da base, pelo visto, não há urgência. Não que deveria. Mas como eu gostaria de acreditar que estão dispostos a agir assim por questões humanas, ou por preocupação com o próximo. Na realidade é o momento nos dando um contorno mais nítido do que o que o futebol sempre reservou aos que orbitam em torno dele, aos que ainda não alcançaram o estrelato. 

Aposto que você, como eu, se é simpático ao tema, em algum momento da temporada passada, por exemplo, andou convencido de que o nosso futebol feminino estava vivendo um bom momento. E nunca é demais lembrar: constatação que só se fez possível porque de uma hora para outra os fatos obrigaram os manda-chuvas a colocar os cartolas contra a parede e exigir deles investimentos na modalidade. Detalhe que não deve ser esquecido. Se a coisa andou foi por obrigação, com raríssimas exceções. Mas que progresso é esse se  temos tido notícias de times femininos sem uma estrutura mínima, que mal conseguem treinar, e cujas jogadoras - pelo que foi noticiado - aqui e ali têm sido as últimas a ver a cor da grana que a CBF andou mandando para ajudar as equipes? Isso é , ou não é, esmagar o talento?  

Sem falar de outras modalidades com papel pra lá de nobre em nossa história esportiva, como o vôlei e o basquete, onde nem seria preciso chegar à base para constatar que tudo está um tanto em ruínas. Ora, se o vôlei brasileiro , com toda a sua excelência, já vinha convivendo com grandes desafios financeiros, com times deixando de pagar salários, extinguindo equipes, o que pode esperar o praticante de modalidades que sempre estiveram à margem da grande mídia? Não, não é o acaso que fez evaporar a velha frase. Como não foi o acaso que fez tão pertinente nesta hora perguntar: quem tem futuro? 

* artigo escrito para o jornal " A Tribuna", de Santos/SP