quarta-feira, 20 de abril de 2016

Viva a audácia !



Os jogadores de talento discutível que há tempos andam se dando bem na cruel triagem imposta àqueles que se entregam ao sonho de jogar bola têm contribuído deveras para o empobrecimento do futebol. Mas vendo no último domingo a partida entre Audax e São Paulo dei de cara com o que precisava pra afirmar categoricamente que, nesse sentido, a falta de audácia tem sido ainda mais corrosiva. E se digo audácia falo da tendência que um indivíduo pode cultivar de empreender ações difíceis, dando uma banana para os perigos que essa escolha representa. Bastariam alguns erros para que o toque de bola do Audax virasse motivo de piada. Estamos todos cansados de saber que a ausência de resultado é tão ou mais cruel do que os critérios que têm selecionado nossos jogadores e técnicos. 

Mas não é de hoje que o treinador Fernando Diniz se mostra disposto a driblar o lugar comum. Tem craques pra fazer isso? Definitivamente, não. Os que viram o jogo como eu devem ter se pegado em dado momento segurando a respiração ao ver o goleiro na pequena área se negando a meter o pé na bola e aceitando o desafio de tirar o adversário do lance fazendo uso da ginga. Até o comentário do narrador no segundo seguinte deixava entrever um riso nervoso. Olha, digo a vocês que mesmo se vier a eliminação no jogo com o Corinthians a obra está feita. Basta a coragem de ter negado o lugar comum, esse feijão com arroz que tem mexido com a nossa paciência nas tardes de domingo. Mas têm alguma outra coisa ali. Algo que transcende a visão tática. 

E a prova disso não reside no fato de que o Audax foi o único time capaz de neste momento figurar ao lado dos  grandes. Reside na constatação de que diante do São Paulo o Audax foi mais confiante. Ou não é necessário uma imensa confiança para não meter o pé na bola quando o adversário chega bufando pra te marcar perto da linha da grande área? Tem muito medalhão por aí que nessa hora não ia nem lembrar do que andou falando o professô. 

Atento às questões do homem, formado em psicologia, Fernando Diniz dá a impressão de ter convencido totalmente seus jogadores de que o caminho apontado por ele vale o risco. O Audax pode não chegar à decisão do título. Pode sofrer todas as penas, ser eliminado, futuramente rebaixado até. Mas está claro que Diniz foi capaz de dar uma identidade ao time que dirige. E tem muito treinador consagrado aí, na beirada do campo, que até hoje não foi capaz de montar um time cujo jeito de jogar pudesse ser tido como sua assinatura. Talvez fosse o caso de se criar nos torneios de futebol um prêmio por inovação. E se você achar que eu tô exagerando, tudo bem, podemos premiar o Audax só pela audácia.   


Foto: Rubens Chiri / sãopaulofc.net

sexta-feira, 15 de abril de 2016

A pequena dúvida: Nós realmente ganhamos a Copa do Mundo ?



Não há enredo mais rocambolesco e que tenha alimentado tantas teorias conspiratórias como a final da Copa do Mundo de 1998. A convulsão de Ronaldo, as cenas mostrando um Ricardo Teixeira pra lá de apressado descendo as escadarias do Stade de France rumo ao vestiário brasileiro. A fúria de Edmundo, que diante dos acontecimentos virara titular por uma breve fração de tempo mas que, por decisões superiores, acabaria novamente na condição de reserva. Um drama que começou a se desenhar bem antes do placar apontar três a zero para os donos da casa. E não é que quando toda a poeira já tinha baixado nos aparece o meio-campista, Petit, perguntando se eles, os franceses, foram mesmo campeões mundiais ? 


Mas que dúvida poderia alimentar o sujeito se foi ele mesmo o autor de um dos gols naquele doze de julho? A dúvida é cruel, corrosiva, nos persegue feito sombra. E Petit a justifica dizendo que diante de tudo que está acontecendo agora ele se vê quase obrigado a perguntar a respeito. E está coberto de razão. Foi-se o tempo em que o futebol podia se esconder atrás de uma aura de seriedade. Hoje não, as notícias insistem em nos revelar as entranhas econômicas dele e, ao mesmo tempo, só fazem aumentar as nossas dúvidas a respeito do jogo. E isso nos faz colocar os pés em uma fronteira. Uma fronteira que definitivamente não queremos atravessar. Fronteira porque se um dia chegarmos a esse ponto teremos bezuntado toda a linda história do futebol mundial com o betume da farsa. Notem


Quando todas as negociatas envolvendo os direitos de transmissão vieram à tona se não chegaram a causar espanto foi porque no fundo, no fundo, sabíamos que isso era possível. O espanto nascia da constatação de que alguém, finalmente, iria provar o que nunca havia passado de suspeita. Tratava-se já de uma possibilidade dita à boca pequena. Com a lisura dos jogos não é diferente. Ou não paira no ar a sensação de que tudo é possível? Não é difícil entender o campeão francês quando diz que tem andado assustado, que vem se tornando um paranoico.


Petit ainda citou um penalti dado para o Brasil no jogo contra a Croácia em 2014. Um lance que não levou o Brasil a lugar nenhum. Para os dados a ver fantasmas eles estarão muito mais visíveis na Copa de 2002, justamente a que se seguiu à da França. E sobre a qual muito se dizia e disse. Sujeito desconfiado que sou chego a pensar se a declaração do francês não teria a intenção de deixar claro que ele nunca soube de nada, ou se ele anda perdendo o sono de verdade por achar que pode descobrir dias desses ter sido apenas um homem a encenar em campo um teatro comandado por poderosos. A dúvida de Petit nos serve, antes de tudo, para questionar o essencial, o tamanho da credibilidade do futebol nos dias atuais.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Eles não estão nem aí !


Assuntos são muitos. Um que é parte do passado não sai da minha cabeça por muito dizer sobre o futuro. Falo do discurso do novo presidente da FIFA durante visita à América do Sul. Foi daquelas coisas que fazem a gente se sentir meio trouxa por ainda acreditar vez ou outra que o caos forçará mudanças. As palavras de Gianni Infantino foram de um vazio imenso. Disse que é preciso que as reformas que se aplicaram na Fifa sejam também aplicadas aqui. Difícil imaginar a FIFA reformada, mas... prometeu até enviar pra cá pessoas para esse fim. Sobre a CBF afirmou que se trata de uma entidade que teve problemas. Assim mesmo, no passado. 

Enquanto isso os Panamá Papers vão fazendo a polícia bater à porta da UEFA. Vão fazendo o próprio Infantino ficar sob a mira. Vão obrigando o presidente do Peñarol a deixar o cargo no Comitê de Ética da FIFA. Mas está aí o ex-figurativo presidente da CBF pra provar que nem só de dribles vivem os discursos. Eles também dizem verdades. Ou quando Antônio Nunes disse que o Brasil tinha muito a ganhar com a eleição de Infantino não falou a verdade? Bem, sabe-se lá. Nesta quinta Infantino não estará no sorteio das chaves para os Jogos do Rio. E isso tem sido visto como prova de que a relação anda azeda. No fundo eles não estão nem aí. Têm outras grandes preocupações. 

Mas eu aqui tenho pensado bastante nessa questão do Neymar. E estou convencido de que se ele for só à Olimpíada não tem do que reclamar. É o filé! Há o ineditismo desse ouro que nos desafia. Os Jogos têm um alcance planetário, serão disputados em casa e comportam até certa curtição, ainda que as estrelas do futebol costumem ficar longe da Vila Olímpica. Preocupado deve ficar o Dunga. Pois pra ele tudo muda. A dose de Neymar autorizada claramente lhe impõe limites. Imaginem vocês que o Brasil conquiste o ouro. Dunga estaria redimido. É! Mas primeiro virá a Copa América e depois a Olimpíada. E se na Copa América a seleção voltar a mostrar aquele futebol sem brilho é provável que Dunga não chegue até lá. 

Qualquer ausência de Neymar o faz perder parte do oxigênio que ainda tem pra gastar. Talvez fosse o caso de pensar melhor. Deixar que Rogério Micale tocasse o rolo com os meninos. Evitando, por exemplo, sair vivo da Copa América e, em seguida, colocar tudo a perder caso o time olímpico naufrague. Ele que fique sabendo desde já que mesmo se conquistar o ouro não estará livre de ouvir dos críticos que Micale teve um bom quinhão nisso. E não poderá dizer que não é bem assim. Logo, se Dunga não parece ser o homem que salvará nosso futebol, Gianni Infantino não parece ser o homem que irá purificá-lo.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

O jornalismo é imortal ?


Responda, mas antes leia o artigo do Elio Gaspari. Tá na FOLHA de hoje. O link para outros é:  http://bit.ly/1V9G2ky

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A transformação do jornalismo

Numa época em que se discute a crise da imprensa, os "Panama Papers"mostraram mais uma vez que o jornalismo é imortal. Durante seis meses, 376 repórteres de 109 redações em 76 países trabalharam em cima do banco de dados com 11,5 milhões de documentos da fábrica de offshores Mossack Fonseca e estremeceram a banca e a política mundiais com seus achados. Não houve qualquer vazamento, por mínimo que fosse.

O jornalismo não acaba porque se transforma. Sabe-se lá quando ele começou. Talvez tenha sido quando um macaco fez sinal para outro avisando que havia um leão atrás do arbusto. Quando seu negócio é a notícia, torna-se imortal.

Nos "Panama Papers" a primeira mudança aconteceu quando uma fonte ainda desconhecida entregou ao jornal "Süddeutsche Zeitung" o arquivo de 2,5 terabytes com operações do escritório panamenho de 1977 a dezembro de 2015. O jornal não poderia digerir o material e procurou um parceiro. Achou-o no Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, o ICIJ, um braço do Center for Public Integrity, organização sem fins lucrativos criada pelo repórter Charles Lewis em 1989 e sediada em Washington. Ele trocou uma carreira bem sucedida nas redes de televisão pela de fiscal de malfeitorias. Ninguém dava nada pela ideia.

Enquanto a crise da imprensa é acompanhada pelo noticiário econômico (um bilionário mexicano comprou um pedaço do "The New York Times", Jeff Bezos arrematou o "Washington Post", os japoneses levaram o "Financial Times"), no mundo da notícia abre-se um novo caminho, o dos consórcios de repórteres e publicações. Tem ao seu lado uma revolução tecnológica.

Os documentos da Mossack Fonseca são de uma espécie que remonta aos famosos "Pentagon Papers", de 1971. Naquele episódio um analista do Departamento de Defesa passou meses copiando 47 volumes, gastou US$ 20 mil. Em 2009, um soldado americano enviou 750 mil telegramas oficiais ao site WikiLeaks. Quatro anos depois, um ex-funcionário da CIA mandou ao repórter Glenn Greenwald (que mora na Gávea) os documentos que expuseram os grampos internacionais do governo americano. Tudo isso sem papel ou contato pessoal.

A inovação adicional veio na forma de compartilhamento. Com os 2,5 terabytes dos "Panama Papers", o ICIJ inovou em relação aos casos anteriores. Formou equipes em 76 países para destrinchar os dados e manteve a operação no seu plantel de colaboradores. Nessa fase, todo o trabalho foi mediado por um fórum interno. Inteira novidade e assunto para algum debate. Em maio será divulgada uma parte da base de dados.

Numa ironia geográfica, o escândalo do século 21 veio do Panamá. Durante anos, "panamá" foi sinônimo de roubalheira por causa de outra armação de políticos, bancos e empreiteiras na construção do seu canal, no século 19. O caso explodiu a política francesa. Na origem, como hoje, havia um jornalista.

É a seguinte a equipe brasileira que colabora com o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos: Fernando Rodrigues (membro do conselho da instituição), José Roberto de Toledo, Daniel Bramatti, Rodrigo Burgarelli, Guilherme Jardim Duarte, Isabela Bonfim, André Shalders, Douglas Pereira, Mateus Netzel, Diego Vega e Mauro Tagliaferri. 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Um aviso e uma pérola "de" Prata


Não que este blog receba muitos comentários, longe disso.
Mas se já eram poucos agora são quase nada. Sem querer
apaguei quase todo o histórico de comentários do tal. Peço
desculpas aos que se deram ao trabalho. E aproveito o momento
para sugerir a leitura do último artigo do Antonio Prata.

http://bit.ly/236n9UB

quinta-feira, 31 de março de 2016

Tite na seleção ?


O assunto que aqui vai me ganhou pela sedução. É complexo, desafiador. O que aconteceria - ou acontecerá - se dia desses a CBF decidir encerrar a segunda passagem de Dunga pelo comando da seleção brasileira e fizer um convite ao técnico Tite para que ele ocupe o posto? O assunto mexe com o humor dos corintianos por razões óbvias. E tem sido interessante notar as reações diante dessa possibilidade. Trago comigo duas convicções. A primeira de que mesmo que a CBF decidisse mudar o treinador talvez Tite não fosse o alvo por uma razão muito simples: O estilo da CBF com relação aos treinadores sempre foi o de optar por nomes que sejam, digamos, de composição. Há muita coisa pra se levar em conta quando se trata de escalar um time desse porte. E Tite, claramente, atravessa um momento em que seria difícil convencê-lo de considerar outros detalhes que não a montagem de um time. Fazê-lo aceitar caminhos que confrontassem a visão tática que ele lapidou nos últimos anos e que o tem levado tão longe. 

E a minha segunda convicção reforça a primeira: Tite não seria, como não deve ser, humilde na hora das exigências e, além disso, teria que ser convencido de que o momento é o momento ideal. Qualquer aresta o impelirá a continuar onde está. Lógico que uma eliminação da Libertadores mudaria o quadro atual, mas isso não aparece no horizonte. Por outro lado, Dunga tem a favor dele o fato de que o time brasileiro só voltará a fazer um jogo oficial daqui a dois meses, pela Copa América. E a tendência é de que a poeira levantada pela última rodada das Eliminatórias vá baixando. Ainda que eu  tenha ressalvas a respeito da figura de Dunga como treinador da seleção, reconheço a importância do trabalho que conseguiu realizar quando esteve à frente da seleção pela primeira vez, o que não me impede de acreditar que tê-lo escolhido para uma segunda não tenha sido um enorme equívoco. 

Há momentos em que até a sua veia de líder atrapalha. Talvez se ela não fosse tão pulsante os jogadores pudessem lhe ajudar a encontrar um caminho. Têm estrada, doses de talento. Mas, sinceramente, pelo que tenho visto o que tem acontecido é o contrário. Os jogadores acabam se moldando ao estilo de comando. Foi o que senti ao ler, por exemplo, a declaração do zagueiro Miranda dizendo que " temos que nos unir um pouco mais e jogarmos na base da garra". Se não tivesse lido de quem tinha sido a declaração apostaria que tinha saído da boca do treinador brasileiro. Enfim, na minha opinião o nosso futebol quase deve essa chance ao Tite. Mas ele, se procurado, deveria exigir que ela lhe fosse dada com pompa. Exigindo assumir, quem sabe, só depois da próxima Copa e com direito de permanecer por quatro anos, tendo um ciclo inteiro para trabalhar. Imagino que não seria nada demais. Imagino a apreensão dos corintianos com a possibilidade do convite. E imagino que o presidente alvinegro ao dizer que hoje em dia o Corinthians tem mais a oferecer para o Tite do que a CBF não falou abobrinha, não. E isso, nobre torcida, expõe com incômoda precisão o quanto nossa seleção anda fragilizada.   

Quem tem feito algo pelo futebol?



Muito tem sido feito em nome do futebol. Por ele quase nada. O raciocínio vale pro sujeito que faz do tempo de propaganda algo maior do que o próprio bloco de notícias esportivas, transformando um programa de rádio, por exemplo, em um verdadeiro teste de paciência. Ora, sem os patrocínios não existiria o programa, dirão os espertos. Mas esse é só um detalhe. De repente, o texto foguete não é mais um texto publicitário, gravado com outra voz. Agora está com o locutor, que no lugar da deixa, empolgado, solta algo do tipo: lá vai fulano pela direita para os caminhões tal. Como assim? Para os caminhões tal ? O sujeito ali corre é para o time que defende e, hoje em dia, olhe lá. 

Mas os homens de mercado juram que estão cuidando do produto. E eu vos pergunto: em que planeta um esporte bem cuidado seria tratado assim? Houve um tempo em que pagar uma TV por assinatura te dava o direito de ver o seu time além do sinal aberto. Pouco depois já não bastava. Passou a ser preciso pagar a assinatura e uma outra, a do pay-per-view. Como isso pode ser condizente com algo que se pretende popular, que se fez grandioso sendo popular ? Detalhes que têm minado silenciosamente esse patrimônio cultural brasileiro. 

Não existe acaso quando nossa seleção vira um time comum, ou quando um time do tamanho do São Paulo se apresenta no Pacaembu para dois mil e novecentos espectadores. E nem vamos falar no óbvio, que é a atual pobreza técnica do jogo, mesmo porque é difícil dizer com exatidão se, diante de tudo isso, ela é causa ou efeito. Há mercadores por aí que talvez creiam que o futebol moderno sobreviverá sem a presença do público. E eu não duvido. Eu só duvido é que ele volte a ter a beleza e o apelo que tinha quando levava mais de cem mil ao Morumbi, ao Maracanã. Ainda que isso não fosse a regra como gostam de lembrar alguns. 

Hoje em dia até os que dizem torcer jogam contra. Nos últimos dias times como a Portuguesa, o Palmeiras, o Atlético Paranaense, a Ponte Preta e o Flamengo foram intimidados por supostos torcedores exigindo resultados, como se o jogo de bola fosse uma ciência exata. No caso do time carioca o grupo tinha oito torcedores. Vejam o tamanho da representatividade! Ainda assim, de tão importantes conseguiram uma audiência com o elenco rubro-negro. É por essas e outras que não paro de me perguntar: quem tem feito algo pelo futebol? Johan Cruyff certamente fez !

quarta-feira, 23 de março de 2016

Nossa diversão... e os argentinos!




A Libertadores deu um tempo mas o abacaxi está aí pra ser descascado. Questão de tempo. Voltaremos ao assunto. Antes, lembro que esta semana a diversão fica por conta da seleção brasileira que amanhã entrará em campo pela primeira vez nesta temporada, e pra encarar o Uruguai o que sempre aguça os ânimos. Interessante é notar como a palavra diversão acaba soando esquisita. Que o futebol nos diverte não há dúvida. Mas a falta de arroubo, coisa que ele não tem provocado, e todas as questões pesadas que andam orbitando em torno da seleção nacional têm lhe roubado essa aura divertida. É certo que o grande clássico sul-americano embala o jogo em papel nobre, ainda mais agora que a história recente da celeste se encheu de bons momentos e eles ainda terão de volta o atacante Luis Suárez que anda jogando um bolão. A nós a história recente sugere esperar, no máximo, um bom resultado. Crer em uma apresentação de encher os olhos pode redundar em decepção. E nisso, até Dunga deve concordar já que o próprio não nega que atualmente vivemos pra nos refazer. Veremos. Mas vamos voltar à Libertadores. 

Pelo visto ter três dos últimos quatro campeões da América dirigindo o trio de ferro paulista, como a imprensa fez questão de ressaltar paralelamente à chegada de Cuca ao Palmeiras, pouco significa. Eu continuo intrigado com a velha questão: Se os treinadores argentinos estão mesmo em um patamar acima dos nossos, vide o sucesso deles mundo afora, e se o futebol brasileiro - apesar dessa nossa economia descendo ladeira - paga infinitamente melhor do que os seus vizinhos de continente, qual a razão para termos tantos jogadores sul-americanos por aqui e quase nenhum treinador? 

Tite, até que se prove o contrário, anda fazendo o que se espera de um comandante com esse perfil. Cuca, o Palmeiras foi buscar tarde demais para que se diga, caso o time acabe eliminado como sugerem os números atuais, que ele não deu conta do recado. E o Edgardo Bauza? Duas vezes campeão da Libertadores, El Patón, anda vivendo uma adaptação que mais parece um calvário. Dias atrás pra ajudar o zagueiro Maicon que desembarcou recentemente no tricolor disse que falta compromisso ao elenco são-paulino. Deveria ter ficado calado, mas prefiro encarar o que foi dito como uma absolvição ao treinador argentino que ainda terá dois jogos em casa, apesar de ter jogar a última rodada da fase de grupos contra o The Strongest nas alturas de La Paz. Com míseros dois pontos conquistados nesse momento se o São Paulo vier a se classificar estaremos diante de mais um sinal de que os técnicos argentinos devem mesmo ter algo a ensinar aos nossos.
 

quarta-feira, 16 de março de 2016

O outro jogo


Não sei qual é seu time. Não faço ideia das razões que o levaram a defender as suas cores. Só gostaria de dizer que não me passa esse clima de rivalidade total, quando na verdade o jogo que está sendo decidido é outro e pede mais razão do que emoção. Esse enfrentamento nada tem de majestoso. O espetáculo que hora se revela é tão triste que não há lado que tenha o que comemorar. A realidade é uma só. E evidente. O ingresso está caro pra todos. O serviço que está sendo entregue é de revoltar. Os encarregados de colocar em prática a melhor tática pro momento estão tentando salvar a própria pele e só. Alguns com a cabeça à prêmio. E caso decidam gritar seu descontentamento saibam, de antemão, que burro nesse caso é adjetivo que não cabe. 

E já que entramos no assunto, vamos jogar o jogo. O que me preocupa é que o tempo passa, que quando olhamos ao redor  tudo o que podemos vislumbrar é esse nada novo deserto de homens. Isso mesmo, nesse campo não há um Neymar pra desequilibrar. Não há pra quem tocar a bola. E não há, portanto, o que nos faça acreditar na  possibilidade de virar esse bendito jogo com a rapidez que a situação exige. E agora? Bom, agora as janelas se encheram de bandeiras. Mas torcemos imbuídos de um nacionalismo esquisito, duvidoso até. Não que não haja beleza quando, num domingo qualquer de um final de verão, a torcida decide entrar em cena com todo o ânimo. 

O sufoco está aí, nada tem de irreal. Aumenta a olhos vistos. Mas como há sempre uma lição pra se tirar de tudo é bem possível que a iminência dessa derrota que nos assombra nos faça aprender que futebol é só futebol. O jogo, o jogo pra valer é esse outro. Obviamente sei bem como seria pobre ter uma torcida sem convicções, sem ideologias, sem crenças. Nessa hora o temor, o meu temor, é que lá no fundo - nesse outro jogo - somos todos torcedores de um mesmo time. Mas aí olho ao redor e vejo que a torcida se dividiu. Rachou ! 

E rachou sem ser capaz de criar, ao menos,  algumas nuances em cada uma dessas divisões. O que espelharia algum tipo de riqueza, que não fosse só essa riqueza desde sempre arrancada à força do nosso chão. Seria o mínimo. Mas seria mais do que temos, ou não seria? E como é impossível deixar esse jogo, como é impossível fazer substituições sem pagar um preço, prefiro manter intacta a minha mania de sonhar e seguir acreditando que uma hora dessas essa torcida imensa ainda vai dar liga. E aí, ai de quem ousar não atendê-la


Foto: Dirceu Portugal / La imagem

quinta-feira, 10 de março de 2016

Em dívida

Dessa vez chego pra dividir com vocês certa angústia. É que faz tempo ando prometendo pra mim e para o pessoal aqui da redação escrever algo sobre um jogo de futebol. Desafio que serviria também para driblar minha queda pelas coisas que orbitam em torno dele. Queda que é grande, vocês sabem. Mas não é só a intenção de driblar essa minha tendência que justifica a causa. Tenho pra mim que o embate em campo deve ter seu espaço garantido. Ele é o nascedouro de tudo que faz o futebol ser o que é. O entrave, no entanto, o leitor bem sabe qual tem sido. Os benditos jogos que pouco nos tem dito em termos de emoção e beleza. 

Tempos atrás quando Corinthians e São Paulo fizeram o primeiro clássico da temporada confesso ter esperado algo que merecesse registro. Nada! Nem mesmo o embate da Vila no último domingo deu caldo grosso, apesar de Ricardo Oliveira ter se oferecido como um personagem instigante. E ver de um dos lados do campo um time misto sempre joga contra o espetáculo. Desse Palmeiras que tem sido a grande questão da crônica esportiva nos últimos tempos o que dá pra dizer é que a euforia de um título nacional conquistado sem o mínimo favoritismo - e com um mínimo de futebol - somada a uma insistente veia capitalista, fez o torcedor alviverde se iludir. Compras aos montes geraram uma euforia, mas meio parecida com aquela que se tem ao empunhar um cartão de crédito. E some-se a isso o fato de que o time estava nas mãos de um técnico bicampeão brasileiro. Pra ser claro, o descontentamento que os palmeirenses por hora experimentam não é fruto somente de um time acanhado técnica e taticamente, é a desilusão de quem descobre que andou esperando demais. 

Não por acaso o Corinthians dá outra impressão. O time ao ser desmontado preparou o torcedor alvinegro para o pior. E essa realidade, além de eximir seu técnico de qualquer culpa, deu licença para que se pedisse tempo para mais uma reconstrução. E assim, o Corinthians - apesar do Cerro - se fez dono de um começo de temporada que os oponentes gostariam de ter feito. Quanto ao São Paulo, o primeiro tempo contra o Mogi Mirim foi de dar sono. Mas em algumas partidas cheguei a gostar do jogo proposto pelo time tricolor. Aí veio a derrota de virada para o São Bernardo e, confesso, fiquei na dúvida se o time é merecedor de algum crédito. Só uma gigantesca surpresa nesse jogo de hoje, no Monumental de Nuñez, talvez me faça de alguma forma acreditar que esse time atual do São Paulo tem bala pra livrar o torcedor são-paulino do que tem parecido um castigo. Seja como for, eu sei, continuo devendo um crônica de jogo pra vocês.


* artigo escrito para o jornal "A Tribuna", Santos

quarta-feira, 9 de março de 2016

Uma imagem vale...

Foto: Daniel Augusto Júnior/ Ag. Corinthians

Não há nada de novo nisso, tudo bem! 
As novas tecnologias estão aí. Mas pense bem.
Quantas vezes você já tinha visto por aí uma imagem como essa. 
Mas só vale se tiver sido feita por estas bandas. 
Nada de futebol gringo, pois por lá estamos cansados de saber que 
eles andam à nossa frente. 

A imagem, creio, diz muito sobre Tite. 
E a grande beleza que vejo aí não é exatamente a metodologia, 
a modernidade, é o patamar de comando que Seo Adenor 
dá a impressão de ter atingido.






sexta-feira, 4 de março de 2016

Cadernos de jogo - Palmeiras x Rosario - Allianz Parque 03/03/2016


A chuva cai grossa quando trila o apito.
Dez minutos e, figurativamente, o Palmeiras vencia
com uma bola na trave e uma bela chance com Robinho.
Thiago Santos , em estilo conhecido, leva cartão amarelo.
E não fosse pela jogada merceia ter levado pelo modo que tratou o juiz.
Aos vinte e cinco minutos, redenção! Cristaldo briga e faz um a zero.
Um pouco além....                        
a arbitragem comete o pecado de apontar que Jesus estava impedido.
Aos 38 a torcida faz alvoroço. Mas a chance que comemora é uma cobrança
de falta na intermediária.
Bem antes , lá pelos dez minutos, já era possível dizer que o tal de Colman
bate um bolão.
44' Nem sei se falta foi, viu Dudu?
Fim do primeiro tempo: Um a zero tava bom? O segundo tempo iria dizer.

**

Etapa final. A cultuada posse de bola é dos argentinos.
E a primeira grande chance também
Bola na mão de Jesus! E agora?
14' Robinho chega no bico da área e faz penalti. Sobrou pro Fernando Prass.
Salvou o Prass!!!
Palmeiras se salva do penalti e aos 29' de levar um gol por cobertura.
Zé Roberto tomando passagem...
Robinho sai de cena, entra Allione.
Pinola vai mostrando que é zagueiro daqueles raros, pro que der e vier.
39' Rosário manda no jogo.
41" Colman dá lugar a Pratti. É daquelas trocas que só se explica por cansaço.
Jesus é amarelado.
E não é que aos 47' e lá vai pedrada, Allione, com um quê de Cristaldo no estilo
alivia geral? Palmeiras dois a zero.

**


Noite de chuva. Noite de Cristaldo e Allione. Quem diria?
Mas o enredo do jogo dá o que pensar.
Prass é o destaque e esbanja lucidez.
" Não fizemos o jogo dos sonhos"
Com alguma euforia ouvi alguém dizer logo de cara que se tratava da melhor
apresentação do Palmeiras em 2016.
Bom, olhando bem... mesmo assim pela metade, talvez tenha sido.
Éisso é pra preocupar? Sabe-se lá.


Crédito das fotos: Nelson Almeida / AFP
           

quinta-feira, 3 de março de 2016

Outros tempos


Aaaaaaaaah! Coronel!, entrava na sala berrando o personagem Dirceu Borboleta, finamente interpretado por Emiliano Queiroz, na lendária novela " O bem-amado". Novela que honrava o gênero. Obra de veia crítica feroz. Não por acaso habita até hoje a memória de muita gente onde faz bailar um sem fim de personagens. As irmãs Cajazeiras, o temido Zeca Diabo. Dava pra gostar de todos. Mas existia algo em Dirceu Borboleta. Uma importância discreta. Era ele que trazia até o prefeito as notícias mais espinhosas. Em geral, acontecimentos que poderiam minar a vida pública do prefeito Odorico Paraguaçu, o coronel em questão. 

Eis que na última sexta-feira o futebol brasileiro esteve representado na eleição presidencial da FIFA pelo Coronel Antônio Nunes, o presidente interino da CBF. Acompanhando de longe os acontecimentos fui levado às mais antigas lembranças que trago comigo daquela obra-prima de Dias Gomes. Horas antes do pleito pensava nos nossos homens ali envolvidos e encontrava nisso tudo alguma semelhança, ainda que os papéis soassem invertidos. Pelo que ouvi em dado momento o voto brasileiro, que estava empenhado com o candidato europeu, diante das evidências do crescimento da candidatura do xeque Khalifa, passou a ser perigoso. Onde já se viu num momento desses se abraçar a alguém que poderia acabar derrotado? 

Imaginei, então, que pra evitar o pior alguém poderia ter saído em disparada por lá aos gritos atrás do coronel para avisá-lo que o combinado estava descombinado e que, a partir dali, o voto brasileiro poderia ser outro. Imaginei que diante do ar interrogativo do coronel, querendo entender tudo o que se passava, alguém pudesse ter iniciado um discurso a la Odorico, dizendo: Veja bem, Coronel. Dadas as implicâncias e suplicâncias desses nobres que vem lá daquele lugar que eu nem sei dizer o nome direito chegamos à conclusão que o melhor para o futebol brasileiro e mundial é esse tal Salman sei lá o quê. E dando sequência à cena dos papéis invertidos, o sujeito que trouxe a notícia voltaria a dizer como o coronel deveria proceder. 

No final nada disso foi preciso. Venceu mesmo o suíço Infantino, que escutou de nossas autoridades o óbvio, que poderia contar com elas. E que Sucupira, ou melhor, o Brasil estava preparado pra fazer o que fosse preciso. E aí o coronel, que já não tinha se sentido muito confortável durante aquela discurseira toda, se sentiu ainda mais desambientado quando, mais tarde, nas rodas de conversa, não se falava em outra coisa que não fosse europeizar a FIFA. Fato é que dos tempos do Bem-Amado pra cá muita coisa mudou. O que ninguém imaginou era que um dia existiria quem desse ordem aos coronéis. 

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Um pouco de coração


Sabe-se lá onde se escondem os mistérios do futebol. Como já disseram há muitos entre o céu e a terra. Mas convenhamos, há certa comodidade em atribuir tudo o que se passa entre nós a reinos metafísicos. Outro dia ouvindo o meio-campista, Pablo Escobar, atrás vibrei quando ele apontou o dedo na direção de algo bem terrestre para elucidar acontecimentos. E notem que a declaração se deu logo após o time dele, o The Strongest, ter alcançado o incrível feito de vencer uma partida fora de casa depois de quase três décadas e meia. Logo, não seria de espantar se o entusiasmo causado pelo triunfo o fizesse falar em forças sobrenaturais, ajuda divina, esse tipo de coisa. Nada disso, amigos. Escobar foi pé no chão de tudo. 

Apesar de ter recorrido no primeiro momento a um tremendo clichê dizendo que já não há time pequeno, no segundo seguinte corrigiu a rota e sentenciou: "... quando um time põe um pouco de coração...". Pimba! Aí está pra mim uma explicação magnífica porque sem arroubo algum. Uma interpretação que chega envolta na simplicidade para driblar os desavisados. A questão dos times menores é discutível por vários ângulos. Não existissem as diferenças de tamanho o futebol sul-americano não teria gerado nos últimos dias manchetes incríveis como aquela propiciada pelo encontro entre o Palmeiras - e seu elenco de quarenta jogadores - e o River Plate. A citada manchete avisava que o time uruguaio gastava por mês o que o alviverde imponente torrava em quinze horas. O próprio anúncio da vitória fora do The Strongest mais de trinta anos depois de ter vencido pela última vez nessa condição não deixa de evidenciar que existem abismos entre os clubes, sim. Sem essa de que tá tudo muito igual. Esse pensamento é reducionista. 

Escobar esteve envolvido no gol que levou à vitória e foi além, nos clareou as ideias. Colocar um pouco de coração no que está sendo feito, tá aí o segredo. E se a memória não me trai o jogador boliviano também citou a vontade. Outro detalhe que merece reflexão. Já vi muita gente zombar de artilheiros que costumam creditar seus gols a deus. A esses  os cáusticos costumam responder dizendo que neste caso o todo poderoso havia claramente tomado um partido, ou que os pedidos e preces vindos do outro time não tinham sido tão intensos como os do adversário que triunfou. Faz sentido. Mas com a vontade isso passa a ser factível. Vejam, não se trata de falar que tudo ocorre, ou ocorreu, por falta de vontade, no caso, do time são-paulino. Se trata é do que pode acontecer quando um time com vontade cruza em campo com um quem tem mais vontade do que ele. 

Aí já viu, né?   

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Fala aí, arquibancada!



Dias atrás lendo o livro "Política, propina e futebol", do jornalista Jamil Chade, mais uma vez lamentei em silêncio, como já fiz outras vezes, o fato de que neste dito país do futebol os torcedores até hoje não tenham explorado toda a potencialidade das arquibancadas. Nunca é tarde. Elas estão aí e poderíamos desde sempre tê-las transformado em uma grande tribuna que expressasse nossa indignação, nossas reivindicações e até nossas outras alegrias, aquelas que nada têm a ver com o jogo. 

O autor do livro repassa alguns momentos em que as arquibancadas, pelo mundo, ganharam essa outra dimensão. Como em um jogo no Cairo em que o líder da oposição foi efusivamente saudado pelos torcedores, que ainda fizeram questão de adornar o momento com gritos de "Fora, Mubarak". Amplificando o desejo popular de tirar o  político do poder. Na Jordânia, os gritos ofensivos dos torcedores do Faisali à Rainha Raina seriam fatalmente punidos com tortura. Mas como era impossível prender todo mundo restou aos donos do poder interromper o jogo e multar o time. O recado das arquibancadas, no entanto, estava dado. O livro traz ainda uma interessante declaração de um sociólogo britânico que nos alerta para o fato de que, apesar dos governos insistentemente usarem o futebol e os eventos esportivos para se autopromover, a massa pode durante noventa minutos transformar os estádios em "enclaves de autonomia". 

Eis que na última quinta-feira a nossa polícia militar entrou em cena para impedir a torcida corintiana de se manifestar através de algumas faixas, e fazendo do Estatuto do Torcedor seu escudo. Não vou entrar no mérito do teor das faixas, nem vou fazer digressões a respeito das intenções da torcida. Ocorre que o estatuto versa sobre faixas com conteúdos ofensivos. Impedir que a torcida se manifeste é um abuso, é atentar contra a liberdade de expressão. O torcedor pode até não fazer uso desse direito, como em geral não faz. Salvo belas exceções como aquela faixa erguida com astúcia em 1979 durante um Corinthians e Santos para pedir "Anistia ampla, geral e irrestrita". Algo que bem antes já se manifestava nas ruas. 

A arquibancada não é a rua mas tem a alma dela, sua transcendência. E digo mais, se de hora pra outra o "Estatuto do Torcedor" passar a ser usado contra ele, que o torcedor proteste exigindo que mude. Pois protestar, como aliás fizeram na semana passada torcedores do Liverpool e mais tarde os do Borusia Dortmund, indignados com o alto preço do ingressos, não deixa de ser uma forma nobre e inteligente de comungar com o futebol.  

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Não sou exatamente um saudosista



Dia desses, quando um papo sobre futebol na redação já dava sinais de cansaço dada a sonolência que costuma abater os interessados no jogo de bola todo começo de temporada, alguém tentou reanimar a conversa lembrando que outro dia havia chegado até nós um e.mail repleto de indignação. O autor da mensagem dizia  não aguentar mais o nosso discurso sempre sugerindo que futebol bom mesmo era o que se jogava antigamente. Olha, adianto-lhes que a discreta provocação não deu grande sobrevida ao papo mas ficou martelando na minha cabeça. E, entre marteladas e reflexões, fui obrigado a reconhecer que se o descontente autor da peça não tinha razão, ao menos, havia sugerido uma grande questão. 

Se dissesse que tenho pelo futebol de hoje a mesma reverência que tenho pelo praticado no passado estaria mentindo. Como devo dizer que gosto infinitamente mais da música do passado do que a atual. E isso  me leva a crer que há claramente em tudo uma dimensão que só o tempo traz. O que torna, portanto, inútil tentar alcançar a exata dimensão que terá no futuro, à luz da história, o que vivemos nos dias atuais. O que sou capaz de afirmar é que a maneira como trataram o futebol nos últimos tempos, sua evolução (ou seria involução?), e o modo como ele foi se moldando no cotidiano de quem se interessa por ele, roubou de nós certa inocência. O futebol não soa mais tão lúdico. Deixou de ter aquele ar de uma brincadeira que os homens carregavam consigo mesmo passada a infância e a adolescência. O futebol ganhou certa urgência. Virou coisa séria demais.

Mas o fato é que semeou entre nosso povo uma trajetória encantadora. Trajetória tão bela que hoje em dia sou capaz de sentir saudade dos jogadores que eu vi em campo e até dos que eu não vi. E como gostaria de ter visto um Zizinho com a bola nos pés com meus próprios olhos. O autor do e.mail não deixa de ter lá sua razão, já que essa resistência pode ser a prova do quanto somos refratários à evolução das coisas. Não! Não deixa de ser verdadeira essa má vontade com o futebol atual. Uma coisa eu sei. O futebol do passado fez entrar para a história um sem fim de homens, que foram comprovadamente capazes de representar o apuro técnico, que encantaram o mundo. E sou quase incapaz de enxergar nos craques de hoje essa relevância. 

A história certamente me punirá se isso for, como suspeito, uma incapacidade minha de acompanhar o andamento do mundo. Por certo lá na frente teremos saudade da ousadia e da juventude de um Neymar, da paixão clubística e do jeito simples de um goleiro como Marcos, ex-Palmeiras. Como já andamos cheios de saudade de alguém como Romário. O jogador, não o político, por favor ! E de quem mais ? Olha, se o futebol de hoje for , como pensam alguns, tão bom quanto o do passado a história se encarregará de redimi-lo. Enquanto o tempo não faz esse serviço sigo seduzido pelo das antigas e ponto!   

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

A China não precisa agradecer


Faz tempo que nos acostumamos com o poderio chinês. O "made in china" virou uma espécie de mantra que entoamos - ainda que silenciosamente - quase toda vez que vasculhamos a origem dos produtos que compramos. Mas convenhamos, quando esse poderio invade o gramado e dissolve um dos times mais promissores do futebol brasileiro a coisa muda de figura. Ver nossos melhores jogadores serem seduzidos por cifras e moedas mais poderosas que as nossas é uma coisa, e nada tem de novo, mas ver um campeão brasileiro com louvor ser arrematado como foi o Corinthians nos jogou na cara o quanto somos reféns da força da grana, o quanto estamos a fadados a ficar apenas com o que não interessou aos ricos. 

E ainda que também não seja novidade jogadores tomarem o rumo da China tá na cara que alguma coisa aconteceu. E isso me fez lembrar muito de algo que ouvi no meio do ano passado de um profissional íntimo do futebol brasileiro. Disse ele que por trás desse apetite todo estava a grande paixão do chefe do governo chinês pelo futebol. Segundo esse relato os grandes empresários e donos dos times chineses, sabedores dessa paixão, têm a certeza de que ao montar um bom time estão, ao mesmo tempo, adulando o homem forte do governo que sonha ver a China se transformar também em uma potência do futebol mundial. 

A estratégia pelo que temos visto vai bem. A China não só conseguiu transcender os cadernos de economia e invadir os de esportes, como já está na boca do povo, nos papos de botequim. Trata-se, ou não, de outra dimensão do poderio chinês? E na esteira dos acontecimentos vamos desvendando a China. Leandro Netto, atacante, por lá chamado até de "Imperador" foi avisando aos interessados que não sonhem em encontrar em gramados chineses um time capaz de lhe devolver a bola rendondinha, a menos que o contrato seja com o nobre Guanghzou Evergrande.

Rafael Marques, atacante do Palmeiras, disse com todas as letras que quando esteve na China em 2013 viu treinador agredir jogador no vestiário. É, os costumes são sempre um desafio. Emerson Leão, ex-técnico, me disse certa vez que quando esteve no Japão um dos maiores desafios que enfrentou foi fazer um jogador mais novo aceitar o drible sobre alguém mais velho como coisa do jogo. O respeito aos mais velhos, tão arraigado naquela cultura, na hora "h" tirava dos mais novos o ímpeto do drible. Vejam só.  


Mas na esteira dos acontecimentos também conhecemos melhor o meia santista Lucas Lima que, em nome do futuro com o qual sonhou um dia, decidiu dizer não a um clube chinês disposto a lhe pagar mais de quatro milhões de reais por mês de salário. Não, não devemos agradecer a China, como sugeriu o corintiano Andrés Sanchez. Os chineses só estão no mercado... aproveitando as oportunidades oferecidas por um futebol mal tratado e uma moeda combalida.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Pacaembu



Terça-feira à noite. O céu negro duela com o brilho clínico das luzes. No banco ao lado está Nelinho, o ex-lateral dos chutes lendários, que fazia a bola traçar curvas impossíveis. No banco de trás, Roberto Rivellino. Singramos a larga avenida paulistana dividindo impressões sobre o futebol atual. Pouco antes de avistarmos a Praça Charles Muller, Rivellino pergunta ao ex-companheiro de duas Copas do Mundo se ele sabe onde está, se é capaz de se situar naquela paisagem. E sem esperar resposta informa que estamos na avenida Pacaembu e, em breve, vamos dar de cara com o velho estádio conhecido pelo mesmo nome. 

Segundos depois a imagem anunciada se descortina diante de nós. A fachada grandiosa enaltecida por uma claridade de tom amarelado. Um silêncio se faz presente. No olhar distraído daqueles dois homens vejo se revelar um um misto de saudade e encanto. O pensamento que me vem nada tem de novo: o Pacaembu é uma unanimidade. E pareceu desde sempre confortavelmente instalado nos braços daqueles dois barrancos. Mas o meu deslumbre agora vinha da constatação de que o charme feiticeiro do velho Paulo Machado de Carvalho, facilmente encontrável no peito de quase todos os que já se derramaram naquelas arquibancadas, estava também repousado do mesmo modo naquelas duas figuras emblemáticas do nosso futebol. Homens que um dia tiveram o Pacaembu como palco e que, como nós, meros mortais, se incomodam com esse abandono. 

Há ali, adormecido na larga praça um símbolo do nosso futebol, gestando em si, como os homens, a constatação de que o tempo costuma nos tornar inadequados, costuma nos ultrapassar, seja qual for nossa representação, seja qual for nossa história. Simples assim. Chega um dia em que nos tornamos obsoletos. Discretamente desfruto a beleza do lugar. É quase meia noite. Recordo que vinte anos atrás estava eu lá dentro, repórter em início de carreira, incrédulo, como todo mundo ali, ao constatar que o time santista em plena semifinal do Campeonato Brasileiro contra o Fluminense não iria para o vestiário durante o intervalo. Ficaria reunido no meio do gramado, para depois disso, de lá sair carregando o orgulho de ter construído um inesquecível cinco a dois, uma das maiores viradas da história do clube. Tive vontade de dividir a recordação com meus companheiros de viagem. Mas calei, certo de que os dois tinham histórias bem melhores do que a minha pra contar.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Um convite aos amigos do blog

Em parceria com a Dobra Editorial, com a ajuda de alguns grandes amigos e contando com a experiência do poeta Reynaldo Damazio, lanço nesta quarta o livro "Os dias em mim". Nos vemos lá !






quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Deu no New York Times


Desde que o charmoso hotel suiço Bar au Lac deixou de ser o semi-paraíso onde os maiores cartolas do mundo se hospedavam entre uma reunião e outra na sede da FIFA, e lá gastavam o farto dinheiro que amealhavam, o mundo do futebol está em xeque. E se a sensação que nos vem toda vez que a justiça norte-americana se pronuncia a respeito do caso é a de que não restará uma só biografia intacta entre os manda chuvas do futebol mundial é porque o modelo de negócios do futebol nunca teve espaço para inocentes. 

Eles pensaram em tudo. Criaram uma máquina tão bem estruturada que até pouco tempo atrás as sedes da FIFA e da Conmebol tinham status de embaixada. Isso sem falar em regras como a que impede qualquer intervenção dos governos dos países membros nas Confederações associadas, ou aquela outra que decreta punições aos que, por ventura, vierem a recorrer à chamada justiça comum. Controle total. Dessa lucrativa engrenagem faz parte também a estratégia de gastar os recursos com aqueles que fazem parte da estrutura de poder. O que vale tanto para as Confederações quanto para a própria FIFA. A CBF, por exemplo, nos últimos doze anos gastou 2 bilhões e quatrocentos milhões de reais, sendo que 48% desses recursos foram usados para a manutenção da entidade.

 E tem sido de entristecer a paralisia da nossa justiça diante de tudo que está acontecendo. Lembro bem que nas primeiras horas depois da prisão de José Maria Marin, pairou no ar a esperança de que houvesse desdobramentos por aqui. Como lembro bem que em um certo início de noite foi noticiado que equipes da Polícia Federal estavam a caminho da sede da Klefer, de Kleber Leite e da CBF. A que tinha como destino a Klefer chegou. Mas a que, diziam, estava a caminho da CBF, jamais. No outro dia pela manhã ficamos sabendo que a entidade, sabendo do que se passava, tinha se encarregado ela mesma de juntar os documentos e enviar. Um escárnio. 

Some-se a isso o fato de Del Nero, convocado pela CPI do Futebol, dizer que iria mas que não aceitava o compromisso de dizer apenas a verdade. E não custa lembrar que tivemos ainda a decisão de uma juíza federal impedindo a cooperação com a justiça dos EUA e determinando o desbloqueio de contas de alguns réus. Mas quem sabe agora as coisas mudem. Afinal, o New York Times acaba de estampar em suas páginas que Ricardo Teixeira é a prova de que a justiça brasileira fracassa na missão de punir a corrupção.