quinta-feira, 29 de junho de 2023

Um santista fervoroso



Ricardinho, um amigo meu,  é santista fervoroso.  Mas me espanta com a maneira positiva que costuma encarar a realidade do time que ele escolheu como dele. Já o vi de conversa com outros santistas que, mesmo sendo menos fervorosos, não conseguiam esconder o temor com o futuro do time, enquanto Ricardinho ia tentando mostrar que nada andava tão mal assim. Elogiava o poder de ataque embutido num trio formado por nomes como Mendoza, Marcos Leonardo e Soteldo.  Eu escutava tudo quieto e não lhe tirava a razão. Quando a retórica não encaixava ou soava forçada, quase inevitavelmente , o Ricardinho apelava pra velha história de que há times piores na parada. 

Ainda não encontrei o Ricardinho pra saber se o cataclisma que atingiu a Vila Belmiro dias atrás colocou por terra suas convicções. Diria que tão perigoso quanto acreditar nesse tipo de argumento, de que há times piores, é acreditar em um outro que tomava por normal um presidente de clube não entender muito de futebol considerando a coisa um detalhe já que o mesmo vinha se provando um exímio administrador. Deixando no ar que essa condição poderia bastar para levar um clube ao sucesso. Quando o que basta, de verdade, é transferir essa realidade para qualquer outra situação e ela se revelará surreal. Digamos, um presidente de metalúrgica que não conheça minimamente o mercado de metais. Como acabaria? Por mais que conte em seu elenco com um notável especialista do ramo. Coisa, aliás, que o time do Ricardinho por tudo que tem sido visto ainda não encontrou. 

O resultado da fórmula não resta dúvida  é o que aí está. Sem dizer que a essa altura nem mesmo as contas andam tão bem das pernas. Mas a realidade atual do time do Santos antes de lhe ameaçar o futuro ou qualquer coisa assim mina a confiança do grupo. Não é pra menos. E pior do que  não estar confiante é estar ameaçado. E quando digo isso obviamente não estou falando de rebaixamento. Falo da selvageria  que bem antes do clássico um tanto fatal já rondava o elenco alvinegro e continua rondando.  Não será com violência que a situação se transformará, embora uma parcela mínima acredite nessa hipótese. Um parcela tão perversa que historicamente nunca deixou de aproveitar a deixa para tirar proveito do caos. 

Mais legítimos do que esses são os santistas que amando o clube jamais tomaram qualquer atitude que pudesse redundar em desserviço. Legítima nessa hora também se faz a indignação. Protestos pensados de forma inteligente, pacíficos, e que nem por isso deixarão de ser contundentes, são muito bem vindos. necessários para ser mais claro. Como não será com jogadores pensando no próprio umbigo que o Santos mudará o rumo da história. Um time de jovens sendo seduzidos  por chances na Seleção, ou por uma endinheirada carreira de boleiro que se descortina. Normal que diante desse quadro um ou outro peça pra sair. E talvez essa seja a atitude mais leal nessa hora. E deve valer pra todas as esferas. Cabe aí um exercício de reflexão de todos os envolvidos nessa realidade dura, estampada no jogo vazio de logo mais contra o Blooming. E não é que eu estava quase acabando de batucar estas linhas e dei de cara com o Ricardinho. Bastou lhe lançar um olhar interrogativo e ele imediatamente disparou: Agora a vaca foi pro brejo. Nem sei o que pensar. 

sexta-feira, 23 de junho de 2023

A grande aposta



Se o futebol já não é o mesmo, olhar pra nossa Seleção é a melhor maneira de se convencer que o que passou passou. Os tempos são verdadeiramente outros. A cada dia um jogo de seleção fica mais distante  do que é estar diante de um bom jogo entre clubes. Chega a ser desleal. Tá certo que isso é coisa que vale mais para o futebol europeu do que para o nosso. Mas quando se trata de seleções falta de magnetismo é meio geral pelo que sinto. Como é fato que amistosos, no nosso caso, há muito tempo parecem ter os adversários escolhidos para que fiquem ausentes de peso. Digo isso com respeito a seleções como a da Guiné.  Senegal se fez respeitar. E o Marrocos pode ter sido um erro de cálculo. A realidade empurra a todos nós para aquela condição de torcedores de Copa do Mundo. E preparem-se porque até elas já não serão como eram. 

Mas vejam como a coisa anda feia pro lado do torcedor. Desde o início dos tempos  cornetar o treinador da Seleção Brasileira é um dos maiores prazeres que o jogo de bola oferece , só perdendo para o prazer de cornetar o juiz. E não é que a CBF agora, ao aceitar essa condição de que Carlo Ancelotti só assuma o escrete nacional no ano que vem, roubará dos torcedores até isso. Cornetar alguém que sabidamente estará no posto de passagem está longe de proporcionar o mesmo barato.  Que o presidente da CBF apostou alto é difícil de discordar. Mas, desconfiado que sou,  vou ter a coisa como certa só quando o nobre italiano desembarcar por estas bandas e puder ser visto vestindo agasalho lá pros lados da Granja Comary.  

Prova de que Ancelotti está muito acima dos outros é que não vimos até agora nenhum coro bradar contra essa coisa de entregar o comando da Seleção Brasileira a um estrangeiro. O que vem a ser ao mesmo tempo a constatação de que para quem comanda o nosso futebol não há entre os treinadores brasileiros alguém com envergadura suficiente para assumir o cargo.  E se em tempos muito recentes vimos aqui entre nós ser ensaiada uma renovação nesse sentido ela parece ter se dissolvido. No Brasileirão, por exemplo, há dois nomes que pairam revestidos de excelência já faz um bom tempo. Um é o treinador do Palmeiras, Abel Ferreira. O outro, o do Fortaleza, Juan Pablo Vojvoda. Dois estrangeiros. Mas no meio de tudo isso fica a impressão de que a CBF com essa sua grande aposta não quer se colocar em rota de colisão com os clubes. Uma lógica que tira do jogo um nome como Dorival Júnior que, gostem ou não, dá a impressão de viver sua maturidade profissional. 

E por falar em treinadores, seguem aí na cena do  futebol brasileiro dois que passaram pelo comando da Seleção. Um é Vanderlei Luxemburgo. O outro, Luiz Felipe Scolari.  O primeiro, se não teve o sucesso do segundo no posto, conseguiu algo pra lá de raro que é ter comandado o Real Madrid, hoje justamente sob a batuta de Ancelotti. Enfim, de minha parte vos digo que acho essa história toda muito esquisita.  Mas fico pensando que se um dia Carlo Ancelotti vier fatalmente fará o torcedor brasileiro, cornetando ou não, resgatar parte da fantasia que um dia a Seleção Brasileira tão bem representou. 

quinta-feira, 8 de junho de 2023

Quem sabe perder?



Desde sempre lidar com a derrota foi um desafio. Não por acaso ao longo dos tempos ouvimos tanto por aí que o que importa é competir e não vencer. Não necessariamente nessa ordem. Afinal, em algum momento, profissionais ou não, perdemos. E inevitavelmente talvez o tenhamos feito de forma retumbante porque como escreveu certa vez o mestre Nelson Rodrigues até a mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana. E traz consigo todos os céus e abismos nela contidos, ouso complementar. Acho que a questão visivelmente extrapola a questão esportiva. Vejo que  em especial  os mais novos têm mostrado uma dificuldade imensa de lidar com a frustração. Vira e mexe dou de cara com artigos falando sobre isso. E a derrota, pra destituir a definição da mesma de qualquer coisa mais rebuscada, é uma frustração. Se enquadra nisso, embora a frustração possa ter  evidentemente outras naturezas. Ele nunca aceitou perder é algo muitas vezes dito em tom de aprovação. Ou não é? 

Falo disso depois de ter testemunhado o que se deu dias atrás na final do segundo torneio de futebol 

mais importante do velho continente, a Europa League. A decisão feita em jogo único teve prorrogação e acabou nos pênaltis o que pode ter ampliado em cada atleta a expectativa da vitória. Vá lá.  E se cito esse episódio é para dizer que não é algo que se dê por aqui apenas, como costumamos  ser levados a crer. Aliás, as mazelas costumam ser universais e o jogo evidenciou isso também porque a atuação do árbitro foi um tanto terrível e se tratava de um profissional acostumado a apitar jogos do campeonato inglês que, gosto sempre de lembrar, é tido como modelo para quase tudo no mundo da bola.  


Por um instante achei que a coisa se daria de modo diferente . Pois os jogadores do campeão Sevilla, depois de se esbaldarem nas comemorações do título não sei bem se por vontade própria ou orientados pela organização se postaram em duas linhas formando um corredor pelo qual passaram os vice campeões da Roma. Os jogadores do time italiano cruzaram esse corredor sob aplausos adversários. Até ali um exemplo de comportamento esportivo.  Mas eis que muitos jogadores da Roma ao receberem as medalhas de prata iam longo as arrancando do pescoço. Alguns só a colocaram depois da insistência da figura que tinha a missão de entregá-las. E ainda assim iam tratando de tirar a medalha de cena poucos passos depois quando ainda estavam na mira das câmeras que iam exibindo a repulsa deles ao vice-campeonato. 


Talvez tenham se inspirado no próprio treinador, José Mourinho. O português depois de reunir o time à vista das câmeras num ponto do gramado, sugerindo que estava ali a distribuir palavras que enaltecessem o que seus comandados tinham feito, logo tratou de se encaminhar - antes e sozinho - ao palco e receber sem colocar no pescoço a medalha que lhe cabia. Medalha que ele minutos depois ofereceria a um torcedor em gesto também flagrado pelas câmeras.  Mourinho é sem dúvida um vencedor, mas tenho pra mim que se alguém não sabe lidar sabiamente com a derrota dificilmente o fará com a vitória que, estamos cansados de saber, é infinitamente menos didática. 

quinta-feira, 1 de junho de 2023

O futebol moderno



Difícil saber o que seria exatamente a vanguarda do futebol mundial. Mas se ela existe provavelmente está intimamente ligada à grana de Estados Autocráticos que há pouco mais de uma década viram no futebol a ferramenta ideal para expandir sua área de influência. Daqui do hemisfério sul não foi difícil notar isso quando Nasser Al Khelaifi, presidente PSG e CEO de um fundo de investimentos ligado ao governo do Qatar não se intimidou diante das cifras que precisaria honrar para tirar Neymar do Barcelona e fazer dele o jogador mais caro da história na ocasião. Estava ali exposto pra quem quisesse ver que se tratava , acima de tudo, de um negócio de Estado. 

Daqui a alguns dias veremos o Manchester City em campo decidindo o principal torneio de clubes da Europa. E ninguém melhor do que o City , de Pep Guardiola, para exemplificar essa vanguarda. É fato que o resultado talvez não fosse o mesmo se a estrutura milionária colocada à disposição do treinador catalão não estivesse aliada a alguém como ele. Mas essa é outra história. Interessante é notar que a maior vítima de tudo isso até agora tenha sido justamente o Real Madrid, atual campeão europeu de clubes, que se viu encurralado no jogo de volta das semifinais de maneira poucas vezes vista. Justamente o Real, de Florentino Peres, que outrora com gastos estelares fez cair sobre o time madridista a fama de galáctico. Com toda a pompa e vaidade que ela guardava.  

Há um sem fim de questões que vêm na esteira de tudo isso. O futebol virou um tipo de negócio que dá a impressão de ser cada vez mais íntimo de grandes esquemas, sujeito à lavagem de dinheiro ou a conivência com questões pra lá de delicadas como a dos direitos humanos. Algo que a passagem do futebol mundial pelo Qatar durante a última Copa só fez ficar flagrante. Ninguém há de dizer que o futebol gerado por essa realidade não é de encher os olhos. Talvez fosse o caso de se perguntar o quanto ele pode ser considerado verdadeiramente real.  Seja como for é fácil demais entender porque é que dias atrás as manchetes anunciando o interesse do PSG em investir no Santos causou tanto eco. 

Ainda que seja um exercício desafiador compreender como seria possível ficar com a grana sem se render à lei das SAF recém instituída.  Não existiria negócio no mundo tão bom, ao menos pra uma das partes, do que usufruir de uma fortuna sem necessariamente entregar a galinha dos ovos de ouro. Talvez nos falte tempo para acompanhar de perto todos os desdobramentos causados pelo fato de o futebol ter ganho esse tamanho geopolítico e por estar à merce dos interesses de Estados como o de Abu Dabhi. O City chegou ser multado pela UEFA e se ver suspenso por duas temporadas da Champions League há cerca de três anos. E certamente não foi por ser bonzinho. 

O City se viu emaranhado nas questões do tal Fair Play financeiro. Um caso que  expôs totalmente a Premier League, símbolo mor nos dias atuais do que deve ser um torneio nacional. Em julho de 2020, meros cinco meses depois de a UEFA ter anunciado o banimento do City a Corte Arbitral do Esporte anulou a decisão. Se alguém no futebol mundial ainda pode prescindir da grana que jorra desse imenso jogo de interesses de Estado certamente não são alguns dos maiores clubes do mundo. Ao mesmo tempo que um sem fim de outros nem pensarão duas vezes diante da oportunidade de entrar no time.  

quinta-feira, 18 de maio de 2023

Que jogo é esse ?



Desde tempos imemoriais o torcedor duvidou da lisura do futebol. O nobre leitor já deve ter ouvido coisas mirabolantes a respeito. Pode-se considerar que essas grandes armações são de um planejamento complexo demais que acaba por inviabilizar a mutreta. Em geral, é esse o argumento dos descrentes. Talvez a pulga tenha sido colocada atrás da orelha do torcedor no exato momento em que  alguém aceitou receber grana para defender um time, fazendo brotar ao mesmo tempo a semente do futebol profissional. Ao considerar tudo isso uma grande baboseira os crentes, os que renovam uma certa  fé cega no jogo de bola, podem estar no fundo apenas tentando evitar a desconfortável realidade que faria todos nos sentirmos uns trouxas, ludibriados. Justo nós os desde sempre dispostos a entregar nosso precioso tempo e sentimentos a esse esporte de apelo planetário. 

Agora, diante desse escândalo das manipulações que mancharam, no mínimo, a temporada passada do mais importante torneio de futebol do país o que temos visto é muita gente fazendo um exercício tremendo para delimitar as fronteiras das falcatruas. Dizendo que  o que se revelou foi a manipulação de certas situações e não resultados. Uma imensa forçação de barra.  Pois se tudo se deu como as provas sugerem, o que se fez foi criar uma realidade forjada. Uma farsa. O resto é exercício de retórica. Sem contar que seria  necessária uma inspeção microscópica dos casos para se ousar dizer que uma bola para fora, ou esse e aquele cartões nada influíram no resultado final de uma partida. Admito esse hipótese só pra não ser por demais taxativo e cravar que fazer isso seria impossível. 

E tão difícil a essa altura quanto afirmar que seguimos vendo um futebol idôneo é aceitar essa realidade  surreal de empresas ganhando milhões há tempos sem recolher um único centavo de imposto por aqui. Atuando como verdadeiros fantasmas  sobre nossa realidade tributária. Desconfiado que sou, e sem enxergar como, ou porque deveria deixar de ser , digo que há dois caminhos. Ou isso tudo que tem vindo à tona gerando manchetes de arrepiar terá o efeito salutar de acelerar a legalização. Ou  teriam alguns interessados decidido fazer nossa justiça trabalhar com a intenção de pressionar e forçar a assinatura da regularização das casas de apostas  da maneira que está posta.  Afinal, o dirigente que deu o ponta inicial em tudo isso disse que ainda em 2019 tinha procurado as autoridades para  denunciar a manipulação de resultados. 

 Seja como for,  o que está posto mostra muito bem o quanto tudo é feito em bases no mínimo discutíveis. O que bem poderia ser chamado de lamentável. A medida Provisória desenhada prevê taxação de 16% sobre a receita de todas as apostas feitas. Desse montante 2,55% seriam, ou serão, destinados ao Fundo Nacional de Segurança Pública, para ações de combate a manipulação de resultados. Em outras palavras, dinheiro que seria usado como que para correr atrás do rabo. Outros 1,63% teriam como destino os clubes esportivos. E para a Educação Básica iriam, olhem só,  0,82%.  A menor fração. E praticamente a metade do que seria dado aos clubes. Ou seja, seguimos dando um jeito de ceder mais os clubes do que à nossa educação. O resultado disso a gente já conhece. Pode apostar. É uma barbada.  

quinta-feira, 11 de maio de 2023

O futuro que a gente espera



Talvez o mais fiel retrato do que virou a Seleção Brasileira nos dias de hoje seja o intrigante andamento das conversas para que o posto de técnico seja assumido pelo italiano Carlo Ancelotti. Chega a ser difícil acreditar nisso depois do próprio Ancelotti, ao ser perguntado a respeito, ter dito   que tudo não passava de bobagem. Completou, não sem certa empáfia, dizendo que não fala sobre o futuro dele com ninguém. Colocações que, no mínimo, exigiriam mais tato na hora de tratar do assunto. Mesmo diante dessa posição firme o presidente da CBF não pensou duas vezes em voltar ao tema. Ao conceder entrevista a uma TV Árabe dias depois se mostrou disposto a ir além do dia 25 de maio, inicialmente dado como data limite para a negociação. 

Falou que topa esperar mais, caso o Real Madrid, time atual de Ancelotti, conquiste uma vaga para decidir a Liga dos Campeões da Europa.  O cartola brasileiro deixa soar como justificativa pra tanta demora o fato de a próxima Copa ofertar um número maior de vagas e também o fato de as Eliminatórias  terem o início marcado para o mês de setembro.  O mandatário maior do futebol brasileiro fez questão de dizer que para o torcedor e para a imprensa tudo no futebol é pra ontem. Eu, de minha parte, diria que nunca é cedo para começar a trabalhar quando se tem pela frente um grande desafio. E recolocar o Brasil na dianteira do futebol mundial nunca soou tão desafiador. Fico, sinceramente, com a impressão de que vai se usando a mídia para mandar recados. 

Estivessem minimamente alinhadas as partes, mesmo diante de toda a cobrança a respeito, não seria necessário voltar toda a hora ao tema. Também enxergo nisso tudo um esforço para, de alguma forma, se atrelar a alguém que, como sugeriu o próprio presidente da CBF, é unanimidade. A velha tática de deixar claro que seja qual for o desfecho se tentou o melhor.  Ainda mais quando o interessado diz diante de toda a expectativa gerada pelo assunto que na verdade tem tentado ser paciente e que aguarda o momento certo para entabular uma conversa com o italiano. E que por uma questão de ética não abordaria nenhum treinador que tivesse contrato com algum clube. Pode soar exagerado que se trata de uma cortina de fumaça. Como acho ingênuo acreditar nessa unanimidade pois ainda que a torcida feche com Ancelotti as cornetas daqueles que se dirão desrespeitados com a escolha por um estrangeiro irão soar. 

E não estranharia se nessa toada parte dos descontentes se mostrasse mais favorável a Fernando Diniz, que muita gente aposta - não é de hoje - que seduz o presidente da CBF também. Sou desde sempre um entusiasta do Diniz mas considero que seria uma escolha temerária para a CBF e também que seria, no mínimo, precoce para o atual treinador do Fluminense. Por mais que Diniz esteja fazendo por merecer precisa dar conta de outras etapas e avanços se quiser chegar lá um dia de maneira robusta. Capaz de aguentar os trancos de quem , mais do que qualquer outra coisa, gosta de colocar fogo no circo. Se o empate entre o Real e o City na terça ajudou ou atrapalhou iremos descobrir. E encerro dizendo que se Ancelotti diz que não fala do futuro dele com ninguém, talvez fosse o caso da CBF decidir rápido quem vai cuidar do da Seleção.

quinta-feira, 4 de maio de 2023

Nosso futebol de vanguarda



A transformação da sociedade impressiona. Costumo duvidar toda vez que vejo, e cada vez mais se vê, motoqueiros ignorando semáforos ou o sentido do trafego. Gente jogando bituca de cigarro nas ruas. Condenando vizinhos de praia a aturarem suas trilhas sonoras quando tudo o que queriam era ouvir o barulho das ondas. Gente deixando pelo caminho saquinhos com as sujeiras do cachorro, como se tivessem feito exemplarmente o papel de cidadão. Enfim, não é fácil crer que algo irá resgatar nosso mínimo de civilidade. Mas o recente episódio envolvendo o técnico Cuca não deixou dúvidas de que o mundo mudou. Expôs o quanto o jornalismo andou deixando de fazer seu papel, ou o fez de modo enviesado. Expôs o quanto os jogadores de futebol andam vivendo em universos paralelos. Não que eu me considere exatamente desse mundo que aí está, já me sentia desencaixado dos anteriores. 

Mas há coisas nas quais não consigo acreditar. Por exemplo, outro dia acabei seduzido por uma manchete que versava sobre as mudanças que o avanço tecnológico vai causar no futebol.  Em determinado momento  sugeria que nos próximos cinco anos as redes sociais podem vir a determinar quais seriam os jogadores substituídos em uma partida. Internautas, no intervalo, decidiriam quem fica e quem sai de campo.  A pensata não era de um viajante qualquer, era de Arsène Wenger, Diretor de Desenvolvimento da FIFA. Homem pra lá de vivido no mundo da bola. Durante mais de duas décadas comandou o Arsenal.  

Não encarei com descrença o que tinha lido. Segui com a leitura mas aí acabei dando de cara com algo que realmente desafiou minha compreensão. Dizia lá um certo CEO que em uma década não teríamos mais erro humano no jogo. Automaticamente fui levado a pensar que estamos realmente à beira de desumanizar totalmente a peleja. Por trás de tudo isso está o mercado obviamente.  Não é novidade nenhuma pra quem cuida desse grande negócio que a perda de audiência no futebol masculino é uma realidade e que, além disso, assombra o menor interesse pela prática do futebol. 

Estudos mostram que logo ali, em 2030, as chamadas gerações Z e Alfa, que abarca os nascidos a partir dos anos dois mil, irão representar quase metade da força de trabalho do mundo, e o grosso  do consumo. Jovens que sabidamente já não conseguem  ficar durante noventa minutos, concentrados, assistindo a uma partida de futebol. O que diante do que nos cerca é de fácil constatação. Os modos, digamos, clássicos de se entregar a um jogo de bola , ou seja, sentado em uma arquibancada ou em um sofá podem estar com os dias contados. Ou será algo cultuado por tão poucos, como ler jornal nos dias atuais. E isso tudo me fez lembrar de outra passagem. 

Estava eu na fila para pagar um café quando encontrei um amigo do trabalho. O papo foi dar no jogo de bola. Ele falou do time dele, o Corinthians, mas não demorou e sacou o celular para me mostrar na tela a bolada que tinha amealhado na última rodada fazendo apostas eletrônicas.  Confessei minha falta de intimidade com aquilo. E o que ouvi como resposta foi que com a monotonia do jogo as pessoas andam procurando outras formas de se divertir com ele. Sem precisar necessariamente gastar noventa minutos. Secretamente me pus alarmado ao constatar que  a atual falta de requinte do nosso futebol pode acelerar todo esse processo de desinteresse e nos fazer chegar ao futuro antes dos outros. Não é incrível?

quinta-feira, 27 de abril de 2023

Futebol e fetiche



Eis que chegamos a esta semana com o Flamengo dirigido pelo argentino Jorge Sampaoli e o São Paulo por Dorival Júnior. Nos dois casos as torcidas não pareceram totalmente satisfeitas. Mas Sampaoli e Dorival não se viram nesse papel por incapacidade profissional. Não se trata disso. ​É que o torcedor desde sempre é um fetichista. E na história recente do rubro-negro e do tricolor paulista isso ficou muito evidente. Fetichista é quem cultua o fetiche. E o fetiche é essa coisa de se atribuir poder sobrenatural ou mágico a alguma coisa. A alguém, tomo a liberdade de dizer.  Há uma distinção  a ser feita. O fetiche dos são paulinos era com o ídolo Rogério Ceni. Trazido para a função de treinador da primeira vez precocemente mas que dirigentes com interesses outros fingiram não ver. 

E se voltou para uma segunda passagem não foi por outra coisa que não essa crença que insistia em rondar a figura do ex-goleiro. E que os dirigentes, sempre atentos, sabiam que poderiam usar a favor deles. A curta mas consistente trajetória como treinador não deixa dúvidas de que ele é capaz. Se ele não se consagrar na função não terá sido por não entender de futebol. Certamente não ficará sem trabalho. Outros clubes lhe abrirão as portas. Clubes grandes. E aí o torcedor são-paulino que não tiver se livrado do tal fetiche ficará se perguntando porque é que justamente no São Paulo Rogério Ceni não vingou. E por acreditar tanto no que pode um fetiche digo a vocês que não descarto uma terceira passagem dele pelo clube. Enfim, Rogério Ceni é o fetiche tricolor que se foi. Jorge Jesus, o fetiche que não voltou. 

Nesse caso a coisa se deu de maneira tão forte que passou a ser unanimidade a necessidade de que os dirigentes do clube primeiro esgotassem essa possibilidade para só depois pensar em outro nome.  A pena seria permanecer com a sombra do português pairando sobre a Gávea. Entendo que a passagem dele pelo Flamengo foi gloriosa.  Só não sei o quanto disso se  deve à mágica que o futebol costuma produzir de tempos em tempos. Coisa que na gíria do futebol se convencionou chamar de dar liga. Não consigo deixar de pensar nessa possibilidade quando penso na saída deselegante que ele encenou ao partir. Fico pensando quanto um fetiche é capaz de resistir a maus modos. E não é só nisso que me amparo para fazer esse juízo. Me amparo também na ausência de grandes trabalhos ou resultados  depois de Jorge Jesus ter deixado o Brasil. 

Em linhas gerais diria que nos dois casos os clubes estão bem servidos. Dorival Júnior nos últimos tempos  ganhou uma estatura que não tinha. Não seria exagero dizer que chega ao time do Morumbi muito mais preparado do que quando lá esteve pela primeira vez e por um requinte do destino justamente para ocupar o lugar de Rogério Ceni. Sobre Sampaoli diria que ainda colhe os frutos da temporada em que esteve à frente do Santos.  E sobre a qual seria o caso de perguntar também quanto daquilo se deveu à mágica que o futebol de tempos em tempos produz. Terá a disposição um elenco que Dorival não terá. Deve ter sido por isso e pela envergadura do Flamengo que deixou transparecer meio desavergonhadamente que o rubro-negro tinha virado um fetiche pra ele. 

 

quinta-feira, 20 de abril de 2023

O Dinizismo em alta



Se você ainda não se convenceu de que Fernando Diniz é um treinador que merece reconhecimento vou tentar lhe dar uma outra razão para vê-lo com bons olhos. Depois do título conquistado com louvor sobre o Flamengo que fez dele - de longe - o mais decantado personagem do futebol brasileiro notei que o jeito de ser do treinador do Flu de tão singular nos faz perceber algo mais profundo do que gostar ou não gostar dos esquemas dele. Os valores propostos por Diniz vão além, são capazes de evidenciar as fronteiras do modo que cada um tem de enxergar o jogo. Ou enxergar a vida, arrisco dizer. Explico. Entre os meus colegas de profissão há um com quem me afino muito, mas com o qual sempre mantive opiniões divergentes quando o assunto era o treinador.  É fato que o título carioca ao tornar evidente a evolução de Diniz na profissão aproximou um tanto nossos pontos de vista. 

Mas ao contrário do que eu pensava a entrevista concedida por Diniz na segunda-feira pós título que tanto me impactou foi vista por ele com muitas ressalvas. A mim, por outro lado, soou valorosa. E se escolho esse adjetivo é porque no cerne de tudo ali estavam valores. Valores que Diniz faz questão de colocar à frente da vitória, do título. O que para muitos soa como uma heresia. Mesmo que ele tenha reconhecido que ficava devendo no que diz respeito à parte defensiva. Ou que tenha tratado com elegância a brutalidade que Felipe Melo sempre trouxe embutida em seu futebol. E que Diniz chamou de imposição, fazendo questão de dizer que é algo que não despreza no jogo, pelo contrário, considera importante. Uma entrevista que explicitou que talvez a maior contribuição de Diniz ao nosso futebol não tenha nada a ver com resultados, ainda que com eles passe a ser muito mais ouvido, a ter mais voz. 

Para ser breve, o que a minha formação intelectual sugere é que pessoas com o tipo de lógica que Diniz faz questão de defender aproxima as pessoas da vitória em qualquer campo. Trago comigo um certo receio com essa coisa de considerar a vitória um grande fim. O caminho a ela me soa infinitamente mais interessante. Enfim, penso que talvez a grande contribuição de Diniz seja nos fazer pensar.  Tire suas conclusões. O que irá aqui depois do ponto final que se aproxima são palavras de Fernando Diniz, não minhas. 

"A minha convicção vem do sofrimento que eu tive quando jogava futebol. Eu sei o que é ser jogador. Se sentir o tempo todo exposto para ser massacrado. Pela imprensa, pela torcida, pela parte interna que não protege. O futebol para mim é um meio de ajudar as pessoas a serem melhores.  Tem que entender quem joga. A gente tem que entender a pessoa por trás do jogador. Esse é o meu objeto de estudo, minha paixão. Eu acho que o Dinizismo é aprofundar mais as discussões para ajudar mais as pessoas. A parte tática, por mais que seja mais visível, não é a parte fundamental. O central de meu trabalho é estabelecer boas relações humanas. Que eles se sintam bem, que possam errar sem ser atacados o tempo todo. O futebol é uma arte, é como pintar ou tocar uma música. Tudo o que você faz com a mão a gente faz com o pé. Os mais talentosos quase sempre são os que ficaram mais longe da escola, tiveram menos acesso a questões cognitivas e de base". 

 

quinta-feira, 13 de abril de 2023

O papo sobre futebol



Não há a menor dúvida de que nos últimos anos o discurso sobre futebol se tornou mais científico. A retórica que cerca o jogo está infinitamente além dos números que versam sobre a posse da bola, outrora a vedete do segmento. Vivemos a era em que os mapas de calor desnudam tudo e são turbinados pelos dados de finalização, desarme e afins. Mas é interessante notar que o papo sobre futebol em linhas gerais não acompanhou tudo isso. Continua sendo de viés humano, levando em conta detalhes que nunca aparecem em scouts.  A maneira de agir de um treinador, a marra de um atacante, a grossura ou o carisma desse ou daquele zagueiro. Por mais que os zagueiros gostem mesmo é de parecer cruéis. 

Enfim, não é de se estranhar que a coisa tenha tomado esse caminho, digamos, moderno. Nos últimos tempos ofícios como os dos analistas de desempenho ganharam destaque. E com os clubes se blindando cada vez mais, deixando de divulgar muitas vezes as listas de jogadores relacionados para os jogos e até mesmo a condição física de atletas lesionados é inevitável que as informações desse universo científico acabem por contaminar o discurso da crônica esportiva. Mas confesso que estou pra ver uma acalorada discussão sobre futebol em uma mesa de bar ter como combustível divergências sobre linhas altas ou baixas, sistemas quatro quatro dois ou algo que o valha. 

Gosto de pensar que esse discurso boleiro impregnado do que é puramente humano é a grande peça de resistência desse universo atualmente. O jogo em si há muito se rendeu. Outro viés interessante sobre o assunto é que com a chegada de um grande número de treinadores estrangeiros tem sido possível sentir uma certa falta de compreensão com determinados conceitos que eles fazem questão de adotar. Sendo de longe a maneira de lidar com o elenco a que mais se sobressai. Vitor Pereira, até pelo fato de ter estado à frente de dois dos times de maior torcida do país, amplamente acompanhados pelos veículos de comunicação - seja lá o que isso queira dizer hoje em dia - é dos mais incompreendidos. 

Tanto no Corinthians quanto no Flamengo  pareceu executar infinitos esforços para que o torcedor não tivesse muito claro o que era o time titular  dele. O que não teria sido problema se essa indefinição tivesse sido acompanhada de triunfos.  Mas não. E o torcedor, desde sempre, quer ver em campo os melhores. Esperar que o torcedor desenvolva algum tipo de simpatia para o que se convencionou chamar de time alternativo é ingenuidade. E é aí que se encontra uma questão importante demais e para a qual também não tenho opinião formada :  o quanto essa falta de compreensão  a respeito do que virou o futebol acaba por fragilizar um treinador.  Já que parece óbvio que ninguém é realmente capaz de defender o que não entende. 

Imaginar que um corneteiro dos bons vai levar em conta o que viu estampado em um mapa de calor, ou será capaz de se contentar com um scout que dê a impressão de questionar uma derrota, ou relevar um resultado adverso porque foi preciso poupar esse ou aquele jogador é algo que não cola. Os interessados em fazer esse meio de campo entre quem escala e quem corneta deveriam ter sempre em mente a necessidade de unir essas duas pontas. Uma fórmula desafiadora que faria seu criador  ter a atenção do primeiro e o respeito do segundo.

quinta-feira, 6 de abril de 2023

Resultado não importa



Pode , num primeiro momento, soar como heresia dizer que é possível questionar o esporte profissional do ponto de vista moral. E talvez essa investida faça mais sentido quando se trata de futebol e não de outros esportes. Não é por acaso que quando o assunto são os outros esportes em suas versões mais competitivas se cunhou o termo esporte de alto rendimento. Os mais cínicos dirão que em se tratando de futebol profissional em seu mais alto nível falar de alto rendimento seria redundância. No que estariam muito certos. Mas rendimento aqui, claro, tem duplo sentido. Quando questiono o valor moral do esporte profissional, digo dos infinitos casos de doping, por exemplo. Ou de comportamentos inapropriados que nascem quando um esportista passa a aceitar a vitória a qualquer preço. E no futebol mais do que em qualquer outro , até pela imensa exposição, essa realidade do vale tudo é infinitamente mais vista. 

Digo tudo isso para não deixar passar em branco uma notícia, que mesmo sendo de dias atrás, valeria a qualquer tempo, já que o que traz com ela não se dissolve com o tempo. E talvez o fato de tal acontecimento ter virado notícia mostre muito bem a realidade meio atravessada em que vivemos. A coisa se deu quando a meninada da Escola Municipal Maurício Rolim, da cidade de Dormentes , no sertão de Pernambuco, disputava uma partida de Futsal. O time em questão perdia por nove  a zero quando o professor Ezequiel Reis pediu para parar o jogo. O que se viu a partir dali foi uma sequência de declarações que poderiam muito bem servir a uma quantidade infinita de marmanjos e marmanjas que no anseio da glória atropelam sem o menor pudor o ético. Farei questão de listá-las a seguir.  Mas antes quero dizer que posso imaginar uma multidão fazendo questão de me jogar na cara que o ambiente de uma competição sub-14 nada tem a ver com o de uma profissional envolvendo cifras imensas e alcance planetário. E eu vos digo que realmente não tem. Mas que se todos os ditos professores em todas as escolinhas se prestassem a dar ao esporte esse viés nobre, tudo poderia ser diferente. Ezequiel, esse singular professor, tratou de fazer seus comandados tomarem consciência da condição deles. 

Disse aos atletas que era a primeira competição de que estavam fazendo parte, que jamais tinham jogado um amistoso nem nada. Vamos fazer um gol, dois se der, mas que se não desse eles seguiriam sendo uma equipe. Não apelou para irrealidades. Assumiu que o placar a favor do time adversário era amplo, mas que ainda assim era possível terminar tudo aquilo de maneira mais bonita. Atentem para a palavra: bonita. Mas talvez mais edificante que as palavras que fez questão de usar tenha sido a ausência de broncas.  Algo praticamente impensável no mundo do esporte profissional, onde o destempero dos treinadores virou algo trivial. E aí não falo só dos futebol, não. Lembrem-se do que já viram protagonizar na beira das quadras treinadores de voleibol, técnicos de ginastas. Imaginem o ambiente tóxico tomado de cobranças tão comum mesmo em categorias menores e  será inevitável admitir que ouvir alguém lhe dizer  que o resultado não importa, que importa é dar ali naquela situação o melhor de si, é algo raro, muito raro. E não deveria ser.        

 

quinta-feira, 30 de março de 2023

Um brasileirão divido ao meio



Sem meias palavras. Na minha opinião a manchete mais profunda do futebol brasileiro nos últimos dias foi a que anunciava que com a chegada de Pepa ao comando do time do Cruzeiro o futebol brasileiro passava a ter oito treinadores portugueses entre os vinte times que irão disputar o Brasileirão deste ano.  Número que, ao mesmo tempo, rachou o principal torneio de clubes do nosso país ao meio. Com o recém chegado Pepa passaram a ser dez estrangeiros e dez brasileiros ocupando esse tipo de posto. Digo profunda porque é daquelas notícias que não deixam dúvida de que o tempo transforma as coisas. Desde que essa tendência se mostrou, vocês devem lembrar bem, provocou ao mesmo tempo uma cisão entre os treinadores e também na crônica esportiva. De um lado os entusiasmados com o que se dava, do outro os descontentes apontando nesse desembarque  uma ameaça ao nosso futebol. 

Sem dar muito pano pras teorias e, o principal, sem aderir a um lado ou ao outro, vos digo que se a coisa assim se deu não foi porque os que ocupavam desses postos  andavam fazendo trabalhos brilhantes. Não era o caso. Mesmo neste momento não temos um técnico brasileiro que possa ser considerado acima da média. Só citaria Fernando Diniz que, independentemente do juízo que se faça sobre os esquemas dele, com sua maneira de pensar tem ajudado a expandir a reflexão a respeito do jogo de bola. Enfim, o número de portugueses realmente impressiona. Oito no total. É certo que o sucesso de Abel Ferreira abriu portas aos seus conterrâneos, e pelo visto como abriu. Mas se chegarmos à conclusão de que contratar treinadores portugueses virou moda, seremos levados a concluir também que esse é um caminho perigoso. A moda é efêmera. 

Há detalhes a sustentar essa desconfiança. Os portugueses, mas não só eles, desembarcam aqui com ares catedráticos, com a fleuma europeia, mas trazendo, na maior parte das vezes, currículos modestos. Seria uma leviandade falar de Abel e não citar Jesus, o Jorge. Que chegou antes dele e com sua passagem em certa medida breve e uma saída no mínimo deselegante pelo Flamengo foi fundamental para sedimentar essa grife portuguesa. Um sucesso tão retumbante e, no caso de Jesus, rebuscado, que agora olhando a história pelo prisma dessa invasão fica fácil compreender a razão que fez o time carioca ir atrás de Vitor Pereira. Mesmo ele tendo dito que a grande preocupação dele naquele momento era com a sogra. 

Sem Jesus talvez Abel nem estivesse entre nós. Mas se a falta de brilho dos nossos foi o que definitivamente escancarou aos portugueses as portas do futebol brasileiro, não devemos por isso desprezar o papel que teve nisso o fato de falarmos a mesma língua. Está aí o nosso Tite estudando outras para, quem sabe, invadir fronteiras europeias. Deve ser digno de registro ao mesmo tempo a quase ausência de treinadores argentinos por aqui. Mas eles, os argentinos, estamos cansados de saber, gozam de prestígio e espaço num reino que os brasileiros estão distantes, muito distantes de conquistar.  E não seria exagero dizer, com prestígio suficiente para rivalizar com os portugueses no futebol do velho mundo.

quinta-feira, 16 de março de 2023

Valeu, Romualdo !



Eu conheci isso aqui quando era tudo mato. É bem provável que em algum momento você tenha ouvido a frase que abre esse artigoOuvi muitas vezes. Confesso a vocês que evito usá-la. Sei que as pessoas não têm culpa alguma de terem vindo ao mundo depois de nós. Como evito usar uma outra, aquela sacada quando nos deparamos com alguém que vimos nascer. O famoso...te peguei no colo. Fiz essa abertura porque queria fazer uma homenagem e pra isso serei obrigado a relembrar um tempo em que ali nos arredores da Rua Quintino Bocaiuva, em São Vicente,  se não era tudo mato, era quase. A Quintino, hoje é uma via de tráfego impiedoso. Mas nos idos dos anos oitenta era uma rua larga de terra. Permitia que a fizéssemos de campinho para travar boas peladas. 

A bola, em geral, era uma dente de leite. As vezes, uma de capotão, que não tardava a ter seu couro corroído pelas pedras do que imaginávamos um gramado. Mas havia um senhor, dono da imobiliária que ficava do outro lado da linha do trem, na Marechal Deodoro, que mais de uma vez deu ao jogo de bola da molecada da minha rua um ar de gala. O senhor era ninguém menos do que o árbitro Romualdo Arpi Filho, falecido no último dia 04 , que não tardaria a viver seu auge profissional apitando uma final de Copa do Mundo. Da primeira vez que a coisa se deu, foi o Zé Carlos, que nunca mais vi, um moreno de pernas tortas que batia um bolão quem chegou botando pilha em todo mundo.  Depois da pelada, a meninada toda empoleirada no muro, ele fez o anúncio: Romualdo tinha prometido trazer uma bola. Imaginem só. Uma bola oficial. 

Entre o olhar cheio de brilho de uns e o olhar cheio de descrença de outros se passaram umas semanas.  Eis que um belo dia o Zé Carlos, que desde sempre tinha chamado pra ele a responsabilidade de sair batendo de porta em porta no início da tarde convocando a molecada pro jogo, trazia embaixo do braço a tal bola presenteada pelo Romualdo. Nunca uma pelada na Quintino tinha tido ar tão nobre.  A entrega tinha se dado em uma segunda-feira e Romualdo tinha dito que a bola era a que tinha sido usada no clássico do domingo. Houve, por esse motivo, quem tivesse sugerido que com uma bola daquela o melhor seria ir jogar na praia. A areia seria infinitamente menos agressiva àquela maravilha. E realmente a Quintino tinha pedra que não acabava mais. Não havia nem bola nem tampão do dedão que ficasse intacto. 

Não faz muito tempo tinha ligado para o Romualdo. Iríamos fazer um programa especial no final de ano e queria tê-lo como convidado. Com elegância me disse que preferia declinar. Considerava que seu tempo tinha passado. Tentei não apelar.  Não consegui. Antes de me despedir saquei as minhas memórias de moleque. Não teve jeito. Lembrando agora me alenta o fato de, ao menos, ter podido dividir com ele tais lembranças. Os mais velhos do que eu, os que viram tudo com mais mato do que eu, dizem que Romualdo, com seu corpo franzino, não teve vida fácil na várzea. Já não importa. Importa é deixar um obrigado a Romualdo por ter dado bola para aquela garotada que antes de receber o presente dele achava que era igual a todas as outras. 

quinta-feira, 9 de março de 2023

O Santos sob o olhar da história



Pode até ser que você não seja desses que andam cornetando o Campeonato Paulista. O que pensando bem é coisa que vejo mais ser encenada pela crônica do que pela torcida. Digam os descontentes o que quiser. Que o estadual acaba esvaziado. Que acaba complicando a preparação dos times para torneios mais importantes. Que sem ele o calendário deixaria de ser draconiano. De minha parte gostaria que fosse mais equilibrado. Ano após ano o que temos visto nada tem de novo. Das últimas dez edições sete delas tiveram na final os ditos grandes, incluído aí o Santos junto ao trio de ferro. Vez ou outra pinta um coadjuvante. Papel que tem pertencido ao São Bernardo nessa edição atual. 

Interessante notar que se analisarmos não só a última década, mas as duas décadas anteriores, seremos levados a crer que essas surpresas têm se tornado mais raras. Entre os anos de 2013 e 2022 foram três as oportunidades em que um time de menor porte figurou na final.  Ainda que só um deles, como na década anterior, tenha chegado ao título. E de maneira geral o time que cumpre esse papel de dar ao torneio um verniz de surpreendente quando rouba a cena acaba canibalizado. Tem os seus mais destacados nomes rapidamente cooptados. Afinal, quem irá resistir aos encantos de um Palmeiras ou de um Corinthians, que sempre embutem nesse seu cortejo a insinuação de que com eles o mundo do futebol definitivamente se abrirá pra esses que despontam. É o que vimos acontecer nos últimos dias com o jovem Crhystian Barletta de vinte e um anos, destaque do São Bernardo, que está na dele, tem de aproveitar o momento e voar. 

Esse recorte histórico também nos serve para analisar o papel do Santos. Nas últimas dez edições do Campeonato Paulista metade delas, cinco, foram decididas exclusivamente pelo trio de ferro. As últimas cinco, aliás. Quando o time da Vila Belmiro passa a fazer parte da análise o número salta para sete. Ou seja, na última década o Santos esteve em duas finais com os grandes. Em uma foi derrotado pelo Corinthians e na outra bateu o Palmeiras. Bons tempos. Também figurou em outras duas decisões. Em uma foi derrotado pelo Ituano e na outra venceu o Audax , que na época fez esse dito papel de sensação do campeonato. 

Pode parecer representativo, mas na década anterior o Peixe tinha estado em seis decisões e vencido cinco delas. E com louvor, porque ao vencer a edição de 2012 voltava  a ser tri estadual depois de 43 anos. A última vez que tinha alcançado tal feito tinha sido entre 1967 e 1969 época do Santos comandado por Pelé. E nem vamos falar da conquista da Libertadores porque o papo é só o Paulista. Este ano, depois de dois, o time da Vila Belmiro conseguiu chegar à fronteira da fase de grupos sem estar ameaçado pelo rebaixamento. Difícil negar que tenha avançado, portanto. E se a torcida não enxergava nisso um motivo de comemoração depois da melancólica atuação diante do Ituano na última rodada essa reação ficou mais do que compreensível. Os mais precisos dirão que o grande desafio santista é dar conta do Brasileiro que vem aí, tido como um dos mais cascudos dos últimos tempos. Muito pode ser dito a respeito, o que não dá é pra brigar com a história recente que impõe ao Santos retomar um lugar de honra que ele ano após ano tem visto lhe escapar.

quinta-feira, 2 de março de 2023

De olho no futebol dos outros



Nos dois últimos meios de semana quem conseguiu acompanhar os jogos do principal torneio de clubes da Europa renovou em si aquela sensação desconfortável de que o que andamos desfrutando por aqui em matéria de futebol está a anos luz do que se desenrola por lá. Não descarto que caiba aí um sem fim de colocações. Inclusive a de que boa parte do brilho que se vê por lá é fruto de talentos que nascem entre nós. Está aí o Vini Júnior como prova. Ninguém melhor do que ele para ilustrar isso. Enfim, estamos falando de um centro para o qual convergem há tempos os melhores do mundo tenham eles nascido na Noruega ou em um país da África. E pode soar como coisa de ranzinza dizer que mesmo uma bola atrasada por lá é mais virtuosa do que uma que se atrasa aqui. E como se atrasa. A dinâmica de um jogo de primeira linha do futebol europeu derrama graça até no mais tosco dos chutões. E há outro ponto: jogos como o que se deu entre Liverpool e Real Madrid estão em um patamar que também não é o do futebol europeu em sua totalidade. Muito pelo contrário. 

Um modo sonhador de desarmar esse enredo seria apelar para a ousadia. Pensar o jogo de bola de maneira diferente. Aceitar correr riscos. Teorias que estamos cansados de saber que nenhum dos nossos professores está disposto a adotar. Mesmo os que têm à disposição um elenco talentoso Mas já que não conseguimos copiar o futebol, que tal copiar o comportamento? Isso mesmo. Não enlouqueci, ainda. Tente por um instante fazer esse exercício. Imagine nosso futebol, esse mesmo que está aí, sem maiores mudanças, mas sem jogadores caindo depois de qualquer encontrão com o adversário. Com os goleiros sendo obrigados a cumprir minimamente o tempo estipulado pra reposição de bola. Sem os fingimentos constantes que tentam convencer o árbitro de que aquela mão no rosto teve a força de um golpe desferido por um peso pesado. Daríamos , ou não daríamos, um lustro na coisa? 

Digo mais, imagine o futebol não livre - o que seria irreal - mas com os rompantes de valentia tão comuns nos clássicos reduzidos a algo que não afrontasse deveras a civilidade. Atitudes que acostumamos a ouvir que esquentam jogos. Ora, o que esquenta jogo é lance bom. Disposição pra jogar. O que esquenta jogo é time procurando o gol. Criando chances claras de fazer a bola ir dar no fundo da rede adversária. Isso tudo somado a uma arbitragem menos intervencionista e, acima de tudo, mais preocupada em educar os jogadores fariam muito pelo futebol. Não sou inocente a ponto de pensar que todas essas bizarrices não sejam vistas na Europa. O fato é que se dão de modo que não comprometem o espetáculo. 

Acho difícil alguém de bom senso não aceitar a conclusão de que um jogo bem conduzido e uma arbitragem preocupada verdadeiramente em preservar o espetáculo não operariam milagres. Mas estamos na contramão. Entre nós passou a ser um lugar comum afirmar que árbitros muito exigentes podem comprometer o espetáculo. Quantas vezes não notamos que os jogadores em campo parecem menos preocupados em jogar bola e mais preocupados com a catimba. É disso que eu falo ao me referir a um jogo bem conduzido. É disso que eu falo quando digo que se não dá pra copiar o jogo deveríamos , ao menos, tentar copiar o comportamento visto num futebol que gostaríamos de poder chamar de nosso. 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Aposto que é por aí



Reza a lenda - ou rezava já não sei bem - que depois de uma vitória corintiana tudo amanhecia diferente. Até um simples cafezinho era outro. É fato que se trata de uma brincadeira, uma tiração de sarro,  que faz sentido quando se vive na capital paulista. Mas que creio permita um sem fim de adaptações. O interessante é que é o tipo de brincadeira que deixa transparecer como o futebol ao longo do tempo se misturou ao nosso cotidiano. E isso tem mudado para além da conta. Dias atrás um escândalo de manipulação de resultados tomou as manchetes. Não que fosse novidade. Tivesse o futebol brasileiro a capacidade criativa dos responsáveis por nomear nossas operações policiais e a realidade seria outra, o jogo de bola ainda estaria nos seduzindo. Se não acreditam nessa minha teoria saibam que a operação citada levou a alcunha de Penalidade Máxima. Que tal? hein? Caso eu fosse perguntado se teria alguma ideia a respeito talvez dissesse: por que não Armação Ilimitada? Aproveitando a deixa para homenagear um programa que fez muito sucesso quando eu já ia saindo da juventude. Mas vou aproveitar a deixa e contar uma breve história que elucida bem como as coisas andam.

Não faz muito tempo aceitei o convite de um amigo comentarista para uma cerveja rápida. Lugar perto de casa porque a vida na capital paulista não permite muitas extravagâncias de deslocamento. Ou exige uma disposição que já não tenho. Trata-se de um lugar muito modesto onde é possível, além da cerveja, pedir algo do mar. Um pastel de camarão, um polvo a vinagrete. E desse modo, por alguma distração - sabe-se lá se causada pela bebida ou pela descontração - se imaginar um tanto mais perto da beira-mar. Estou naquela idade em que a nostalgia costuma se apoderar da gente sem dificuldade. 

Bom, figuras já manjadas no recinto, com a profissão estando longe de ser segredo para os garçons o inevitável se deu. O rapaz que nos atendia puxou uma conversa sobre futebol. Sacou lá da cachola uma memória ludopedica sem nos dizer se torcia , ou não, para um dos times que faziam parte dela. Não tardei a perceber que o placar construído de modo surpreendente o impressionava mais do que qualquer outra coisa. Não dava pistas se tinha sofrido ou se deleitado com ele. Se nem uma coisa nem outra porque a citação?  E assim a coisa foi indo. Ele tinha outras mesas para cuidar. E nós outros copos para beber. Quando voltou pra seguir o bate papo tirando da mesa uma garrafa vazia e colocando outra cheia emendou o discurso sobre como aquele jogo tinha tirado dele algum dinheiro. Até o fim da noite, em sessões que duravam alguns minutos, sempre atendendo uma ou outra solicitação nossa, mencionou vários jogos sem citar um jogador, um lance, uma pisada na bola do árbitro. Vejam só! 

Tudo o que comentou foi a estratégia que tinha usado para movimentar suas apostas durante os últimos jogos que tinha visto.  As trocas de um lado para o outro com as partidas em andamento. Evitando perdas, aferindo algum lucro. Foi uma das maiores e mais cruas demonstrações que tive nos últimos tempos do que tem virado o futebol. Feliz, me despedi do amigo. Olhamos um para outro depois do aperto de mão e , quase ao mesmo tempo, nos dissemos: é, o futebol anda assim. E lá fui eu pra casa pensando se um dia a vitória nas apostas serão capazes de mudar as coisas e fazer diferente até um simples cafezinho. 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

É catimba ! É dia de Derby !


Não sei se você jogou bola um dia, se ainda joga. Ou se pretende. Diante dessas possibilidades a segunda coisa que gostaria de saber é que tipo de boleiro você foi ou seria. Com essas informações conseguiria imaginar melhor como encara os rompantes do treinador palmeirense à beira do gramado. Jamais sugeriria aqui que os tais se comportassem como lordes na área técnica. Nada disso. Também não vou furtá-los do meu testemunho a esse respeito. No tempo em que joguei bola, e faz um bom tempo que não tenho jogado mais, quero crer, fui um sujeito equilibrado na medida em que o jogo de bola permite. Não era do tipo esquentadinho. Longe disso. Mas também nunca fui santo. 

Pra usar um termo atual diria que sempre fui um boleiro reativo. Capaz de perdoar qualquer canelada sem maldade mas implacável com as embebidas em deslealdade. Faço esse recorte para tentar elucidar o tamanho da mudança de rumo no discurso do treinador palmeirense Abel Ferreira. Em março do ano passado, ao ser entrevistado no programa Roda Viva, da TV Cultura , disse que ao dar de cara com as cenas dele na beira do gramado sentia vergonha do que via. E dizia que precisava melhorar isso. Como disse também que é uma pessoa tranquila mas que ali se transformava. E deixou o discurso ainda mais sólido ao reconhecer que para alguém que fala tanto em controle emocional dentro do gramado era preciso alcançar essa condição estando à beira dele. 

Pessoas serenas que se descabelam quando a bola rola, vos digo, são os tipos mais comuns neste universo. Ocorre que dias atrás, bem depois de ter sido expulso pela enésima vez com direito a mandar para o ar um dos microfones da transmissão, Abel voltou ao assunto agora dizendo que é um cara competitivo por natureza, o que agrada a uns e a outros não. E seguiu dizendo que na área técnica faz o que é preciso pra ganhar. E mais, que é um boneco, um ator, e que mostra o que interessa. É bem verdade que antes disso voltou a dizer que reconhece que precisa mudar. E disse que quem quiser saber dele não deve perguntar a jornalistas e sim a seus ex-treinadores e jogadores. 

Mas há aí uma verdade que complica as coisas. Abel, afinal, não existe só para os seus. Os palmeirenses , por exemplo, o amam. E diria que até por isso. Com toda a capacidade que tem, o que para mim está óbvio, Abel põe a maior fé numa certa embolada no meio de campo como dizem e também está convencido de que, em matéria de futebol, é preciso jamais deixar que os outros ganhem no grito. Crenças que desde sempre foram como mandamentos para  os boleiros.  A trajetória que Abel vem desenhando não deixa a mínima dúvida sobre sua excelência profissional. 

Mas parece óbvio que para quem quer crescer esse tipo de comportamento e , mais do que isso, a construção dessa imagem só irão jogar contra. Talvez seja o caso de mirar-se no modus operandi de um Pep Guardiola, que ostenta lá a finesse dele mas quando acha que a coisa ficou ruim pro time ou pra ele não pensa duas vezes em colocar os pingos nos is.  E todo mundo quando pensa no catalão certamente não o enxerga como um vilão. Que seja ator esse Abel, mas que trate de dar uma boa polida no papel. Mas depois de ouvir em sua última versão duvido que mude pois estou convencido que tudo não passa é de catimba. E nada melhor pra testar todas essas teorias do que um Derby, é ou não é?           

 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Quem salvará Vini Júnior ?




Se a memória não me trai, faz tempo que não abraço neste espaço um personagem. Tenho um fraco por eles, os grandes, claro. E vou  carregar sempre uma ponta de inveja, das boas, de um Mário Filho ou de um Nelson Rodrigues, que sabiam com raríssimo talento elegê-los e, mais do que isso, descrevê-los. E esse eleger é o detalhe porque quando digo que gosto dos grandes isso nada tem a ver com nobreza. Um personagem pode se fazer imenso sendo simples. E personagem para mim, não é de hoje, tem sido o jovem Vinicius Júnior. 

O episódio em que um boneco vestido com a camisa dele apareceu enforcado num viaduto da capital espanhola pouco antes do clássico entre o time dele, o Real,  e o Atlético de Madrid é de um simbolismo macabro. Apesar disso estar muito claro em um primeiro momento temi que a coisa fosse esquecida. Quando um ou dois dias mais tarde veio a notícia de que o ocorrido estava sendo investigado pela polícia e tinha sido levado a outras instâncias me interessei de vez. Tenho acompanhado os desdobramentos. Considerei alvissareiro quando no final da última semana a polícia informou que tinha encontrado impressões digitais e até traços de DNA no boneco enforcado, bem como imagens de carros suspeitos e suas placas, o que foi possível graças as imagens registradas pelas câmeras que monitoram o trafego na região. 

Vinicius Júnior é bom de bola e todo mundo que entende um pouco de futebol já sacou. O que lhe permitiu o requinte de justamente no jogo entre o Real e o Atlético de Madrid  ter não apenas ajudado deveras o time dele , mas também ter anotado o gol que definiu a vitória de virada do Real por três a um. E quem vê esse garoto de vinte e dois em campo, com seu sorriso largo, seu jeito leve, pode custar a acreditar que se trata de alguém que tem estado sob ataque constante nos últimos seis meses. Alvo de atos preconceituosos, racistas. Quisera neste momento pesassem sobre ele apenas os descontentes com as danças que Vini curte fazer ao marcar um gol. 

E como se não bastasse tudo isso voltou a ser manchete na última quinta ao sofrer uma entrada desleal do zagueiro brasileiro, Gabriel Paulista, no jogo contra o Valencia que o Real ia vencendo por dois a zero. Gabriel se desculpou, disse que não estava orgulhoso do que tinha feito. Que não teve a intenção de machucar e que a má fase vivida pelo Valencia o tem deixado com os sentimentos à flor da pele. É fato, o time de Gabriel anda flertando com a parte mais baixa da tabela e sabemos todos o que isso significa no mundo da bola. O que eu não consigo deixar de levar em conta é o quanto tudo o que tem sido dito e feito a Vinicius Júnior não fez dele um alvo. E o quanto não continuará fazendo. No final de semana contra o Mallorca tudo se repetiu. 

Vinicius Júnior talvez seja de longe o melhor que o futebol brasileiro produziu nos últimos tempos. O cara que continua de alguma forma nos fazendo acreditar que nosso pais segue sendo uma fonte inesgotável de talento, com todo o potencial suicida que pode se esconder nisso. Vinicius Júnior precisa de proteção literalmente. Ontem, enfim, a La Liga anunciou a criação de uma Comissão para cuidar disso. Inspetores, segundo eles, serão colocados em setores considerados problemáticos.  Mais importante do que isso, foi o presidente, ainda que tardiamente, ter dito o óbvio: " La Liga não pode ter um jogador que vai a todos os estádios e é insultado". Pois vou além, digo ser lamentável que a CBF  não tenha se pronunciado diante de tal gravidade, ou que  o Real Madrid com todo o poder que tem até agora não tenha levantado a voz nesse sentido. Falar em sentimentos à flor da pele a essa altura não passa de canalhice.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

O caminho do futebol é o da grana





Naquele início de dezembro de 2010 quando num evento, pomposo como sempre, realizado na Suiça, as fichas com os nomes da Rússia e do Qatar foram mostradas e o mundo ficou sabendo qual seria o caminho das Copas depois de passar pelo Brasil os mais atentos não ficaram surpresos. Talvez tenha sido o resultado mais fácil de se prever da história. A razão é muito simples: o caminho das Copas tem sido faz tempo o caminho da grana. É possível pensar que nem sempre tenha sido assim se conseguirmos crer que dinheiro e interesses não são a mesma coisa. 

O Brasil tinha recém torrado pouco mais de dezesseis bilhões fazendo, portanto, a Copa mais cara da história, mas a Rússia alardeava que estava disposta a gastar quase trinta. Na época o vice primeiro ministro russo, Igor Shuvalov, disse que nunca iriam se arrepender da escolha. O que me faz pensar o quanto a Copa não ajudou a turbinar o poder de Vladimir Putin que insiste em fazer pairar sobre o mundo nos dias de hoje a ameaça de uma guerra nuclear. Os russos tinham o argumento de jamais ter recebido um mundial e o de abrir de vez um grande mercado.  Argumentos meio gastos. Tinham sido usados antes para embasar candidaturas como a dos Estados Unidos e da África. 

Ao Qatar bastaria apontar o cofre. Mas o protocolo tem lá suas exigências. E para dar conta dele nada como bradar aos quatro ventos a possibilidade de se realizar pela primeira vez na história um Mundial no Oriente Médio. Fato é que o mundo acabou vendo coisas mais singulares do que isso. Uma Copa realizada em dezembro. Um Mundial com graves acusações de violações de direitos humanos como nunca se tinha visto. Enfim, o tempo passou e pouca gente se deu conta da cifra que envolveu esse capítulo da história do futebol. O Qatar gastou, ou diz ter gasto, mais de um trilhão de reais. Isso mesmo, um trilhão. Não se trata de um erro de digitação.

Não duvido que a cifra soe até normal para o orçamento deles que têm colocado verdadeiras fortunas também para construir museus. Pagando valores astronômicos em obras de arte e projetos assinados por arquitetos mundialmente famosos. Diz o dito popular que quem pode, pode. Como se diz também dos bem sucedidos que não costumam brincar em serviço. O que cai como uma luva pra descrever os homens da FIFA. Farão agora a Copa voltar aos Estados Unidos, dessa vez a estendendo pela América. Colocando também Canadá e México na jogada.  Apesar de tudo, das crises, os EUA ainda são um grande mercado. E por mais que a Arábia Saudita diga que não tem uma candidatura elaborada ela está inevitavelmente no caminho das Copas. Como o Qatar que, não é de hoje, faz com o futebol transações que mais  parecem negócios de Estado. 

Que a Arábia Saudita não veja o futebol como uma maneira de melhorar sua imagem é difícil de acreditar. Não fosse assim, qual a razão de ter levado pra lá há tempos as decisões da Supercopa da Espanha e da Itália? Ou de ter promovido dias atrás um amistoso envolvendo o PSG, que simplesmente colocou Messi e Cristiano Ronaldo frente a frente? Mas sedutor mesmo para a FIFA, essa pra lá de endinheirada entidade sem fins lucrativos, é saber que a Arábia Saudita tem um fundo de dois trilhões e meio de reais para financiar o que o país achar interessante. E sabendo disso, o que você me diz, o futebol fará, ou não, o caminho da grana?  E o ex-presidente da FIFA, Joseph Blatter blefou, ou estava errado, quando disse que a Copa do Qatar tinha sido um erro?