sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Quem precisa de Olimpíada?



A intenção pode ter sido das melhores. O Barão de Coubertin pode merecer absolvição. Mas que os Jogos Olímpicos há tempos tomaram outro rumo não resta dúvida. Talvez para lhe resgatar o espírito, fosse necessário lhe dar um quê da várzea.  Um jeitão simplório que realmente nos convencesse de que se trata de algo feito para todos. Mas vimos de perto do que se trata. Os elefantes brancos andam por aí na outrora irresistível paisagem carioca. Sem falar no fato de que uma vez apagada a chama olímpica o COI lava as mãos. Uma postura coerente e cidadã seria se sentir de algum modo responsável quando o legado não vem ou quando as contas saem do controle. 


É claro que o tema me fisgou por conta do descontentamento que os japoneses vão fazendo questão de mostrar com relação aos Jogos de Tóquio, adiados para o ano que vem por conta da pandemia. E mais recentemente pelas declarações descabidas e insensíveis do vice do COI, John Coates, e depois da Ministra da Olimpíada de Tóquio, Seiko Hashimoto. O primeiro afirmou que a Olimpíada será realizada "com ou sem covid". E a ministra, que os Jogos serão realizados "a qualquer preço".  Aos poucos  vamos vendo que nem os japoneses, que reconhecemos entre outras virtudes pela honestidade e pelo pragmatismo, são capazes de não se macular por esse tipo de evento. Ou pelo que ele virou. 


Vejam, a previsão inicial de gastos era da ordem de seis bilhões de dólares, cerca de trinta e seis bilhões de reais. O adiamento trará novos gastos. Mas na última vez que se falou nisso por lá - pois não se fala sempre - foi em dezembro de 2018. E a conta já havia saltado para assustadores doze bilhões e seiscentos milhões de dólares, ou sessenta e cinco bilhões e meio de reais.  Semanas atrás a capital japonesa foi palco de um protesto. Inversamente proporcional a essa conta. Cerca de uma centena de pessoas se reuniram e pediram não só o cancelamento da edição marcada para Tóquio, mas também das próximas marcadas para as cidades de Paris e Los Angeles. Isso mesmo! Pediram o fim dos jogos, por considerá-los desnecessários aos cidadãos do mundo. 


Posso ter dúvidas sobre acabar com eles, mas não tenho nenhuma sobre a necessidade de se colocar de uma vez por todas um fim em gastos dessa dimensão. Confesso que no último ciclo olímpico quando cidades importantes desistiram da candidatura tive a impressão de que veríamos algum movimento nesse sentido.  Sensação que encontrava amparo também na realidade que estávamos vivendo ao ver a conta dos jogos do Rio e suas promessas não cumpridas pairando como fantasmas sobre nossas cabeças. Pensei que o mundo tivesse tido uma boa prova de que era preciso mudar. 


Mas a máquina olímpica é insaciável. Mesmo com todos os engasgos econômicos do planeta os nossos mais de quarenta bilhões de gastos com os jogos já foram ultrapassados com larga margem. Um recorde de cifras que enche os olhos de alguns mas que soa infinitamente descabido. Uma realidade que elucida o que virou o esporte. Uma realidade que desvirtua. Enquanto a beleza resiste. Ou alguém duvida que ver um dia um homem conseguir correr os cem metros abaixo de nove segundos e cinquenta centésimos deixará de ser raro e belo só porque o estádio que abriga a pista em que ele corria não foi reformado ou é velho?   

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

A Libertadores é o que parece?



Eu gosto desse papo sobre a importância que a Copa Libertadores ganhou nos últimos anos. Por uma razão simples: vejo nele a possibilidade de entender melhor o que seduz de verdade o torcedor.  Como é que a emoção se processa na cachola de quem ainda gasta tempo e saliva com o jogo de bola. Não teço teorias mirabolantes, de modo que considero a enorme exposição na mídia capaz de  explicar em boa parte o que temos visto. Essa quase febre. Que os clubes a tenham comprado no sentido literal e figurado é óbvio. E se trata de reação intimamente ligada aos cofres. A bolada que cai na mão do campeão é considerável. 

Some-se a isso a possibilidade de figurar ao lado do campeão da Europa no Mundial de clubes e a fórmula da sedução talvez esteja desvendada. O verbo figurar nesse caso foi escolhido a dedo, não foi usado à toa, pois sempre correremos esse risco. Com já vimos acontecer. E a coisa só vai mudar no dia em que o futebol que se joga aqui for de alguma forma parecido com o que temos visto ser jogado na Europa. Enfim, lembro que tempos atrás a fase de grupos da Libertadores era encarada com certo desdém.   Um jogo aqui, outro ali, prendiam a atenção do torcedor. Mas era na reta final que a coisa dava liga. Hoje em dia, não. Os tambores rufam desde a chamada pré-Libertadores. Região da disputa que, se merece alguma fama, é mais por ter sido local de naufrágios improváveis de times ditos favoritos do que propriamente por sua importância. 

Digo mais, acho que essa volta - da maneira que está proposta - um tanto absurda. Dá a impressão de relevar totalmente o momento que o mundo atravessa. Manter a tabela assim, com jogos de ida e volta, obrigando delegações a frequentar aeroportos e outros locais, a fazer deslocamentos internacionais, é de uma insensibilidade enorme.  Certamente não foi por amor ao futebol que se decidiu desse modo, muito menos por respeito à saúde dos atletas e suas famílias. Sem contar que o formato com jogos únicos se mostrou capaz de contribuir bastante para aumentar a emoção em torno das partidas. Sem contar que estamos falando de uma edição que mal tinha começado. O que , em outras palavras, significa manter um número significativo de jogos num cenário que segue sendo de pura incerteza.E se falo dessa questão dos jogos únicos é não só porque seria um modo de poupar a parte física dos jogadores, mas também uma maneira de favorecer a melhora da qualidade técnica. Ainda que na cabeça do torcedor, tudo leva a crer, a emoção seja ingrediente capaz de suprir a falta de beleza muitas vezes. 


Longe dos mata-matas considero a Libertadores tecnicamente um torneio que deixa muito a desejar, pra não dizer que em alguns momentos apresenta um nível capaz fazer  um entendido no assunto corar de vergonha. E é de se esperar que a pandemia, frequentemente acusada por aqui de complicar o padrão de jogo e o trabalho das comissões técnicas, torne essa edição da Libertadores um tanto  mais opaca. Sem contar que cada país viu seu futebol voltar a cena em um momento. Dando aos times brasileiros alguma vantagem nesse sentido, já que voltaram a treinar já faz algum tempo. Enfim, acho a Libertadores um pouco uma metáfora desse nosso tempo em que, como dizem, quase tão importante quanto ser é parecer.     

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

O VAR só perde pro PIB



Tenho tentado driblar o assunto. Juro. Mas ele teima em se impor. Nas últimas rodadas do Brasileirão foi de longe o que provocou as discussões mais fervorosas. Nem em momentos de pura cornetagem em cima desse ou daquele jogador  foi possível notar veias tão estufadas. E não é pra menos. É coisa que mexe com o humor não só do torcedor, mas com o de todo mundo que de uma forma ou de outra está envolvido nesse circo. Enfim, cedi. Mesmo ciente de que de chato já nos basta o jogo, com exceções cada vez mais raras.  E não se trata de falar mal do árbitro de vídeo, não. 

Temos padecido de algo, creio, que já sabíamos, mas que de alguma forma nos envolvia numa fantasia. A fantasia de que o VAR teria a desejada virtude de ser conclusivo a respeito do jogo. Essa é a primeira questão que gostaria de abordar. Seria preciso - como diria meu amigo Xico Sá - fazer a geringonça tecnológica vestir as sandálias da humildade. Admitir, em certos casos, que mesmo dispondo de tantos recursos não é possível chegar a conclusão alguma. Essa deveria ser a lição deixada pela imagem que levou à anulação do gol de Luciano para o São Paulo diante do Atlético, em pleno Mineirão. Como aquele já estivemos diante de outros lances da mesma complexidade. 

A pena de não ter a coragem de em certas situações tomar tal atitude, aceitar que não é possível ser preciso na análise, é nos condenar eternamente a essa ladainha, que vai se repetir fatalmente. Vira e mexe virá nos assombrar. O tema é complexo. Lembrarão alguns que na jogada em questão o bandeirinha tinha apontado impedimento. Ou seja, sem o árbitro de vídeo o desfecho teria sido o mesmo. A  menos que o árbitro de campo tivesse tomado a decisão de desautorizá-lo. Ato que o faria comprar uma briga daquelas. Um outro detalhe merece reflexão. A forma como tem sido feita a escolha que define quem irá ocupar o posto de árbitro de vídeo. 

Se o escolhido tem trajetória e reputação mais expressivas, mais nome do que aquele que terá a missão de estar no gramado, a situação inevitavelmente fica desconfortável para o dono do apito. E a indução a uma certa forma de ver o ocorrido muito provável. Questão fácil de ser identificada pela Comissão que cuida da arbitragem. No mais, não deve nos causar surpresa que as decisões oriundas da cabine, muitas vezes, deixem transparecer uma quedinha para os grandes. A vida dos times pequenos nunca foi fácil. 

Imaginar que o VAR iria neutralizar essa (como definir?) tendência, pelo visto, é raciocínio tão ingênuo quanto imaginar que o árbitro de vídeo teria o efeito milagroso de arrefecer as polêmicas. O VAR, esse nosso pelo menos, que segundo levantamentos demora quarenta e seis por cento mais tempo do que recomenda a FIFA para tomar decisões, e cujas intervenções da última temporada para essa cresceram bizarros sessenta e oito por cento, precisa urgentemente de um bom analista. Ou quem acabara no divã seremos nós. Mais assustadores do que  esses números do nosso VAR tupiniquim só mesmo os que indicaram a queda vertiginosa do nosso PIB. 

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Fla-Flu (Djanira/1975)

 




  • Dimensões
    • 96.00 cm x 161.50 cm
  • Acervo
    • Museu Nacional de Belas Artes/ RJ

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Era uma vez o Itaquerão?

                                                          Foto: Wander Roberto /2019

Se você gosta de futebol e nunca leu algo escrito por Mário Filho a respeito do jogo de bola não tem ideia do que está perdendo. Sou suspeito para falar pois chego a gostar mais dele do que do irmão, Nelson Rodrigues, coisa que se a memória não me falha não faz muito tempo confessei. Não me entendam mal, tenho Nelson em altíssima conta. Mas tomarei a liberdade até de brincar um pouco com o tema. Vira e mexe alguém lembra que Nelson não enxergava bem. Mário enxergava muito, cada mínimo movimento. O que pode ser facilmente percebido com a leitura de um texto escrito por ele sobre Telê Santana. Linhas em que Mário o define como sendo o ponteiro dos segundos, jamais o das horas. Isso em virtude do  jeito de Telê se movimentar em campo, de estar em todo canto do gramado. Sem nem sempre ser percebido . Portanto, não poderia haver injustiça maior do que subtrair do estádio mais importante do nosso país o nome dele. Subtrair é figura de linguagem, seu nome está lá estampado em letras grandes. Mas só os mal arrazoados acreditam que se trate de tema sobre o qual alguém deva ou possa legislar. O Mário Filho é o Maracanã, e ponto. 

Essa questão do nome sempre foi um fantasma que rondou o novo estádio corintiano.  O que se fez ainda maior pelo fato de o atual presidente do clube ter se mostrado desde sempre incomodado com a alcunha: Itaquerão. Eis que horas atrás, enfim, o Corinthians anunciou quem dará nome ao estádio. Um patrocinador, óbvio. Poderia ser o fim de uma novela mas, digamos, tem tudo pra ser o início de uma nova temporada dela. Isso porque talvez não seja tarefa fácil convencer os interessados por futebol desse nome de batismo. A coisa se arrastou por mais de meia década, o que certamente serviu para sedimentar na cabeça dos torcedores o apelido. Os desgostosos com esse nome, Itaquerão, vira e mexe sugerem chamá-lo de Arena Corinthians. Compreensível. 

Mas como profissional de  comunicação posso fazer uma observação. Há um consenso de que palavras repetidas empobrecem o texto jornalístico.  E quando o estádio tem o nome do time a repetição se torna inevitável.  Os mais atentos terão notado que o estádio palmeirense era chamado muitas vezes, no início, não de Arena Palmeiras mas de nova casa palmeirense. Nesse sentido sempre considerei uma ótima sacada chamá-lo de Allianz Parque, o que de certa forma o ligou ao antigo nome, que sempre frequentou  o imaginário do torcedor.  Ainda que o nome oficial do Parque Antártica fosse Estádio Palestra Itália. Quantas vezes aquele seu amigo torcedor do São Paulo lhe disse que iria ver um jogo no Cícero Pompeu de Toledo? Ele diz que vai é no Morumbi e acabou.   Mesmo que muitos adversários gostem de lembrar que o estádio fica na verdade é no Jardim Leonor. 

Tenho a mais absoluta certeza de que Mário Filho, conhecendo o futebol como conhecia, jamais se sentiria desrespeitado ao ver, ouvir, seu nome substituído por Maracanã. É literalmente do jogo. Fazer com que um estádio passe a ser chamado assim ou assado pode ser uma questão de negociação, quando se trata de veículos de comunicação. Mas colocar um nome na ponta da língua do torcedor, pelo que a história mostra, não é exatamente uma questão de negociação. Muito menos de imposição.  

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Messi, o grande



Nos últimos dias o jogador argentino, Lionel Messi, tem ocupado mais espaço nas manchetes esportivas do que quase todos os jogos que têm rolado por aí. Mais até do que muitos clubes. E não é pra menos.  Messi, faz tempo, se tornou o principal fiel depositário da magia do futebol. Isso num tempo em que ter alguém à altura de vestir com dignidade uma camisa dez é muita coisa. Por força do hábito muitos não conseguirão driblar o que virou mania. Comparar o futebol dele com o de Cristiano Ronaldo etc e tal.  Não caio nessa e em outros tempos já deixei aqui minha opção pelo argentino. Ainda que reconheça no português um atleta raro e com lugar garantido na história. Como também não quero especular sobre o destino do argentino. Pouco importa. 

Seja qual for a camisa que ele venha a vestir a minha torcida é apenas para que ele nos mostre que ainda não perdeu o entusiasmo com o jogo. E  que venha a aportar em um time com elenco capaz de lhe dar o suporte técnico que merece. O que não é fácil. A ausência dessas duas condições, ou uma delas que seja, pode redundar numa perda considerável  para o futebol como um todo. Enquanto batuco estas linhas um programa de TV coloca um correspondente no ar pra dizer que o caso Messi pode levar à renúncia do presidente do clube catalão. Ao mesmo tempo em que as páginas de esportes elencam os fatos que teriam levado o craque a enviar à direção do clube a fatídica carta na qual externava sua vontade de partir. 

Aliás, se há algo que mudou em Messi de uns tempos para cá foi justamente o fato de passar a falar, de deixar claro o que lhe incomoda e o que quer. E não só no clube catalão onde nos últimos tempos adotou uma postura dura até, mas também na seleção argentina. Basta lembrar o comportamento que teve na última Copa América. Ali parecia ter deixado de vez para trás o jeitão que durante tanto tempo o caracterizou. O de um cara tímido, calado. A idade, sabemos bem, costuma diminuir consideravelmente nossa paciência. E isso tem um lado bom pois se há alguém com envergadura nesse meio para comprar brigas esse cara é Lionel Messi. Enfim, na minha opinião, o que verdadeiramente importa neste momento não é o número de gols que ele marcou, os títulos que ganhou, as marcas incríveis que alcançou, muito menos os incensados seis títulos de melhor do mundo. 

É o que Messi passou a significar a sua maior contribuição. A sua marca verdadeira.  Um controle de bola mágico. Uma maneira de pensar o jogo que mais parece uma assinatura. A consciência disso, dessa condição tão distinta, se faz necessária, principalmente pra cortar pela raiz aquele tipo de comentário que nasce da falta de sucesso dele com a  camisa argentina, da ausência da conquista de uma Copa do Mundo. Coisa que poderiam fazê-lo maior, mas que certamente não o fizeram menor. Podemos pensar o inverso também, como é que esse argentino conseguiu ser o que é sem nunca ter se visto na condição de campeão de uma Copa? Como, que fórmula é essa?  Desconfio que o fato de ter nascido em Rosário é parte essencial dela.  

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

A quem interessa o jogo único?

 

Vivi sentimentos distintos vendo o Bayern de Munique  fazer o que fez com o Barcelona dias atrás, que longe de ser o que foi ainda é o Barça. O Barça de Lionel Messi, senhoras e senhores.  Senti certa angústia tentando lembrar qual tinha sido a última vez que aqui, ao sul do Equador, tinha visto uma partida de futebol ir além do que prometia. Por mais que a cada dia soe mais descabido tratar o que tem sido praticado por aqui como futebol.  Não só não lembrei quando uma coisa dessas tinha se ado por estas bandas como vi a angústia quase virar depressão. 

Primeiro porque o duelo Bayer e Barça já prometia muito e entregou algo quase inimaginável pra nós. E depois porque caí na real e percebi que os jogos ditos nossos não só não cumprem as mínimas expectativas como sistematicamente têm nos decepcionado entregando o mínimo. Mas acima de  tudo por perceber como temos acreditado que a tradição pode nos salvar dessa condição. Nos aproximamos de um clássico, como o recente entre Corinthians e Palmeiras que valia um título paulista,  e nos deixamos tomar por um sentimento que em outros tempos se dizia que costumava pertencer a mulher de malandro. Sabe? Uma certeza infundada de que tudo vai mudar? Santa ingenuidade. 

Vou lembrar por muito tempo como jogava o time alemão nas profundezas dos quarenta e três minutos do segundo tempo. Com a ânsia de quem precisava de um gol para respirar. Uma grande lição se esconde nessa disposição toda. Quem, ou o quê, consegue fazer esses caras agir assim, com tamanha fome de bola? Justo eles que já tem e tinham tanto. E como aprender nunca é demais não devemos deixar de notar também as condições e atitudes a que essa pandemia nos condenou. Entre elas essa de se resolver a coisa com jogos únicos.  Creio que depois do que vimos os torcedores por aqui deveriam organizar um movimento para reivindicá-los. Fazer barulho mesmo. 

O jogo único provoca o que o futebol tem de melhor. Um tudo ou nada. E não me venham dizer que isso pode gerar injustiças. Algo que nos últimos tempos virou quase um consenso entre os que são do ramo.  Estou convencido de que esse papo de resolver as coisas em mais de um jogo só é bom pra faturar e, por tabela, dar uma nova chance a quem por descuido ou incompetência deixou escapar a primeira. Um jogo a mais, desculpem a insistência, deveria ser algo banido. Dilui uma emoção que deveria desde o início estar concentrada em 90 minutos e ponto. Dois jogos é água no chopp,  é água no feijão. Estou convencido ! No mais, fico aqui tentando fazer as pazes com essa tristeza que nasceu por ter visto tudo o que vi nessa reta final do pomposo torneio de clubes da Europa. E que foi bonito, hein!?   

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Santos sempre Santos

 

                     Foto: Marcello Zambrana/Agif

Se tem uma coisa que permeou os debates sobre o Santos nos últimos tempos é essa questão sobre onde o time deve mandar seus jogos. Não que isso não tenha importância. Até porque esse tema deve fazer parte da estratégia e do planejamento do clube. Mas esse assunto pode ser visto por um outro viés. Como reflexo de um clube cuja história o levou muito além das fronteiras da cidade em que foi fundado. Detalhe que por si só faz  do Santos um clube singular. Mas tão importante quanto essa questão seria administrá-lo de acordo com essa magnitude. A própria eleição do atual presidente é fruto dessa condição distinta e fragmentada. Peres era o cara de fora, um legítimo representante da parte apaixonada que sempre esteve muito além da ilha.  Mas o tempo passou e mostrou que o Santos continua sendo um só. 

E  por mais que estejamos atravessando tempos pra lá de difíceis não pode existir argumento mais refutável quando se trata de um grande clube - e apesar dos pesares o Santos segue sendo parte desse grupo - do que dizer que se está sem dinheiro. Ora, qualquer um que tenha embolsado nos últimos anos algumas centenas de milhões de reais teria dificuldade para atestar sua miséria. Pode-se ficar mais ou menos rico, o que é bem diferente. E se o Santos segue em condição de figurar entre os tais é porque ao longo da história tem visto desabrochar em seus domínios o futebol de um sem fim de meninos talentosos. Cada vez mais rapidamente transformados num lucro que jamais encheu os cofres da Vila Belmiro. 

Como também mostra a história que se o Santos se tornou o que se tornou foi muito mais em razão daqueles que o representaram em campo do que fora dele. O que não é, claro, privilégio do Santos. Há muitos outros casos por aí aptos a corroborar essa minha teoria. E que me desculpem os que muito fizeram pelo clube, que não são poucos. Mas a seguir administrado como vem sendo os triunfos em campo não passarão de um tipo de anestesia, um paliativo. E não custa lembrar. Ao torcedor é dado esse direito de se contentar apenas com a alegria da vitória, mas a quem administra o clube nunca. Diante disso tudo acredito que falar sobre a saída de Jesualdo ou a volta de Cuca é algo menor. torcedor

Mas, tendo em vista que o time em campo é a atividade fim do Santos, se perguntar se é possível tudo dar certo sem uma solidez administrativa se faz inevitável. Será? A passagem de Jorge Sampaoli, de certa forma, sugeriu que sim. Seja como for, o sucesso de Cuca à frente do time é só uma parte do que o Santos precisa. E por falar em manchetes, uma recente  mostrava que o Santos foi o time que mais faturou com a venda de jogadores da base na última década. Uma montanha de mais de duzentos milhões de euros, ou pouco mais de um bilhão de reais. E, além do mais, elas, as manchetes, notem, voltaram a ter a respeito do time da Vila aquele tom de desconfiança que insistia em rondar o clube todo início de temporada, e que só se dissipou quando o treinador argentino conseguiu fazer o que fez.  Portanto, assim segue o torcedor do Peixe, sem nem sempre conseguir abrir o sorriso quando ouve alguém dizer: Santos sempre Santos 

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Triste, revoltada e admirável

(foto: reprodução)

Não se trata de tomar partido. Muito menos de querer decretar quanto deve durar a pena de alguém. Quero falar apenas de um lado dessa história. Da atitude tomada pela treinadora do time feminino do Rio Branco, do Acre. Rose Costa, simplesmente pediu demissão ao saber que o presidente do clube para o qual trabalhava havia contratado o goleiro Bruno, ex-Flamengo, que cumpre regime semiaberto domiciliar depois de ter sido condenado pelo homicídio triplamente qualificado da ex-companheira. Notícia que, lhe chegou pela imprensa, não de forma oficial. 

Poderia usar aqui o termo coragem, mas coragem sabemos todos até os injustos podem ter. O clube, por sua vez, cujo presidente tratou a contratação como uma das maiores da história não tardou a emitir nota dizendo que era inverídica a informação de que Rose comandava o time feminino.  Mas a versão oficial - se bem analisada - só reforça o perfil de mulher cheia de atitude de Rose, pois diz que ela é que foi procurar o clube propondo a criação da equipe feminina. Ideia analisada e aprovada pelo Conselho Deliberativo, mas que com a chegada da Pandemia teria ficado apenas no papel. Detalhes que não impediram o clube de divulgar a volta do seu time feminino depois de três temporadas.

E se Rose se mostrou convicta, o mandatário do clube também. Nada o demoveu da ideia da contratação. Nem a perda de seu único patrocinador, muito menos o clamor de boa parte de seus torcedores e diretoria. Mas nessa história Rose não deve ser confundida com ninguém. Em plena pandemia abriu mão de sua única renda em nome de se manter em sintonia absoluta com o que pede a profissão que escolheu. E está justamente aí o que deve merecer nosso olhar : a maneira nobre como enxerga o esporte. Um gesto de luta para manter intacto seu papel.  O que vai a partir daqui em síntese não são palavras minhas, é o modo de pensar de Rose, que ela fez questão de tornar claro. 

Disse ver o atleta não como mero profissional, mas como um exemplo para a sociedade e para os jovens. Profissional de Educação Física há mais de trinta anos, ela sabe que o esporte, o futebol, tem uma conotação importante na formação cidadã. Rose disse que fez o que fez porque não acreditava em outra saída. Resignada por saber que será difícil se recolocar, não deixou de pagar o preço por acreditar que o futebol, com seu papel social, não deva de forma alguma estar atrelado ao crime. Em tom de lamento, não de arrependimento, disse em alto e bom som: não posso manchar minha história no esporte, até porque, eu sempre digo, nunca será só futebol. 

E deixou mais do que claro que para ela é solidariedade, é sororidade também, muito além da prática esportiva. Se disse na obrigação de ser um exemplo para as atletas dela, e que esse foi o melhor exemplo que podia dar. Está com a consciência tranquila. De minha parte sei que, às vezes, o viés da história anaboliza o fato. Mas não consigo deixar de pensar: que mulher é essa! E na importância do recado que nasceu do que virou notícia. Vejam, sororidade é palavra recente que nem no dicionário está. Mas registre-se, em linhas gerais, é um sentimento de irmandade entre mulheres. Enfim, Rose se disse triste e revoltada. E eu digo: triste, revoltada e admirável.        

quinta-feira, 30 de julho de 2020

O inexorável da vida


Creio que exista algo no ofício de jornalista de rádio e televisão que ninguém até hoje foi capaz de decifrar, nem os teóricos, nem aqueles que exercem a profissão e sabem intuitivamente que estão dia após dia correndo atrás dessa coisa. Trata-se de uma engrenagem abstrata, uma capacidade, um dom talvez, capaz de transformar um homem de imprensa num comunicador grandioso. Algo que não se ensina e que faz o que é dito por ele ganhar uma penetração, um alcance, capaz de despertar a atenção  e o interesse dos que estão em acordo ou desacordo com o que foi posto em questão, não importa. É quase um magnetismo. De posse dessa qualidade chegam quase a prescindir de uma informação de peso. Bastam a estes a opinião, um olhar sobre o fato. 

Armando Gomes pertencia a esse time. Não por acaso. Trabalhou e conviveu com alguns dos maiores nomes da nossa crônica esportiva, gente que como ele fazia parte dessa nobre categoria de profissional. E havia, e creio haverá sempre, no perfil profissional de Armando Gomes um outro detalhe digno de nota. Sempre tive um pé atrás com aqueles que mesmo tendo desvendado tal segredo da comunicação acabam um tanto traídos pelo personagem que costuma nascer desse domínio. O que não era o caso do Armando. Era como se no fundo, no fundo, ele fizesse questão de  manter intacto um dos grandes dogmas da velha escola a que pertenceu. Cuidado que muitos ao longo do tempo não tiveram. Obra que soa ainda mais impressionante quando se leva em conta o amor, a devoção, a entrega que tinha pelo Santos e que jamais fez questão de esconder. 

Por falar em Santos, existe também um outro viés capaz de dar a Armando Gomes a dimensão merecida. Durante as últimas décadas que tenho me entregado ao ofício de jornalista duas questões ficaram muito claras. Uma é o tratamento dispensado pela imprensa da capital ao time da Vila Belmiro, considerado por muitos distante do merecido. A outra, diria mais unanime, é o respeito de que sempre desfrutou a crônica santista, lembrada infinitas vezes pela sua acidez crítica. Imagino que nem seja preciso recordar do que disse certa vez Millôr Fernandes para atestar que não há modo melhor de se aferir a qualidade do jornalismo ali praticado. Mas, aos que por ventura tenham esquecido ou não sabido, Mestre Millôr dizia que imprensa é oposição, o resto armazém de secos e molhados. 

E ainda que a crônica esportiva santista tenha tido outros nomes de elogiável envergadura, Armando Gomes era nestes dias que correm o seu expoente maior.  E por todo o significado que o tempo há de lhe dar, guardarei muito bem comigo as lembranças das vezes - não foram muitas - em que tive o prazer de ser convidado a participar do seu emblemático Esporte por Esporte. Nas mais recentes sempre tratando dos detalhes com outra grande figura, o radialista, Silvio Ruiz, o verdadeiro. E então, me vem a lembrança da voz de Armando Gomes chamando o quadro a "Máquina do tempo, o inexorável da vida" , e vislumbro nela outro traço que costuma distinguir os bons jornalistas: a reverência pela memória. E se hoje uso esse adjetivo para intitular esta singela homenagem é por ter a certeza de que a história dele, a sua importância, não se poderá subtrair. 

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Futebol e Música, sempre!

Reli agora há pouco esse post de praticamente meia década atrás e ao perceber que não vai ficar velho nunca

decidi publicar de novo.


quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Sentimento FC


Faz tempo que alimento a ideia de escrever sobre times não profissionais que reuniram grandes figuras. O mais emblemático deles carrega também o nome mais bem sacado de todos. Falo do "Sentimento Futebol Clube", criado por Plínio Marcos, pelo jornalista, Brasil de Oliveira, e pelo zagueiro, Estevam Soares, que mais tarde viria a ser treinador. O Sentimento era uma seleção de boleiros que se reuniam pra jogar a favor de alguém. A definição é do ponta-esquerda do time, o próprio Plínio Marcos. Na biografia dele, "Bendito Maldito", escrita por Oswaldo Mendes, é possível saber dessa esquadra com detalhes e como, certa vez, Plínio entrou numa tremenda dividida com um delegado para salvar - literalmente - a perna de Estevam. 

E se hoje estou aqui falando finalmente disso é porque na semana passada tive a alegria de conversar com o ex-jogador, Afonsinho. Ele mesmo, o cabeludo que em plena ditadura não medrou e se tornou o primeiro jogador brasileiro dono do próprio passe. Afonsinho foi o mentor de um time dessa natureza também, o "Trem da Alegria". Garrincha, Nilton Santos, Fio Maravilha, foram alguns dos tantos ilustres que vestiram a camisa do "Trem". Íntimo de intelectuais e músicos, um dos amigos de Afonsinho era, e é, Paulinho da Viola, que por sua vez capitaneava o "Chulé Futebol Clube", que de chulé não tinha nada. Afinal, era dono de um elenco estrelado, do qual fazia parte - entre outros artistas - o músico Moraes Moreira. 


Por falar em Moraes Moreira, recentemente lendo o livro que conta a história de Dadi Carvalho, que também é amigo do Afonsinho, e baixista com lugar garantido na primeira divisão da nossa música, fiquei sabendo de um outro time nascido assim. Você pode até não lembrar de quem se trata, mas certamente já ouviu o baixo tocado por ele. O que só não seria possível se você até hoje nunca tivesse ouvido alguns dos maiores sucessos de Caetano Veloso, Gal Costa e Jorge Ben. 


Dadi, antes de tudo isso, fez parte do conjunto Novos Baianos. E como todo mundo sabe o pessoal por lá adorava uma bola. As peladas para eles eram tão essenciais quanto fazer um som. Tanto é que um dos discos do grupo se chama "Novos Baianos FC". Pois bem, Dadi conta em sua auto-biografia que ser titular no time dos Novos Baianos não era fácil. Diante disso só teve uma saída: fundar seu próprio time, magnificamente chamado de "Passa a bola meu bem". No Passa, formaram nomes como Evandro Mesquita, o eterno líder da Blitz. E no relato, Dadi, que é botafoguense apaixonado, aproveitou pra falar do dia em que ele viveu a maior glória como torcedor do time da estrela solitária. É que certa vez o Botafogo fez um jogo contra os Novos Baianos. E o que aconteceu? Dadi, preterido pelos amigos, acabou sendo chamado pra entrar no outro time. E a partir daquele dia, legitimamente, passou a encher a boca e dizer que um dia jogou no Botafogo. Quem dirá o contrário? O futebol tem dessas coisas.  

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Esporte, o último da fila


Dizem que no Senado o jogo pode ser mais duro. O governo joga contra faz tempo. Fato é que o auxílio para o esporte acabou aprovado na Câmara. Pouco mais de um bilhão e meio de reais. Enfim, um tipo de atenção que promete ir desde times e agremiações famosas até os confins da várzea. E tem o mérito de jogar luz sobre um universo esquecido deixando claro que o esporte  sempre foi o responsável por uma teia social enorme. Não teríamos os campeões que tivemos e temos não fosse ela. Segundo o autor o projeto olhou para aqueles que muitas vezes ficam na prateleira da invisibilidade do esporte. Em seguida lembrou de quem se trata: boleiros, maqueiros, professores de educação física que, aliás, poucas vezes na vida vi serem lembrados. Não custa destacar que o presidente da República tinha vetado o projeto em março, quando o Câmara havia tentado aprovar o pagamento emergencial aos profissionais da área. 

Na época o principal adversário vestia a camisa do Ministério da Economia que alegou um impacto de até quinze bilhões no orçamento. Impasse que foi driblado com um mecanismo que limitou os gastos com a medida a esse pouco mais de um bilhão e meio de reais. O auxílio irá durar  três meses e tem natureza alimentar, o que quer dizer que não pode sofrer bloqueios judiciais ou bancários, ser usado para pagar dívidas.  O que só caberá em casos que envolvam pensão alimentar. Mas na esteira dessa aprovação vieram outras. O tão falado Profut teve o prazo de inscrição reaberto e os clubes ganharam a possibilidade de refinanciar dívidas fiscais. 

As entidades que recebem dinheiro das loterias,  o que não é o caso do futebol, poderão usar até vinte por cento dos recursos para pagar salários e impostos. Diante disso o Novo foi o único a votar contra, o partido queria retirar o trecho que permitia que as Confederações usassem os recursos da Lei Piva, a das loterias, para pagar dívidas, subtraindo assim dinheiro que deveria ter o esporte como destino. A emenda chegou a ter o apoio do PV, mas acabou rejeitada. O que não dá pra rejeitar é o argumento do deputado, Paulo Ganime, do Novo, ao falar sobre o tema. Segundo ele cada vez que se criam ferramentas para que maus gestores  sejam salvos pelo Estado a gente faz com que isso se perpetue. Vai dizer que não há razão nisso? 

Enfim, depois de três semanas sob ataque do governo o projeto não só passou como provocou falas cheias de verdades, que nem por isso devem nos encher de esperança. Mas, seja como for, é sempre bom ouvir que os profissionais do esporte estão no último lugar na fila das políticas públicas, que o poder público tem um débito com o setor. Diria que por tabela um débito com a saúde mental e física da população. Leila Barros, medalhista em Atlanta com nossa seleção de vôlei e que hoje é senadora pelo Distrito Federal, disse não imaginar que um senador vá votar contra o setor esportivo. Eu não teria tanta certeza. E fosse o caso de jogar contra por causa de certas benesses aos clubes, tudo bem, mas negar um auxílio emergencial num momento como o atual, podendo contar com um limite de gastos, chega a me parecer cruel. Mas pensando bem o que pode ser mais cruel do deixar o esporte na condição de último da fila?

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Fazendo espuma


A gente tá cansado de saber que por mais disciplinado e bem intencionado que seja tá pra nascer o boleiro que já não tentou levar alguma vantagem no jogo. Mesmo que tenha usado pra isso apenas recursos moralmente condenáveis, embora legais. Assim sendo, o bendito spray para marcar o lugar da barreira e de outras infrações, à primeira vista tão modesto, foi desde sua criação de uma eficácia poucas vezes vista na história do futebol. E olha que o que já fizeram pra tentar manter os caras na linha não é pouco. Antes dele lembro da tv usar um círculo que era projetado no gramado mostrando a linha dos tais nove metros e quinze de distância. Acontece que o tal recurso só era visível para quem estava em casa acompanhando a transmissão. Logo, na maior parte das vezes fazia dele um recurso preciso mesmo para elucidar o quanto o juiz estava sendo enrolado naquele exato momento. 

Toco no assunto porque o jogo pro cara que diz ter inventado o spray anda duro. Heine Allemagne, o inventor da espuma para futebol - batizada de Spuni - trava há tempos uma queda de braço com a entidade mor do futebol mundial.  Dureza. No último dia dez, na sétima Vara Empresarial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, deu FIFA. A juíza encarregada do caso entendeu que não há má fé por parte da FIFA em usar o invento fabricado por outros fornecedores, que isso não caracteriza quebra de patente. Patente que Heine detém em nada menos do que quarenta e oito países. 

O advogado que defende a Spuni afirma que o fato de deter a patente lhe dá a exclusividade na produção e fornecimento do produto. Em virtude da possibilidade de recorrer da decisão ganhamos a garantia de que a novela terá novos capítulos.  O inusitado da história , claro, não é a batalha jurídica, que nada tem de novo. É o produto que a motivou. Diria até que se trata menos de uma invenção e mais de uma sacada. E sacadas costumam mesmo ter algo de genial. E lógico que a FIFA já quis fazer disso um argumento.  Não tardou a alegar que assim que o produto se popularizou surgiram vários outros fornecedores, já que a fabricação do spray de barreira, como é chamado, está longe de demandar alta complexidade. 

Pra embolar o meio de campo a justiça deixou claro que para aceitar a acusação de uso de spray pirata caberia ao titular do invento comprovar que a fórmula dos produtos usados pela ré é a mesma. Mas nada disso faria sentido, notem, se não fosse a tremenda eficácia do bendito. E disso também deve ser prova o fato de em outro momento a FIFA ter feito uma proposta de meio milhão de dólares pelas patentes. Mas os entendimentos a respeito que começaram de modo amigável a essa altura ganharam ares da mais pura rivalidade. 

Dona FIFA não brinca em serviço. Desde 2018 passou a não citar o invento no livro de regras, no qual chegou a constar em anos anteriores. No entanto, sabemos, seguiu usando o spray. E essa argumentação da defesa teve como base uma versão do livro em espanhol, enquanto a entidade afirma que o spray de barreira jamais foi citado nas versões oficiais do livro, feitas sempre em língua inglesa. Olha o drible! A impressão que tenho é a de que um tubo de espuma de barbear comum poderia fazer bem o papel.  Opinião de leigo, vejam. A única certeza que trago comigo é a de que uma das maiores sacadas dos últimos tempos em matéria de futebol seguirá fazendo espuma. 

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Quanto isso vai custar?


Vivemos num tempo em que todo mundo parece ter um celular à mão. Mas como se sabe o tempo em que se tratava mesmo só de um telefone celular ficou pra trás. As benditas maquininhas evoluíram de modo infinitamente mais rápido do que nós, pobres humanos.  Da noite para o dia deixaram para trás sua versão primata e se transformaram em sedutores smartphones. De modo que hoje em dia quem tem um telefone móvel que só sirva para esse fim fatalmente se verá na condição de excluído digital. Eu sei que dada a onipresença dessa geringonça para muitos é quase impossível imaginar que exista mesmo quem tenha ficado à margem dessa revolução. O que não passa de um tipo de miopia social. 

Mas difícil mesmo seria encontrar por aí alguém que - pensando em suprir alguma necessidade básica ou de luxo - não tenha se visto obrigado a fazer a mais inevitável das perguntas para quem vive num tempo áspero e mercantilista  como o nosso: quanto isso vai custar? Questionamento que se faz inevitável, embora cada classe o faça em circunstâncias distintas, muito distintas. E desde que o Flamengo dias atrás vislumbrou em uma medida provisória do governo a deixa para colocar em andamento um novo jeito de negociar e transmitir futebol ninguém mais do que o torcedor rubro-negro tem motivos  pra se fazer esta pergunta. 

Não que o Flamengo por isso tenha inventado a roda.  Não que o modelo seja novidade por aqui. Já temos torneios e jogos transmitidos via web. Mas se o método não teve impacto maior até agora foi justamente porque depois da fatídica pergunta muitos torcedores chegaram à conclusão de que não podiam ou não queriam pagar literalmente pra ver. A mim parece muito óbvio que as fronteiras mais enxutas que o futebol tem hoje em dia, seu declínio como fator cultural do nosso povo, é algo intimamente ligado ao modo como ele foi explorado. Um modo de gestão que não pensa duas vezes se o preço a ser cobrado para engordar o faturamento tiver de ser exilar uma parte dos interessados pelo jogo. 

Não sonhe o torcedor rubro-negro, ou qualquer outro, que a partir de agora será só abrir a internet para poder admirar o toque de bola do seu time. A conta um dia chega. Todas chegam. O que não o impede de sonhar que a diversão possa ficar um tanto mais barata, o que seria algo para ser comemorado como um gol. Quem sabe.  Mas em minha mente perversa imagino que poder explorar o interesse de uma massa de dezenas de milhões de torcedores deveria ser suficiente para bancar certos negócios. Agora, se é possível além disso lhes tirar mais um dinheirinho, porque não, né? Afinal, o mercado tá longe de ser um ente sensível. E onde já se viu um torcedor querer ver seu time de graça? 

De minha parte, sujeito avesso aos tais smartphones, digo que era só o que faltava. Cada um de olho grudado na sua telinha, de olho no lance, matando aos poucos aquele velho ritual, aquela velha comunhão entre os homens que o jogo de bola desde sempre alimentou.    

segunda-feira, 6 de julho de 2020

O futebol é a nossa cara



O futebol segue sendo o mais fiel retrato do nosso país e por tabela de seu povo. Gostaria muito de poder negar que se trata de uma obra nossa mas não dá. Poderia aqui usar o jogo entre Flamengo e Bangu  que marcou a volta do futebol profissional ao nosso país depois da paralisação causada pela pandemia do coronavírus como exemplo. Mas sou levado a crer que o que se deu no Maracanã foi apenas um lamentável efeito colateral de tudo o que anda se desenhando nos bastidores. Notem, não podemos acusar os cartolas de inércia. 


Notadamente desde os primeiros dias trataram de se mexer. Correram à Brasília rapidinho. É sempre lá que se desembola o meio de campo. E a vitória está perto. Entre outras ajudas, os clubes terão o direito de suspender o pagamento do Profut durante a pandemia. Conhecendo o Brasil seria o caso de perguntar : quem exatamente irá dizer quando a pandemia acabou ? Como é o caso de perguntar se não seria correto dar tal benesse apenas aos clubes que trataram o refinanciamento das dívidas com o devido respeito, já que apenas nove dos trinta e seis clubes que se inscreveram no programa não devem ao governo. 

E há outras questões que merecem uma lupa. Como a medida provisória assinada pelo presidente da República, imediatamente apelidada no Congresso de MP do Flamengo. Aquela que veio depois de algumas visitas do presidente rubro-negro ao planalto. Nela são vários os tópicos, mas o principal é dar aos clubes mandantes o direito de negociar os jogos com as emissoras. O que em um primeiro momento pode parecer simples, mas muda todo o modo como as partidas vinham sendo negociadas, além de deixar a impressão de favorecer o time da Gávea e criar outra realidade para a TV Globo - a principal parceira dos  clubes brasileiros - com quem o presidente tem andado às turras.  Agindo assim estão cuidando exatamente dos interesses de quem?  

Não tardou para que alguém dissesse que a mudança favorecerá o  espectador.  Mas sabemos muito bem que  se isso acontecer terá sido por tabela.  Todo o resto  foi relegado à segundo plano. Os atletas, os funcionários dos clubes.  Disso o jogo no Maracanã é prova. Facilitado por um protocolo refeito e assinado na véspera, depois de termos visto equipes voltando a treinar sem autorização. A Alemanha precisou um mês para que um protocolo de cinquenta páginas fosse feito e colocasse todos os clubes sob às ordens que ele ditava.  Protocolo que duas semanas depois foi aprovado pela chanceler Ângela Merkel.  Com um detalhe: lá tudo se reiniciou quando a curva de contágio estava claramente em queda. Mas que certeza temos aqui? 

A CBF acaba de anunciar que o Brasileirão pode voltar no dia 09 de agosto. Será? Na Espanha a retomada se deu setenta e um dias após  o pico do contágio. Na Inglaterra,  foram setenta e oito dias. Sei que muitos são os argumentos que embasam tudo o que vem sendo feito no sentido da retomada. Mas a impressão que tenho é que na falta de unidade para tratar o problema estamos todos, como sociedade e como torcedores, perdidos.  Que cada região tenha seus números e sua realidade sou perfeitamente capaz de compreender. Mas quando se trata de esporte parto do seguinte princípio: a igualdade de condições é imprescindível.  Então, que se tenha a sabedoria de retomar tudo quando todos os envolvidos em uma competição estiverem vivendo uma mesma realidade.