sexta-feira, 7 de junho de 2024

O abstrato no futebol



Já disse aqui em outras ocasiões que sempre achei muito interessante a capacidade que o futebol tem, ou tinha, de fazer as pessoas comungarem com diversos conceitos que não estão escritos em lugar nenhum. É certo que o mundo se rebuscou um tanto e que já não se vê por aí tantas peladas com os gols marcados , por exemplo, com um par de chinelos. Mas essa é a imagem que eu sempre invoco e volto a lhes dizer a razão. Uma bola rasteira que passe entre eles não deixará dúvida de que se tratou de um gol. Ocorre que o futebol é infinitamente mais complexo do que isso. As bolas , em geral, saem do chão. Traçam linhas cruzadas. De modo que boa parte das vezes, estando num cenário desses, não é coisa fácil dizer o que foi e o que não foi gol. 

Mas é fato também que desde moleque o futebol incutiu no nosso imaginário um jeito de resolver questões dessa natureza que decretava e anulava gols. E as decisões por mais que causassem rebuliço desaguavam num consenso. E esse é o tipo de coisa que as tais orientações recentes trataram de violentar. Quando vieram com essa de decretar que bola na mão dentro da área sempre seria pênalti roubaram do futebol a capacidade que ele tinha de semear em nós esse modo quase instintivo de nos entendermos. Pra embasar essa tese ouso dizer que décadas atrás mesmo os lances mais clamorosamente polêmicos não causavam tanto balbúrdia quanto causam hoje. E os motivos são vários. 

Um deles certamente essa questão de que a maneira de ler o jogo era mais consensual. Some-se a isso o vício estabelecido de esmiuçar os lances atrás de algo que seja passível de contestação. É uma insanidade achar que uma imagem por si irá esclarecer tudo de fato. A quem duvida sugiro lembrar das vezes em que diante de uma delas se viu sem saber ao certo o que pensar a respeito. Aos que não acreditam que pesam sobre o futebol coisas impalpáveis, que pensem no tal do fair play. Tão invocado, tão santificado. Mas que jamais constou das regras do jogo. É um acordo implícito, meio na linha desse que se escondeu desde sempre em nós e ajudou a resolver os bafafás que se davam quando se disputava uma pelada com gols marcados por chinelos de dedo, como diria minha saudosa mãe. 

O futebol propõe questões complexas. Exige levar em conta temas abstratos. Mas ao que parece o andar do jogo vem sendo definido por idiotas da objetividade. Termo que, de tão preciso, vira e mexe faz questão de nos lembrar que continua atual. Pra não dizer renovado. E o futebol é inocente nisso tudo. Ele é só um produto gerado por quem o faz, por quem o interpreta. E os astros que aí estão se estivessem interessados em respeitá-lo não andariam fazendo ceras descaradas, não estariam fingindo contusões, tapas na cara, não estariam cercando árbitros com dedos em riste. 

Diante disso pedir que um adversário se revele um santo porque em determinado lance alguém se viu descaradamente prejudicado é algo que beira a malandragem. E tudo é tão sem pé nem cabeça, vejam vocês, que o árbitro, este senhor que deveria ter o poder de disciplinar os jogadores, fica de mãos atadas porque, afinal, fair play não é algo estabelecido na regra. Enfim, desde sempre pesou sobre o futebol algo que não está escrito em lugar nenhum mas que age sobre o jogo. E é preciso dizer também que houve desde sempre nas peladas de gols marcados com chinelos os espertos que forçavam a barra tentado fazer todo mundo enxergar um gol onde a maioria não via. 

quinta-feira, 30 de maio de 2024

O futebol é indomável





Às vezes, enquanto o jogo se desenrola me pego tentando achar em campo as tais linhas. E lhes digo sem medo de errar que não são poucos os momentos em que elas desaparecem sem deixar o mínimo vestígio. Os jogadores vão se movendo de acordo com a realidade que se impõe e que pelo visto atropela qualquer ensaio. A ausência delas ali, ordenadas, indo e vindo, me fazem pensar na natureza indomável do futebol que vira e mexe desde os primeiros minutos dissolve esquemas que pareciam infalíveis. Por isso outro dia quando ouvi o técnico Rogério Ceni dizer depois de um jogo do Bahia que todas as ideias em campo eram dele, me pus a coçar a cabeça. Não estranhem. Sou dado desde que me conheço por gente a me entregar a questões que em outras cabeças jamais teriam lugar. 

Talvez com tudo o que ele sabe - porque sabe do jogo bem mais do que eu - venha a me convencer de que isso é realmente possível. Acho difícil. E olha que costumo acreditar em cada coisa que nem te conto.  Mas, carente de explicação, não vejo outra forma de interpretar o que foi dito que não seja como uma frase mal construída. Os mais impiedosos apontariam nela prepotência. Mas não vamos nos dar a futricas. E isso não tem nada a ver com o Bahia que anda dando gosto de ver e, enquanto o Brasileirão hiberna, dorme lá na vice-liderança com os mesmo treze pontos do líder Athlético Paranaense. Se me interessei pelo tema é porque acredito que  em torno dele podem orbitar respostas para o que andamos vendo. 

Não é de hoje que se acusa os treinadores de impor aos elencos um modo de jogar. O que nestes dias que correm não expõe Rogério Ceni porque o time dele está jogando bem, mas dá boas pistas de como ele espera que seus comandados se comportem. É tudo uma questão de retórica. Ceni fatalmente dirá que foi mal compreendido por mim, que acho que ter dito esquema, e não ideias, seria mais apropriado, mais crível. Na ocasião ele exaltava o meio-campista Cauly. Disse, inclusive, que tinha construído o sistema de jogo para o seu camisa 8. Mas eu já havia até esquecido dessa frase como um bom mote quando ouvi a coletiva do técnico Tite depois da vitória sobre o Amazonas pela Copa do Brasil. Jogo em que o rubro-negro mais uma vez esteve longe de brilhar. E aí o tema me voltou revigorado. 

Foi interessante ouvir Tite, justamente dos técnicos mais cobrados por querer impor um esquema ao time, afirmar que não vai dizer pro Arrascaeta o que ele tem de fazer em campo. Que não vai dizer ao Pedro o que ele tem de fazer. E na sequência ainda complementar o raciocínio dizendo que um técnico só estabelece rotas. Talvez fosse algo nessa linha que Rogério Ceni naquele dia já distante queria ter dito. De qualquer modo, continuo achando que o futebol é dono de uma dinâmica que exige dose cavalar de decisões imediatas. Até por isso o improviso sempre lhe caiu muito bem. E considerarei exagerado e despropositado se dia desses um treinador vier dizer  que todas as rotas em campo são estabelecidas por ele. 

E vou além, estar ciente do quanto um treinador pode influir não só no jogo mas na atuação de um atleta pode ter sido a pedra de toque dos bem sucedidos. Vira e mexe ouço alguém elogiar Guardiola por ter achado o lugar exato onde fulano joga melhor. E isso é outra coisa. A grande graça do futebol, mesmo com todos os esquemas, todos os ensaios, todas as linhas, altas ou não, é que quando a bola rola a gente nem faz ideia do que vai ver se dar em campo. O futebol é indomável.

quinta-feira, 23 de maio de 2024

O VAR deve acabar ?



Não sei o que você pensa sobre o VAR. É fato que aqui entre nós adquiriu maus modos. Chegou querendo mandar no jogo. E isso não é coisa que se faça. Extrapolou muita vezes o que seria seu papel. Talvez porque recebido com pompas, com ares de salvador da pátria. Hoje me dá a impressão muitas vezes de assombrar a diversão do torcedor. E por falar em torcedor. O mundo moderno não é mesmo bolinho, como diria minha avó. Onde já se viu condená-lo a segurar um grito de gol na garganta até que todos os ângulos de um lance garantam que o que se deu em campo foi dentro da lei. Enfim, o Vídeo Assistant Referee, popularmente conhecido como VAR, virou uma grande questão. O nome sugere alguém trajado de autoridade para concluir por vídeo o que foi ou não foi legal enquanto a bola rola. Ocorre que pela gritaria que tem sido ouvida quase toda vez que se revela algum áudio do lugar em que trabalha a decisão que ele aponta tem sido uma mistura de pontos de vista e urgência. Em que triunfa, não necessariamente quem tem o melhor argumento, mas aquele com maior poder de persuasão ou patente. Essa é minha sensação. 

E nessa bagunça não poderia dar certo. Não teria como ter um futuro promissor. Não com esse tipo de comportamento. Ou de companhias, se preferirem. Algumas rodadas atrás testemunhei uma cena em que, depois do que pareceu uma eternidade, se decretou o gol. A essa altura os jogadores já tinham esgotado a capacidade de encher a paciência do juiz, ou de bater boca entre eles. Estavam reunidos em pequenos grupos. E quando veio a grande notícia davam a impressão até de já ter esquecido que algo estava por ser decidido. E daquele marasmo campal veio a explosão do gol. Despertando por tabela o poderio vocal do narrador.  Um negócio esquisito, sabe?

 Já o VAR inglês sabemos, não deve ser por acaso, é um sujeito mais polido que o nosso. Mas ainda assim, vejam só, andou testando os limites da paciência inglesa. Não sei a correria do dia a dia lhes permitiu saber que no próximo dia 06 de junho será votada uma petição feita pelo time do Wolverhampton para encerrar as atividades do VAR na Premier League, torneio tido como modelo para todos os outros campeonatos nacionais mundo afora. Os argumentos são tão polidos quanto os ingleses. Apontam numerosas consequências negativas não intencionais. Tenho duvidas sobre isso. Mas concordo inteiramente quando dizem, entra outras coisas, que o constante discurso do VAR tira o foco da própria partida e mancha a reputação de quem a organiza. 

Por essas e outras sugiro que voltemos à comunhão primal com o jogo de bola. Vamos ver uma pelada. Algum jogo desses em que o homem  vestido de preto, armado de apito, continua sendo um soberano. Testemos nosso olhar, nossa capacidade de atenção. Lembro bem de na minha época de moleque, enquanto íamos descobrindo a emoção de estar em um estádio, dos lamentos tardios de uns e outros que, uma vez na arquibancada, se distraiam. Perdiam o momento do gol enfeitiçados por algum outro detalhe. E na mínima fração de tempo seguinte a que o fato tinha se dado - quase instintivamente - achavam que teriam direito a um replay. As maravilhas tecnológicas desde sempre nos seduziram. Confortos do tipo sempre tiveram um quê de traiçoeiros. Duvidemos da tecnologia. Acreditemos piamente na alma do futebol. Pode ser a salvação !

sexta-feira, 17 de maio de 2024

A fronteira que nos separa



Não é de hoje que tem sido difícil atravessar as fronteiras que separam as tardes das noites nos dias em que o futebol europeu mostra todo o seu esplendor.  O torcedor saberá bem do que quero dizer. Sair de um Real Madrid e Manchester City, ou algo que o valha, e pouco depois dar de cara com um jogo da Copa do Brasil ou mesmo do Brasileirão costuma testar nossa crença no jogo de bola. É um tipo de estimulante às avessas. Não bastasse toda a qualidade com que a grana faz o futebol se vestir ainda há um requinte de enredo que, literalmente, só vendo. E não quero cair naquele lugar comum que define esse abismo com a sentença de que a essa altura no velho continente se pratica um outro esporte. Pode até parecer, mas definitivamente não é. 

Sei que ser assim contundente pode só aumentar essa angústia futebolística que vivemos. Mas creio que há um quê de atitude nisso tudo. E grossura também, que eu não seria inocente de afirmar o contrário. Muitas vezes olho um jogo nosso, como aconteceu ainda outro dia, e a impressão que tenho é a de que hoje em dia certos jogadores cumprem os noventa minutos de uma partida com o ânimo de um burocrata. A mínima vantagem é muitas vezes suficiente para que a vontade de um novo gol vire fumaça. E a partir daí toda a opacidade é só consequência. E por falar em impressões. Quero registrar aqui que ao largo de todos os resultados que o São Paulo vem alcançando depois da chegada do técnico Luís Zubeldía há algo de novo na aura que cerca o time. Na maneira de comemorar cada gol. 

Em outras palavras há uma vibração ali que não existia. E talvez ela seja fruto da confiança que Tite sugere que no Flamengo andou minguando. Pensando nas duas coisas seria o caso de perguntar, alimentando aquele velho dilema que  cerca o frescor das bolachas, se alguém fica confiante porque ganha ou se ganha porque está confiante. O futebol sugere que a confiança  é dependente da vitória. Tenho minhas dúvidas. Acho que a confiança pode se alimentar de muita coisa.  E o futebol é intrigante, nos dribla. E digo isso por que até agora não me sai da cabeça uma das cenas que vi justamente num grande duelo do futebol europeu. Foi no jogo em que o poderoso Real Madrid garantiu mais uma vez vaga na final do principal torneio de clubes do mundo ao eliminar o Bayer de Munique.  

Era uma imagem recuperada do momento em que o time madridista, dono da casa, marca o gol da virada. Aquele que lhe daria a classificação. O quadro da imagem mostra ao fundo a explosão da torcida nas arquibancadas e em primeiro plano, de corpo inteiro, vestindo um terno bem cortado  o técnico do time espanhol, Carlo Ancelotti. E ele vê tudo impassível. Não mexe minimamente um braço. Não altera o semblante. Permanece imóvel com as mãos no bolso, ou os braços cruzados, já não estou certo. Mas impassível. Um sorriso, nada. Ao ver aquilo eu, que sempre me achei um cara pra lá de frio para ver jogos de futebol, custei a acreditar. E me peguei pensando que se conseguisse aquele nível de abstração não sofreria tanto para atravessar aqui por estas bandas as fronteiras que separam as tardes das noites nos dias em que o futebol europeu mostra todo o seu esplendor. 

quinta-feira, 9 de maio de 2024

Nem tudo passa



Tenho nostalgia das minhas memórias inventadas. Fui desde sempre um apaixonado por história. E por incrível que pareça quanto mais velho fico mais acho que ela é mesmo uma ficção. Se o que fica são as versões, que seja. Mas gosto de desafia-las. E pensando nisso toda vez que estive trabalhando com pesquisas históricas tentei ser o mais fiel possível aos fatos. E o fiz como alguém que tem na mente a certeza de que tudo que estava ali poderia não passar de um drible, de uma versão que colou. No mínimo é preciso crer que por trás das versões que vingaram está alguma virtude, talvez a de se aproximar o máximo possível daquilo que costumamos chamar de verdade. Por isso quando outro dia o presidente do Flamengo afirmou com todas as letras que Zico vai passar minha espinha gelou. 

Entendo, lidar  com as complexidades de ter de administrar a volta de Gabigol decretada por um efeito suspensivo é dessas coisas que fazem qualquer zagueiro se enrolar com a bola. Mas Zico, o lendário camisa 10 da Gávea, foi  esperto e no conforto de quem sabe muito bem que há tempos foi acolhido pela história tirou onda e mandou pra rede. A rede digital, digo. Fez uma postagem em que as palavras pareciam sorrir com escárnio. Escreveu o senhor Artur Antunes Coimbra: eu ouvia, vai passar, vai passar, e acabei passando por todo mundo e fazendo mais um pro Fla. E aí eu lhes pergunto: esse Senhor Landim, jogou onde? Conheço, de a história guardar, um certo Sr Gradim, isso sim. Companheiro de Leônidas no Bonsucesso. Atacante que, aliás, teve curta passagem pelo Flamengo mas que fez dele o autor do primeiro gol do rubro-negro fora do Brasil. Foi num amistoso contra o Peñarol, no Estádio Centenário, em Montevidéu. 

Compreendo que dirigentes se sintam importantes. Não nego que sejam. Mas se um dia entrarem para a história terá sido por outra porta. Mas pra isso terão de ganhar a envergadura de um Vicente Matheus, de um Castor de Andrade ou de um Eurico Miranda, com tudo o que isso guarda de enaltecedor, ou não. Se o mandatário acredita mesmo que uma hora Zico vai passar sugiro a ele que espere sentado. E já que é íntimo das coisas que costumam se desenrolar longe dos olhos da torcida, envolvido em grandes decisões administrativas, não deverá se surpreender se num futuro nem tão distante, de repente, ao olhar pela janela ou ao pousar os olhos em uma notícia qualquer se der conta de que quem passou foi ele. 

E que Zico, o Galinho de Quintino, segue aí amparado por essa alquimia incontrolável que costuma derramar sobre os homens um quê de eternidade. Landim deve ter lá seus ídolos. Pode ter se arrependido da frase mal empregada. Impossível que não perceba que Reinaldo, aquele rebelde atleticano, não passou. Que Pelé mais do que todos, e que já não está entre nós, segue aí também. Jamais vai passar. E que mesmo o rubro-negro Zizinho, que eu citei aqui outro dia e que foi um antecessor do Rei, se olharmos bem pela lente da história não passou. Que Tostão, Rivellino e Gérson, entre tantos outros, não passaram. E jamais vão passar porque visto por esse prisma da história nem tudo passa. E, acima de tudo, será sempre de uma deselegância extrema sugerir que um dia passarão.   

 

quinta-feira, 2 de maio de 2024

Fiel cruel



A metrópole ferve. Aguardo o Uber. Quando dá tento deixar o carro em casa e assim ficar um pouco livre dos testes que o trânsito paulistano costuma impor aos nervos. Com os sentidos menos entupidos noto no caminho detalhes de lugares e coisas que nunca pareceram estar ali. O motorista fica na dele. Está esilêncio. Mas um fato qualquer de que não recordo agora fez nascer a conversa que em pouco tempo desaguaria no futebol e no Corinthians. O tom é de desilusão. Não teria como ser diferente. Ainda não existia a vitória sobre o Fluminense nem o jogo da noite de ontem contra o América. Eu, que sou um cara do tempo em que o Timão não tinha Libertadores e nem Mundial, posso entender bem as mágoas do torcedor que está ali no banco da frente no papel de motorista. 

O discurso temperado num orgulho ferido é também um discurso inconformado. Mas cheio de razão. O time alvinegro acabava de ser derrotado pela terceira vez seguida. Mas o que me surpreendeu no papo foi o tom sóbrio das impressões que iam sendo tecidas sobre o passado e o futuro próximo.  O papo deixava transparecer certo temor para em seguida sentenciar que - na ocorrência de nova derrota  - colocar fim na passagem do técnico Antônio Oliveira viria a ser só mais um entre tantos erros cometidos pela direção do clube. Vejam a lucidez. Falou da falta de sintonia entre os dirigentes. Do presidente recém empossado que cometeu o erro de começar falando demais.

E se a impressão que eu tinha àquela altura era a da mais pura sobriedade ela só aumentou quando a conversa virou pra situação vivida pelo goleiro Cássio. Até ali tinha ouvido coisas com as quais eu concordava sem muito esforço. O que me fazia desconfiar que a sensação de sobriedade não passava de uma fantasia, de uma afinidade de raciocínio. Mas, de repente, tudo mudou. Pois naquele momento o sujeito que se encarregava do meu destino disse algo que nunca tinha ouvido: a torcida do Corinthians é apaixonada mas não perdoa nem os ídolos. Ouvi o dito e me pus a pensar. Realmente, a história corintiana guardava outros capítulos em que jogadores antes vestidos de herói se viram ofuscados por momentos em que as glórias já eram parte do passado.  E as glórias de Cássio, embora grandiosas, já o são. 



Mas a trajetória de tão robusta impede qualquer diminuição de seu papel na história corintiana. Para além dos títulos da Libertadores e do Mundial de Clubes no ano de 2012 está o goleiro que mais vezes defendeu a meta corintiana, o segundo que mais vezes a vestiu a camisa do clube. E não custa lembrar que o primeiro, o lateral Wladimir, figura nesse panteão com um número de jogos que parece inalcançável. É fato que a vida de goleiro sempre soou mais ingrata do que todas as outras. Como talvez soe ingrato fazer de Cássio um reserva. No entanto é do jogo, sabemos. Mas nunca tinha atentado para esse suposto viés impiedoso da fiel. 

Pensar que ainda no meio do ano passado , depois da vitória nos pênaltis contra o Estudiantes nas quartas de final da Copa Sul-Americana ele era exaltado como o maior defensor de pênaltis da história do clube. Ainda que o torcedor corintiano goste mesmo é de lembrar daquele lance em que evitou o gol de Diego Souza no jogo de volta das quartas da Libertadores em que triunfaria. Com o coração aberto pelo drama que o momento sugere Cássio disse que está conformado caso este seja o último ano dele no clube. Isso enquanto o semblante do arqueiro deixava ver o quanto nos é difícil aceitar que tudo tem seu ponto final. 

quinta-feira, 25 de abril de 2024

O calvário dos treinadores

O treinador húngaro, Béla Guttmann


Pode-se pensar o que quiser sobre o que viveu o jovem treinador Thiago Carpini em sua breve passagem pelo comando técnico do São Paulo Futebol Clube. O que não dá pra negar é que a história toda se desenrolou de forma um tanto cruel. A vida me mostrou - e quero crer que me ensinou - que profissionalmente pular etapas pode levar ao aniquilamento, ou provocar efeito colateral mais brando mas ainda assim extremamente danoso. Ou seja, é de qualquer forma não recomendável. Mas é preciso lembrar também que se quem aceitou dar o pulo errou na hora de analisar a oportunidade, quem deu a oportunidade também não foi preciso na escolha. E o maior castigo desse tipo de situação é que quem dá o pulo, em geral, tem sempre mais a perder do que quem sugere que o pulo é, ou era, possível. 

Carpini não foi o primeiro e não será o último treinador que veremos nesse tipo de situação. É bem provável que ele tenha argumentos para desmontar minha teoria. Outras justificativas para explicar o que viveu. Mesmo porque deve se sentir um profissional preparado para grandes desafios. E não duvido que seja. Mas a conquista da Supercopa e, arrisco dizer, mais ainda a quebra do tabu na Arena corintiana mascararam o que seria a realidade que lhe esperava. Elevaram a expectativa e a exigência com o trabalho dele às alturas. Realidade que os resultados aquém do esperado só tornaram mais complexa, e que o argentino Zubeldía irá herdar pra valer hoje à noite. Interessante notar também que apesar do vivido a diretoria do time do Morumbi volta a apostar em um treinador jovem ainda que mais rodado. 

Como ouvi em uma conversa outro dia, o futebol brasileiro tem sido pródigo em roubar o brilho de jovens treinadores que vão de grande promessa a profissional de dotes duvidosos em poucos jogos. Tem sido intrigante acompanhar esse viés do futebol. Essa aposta insistente, desde a chegada de Abel Ferreira, em técnicos portugueses que aportam aqui como ele, sem um título sequer de relevância. Como é interessante notar que toda uma geração de treinadores mais experientes saiu de cena. E se veio Abel foi porque antes dele tinha vindo Jorge Jesus, mas com vinte anos de janela e um punhado de títulos do futebol português. Diante disso volto a afirmar o que já afirmei, os clubes brasileiros deveriam pensar em formar treinadores. Uma íntima história com o clube talvez lhes servisse como escudo para ultrapassar essa fronteira imposta aos mais jovens. Mas tenho dúvidas porque em tempo algum a experiência foi garantia de permanência. 

Que a vida de treinador não é fácil todo mundo sabe. O lendário Telê Santana antes de se consagrar de vez com os títulos mundiais do São Paulo esteve à beira de deixar o tricolor depois de sentir a pressão da derrota em um clássico contra o Corinthians. O enredo da história é cheio de requintes. E às voltas com essa questão do técnico são paulino lembrei do húngaro Béla Guttmann que nos idos de 1957 chegou ao tricolor paulista dando toda pinta de que sabia muito bem onde estava pisando. Sua única exigência pra assumir o cargo foi a contratação de Zizinho, já um veterano praticamente. Pra quem não sabe quando se perguntava ao Rei Pelé quem era o tal ele sem titubear dizia: Mestre Ziza. Ouvi gente por aí dizer que Zubeldía sabe onde está pisando. A ver. ​

quinta-feira, 18 de abril de 2024

Receitas para o futebol



Não sei se vocês sabem  mas o jornalismo costuma usar o termo suíte quando um assunto que foi notícia na edição anterior volta a ser explorado. O termo vem do francês, onde suite significa uma série, uma sequência. É o que de certa forma farei aqui ao retornar não exatamente ao tema arbitragem mas ao que a cerca e que, creio, poderia ajudar àqueles que têm a incumbência de soprar o apito. A contribuição-mor, como já defendi aqui semana passada, seria ordenar um pouco os comentários sobre arbitragem. Não que isso vá livrar os árbitros do purgatório ou de alguma outra seção mais ardente. Quando digo ordenar falo em tecer considerações a respeito dos lances duvidosos só depois que eles já tiverem sido decididos. Sei que hoje em virtude da maneira como as coisas estão se dando nem bem o lance ocorreu os narradores já estão pedindo que o comentarista de arbitragem se pronuncie. Uma urgência que deveria ser evitada já que assim os narradores forçariam seus parceiros de transmissão à elegância do veredito em tempo oportuno. 

Outra coisa que meu viés romântico sugere é livrar os envolvidos no jogo de qualquer interferência externa. O que significa dar um jeito de proibir verdadeiramente qualquer aparato tecnológico. Celulares e afins.  Estou ciente de que há muitas ferramentas de análise que dependem da internet e uma vez que ela entre em campo danou-se. Mas seria possível. Há filtros. Há recursos. Condenaríamos assim os envolvidos com o jogo a acreditar no que olhos viram e ponto. Como antigamente. No jogo de ida da recente decisão paulista me chamou a atenção o tamanho dos monitores instalados nos bancos de reservas da Vila Belmiro. Com eles, mesmo que não venha a narração, vem a câmera lenta, o replay. Todos esses recursos que costumam complicar a nossa interpretação do jogo. Isso me fez lembrar do velho Telê Santana. 

No início dos anos 90 ele pediu que fossem instalados monitores nos bancos de reservas do Morumbi para auxiliá-lo durante as partidas. Reclamava com razão que a visão dali era ruim. E vejam, disse também que era mesmo só pra analisar os jogos e não para pressionar o juiz. Ainda se chamava árbitro de juiz. Elegante - e prevenido - pediu que um monitor fosse instalado também para o time visitante. Mas em um jogo do torneio estadual, orientado pelo juiz, o fiscal da Federação mandou que o desligasse. Telê disse que desligaria. E ficou furioso quando voltou do intervalo e viu que o monitor não estava lá. Não exatamente por ter sido retirado mas pelo fato de que o fiscal não havia confiado nele. Irritado com episódio no Brasileirão pegou um walkie-talkie e passou a assistir aos jogos da tribuna, orientando o auxiliar, Muricy Ramalho, que estava à beira do campo. 

Dois anos mais tarde Washington Rodrigues, treinador do Flamengo, usou do mesmo expediente sem ser molestado. A visão ao nível do campo é mesmo ruim. Para os repórteres atrás dos gols também. Quando comecei a trabalhar lembro que todo mundo queria saber da emoção de poder estar ali à beira do gramado. E lembro das caras de desapontamento quando eu dizia dessa visão prejudicada. Enfim, acho que é uma ideia essa blindagem tecnológica e esse atraso nos comentários de arbitragem. E encerro tomando pra mim o que disse Telê em 1996 quando a Federação finalmente liberou os monitores. Disse ele: "Antes tarde do que nunca". E completou: "Aos poucos eles vão aceitando minhas ideias". Já eu não alimento essa esperança. Não tenho essa pretensão. 

quinta-feira, 11 de abril de 2024

Foi ou não foi?


Você é do tipo que confia ou não confia nos árbitro de futebol? Sempre lembro de um velho companheiro de redação que costumava pregar, em alta voz, que nós brasileiros temos o traço perverso de começar a duvidar do árbitro bem antes do jogo começar.  Sempre vinha com essa quando a arbitragem virava tema do papo. Impossível lhe tirar a razão. Mas duvido que sejamos os únicos a conviver com essa pulga atrás da orelha. Fato é que gato escaldado tem medo de água fria. E tá pra nascer entre nós quem não tenha vivido trauma do tipo. Os santistas que sonharam com o título brasileiro de 1995 que o digam. 

Mas acho que já estamos em um estágio que deveria causar preocupações ainda maiores. Estamos na era em que passou a ser realmente um desafio saber o que viria a ser um bom árbitro. Ainda que alguns gozem nitidamente de prestígio maior. Como goza, ou gozava, Raphael Claus. E talvez a culpa não seja exatamente deles. Mas de tudo que se andou fazendo com relação a arbitragem. O mais incrível é que quando a dita interpretação era levada em conta o consenso a respeito do que se apitava parecia maior. Mais aí algum iluminado insistiu que as coisas precisavam ser mais claras e que bola na mão era bola na mão. E do que soava óbvio se fez o caos. 

Então passamos a ouvir  que era preciso levar em conta as orientações mais recentes repassadas aos árbitros. E eis que as orientações passaram a rivalizar com as regras, ou a dar essa impressão. Agora o que não dá margem a dúvida é árbitro ruim. Se você tem alguma lembre do senhor que apitou o amistoso entre Espanha e Brasil dias atrás. Enfim, alimentando esse fogo eterno dos embates entre foi ou não foi está não só essa área nebulosa em que pairam todas as interpretações e também um sem fim de câmeras que podem, a depender do ângulo em que estão postas, nos convencer facilmente de uma coisa ou de outra. Não queria ser o anunciador dessa nada alvissareira realidade. E peço desculpas se por acaso ainda restar nesse mundo alguém que não tenha feito essa constatação. 

Eu ao menos já me peguei muitas vezes mudando de opinião na mais perfeita sintonia com as alternâncias de ângulos. E chega a me dar arrepios lembrar disso porque a partir daí é possível - acompanhado de imagens - criar a narrativa que se queira para um lance, um jogo. A final do Paulista mostrou bem isso com o tal pênalti marcado em Endrick . Não há de ser , creio, um fato isolado desta nossa era infinitamente tecnológica e dada a desafiar pontos de vista. Tento na medida do possível adequar meu modo de ver o futebol a todas as orientações que soam por aí com certo ar de pregação. Tenho dúvidas monstruosas a respeito de muitos lances analisados sem pestanejar pelos mais experientes interpretes do jogo. 

Na maior parte das vezes sofro mesmo é quando as mãos e braços insistem em entrar no jogo. Entendo que se trata de um esporte de contato, aceito os jogos de corpo, mas quando um braço entra em cena deslocando alguém minha mente ultrapassada tende ainda a achar que foi falta, que foi pênalti, que foi claro. Mas pode ser apenas uma falta de atualização da pouca inteligência nada artificial que me foi dada a carregar na cabeça. E que me faz pensar que está mais do que na hora de os comentaristas de arbitragem terem a elegância de darem seus vereditos só depois de resolvido o lance em campo. E aí sim opinarem se foi ou não foi. 

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Sobre manipulações



Tivesse a derrocada do Botafogo no Campeonato Brasileiro do ano passado se dado de modo menos evidente, com lances desses cabeludos, polêmicos, talvez fosse mais fácil entender onde quer chegar o americano John Textor, dono da SAF que adquiriu o Botafogo há dois anos. Não é o caso, o time figurativamente se desintegrou depois de liderar o torneio a maior parte do tempo. Duas realidades tão díspares que eu também não tiraria a razão de quem viesse a desconfiar que a evolução meteórica do time carioca tivesse por trás algum método menos ortodoxo. Até porque somos livres para desconfiar, o que é infinitamente diferente de acusar sem provas. 

Textor literalmente tem se esforçado sobremaneira para colocar fogo no circo. De onde é possível concluir também que ou ele sabe verdadeiramente de coisas que ninguém sabe ou tem sido um inconsequente.  Entre as declarações que deu, me chamou  atenção ter dito que enviou o material  que tinha à CBF para em seguida dizer que tendo feito isso não saberia dizer exatamente quem o recebeu. E mais tarde imprudentemente apontou para clubes como o Fortaleza, o Palmeiras e o São Paulo. Todos bradando em uníssono que irão tomar as atitudes judiciais cabíveis. Quando riscou o primeiro fósforo apontou um suposto esquema de manipulação de resultados. 

Acusação que levou todo mundo a crer que teria se dado no universo em que o clube dele transita. Eis que o americano que fez fortuna na indústria do entretenimento, quando todos esperavam a bomba, veio com uma conversa de que o caso teria se dado em uma divisão menor, infinitamente menor. Intimado a apresentar as provas não o fez e acabou denunciado pela procuradoria -geral do Superior Tribunal de Justiça Desportiva. Ao descumprir a decisão  foi denunciado em artigo que prevê pena que pode ir de 90 a 360 dias de suspensão. É de se supor também que tendo colocado parte de sua fortuna no futebol brasileiro e dando de cara com indícios de que o mesmo estaria sendo manipulado decidiu que a melhor tática seria colocar a boca no trombone. 

Até onde entendi os relatórios que forneceram os dados para que Textor tomasse pra si o papel de acusador são frutos da tão falada inteligência artificial. Vai saber o que não daria pra afirmar cruzando dados a respeito de tudo o que acontece em campo. Impossível que como homem de negócios experiente que é não tenha notado o quanto tudo foi feito de modo a causar impacto. Se há manipulação outros clubes podem estar interessados em saber como ela anda se dando. Poderiam ser parceiros de ações coordenadas. O que me faz crer que Textor considera que forçar esse assunto na mídia seria, ao menos, parte da estratégia ideal. 

Como não nasci ontem e sou por natureza um sujeito desconfiado começo a acreditar que pode não ser apenas coincidência que tudo isso venha à tona justamente no momento em que uma CPI no Senado se prepara para investigar a fundo a manipulação de resultados no futebol brasileiro. A criação da comissão foi requerida pelo ex-jogador Romário, atualmente senador pelo PL do Rio, que por sua vez embasou o pedido em relatórios de uma empresa que analisa dados em tempo real  a fim de encontrar movimentações suspeitas em casas de apostas e que colocou sob suspeita 109 jogos do Brasileirão do ano passado. Resta saber como se comportará  John Textor até o próximo dia 15, quando será julgado no Superior Tribunal de Justiça Desportiva.

quinta-feira, 28 de março de 2024

A nobreza de ser grande

Raul Baretta/ Santos FC


Não faz muito tempo no meio de uma conversa sobre futebol com um amigo ele me fez uma pergunta dessas para as quais qualquer resposta não soa definitiva. É como aquela outra, tão ouvida por aí, que nos exige dizer se técnico ganha ou não ganha jogo. A questão era: um time deixa de ser grande?  E eu me peguei imaginando a figura de um nobre que depois de umas tantas bolas fora acaba por ficar só com o título, com a comenda, quando tudo o que o cerca já não se renova com ar de realeza e ele passa a viver das lembranças de um passado que o tempo vai fazendo cada vez mais distante.  Dando aqui um drible na lógica, diria que um clube pode continuar respeitado pelo que já representou mas no presente se apequenar.  

Talvez um bom viés para analisar isso seria enxergá-los pelo faturamento. Afinal, nenhum nobre seria tido como nobre com seu poder de compra sendo dilapidado dia após dia. Entre os quatro ditos grandes clubes paulistas há notadamente um recorte. Neste momento de um lado estão Corinthians e Santos. Do outro, Palmeiras e São Paulo. O time santista , entre tantos desafios, tem vivido sérios dilemas que passam justamente por sua capacidade de faturar. Já teve boas provas de que ela melhoraria sensivelmente se ele abraçasse a ideia de ir jogar fora da Vila mais famosa do mundo. Mas tem arroubos que são herança dos tempos em que ninguém duvidava de sua grandeza e podia sonhar em ter tudo o que os rivais conseguiram. Ter uma Arena, por exemplo. 

Mas a realidade recente mostra que hoje em dia querer construí-la à beira-mar o confinaria a um reino que talvez não venha a propiciar faturamento aos menos parecido com o de seus concorrentes. Mais ambicioso e digno de sua própria história seria construí-la, então, onde reinam os outros, na capital. Já o Corinthians que, todos sabem bem, anda com as finanças arruinadas nos remete a algum nobre perdulário desses que se negam a admitir que a realidade mudou.  No mínimo, diria que nos dois casos eles se fizeram, ou têm se tornado, realmente menores do que foram um dia. Se ainda são grandes é uma questão de ponto de vista, de perspectiva. 

Neste cenário ninguém renovou mais sua condição de nobre do que o Palmeiras. Não bastassem os títulos, que soam como comendas, há ainda o faturamento em constante evolução. E aí é possível dizer o que for. Que com esse recurso todo o time teria que brilhar mais, que tem por isso a obrigação de sempre encarar o Flamengo de igual pra igual. A torcida do Palmeiras poucas vezes na história pôde estar tão satisfeita. E ai de quem ousar dizer que o time do velho Parque Antártica não segue sendo um grande. E ainda que falte ao São Paulo uma trajetória recente farta de grandes títulos ele é o único dos outros três rivais alviverdes que pode lhe fazer frente a essa altura. 

Não só porque andou papando um título aqui, quebrando um tabu acolá, mas porque tem colocado pra girar a engrenagem que pode verdadeiramente fazer um clube ganhar outra estatura: a de ter numerosa torcida. E a torcida do São Paulo, que anda lotando o Morumbi jogo após jogo, deveria causar inveja a todos os que venham a ser assombrados por esse dilema de ser ou já não ser grande. Até porque isso remete a outra dessas perguntas cujas respostas a elas nunca soam definitivas, que é: poderá existir algum dia time grande sem uma grande e presente torcida? Não por acaso quando o Santos joga na capital, com estádio lotado, dá a impressão de revelar outra estatura. 

quinta-feira, 21 de março de 2024

A mais pura tradução do jogo

Vou dizer uma coisa pra vocês. Vivo há várias décadas cercado de gente que dedicou a vida a esmiuçar o jogo de bola. Gente com talento reconhecido para tal. O que faz com que eu me sinta um afortunado. E, claro, gosto também de desfiar minhas teorias a respeito, ainda que tenha pra mim que no ofício de apresentador que exerço deva me dedicar mais ao questionamento, a informar, a conduzir conversas situando fatos, colocando-os em seu mais preciso contexto. Mas tenho um apreço imenso pela maneira como o futebol é tratado quando afastado de ambientes ditos profissionais. Nos botequins, nas filas de supermercado. Ai daquele que por ventura se afastar dessa fonte. 

Uma imagem que me vem quando penso nisso é aquela "marra" que o Ronaldinho Gaúcho ficou famoso por usar, sabe? Falo aquela de olhar pra um lado e mandar a bola pro outro. Movimento simples, mas eficaz como poucos. E cuja maior virtude talvez esteja no fato de desconcertar o marcador. Enfim, buscar a tradução de uma imagem, de um lance, olhando pra onde ninguém estava olhando, driblando o olhar comum. O que quero dizer a vocês é que procurar a interpretação do jogo no meio campo do cotidiano é das coisas mais valiosas e mais prazerosas na minha modesta opinião. A alma das boas crônicas que, por este motivo, creio, seduzem tanto. Um jeito legítimo de traduzir o jogo com um viés deliciosamente cru e cruel,  que muitas vezes nem mesmo o mais refinado especialista consegue. 

Sem contar que muitas coisas interessantes ficam pelo caminho. Vejam o caso do Nova Iguaçu que vinha fazendo boas campanhas nas duas temporadas recentes e agora, depois de eliminar o Vasco, irá decidir o título do Campeonato Carioca com o poderoso Flamengo. Li, quase sem acreditar, que seu treinador, Carlos Vitor, está no clube há trinta e dois anos. Lá chegou depois que o atual vice-presidente, na época diretor de futebol, o viu jogando uma pelada nos idos de 1992. Cal, como é chamado, foi jogador por seis temporadas. Virou treinador. Passou  por todas as categorias de base do clube. A começar pelo sub12. Mais tarde foi incorporado à comissão técnica permanente. E aí está, colhendo os frutos dessa trajetória. Personagem que me fez lembrar do britânico, Alex Ferguson, que comandou o Manchester United, da Inglaterra, por longos vinte e sete anos.  

Mas mesmo com essa história singular pouca coisa li na mídia sobre Carlos Vitor, chamado carinhosamente por seus comandados de CalDiniz, ou CalDiola, em alusão a treinadores mais famosos e laureados que ele. E é assim, porque o olhar do jornalista também é treinado, como são os times. Somos todos preparados para executar o que se fez nossa tática. Por isso, adoro ouvir o que se diz por aí, digamos, despretensiosamente. Algo na linha do que ouvi  outro dia um senhor na feira contar em tom de segredo para o corintiano boa praça, vendedor de limão. Disse ele baixinho que, já garotão, tinha trocado de time. Veja só que confissão! Tinha deixado de ser são paulino para virar santista. E o corintiano, naquele tom cru e cruel dos papos informais, abriu um sorriso imenso e sentenciou: "Olha aí,  se livrou de uma eliminação no último domingo, mas não do sofrimento. Tá parecendo eu".

quinta-feira, 14 de março de 2024

O futebol do nosso jeito



Que o nosso futebol não prima pela plástica deixou de ser novidade faz tempo. Não sei se seria correto justificar essa realidade apontando uma pobreza técnica. Por falar nisso, acho interessante termos visto nos últimos tempos os times brasileiros sendo inundados de estrangeiros, em sua maioria sul-americanos, e quase nada ser dito sobre os efeitos colaterais que isso poderá produzir. É de se supor que com o futebol brasileiro fazendo valer sua supremacia financeira sobre os outros times do continente uma melhora substancial na qualidade do jogo venha a ocorrer. Alimento sobre a questão teorias mais profundas, que versam sobre os desdobramentos que isso pode ter no que chamamos de nosso jeito de jogar. 

Considero improvável que tudo isso se dê sem provocar uma certa fusão de estilos. Gostaria de acreditar que o futebol brasileiro é dono de uma personalidade forte, capaz de moldar tudo isso a seu modo. Mas não sei se é o caso. Ainda mais neste momento da história em que tanto se fala que se acabamos desse jeito é por ter deixado de lado nossa verdadeira escola de bola para seguir outras. Talvez o que possa ser dito sem medo de errar é que o jogo por aqui produz cada vez menos encantamento. E se há nessa constatação algo de técnico, há sem sombra de dúvida também algo que passa pela educação, pela civilidade. 

E aí vou me dar o direito de filosofar mais ainda dizendo que esse viés seria facilmente explicável ao aceitarmos que o futebol foi desde sempre o espelho da nossa sociedade. Hoje em dia a sensação que tenho é a de que essa falta de educação, de civilidade, salta aos olhos no nosso cotidiano. No trânsito cada vez mais agressivo, nos motoqueiros ignorando na cara dura as leis de trânsito, nas pessoas não fazendo a mínima questão de exercer a gentileza. Em última instância também é de uma cara de pau tremenda a cera que os goleiros andam desenhando em campo. Os artifícios todos pra se tirar proveito de certas situações de jogo. Uma realidade na qual o entrevero recente entre os dirigentes são paulinos e palmeirenses só se fez uma espécie de apogeu dessa falta total de respeito. 

Não bastasse as conversas sobre futebol de uns tempos pra cá terem se reduzido aos mandos e desmandos do VAR, agora se colocou no bafafá do jogo de bola  a falta de educação dos dirigentes. E por tudo o que temos visto sou levado a crer que no fundo, no fundo, eles até acabam por enxergar no que lamentamos uma oportunidade para ganharem voz, para ganharem mídia. E, em geral, esse tipo de comportamento, que não deveria existir, perversamente tem se derramado justamente sobre os clássicos, sobre os jogos mais importantes. 

Em outras palavras, acabam minando as páginas que deveriam ser as mais admiradas, as que deveriam proporcionar a quem gasta seu tempo e dinheiro esse tal encantamento que se faz cada vez mais raro. Uma semana atrás exatamente estava vendo o jogo do Vasco com o Água Santa que, em pleno estádio de São Januário, depois de levar dois gols tinha conseguido a virada aos quarenta e dois do segundo tempo, para em seguida ver o Vasco empatar nos acréscimos. Ou seja, o futebol ia mostrando ali sua veia cativante, surpreendente. Mas aí se estabelece uma enorme confusão. E fica lá o jogo de bola reduzido a algo de se lamentar. Como tem acontecido tantas vezes.   

quinta-feira, 7 de março de 2024

Duas cenas do nosso futebol

Foto: Vinicius Gentil/Olaria AC


Antes de chegarmos ao requinte desta nossa era do chamado futebol nutella muita água passou por debaixo da Ponte. Muito gente suou , arriscou as canelas e ficou pelo caminho literalmente para que alguns poucos hoje, com a bola nos pés, pudessem desfrutar do status de celebridade. Que como temos visto tem feito muitas vítimas. Mas o futebol resiste e duas páginas escritas na semana passada me fizeram crer que o futebol raiz ainda tem viço. Seja lá o que futebol raiz queira dizer. As duas foram, de certa forma, um drible na obviedade de que o jogo de bola só pode nos fazer feliz quando nos oferta a pseudo-anfetamina da vitória. 

Uma dessas páginas foi escrita no estádio Ulrico Mursa de tanta tradição, com a Portuguesa Santista voltando a fazer um jogo de torneio nacional depois de dezoito anos.  Espaço de tempo que sempre foi visto como suficiente pra que alguém tome juízo. Mas essa é outra questão. A outra página se deu no estádio da Rua Bariri, no Rio de Janeiro, campo do Olaria. Diga-se de passagem, dois estádios que honram a tradição permitindo que  o jogo de bola se desenrole em cenário que vai se fazendo cada vez mais raro: um gramado natural. Talvez seja exagero dizer que tanto a Briosa quanto o Olaria foram vitimados pelo regulamento estapafúrdio da Copa do Brasil.

Mas se reclamassem que tiveram de jogar sob a sombra da injustiça, não lhes tiraria a razão. Pra quem não sabe a primeira fase do torneio reza que o time melhor posicionado no ranking tenha o direito do empate. Posso imaginar que algum iluminado tenha levado em conta que conceder o direito a uma disputa por penaltis aos teoricamente mais fracos - e já donos do mando - poderia favorecer o anti-jogo por parte dos anfitriões. Seja como for, a meu ver, essa desigualdade aniquila a equidade. No caso do jogo do Olaria com o São Bernardo se viu o placar apontando zero a zero até os quarenta e sete do segundo tempo. Não é de se estranhar que precisando vencer o time da casa tenha se exposto mais no fim e levado o gol. Afinal, era a única saída. 



Em Ulrico Mursa o enredo do jogo foi outro. O Caxias fez um a zero pouco antes do final do primeiro tempo.  E diante disso normal que o segundo tempo tenha se desenrolado com muitas faltas, com os visitantes apostando em se defender mais do que atacar. E fazendo uso da enrolação que no futebol costuma se chamar de cera.  A Briosa e o Olaria acabaram eliminados. Ficou a sombra desse regulamento maluco provocado certamente pela falta de datas do nosso calendário futebolístico. 

Mas em Olaria nada foi motivo para colocar a torcida pra baixo. Mesmo sabendo do favoritismo do adversário, o dia de debutante do clube na Copa do Brasil agitou as ruas do bairro. Fez brilhar a história de um clube que tem cento e oito anos.  E quando o juiz apitou o fim da partida não se viu desânimo. Foram ouvidos aplausos. Não vi como se deu o final do jogo em Ulrico Mursa mas posso imaginar que , de certa forma, estavam as duas torcidas irmanadas na sensação de que o futuro pode lhes reservar boas alegrias. Momentos que só foram possíveis por causa das Copas que mantém os times ativos durante o segundo semestre. No caso do Olaria a Copa Rio. E no da Portuguesa Santista a Copa Paulista, vencida pelo clube pela primeira vez no ano passado. E que vão mostrando que nem só de nutella vive o nosso futebol.

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Retranqueiro: ser ou não ser?




Já tive a oportunidade de dizer aqui em outro momento que a retranca com o passar dos anos foi ganhando ares de maldita. Pode-se desfiar uma longa teoria a respeito. A minha tiro do modo como a tal foi sendo encarada ao longo dos anos. Ouso dizer que em outros tempos era vista como um dogma do futebol do qual não se ouvia falar mal.  Hoje em dia a coisa está longe de ser assim. Que o diga o laureado técnico Tite. A coisa tanto o cerca que dias atrás ele falou sobre o assunto. Na verdade rebateu com veemência que o queiram ver como retranqueiro. 

A coisa tem muitas nuances. Há retrancas que não anulam a vontade de gol de um time. Há outras que os reduzem a ela. Diante disso, talvez seja pertinente lembrar o que escreveu certa vez Fernando Pessoa. Afirmou o poeta que há arte até no fazer embrulhos. Não foi por acaso que o assunto veio à tona. O Flamengo de Tite nesta temporada anda fazendo gols em número considerável enquanto sua meta até a declaração citada tinha sofrido um único gol. Não me caem bem certos termos para definir a fixação de um time, ou de alguém, para com o setor defensivo. Chega a me dar arrepios ouvir alguém dizer que fulano fechou a casinha, ou que estacionou um ônibus na área pra evitar levar gols. Se não tens muita intimidade com o jogo não se espante. São coisas ouvidas quando não se tem dúvidas sobre ser ou não ser retranqueiro. 

Os argumentos de Tite para se descolar dessa condição foram fortes. Disse que carrega o estigma do gaúcho.  E isso por si só permitiria que desfiássemos outra longa teoria. Disse que saiu do Rio Grande do Sul fazendo três a zero no Grêmio de Ronaldinho. Disse que a história dele tem título com o Grêmio fazendo três a um no Corinthians entrando com bola e tudo no terceiro gol.  Lembrou ter sido campeão mundial de clubes diante do Chelsea criando oportunidades e - usando um termo muito boleiro - indo pra dentro. Embalado no assunto, recordou que pegou o Corinthians pra cair e que precisou ser competitivo com um time que tinha quatorze garotos. Que pegou o Palmeiras na mesma situação, ameaçado de rebaixamento e precisando de uma reformulação extraordinária. E que deu conta disso tudo. 

A mim não resta dúvida da sua capacidade profissional. Foi por mérito que ele agora tem nas mãos o melhor elenco do país. E quero crer que saberá tirar proveito disso. Estava coberto de razão quando disse que é preciso ter cuidado com os rótulos. Acho tudo muito pertinente. Mas devo dizer que quando falava do assunto com um amigo o senti um tanto impaciente. Não demorou muito e, enquanto eu ainda falava, ele me cortou bruscamente e disse: é eu sei, mas e as duas Copas que ele têm nas costas? Argumento afiadíssimo. E que me fez lembrar de Luigi Pirandello. O romancista italiano fez questão de alertar seus leitores , com veemência também, que a gente não é o que pensa que é, nós somos o que o mundo vê. 

O que, ao mesmo tempo, me deixou com a sensação de que este assunto é mesmo bom. Permitiu citar Pessoa e Pirandello num mesmo artigo! Que tabelinha essa! Tite não dirá jamais que a defesa é o cerne de sua estratégia. O que parece óbvio olhando a trajetória dele. Eu, de minha parte, vos digo que nada tenho contra a retranca. Por estilo, prefiro sempre a ofensividade. Só peço aos que decidiram a abraçar que a exerçam, mas com elegância, na medida do possível. Como, talvez, seja o caso de Tite.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

A voz do Doutor



Na última segunda Sócrates Brasileiro teria feito setenta anos. No meio de toda a saudade provocada pela data me peguei com a cabeça nas nuvens. Fiquei imaginando como seria se o Doutor estivesse aqui. E que vontade de que ele estivesse. O que me fez flertar com muitas dúvidas. Mas o que ao mesmo tempo provocou em mim uma certeza: a de que se o Magrão estivesse entre nós haveria festa. E das boas. Talvez fosse celebrada na paulistana Ria Livraria, na Vila Madalena, que o tempo tratou de fazer a mais legítima substituta da velha Mercearia São Pedro, onde tive o privilégio de passar muitas noites com esse lendário camisa oito cercado de amigos. E é daí que trago tal certeza. O Doutor adorava celebrar a vida, que acabou lhe sendo breve. 

Ele partiu. O país se dividiu. A democracia passou a ser atacada. A correr perigo. A democracia da qual ele, de certa forma, passou a ser sinônimo. A democracia que ele tratou de plantar com seus iguais no árido chão que sustenta nosso futebol. E foi disso tudo que as dúvidas que andei alimentando nasceram. Pois me peguei imaginando, não é de agora, como nosso velho Magrão teria encarado as últimas páginas da nossa história. O que teria dito. De que forma teria defendido sua maneira humana de encarar o mundo. A quantas andaria a paciência dele com esse nosso jogo de bola. O que diria dos livros sendo alterados em nome de novos ditames. Como teria seguido na sua brava resistência. 

Pra mim Sócrates é meio Belchior, dessas figuras que o tempo só vai agigantando. 

Sabendo do papel que o Doutor chamou para ele, não foram poucas as vezes em que me peguei admirando sua figura e pensando comigo em segredo que aquele cara devia ter voz, muita voz. Devia ser ouvido. Por isso pra mim havia ali, além do prazer da companhia, o alento de saber que o programa que fazíamos juntos cumpria essa função, como cumpria a revista na qual ele publicava seus artigos semanais. E era interessante notar como as pessoas paravam para ouvir o Magrão. Presenciei isso muitas vezes, mesmo estando na mesa de um bar onde todo mundo costuma falar ao mesmo tempo. Mas aí ele embalava num assunto qualquer e, aos poucos, as pessoas à sua volta iam prestando atenção, prestando atenção, até que em dado momento todos eram só ouvidos. E era possível notar, então, um quase silêncio pra lá de reverente. 

E isso quando ele tramava um papo qualquer, não quando ele sacava da memória uma história vivida nos gramados - ou em seus arredores - por esse mundão afora. Aí seria covardia. Seria fácil explicar qualquer encantamento. Entre os amantes do futebol bem jogado acho que tá pra nascer alguém que não gostaria de ter escutado uma história de bola contada por Sócrates Brasileiro, ainda mais em tom um tanto íntimo. O Doutor virou nome de prêmio social da revista France Football, nome de esplanada em Ribeirão Preto, cidade que fez dele. A data de seus setenta anos rendeu manchetes. Sua figura foi reverenciada. Partilhei a saudade com alguns de seus velhos amigos que me foram deixados de herança e hoje também são meus. E ao lembrar disso enquanto batucava estas linhas devo ter deixado escapar um sorriso porque meus devaneios acabaram por me convencer de que o Magrão segue na área e ainda tem voz.   


*Artigo escrito para o jornal "A Tribuna" , de Santos /SP

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

O futebol é ilusão



Uma das coisas que mais me intrigam é porque mesmo tendo praticado tantos esportes quando garoto nunca pensei em fazer dele profissão. No cerne de tudo estava o divertimento, e só. Era assim quando acordava de madrugada para ir com um amigo de classe às aulas de remo. Foi assim quando a molecada descobriu o surfe e cedo ia em bando para a praia. Era assim nos tempos da natação. E tudo isso, claro, me veio depois de ter descoberto o prazer de jogar bola. Essa questão voltou à minha cabeça insistentemente quando comecei a trabalhar como repórter. Ia cobrir um treino e ficava , muitas vezes, curtindo uma inveja boa de quem estava ali trabalhando e ao mesmo tempo cuidando do corpo - e por tabela da cabeça. 

O vôlei foi dos esportes mais longevos na minha vida. Vieram os campeonatos, a possibilidade de disputar uma edição dos jogos abertos. Mas era como se tudo se encerrasse ali. Pensando bem pode haver uma explicação muito simples pra tudo isso: a ausência de um talento desses  que costumam mudar o destino das pessoas. Já contei aqui que a única vez que flertei com essa possibilidade foi depois de meu pai ter visto meus cotovelos inchados de tanto fazer defesas nas peladas que travávamos no chão duro da garagem do prédio em que morávamos. Deu-me uma bronca e em seguida me perguntou porque não ia jogar bola na praia. E avisou que se era assim iríamos arrumar um time - e consequentemente um campo - pra eu treinar. 

Foi uma das mais breves possibilidades da minha vida. No sábado, quando chegamos ao treino, enquanto meu pai conversava com o treinador e explicava a situação vi o garoto que jogava no gol fazer três defesas incríveis. E todo o devaneio a respeito de um caminho repleto de glórias como arqueiro evaporou. Andei lembrando disso tudo dias atrás adivinhem por que? Dei de cara com uma manchete, oras. Sim, estou obcecado por elas. A dita versava sobre a trajetória do atacante Yuri Mamute, que muito jovem foi alçado à essa condição tão perigosa de craque prestes a ser revelado para o mundo. Tinha dezesseis anos quando viu cair sobre ele esse fardo de ser uma grande promessa do nosso futebol. Com toda a tentação que realidades assim certamente escondem. 

E a vida seguiu com todos os requintes precoces que costumam por à prova uma maturidade que inexiste. Yuri foi convocado para umas das nossas seleções de base. Foi campeão. Laureado como o melhor jogador de um dos torneios mais prestigiosos do mundo na categoria. Coisas que deveriam bastar para tirar alguém do lugar comum. Mas apesar de tudo isso, ele diz com todas as letras que se desiludiu. Hoje cita as oportunidades que não teve, que o futebol ainda assim não lhe deu. No meio do caminho deu de cara com algo infinitamente mais presente no futebol do que o sucesso: a contusão. 

Foi parar no futebol grego, no Japão. Voltou ao Brasil. Hoje está no Joinville. Onde tem vivido a alegria de fazer gols. Essa coisa tão desejada e que em se tratando do jogo de bola sempre foi o melhor dos combustíveis. Consagrado, ou não, ter o esporte em nossas vidas, quero crer, já é um tipo de vitória. E que os que sonham com ele e não ficariam satisfeitos com algo menor do que a glória levem em conta o que ele tem de sublime, mas que levem em conta também o que ele tem de dor. E aí já não importa que seja verdadeira, ou não, a frase dita por Mamute que me fez de novo aqui escravo de uma manchete. A frase era: O futebol é ilusão. Mas qual de nós viveria sem ela?   

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

A dúvida da dívida



Vou seguir nossa conversa partindo de uma manchete novamente. Boa demais para deixar passar sem uma reflexão. Creio que vocês irão entender. Já vimos de tudo no futebol. Times que não têm dinheiro fazendo contratações bombásticas. Time sendo campeão quando os balanços sugerem a bancarrota. Enfim, vigora no mundo da bola um quê de tudo é possível. E verdadeiramente é. Não fosse assim não teríamos visto como já vimos, e muito, times se impondo no cenário nacional com grandes títulos, grandes esquadrões, grandes faturamentos  e tudo isso virando pó pouco tempos depois. Qualquer semelhança com o Santos não terá sido mera coincidência. Um ciclo perverso que sempre jogou a favor do faturamento.

Costumo brincar com meus amigos, toda vez que damos de cara com algo nessa linha, dizendo o seguinte: quem gosta de futebol somos nós, eles gostam de dinheiro.  Veja, do ponto de vista dos negócios do mundo da bola tanto faz se um time está sendo montado ou desmontado. O que importa é o dinheiro girando, as comissões. Se puder desmontar e montar de novo, então, talvez seja melhor ainda. E se não fosse assim - com essa economia que desafia a lógica - as dívidas já teriam inviabilizado a história de praticamente todos os nossos clubes. Mas há sempre uma mão a lhes salvar, um mirabolante plano de refinanciamento bancado pelo governo - leia-se com a nossa grana -  cuja eficácia até aqui foi sempre uma espécie de naufrágio. Não há freios. 

Vivemos agora a era das SAFs.  Mas as manchetes, estas mesmo de onde tenho extraído o caldo da nossa prosa, estão fartas de exemplos que jogam na nossa cara que ser empresa nunca foi sinônimo de beatitude. Vira e mexe um balanço contábil estremece o mercado com rombos bilionários que experts em auditoria não conseguiram farejar.  Vai explicar. Por essas e outras costumo brincar com meus amigos dizendo também a eles que tenho a impressão que se um dia o mundo acabar poderá não ter sido em virtude de uma poderosa bomba, ou algo que o valha, mas por causa da economia com essa lógica absurda que passou a ser o cerne dela. 

Posso até admitir que muito foi feito no sentido de não deixar os cartolas impunes. Reconheço o empenho em se criar mecanismos que passassem a permitir que a lei fosse atrás deles e que passassem a responder com os patrimônios particulares uma vez constatada a falcatrua. A pergunta é: sabes de algum que no final das contas se viu na condição de ter de entregar o que tinha? Mas não digo que não andamos. O que digo é que até o final da semana passada duvidava, ou melhor, jamais imaginei que um dia daria de cara com uma manchete como aquela. Que dizia que o Bahia, graças a um aporte feito pelo seu agora parceiro grupo City, tinha quitado setenta e nove por cento das suas dívidas. Se quitarão estas para no futuro fazer outras é o que veremos. Afirmei aqui tempos atrás, que olhando a tabela do Brasileirão era possível ver que uma maneira diferente de gerir o futebol andava dando as caras e colocando entre os times ditos grandes outros mais modestos que outrora não teriam esse fôlego. Não apostaria que o mundo do futebol será saneado, mas sou obrigado a dar o braço a torcer que não esperava isso dele.